Seria incapaz de me referir aos meus livros como filhos.
Há quem o faça, há escritores e artistas em geral que se referem às suas obras
como os seus meninos, os seus filhos, as suas crias, etc. Tenho duas filhas,
sei a diferença entre ter um filho e escrever um livro. Nos diários, a certa
altura Torga comparava o acto de escrever a parir. Só pode ser porque nunca
pariu. Um homem que escreveu tanto, imaginem o que terá sido aquela vida em
trabalho de parto incessante. Uma vez perguntaram-me se senti um murro no
estômago ao ler "Debaixo do Vulcão". Era para uma coisa do Público
dedicada à reedição da obra. Respondi que já tinha levado um murro no estômago
e a sensação não era de todo comparável à leitura de um livro. Bem sei que tais
expressões não são para levar à letra, são meras hipérboles. Mas um filho. Um
filho, não. Não é sequer obra nossa, apenas em parte nos deve a existência a
que se agarra ou não pela vida. Um filho não é coisa que se escreva ou desenhe,
não é um projecto nosso, é arquitectura emancipada que, tendo qualquer coisa de
nosso, ganha vida própria e liberta-se e segue sozinho como nós tivemos de
seguir. Sozinho não é isolado, é autónomo, independente, isto é, condenado a si
mesmo, responsável pelas suas próprias acções. O livro faz-se, os filhos vão-se
fazendo. Os livros não te pedem pão na mesa, são para ser comidos. Vá lá que
sejam pão. Nunca suportei progenitores paternalistas e filhinhos agarrados às
saias da mãezinha, enrolados em cordões umbilicais que trazem ao pescoço como
coleiras. Esses talvez se assemelhem mais a livros, a obras, a coisas
inanimadas, a objectos, a utensílios, ainda que nesses casos os livros possam
ter mais vida própria. Não, meus filhos é que os meus livros não são. Quem
quiser que os crie.
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