(Itinerário
demente para deus)
Vou
pelas ruas em busca de deus
e encontro migalhas na língua dos bichos
beatas respigadas por mãos
em braços coçados de agulhas
unhas encardidas de esmolas
tags grafitados nas traseiras dos museus
Vou
pelas ruas em busca de deus
num parque rodeado de potros rastejantes
as narinas invadidas de estrume
corpos secos, solos estéreis
ranchos e churros e farturas
o aroma enjoadiço dos óleos repisados
Dou
com deus deitado sob um plátano
Alma de Pias bag-in-box
a fazer de almofada
Nossa Senhora de Fátima a preço de saldo
manto bordado e olhos de cristal
luzindo no escuro chagado dos festivais
Vou
pelas ruas em busca de deus
e dou com ele naqueles modos
a que por desdém já ninguém liga
nem papas nem juventude nem CEOs
nem titãs nascidos de Gaia e Urano
nem mesmo tu nem eu ninguém
Podiam
talvez convidá-lo a juntar-se à festa
seduzi-lo para dentro do baile
com ele dançar o arrasta-pé das tias
tão soberbas e perfumadas e cintilantes
sob a pele gordurosa em que se fazem
bronzeadas neste microclima
É
certo ter encontrado deus
ao abandono nestas caldas enxofradas
ali mesmo junto à igreja
cratera expelindo magma e cinzas e lavas
gases de jacobice elevados a cidade
Vou
pelas ruas em busca de deus
e avisto-o disfarçado de mendigo
não suplica, tal o cansaço
levo-lhe pizza e cavacas
para que de Roma às Caldas
se desembarace das tardes tardias de Verão
e entre na noite com o estômago menos vazio
e encontro migalhas na língua dos bichos
beatas respigadas por mãos
em braços coçados de agulhas
unhas encardidas de esmolas
tags grafitados nas traseiras dos museus
num parque rodeado de potros rastejantes
as narinas invadidas de estrume
corpos secos, solos estéreis
ranchos e churros e farturas
o aroma enjoadiço dos óleos repisados
Alma de Pias bag-in-box
a fazer de almofada
Nossa Senhora de Fátima a preço de saldo
manto bordado e olhos de cristal
luzindo no escuro chagado dos festivais
e dou com ele naqueles modos
a que por desdém já ninguém liga
nem papas nem juventude nem CEOs
nem titãs nascidos de Gaia e Urano
nem mesmo tu nem eu ninguém
seduzi-lo para dentro do baile
com ele dançar o arrasta-pé das tias
tão soberbas e perfumadas e cintilantes
sob a pele gordurosa em que se fazem
bronzeadas neste microclima
ao abandono nestas caldas enxofradas
ali mesmo junto à igreja
cratera expelindo magma e cinzas e lavas
gases de jacobice elevados a cidade
e avisto-o disfarçado de mendigo
não suplica, tal o cansaço
levo-lhe pizza e cavacas
para que de Roma às Caldas
se desembarace das tardes tardias de Verão
e entre na noite com o estômago menos vazio
Nota: fotografia de João Pimentel Ferreira, respigada na
Wikipédia.

1 comentário:
Que poema...! É uma torrente que tudo invade.
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