sexta-feira, 28 de julho de 2023

JMJ LISBOA 2023

 


(Confissão)
 
Fui baptizado sem saber
tinha o sexo dum anjo
tatuado entre as pernas
e no regaço das fêmeas
aprendi que o pecado original
é anterior à acção
 
Mas não é de mim
que aspiro mostrar
no verso dos versos
este mênstruo
que correndo nas veias
mantém acesa a chama
do fósforo que é vida
 
Fiz a primeira comunhão
a fugir da catequese
no traseiro da paróquia
deitado à sombra d’ árvores
onde folheava westerns
e desfolhava evangelhos
 
Mas não é de mim que quero falar
 
Converso com os mortos
na ombreira do sono
e talvez seja delírio a voz que me visita
declarando em tom absorto
que lá donde o silêncio reina
e a ausência aflora
não há virgens nem governo
 
Tornei-me ateu na Católica
por ser dispendiosa a devoção
e ver perdoados os cretinos
e ver absolvidos os crápulas
e promovidos os submissos 
naquele negócio de consignações
 
Não é de mim que falo
nem sequer dos que me traíram
Este nojo que recresce sem pronomes
foi semeado pela História
Os seus frutos estão podres
 
Vêm à memória baptismo e comunhão
De cálice cheio brindo
aos que me fizeram católico
Podia dizer opção, mas já nada rima
neste meu fígado gordo
 
A música agora é outra
estou-me cagando
com Knopfli
para a juventude e para os fiéis
e para as séries da netflix
e para o Kosovo
e demais ortodoxias
O meu maior pecado foi aprender
pais nossos e ave-marias
 
Da Turquia ao Uganda
dizem santa a família
e eu, parido em democracia, passo
o puro dia como cão por vinha vindimada
a contabilizar os perseguidos
os condenados
os que por não crerem em deus
foram lapidados
 
Se pudesse encontrar Emanuela Orlandi
e com ela cantar om shanti
daria por desfeito o mistério
da vida e da fé e da trindade
Mas neste esconso redemoinho da raiva
de que brota um cerrado vazio a violoncelo
dou antes por achado um quisto sebáceo
onde verteram as águas
do primeiro sacramento
 
Afogado no naufrágio da fé
tão precocemente defraudado
meto-me de pé
caminho lesto para a cama
olho o tecto
e entrego-me ao silêncio que me reclama
Prefiro-me réprobo
amaldiçoado

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