sexta-feira, 15 de maio de 2026

ELOGIO DO ELITISMO

 
Começou com o Big Brother. Já lá vão 26 anos e nunca mais nos largou, fosse na versão convencional ou na versão famosos, que é como quem diz estrelas decadentes. Dez anos depois apareceu a Casa dos Segredos, mas pelo meio houve a Quinta das Celebridades, Ilha da Tentação, Perdidos na Tribo, O Amor Acontece, Dilema, Like Me, A Grande Aventura... Para fazer face a isto, o canal Balsemão importou coisas como Acorrentados, Masterplan, O Bar da TV, Peso Pesado, Casados à Primeira Vista, Quem quer namorar com o agricultor?, Hell’s Kitchen, etc.. Diz que são produtos muito vistos, geradores de dinheiro a rodos, dão pau, como ontem dizia a jovem na oficina. O povo vê, o povo adora, o povo que enche salas, o povo, o povo, o povo. E se o povo sim, pois claro que então. Vai uma pessoa opor-se à vontade da maioria? Nem pensar. É o sucesso, é a fama, e o sucesso manda. O Dr. Ventura que o diga, inda há dias no seu bacanal em directo na CNN. Aquilo parecia a versão gang bang do politiquismo. Todo este lixo, apesar de ser lixo, não demove consciências. Rendidas à audiência, ao lucro, ao sucesso, chamam-lhe pragmatismo ou outra coisa qualquer do tipo ecletismo, generalismo, tudismo. Agradar a gregos e a troianos, contra o elitismo que resiste, teima, recusa focinhar no lixo. Elitistas é o que chamam a quem se opõe a estas coisas, como se estivessem a chamar um nome feio, como se ser elitista fosse um insulto. Etimologicamente, vem de escolha, selecção. No latim, eligere era separar o trigo do joio, escolher o melhor. Isto hoje é defeito. Cada qual sabe de si e Deus sabe de todos. Não é assim? Pois claro que é. Como também não deixam de ser as consequências da cedência, a ausência de filtros, a incapacidade para seleccionar o melhor, a fraqueza que impede a recusa, a debilidade que obstaculiza o não. Não vou por aí. E é que não vou mesmo, porque cada vez mais se impõe como uma necessidade absoluta ser intransigente com a porcaria. Portanto, não há audiência que nos convença, não há números que nos seduzam, não há maiorias que nos persuadam. A retórica da adesão popular é só mais um pretexto para quem não quer comprometer-se com mínimos de exigência, preferindo surfar as ondas gigantes do big show chewing gum. As consequências do laxismo já estão à vista, só não vê quem não quer porque não lhe convém. Será sempre muito mais confortável ir na onda do que remar contra a maré. Ser selectivo não é defeito, não pode ser defeito, é método. Em benefício do melhor, contra o culto da mediocridade que faz do mais estúpido o mais popular. Vejam-se esses criadores de conteúdos, os líderes das redes sociais que andam para aí, os influencers milhões, numeiros e afins. Tudo produto da ausência de elitismo, isto é, da necessidade absoluta de seleccionar.

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