Esta náusea, este
viver sozinho contra o que me cerca
e contra uma poesia só imaginada.
Nuno Dempster
Nascido a 26 de Abril de 1944, em São Miguel, nos Açores,
Nuno Dempster é o nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues. Através de uma
publicação da editora Companhia das Ilhas, soube apenas hoje de madrugada do
seu falecimento no passado 2 de Janeiro.
Neto de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), um dos
poetas de Orpheu, de quem organizou o volume Um Poeta Rodeado de Mar (Companhia
das Ilhas, Agosto de 2021), Nuno Dempster era engenheiro técnico agrário de
formação. Trabalhou inicialmente numa cooperativa agrícola de cariz
revolucionário, tendo sido saneado, em 1977, pelos que tomaram de assalto a
direcção da coperativa sob reacção do 25 de Novembro. Prestou assistência
técnica no fabrico de rações e na produção animal, dois ramos em que se
especializou.
Conhecemo-nos pessoalmente em 2008, depois de o Nuno me procurar no
meu então local de trabalho. O primeiro contacto foi nos weblogs e,
posteriormente, via e-mail: «Passo pelas Caldas em trabalho e dou aí um salto
para lhe oferecer o meu único livro (havia outro, mas rejeitei-o), um calhamaço
de quase trezentas páginas que, com espanto meu, me publicaram.» O calhamaço
era Dispersão - Poesia Reunida (Edições Sempre-em-Pé, Novembro de 2008), que
tive a honra de apresentar, a 30 de Maio de 2009, na Livraria Arquivo, em Leiria.
Para efeitos oficiais, Nuno Dempster estreava-se então em
livro, aos 65 anos, com uma obra em que reunia dez anos de criação poética
distribuídos por sete divisões: Caminhos sobrepostos, Confluências, Osmose,
Génese, Em cinza quente, Palimpsesto, Inventário. Um novíssimo poeta tardio,
portanto, contra a lógica das urgências que pauta a nossa era. Confidenciava-me,
a 15 de Novembro de 2021: «tudo a seu tempo vem quando é certo de vir.» E se os
livros vieram, por assim dizer, tardiamente, o mesmo não sucedeu com a poesia,
que desde cedo ocupou um jovem inicialmente entusiasmado com o surrealismo que
escrevia poemas, dava-os a ler a um ou dois amigos e depois deitava-os fora.
Aos 27, a escrita ter-se-á interrompido com o falhanço de
um romance sobre a Guiné, tema a que regressaria tanto na secção Inventário, do
volume intitulado Dispersão, como no longo e extraordinário poema K3 (&etc,
Janeiro de 2011), do melhor que se escreveu em verso sobre a chamada Guerra
Colonial. Vingou-se a interrupção posteriormente, com a retoma da escrita nos
anos 90 e a construção de uma obra consistente dividia pela poesia, pelo conto
e pelo romance.
Antes de K3, publicou Nuno Dempster na &etc de Vítor
Silva Tavares outro longo poema: Londres (Janeiro de 2010). E à mesma editora
regressaria com Uma Paisagem na Web (Maio de 2013). Têm os três livros em comum
o facto de serem poemas longos e exibirem nas capas pinturas de Maria João
Lopes Fernandes. Sobre a sua poesia, prefiro citá-lo em discurso directo: «procuro escrever poesia de sentido claro,
adoptando a ideia de Sena de que a poesia é para ser entendida, e evitando a
poesia do eu ensimesmado, mesmo quando escrevo na primeira pessoa, aliás de
acordo com o marxista que fui e sou desde que me fiz homem, com o cuidado de me
afastar, na escrita, da classe operária do Neo-realismo, para a qual,
neste desgraçado tempo, entrou e vai entrando boa parte da classe média
servidora.»
Há na sua obra, no entanto, um gosto pelos clássicos e um
cuidado na forma de que os próprios títulos dão conta: Pedro e Inês: Dolce Stil
Nuovo (Edições Sempre-em-Pé, Setembro de 2011), Elegias de cronos (Artefacto,
Junho de 2012) ou, mais recentemente, Limbo, Inferno e Paraíso – Três Estados Apócrifos
(Companhia das Ilhas, Março de 2022), livro que, só por si, muito nos obrigaria
a reflectir sobre o diálogo com os clássicos, no caso o Dante da Divina Comédia,
e o seu entendimento enquanto obras de um tempo concreto de que são testemunho
da injustiça e do mal universal e intemporalmente perpetrados. Cem poemas,
trinta e quatro no Limbo e trinta e três no Inferno e no Paraíso, o mesmo
número de poemas que há de cantos por estado na Comédia.
Em prosa, publicou Nuno Dempster os livros O Papel de
Prata, O Reflexo e Outros Contos pelo Meio (Companhia das Ilhas, Outubro de
2012), Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023) e o
romance Há rios que não desaguam a jusante (Companhia das Ilhas, Outubro de 2018),
narrativa cuja acção se inicia em 1961 colocando no centro das atenções um tal
coronel Pierre Latour, neto bastardo de Leopoldo II da Bélgica, herdeiro de uma
fortuna que vai acrescentando à conta de trafulhices várias. Um romance exemplar
sobre a maldade dos homens, ao qual ninguém ligou nenhuma neste país de génios
plantados entre sete colinas.
OSSADAS
A seguir ao que se passou em Auschwitz
é coisa bárbara escrever um poema.
Theodor W. Adorno
As ossadas dos séculos
há muito se perderam.
A soma dos pequenos campos
dá um campo mais vasto
que as hordas de germânicos
nos compêndios da História.
Então já se matava em série
e nunca se parou.
Hoje a soma ultrapassa em muito
os mortos de Auschwitz,
o termo genocídio tornou-se banal
e também o ruído dos bulldozers
que enterram cadáveres.
Adorno equivocou-se por excesso.
A poesia convive com as trevas
e com o sol, escrita por revolta
ou ao espelho,
ou suspirando,
ou ideando um mundo
onde nunca se viram
os corcéis de João Evangelista.
Nuno Dempster, in Variações da Perda, Companhia das Ilhas, Junho de 2020, p. 73. Mais sobre Nuno Dempster: Na Luz Inclinada, Limbo, Inferno e Paraíso, um poema, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Há rios que não desaguam a jusante, Anti-Elegia Para o Meu Final, Dispersão, outro poema.

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