quarta-feira, 30 de junho de 2021

DÍVIDAS

Descobri recentemente uma dívida à Segurança Social. Pediram-me uma declaração de não dívida e entrei no sítio da SS, espécie de câmara de horrores, para requisitar a tal declaração. Eis senão quando dou com uma dívida que remonta aos meses de Outubro, Novembro e Dezembro de 2007, Janeiro a Julho de 2008. Passaram 14 anos. Esta gente tem o meu endereço postal, o meu e-mail, têm o meu número de telefone (actualizado em 2010 e 2019). Nunca recebi uma notificação para pagamento do que quer que fosse. Nada. Silêncio absoluto. Não sei porque tenho tal dívida, em que consiste, não fui informado da mesma, só tomei conhecimento de que a tinha porque preciso de uma declaração de não dívida para… trabalhar. O que vou receber pelo serviço que tenho a prestar não cobre sequer a dívida, que só em juros de mora já vai em mais de 700€. O que são estes juros de mora? São o que cobramos pela ignorância. Ou, se quiserem, o que cobramos por não estarmos informados. Também podem interpretar de outra forma, são o que pagamos à Segurança Social pelo silêncio da Segurança Social. 14 anos passaram e nunca ninguém piou. Zurro eu agora, o burro, o asno, o jumento, a besta. E pago. E calo.

terça-feira, 29 de junho de 2021

MALABARISMO LITERÁRIO

 


Indirectamente, o poema em prosa é fruto da revolução de 89 e das transformações sociais que se lhe seguiram. Acresce que o recurso ao alexandrino para os escritos a serem lidos perante a corte levou cientistas, pensadores e até juristas, a redigirem epístolas em verso para tratarem de qualquer assunto. No século XIX, a versificação já não é exclusivamente mobilizada pela poesia; tornara-se, na verdade, um exercício de estilo, um malabarismo literário, enquanto os escritos em prosa se foram desenvolvendo — só a universidade mantém o uso da dissertação latina para titularizar os seus «doutores», seja qual for a disciplina —, do romance à enciclopédia, pelo que o próprio estatuto da prosa é objecto de reconsideração.
 
Saguenail, no prefácio a São horas da embriaguez; para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos ininterruptamente, de vinho, de poesia ou de virtude, conforme vos aprouver. — Antologia de Poemas em Prosa Franceses, selecção e tradução de Regina Guimarães, prefácio e notas biográficas de Saguenail, FLOP, Outubro de 2020.

domingo, 27 de junho de 2021

A GERAÇÃO INVISÍVEL

 

   Foi no decorrer da concepção de Naked Lunch (1959) que William S. Burroughs (1914-1997) começou a interessar-se pela técnica do cut-up desenvolvida por Brion Gysin (1916-1986). Performer, artista, poeta, Gysin era um entusiasta da experimentação caligráfica e da poesia sonora, criando, com o engenheiro Ian Sommerville (1940-1976), a conhecida Dreamachine. Consistia esta num dispositivo reprodutor de estímulos visuais. O propósito de tais experiências seria testar os limites da consciência através de uma exploração exaustiva das nossas competências perceptivas. Burroughs centrou grande parte do seu trabalho ensaístico na defesa e no aprofundamento da noção de cut-up, como terá disso conhecimento quem tiver lido, por exemplo, A Revolução Electrónica (Vega, trad. José Augusto Mourão, 1994).
   Embora Naked Lunch tivesse germinado numa fase anterior a este processo de maturação reflexiva, ele acabou por se transformar num embrião da obra ficcional subsequente plasmada em trabalhos como The Soft Machine (1961) ou Nova Express (1964). Entre os instrumentos fulcrais para a prática da técnica do cut-up estavam os gravadores de cassetes produzidos por Ian Sommerville, podendo hoje olhar-se para tais dispositivos como antecessores das novas tecnologias ao serviço da produção artística. O método consistia na possibilidade de combinações aleatórias de frases para geração de texto, um trabalho de colagem que punha em xeque o papel tradicional do escritor enquanto autor mas reforçava a sua função, digamos assim, enquanto encenador ou editor. No fundo, trata-se de mise-en-scène em contexto estritamente literário, o que de algum modo inaugurou o reinado da intertextualidade entretanto caído em desgraça pelo recurso exaustivo a um pastiche sem interesse e a paráfrases difíceis de distinguir do mero plágio.
   O cut-up funda-se numa complexidade que tem por princípio a consciencialização dos poderes de influência e de sugestão exercidos pela aleatoriedade, tal como para os surrealistas a escrita automática tornava acessíveis os dados do inconsciente. A noção de que o contexto determina a percepção é aqui assumida de um modo muito frontal. Logo no início deste A Geração Invisível (trad. Jorge Pereirinha Pires, Barco Bêbado, Abril de 2021), o Autor defende que «quem tiver um gravador de fita a controlar a banda sonora pode influenciar e criar uma banda visual» (p. 5). E assim é de facto. Sabem-no os técnicos de comunicação e os agentes ao serviço do discurso publicitário e político, sabem-no os propagandistas e os vendedores de banha da cobra espalhados pelos templos onde deus ainda boceja.
   Estamos num terreno onde a psicologia se cruza com a produção artística, mas estamos também num campo onde a produção artística foi sendo apropriada como sustento de todo o tipo de falcatruas. Vejam-se as encenações dos comícios que hoje têm a configuração de autênticos espectáculos, retire-se-lhes o som e fique-se apenas com a imagem ou isolem-se-lhes as imagens e fique-se apenas com os sons. Os efeitos são devastadores. Para William S. Burroughs este foi um campo profícuo de testagem. Se podemos sublinhar um dado comum em toda a sua obra por nós conhecida é a experimentação continuada dos limites da psique visando a transposição das fronteiras que impõem paradigmas e sustentam todo o tipo de manipulações.
   Eternamente apaixonado pelo oculto, pelas alterações de consciência provocadas pelo consumo de drogas, pelo xamanismo, pelas visões místicas e pelas metamorfoses exaltadas através de diversas técnicas apontando para transposições da realidade e para um além da normalidade convencional, o interesse do autor de Naked Lunch é, antes de mais, libertador: «tais exercícios trazem-vos uma libertação das antigas cadeias de associação» (p. 13). Os desafios a que se propunha em busca de sentidos surpreendentes tinham na sua origem um projecto que, no limite, é também ele sociológico e político: «desfazei o programa dessas velhas fitas» (p. 15), ou seja, libertai-vos dos padrões e dos uniformes, ide ao encontro da vossa individualidade.
   Por outro lado, encontramos no seu trabalho uma lúcida antecipação do modo como os poderes (político, económico, religioso, militar…) assimilam estas técnicas para as subverter num contexto massivo. Interrogamo-nos hoje sobre que outra coisa farão os programadores das novas tecnologias da sociabilidade e da comunicação, com os seus critérios particulares de corte e costura e os seus algoritmos deterministas pervertendo a aleatoriedade individual em prol da manipulação colectiva: «se quereis espalhar a histeria gravai e reproduzi as reacções mais estúpidas e mais histéricas» (p. 15). Na síntese metodológica que ensaia, A Geração Invisível é, em sentido restrito, um contributo para a compreensão de uma técnica de produção artística, mas, em sentido lato, ajuda-nos a pensar o que de invisível gera os factos por nós percepcionados. Das armas de destruição massiva que levaram à invasão do Iraque ao império das fake news que põe e depõe governos, exemplos não faltam que comprovem como «sonoras buzinadelas de uma buzina ausente poderão ocasionar um acidente» (p. 6).  

sábado, 26 de junho de 2021

J.B. VÊ CHEGAR O FIM

 


J.B: (Afastando-se da cama na semiobscuridade.) Eles entram na minha cabeça e descem-me pelo corpo. Até ao coração. À barriga. Ao sexo. Tornei-me incapaz de fazer amor. Tenho a impressão de que eles estão sempre aqui, entre mim e ti. E instalaram-se no meu interior. Tornaram-se bocados de mim  próprio e eu um bocado deles todos. Somos todos parecidos. Já não nos parecemos com nada. (Pega numa garrafa de whisky J&B a três quartos vazia e emborca grandes goladas da sua bebida favorita.) Pobre J.B.! (Golada.) Ele era o mais feliz dos homens. A mulher amava-o — ela não teria adormecido enquanto ele se consumia. Eles tinham dois filhos adoráveis — um rapaz e uma rapariga. Mateus e Josiana — ele chamava-lhe Jo ou Josi. (Golada.) Era o J.B. do passado. Tinha um trabalho estável, um apartamento muito seu. E, sobretudo, tinha esperanças, todas as esperanças. Que a sua mulher lhe desse um terceiro filho (golada), que ela deixasse de trabalhar — ele não gostava de a ver chegar arrasada depois de um dia na caixa do supermercado. Que os seus três filhos fizessem cursos a sério, que singrassem na vida. Esperanças que nos fazem viver, que nos aquecem o coração. Com ideias destas na cabeça não é preciso jogar no Totoloto. (Golada.) Podia avançar com os pés bem assentes. Sentia-se rico com tudo aquilo. Quarenta anos. Ele ainda era jovem. O futuro estava cheio de promessas... (Golada.) Agora já não resta nada. Nada. Só uma acumulação de catástrofes. Uma parede intransponível. Dá com a cabeça contra ela. A parede entrou-lhe na cabeça. Já não sobra nada. Só o fim... O fim das possibilidades. (Murmurando.) Gladys, socorro! (A garrafa de J.B. está vazia. Ele vai-se abaixo.)

Jean-Pierre Sarrazac, in O Fim das Possibilidades, Húmus, coleção Teatro Nacional São João, trad. Isabel Lopes, Março de 2015, pp. 32-33.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

O TELL DO LARGO DE SANTOS

 


   São coisas que acontecem, acidentes. Evitáveis? Inevitáveis? Só Deus, a existir, saberá. O escritor William S. Burroughs vivia no México com Joan Vollmer. Numa noite de copos, com o arraial montado no Bounty Bar, Burroughs lembrou-se de imitar Guilherme Tell. De vez em quando dava-lhe para aquilo. Sucede que a pontaria do americano não estava tão afinada como se julga ter sido a do suíço. Joan colocou um copo sobre a cabeça e William disparou. Falhou o alvo, a mulher morreu. Saiu torto o decalque. É uma daquelas histórias trágicas que adquirem com o passar dos anos um significado algo anedótico. Mas foi mesmo assim, verdade verdadinha, por muito que custe acreditar.

   Há coisa de 9 meses, tantos quantos leva um ser humano a vir ao mundo, também foram diversos os alvos falhados. O país andou três meses consecutivos (faço as contas por baixo) a discutir a realização da Festa do Avante. A excitação foi tanta que levou uma conhecida pivot de informação a apresentar como verdadeira, em pleno Jornal da Noite, uma capa do New York Times que era falsa. Fake news, como agora se diz e muito se pratica. Real e verdadeiro foi, e por tal merece ser lembrado, o discurso hipócrita de um dos guilhermes desta vida.

   João Cotrim Figueiredo, deputado único da Iniciativa Liberal, queixava-se então dos privilégios dos partidos. «Os direitos que os partidos políticos têm não devem ser mais do que aqueles que os cidadãos têm», salientava, reclamando das centenas de eventos cancelados em tom que diríamos tão certeiro como a pontaria de Wilhelm: «se os organizadores não puderem garantir as regras, não podem realizar o evento e ponto final». O PCP cumpriu, a festa fez-se, os críticos engoliram em seco a capacidade de organização dos comunistas. São coisas que acontecem, acidentes.

   A dúvida que agora nos assalta é acerca da durabilidade da coerência de um político liberal. 9 meses de gestação serão suficientes para virar o bico ao prego? Tudo aponta para que assim seja, pelo que não devemos espantar-nos com o arraial liberal levado a cabo na Lisboa entretanto sitiada. Santo António, o que pregava aos peixes, tinha de ser comemorado com sardinhas e minis e barraquinhas, tudo assim muito mini, inho e inhas, independentemente do parecer desfavorável da DGS. A coerência dos liberais é tipo um martelo de São João. Faz barulho mas não aleija. E lá fomos nós mimoseados com mais uma de muitas dessas festinhas que têm feito as delícias do vírus, confraternizações de gente que se está nas tintas para máscaras e mostra mais interesse noutros álcoois que nãos os desinfectantes. Distanciamento? Para quê?

   Até brincadeirinhas ameninadas à Guilherme Tell tivemos, embora com resultados mais ao estilo do infeliz William S. Burroughs. Falharam os alvos todos. Os pimpolhos da Iniciativa Liberal adoram estas coisas, são brincalhões, entertainers com o beneplácito de uma comunicação social rendida ao espectáculo. Só isto explica que, desta feita, ao contrário do que se passou há 9 meses, tenhamos sido poupados à indignação encolerizada do especialista em assuntos marcianos da SIC: José Gomes Ferreira. Deste e doutros como este, agora menos incomodados com tais procedimentos.

   O que chateia no arraial-comício da Iniciativa Liberal não é a incoerência desta gente, que não surpreende nem faz mossa. Mais do mesmo. O que verdadeiramente incomoda é, por uma vez na vida, sermos obrigados a não discordar totalmente de Rui Rio: «Como é possível a IL ter criticado o PCP e agora ainda fazer pior que os comunistas?» Dizemos em parte porque os comunistas não fizeram mal, fizeram tão bem que até podiam administrar cursos e workshops sobre como fazer. Infelizmente, aquilo que para os liberais era há 9 meses um atentado à saúde pública transformou-se, por obra e graça de quantos santos vos aprouverem, num exemplo de esperança.

   As flechas disparadas por Cotrim Figueiredo e seus caniches falharam o alvo. Todas. Moral da história: as pessoas queixam-se em geral do cinismo, umas sem saberem do que estão a falar, outras por desgraçadamente desprezarem o sentido de humor dos cínicos. Mais nefasta é a hipocrisia. É o democrata que actua como tirano, cerceando a contradição e impedindo o debate crítico. É o liberal que actua como um conservador. É o moralista arrivista, egocêntrico e chico-esperto. É o social-democrata que se confunde com o socialista na esmola que dá ao pobre para se isentar dos crimes que comete e do egoísmo que propaga. É a ausência de coluna vertebral, uma sociedade de invertebrados sem palavra em que se confie nem gestos inspiradores. Pior do que a famigerada cassete comunista é o disco riscado do capitalismo e o CD danificado dos liberais.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

Caldas da Rainha, 18/0/2021



O Palhinhas & Ca. 

colecção periódicos locais/mensais

número 71

directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia

Junho de 2021


quarta-feira, 23 de junho de 2021

ILUMINAÇÕES

Chamemos-lhe desterritorialização da memória. Desconheço se alguém já cunhou a expressão, não sendo relevante para o efeito. É um dos mais graves problemas da actualidade, do hodierno, disso a que dais o nome de pós-modernidade e contemporaneidade. Reflecte-se quotidianamente em dois momentos flagrantes, quando alguém nos remete para um tempo que foi o seu, como se esse tempo e o tempo em que se está houvesse algum tipo de cisão, como se o nosso tempo não fosse sempre o tempo presente, e reflecte-se também nesse processo de desmemoriamento operado por todos quantos querem fazer crer na ausência de um passado, como se o fruto colhido na estação certa não tivesse madurado, como se entre esse fruto e as raízes saudáveis da árvore em que ele é colhido não houvesse ligação alguma. Apodrecidas as raízes, morta a árvore, extinto o fruto. Não há presente sem passado, não há futuro sem presente. Dado adquirido, mas ludibriado pelo simplismo superficial e a trágica simplificação da história em curso nestes dias determinados pelo urgente, pela novidade, pela velocidade informativa, pelo fugaz e pelo efémero. A velocidade a que andamos distrai-nos da lentidão dos fluxos históricos, da insistência e perseverança por detrás dos grandes acontecimentos. Temos de reaprender a lentidão. Sem o mergulho esforçado nas raízes nada se compreende e tudo se reduzirá ao mero entretenimento, do qual não provém transformação alguma benéfica para a humanidade. Apenas distracção. Ora, um povo distraído é um povo amorfo, imbecilizado, incapaz de se insurgir contra a maldade, é um povo escravizado. Sabiam-no os romanos com os seus circos, sabe o poder destes tempos em que as horas de sono foram substituídas pelo sonambulismo social. Nunca tanta luz iluminou tanto cego. Apodrecidas as raízes, morta a árvore, extinto o fruto.

Juraan Vin, “Diários”
(tradução minhas)

terça-feira, 22 de junho de 2021

nas vésperas

 


seria pelo quente
no sumo do verão
ou nas vésperas das amendoeiras.
era na cave ainda a papel químico
meu pai e minha mãe batiam as teclas do inglês
e das ciências na velha máquina de escrever.
eu lembro-me esquecia-me
n'As Minas de Salomão ou n'A Vida Quotidiana no Tempo de...
devorava ainda o Mandrake e os Astérix todos
sonhava com o reino de Asgaard
lutando ao lado de Thor.
era ainda no tempo das amígdalas
e tudo era magia os dias
apenas um truque cujo mistério não se punha
em tardes cheias de amêndoas e futebol.

Pedro Teixeira Neves (n. 1969), in Chiasco (Quasi, 2006). Jornalista de profissão durante largos anos, fotógrafo premiado, ilustrador, estreou-se com um romance intitulado Uma Visita a Bosch (2003). O primeiro livro de poesia surgiu apenas em 2006, nele se antevendo o gosto pelas formas curtas e por uma depuração próxima de alguma poesia oriental: «agarra essa pedra e abraça-a. / nem sempre o silêncio / tem a sua qualidade» (a qualidade do silêncio). As raízes, a ligação à natureza, o lirismo de pendor intimista, sofreram diversas inflexões ao longo dos livros subsequentes. A Tartaruga de Bob Wilson (Glaciar, 2018) pôs a claro a multirreferencialidade que o livro inicial induzia, em poemas amiudadamente críticos de um tempo detergente, como lhe chamou Ruy Belo, que a cultura — literária, cinematográfica, dramatúrgica, musical — ajuda a ultrapassar pela deslocação operada para um mundo alternativo ao quotidiano noticiário das superficialidades e canalhices humanas. Em Uma Vírgula Depois (Glaciar, 2019) sobressaiu o diálogo de tipo existencial com o poeta Ivo Machado, um livro escrito a duas mãos em que os poemas se apresentam sob a forma de missivas. A Parte que nos Toca é um poema longo (Labirinto, 2020), uma cosmogonia em tom apocalíptico com envios sucessivos para o texto bíblico. Já em Os trabalhos mais leves (69 poemas de jubilosa compenetração) (Húmus, 2021), a veia satírica, de pendor erótico, deixou transparecer a dimensão lúdica de uma poesia que não descarta o divertimento e assenta, sobretudo, numa exploração continuada das possibilidades expressivas da linguagem poética.  

segunda-feira, 21 de junho de 2021

WHAT’S GOING ON (1971)


 

Foi o décimo primeiro álbum de estúdio de Marvin Gaye, mas o primeiro em que aparece como produtor com os Funk Brothers. A relação com a Motown não era pacífica, Gaye queria libertar-se da pressão dos sucessos imediatos. O álbum resultou mais conceptual do que era usual no universo soul, narrando a história de um veterano do Vietnam de regresso aos states como testemunha das injustiças cometidas durante a barbárie. Drogas, pobreza, violência, crueldade, preocupações ecológicas — Mercy, Mercy Me (The Ecology) — perpassam nas letras das canções.  É o álbum de Inner City Blues (Make me wanna Holler) e God is Love. O tema que ofereceu o título ao álbum foi inspirado num acto de brutalidade policial numa manifestação pacifista em Berkeley. Não a queriam lançar pelo conteúdo explicitamente social, demasiadamente político para as exigências do entretenimento radiofónico. Gaye respondeu com greve, não voltaria a lançar nada se não lhe publicassem a canção. Foi um sucesso, de vendas e de críticas e de prémios. Por essa altura recuperava de uma depressão profunda e estava dependente de drogas. Tentou suicidar-se várias vezes. Morreria com 44 anos, em 1984, asassinado pelo pai enquanto tentava travar uma discussão familiar. As cinzas foram espalhadas no Oceano Pacífico:


Mother, mother
There's too many of you crying
Brother, brother, brother
There's far too many of you dying
You know we've got to find a way
To bring some loving here today, yeah

Father, father
We don't need to escalate
You see, war is not the answer
For only love can conquer hate
You know we've got to find a way
To bring some loving here today, oh (Oh)

sexta-feira, 18 de junho de 2021

STROLLIN’ WITH PAM (1955)

 


O correio atrasado, as leituras atrasadas, e no entanto uma agitação tremenda no corpo tenso. Só os nervos chegam sempre a horas nesta neblina do espírito que satura músculos e ossos e provoca roturas de ligamentos na língua. É noite feita, tudo dorme à minha volta, excepto a jugular deste tronco que por dentro liga vontade e medo. E o alarme do carro do vizinho, disparado porventura ao som da minha respiração ofegante. Não é bem medo, é o impedimento sufocante dos demónios atreitos ao espírito. Ouço repetidamente o mesmo disco de Phil Woods, vejo-o rodar mil e uma vezes repetidas sobre o eixo e deixo-me hipnotizar pelo movimento giratório. Li que foi casado com a ex-mulher de Charlie Parker. Movimento giratório. Também gostava de me casar com a ex-mulher dum génio, talvez aprendesse alguma coisa por contágio. Estes cruzamentos nada significam, bem sei, mas tem piada a coincidência. Woodlore é um belíssimo álbum que dispensa tais alusões e parvoíces, mas a noite caiu envolta em borralha e eu estou a modos que precisado de estridências. Parker não entra nas contas. São apenas formas de dizer, de não cair, de manter vertical, digamos, o sopro. Agora a sério: tudo dorme à minha volta, excepto a jugular deste tronco que por dentro liga arbítrio e solidão.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

UM POEMA DE ARTURO CARRERA

 


VISÍVEL, INVISÍVEL
 
Que esta dádiva perdure,
que os pássaros imitem
o balido dos bezerros
ao anoitecer. A gata camuflada
sob o vapor das boas-noites.
 
E misturas, matizes,
mas como duas nuvens se misturam
e como no incenso entra o soluço do incenso
fazendo-nos sentir a sua limpeza,
a sua anulação de falsas sensações.
 
E como no entardecer penetra a noite
sob a sonora solidão dos grilos
— a música silenciosa dos pequenos pirilampos.
 
e que mais uma vez se unam essas rajadas de som
à única voz em que vacilamos juntos.
Sons que ignoravam ser iguais,
eram iguais: exercícios secretos de alegria
 
visível como o espiado,
como um discurso do visível no invisível,
a lagoa.
 
Arturo Carrera nasceu em 1948, em Coronel Pringles, província de Buenos Aires. Com César Aira, aos 18 anos, fundou a revista El Cielo. As primeiras obras surgiram nos anos de 1970: Escrito com un nictógrafo (1972), Momento de simetria (1973), Oro (1975). Privou com Alejandra Pizarnik e Osvaldo Lamborghini. Colaborou, na década de 1980, com a revista XUL. Traduziu Agamben, Pasolini, Mallarmé, Penna, Michaux, Bonnefoy, entre outros. Publicou os ensaios Nacen los otros (1993) e Ensayos murmurados (2009). Em 1985, foi-lhe atribuído o Prémio Mauricio Kohen, o primeiro de várias distinções que a sua poesia tem merecido.

terça-feira, 15 de junho de 2021

FRAGMENTO DE UM CADÁVER


[e outros tubos científicos.]

Das diversas razões para a criação de actores
a dança é a única que permanece intacta

eles também são cinza, ar, incenso
tudo o que de resto serve à morte

In Cadáver Esquisito, plaquete de Jorge Velhote, m. parissy, Vitor Vicente, colecção Monte Côncavo, 01, Edições Sem Nome, com fotografias de Jorge Velhote, 2021, s/p.


segunda-feira, 14 de junho de 2021

MALES DE INVEJA

Cresci num meio em que as mezinhas e as tisanas produziam milagres, pelo que não me espanta que a minha publicação em weblogs com mais visitas seja uma oração contra o mau-olhado. Havia bruxas e bruxos na terra, videntes e médiuns capazes de adivinhações fantásticas, inacreditáveis. Estes xamãs das tribos civilizadas em território lusitano têm agora telemóveis potentes através dos quais marcam e vendem consultas. O zoom e a distância não são impedimentos para os feiticeiros com cardápio e preçário fixo. Actualizaram-se, acompanharam a evolução dos tempos e servem-se das novas tecnologias como outrora se serviam de bolas de cristal. Tudo isto soa a treta, mas há um fundo de verdade neste acreditar. Ouvi muitas vezes que no quebranto repousa um poder mortal. Males de inveja tratam-se com azeite e água, banhos de sal e orações certeiras. Neste caso, não está em causa um qualquer poder exercido sobre energias terceiras. Estará antes uma forma de reforço da nossa autoconfiança. A autoconfiança é o que nos protege da inveja. Não vem da sorte nem do acaso, alimenta-se com fiúza. Anda bater, tu bates bem, é o mesmo que dizer acredita em ti, tem fé em ti. Para o efeito, azeite, água e mantras também servem. Têm dúvidas?

domingo, 13 de junho de 2021

ANJO DA GUARDA

Há meses que não entrava numa pastelaria para tomar o pequeno-almoço. Quebrei hoje o jejum, depois de deixar a Matilde no Conservatório em Óbidos. Estacionei o carro próximo da Raul Proença e dirigi-me ao balcão da minha pastelaria preferida nas redondezas. Não direi qual para evitar publicidade não paga, actividade que muito prezo mas já me cansa. Pedi um café cheio e um pampilho. A moça de serviço volteou os olhos, como quem se coloca alerta perante ameaças terceiras, baixou a máscara à altura do queixo e sussurrou qualquer coisa que não percebi. «Desculpe, não entendi», disse-lhe. Ela tornou a voltear os olhos, inclinou-se ligeiramente na minha direcção, e movimentou lentamente os lábios como se eu fosse especialista em leitura labial. Não sou. Num gesto espontâneo, baixei a máscara para ver e ouvir melhor. Desculpei-me mais uma vez. «Devo estar a ficar surdo», comentei. Ela sorriu, muito simpaticamente, e respondeu-me soletrando um «Não estão frescos.» «Ah», exclamei com contentamento pela resolução do enigma, «os pampilhos não estão frescos». A patroa, num lugar recuado atrás do balcão, encarou subitamente comigo e com a empregada, acenou com o que me pareceu ser um esgar de desaprovação. Não augurei nada de bom para a empregada. Lamento. Passados alguns segundos de tensão entre os segmentos deste triângulo desencontrado, a moça concluiu justificando os cuidados: «Só estava a pensar na sua barriga.» Senti-me inesperadamente incomodado, não tanto pela completa ausência de perspicácia que demonstrei ou pelo olhar reprovador da patroa, mas pelos pensamentos da pobre rapariga. Não consigo imaginar o que possa ser de tormento para alguém pensar na minha barriga. Eu, há anos que me libertei de cogitações tão deprimentes. Daí que tivesse solicitado um pampilho. Não havendo deles frescos, agradeci a deferência e regressei a casa com o pequeno-almoço por tomar. Encontro-me agora mesmo a beber um chá de menta e a preparar-me para lançar mãos ao trabalho. A barriga sente-se bem, mercê do anjo da guarda das pastelarias.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

DIA DE PORTUGAL

O que nos vale em Portugal é haver sempre alguém melhor do que os demais. E coincidência extraordinária, essa criatura tem os melhores amigos do mundo. Que, não chegando porém a seus pés, são também todos muito bons e geniais. País incrível, o nosso. É talvez a nação com mais génios por metro quadrado. Lamentavelmente, não está ao alcance da nação reconhecer tamanha riqueza. O que faz de nós não só a nação com mais génios por metro quadrado, mas também aquela com mais génios absolutamente inúteis.

terça-feira, 8 de junho de 2021

KAHLIL THE PROPHET (1963)

 


Uma história sem interesse: ainda relativamente novo, o saxofonista alto Jackie McLean sacou de uma faca para se defender de um Charles Mingus alterado. Este esmurrara-o, não se sabe porquê. Ou sabe-se, mas eu não quero saber. O que me interessa é a interrupção do gesto. Imaginemos que McLean tinha esfaqueado fatalmente Mingus. Estávamos no início da década de 1950. Imagine-se o que se perderia com Mingus morto e McLean preso, provavelmente para o resto da vida. Em liberdade pôde viciar-se em heroína, gravar Destination Out! com Grachan Moncur III, genial compositor de quem se fala tão pouco, pôde fundar o African American Music Department e formar o filho René McLean, criar com a sua mulher, Dollie McLean, o Artists Collective, Inc. de Hartford, pôde ser uma pessoa normal e deixar um legado. Um gesto, um simples gesto tudo altera, desvia a rota, trepana-a e desconcerta-a. Num passeio pela serra, um passo a mais na direcção do abismo pode ser fatal. Mas não é à morte súbita que me refiro, é antes a uma vida inteira e demorada carregando o peso do gesto determinante, da decisão que nos perseguirá para sempre como uma sombra de que nos libertaríamos houvesse essa possibilidade. Momentos em que a vida inteira se inclui como gérmen numa barriga de aluguer. É a esses momentos que me refiro e à dúvida que fica sobre como seria o presente se não tivéssemos passado por eles, se tivesse sido outro o caminho escolhido na encruzilhada diária, contínua, da existência. Momentos proféticos, oraculares, decisões em que o eco no futuro escutado repousa em silêncio como ruído em potência.

domingo, 6 de junho de 2021

PRIMEIRO POEMA DO EXÍLIO

 


I. EXÍLIO

1.
um não lugar sobre a terra

prende-se ao coração
como animal de trela
a terra a que chamamos mãe
até que um dia crepuscular
o sol lhe bate de frente como um castigo
e a recusa progenitora e a renega cão vadio
e aos filhos trai impondo o extermínio
é quando o chão se mistura com o corpo
e pasa a ser pele preocupação fissura
bicho doméstico que nos olha em fome
quando o em volta começa a esfumar-se
incêndio na carne impropério
e a linguagem parece desaprender o seu desígnio
de ser ponte ramo ou rio

mas tem a terra mais sabedoria do que os homens
talvez porque não sente ou sabe nada ser para sempre
e pressentindo se antecipa ao sentimento
murmúrio assinala o tempo de partir o tempo de esquecer
e assim ensina aos homens que é longe das paixões
o curso natural das coisas e das casas
donde que o que tinha sentido e afecto
assume a sua finitude a violência do destino
e então o lugar passa a ser um não-lugar
a terra um vazio de deus e do crer

em menos de um céu de tempestade
a pele de cordeiro que o homem veste
leva-o a duvidar do sentido e da pertença
sobre o solo milenar que chora
a ficar em cuidado e a terra súbita parece abrir-se
como se quisesse examinar-se por dentro da secura
nos côncavos da vertigem e da insânia
a terra que já não chama o colóquio das virgens
a contemplação das sombras em torno
da fogueira dançante das crianças
por dentro do riso e do encantamento
em abono do mal a terra parece gritar
incompatibilizada com as searas as estações e as magias
como se um tempo maduro por excesso
houvesse nela lavrado um abismo insuperável
irmanando vermes e pedras homens e plantas —
o absurdo da cruz ou da coroa em espinhos.

e o dia vem em que aos augúrios e aos anciãos já ninguém
concede préstimo ninguém consulta ou interroga
mas como proceder quando já não nos reconhecemos
na forma do humano? como regar a nossa vontade
e alimentar o riso dos nossos filhos agora sem o dom das águas?
sem o sopro das borboletas o outro do trigo?

tornou-se noite antes da noite
a luz e o mel dos dias devêm memória corrupta
como o são as liras e os cantos de barro das correntes
águas que outrora se diriam cavalos sem freio
promessas de delírio e encantamento
cujos peixes eram dança conluio de brilho e abastança
milagres do excesso e abundância
ao próprio vento como a um jarro se quebraram as asas
derisão ou fundo de vaso grego
negra narrativa do sombrio
os pássaros partiram para outros jardins
a inscrever a liberdade noutros céus
o centro da aldeia a malga o pão partilhado
ficaram vazios escoroados agora dança nenhuma
ou invocação de divindades fará reverberar
um estremecer no olhar dos velhos
exumando o passado das tardes e vinho
rente ao aroma florescente dos sexos ao hino das mulheres
a caça e o sangue rescendendo como dádiva

era isso quando havia sombras vivas sobre a terra
porque as árvores eram ainda de raízes fundas
e delas brotavam ramos e folhas e raios de luz
e havia formigas e libelinhas e despreocupação
fartos os seios das mulheres
e todo o tempo parecia breve para tanto viver
e pouco ou nada aquele perturbava
no desconcerto do ordenado caos do acontecer

mas até o chão reclama quando é muita a rega
e tudo aquilo que era tal doce lembrar
tomava lentamente as formas do deserto e ameaça
enleio de ferida engastada nos rostos
a fome sugava lentamente os ossos do gado
a desconfiança medrava como cancro e até entre amigos
a música por vezes se calava e começavam as palavras
a ganhar peso e a pensar duas vezes
antes de estenderem a mão ao outro.
e veio a privação que sucede à fome
e com ela o exército da miséria e cegueira das almas
vieram as sombras debruçadas em pesadelos
e com elas os medos cruéis
as noites de maus pressentimentos
sonos inquietos luz em fuga — e era esse um tempo
em que a palavra deus já quase nada respondia.

Pedro Teixeira Neves, in A Parte que Nos Toca, Editora Labirinto, s/d (2020?), pp. 9-11.

sábado, 5 de junho de 2021

ROSTOS DA MORTE

 

Tendemos a encarar a morte ou como o fim da existência material ou como o princípio de uma vida imaterial, a qual só por postulado admitimos. Dessa não temos experiência, tal como não temos experiência da nossa morte, pelo menos da morte definitiva, a que interrompe a contagem do tempo, a que suspende a passagem das horas, a que delimita a presença neste mundo empiricamente assimilado. A experiência que temos da morte vem da observação da morte dos outros, vem do sentimento de perda instaurado pelo desaparecimento do outro. Experiências de quase morte não são experiências de morte, o advérbio demarca a diferença entre facto e aparência. Uma morte aparente não é uma morte. O último ano e meio universalizou, porém, essa relação com a morte que imaginamos ser de há muito aquela que têm os povos ditos menos favorecidos, as vítimas dos conflitos insanáveis e das eternas querelas sanguinárias. Passámos todos, o mundo inteiro, a estar em guerra, ainda que não escutemos o rebentar das bombas nem cheiremos napalm pela manhã, ainda que, de um modo ou de outro, e onde tal é possível, permaneçamos protegidos pela paz silenciosa dos abrigos a que damos o nome de lares. Fechados em casa é como se o mundo deixasse de existir, o tal mundo dos atentados e das ameaças, o de todos os perigos imagináveis, embora dentro de casa também se mate. Damos graças, no entanto, por não vivermos na Síria ou na Serra Leoa. Aí os níveis de intimação são infinitamente superiores àqueles a que estamos habituados em Portugal ou no Canadá. Mas o último ano e meio foi de invasão. A morte invadiu-nos. Desde que a pandemia assumiu protagonismo mediático, o nosso dia-a-dia noticiário passou a ser pautado pela contabilidade dos mortos. Os pivots de telejornal falam da morte como quem anuncia os resultados de um campeonato de futebol. Que efeitos serão produzidos por este novo paradigma é ainda cedo para prever, os mortos continuam a ser contados. Relatos de profissionais de saúde em desespero, imagens angustiantes de cremações e enterros em massa, sem direito a luto nem a rituais fúnebres, perdurarão nas nossas consciências durante largos anos. A morte é, pois, um tema premente. Em Rostos da Morte (Relógio D’Água, Abril de 2021), o filósofo Byung-Chul Han procura compreendê-la para lá da conjuntura social, cultural, política, histórica. Fala em «alguns tipos de morte». As investigações filosóficas que nos propõe só de um modo indirecto se ligam à actualidade, resultam de um trabalho especulativo em torno das obras de Adorno, Heidegger, Levinas, Derrida, em busca de uma ontologia da morte que permita entendê-la para lá da experiência material do cadáver.
   Com Heidegger tomámos consciência não só do ser para a morte que é estar aqui como também dessa perscrutabilidade a que a existência do cadáver está sujeita. O cadáver não é o fim do eu, poderá ser dissecado, estudado, reaproveitado. O fim, o termo, aquilo que acaba experiencia-se diariamente e de modos tão frugais que nem lhes atribuímos relevância. O fim de uma leitura, o fim de uma viagem, o fim de uma refeição, são formas de experienciar uma finitude que acabamos por atribuir a tudo quanto vive. Viver é estar à morte, mas, paradoxalmente, «é a morte que mantém viva a vida». Isso mesmo revela Adorno ao falar da vida enquanto quintessência da morte, a possibilidade de um ser vivo se conservar ao prodigalizar-se. Platão, no Fédon, faz da morte objecto de aprendizagem para chegar à imortalidade da alma. Viver é o contrário de estar morto, viver é um ir morrendo, na morte dá-se a vida autêntica, a eterna, ideal. O que nos leva a recalcar a morte será a dor que ela provoca, a dor de nos sentirmos efémeros, essa mesma dor que relativiza a heroicidade e subjectiviza a coragem. Não temer a morte, no limite, redunda numa ausência de temor à vida, uma ausência de temor que estará na origem do ateísmo. O ateu que sofre com a morte não sofre por se sentir finito, a eternidade é-lhe irrelevante, mas antes por se descobrir impotente.
   No ensaio Sobre a Ética da Morte, Byung-Chul Han recorda que «não há nada para dizer ao moribundo»: «Toda a palavra de amor perante o morrer do outro o distrairá da sua solidão fundamental, a única em que seria possível a sua morte própria». Talvez o amor nos distraia da morte, talvez a morte funde uma necessidade que leva a isso a que chamamos amor. Amamos o outro para nos distrairmos da morte, o amor funda a geração, a criação e a recriação, o amor oferece-nos a possibilidade de uma continuidade e a ilusão de que não estamos irremediavelmente sós, esse amor que fundindo confunde. Levinas dirá que se morre na solidão. A experiência da morte é, pois, a experiência de uma aporia. A morte é e não é ao mesmo tempo, é um alguém ninguém. 
   A propósito de Derrida, o filósofo sul-coreano questiona: «O “mortal” não será realmente para Derrida mais do que o animal nervoso, inquieto, perseguido? Quando será possível serenar-se?» A ideia de serenidade diante da morte é uma herança antiga que o pensamento instaurou mas os factos desmentem. Neste livro não se reflectem o suicídio e a eutanásia enquanto desejo de morrer, o desejo da morte do outro que alimenta o guerreiro também não se discute. Os Rostos da Morte são pacíficos pensados com tal distanciamento, tornam-se mais agrestes no contexto de situações limite em que somos levados a aceitar a morte enquanto alívio (a nossa e a do outro que nos agride, condiciona, oprime, humilha). São problemas alheios a esta obra, mas que nos levam a pensar na morte como parte integrante de uma vida inquieta na sua essência. A serenidade acaba por ser uma idealização que busca conforto para uma realidade insuportável: a ruína, a destruição, o assassínio, a guerra, o suicídio, o crime, a eutanásia, o desejo de morte, repousam no coração e na vontade dos homens, não só como meios para um fim mas também enquanto fins em si mesmo. A besta não mata só para satisfazer a sua voracidade, mas também por divertimento.
   O divertimento da morte, mais generalizado do que se julga, até em espectáculos legitimados pelo poder (touros de morte, por exemplo, caçadas, safaris, todo o tipo de barbaridades que em contexto de guerra se chamam troféus), assim como a convivência indiferente com a tragédia fatal (como aquela a que assistimos no Mediterrâneo), levam-nos a ponderar uma relação com a morte fora do subterfúgio moral da consciência humana esclarecida quanto à vida. Essas mortes a que somos indiferentes não indagam a nossa própria morte, antes reforçam a convicção de que o ser da morte não se explica senão a partir de uma compreensão do ser da vida. E no seu núcleo mais activo iremos encontrar inevitavelmente uma crueldade e uma violência que não questionam, limitam-se a actuar em função de necessidades cada vez mais restringidas ao plano da conformação. É a vida, é isto a vida, já não sofre, é a lei da vida, ouvimos dizer num funeral. Palavras que não reconfortam senão quem as profere, pois nelas está inerente a ideia de uma impotência que só na crueldade vislumbra libertação. Na realidade, a morte não é a lei da vida. A lei da vida seria viver, não fosse matar.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

ELOGIO DOS TUDÓLOGOS

 


   Ansiedade e insónia, maleitas antigas que a idade e o ar dos tempos têm ajudado a mitigar. Com a idade, a gente aprende a relativizar a gravidade dos problemas. Com o ar dos tempos, cravejado de problemas, a gente vê-se na obrigação de ficar selectivos e criteriosos, usando de esperteza para encontrar remédio onde outros vislumbram aflição e motivo para angústia.

   Por via de confinamentos, emergências e calamidades, recolhido no lar, dei comigo a navegar num mar de especialistas que sobre tudo peroram e sobre nada calam. Um que apareça a concluir “não sei”, e a gente alça as orelhas como canídeo expectante. Não sabe? Como é possível? Hoje toda a gente sabe tudo. Que raio, alguém assumir um pouco que seja de ignorância onde a genialidade, ao contrário do bom senso, parece ser a coisa mais bem distribuída do mundo.

   Portanto, em terra de génios quem ignora é rei. A ignorância ressuma excepcionalidade. Apercebi-me disto, pela primeira vez, quando era livreiro, tantos os pais e as mães e os tios e as tias que me pediam sugestões para os seus meninos. Questionados sobre a idade dos petizes, lá vinha o “mas” sublinhando espantosas qualidades: 5 anos, mas muito desenvolvido para a idade; 8 anos, mas já parece que tem 15; 15 anos, mas de uma maturidade inaudita. Como podia eu saber, ou sequer imaginar, ser este um país de gente sobredotada? A gente olha à volta e não se nota, vê-se ao espelho e foge.

   «Quantos deve haver no mundo que fogem de outros porque não se vêem a si mesmos!», exclamava o bom Lazarinho de Tormes. E com razão. Quase 500 anos passados sobre as desventuras desse maltrapilho, eis-nos chegados ao Portugal dos tudólogos. São uma bênção, um conforto para a alma dos néscios e um consolo para o espírito dos estúpidos. Inda há dias, contava a um bom amigo, cozinheiro de profissão, dos efeitos benditos que fui descortinar na melhor das tisanas, a programação de tudologia disseminada por 500 canais televisivos ao dispor de precatados cidadãos. Até o Porto Canal tem os seus. Não lhes fixei o nome, que para tais fármacos as farmácias não exigem receita detalhada, mas há por lá um rapaz, que aparecia a comentar bola e agora aparece a comentar tudo, que é tiro e queda. Mal o escuto, ferro-me a dormir.

   Entre ancestrais e anciãos, os do “Eixo do Mal” poupam-me milhares em benzodiazepinas. Aurélio, Oliveira, Marques Lopes, Luís Pedro Nunes e Clara Ferreira Alves? Benza-os Deus e todos os santinhos. Não os escuto há 10 minutos, já a mulher fecha a porta da sala para não me ouvir roncar. Em bom rigor, acordo assim que os ditos se calam, as vozes dos tudólogos devem produzir um feitiço qualquer, são um poderoso soporífero pelo qual devemos sentir-nos agradecidos. Não sei se curam covid-19, embora tudo saibam acerca do tema, mas insónias curam. Sou a prova factual disso mesmo. A família não me deixa mentir. Se me queixo de sono, noites mal dormidas, buscam na box um desses programas e abandonam-me na sala, deitado na sofá, como a um viciado numa casa de ópio.

   Num destes fóruns, na SIC Radical, é suposto expurgarem-se irritações semanais. Aquilo é de uma eficácia inacreditável. Anda por lá uma Carla Hilário Quevedo que é música “new age” aos meus ouvidos, ouvi-la é como se alguém soprasse ao ouvido, muito baixinho e serenamente, delicadamente, descansa filho, descansa, vem aí soninho bom e descansadinho, tranquilo. Ela abre a boca, eu fecho os olhos. O nome do meio até lhe fica mal.

   Devo pois um sincero reconhecimento a toda essa malta do comentário universalista, os tudólogos, sábios imprescindíveis a um sono relaxado. Melatonina? “Eixo do Mal”, “Governo Sombra”, “Irritações”, “O Último Apaga a Luz” (nome mais pertinente para um programa congénere não há)... Meus queridos e impagáveis tudólogos, envio-vos daqui um abraço sincero de profunda gratidão. O sono que me causam é proporcional à simpatia que vos tenho. Muita.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

Caldas da Rainha, 05/Maio/2021



O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 70
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Maio de 2021

quinta-feira, 3 de junho de 2021

UM POEMA DE RENATO FILIPE CARDOSO

PASSATEMPO DE UM MAPA SEM CURVAS

Há cidades imaginadas
para pessoas reais.
Há cidades reais
para pessoas imaginadas

Acontece-me estar numas
ou noutras
abrir o jornal de amanhã
e tentar encontrar as seis diferenças
escondidas num século
de liberdade
realmente imaginária.

Renato Filipe Cardoso, com João Rios, Pedro Teixeira Neves e Rui Tinoco, in Causas da Decadência de um Povo No Seu Lar, Edita-Me, Editora, Fevereiro de 2015, p. 59.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

O LAVRADOR DA BOÉMIA

 

   Santo Agostinho relata a perda de um amigo no Livro Quarto das Confissões. A violência da dor, que apenas o tempo apazigua, leva à dúvida: «o homem tão querido que perdera, era mais verdadeiro e melhor que o fantasma em que lhe mandava ter esperança». É dor do mesmo tipo aquela que ecoa no pranto do Lavrador concebido por Johannes von Saaz (n. 1350 – m. 1415), também conhecido como Johannes von Tepl. Pouco se sabe acerca da sua vida. Viveu a maior parte do tempo na Boémia e escreveu um poema de índole humanista que está na origem da peça agora publicada pelo Teatro da Rainha e a Companhia das Ilhas, com tradução de Isabel Lopes a partir da versão cénica francesa de Dieter Welke.
   O Lavrador da Boémia é um diálogo entre um Lavrador amargurado pela perda da amada e a Morte que lha roubou, um pouco à semelhança do que o realizador sueco Ingmar Bergman veio a conceber no magnífico O Sétimo Selo (1956) — embora aqui a morte jogasse xadrez com um cavaleiro de regresso das Cruzadas em tempo de peste. A discussão entre o Lavrador e a Morte, escrita num estilo filosófico muito comum em toda a Idade Média, estava ainda longe de possibilitar um jogo entre adversários tão desiguais. A desolação de um homem a tentar ultrapassar o luto da amada não tem argumentos à altura do todo-poderoso Senhor da Morte, mas, ainda assim, é de uma ousadia retórica imperturbável. A perda atiça-lhe a fúria, alimenta-lhe a raiva, impele-o a acusações que se misturam com lamentos em busca de um conforto fugidio. São uivos que ecoam desde que o homem se confronta com a finitude, mas neste caso sobrecarregados pela ausência de sentido.
   Distinguimos amiúde a morte por causas naturais das mortes inesperadas. Entre estas, as dos jovens são as que mais pesam por serem as mais absurdas. Porque morre alguém que ainda não viveu o tempo que julgamos justo viver? Porque desaparece precocemente quem aparenta estar a meio de um trajecto? O choque advém tanto da constatação do carácter contingencial da vida, sujeita ao acaso e ao acidental, logo sabotadora de uma ciência fundamentada no previsível, como da efemeridade do que vive. A dúvida impõe-se a quem parta de princípios como aqueles que vigoravam em 1401, ano em que o texto de Johannes von Saaz surgiu, e predominam em 2021: se Deus existe, qual a razão para levar tão cedo as suas criaturas? Por que razão permite Deus que uma criança morra? Neste caso, a jovem e virtuosa Margarida, a décima segunda letra, a Letra M, como no espectáculo levado a cabo pelo Teatro da Rainha em 2009, não seria merecedora de outra longevidade?
   São dúvidas legítimas, talvez mais hoje do que outrora, pois hoje podemos erguer-nos contra a vontade de Deus. Mesmo sabendo do fim inevitável reservado a tudo quanto vive, é possível questionar a ausência de sentido e especular sobre as razões de ser assim. As explicações desta Morte do humanista von Saaz são surpreendentemente racionais. A Morte racionaliza o espaço, é uma gestora de stocks, há nela uma função de organização da vida na Terra que justifica a economia da dor sugerida ao pobre Lavrador: «Quanto mais amor te derem, maior será o teu desgosto. Se tivesses amado menos, menor seria o teu desgosto». É um argumento perigoso, pois este amor pode não ter como objecto apenas o outro, mas também o próprio e até, em último caso, a vida em sentido geral. Pode a dor ser superada pelo desamor?
   Numa coisa a Morte tem razão, a sua metodologia corresponde a uma inexorabilidade que está no princípio da própria vida. É do húmus que medra a flor. O Lavrador tem dúvidas, questiona: «Quem sois vós? Donde vindes? Onde estais? Para que servis?» E a morte responde: «somos o fim da vida, o fim da existência, o fim do ser, e a origem do mundo». Eis uma ontologia da morte, se tal coisa for possível, que ainda hoje preservamos sem direito a grandes desvios. A Morte torna-se então sarcástica, impõe as suas razões a um Lavrador desesperado. O Lavrador é a vida, lavra e semeia. A Morte ceifa. Lavrar e ceifar são, no fundo, a essência do dinamismo que permite a renovação e a renovação é imprescindível para que o Tempo não cesse. Em cessando o Tempo, pois que tudo cessaria.
   Não devemos pois ser tão cruéis para com a Morte, mesmo quando ela parece ser implacável para connosco. Não tendo do homem a melhor das opiniões, como questionar-lhe a vaidade que nos aponta e a tolice que desvela sempre que se nos apresenta? O pranto do Lavrador é compreensível, mas inútil. É aceitável, mas infrutífero. Pelo menos em aparência, porque, na realidade, é desse pranto que brota aquilo a que podemos chamar uma clarividência da Morte. Ela desmente o princípio de não contradição, a sua natureza é ambivalente e dúbia, a morte é e não é ao mesmo tempo, rodeia-nos sem que a vejamos, acompanha-nos sem que a sintamos. Só a nossa própria morte não choraremos, pois quando ela chegar o medo terá partido. E o que leva ao choro, na verdade, é o medo, nada mais senão o medo. O medo do desconhecido, o medo da solidão, o medo do abandono, é o medo que nos faz chorar. O medo da morte, da morte nossa descoberta na morte dos outros.

terça-feira, 1 de junho de 2021

POSITIVELY 4TH STREET (1965)


 

Leio num poema do Pedro Teixeira Neves qualquer coisa sobre mapas em branco, as superfícies da pintura e da escrita. Lembro-me de uma canção do Dylan que pode ser interpretada à laia de carta aberta, sem refrão, publicada isoladamente, como single, fora de qualquer álbum onde pudesse ser parte integrante de um conjunto que lhe conferiria necessariamente outro significado. Foi, no entanto, um single de sucesso, acabando por figurar em várias colectâneas do singer songwriter  nobelizado em 2016. A associação por mim produzida entre o poema e a canção tem que ver com dúvidas pessoais acerca da asserção encontrada nos últimos quatro versos do Pedro e, quanto a mim, desmentida pela canção do Bob. Diz o poema: «escrevemos e pintamos sempre / a página em branco / o vazio aguardando o fulgor da voz / o lugar da mão». Diz a canção: traíste-me, és um hipócrita, põe-te nos meus sapatos. É um recado. Ora, escrever é, sem dúvida, uma espécie de pintura. A gente literalmente mancha a brancura da página com a tinta de uma esferográfica ou o carvão de um lápis, os caracteres virtuais das páginas potenciais. A palavra paisagem pode por si só não ser uma paisagem, mas acompanhada de montanhas e regatos e passarinhos a cantar é como um quadro ou uma fotografia. Há uma sugestão imagética nas palavras, mas também a há sonora. A diferença estaria na cor se as cores não fossem sons. Eu estou convencido de que são. De resto, o Jimi Hendrix também estava. O que a canção me parece confirmar é que não escrevemos sempre a página em branco. O que escrevemos é uma reescrita, a página já foi escrita antes de a escrevermos. E, na verdade, julgo que estamos sempre a escrever sobre o já escrito. A página em branco é a morte. Aquele tratamento que se dá às telas é já uma pele cromática sobre a qual vamos espalhar cores. Há pintores que passaram a vida a pintar sobre pinturas, sobrepondo tintas e traços, rasurando, tentando refazer o feito ou buscando um fim para o que iniciaram sabendo que tudo quanto se começa não tem fim. Não sei se estão a ver, mas imaginem uma tela sobre a qual se pintaria uma pedra sobre a qual se pintaria um rio sobre a qual se pintaria um monte sobre a qual se pintaria um cavalo sobre a qual sucessivas camadas de tinta sobrepostas formassem uma espessa e densa textura rochosa. É como hoje por acaso me disse a Ana Biscaia, desculpando-se por uma frase que não tem fim. Escrevemos frases que não têm fim e pintamos frases que não têm fim sobre brancos que só existem enquanto ideia, isto é, enquanto verdade anterior à expressão ou à representação. Uma frase que não tem fim, escreveu ela. E eu rescrevi agora e é provável que venha a rescrevê-lo algures.

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


APRENDER A LUZ

a espessura do cabelo mais fino
é uma brincadeira quando comparada
a um nanómetro

soube hoje pelo jornal

é agora possível apertar a luz
até à espessura de um átomo.

tomo um copo de água
apago a luz.

amanhã irei cortar o cabelo
e o mundo seguirá
entre um aperto e outro
por entre a luz seguiremos.

entre prender ou libertar a luz
prefiro gastar as minhas energias
a tentar aprendê-la

aprender a luz
com a paciência milenar do mar
no tecer dos líquenes e dos corais
aprender a luz
no lento fossilizar dos horizontes
ou como quem aprende a idade dos glaciares
a linguagem das pedras
o segredo dos rios num corpo de mulher

é preciso aprender a luz
como o amante que só com os olhos fala
e nesse brilho se enamora.

Pedro Teixeira Neves, in Uma Vírgula Depois, com Ivo Machado, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 65.