“Contar Uma História” reproduz
uma conversa entre John Berger e Susan Sontag, transmitida na televisão em 1983.
Onde é que seria hoje possível algo semelhante? Empenhado em escrever sobre o
que não experienciou, Berger queixa-se da falta de coragem na ficção actual. «A
maioria dos romances são autobiografias disfarçadas», dizia, ao que Sontag
perguntava: «Achas que é por isso que há tantos romances sobre professores
universitários...» É uma tendência que acompanha toda a literatura gerada à
secretária, no gabinete das universidades, isto é, da indústria de papers.
Hoje, a grande aventura de vida da maioria dos escritores opera-se entre
paredes, nesse lugar isolado do eu que é a intimidade. A rua tende a
desparecer, o outro fica cada vez mais distante, o tema é o poema, a construção
do poema, as personagens são artistas, professores, académicos cuja vida se concretiza
nos corredores assépticos do pensamento. Poucos são os que ainda se aventuram
no desconhecido, metem o pé nos lugares mais desconfortáveis da existência,
ficam-se por ali a remoer pensamentos que supõem profundos como vacas a pastar entre
cercas. Num outro livro, intitulado “Pequena Poética da Insurreição”, o alemão
Peter Bouscheljong oferece-nos um inventário de malfeitores, de gente cuja obra,
pela força que tinha, foi censurada, vilipendiada, atacada pelo estado. Gente
que enlouqueceu, suicidou-se, foi assassinada, ferida, detida, presa,
torturada, escritores que não ficaram sentados à secretária a produzir poemas
sobre poemas, poesia sobre poesia, preferindo antes misturar-se na multidão
para com ela ou contra ela dizer basta. Podemos sempre mandar o mundo à merda,
como fizeram Nanni Balestrini, Miyó Vestrini, Katerina Gógou, entre outros ali
lembrados que a editora Barco Bêbado tem feito chegar à língua portuguesa.
Ainda é possível uma literatura social, isto é, uma literatura que vá ao
encontro do outro em vez de ficar enclausurada no eu, não necessariamente
política, neo-realista, panfletária ou outra treta qualquer que lhe pretendam
chamar, uma literatura, enfiam, que seja o mais anti-literária possível. A bem
da fome de viver.
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