Regresso à capital a ouvir o que ouvia quando fui lá parar no primeiro de oito anos sem retorno. É a única maneira de aguentar aquilo, um condomínio fechado atafulhado de turistas cujo efeito mais nocivo é determinarem todas as opções. Lisboa em festa contínua, com festivais e feiras por todo o lado, o negócio florescente da segurança privada, cidade vigiada, caótica, ingovernável. Carros, trotinetes, motas, bicicletas, carroças, tuk-tuks e gente a vau num insuportável rio de poluição sonora. Melhor proteger os tímpanos com as guitarras de In Utero (1993), derradeiro suspiro de uma banda que renovou o rock de guitarras quando ele perdia para as novas tecnologias. Três discos de originais, um de raridades, outro em registo acústico, foi quanto bastou para garantir um lugar na eternidade. Kobain terá posto termo à vida em 94, com 27 anos de idade, e a gente aos 52 compreende cada vez com mais nitidez tal opção. É verdade que há hoje uma Lisboa deslisboetizada por força das circunstâncias, uma espécie de galeria de gente com a corda ao pescoço a fazer pela vida para pagar contas impagáveis, afastando-se para a periferia, da periferia para o campo, reinventando-se. A direcção migratória inverteu-se. Do campo para a capital, os saloios foram em busca de sustento. Da capital para o campo, os cretinos partem em busca de ar puro. Isto não é bom para o campo, assaltado de pedantismo, nem para a urbe, despovoada de raízes. Um não lugar, é o que aquilo é. Os problemas eram outros quando Nevermind (1991) me expulsava dos bares e das discotecas por mau comportamento, mas a dessintonia mantém-se.

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