pedregosíssimo aluvião
Há quem pague
para ter o silêncio
dos frigoríficos inteligentes,
alimentar um cão
que endromine o trânsito
(só por despeito!),
levar com folhas
de plátanos centenários nas fuças,
olear matraquilhos com bolinha corada
a piretes, um de cada vez
assim me falava a caixa de pagamento
numa língua a que os peritos chamam
invented english e
enfim
various studies show that
como a gente
os polvos sentem dor e angústia
muito embora
não me convençam completamente
ah, já tu convences-me,
sim!
com a mestria de um bom empurrão
mesmo no finzinho do intervalo grande
estás a ouvir?...
terrriiiiim
agora que a chuva passou
o campo é nosso,
vamos!
vê como a luz brilha
nas janelas dos solteirões,
esgotaram-se os sítios para inverter a marcha
não se consegue comprar droga da boa
em lado nenhum e, pronto,
lá teremos de seguir em frente
alcatroando o jardim com hipotenusas
mas deixe-me que lhe diga, senhor guarda
isto está uma porra!
quero dizer
se disser "claro" não estou a dizer branco
se disser "forte" não estou a dizer gordo
se disser "cabrão" posso estar a fazer amor,
ou não?
se disser "ora bolas" prometo cantar-te amanhã,
camarada
se em Madrid disser "folha" pareço sexual
mas se disser "pila" soy energetico, hombre
em dizendo "folga" dou-te a face
e nas docas
se te der o braço
tu cais sobre mim
"estou velho" e tu dirás que morro
mas ponho quatro piscas
não há quem me prenda
viro a placa "volto já"
é o voltas
nunca mais me vês, safada!
engato a primeira
e talvez não
mas se meto a segunda
estou decidido: vou por aí fora
até ao fim da picada
se, por acaso
plastificar o livro, sublinhar a consulta
autografar o esférico, inspecionar o cano
abastecer o tanque, gripar o motor
traio o pensamento
e se, quem sabe
morrer por dentro
elaborar um despacho esotérico
mais vale ficar
a ver a tinta secar
... só um instante
é evidente
que isso não tem peço
e claro está
que não me esqueço.
Tiago Lança, in Shostakovitch, Massachusetts, Mariposa Azual, Abril de 2023, pp. 53-55.

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