A notícia é de 31 de Março: Três quartos dos
trabalhadores do setor afirmam ter vivido situações de assédio moral e metade
de assédio sexual, conclui estudo apresentado pelo projeto MUDA – Assédio nas
Artes. DGArtes, ACT e sindicato do setor já tinham conhecimento do fenómeno,
mas desconheciam a sua dimensão. Infelizmente, escaparam-me o debate, as
manifestações de indignação, as denúncias corajosas, as reflexões, os posts...
Numa rede onde tudo é objecto de acesa discussão, sobre isto um silêncio embaraçoso.
Não percebo porquê. É uma notícia importante, desmistificadora, porque
generaliza a pulhice, demonstra, como outras antes desta, a inexistência de paraísos
na Terra. Entre humanos, sejam eles vates do amor, trovadores ou comediantes,
pintores apaixonados, bailarinos esvoaçantes ou cineastas sensíveis, enfim,
vigora a humanidade e a sua mais básica lei: comam-se uns aos outros,
devorem-se em matilha, explorem-se, dêem aos tiranetes que trazem dentro os
prazeres do poder, a manipulação, a intriga, o abuso, a violência psicológica,
quando não física, usem-se e abusem-se, mas com respeito e doses calculadas de
hipocrisia. Era assim no tempo de Maquiavel, não melhorou. Desconfio até que a
tendência seja para piorar, a despeito das leis e dos decretos que não protegem
os homens dos homens. Não havendo uma base humanista na educação, e ela está
cada vez menos presente onde as relações são toldadas pela obsessão do sucesso
e pelas lógicas competitivas do capitalismo mais selvagem, faltando essa base
humanista que nos educa a olhar para o outro como um ser humano e não como uma
máquina de produzir resultados, então tudo falha e a ética, os valores, a moral
subsumem-se sob a lei do mais forte, que é a das bestas. Mais ou menos
ardilosos, é neste covil de lobos que estamos enfiados. Vingam os insensíveis,
a hypokrités (que, se bem sei, quer dizer actor, aquele que dissimula, o que
usa máscara).
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