É imperioso que se morra, são muitas bocas a comer e a
máquina de guerra não pode parar. Se parar, o que fazer com tanta ciência? São
muitos milhões investidos na tecnologia da morte, na tanatologia mais
sofisticada. Há que comandar à distância o drone de alta precisão. Sem ruínas,
como garantiremos o futuro da construção civil? E o turismo? O turismo carece
de ruínas, a guerra é amiga do turismo, o nosso ganha-pão. Temos de reduzir
drasticamente a população mundial. Caso contrário, ninguém sobreviverá.
Façamos, portanto, a apologia da morte, da guerra, da ciência a ela associada,
a bem do turismo, da construção civil e da medicina avançada. Sem ruína, não há
fotografia que nos valha, a arte alimenta-se da ruína. Sem fome, não há
desespero. A bem do consolo espiritual, a insatisfação na terra. A tristeza, a
melancolia, a aflição são artisticamente inspiradores. E não só. Graças a eles,
toda uma indústria farmacológica prospera e as clínicas de psicologia e de
psiquiatria crescem como cogumelos para bem da humanidade. A guerra é favorável
à humanidade, aos medos que alimentam os mercados, às aflições que dão
audiência, os media requerem desastres, não há notícias sem acidentes,
provoquemos os acidentes a bem das notícias. Precisamos de mais miséria neste
mundo, sem miséria ninguém progride, a miséria é altamente lucrativa a todos os
níveis, o êxito vive da miséria como de água vive um corpo, um corpo vivo, um
corpo à morte, um corpo cheio de sede, um corpo a atravessar o deserto. Viva a
miséria, viva a guerra, viva a morte, viva a ruína. Sem elas, nada feito. É o
caos, a estagnação, a pobreza generalizada, o fim do progresso.
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