Comigo foi sempre de uma simpatia extrema. Conheci muita
poesia graças à coluna que durante anos manteve na revista LER. Os weblogs
levaram a troca de emails sobre coisas da literatura, cordiais e francos.
Esteve pelas Caldas da Rainha num Diga 33 de boa memória. Um abraço sentido ao Jorge Neves pela
perda. Deixo um poema, um dos que leu quando esteve por cá:
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.

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