sábado, 4 de julho de 2026

VIVA A MORTE

 
É imperioso que se morra, são muitas bocas a comer e a máquina de guerra não pode parar. Se parar, o que fazer com tanta ciência? São muitos milhões investidos na tecnologia da morte, na tanatologia mais sofisticada. Há que comandar à distância o drone de alta precisão. Sem ruínas, como garantiremos o futuro da construção civil? E o turismo? O turismo carece de ruínas, a guerra é amiga do turismo, o nosso ganha-pão. Temos de reduzir drasticamente a população mundial. Caso contrário, ninguém sobreviverá. Façamos, portanto, a apologia da morte, da guerra, da ciência a ela associada, a bem do turismo, da construção civil e da medicina avançada. Sem ruína, não há fotografia que nos valha, a arte alimenta-se da ruína. Sem fome, não há desespero. A bem do consolo espiritual, a insatisfação na terra. A tristeza, a melancolia, a aflição são artisticamente inspiradores. E não só. Graças a eles, toda uma indústria farmacológica prospera e as clínicas de psicologia e de psiquiatria crescem como cogumelos para bem da humanidade. A guerra é favorável à humanidade, aos medos que alimentam os mercados, às aflições que dão audiência, os media requerem desastres, não há notícias sem acidentes, provoquemos os acidentes a bem das notícias. Precisamos de mais miséria neste mundo, sem miséria ninguém progride, a miséria é altamente lucrativa a todos os níveis, o êxito vive da miséria como de água vive um corpo, um corpo vivo, um corpo à morte, um corpo cheio de sede, um corpo a atravessar o deserto. Viva a miséria, viva a guerra, viva a morte, viva a ruína. Sem elas, nada feito. É o caos, a estagnação, a pobreza generalizada, o fim do progresso.

Sem comentários: