A necessidade de transformação do mundo, tal como Brecht a coloca no domínio do Teatro Épico, não me seduz particularmente, desde logo por não vislumbrar nela algo de verdadeiramente inovador. Também aqui, parece-me, foi o dramaturgo mais consequência do seu tempo do que impulsão de ruptura. Modificar e transformar, pois bem. Mas em quê? Tenho sérias dúvidas quanto ao poder transformador da arte, mas mais do que modificar ou transformar importa decidir quem e o quê. Não vale a pena pressupor capacidades transformadoras na criação artista, se for para transformar em algo pior. E aqui talvez devamos supor um tipo de avaliação que faça coincidir o estético com o ético. Os artistas, os criadores, estão imersos num tempo que é o seu. A história dos movimentos, o modo como se foram negando uns aos outros, ou, pelo menos, impondo, não é muito diferente da dinâmica epistemológica dos paradigmas. Mais importante, creio, é a arte estar permanentemente em crise, recusar a cristalização de todo e qualquer paradigma, conflituando com o seu tempo sem se fechar ou isolar num qualquer reduto antissocial. O que mais se observa é uma criação fechada sobre si mesma, individualizada, elitista como desde as raízes mais profundas, do mecenato à subsidiação, o que mais se observa é uma criação transformada em modo de ganhar a vida, em vez de a transformar, à vida, à daquele que cria e dos que frequentam o seu círculo, geralmente mais e mais e mais criadores, e à daqueles que se aventurem no desconhecido, já tão poucos, já tão pouco disponíveis para serem transformados, já tão formatados pela família, pela escola, já tão uniformizados pelas dinâmicas capitalistas, pelos discursos sedutores da publicidade, pelas modas, pelas tendências.
domingo, 18 de janeiro de 2026
TRANSFORMAR EM QUÊ?
A necessidade de transformação do mundo, tal como Brecht a coloca no domínio do Teatro Épico, não me seduz particularmente, desde logo por não vislumbrar nela algo de verdadeiramente inovador. Também aqui, parece-me, foi o dramaturgo mais consequência do seu tempo do que impulsão de ruptura. Modificar e transformar, pois bem. Mas em quê? Tenho sérias dúvidas quanto ao poder transformador da arte, mas mais do que modificar ou transformar importa decidir quem e o quê. Não vale a pena pressupor capacidades transformadoras na criação artista, se for para transformar em algo pior. E aqui talvez devamos supor um tipo de avaliação que faça coincidir o estético com o ético. Os artistas, os criadores, estão imersos num tempo que é o seu. A história dos movimentos, o modo como se foram negando uns aos outros, ou, pelo menos, impondo, não é muito diferente da dinâmica epistemológica dos paradigmas. Mais importante, creio, é a arte estar permanentemente em crise, recusar a cristalização de todo e qualquer paradigma, conflituando com o seu tempo sem se fechar ou isolar num qualquer reduto antissocial. O que mais se observa é uma criação fechada sobre si mesma, individualizada, elitista como desde as raízes mais profundas, do mecenato à subsidiação, o que mais se observa é uma criação transformada em modo de ganhar a vida, em vez de a transformar, à vida, à daquele que cria e dos que frequentam o seu círculo, geralmente mais e mais e mais criadores, e à daqueles que se aventurem no desconhecido, já tão poucos, já tão pouco disponíveis para serem transformados, já tão formatados pela família, pela escola, já tão uniformizados pelas dinâmicas capitalistas, pelos discursos sedutores da publicidade, pelas modas, pelas tendências.
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