OS MÍSEROS
Cenas de Gil vicente e Henrique Manuel Bento Fialho
19 a 23 de Julho / 21h30
Adro da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo
M/12
Decorria o ano de 1504 quando Gil Vicente
apresentou o “Auto de S. Martinho” à Rainha Dona Leonor, precisamente na Igreja
cujo adro, passados 518 anos, será transformado em auditório na próxima
produção do Teatro da Rainha. “Os Míseros” é o nome genérico deste espectáculo,
composto, num primeiro painel, por cenas vicentinas procedentes do “Breve
Sumário da História de Deus”, do “Pranto de Maria Parda”, de “Romagem de
Agravados”, do “Auto das Fadas” e da “Farsa de Quem Tem Farelos?”, terminando
com o “Auto de S. Martinho” em versão actualizada. Aos “Prantos, Lamentos, Loas
e Pregões” provenientes dos autos vicentinos, numa montagem textual de Fernando
Mora Ramos, segue-se uma peça inédita de Henrique Manuel Bento Fialho com o
título “S.N.S.”.
Com interpretações de Beatriz Antunes,
Mafalda Taveira, Fábio Costa, João Costa, Nuno Machado, Vítor M de Sousa e
Diogo Marques, “Os Míseros - Prantos, Lamentos, Loas e Pregões” + “S.N.S.”
satiriza, na linha vicentina, as novelas do real, da política convertida a
novela, associadas às telenovelas e aos sistemas publicitário e propagandístico
dos imperialismos. Tragicómico, por vezes absurdo, aqui e acolá humorístico,
também cínico, sem resvalar para o divertimento supérfluo, neste “Os Míseros”
misturam-se tempos, deambula-se pelos mesmos domínios em tempos históricos
distintos, o antigo cruza-se com o moderno.
Fernando Mora
Ramos conversa com Henrique Manuel Bento Fialho sobre “Os Míseros”
O TEMA
FMR - Começando
pelo tema, e falamos de tema nesse desejo de definir fronteiras. É a pobreza,
sendo a solidariedade, sendo a exclusão, as exclusões - agora que se fala das
inclusões para melhor excluir -, isto é, como uma sociedade olha para os seus
desgraçados mais oprimidos, os que nos limites da sobrevivência conhecem a
fome, o frio, são escorraçados, são marginais, perseguidos. Na montagem
vicentina isso é claro, do pobre à Feiticeira perseguida, ao camponês sem colheita,
aos moços famintos, etc.. Na tua são todos fugidos...
HMBF - Em “S.N.S.”
não é tão óbvio que o tema seja a pobreza, pelo menos a material. Desde logo
porque o princípio orientador da escrita foi uma indagação da “caridade
cristã”, presente tanto no “Auto de S. Martinho” como no “Livro do Compromisso
da Rainha” (1512), textos fundadores de uma ideia de serviço público de saúde
em torno da qual a cidade das Caldas da Rainha se desenvolveu. O tema em
“S.N.S.” será mais as razões da pobreza do que a pobreza em si mesma. E essas
razões, na peça, são apontadas a partir das opções egoístas e individualistas
das personagens.
FMR - Ao definir um
tema aqui não procedo senão por metodologia, há que pegar no complexo - e o
objecto cénico é-o, este, de modo que vai além do inesperado. Podíamos dizer
que é a precariedade da existência em função até de catástrofes naturais, a
condenação de cada um ao seu limite, à sua pele. As individualidades são, em
Vicente, quase proezas. É linda a relação dos moços de esporas entre eles,
amizade. Parda, por exemplo, que fala muito das amigas, é uma alegoria, ela é o
corpo de uma sede dependente que nos fala da fome e até da peste. Podemos
ler isso no Mortinheira, sem colheita que o alimente e a terceiros, na
Feiticeira a quem proibiram "obras pias". Enfim, os temas são
quebra de fronteiras. A questão a que queria chegar é a seguinte: como te
veio Caronte, de que paridura, mesmo sabendo da ligação com os diabos
vicentinos (Martinho é outro assunto, já lá estava, no Auto).
AS LIGAÇÕES
HMBF - Vem do Gil
Vicente que apanhei na escola. Vem do “Auto da Barca do Inferno”. Ocorreu-me
que podia ser interessante explorar a caridade de Martinho isolando-o da
civilização. Passaram 500 anos. Quem vão ser os santos do futuro? Isolar
Martinho numa ilha pode significar muita coisa. Desde logo, que deixou de haver
lugar para a caridade nas sociedades modernas. Isto não é verdade. As bichas
para a sopa dos pobres são intermináveis. Assim sendo, talvez signifique antes
que não há lugar para a santidade nas sociedades modernas. Isto já parece mais
verdadeiro. Não há santos. Fechando Martinho numa ilha surgiu-me de imediato a
hipótese de essa ilha ser uma Ilha Afortunada ou a Utopia, mas transformando-se
no exacto oposto disso. Foi por associação imediata que o limbo de Dante se
impôs. E com ele Caronte, de que guardei a principal característica, a avareza,
acrescentando-lhe outras. Tinha de ser omnisciente, uma espécie de Deus da ilha.
Corresponde hoje ao mercado e às suas flutuações, palavra que joga tão bem com
a barca em que se movimenta. É a mão invisível por detrás da miséria. E a
montagem que fizeste de Vicente, de onde vem?
FMR - O que me
despertou para as figuras que encadeei foram os "sem-abrigo".
Choca-me ver pessoas sem telha, casas de cartão nas entradas laterais de
teatro, como no TNSJ e no Dona Maria. Seriam bons albergues. Lá dentro veludos,
cá fora pedra, como diz Mortinheira. Chove pedrisco na realidade dos
desgraçados. Com isso raivo eu. E o “Auto de São Martinho” é pela primeira vez
lido em chave herege. Já o tínhamos apontado antes, mas não como nesta versão.
O final do auto, a fila dos cegos de Breughel, é uma bofetada nesta sociedade. Os
“Míseros”, em Vicente, descobri no caminho - tinha mais a ideia da exposição
agreste, da ferida a mostrar sem penso – são reivindicativos. Todas as figuras
têm programa, são mais capazes do que pensava. Vicente é um génio e ao construir
figuras para o riso de terceiros põe em cena a verdade dos primeiros que
escreve. E estas coisas colam com o “SNS”, estranho objecto, o teu, inesperado,
o que só me pode agradar e desafiar. Creio que fui alargando propósitos teus,
aprofundando hipóteses, caminhando dentro do que sugeres radicalizando
sentidos.
HMBF - Quero
reforçar isso mesmo, o facto de a encenação aprofundar e alargar propósitos
implícitos no texto. Não falo já da concepção do texto, que foi sofrendo
adaptações logo nas leituras de mesa dos “Prantos, Lamentos, Loas e Pregões”.
Ainda antes, o aprofundamento da oposição entre Martinho e Caronte a partir da
linguagem de cada um, que muito bem sugeriste num dos emails trocados. Caronte,
que era originalmente um imparável motor noticiário, ganhou redobrado sentido
com a encenação ao colocar-se o seu impulso ao serviço de uma multinacional com
nome de rio do submundo. Não podemos perder de vista que Caronte lida com a
morte, é um comerciante de mortos que ascende ao plano dos diabos no primeiro
painel. Vai ficar tudo bem, diz ele antes de sair de cena.
O
CLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO
FMR - Uma das
coisas que mais me puxa nesta criação, e devemos mesmo dizer processo, são os
seus dois tempos. Na primeira ficção, quinhentos; na segunda, o início do
segundo milénio. Um clássico e um contemporâneo em diálogo. E se damos com a
actualidade do clássico, também encontramos a profundidade histórica do
contemporâneo. Esta relação entre dois tempos é para mim axial, vem das lições
de Brecht sobre a adaptação dos clássicos e do modo como tentou refazê-los. A
sua Antígona, por exemplo, metida no meio do nazismo quotidiano. Entendo que a
profundidade dos clássicos está nesse tempo em que sobrevivem vivos ao ponto de
nos continuarem a dizer coisas, e sempre outras, em cada avanço da história. Agrada-me
esta misturada de tempos e o deambular, nas duas ficções, pelo mesmo domínio
dos tempos históricos, referências centrais de outras possibilidades que também
surgem pela referência a outras culturas, o índio em Martinho, uma blague que
de cómica torna muito vivo o seu regresso, e a Feiticeira, por exemplo, uma
cultura mezinheira e outros feitos telepáticos que dão estranhos resultados,
aparecer um diabo em cuecas...
HMBF - O que mais me
impressiona é o círculo que se cumpre entre o avistamento da morte, com Adão a
anunciar ao Mundo a “senhora dos vermes”, e a última frase de “S.N.S.”, dita
por uma das Martas: “Inocentes na terra, só os vermes.” Curiosamente, a actriz
que diz isto é a mesma que faz de Eva no início. No fundo, a história da
humanidade é a história da perda de inocência. É também por isso que gosto
tanto do Mortinheira, quando, sem perceber a quem Deus possa ter saído tão
tençoeiro, diz “conforme-se ele comigo”. Tem uma força tremenda. O seu gesto
blasfemo podia encontrar parceiro no Martinho de costas voltadas para a
civilização, não houvesse em Martinho uma réstia de interesse pelo mundo.
Concordo em pleno com o modo como ligas o clássico e o contemporâneo. Diria que
no clássico repousa a hipótese de futuro, no contemporâneo vêm à tona as raízes
do passado. “S.N.S.” sobrevive dessa intertextualidade em que se apoia, não
para fundamentar o que pretende dizer, mas por consciência de que o moderno
está intimamente ligado ao antigo.
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