terça-feira, 16 de março de 2021

UM SONHO

 
Pela sua índole reveladora, confesso que hesitei imenso antes de partilhar este sonho com os meus amigos. Mas a minha mulher, que é psicóloga, encorajou-me com palavras sábias: «Querido, não há problema, eles não leram Freud». Assim sendo, cá vai:
 
 
Esta noite sonhei com a ministra da Saúde. Assumo, tenho um fetiche com Marta Temido. Eu era cigano e vendia nas feiras, para as quais me dirigia na minha Opel Astra. Sucede que a suspensão das feiras obrigou-me a encontrar outras formas de sustento, pelo que transformei a carrinha num meio de transporte de passageiros. Apanhei a ministra à saída do Hospital Termal das Caldas da Rainha. Assim que se recostou nos estofos traseiros, ouvi-a dizer: «Apetecia-me algo». Respondi-lhe de pronto: «Senhora, não seja por isso». E meti a rodar um CD dos Séneca, uma banda indie irlandesa que nunca ouvi. Assim seguimos, na minha Astra a ouvir Séneca, até à Foz. Estacionámos num miradouro para observar o pôr-do-sol, ao que a ministra sugeriu que nos deitássemos nos bancos de trás enquanto luz houvesse. A ministra sorriu-me, eu sorri-lhe. Desde que Cristina Ferreira se referiu aos dentes da senhora ministra que vivo enamorado por aquele sorriso. Sem saber o que dizer, embora estivesse certo do que me apetecia fazer, desci aos fundos da minha ascendência cigana e perguntei-lhe: «Senhora, quer que lhe leia a sina?» Ela estendeu-me lestamente a palma da mão e, sem delongas, ordenou: «Vá». Percorri-lhe a linha do coração com o dedo indicador, e ela repetiu «vá». Passei para a linha da cabeça, e ela «vá». Li-lhe a linha da vida, e ela insistiu «vá». Continuei pela linha do destino, e ela «vá». Às tantas, não tinha mais sina para lhe ler, mas ela insistia vá, vá, vá. E eu dizia sina, e ela dizia vá, e eu afogueava a sina, e ela resfolegava no vá, e nisto de vá, sina, vá, sina, vá, sina, dei um toque no travão de mão e a Opel Astra precipitou-se na direcção do abismo. Estávamos num promontório. Enquanto mergulhávamos rumo ao oceano, ainda a ouvi dizer: «Eu sabia, não devia ter confiado nesta astrazeca. Nunca confiar numa astrazeca».

1 comentário:

Eder Menezes disse...

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