sábado, 9 de maio de 2026

CASTELOS DE AREIA

 


No país dos egos crepitantes reinava a arte dos castelos de areia. Raramente o núcleo da inteligência coincidia com o centro das atenções, pelo que era à margem da autocelebrarão que o autoclismo cumpria o seu papel. Nada de meio, tudo à margem, como o caminhante na direcção da foz ou o pescador à espera que o peixe morda o isco. Repletas de seres zangados com o mundo mas deveras satisfeitos consigo mesmos, as galerias enchiam-se nas verni e finissages sem sageza digna de nota, a despeito de baratas tontas e pataratas de mão dada com a vanguarda dos novelos de Ariadne, cerzideira de corredores palacianos e cozinhas com cheiro a mofo. Havia um mestre de cerimónias, há sempre, mas não tinha discípulos, entretinha-se e entredava-se apregoando ao espaço sideral casas cheias de pulgas aos saltos para satisfação das bilheteiras. Neste espectacular mundo, o cunnilingus e a felação haviam sido substituídos pelas práticas onanistas dos lambedores de bilheteira (selos tinham caído em desuso, tal como os seios e respectivos sutiãs). Ainda havia crianças, adultas na idade e no percentil peso/altura, mas desprovidas de senso tanto quanto altamente providas de curvaturas, as da servidão sim senhor. Ser vidão, ora aí está uma espécie altamente prolixa nesses tempos de egos aos saltos como pitos em êxtase. O vidão andava por todo o lado, tal a raça de javali que hoje facilmente se encontra a focinhar lixo urbano. Antes fôssemos vidões, dizia de si para si o mestre de cerimónias enquanto numa intervenção pública impreparada citava O'Neill: fossemos o cherne. Isto não é um sonho, também não é um pesadelo, muito menos uma coisa em forma de assim, é a mais purgatória das idades reais.

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