sábado, 21 de fevereiro de 2026

REVOLUÇÕES

 
Almoço de trabalho no Real Balcão 5. Congeminemos a revolução, mas de estômago reconfortado. A transformação do mundo exige filete de peixe-galo regado com Alvarinho e rematado com uma mousse de chocolate pingada. Primeira nota a pedir conclusão: a política deixou de ser feita pelas pessoas para acabar nas mãos de profissionais, funcionários com direito a sindicato ao abrigo do Código do Trabalho. Anda tudo a tratar da vidinha, o povo, as elites, a burguesia, o clero, a corte tomada de assalto por saloios secretariados & etc. Haja sentido de humor para digerir isto, a despeito da verdadeiramente revolucionária açorda que acompanhava o peixe-galo. Segunda nota a pedir conclusão, ocorrida no decorrer de leituras outras: as revoluções foram sendo sucessivamente adiadas no nosso burgo exíguo porque os revolucionários, isto é, os porta-estandarte da revolução, entre os quais destacamos anarquista e libertários, comunistas e situacionistas, entre outros istas mais ou menos dilatados pela vontade, sempre estiveram demasiadamente empenhados a lerem os livros uns dos outros e a produzirem comentários sobre comentários teóricos, também eles escravos dos papers nas universidades colectivas e partidárias. Nunca no nosso povo houve um ímpeto verdadeiramente revolucionário, o povo foi sempre a reboque, nunca ergueu a forquilha de modo organizado, foi sempre em rebanho atrás desses pastores de ideias sem consequência. Dito isto, venha a aguardente.

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