Desistir não é necessariamente mau. Há quem desista de
lutar para ter paz, há quem desista de odiar em favor do amor. Desistir pode
ser recomeçar. Desistir de fazer uma coisa para fazer outras, mais prazerosas,
desistir da vida social para não ter de fazer sala, desistir das máscaras.
Desistir de correr atrás de nada, pois, afinal, é para o nada que tudo tende.
Desistir de viver, a priori, pode parecer mau, mas a posteriori, isto é, depois
de passar por uma certa experiência de vida, desistir de viver pode ser um
descanso, será certamente um alívio. Há quem ambicione a fama neste mundo, quem
deseje ser desejado, quem esteja convencido de não ter o reconhecimento que
mereceria fosse o mundo justo, e, perante isto, há quem desista disto, o que não
é mau. O sucesso entre bestas e bárbaros deve inspirar desconfiança. Desistir
de nadar contra a corrente pode levar-nos a ilhas bem mais agradáveis do que a
nascente. Desistir não é necessariamente mau, se desistir significar liberdade,
autonomia, emancipação, e, de facto, pode significar tudo isso, tal como
ensinavam os velhos mestres para quem a abnegação, uma renúncia que, de certo
modo, se confunde com desistência, era o caminho de uma vida mais justa, pois
implicava o altruísmo contra o egoísmo. O capitalismo promove o individualismo,
que é, em si mesmo, egoísta, é o oposto da generosidade que exime, pelo
desapego, da inveja e dessa competitividade estúpida que é o motor da soberba,
da avidez, da ganância, da cobiça e, sobretudo, da vanitas por detrás de
venalidade. O desprendimento protege-nos da manipulação, da subserviência, da
servidão, tal como nos defende dos manipuladores. Desistir não é
necessariamente mau, pode até ser muito bom, desde que não soframos com a ideia
de derrota incutida por uma sociedade que confunde sucesso com ser melhor do
que os outros. O sucesso, numa sociedade assim, pode ser um rotundo fracasso.
Para as pessoas muito competitivas, desistir será sempre uma forma de fracasso.
Pois que não desistam, continuem a despender as suas energias nas lutas que bem
entenderem serem as mais proveitosas (são quase invariavelmente, para essas
pessoas, as que lhes trazem benefícios particulares), e desejamos muito que
atinjam todos os seus objectivos antes de irem desta para melhor. A expressão é
boa, pois o melhor é a morte, o nada para que tudo tende, o que deve fazer
pensar. Porque será "nada" o "melhor"? Porque aí já não há
correrias, as ambições foram respondidas com um lugar no esquecimento. Para as
pessoas que não são competitivas, desistir pode ser um sucesso na medida em que
antecipa o fim, o descanso, a paz, e lhes traz aquela liberdade de poderem
estar bem com o mundo sem estarem mal consigo próprias, ou seja, sem se verem
obrigadas à hipocrisia para alcançarem este ou aquele objectivo, para atingirem
esta ou aquela meta. Há sempre uma meta para lá da meta, há sempre um horizonte
para lá do horizonte, é isto que o capitalismo incute, logo, a frustração
alia-se à ambição porque nunca ninguém estará satisfeito, haverá sempre algo mais
a conquistar. Conquistar. Eis o verbo. Em vez de conhece-te a ti mesmo podíamos
dizer conquista-te a ti mesmo, o que significaria sê livre. Ou talvez: desiste.
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