segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ÁCAROS

 
Podemos sempre dizer “estou-me nas tintas”, andar por ali a ganhar trocos para pagar contas, aturar chatos como quem coça tomates, bebes uns copos, sorrir amarelo mostarda para as víboras ondulantes, deixar as crianças embirrar com energia contra as fontes de desagrado. Podemos sempre dizer “que se foda”, daqui a nada o dia acaba, o mês acaba, o ano acaba, a vida acaba, porque tudo sempre acabará. E de nós quedará o quê? A sombra do que fomos, por certo, se ainda tivermos sombra, um osso mais irrequieto, meia dúzia de memórias a esvaecerem-se com o tempo. Podemos dizer também “olha o passarinho” e posar para a fotografia com sorriso de orelha a orelha, inventando papéis para personagens imaginárias, representar as personagens e seus papéis. Podemos andar aos papéis em busca de alegria de viver, consumir para produzir, a mecânica vetusta do capitalismo agarrando-nos pelos tornozelos até malharmos com as fuças na lama. A cada dia, uma morte, a cada hora, a cada segundo, tudo a morrer e nós a queixarmo-nos de manchas nos dedos. Puta que pariu os dedos e os anéis. Podemos sempre dizer, sim senhor, está certo, muito bem, siga para bingo, dar meia-volta ao Saldanha e continuar a rota do esquecimento no encalço de sossego. Mas agora, vivos, para quê desejar sossego? É um caso perdido dentro do caso perdido que já somos nós, uma redundância, um pleonasmo. Deixá-los andar à solta e nós ali a ver passar passarinhos, deixá-los andar, deixá-los, temos tempo e palavras na manga para mais um ou dois livros com que entreter ácaros.

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