quinta-feira, 13 de julho de 2023

UM POEMA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES

 


MINERAL ESCURO

no prosseguimento guiado da excursão
havia ainda para visitar, nesse dia
um rio e duas cidades de interesse

estava um dia abafado; separado do exterior
e ominosa, uma luz amarela deteriorada
coava poeira na galeria pétrea

o guia e cicerone indicava o caminho
e o pequeno grupo seguia-o, coeso
como quem segue o rigor de uma perturbação

paulatinamente deixei-me ficar para trás
retrocedendo mesmo na direcção de um túnel
parcialmente desviado do aldeamento das cordas

num desnivelamento inferior, protegido por sombras
havia uma espécie de cárcere, de nicho grande
profusamente escavado na musgosa parede secular

fora certamente neste remanso obscuro
que vivera o monstro-fera de touca roxa
anfitrião de gerações de padres e feiticeiros

descamuflei a sonoridade da caverna
o encantamento hiante e cavo do vento
a congeminação sonora, distante, de faunas invisíveis
o passado e o presente em ricochete de ecos

perscrutei os espaços, os ténues veios de luz
e os seus verdes preservando as tonalidades
molhei as mãos nos sulcos de água fria

senti o afastamento; a ausência do monstro-fera
o nada e o tudo foram um só em mim

necessitaria de toda a rapidez para alcançar o grupo
senti que a poderia ter; e apliquei essa possibilidade
alcancei o grupo e o guia e fomos embora juntos

visitámos o rio e uma das duas cidades de interesse

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in O Afastamento Está Ali Sentado, Quasi Edições, Abril de 2002, pp. 126-127.

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