Começou com o Big Brother. Já lá vão 26 anos e nunca mais
nos largou, fosse na versão convencional ou na versão famosos, que é como quem
diz estrelas decadentes. Dez anos depois apareceu a Casa dos Segredos, mas pelo
meio houve a Quinta das Celebridades, Ilha da Tentação, Perdidos na Tribo, O
Amor Acontece, Dilema, Like Me, A Grande Aventura... Para fazer face a isto, o
canal Balsemão importou coisas como Acorrentados, Masterplan, O Bar da TV, Peso
Pesado, Casados à Primeira Vista, Quem quer namorar com o agricultor?, Hell’s
Kitchen, etc.. Diz que são produtos muito vistos, geradores de dinheiro a
rodos, dão pau, como ontem dizia a jovem na oficina. O povo vê, o povo adora, o
povo que enche salas, o povo, o povo, o povo. E se o povo sim, pois claro que
então. Vai uma pessoa opor-se à vontade da maioria? Nem pensar. É o sucesso, é
a fama, e o sucesso manda. O Dr. Ventura que o diga, inda há dias no seu
bacanal em directo na CNN. Aquilo parecia a versão gang bang do politiquismo.
Todo este lixo, apesar de ser lixo, não demove consciências. Rendidas à
audiência, ao lucro, ao sucesso, chamam-lhe pragmatismo ou outra coisa qualquer
do tipo ecletismo, generalismo, tudismo. Agradar a gregos e a troianos, contra
o elitismo que resiste, teima, recusa focinhar no lixo. Elitistas é o que
chamam a quem se opõe a estas coisas, como se estivessem a chamar um nome feio,
como se ser elitista fosse um insulto. Etimologicamente, vem de escolha,
selecção. No latim, eligere era separar o trigo do joio, escolher o melhor.
Isto hoje é defeito. Cada qual sabe de si e Deus sabe de todos. Não é assim?
Pois claro que é. Como também não deixam de ser as consequências da cedência, a
ausência de filtros, a incapacidade para seleccionar o melhor, a fraqueza que
impede a recusa, a debilidade que obstaculiza o não. Não vou por aí. E é que
não vou mesmo, porque cada vez mais se impõe como uma necessidade absoluta ser
intransigente com a porcaria. Portanto, não há audiência que nos convença, não
há números que nos seduzam, não há maiorias que nos persuadam. A retórica da
adesão popular é só mais um pretexto para quem não quer comprometer-se com
mínimos de exigência, preferindo surfar as ondas gigantes do big show chewing
gum. As consequências do laxismo já estão à vista, só não vê quem não quer porque
não lhe convém. Será sempre muito mais confortável ir na onda do que remar
contra a maré. Ser selectivo não é defeito, não pode ser defeito, é método. Em
benefício do melhor, contra o culto da mediocridade que faz do mais estúpido o
mais popular. Vejam-se esses criadores de conteúdos, os líderes das redes
sociais que andam para aí, os influencers milhões, numeiros e afins. Tudo
produto da ausência de elitismo, isto é, da necessidade absoluta de
seleccionar.
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