Mesa Verde, Colorado
Os Anasazi eram os seus próprios reféns. As roupas eram simples, vestiam-se de fome e lamento. Movendo-se de lao ao longo das suas amargas varandas. As fibras de yucca abrem-se em fiapos ao vento de Inverno golpeando por aquele desfiladeiro abaixo. Nada sabemos deles a não ser factos. Comiam milho, feijões, abóbora e, de vez em quando, uma cebola verde selvagem. Cobriram a mesa com torres e túneis em padrões que ninguém consegue ler e periodicamente incendiavam tudo por uma razão que ninguém adivinha, por isso lhe chamam religiosa. Há alguns glifos. Os glifos são cortes na rocha. Os antropólogos interpretam-nos de maneiras que encaixam e se separam e se encaixam de novo. Eis aqui um glifo a que os antropólogos chamam Orfeu; segura numa mão um objecto semelhante a uma lira e o seu coração é feito de escarpas, com habitações nelas, muitas visíveis e algumas abandonadas. Estou parada a uma certa distância do imperador para o observar a gravar Orfeu. O amor vem esfomeando ao longo do desfiladeiro. Dar-te-á prazer se nele acreditares.
Anne Carson, in Águalisa - ensaios e poesia, tradução de Rui Cascais Parada, não (edições), Setembro de 2025, pp. 216-217.

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