Diz Eduarda Neves:
«Morreu Raoul Vaneigem. Já quase não existe quem denuncie
a pobreza da vida quotidiana. Não é de bom tom e sinaliza um certo
desequilíbrio de quem o faz. Não é boa companhia, portanto, e o capitalismo é
tolerante, inclusivo e terapêutico. A esclerosada realidade do dia a dia sob o
império dos influencers que se reproduzem em todas as dimensões da existência,
incluindo a da arte, converteu-se numa das mais subtis modalidades da
humilhação. Não falta quem queira ser um manipulador disponível para
influenciar seja quem for. Quem quer estar sujeito à influência de tanto idiota
que recorre a marketing sentimental estratégico para nos persuadir através do
recurso a um suposto bom carácter e sinceridade comunicacional? Nem a
modernidade conseguiu edificar tanto projecto salvífico de emancipação! Até o
mínimo sentido crítico se tem vindo a tornar uma forma da mendicidade. Estes
vendedores parasitas que apregoam o obsceno lazer mental — verdadeiros gangues
organizados de negociantes — prometem libertar a humanidade de todas as amarras
— as da guerra, do dinheiro, do mau sexo, do casamento, da política, da escola,
das más influências, do mau gosto, da poluição, das instituições e do mundo em
geral. Tanta piedade nesta ordem fictícia, diria Nietzsche. Perguntam eles: quem?»

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