quarta-feira, 1 de abril de 2026

DIA DAS MENTIRAS

 
A notícia é de 31 de Março: Três quartos dos trabalhadores do setor afirmam ter vivido situações de assédio moral e metade de assédio sexual, conclui estudo apresentado pelo projeto MUDA – Assédio nas Artes. DGArtes, ACT e sindicato do setor já tinham conhecimento do fenómeno, mas desconheciam a sua dimensão. Infelizmente, escaparam-me o debate, as manifestações de indignação, as denúncias corajosas, as reflexões, os posts... Numa rede onde tudo é objecto de acesa discussão, sobre isto um silêncio embaraçoso. Não percebo porquê. É uma notícia importante, desmistificadora, porque generaliza a pulhice, demonstra, como outras antes desta, a inexistência de paraísos na Terra. Entre humanos, sejam eles vates do amor, trovadores ou comediantes, pintores apaixonados, bailarinos esvoaçantes ou cineastas sensíveis, enfim, vigora a humanidade e a sua mais básica lei: comam-se uns aos outros, devorem-se em matilha, explorem-se, dêem aos tiranetes que trazem dentro os prazeres do poder, a manipulação, a intriga, o abuso, a violência psicológica, quando não física, usem-se e abusem-se, mas com respeito e doses calculadas de hipocrisia. Era assim no tempo de Maquiavel, não melhorou. Desconfio até que a tendência seja para piorar, a despeito das leis e dos decretos que não protegem os homens dos homens. Não havendo uma base humanista na educação, e ela está cada vez menos presente onde as relações são toldadas pela obsessão do sucesso e pelas lógicas competitivas do capitalismo mais selvagem, faltando essa base humanista que nos educa a olhar para o outro como um ser humano e não como uma máquina de produzir resultados, então tudo falha e a ética, os valores, a moral subsumem-se sob a lei do mais forte, que é a das bestas. Mais ou menos ardilosos, é neste covil de lobos que estamos enfiados. Vingam os insensíveis, a hypokrités (que, se bem sei, quer dizer actor, aquele que dissimula, o que usa máscara).

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