segunda-feira, 16 de março de 2026

UNIDADES DE MEDIDA

«O problema da poesia não é moral nem literário, é político e histórico» (Fernando Ramalho, A Rosa Devorada Pelos Espinhos, 210). Eis uma frase em que poderíamos deter o pensamento, tentar sobre ela algo que fosse verdadeiramente construtivo, não se perdesse o que nela há de instigador no meio de uma algaraviada a que subjaz a mais pífia das lógicas capitalistas. Político, o problema da poesia, pois sim, desde logo porque o que nela podia haver de esforço colectivo redunda numa competitividade por pódios (p. 481) cuja linguagem podia ser totalmente sacada num manual neoliberal. A começar pelos maiores disto, aqueles que melhor aquilo, os bastante competentes (p. 246) que ascendem ao patamar das grandezas que é esse em que o particular e o individual se sobrepõem ao colectivo e ao comunitário. Como se a poesia fosse um negócio de chipes sujeito às oscilações do mercado bolsista. O exemplo dado pela prática em que a frase se inscreve é o desse interesse mais mesquinho e egoísta que mobiliza o gene egocêntrico contra o bem público, estipulando unidades de medida para uma actividade, a poesia, que se quer avessa aos critérios da mercantilização. Lá vem logo à laia de introdução a presunção de que «nestes primeiros 25 anos do século não nos faltou matéria para a digestão de fracassos» (p. 8), como se precisássemos de sucessos, como se o sucesso fosse o horizonte almejável num país em que rareiam leitores do que quer que seja, quanto mais de poesia. Essa filha da putice do sucesso, sempre na ponta do nariz como uma espécie de rosa dos ventos a indicar nortes que não levam a lado nenhum que não seja esta desventurada sina dos melhores, dos magníficos, dos extraordinários, dos gigantes, dos colossais. Assim escapamos a mais singela das responsabilidades: participar na construção de um mundo que nos liberte das unidades de medida, do sucesso, da mecânica produtiva que põe miseráveis contra miseráveis para benefício de uns pulhas divertidamente instalados na cátedra do sucesso a divertirem-se com guerras entre formigas. O problema é político, de facto, a começar logo pela ausência de uma ética voltada para o outro nesta prática em que o ego tudo determina.

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