segunda-feira, 6 de abril de 2026

DESISTIR

 
Desistir não é necessariamente mau. Há quem desista de lutar para ter paz, há quem desista de odiar em favor do amor. Desistir pode ser recomeçar. Desistir de fazer uma coisa para fazer outras, mais prazerosas, desistir da vida social para não ter de fazer sala, desistir das máscaras. Desistir de correr atrás de nada, pois, afinal, é para o nada que tudo tende. Desistir de viver, a priori, pode parecer mau, mas a posteriori, isto é, depois de passar por uma certa experiência de vida, desistir de viver pode ser um descanso, será certamente um alívio. Há quem ambicione a fama neste mundo, quem deseje ser desejado, quem esteja convencido de não ter o reconhecimento que mereceria fosse o mundo justo, e, perante isto, há quem desista disto, o que não é mau. O sucesso entre bestas e bárbaros deve inspirar desconfiança. Desistir de nadar contra a corrente pode levar-nos a ilhas bem mais agradáveis do que a nascente. Desistir não é necessariamente mau, se desistir significar liberdade, autonomia, emancipação, e, de facto, pode significar tudo isso, tal como ensinavam os velhos mestres para quem a abnegação, uma renúncia que, de certo modo, se confunde com desistência, era o caminho de uma vida mais justa, pois implicava o altruísmo contra o egoísmo. O capitalismo promove o individualismo, que é, em si mesmo, egoísta, é o oposto da generosidade que exime, pelo desapego, da inveja e dessa competitividade estúpida que é o motor da soberba, da avidez, da ganância, da cobiça e, sobretudo, da vanitas por detrás de venalidade. O desprendimento protege-nos da manipulação, da subserviência, da servidão, tal como nos defende dos manipuladores. Desistir não é necessariamente mau, pode até ser muito bom, desde que não soframos com a ideia de derrota incutida por uma sociedade que confunde sucesso com ser melhor do que os outros. O sucesso, numa sociedade assim, pode ser um rotundo fracasso. Para as pessoas muito competitivas, desistir será sempre uma forma de fracasso. Pois que não desistam, continuem a despender as suas energias nas lutas que bem entenderem serem as mais proveitosas (são quase invariavelmente, para essas pessoas, as que lhes trazem benefícios particulares), e desejamos muito que atinjam todos os seus objectivos antes de irem desta para melhor. A expressão é boa, pois o melhor é a morte, o nada para que tudo tende, o que deve fazer pensar. Porque será "nada" o "melhor"? Porque aí já não há correrias, as ambições foram respondidas com um lugar no esquecimento. Para as pessoas que não são competitivas, desistir pode ser um sucesso na medida em que antecipa o fim, o descanso, a paz, e lhes traz aquela liberdade de poderem estar bem com o mundo sem estarem mal consigo próprias, ou seja, sem se verem obrigadas à hipocrisia para alcançarem este ou aquele objectivo, para atingirem esta ou aquela meta. Há sempre uma meta para lá da meta, há sempre um horizonte para lá do horizonte, é isto que o capitalismo incute, logo, a frustração alia-se à ambição porque nunca ninguém estará satisfeito, haverá sempre algo mais a conquistar. Conquistar. Eis o verbo. Em vez de conhece-te a ti mesmo podíamos dizer conquista-te a ti mesmo, o que significaria sê livre. Ou talvez: desiste.

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