sexta-feira, 4 de agosto de 2023

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE: DIA 4

(Missão: evangelizar)
 
Calma, ainda há pombos com lâmpadas no cu
capazes de oferecer dignidade
a essas estátuas erguidas ao colonialismo
 
Selo lambido pela língua dos papas
de férula erguida ao mundo desbravado
por ávidos conquistadores
 
Na orla da memória assomam corpos negros
decapitados, a carne rasgada pela música
dos chicotes nas galés
 
Dirigidos às almas, nunca os sermões libertaram
a carne os ossos o sangue
e as missões impunham rigor
 
Cortavam a cabeça aos fracos
para não perderem tempo com grilhões e grilhetas
atirando aos peixes cadáveres discursivos
 
Em nome do pai e do filho e do espírito santo
dançavam os índios ao sol
ao redor de altas fogueiras diluídas em cinza
 
Isso foi no tempo em que o inferno das minas
já não era gerido por Caronte:
avarento e andrajoso barqueiro das sombras
 
Agora os selos, as estátuas
matizados de infâncias multicoloridas
com arco-íris redondos sob a cova dos braços
 
E negros abençoados por mulheres louras
com semblante de baronesas
a quem se dedicam poemas
 
Agora a trindade nestes tercetos toscos
esgalhados pela respiração ofegante
de uma raiva incontida
 
Fundada num presente já sem passado
como a pedra da história depurada
por geólogos revisionistas
 
Estátuas que a merda de pombo dignificará
e o correio atrasado do espírito
extraviará com seus selos descontinuados

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