São quilómetros de cabelagem até chegar aqui, a este
estado de afasia diante do monumento. A Lucrecia de Shakespeare mergulhou no
Tejo e por ali ficou como Ofélia a gerar sargaço, sonhando com troncos
hamletianos que se abrem ao meio como casacos com fecho de correr. Lazaro
ergueu-se da morte para brincar com tarolas e tambores, é uma criança no seu
parque infantil privado, veste e despe um Lou Reed berlinense enquanto mete o
povo aos saltos. Vertiginoso ritual percutido nos músculos que cedem sem esforço
algum à agitação preliminar, ainda que o meu coração palpite por outros
abismos. Lucrecia aproxima-se, vinda de outras paragens, com um copo de vinho
branco na mão, «divina, desviada». Dirige-se-nos numa língua e tom
compreensíveis, diz que gosta do nosso peixe, justifica a lentidão das canções
que vai discorrendo «hasta el final» com serenidade invejável. E sorri. Sabemos
que somos um perigo para nós próprios ao ouvi-la. Podíamos dizer “amo-te”
convencidos de que o pronome oblíquo átono sairia disparado do verbo como
flecha no arco de um qualquer querubim. «¿donde caes, si caes?» Talvez de mim
mesmo, aqui especado a seguir com os olhos os cabos enrodilhados como um novelo
de lã que te embrulha a voz. Por vezes, perco o equilíbrio, sinto-me vacilar,
penso que vou desmaiar, aquela sensação de quebra logo arrematada em tronco firme. É da coluna, penso, sempre a ceder a puta da coluna. E não é que corro
o fecho da maçã-de-adão ao umbigo e também de mim brota um mar de sargaços como
uma espécie de sistema venoso vegetal. Sou uma planta de mim mesmo, um projecto
em construção, ainda respiro, é possível que sim. (Alex Lazaro e Lucrecia Dalt
no B.Leza Club.)
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