quinta-feira, 4 de junho de 2026

ESPECTÁCULO

 
Esta noite sonhei que estava no teatro. Andava numa correria, era o único assistente de sala num auditório enorme. As bichas de espectadores davam a volta ao quarteirão, com uma particularidade: eram todos poetas. Neo-realistas, surrealistas, experimentalistas, criacionistas, modernistas, pós-modernistas, farsistas, românticos, neo e proto, classicistas, parnasianistas, futuristas, marginais, concretistas, maneiristas, barroquistas e barraqueiros, espiritualistas, sensacionalistas, sensacionistas, humanistas, anedotistas, naturalistas, naturistas, entre outros. Todos sentados e instalados, a luz do público baixou num lentíssimo e interminável fade out. O actor entrou. Curiosamente, tinha a minha cara e o meu corpo, mas não era eu. Subiu a luz no palco e o actor esperou, esperou, esperou, esperou e continuou a esperar que o público exclusivamente composto por poetas se manifestasse, que dissesse um poema, um verso que fosse. Nada, silêncio sepulcral. Os poetas não falavam, não sabiam poemas, não sabiam dizer, apenas escreviam e pronto, estavam ali para ver e para ouvir sem saberem que o espectáculo consistia naquilo: um actor em cena a observá-los, à espera que dissessem alguma coisa. Não disseram nada, não diziam nada, ficaram mudos e calados.

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