quarta-feira, 3 de junho de 2026

ODE A KAVÁFIS

 
Os dias começam sempre à hora errada
e só no fim vencem com a paz do sono
 
Impelidos pela vaidade dos deuses
em busca de louros sem espinhos
seguimos em trânsito das aldeias para as vilas
e destas até às cidades
sentindo nos ombros o peso da derrota
que nos devolve ao ponto de partida
 
Com o tempo aprendemos talvez a queda de Roma
e de Bizâncio, que Babilónia afundou-se
e dos impérios restam ruínas e destroços
nada didácticos nesta corrente de futuros babélicos
 
Queixamo-nos da pouca sorte
da fortuna madrasta
do desconcerto do mundo
do mortal quebranto lançado por inimigos
tão fantasmáticos quanto os heróis literários
 
Lançada a semente na terra
só com paciência poderá ser regada a planta
até o fruto falar na boca de quem come
 
É certa a repetição dos dias
como a distribuição das horas pelos calendários
com que ateamos piras
onde cremar frustrações
mas um dia paramos e vemos arrastadas pelas águas
as ambições outrora vigorosas
os sonhos outrora vigilantes
 
Fama, reconhecimento e prestígio
são então coroas de espinhos na cabeça dos vencidos
 
Derrotados e derreados dançamos ao som de apupos
agradecemos a pateada com sorrisos no rosto
a indiferença é o nosso escudo de Aquiles
contra a espada de Dâmocles
 
Pelejamos com esquecimento e morte
até ao último suspiro
e continuamos depois de mortos
a fazer do fracasso uma festa

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