domingo, 13 de setembro de 2026

UM POEMA DE KAVÁFIS

 



SACERDOTE DE SERÁPIS
 
Meu bom e velho pai,
que com o mesmo afecto sempre me amou:
meu bom e velho pai eu choro,
que morreu anteontem, pouco antes da madrugada.
 
Jesus Cristo, que eu guarde sempre
os preceitos da tua santíssima Igreja
em cada acto, em cada palavra,
em cada pensamento – eis o meu zelo
quotidiano. E a quem vos nega,
abomino. – Mas agora choro:
deploro, Cristo, a morte de meu pai
embora ele tenha sido – terrível é dizê-lo –
sacerdote do execrável Serápis.
 
[1926]
 
K. P. Kaváfis, in Aquele Belo Rapaz – poesia completa, tradução de José Luís Costa, posfácio de Tatiana Faia, Assírio & Alvim, Novembro de 2025, p. 141. Nota de José Luís Costa na p. 443 da mesma obra: «O culto de Serápis, promovido pelos monarcas ptolomaicos no Egipto desde 300 a.C., é um caso evidente de hibridismo, uma amálgama entre deuses egípcios (Ápis e Osíris) e gregos (Zeus, Hades, Asclépio, Dioniso, Hélio), numa tentativa de unidade cultural. O seu templo, o Serapeum (no original), era uma das maravilhas da cidade de Alexandria.» A fotografia foi tirada ontem no Santuário de Panóias, onde, dizem os entendidos, prestar-se-ia culto a Serápis.

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