Tenho ouvido falar de inteligência artificial, quase invariavelmente em tom extremado, ora apocalíptico, ora epifânico. Para uns é o fim anunciado da humanidade, para outros a solução de todos os males. Entre uma e outra versões, procuro o meio termo do ignorante que busca informar-se. Mas, na verdade, confesso ser muito parco o interesse pessoal nesta matéria, cada vez mais inclinado que estou para uma vida sem redes. Sonho com um cantinho no campo onde solidariamente possa conviver com a terra e seus frutos. E nisto ocorre-me que antes da inteligência artificial o homem escreveu a "Odisseia", inventou o livro, descobriu o fogo, arranjou maneira de voar, antes da inteligência artificial o homem desenvolveu inúmeros meios de comunicação, o telefone, a televisão, o rádio, vacinas foram descobertas contra pragas e pestes. Antes da inteligência artificial a cabeça dos homens inventou até, imagine-se, a própria inteligência artificial. Talvez um dia tenhamos que participar em manifestações públicas contra esta invenção, como no passado o velho Russell se manifestou contra o nuclear. O mundo não pára, o bicho homem está sempre com invenções. Talvez tenha sido inventado para isso mesmo. Ou então é simplesmente da sua natura inventar-se, reinventar-se. De uma coisa estou certo, jamais prescindirei do espírito crítico da inteligência natural. É ele que permite a reinvenção, gerando dúvidas mais criativas do que respostas, protegendo-nos das verdades absolutas e seus perigos, abrindo os caminhos da imaginação que faz do erro uma ferramenta, do acidente um valor, do caos um gozo. A inteligência artificial ri?
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