sábado, 8 de agosto de 2026

ACTUEUR

 


As dificuldades que a obra de Zúñiga coloca quanto ao género resultam da sua obstinada resistência a qualquer tipo de classificação, para o que contribui uma inclinação multidisciplinar capaz de cruzar diversas linguagens e interessada sobretudo no desmoronamento das barreiras que pretendam separar este daquele meio comunicacional. “Actueur”, na edição de 2006 com o selo blablalab, exibe no frontispício, sob o título, a curiosa indicação “Ni Théâtre”. Podia ser uma designação alternativa a “Teatro do Impossível”, este Ni Théâtre que, sem se opor ao teatro, não o negando por prefixação, antes participando da sua essência, parece remeter para um “nem” que se distancia das convenções teatrais ou, pelo menos, resgata o teatro de uma determinada categorização. Trata-se de um texto breve, em três actos, por assim dizer, que corresponderão a três desenvolvimentos de uma acção afirmada pela negativa. O paradoxo é, sem dúvida, uma das linhas de força desta obra. Antes de mais, o título “Actueur”, neologismo por amálgama das palavras Acteur (Actor) e, somos levados a crê-lo pelo que o próprio texto sugere, Tuer (Exterminar, Eliminar, Matar): «Seulement pour ac-tuer» (p. 7). Outra hipótese seria a presença da palavra Actuel (Actual) neste jogo fonético que remete tanto para o surgimento da fala como para a sua extinção, estando assim em causa uma espécie de ser em acto cuja acção é a da própria fala. De tipo didascálico, o texto começa como deviam começar todas as cosmogonias, ou seja, evitando dúvidas sobre um tempo anterior ao princípio tomando como ponto de partida um «Avant d’ouvrir» que é anterior à acção. Anterior à boca que se abre para dar início à fala, haverá a fala? A fala, em si mesmo, é acção, um dizer que neste texto transforma em verbo a simbologia gráfica. O itálico dá em italicar (italiqué), as aspas dão origem ao verbo «guillemette», os parêntesis (parenthèse) fundam o verbo «parenthèsé», acontecendo o mesmo com os dois pontos e o travessão. O que parece estar em causa é o mistério da palavra e a complexa relação da palavra falada com a palavra escrita. Talvez seja extemporânea a associação a William Burroughs, que, num dos seus ensaios, sugere que «a palavra falada, tal como a conhecemos, é subsequente à palavra escrita» (Feedback de Watergate para o Jardim do Éden): «A minha teoria de base é que a palavra escrita foi literalmente um vírus que tornou possível a palavra falada.» Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Sendo impossível determiná-lo, é possível especular sobre o assunto. A ironia está em o nosso “actueur” não falar simplesmente, mas antes “linguar-nos”. A diferença está numa assumpção da materialidade da fala através de uma escrita que é um acto constante de sabotagem da metafísica, um acto de afirmação do corpo enquanto princípio e fim de qualquer acção. Abrir a boca, ver a língua, falar. Anterior à fala, portanto, a boca que se abre e a língua que nela repousa e os demais órgãos que contribuem para que a palavra se faça gesto. O “actueur” é um actor em cena: «Devancé au devant de la scène il nous décorpa : «Où ?» (p. 9). Mais um neologismo, “décorpa” poderá aqui ser entendido como “cenarizar”. O que há de mais lúdico nesta escrita é esta (re)invenção permanente da língua, como se a sua materialização correspondesse a um movimento repetitivo de recriação que, tendendo para a extinção, a morte, a eliminação, o silêncio, projectasse no destinatário a sensação de algo que germina e, por germinar, está em movimento e, por estar em movimento, está sempre a deixar de ser o que era para se transformar numa outra coisa. Mais do que a verosimilhança, mais do que a realidade, mais do que a autenticidade ou a genuinidade - «Sans faire vrai» (p. 16), importa aqui sublinhar essa ideia de transmutação do imaterial no material, do pensamento na linguagem falada ou escrita, num corpo que, estando aberto ao mundo, está também condenado às suas próprias limitações, é um corpo perecível. O que mata então o actor? Neste caso, talvez mate a acção, isto é, uma ideia de acção, uma convenção de acção.

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