Portugal é uma nação grandiosa, em tempo, espaço e, especialmente,
nas suas elites intelectuais. Temos o dobro ou mais da população da Irlanda, mas menos três
prémios Nobel da Literatura. Assim como assim o Nobel não interessa para nada, excepto
quando nos sai na rifa. O que valem William Butler Yeats, George Bernard Shaw, Samuel
Beckett e Seamus Heaney todos juntos diante do nosso José Saramago? Em cagança e
guerras parvas ninguém nos bate. Talvez por essa razão dêmos tão pouca
relevância ao conto, apreciamos discursos fartos, tensão dialéctica e a densidade
do pensamento. Em filosofia somos exímios a discutir as ideias dos outros,
alemães, franceses, ingleses, italianos, norte-americanos. Temos especialistas dos
melhores que se encontram pelo mundo, embora o mundo não tenha dado por eles. Normatividade
fonomorfossintáctica, semiótica, semântica e retórica é connosco, mormente
quando num mesmo verso conseguimos descobrir numa só entidade dotes alígeros em
voo acríbico entre epícrise e estese.
Nem tudo é genial, evitemos hipérboles. Apenas
quase tudo. Sobram umas figuras algo distantes, recatadas, obscuras, metidas nos
seus dias asilados, absortas e pouco dadas ao convívio mundano, que retiradas do brilho
esplendoroso das cátedras nos vão desinquietando com a simplicidade das coisas banais.
Autora de diários, julgo ser essa a designação mais conveniente, entre os quais O Fulgor Instável das Magnólias (Língua Morta, 2021) é o mais recente, Ivone
Mendes da Silva (n. 1959) é também autora de um brevíssimo livro de contos: Os Contos Esquivos (Língua Morta, 2020). São
16 pequenas pérolas que raramente ultrapassam as três páginas, das quais a mais
curta é esta:
GÓTICO AMERICANO
Eudora era a
mais velha mas nem por isso lhe agradava ter sobre os irmãos aquela forma de
autoridade que mais não é do que uma competência delegada pelos pais ansiosos
por estarem libertos das rotinas do zelo e da custódia ao longo das tardes
passeios e férias. Delegavam nela a supervisão dos mais novos e negavam-lhe o
direito a distrair-se como se isso fosse uma investidura de que deveria
orgulhar-se. Na verdade incomodava-a até à raiva. Uma raiva que trazia à trela
curta mas que estava lá e bem pulsante e eu havia de jurar que na tarde em que
Jay trambolhou pela escada abaixo se de Eudora não foi a mão pelo menos foi o
sorriso.
Precisamente os americanos chamam-lhe short story, e não
foi por ser a mais curta que me apeteceu citá-la na íntegra. É que nela encontramos eximiamente representados alguns dos elementos mais característicos dos contos
da autora. Desde logo, em termos formais, há que sublinhar a
ausência de vírgulas. É um pormenor de pontuação aparentemente insignificante,
mas que sobressai como imagem de marca em textos narrativos marcados por um
sentido rítmico muito próprio. Dos diários, a autora transporta a escrita
corrente, imersa nos dias, captando o mundo à sua volta a partir de um tipo de
sujeito que faz incluir na classe dos «grandes solitários» (p. 43). Nos contos
a rotina é ultrapassada não pelo excesso, completamente ausente destes textos, tão
pouco pelo absolutamente inusitado, mas antes por uma malícia refinada que assinala
os desvios éticos das personagens, como é disso exemplo o sorriso de Eudora na
história acima transcrita.
Outro aspecto relevante é o tipo de representação do
feminino que vamos encontrando ao longo dos contos, nada atreito a
considerações moralizantes de época: «Toda a gente sabe que as mulheres se
cansam muito depressa» (p. 18), «A imaginação é para as mulheres uma forma de
conhecimento» (p. 20), «As raparigas novas têm para com os homens velhos uma
cortesia que é uma forma de sedução na qual temperam o propósito com o
desafecto para que seja maior a eficácia» (p. 38), «Quando se predispõem as
mulheres são rápidas no gesto» (p. 39). Aprendam, homens. Outros exemplos
podiam ser dados. É procurá-los.
A par destas reflexões de índole aforística, vislumbramos
também em praticamente todos os contos notas fugazes acerca da arte de narrar e
a literatura em geral. Não surgem do nada para nada, não buscam
autojustificação e muito menos aparecem enquanto imposições didácticas, sendo
talvez mais correcto dizer-se que entabulam com o leitor uma espécie de conversação
amena a propósito da arte de que ambos, escritor e leitor, desfrutam. Logo no
primeiro conto: «a literatura é impiedosa. É uma arte de sombras e evita com
pertinácia a mansidão e a claridade» (p. 8). No seguinte: «narrador que se
preze traz as personagens pela trela antes que se soltem e se percam no avesso
do texto» (p. 15). É precisamente o que faz Ivone Mendes da Silva, sem
necessitar de floreados retóricos nem de meditações profundíssimas em torno de
um mundo que é quase sempre mais claro e evidente do que as representações que
dele fazem os artistas.
O desafio destes contos está, precisamente, em aceitar a
clareza e a evidência do mundo sem subterfúgios, colhendo a beleza esquiva onde ela se
nos apresenta. Neste caso, através de uma escrita cuja elegância assenta também no
modo de fazer a língua brilhar recuperando-lhe, com peso e medida, um vocabulário
esquecido que se distribui pelas páginas como flores selvagens isoladas em
terreno agreste.

5 comentários:
Tenho gostado bastante do que ja li da Ivone Mendes da Silva. A renúncia as vírgulas, não a percebo muito bem, mas mil vezes a renúncia como ela a prática, em textos quase sempre breves, do que o excesso sufocante e por insuportável por exemplo do Mário Cláudio.
Pois, olha, aqui que ninguém nos ouve, nunca li nada do Mário Cláudio. Ainda vou a tempo.
Vírgulas à MC:
Hoje, de manhã, estava um lindo dia, cheio de sol, e eu fui passear, inesperadamente, ao jardim, apesar de só ter meia hora disponível.
Desvirgulação:
Hoje de manhã estava um lindo dia cheio de sol e eu fui passear inesperadamente ao jardim, apesar de só ter meia-hora disponível.
Não sei se a ausência de vírgulas não estará relacionada com a formação académica da autora, pois no Latim o uso de vírgulas não é assim tão necessário. Mas poderei estar enganado.
Por vezes é preciso
Que o sorriso
Subsitua a rasteira
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