(...) senhores edis, senhores vereadores,
excelências, na região não há onde comprar flores
às sete da manhã, os sanitários públicos estão inacessíveis,
não há um bebedouro a funcionar, os parques infantis
estão fechados, falta aqui um coreto, são precisas
mais árvores nas avenidas, um cidadão estremece
com o frio circundante, quem paga impostos
cai à terra e não tem o que lhe valha, tudo muda
demasiado depressa e nenhuma reviravolta sobrevém, a chave
da comunicação não pode ser a incomunicabilidade,
no mapa das estradas o que mais falta faz é a poesia,
dá medo não haver música a rodos nesta terra,
vivaldi nos dias pares, mozart nos dias ímpares,
dá medo este silêncio de cães a rosnar, este silêncio
de muros, de cutelos, de distâncias, de macadame erodido,
dá medo não estar disponível um arado com que ratificar
os percalços da alegria e as admoestações da tristeza.
(...)
Amadeu Baptista, in Um Dia na Eternidade, com fotografias de Jorge Velhote, Edições Afrontamento, Julho de 2021, pp. 94-95.

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