Metade pata, metade rata,
a Dona Patarata deslocou-se à Gulbenkian com a intenção de participar nesse
grandioso evento cultural que é a exposição Arte & Moda. Como a bicha dava
a volta à Praça de Espanha e na parte que é pata ela já não podia com as
pernas, arriscou o Centro de Arte Moderna logo ali ao lado. Viu uma casa do
avesso, interiores de cartolina e lembrou-se da história da noz que queria dar
nas vistas, a que ganhou asas no miradouro mágico. A noz era agora uma
noz-moscada com visão de 360 graus, manobras evasivas e um zumbido que vibrava
por todo o lado. O compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovski dedicou-lhe o
ballet "O Quebra-Noz-Moscada", com uma música muito semelhante à
"Cavalgada das Valquírias" de Richard Wagner. Na verdade, era um
ballet para valquírias dançantes montadas em cavalos mecânicos. Tudo muito
moderno. Poetas dedicaram-lhe poemas, pintores fizeram-lhe o retrato e até o
povo começou a dizer "eu só queria ser noz-moscada para" em vez de
"eu só queria ser mosca para". Como todas as histórias, também esta
não correu bem. Ficou estática, imóvel, nada de correrias. Parecia uma piscina
de cacos no CAM. A noz apodreceu por dentro, perdeu as asas, um
tubarão-martelo-panã desfê-la em pedaços com uma cabeçada e um esquilo que ia a
passar só não a comeu por não apreciar moscas na sopa. Continuou Dona Patarata
a sua visita, de sala para sala, atravessando corredores, sempre muito atenta
não fosse confundir extintores com peças conceptuais sobre a imersão no
apocalipse. A dado momento, reparou numa obra que se repetia de núcleo para
núcleo com ligeiras nuances. Eram figuras humanas maioritariamente femininas,
vestidas com polos azuis, expostas em ângulos estratégicos, que meneavam a
cabeça lentamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. O
hiper-realismo das peças impressionava mais do que a história da noz-moscada,
pelo que Dona Patarata aproximou-se para perscrutar de perto uma daquelas
esculturas. Quem seria o autor de tão intrigante conjunto? Ao aproximar-se, ficou
frente a frente com a escultura, inclinou-se para observar melhor o olhar tão
realista, quase tocou com o nariz de rata na ponta do nariz da obra, ali
estavam ambas, a Dona Patarata e a obra imóvel, olhos nos olhos, nariz no nariz,
testa na testa. Qual não foi o espanto, quando ouviu a obra perguntar?
"Posso ajudar?" Dona Patarata deu um passo atrás, recuou, era
impressionante, as peças interagiam. E parecia que respiravam. Deslocou-se na
direcção de sala contígua, voltou a aproximar-se de outro exemplar das
esculturas humanas de polo azul. Agora estendeu o braço, apalpou uma mecha de
cabelo e... mais uma vez a mesma pergunta: "posso ajudar?" Dona
Patarata estava impressionada, pelo que começou a testar as peças beliscando-as.
Já não ouvia apenas um solícito "posso ajudar?", as peças pareciam
reclamar afastando o visitante com os braços e repetindo com insistência
"ó minha senhora, ó minha senhora". Inadvertidamente, Dona Patarata
era uma performance entre desenhos, pinturas, fotografias, vídeos, esculturas,
instalações, até um segurança se aproximar ordenando a interrupção da
brincadeira, caso contrário teria de encaminhar a estimada visitante até à
saída. Dona Patarata não entendeu, estava confusa com aquela ausência de parcimónia,
uma indelicadeza inaceitável, talvez não fosse suposto interagir com as obras,
pelo que se desculpou ao antipático segurança: "Peço desculpa, como não vi
indicação em contrário julguei que podia mexer. E confesso o meu entusiasmo ao
verificar a interacção das peças." "Quais peças?", indagou o
segurança. "Estas todas de azul", respondeu Dona Patarata, ao que o
segurança soltou um sorriso meio perplexo, meio desconfiado, esclarecendo que
não se tratava de nenhum conjunto de peças de nenhum dos artistas em exposição.
Eram assistentes de sala, pessoas cujo trabalho consistia em estarem ali o dia
inteiro, paradas, a observar os visitantes que observavam as peças. Dona
Patarata ficou deveras decepcionada, sentiu-se até um pouco defraudada, a
colecção interminável era mais do mesmo.
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