domingo, 9 de julho de 2023

UM DIA NA ETERNIDADE (fragmento)

 


(...) senhores edis, senhores vereadores,
excelências, na região não há onde comprar flores
às sete da manhã, os sanitários públicos estão inacessíveis,
não há um bebedouro a funcionar, os parques infantis
estão fechados, falta aqui um coreto, são precisas
mais árvores nas avenidas, um cidadão estremece
com o frio circundante, quem paga impostos
cai à terra e não tem o que lhe valha, tudo muda
demasiado depressa e nenhuma reviravolta sobrevém, a chave
da comunicação não pode ser a incomunicabilidade,
no mapa das estradas o que mais falta faz é a poesia,
dá medo não haver música a rodos nesta terra,
vivaldi nos dias pares, mozart nos dias ímpares,
dá medo este silêncio de cães a rosnar, este silêncio
de muros, de cutelos, de distâncias, de macadame erodido,
dá medo não estar disponível um arado com que ratificar
os percalços da alegria e as admoestações da tristeza.
(...)

Amadeu Baptista, in Um Dia na Eternidade, com fotografias de Jorge Velhote, Edições Afrontamento, Julho de 2021, pp. 94-95.

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