(Sanctuarium)
Passam
por mim os peregrinos
são onze dias de caminho
por entre cidades fortificadas
altas muralhas
portas e ferrolhos
Pelotão
de coletes amarelos rendidos
espalham-se por entre os povos
adorando deuses de pedra
capazes de mastigar filhos e até netos
se não escutarmos os seus decretos
Pagam
promessas com bolhas nos pés
apoiados em cajados torcidos
como retorcida ficou a fé
sem dó nem compaixão
Passam
por mim
cabisbaixos uns
meditativos outros
voluntariamente arrebanhados
pelo dever que lhes comanda
apedrejar até à morte
Passam
por mim e pelos migrantes
à espera de transporte
que os leve ao campo
onde lavram sóis
semeiam luas
colhem dívidas
Passam
também por indigentes
agachados nos passeios
na companhia de cães compassivos
orando pela moeda rara
no fundo da lata varrida
Passam
uns e outros
no adro dos hotéis
à porta dos restaurantes
afagando a fé
com o pecado da gula
entre jejuns de páscoas e natais opulentos
Passam
e continuam a passar
os assalariados
os pobres
os necessitados
sejam emigrantes ou estrangeiros
não param de passar
No
shopping dos milagres
arcários e tesoureiros
não têm mãos a medir
e eu mando
eu ordeno
eu determino
que lhes cortem as mãos sem piedade
são onze dias de caminho
por entre cidades fortificadas
altas muralhas
portas e ferrolhos
espalham-se por entre os povos
adorando deuses de pedra
capazes de mastigar filhos e até netos
se não escutarmos os seus decretos
apoiados em cajados torcidos
como retorcida ficou a fé
sem dó nem compaixão
cabisbaixos uns
meditativos outros
voluntariamente arrebanhados
pelo dever que lhes comanda
apedrejar até à morte
à espera de transporte
que os leve ao campo
onde lavram sóis
semeiam luas
colhem dívidas
agachados nos passeios
na companhia de cães compassivos
orando pela moeda rara
no fundo da lata varrida
no adro dos hotéis
à porta dos restaurantes
afagando a fé
com o pecado da gula
entre jejuns de páscoas e natais opulentos
os assalariados
os pobres
os necessitados
sejam emigrantes ou estrangeiros
não param de passar
arcários e tesoureiros
não têm mãos a medir
e eu mando
eu ordeno
eu determino
que lhes cortem as mãos sem piedade
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