MINERAL ESCURO
no prosseguimento guiado da excursão
havia ainda para visitar, nesse dia
um rio e duas cidades de interesse
estava um dia abafado; separado do exterior
e ominosa, uma luz amarela deteriorada
coava poeira na galeria pétrea
o guia e cicerone indicava o caminho
e o pequeno grupo seguia-o, coeso
como quem segue o rigor de uma perturbação
paulatinamente deixei-me ficar para trás
retrocedendo mesmo na direcção de um túnel
parcialmente desviado do aldeamento das cordas
num desnivelamento inferior, protegido por sombras
havia uma espécie de cárcere, de nicho grande
profusamente escavado na musgosa parede secular
fora certamente neste remanso obscuro
que vivera o monstro-fera de touca roxa
anfitrião de gerações de padres e feiticeiros
descamuflei a sonoridade da caverna
o encantamento hiante e cavo do vento
a congeminação sonora, distante, de faunas invisíveis
o passado e o presente em ricochete de ecos
perscrutei os espaços, os ténues veios de luz
e os seus verdes preservando as tonalidades
molhei as mãos nos sulcos de água fria
senti o afastamento; a ausência do monstro-fera
o nada e o tudo foram um só em mim
necessitaria de toda a rapidez para alcançar o grupo
senti que a poderia ter; e apliquei essa possibilidade
alcancei o grupo e o guia e fomos embora juntos
visitámos o rio e uma das duas cidades de interesse
Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in O Afastamento Está Ali Sentado, Quasi Edições, Abril de 2002, pp. 126-127.

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