Esta noite sonhei que estava no teatro. Andava numa
correria, era o único assistente de sala num auditório enorme. As bichas de
espectadores davam a volta ao quarteirão, com uma particularidade: eram todos
poetas. Neo-realistas, surrealistas, experimentalistas, criacionistas,
modernistas, pós-modernistas, farsistas, românticos, neo e proto, classicistas,
parnasianistas, futuristas, marginais, concretistas, maneiristas, barroquistas
e barraqueiros, espiritualistas, sensacionalistas, sensacionistas, humanistas,
anedotistas, naturalistas, naturistas, entre outros. Todos sentados e
instalados, a luz do público baixou num lentíssimo e interminável fade out. O
actor entrou. Curiosamente, tinha a minha cara e o meu corpo, mas não era eu.
Subiu a luz no palco e o actor esperou, esperou, esperou, esperou e continuou a
esperar que o público exclusivamente composto por poetas se manifestasse, que
dissesse um poema, um verso que fosse. Nada, silêncio sepulcral. Os poetas não
falavam, não sabiam poemas, não sabiam dizer, apenas escreviam e pronto,
estavam ali para ver e para ouvir sem saberem que o espectáculo consistia
naquilo: um actor em cena a observá-los, à espera que dissessem alguma coisa.
Não disseram nada, não diziam nada, ficaram mudos e calados.
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