domingo, 28 de março de 2021

OS CONTOS ESQUIVOS

 

Portugal é uma nação grandiosa, em tempo, espaço e, especialmente, nas suas elites intelectuais. Temos o dobro ou mais da população da Irlanda, mas menos três prémios Nobel da Literatura. Assim como assim o Nobel não interessa para nada, excepto quando nos sai na rifa. O que valem William Butler Yeats, George Bernard Shaw, Samuel Beckett e Seamus Heaney todos juntos diante do nosso José Saramago? Em cagança e guerras parvas ninguém nos bate. Talvez por essa razão dêmos tão pouca relevância ao conto, apreciamos discursos fartos, tensão dialéctica e a densidade do pensamento. Em filosofia somos exímios a discutir as ideias dos outros, alemães, franceses, ingleses, italianos, norte-americanos. Temos especialistas dos melhores que se encontram pelo mundo, embora o mundo não tenha dado por eles. Normatividade fonomorfossintáctica, semiótica, semântica e retórica é connosco, mormente quando num mesmo verso conseguimos descobrir numa só entidade dotes alígeros em voo acríbico entre epícrise e estese. 
   Nem tudo é genial, evitemos hipérboles. Apenas quase tudo. Sobram umas figuras algo distantes, recatadas, obscuras, metidas nos seus dias asilados, absortas e pouco dadas ao convívio mundano, que retiradas do brilho esplendoroso das cátedras nos vão desinquietando com a simplicidade das coisas banais. Autora de diários, julgo ser essa a designação mais conveniente, entre os quais O Fulgor Instável das Magnólias (Língua Morta, 2021) é o mais recente, Ivone Mendes da Silva (n. 1959) é também autora de um brevíssimo livro de contos: Os Contos Esquivos (Língua Morta, 2020). São 16 pequenas pérolas que raramente ultrapassam as três páginas, das quais a mais curta é esta:
 
GÓTICO AMERICANO
 
   Eudora era a mais velha mas nem por isso lhe agradava ter sobre os irmãos aquela forma de autoridade que mais não é do que uma competência delegada pelos pais ansiosos por estarem libertos das rotinas do zelo e da custódia ao longo das tardes passeios e férias. Delegavam nela a supervisão dos mais novos e negavam-lhe o direito a distrair-se como se isso fosse uma investidura de que deveria orgulhar-se. Na verdade incomodava-a até à raiva. Uma raiva que trazia à trela curta mas que estava lá e bem pulsante e eu havia de jurar que na tarde em que Jay trambolhou pela escada abaixo se de Eudora não foi a mão pelo menos foi o sorriso.
 
   Precisamente os americanos chamam-lhe short story, e não foi por ser a mais curta que me apeteceu citá-la na íntegra. É que nela encontramos eximiamente representados alguns dos elementos mais característicos dos contos da autora. Desde logo, em termos formais, há que sublinhar a ausência de vírgulas. É um pormenor de pontuação aparentemente insignificante, mas que sobressai como imagem de marca em textos narrativos marcados por um sentido rítmico muito próprio. Dos diários, a autora transporta a escrita corrente, imersa nos dias, captando o mundo à sua volta a partir de um tipo de sujeito que faz incluir na classe dos «grandes solitários» (p. 43). Nos contos a rotina é ultrapassada não pelo excesso, completamente ausente destes textos, tão pouco pelo absolutamente inusitado, mas antes por uma malícia refinada que assinala os desvios éticos das personagens, como é disso exemplo o sorriso de Eudora na história acima transcrita. 
   Outro aspecto relevante é o tipo de representação do feminino que vamos encontrando ao longo dos contos, nada atreito a considerações moralizantes de época: «Toda a gente sabe que as mulheres se cansam muito depressa» (p. 18), «A imaginação é para as mulheres uma forma de conhecimento» (p. 20), «As raparigas novas têm para com os homens velhos uma cortesia que é uma forma de sedução na qual temperam o propósito com o desafecto para que seja maior a eficácia» (p. 38), «Quando se predispõem as mulheres são rápidas no gesto» (p. 39). Aprendam, homens. Outros exemplos podiam ser dados. É procurá-los.
   A par destas reflexões de índole aforística, vislumbramos também em praticamente todos os contos notas fugazes acerca da arte de narrar e a literatura em geral. Não surgem do nada para nada, não buscam autojustificação e muito menos aparecem enquanto imposições didácticas, sendo talvez mais correcto dizer-se que entabulam com o leitor uma espécie de conversação amena a propósito da arte de que ambos, escritor e leitor, desfrutam. Logo no primeiro conto: «a literatura é impiedosa. É uma arte de sombras e evita com pertinácia a mansidão e a claridade» (p. 8). No seguinte: «narrador que se preze traz as personagens pela trela antes que se soltem e se percam no avesso do texto» (p. 15). É precisamente o que faz Ivone Mendes da Silva, sem necessitar de floreados retóricos nem de meditações profundíssimas em torno de um mundo que é quase sempre mais claro e evidente do que as representações que dele fazem os artistas.
   O desafio destes contos está, precisamente, em aceitar a clareza e a evidência do mundo sem subterfúgios, colhendo a beleza esquiva onde ela se nos apresenta. Neste caso, através de uma escrita cuja elegância assenta também no modo de fazer a língua brilhar recuperando-lhe, com peso e medida, um vocabulário esquecido que se distribui pelas páginas como flores selvagens isoladas em terreno agreste.

5 comentários:

José D. disse...

Tenho gostado bastante do que ja li da Ivone Mendes da Silva. A renúncia as vírgulas, não a percebo muito bem, mas mil vezes a renúncia como ela a prática, em textos quase sempre breves, do que o excesso sufocante e por insuportável por exemplo do Mário Cláudio.

hmbf disse...

Pois, olha, aqui que ninguém nos ouve, nunca li nada do Mário Cláudio. Ainda vou a tempo.

José D. disse...

Vírgulas à MC:
Hoje, de manhã, estava um lindo dia, cheio de sol, e eu fui passear, inesperadamente, ao jardim, apesar de só ter meia hora disponível.

Desvirgulação:
Hoje de manhã estava um lindo dia cheio de sol e eu fui passear inesperadamente ao jardim, apesar de só ter meia-hora disponível.

Manuel A. Domingos disse...

Não sei se a ausência de vírgulas não estará relacionada com a formação académica da autora, pois no Latim o uso de vírgulas não é assim tão necessário. Mas poderei estar enganado.

atalhos disse...

Por vezes é preciso
Que o sorriso
Subsitua a rasteira