quarta-feira, 19 de julho de 2023

"OS MÍSEROS: PRANTOS, LAMENTOS, LOAS E PREGÕES + S.N.S."

Sobre S.N.S., segundo painel do díptico OS MÍSEROS, com encenação de Fernando Mora Ramos e produção do Teatro da Rainha:

É COMPLICADO, DEUS SABE QUANTOS ESPECIALISTAS ANDAM POR AÍ A EXIBIR TEORIAS
 
No dia 8 de Março de 2021 recebi um e-mail do Fernando Mora Ramos abordando, entre outros assuntos, a possibilidade de uma montagem de textos vicentinos articulados com “O Compromisso da Rainha” (1512), documento fundador de um serviço público de saúde em torno do qual a cidade das Caldas da Rainha veio a desenvolver-se. Ao ler o “Auto de S. Martinho” e o “Compromisso” o tema que sobressai é o da caridade, uma caridade cristã representada no “Auto” a partir de um episódio hagiográfico e plasmada, com o “Compromisso”, na edificação de uma obra de misericórdia que tinha em vista o tratamento do corpo e do espírito. Em ambos os casos esta caridade tem por fim combater a pobreza. Ainda que seja tentador distinguir aquela caridade da solidariedade secular posteriormente promovida pela Revolução Francesa, parece-me mais adequado interpretar a literatura quinhentista à luz dos princípios norteadores do humanismo renascentista, inspirado numa antiguidade greco-latina que pretendia devolver ao homem um poder transformador da realidade. A leitura exaustiva do “Compromisso” e do “Auto de S. Martinho”, com os quais “S.N.S.” estabelece diversos nexos intertextuais, estimulou-me a hipótese de cogitar o conceito de generosidade à luz de uma misantropia contemporânea, a necessidade de pensar como a solidariedade fundadora da democracia vem sendo ameaçada por vários tipos de individualismo, pelo consumismo apoteótico de massas indiferentes ao outro, pelas “casas electrónicas” de que parte substancial da humanidade se faz reclusa, pelo narcisismo apático e estratégico da era digital. O gesto de São Martinho, ao partilhar a capa com um pobre, é acompanhado da consciência dos males para os quais não tem remédio. Do mesmo modo, o “Compromisso” determina que os escravos de serviço no Hospital sejam, e passo a citar, «bem tratados e providos à custa do dito Hospital, do comer, beber, vestir e calçar.» O que há de transformador nestes dois exemplos é a modelação de um olhar filantrópico, generosamente empenhado em resgatar os miseráveis da miséria. Exactamente o oposto da luz que hoje tolda vistas, varrendo para debaixo do tapete a indigência condenada ao desamparo de milhares de náufragos da globalização e disso a que chamam progresso.
 
Henrique Manuel Bento Fialho



Fábio Costa é Caronte em "S.N.S.". A t-shirt decalcada de Elon Musk e a mochila da Styx Express Corporation fazem dele um CEO do submundo, movimentando-se numa barquineta nas lamas do Estige.


Martinho, interpretado por João Costa, lê o Livro do Compromisso, já rodeado do lixo civilizacional que Caronte lhe trouxe para a Ilha Desafortunada. Vem do Auto de S. Martinho, este pseudo-eremita de costas voltadas para a santidade, devoto do movimento new age.


As martas em fuga chegam à Ilha Desafortunada e disparam uma selfie. Martinho ainda não deu por elas, mas pouco faltará. Beatriz Antunes, à esquerda, e Mafalta Taveira, à direita.



Martinho explica às martas porque voltou costas à civilização e se isolou na ilha. A do meio segura uma "Antologia de Poemas Para o Twitter". Que mais levaria ela para uma ilha isolada?


Vitor M. de Sousa é o negacionista de serviço, chega à ilha enrolado em papel higiénico. Anda a pregar a flamingos de borracha. Ao fundo, a garrafa de Coca-Cola, na verdade, é de Álcool-Gel.


Encontro inesperado entre Martinho, levado aos ombros pelas martas, e o negacionista antivacinas. Não há remédio para tanta insanidade.


Cena final. Cada um para seu lado, numa ilha cheia de lixo, proferem os últimos desejos antes de expirarem. Marta, a que está junto à árvore, dirá umas coisas sobre inocência. 

Do alto da torre onde controla as marés, Caronte cega-nos de tanta luz e garante: vai ficar tudo bem.


(Fotografias de Margarida Araújo)

Sem comentários: