sexta-feira, 3 de julho de 2026

À MARGEM DOS DIAS

 


   Se escrever fosse querer reencontrar esse tempo, ao sair da infância, em que, febrilmente, repetitivamente, procurávamos uma assinatura, experimentando esta e a seguir aquela numa folha de papel: uma assinatura que marcasse para sempre a nossa identidade nesse tempo em que ela era tão incerta. Como assegurá-la senão depois de a ensaiarmos mil vezes, para descobrirmos a nossa assinatura, uma marca que não fosse senão nossa?
   "Persisto e assino": assino a minha persistência. Herdei o meu patrónimo. O meu primeiro nome foi escolhido pelos meus pais. Da minha assinatura sou eu o autor.
   Creio ter sido Jean Paulhan, um tanto por provocação, quem propôs que os livros fossem publicados sem nome de autor. Ninguém aderiu a essa utopia.

J.-B. Pontalis, in À Margem dos Dias, tradução de Miguel Serras Pereira, livros nanook, Companhia das Ilhas, Maio de 2026, p. 25.

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