Descobri recentemente uma dívida à Segurança Social. Pediram-me uma declaração de não dívida e entrei no sítio da SS, espécie de câmara de horrores, para requisitar a tal declaração. Eis senão quando dou com uma dívida que remonta aos meses de Outubro, Novembro e Dezembro de 2007, Janeiro a Julho de 2008. Passaram 14 anos. Esta gente tem o meu endereço postal, o meu e-mail, têm o meu número de telefone (actualizado em 2010 e 2019). Nunca recebi uma notificação para pagamento do que quer que fosse. Nada. Silêncio absoluto. Não sei porque tenho tal dívida, em que consiste, não fui informado da mesma, só tomei conhecimento de que a tinha porque preciso de uma declaração de não dívida para… trabalhar. O que vou receber pelo serviço que tenho a prestar não cobre sequer a dívida, que só em juros de mora já vai em mais de 700€. O que são estes juros de mora? São o que cobramos pela ignorância. Ou, se quiserem, o que cobramos por não estarmos informados. Também podem interpretar de outra forma, são o que pagamos à Segurança Social pelo silêncio da Segurança Social. 14 anos passaram e nunca ninguém piou. Zurro eu agora, o burro, o asno, o jumento, a besta. E pago. E calo.
quarta-feira, 30 de junho de 2021
terça-feira, 29 de junho de 2021
MALABARISMO LITERÁRIO
domingo, 27 de junho de 2021
A GERAÇÃO INVISÍVEL
Embora Naked Lunch tivesse germinado numa fase anterior a este processo de maturação reflexiva, ele acabou por se transformar num embrião da obra ficcional subsequente plasmada em trabalhos como The Soft Machine (1961) ou Nova Express (1964). Entre os instrumentos fulcrais para a prática da técnica do cut-up estavam os gravadores de cassetes produzidos por Ian Sommerville, podendo hoje olhar-se para tais dispositivos como antecessores das novas tecnologias ao serviço da produção artística. O método consistia na possibilidade de combinações aleatórias de frases para geração de texto, um trabalho de colagem que punha em xeque o papel tradicional do escritor enquanto autor mas reforçava a sua função, digamos assim, enquanto encenador ou editor. No fundo, trata-se de mise-en-scène em contexto estritamente literário, o que de algum modo inaugurou o reinado da intertextualidade entretanto caído em desgraça pelo recurso exaustivo a um pastiche sem interesse e a paráfrases difíceis de distinguir do mero plágio.
O cut-up funda-se numa complexidade que tem por princípio a consciencialização dos poderes de influência e de sugestão exercidos pela aleatoriedade, tal como para os surrealistas a escrita automática tornava acessíveis os dados do inconsciente. A noção de que o contexto determina a percepção é aqui assumida de um modo muito frontal. Logo no início deste A Geração Invisível (trad. Jorge Pereirinha Pires, Barco Bêbado, Abril de 2021), o Autor defende que «quem tiver um gravador de fita a controlar a banda sonora pode influenciar e criar uma banda visual» (p. 5). E assim é de facto. Sabem-no os técnicos de comunicação e os agentes ao serviço do discurso publicitário e político, sabem-no os propagandistas e os vendedores de banha da cobra espalhados pelos templos onde deus ainda boceja.
Estamos num terreno onde a psicologia se cruza com a produção artística, mas estamos também num campo onde a produção artística foi sendo apropriada como sustento de todo o tipo de falcatruas. Vejam-se as encenações dos comícios que hoje têm a configuração de autênticos espectáculos, retire-se-lhes o som e fique-se apenas com a imagem ou isolem-se-lhes as imagens e fique-se apenas com os sons. Os efeitos são devastadores. Para William S. Burroughs este foi um campo profícuo de testagem. Se podemos sublinhar um dado comum em toda a sua obra por nós conhecida é a experimentação continuada dos limites da psique visando a transposição das fronteiras que impõem paradigmas e sustentam todo o tipo de manipulações.
Eternamente apaixonado pelo oculto, pelas alterações de consciência provocadas pelo consumo de drogas, pelo xamanismo, pelas visões místicas e pelas metamorfoses exaltadas através de diversas técnicas apontando para transposições da realidade e para um além da normalidade convencional, o interesse do autor de Naked Lunch é, antes de mais, libertador: «tais exercícios trazem-vos uma libertação das antigas cadeias de associação» (p. 13). Os desafios a que se propunha em busca de sentidos surpreendentes tinham na sua origem um projecto que, no limite, é também ele sociológico e político: «desfazei o programa dessas velhas fitas» (p. 15), ou seja, libertai-vos dos padrões e dos uniformes, ide ao encontro da vossa individualidade.
Por outro lado, encontramos no seu trabalho uma lúcida antecipação do modo como os poderes (político, económico, religioso, militar…) assimilam estas técnicas para as subverter num contexto massivo. Interrogamo-nos hoje sobre que outra coisa farão os programadores das novas tecnologias da sociabilidade e da comunicação, com os seus critérios particulares de corte e costura e os seus algoritmos deterministas pervertendo a aleatoriedade individual em prol da manipulação colectiva: «se quereis espalhar a histeria gravai e reproduzi as reacções mais estúpidas e mais histéricas» (p. 15). Na síntese metodológica que ensaia, A Geração Invisível é, em sentido restrito, um contributo para a compreensão de uma técnica de produção artística, mas, em sentido lato, ajuda-nos a pensar o que de invisível gera os factos por nós percepcionados. Das armas de destruição massiva que levaram à invasão do Iraque ao império das fake news que põe e depõe governos, exemplos não faltam que comprovem como «sonoras buzinadelas de uma buzina ausente poderão ocasionar um acidente» (p. 6).
sábado, 26 de junho de 2021
J.B. VÊ CHEGAR O FIM
Jean-Pierre Sarrazac, in O Fim das Possibilidades, Húmus, coleção Teatro Nacional São João, trad. Isabel Lopes, Março de 2015, pp. 32-33.
quinta-feira, 24 de junho de 2021
O TELL DO LARGO DE SANTOS
São coisas que acontecem, acidentes. Evitáveis? Inevitáveis? Só Deus, a
existir, saberá. O escritor William S. Burroughs vivia no México com Joan
Vollmer. Numa noite de copos, com o arraial montado no Bounty Bar, Burroughs
lembrou-se de imitar Guilherme Tell. De vez em quando dava-lhe para aquilo. Sucede
que a pontaria do americano não estava tão afinada como se julga ter sido a do
suíço. Joan colocou um copo sobre a cabeça e William disparou. Falhou o alvo, a
mulher morreu. Saiu torto o decalque. É uma daquelas histórias trágicas que
adquirem com o passar dos anos um significado algo anedótico. Mas foi mesmo
assim, verdade verdadinha, por muito que custe acreditar.
Há coisa de 9 meses, tantos quantos leva um ser humano a vir ao mundo,
também foram diversos os alvos falhados. O país andou três meses consecutivos
(faço as contas por baixo) a discutir a realização da Festa do Avante. A
excitação foi tanta que levou uma conhecida pivot
de informação a apresentar como verdadeira, em pleno Jornal da Noite, uma capa
do New York Times que era falsa. Fake
news, como agora se diz e muito se pratica. Real e verdadeiro foi, e por
tal merece ser lembrado, o discurso hipócrita de um dos guilhermes desta vida.
João Cotrim Figueiredo, deputado único da Iniciativa Liberal,
queixava-se então dos privilégios dos partidos. «Os direitos que os partidos
políticos têm não devem ser mais do que aqueles que os cidadãos têm»,
salientava, reclamando das centenas de eventos cancelados em tom que diríamos
tão certeiro como a pontaria de Wilhelm: «se os organizadores não puderem
garantir as regras, não podem realizar o evento e ponto final». O PCP cumpriu,
a festa fez-se, os críticos engoliram em seco a capacidade de organização dos
comunistas. São coisas que acontecem, acidentes.
A dúvida que agora nos assalta é acerca da durabilidade da coerência de
um político liberal. 9 meses de gestação serão suficientes para virar o bico ao
prego? Tudo aponta para que assim seja, pelo que não devemos espantar-nos com o
arraial liberal levado a cabo na Lisboa entretanto sitiada. Santo António, o
que pregava aos peixes, tinha de ser comemorado com sardinhas e minis e
barraquinhas, tudo assim muito mini, inho e inhas, independentemente do parecer
desfavorável da DGS. A coerência dos liberais é tipo um martelo de São João.
Faz barulho mas não aleija. E lá fomos nós mimoseados com mais uma de muitas dessas
festinhas que têm feito as delícias do vírus, confraternizações de gente que se
está nas tintas para máscaras e mostra mais interesse noutros álcoois que nãos
os desinfectantes. Distanciamento? Para quê?
Até brincadeirinhas ameninadas à Guilherme Tell tivemos, embora com
resultados mais ao estilo do infeliz William S. Burroughs. Falharam os alvos
todos. Os pimpolhos da Iniciativa Liberal adoram estas coisas, são brincalhões,
entertainers com o beneplácito de uma comunicação social rendida ao espectáculo.
Só isto explica que, desta feita, ao contrário do que se passou há 9 meses,
tenhamos sido poupados à indignação encolerizada do especialista em assuntos
marcianos da SIC: José Gomes Ferreira. Deste e doutros como este, agora menos
incomodados com tais procedimentos.
O que chateia no arraial-comício da Iniciativa Liberal não é a incoerência
desta gente, que não surpreende nem faz mossa. Mais do mesmo. O que
verdadeiramente incomoda é, por uma vez na vida, sermos obrigados a não
discordar totalmente de Rui Rio: «Como é possível a IL ter criticado o PCP e
agora ainda fazer pior que os comunistas?» Dizemos em parte porque os
comunistas não fizeram mal, fizeram tão bem que até podiam administrar cursos e
workshops sobre como fazer. Infelizmente, aquilo que para os liberais era há 9
meses um atentado à saúde pública transformou-se, por obra e graça de quantos
santos vos aprouverem, num exemplo de esperança.
As flechas disparadas por Cotrim Figueiredo e seus caniches falharam o
alvo. Todas. Moral da história: as pessoas queixam-se em geral do cinismo, umas
sem saberem do que estão a falar, outras por desgraçadamente desprezarem o
sentido de humor dos cínicos. Mais nefasta é a hipocrisia. É o democrata que
actua como tirano, cerceando a contradição e impedindo o debate crítico. É o
liberal que actua como um conservador. É o moralista arrivista, egocêntrico e
chico-esperto. É o social-democrata que se confunde com o socialista na esmola
que dá ao pobre para se isentar dos crimes que comete e do egoísmo que propaga.
É a ausência de coluna vertebral, uma sociedade de invertebrados sem palavra em
que se confie nem gestos inspiradores. Pior do que a famigerada cassete
comunista é o disco riscado do capitalismo e o CD danificado dos liberais.
Henrique Manuel Bento Fialho
Caldas da Rainha, 18/0/2021
O Palhinhas & Ca.
colecção periódicos locais/mensais
número 71
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão,
António Viana, Álvaro Biscaia
Junho de 2021
quarta-feira, 23 de junho de 2021
ILUMINAÇÕES
Chamemos-lhe desterritorialização da memória. Desconheço se alguém já cunhou a expressão, não sendo relevante para o efeito. É um dos mais graves problemas da actualidade, do hodierno, disso a que dais o nome de pós-modernidade e contemporaneidade. Reflecte-se quotidianamente em dois momentos flagrantes, quando alguém nos remete para um tempo que foi o seu, como se esse tempo e o tempo em que se está houvesse algum tipo de cisão, como se o nosso tempo não fosse sempre o tempo presente, e reflecte-se também nesse processo de desmemoriamento operado por todos quantos querem fazer crer na ausência de um passado, como se o fruto colhido na estação certa não tivesse madurado, como se entre esse fruto e as raízes saudáveis da árvore em que ele é colhido não houvesse ligação alguma. Apodrecidas as raízes, morta a árvore, extinto o fruto. Não há presente sem passado, não há futuro sem presente. Dado adquirido, mas ludibriado pelo simplismo superficial e a trágica simplificação da história em curso nestes dias determinados pelo urgente, pela novidade, pela velocidade informativa, pelo fugaz e pelo efémero. A velocidade a que andamos distrai-nos da lentidão dos fluxos históricos, da insistência e perseverança por detrás dos grandes acontecimentos. Temos de reaprender a lentidão. Sem o mergulho esforçado nas raízes nada se compreende e tudo se reduzirá ao mero entretenimento, do qual não provém transformação alguma benéfica para a humanidade. Apenas distracção. Ora, um povo distraído é um povo amorfo, imbecilizado, incapaz de se insurgir contra a maldade, é um povo escravizado. Sabiam-no os romanos com os seus circos, sabe o poder destes tempos em que as horas de sono foram substituídas pelo sonambulismo social. Nunca tanta luz iluminou tanto cego. Apodrecidas as raízes, morta a árvore, extinto o fruto.
Juraan Vin, “Diários”
(tradução minhas)
terça-feira, 22 de junho de 2021
nas vésperas
Pedro Teixeira Neves (n. 1969), in Chiasco (Quasi, 2006). Jornalista de profissão durante largos anos, fotógrafo premiado, ilustrador, estreou-se com um romance intitulado Uma Visita a Bosch (2003). O primeiro livro de poesia surgiu apenas em 2006, nele se antevendo o gosto pelas formas curtas e por uma depuração próxima de alguma poesia oriental: «agarra essa pedra e abraça-a. / nem sempre o silêncio / tem a sua qualidade» (a qualidade do silêncio). As raízes, a ligação à natureza, o lirismo de pendor intimista, sofreram diversas inflexões ao longo dos livros subsequentes. A Tartaruga de Bob Wilson (Glaciar, 2018) pôs a claro a multirreferencialidade que o livro inicial induzia, em poemas amiudadamente críticos de um tempo detergente, como lhe chamou Ruy Belo, que a cultura — literária, cinematográfica, dramatúrgica, musical — ajuda a ultrapassar pela deslocação operada para um mundo alternativo ao quotidiano noticiário das superficialidades e canalhices humanas. Em Uma Vírgula Depois (Glaciar, 2019) sobressaiu o diálogo de tipo existencial com o poeta Ivo Machado, um livro escrito a duas mãos em que os poemas se apresentam sob a forma de missivas. A Parte que nos Toca é um poema longo (Labirinto, 2020), uma cosmogonia em tom apocalíptico com envios sucessivos para o texto bíblico. Já em Os trabalhos mais leves (69 poemas de jubilosa compenetração) (Húmus, 2021), a veia satírica, de pendor erótico, deixou transparecer a dimensão lúdica de uma poesia que não descarta o divertimento e assenta, sobretudo, numa exploração continuada das possibilidades expressivas da linguagem poética.
segunda-feira, 21 de junho de 2021
WHAT’S GOING ON (1971)
Foi o décimo primeiro álbum de estúdio de
Marvin Gaye, mas o primeiro em que aparece como produtor com os Funk Brothers.
A relação com a Motown não era pacífica, Gaye queria libertar-se da pressão dos
sucessos imediatos. O álbum resultou mais conceptual do que era usual no
universo soul, narrando a história de um veterano do Vietnam de regresso aos
states como testemunha das injustiças cometidas durante a barbárie. Drogas, pobreza,
violência, crueldade, preocupações ecológicas — Mercy, Mercy Me (The Ecology) —
perpassam nas letras das canções. É o
álbum de Inner City Blues (Make me wanna Holler) e God is Love. O tema que
ofereceu o título ao álbum foi inspirado num acto de brutalidade policial numa
manifestação pacifista em Berkeley. Não a queriam lançar pelo conteúdo
explicitamente social, demasiadamente político para as exigências do entretenimento
radiofónico. Gaye respondeu com greve, não voltaria a lançar nada se não lhe
publicassem a canção. Foi um sucesso, de vendas e de críticas e de prémios. Por essa altura recuperava de uma depressão profunda e estava dependente de drogas. Tentou suicidar-se
várias vezes. Morreria com 44 anos, em 1984, asassinado pelo pai enquanto tentava travar
uma discussão familiar. As cinzas foram
espalhadas no Oceano Pacífico:
Mother, mother
There's too many of you crying
Brother, brother, brother
There's far too many of you dying
You know we've got to find a way
To bring some loving here today, yeah
Father, father
We don't need to escalate
You see, war is not the answer
For only love can conquer hate
You know we've got to find a way
To bring some loving here today, oh (Oh)
sexta-feira, 18 de junho de 2021
STROLLIN’ WITH PAM (1955)
O correio atrasado, as leituras atrasadas, e no entanto uma agitação tremenda no corpo tenso. Só os nervos chegam sempre a horas nesta neblina do espírito que satura músculos e ossos e provoca roturas de ligamentos na língua. É noite feita, tudo dorme à minha volta, excepto a jugular deste tronco que por dentro liga vontade e medo. E o alarme do carro do vizinho, disparado porventura ao som da minha respiração ofegante. Não é bem medo, é o impedimento sufocante dos demónios atreitos ao espírito. Ouço repetidamente o mesmo disco de Phil Woods, vejo-o rodar mil e uma vezes repetidas sobre o eixo e deixo-me hipnotizar pelo movimento giratório. Li que foi casado com a ex-mulher de Charlie Parker. Movimento giratório. Também gostava de me casar com a ex-mulher dum génio, talvez aprendesse alguma coisa por contágio. Estes cruzamentos nada significam, bem sei, mas tem piada a coincidência. Woodlore é um belíssimo álbum que dispensa tais alusões e parvoíces, mas a noite caiu envolta em borralha e eu estou a modos que precisado de estridências. Parker não entra nas contas. São apenas formas de dizer, de não cair, de manter vertical, digamos, o sopro. Agora a sério: tudo dorme à minha volta, excepto a jugular deste tronco que por dentro liga arbítrio e solidão.
quarta-feira, 16 de junho de 2021
UM POEMA DE ARTURO CARRERA
terça-feira, 15 de junho de 2021
FRAGMENTO DE UM CADÁVER
segunda-feira, 14 de junho de 2021
MALES DE INVEJA
Cresci num meio em que as mezinhas e as tisanas produziam milagres, pelo que não me espanta que a minha publicação em weblogs com mais visitas seja uma oração contra o mau-olhado. Havia bruxas e bruxos na terra, videntes e médiuns capazes de adivinhações fantásticas, inacreditáveis. Estes xamãs das tribos civilizadas em território lusitano têm agora telemóveis potentes através dos quais marcam e vendem consultas. O zoom e a distância não são impedimentos para os feiticeiros com cardápio e preçário fixo. Actualizaram-se, acompanharam a evolução dos tempos e servem-se das novas tecnologias como outrora se serviam de bolas de cristal. Tudo isto soa a treta, mas há um fundo de verdade neste acreditar. Ouvi muitas vezes que no quebranto repousa um poder mortal. Males de inveja tratam-se com azeite e água, banhos de sal e orações certeiras. Neste caso, não está em causa um qualquer poder exercido sobre energias terceiras. Estará antes uma forma de reforço da nossa autoconfiança. A autoconfiança é o que nos protege da inveja. Não vem da sorte nem do acaso, alimenta-se com fiúza. Anda bater, tu bates bem, é o mesmo que dizer acredita em ti, tem fé em ti. Para o efeito, azeite, água e mantras também servem. Têm dúvidas?
domingo, 13 de junho de 2021
ANJO DA GUARDA
Há meses que não entrava numa pastelaria para tomar o
pequeno-almoço. Quebrei hoje o jejum, depois de deixar a Matilde no
Conservatório em Óbidos. Estacionei o carro próximo da Raul Proença e dirigi-me
ao balcão da minha pastelaria preferida nas redondezas. Não direi qual para
evitar publicidade não paga, actividade que muito prezo mas já me cansa. Pedi
um café cheio e um pampilho. A moça de serviço volteou os olhos, como quem se
coloca alerta perante ameaças terceiras, baixou a máscara à altura do queixo e
sussurrou qualquer coisa que não percebi. «Desculpe, não entendi», disse-lhe.
Ela tornou a voltear os olhos, inclinou-se ligeiramente na minha direcção, e
movimentou lentamente os lábios como se eu fosse especialista em leitura
labial. Não sou. Num gesto espontâneo, baixei a máscara para ver e ouvir
melhor. Desculpei-me mais uma vez. «Devo estar a ficar surdo», comentei. Ela
sorriu, muito simpaticamente, e respondeu-me soletrando um «Não estão frescos.»
«Ah», exclamei com contentamento pela resolução do enigma, «os pampilhos não
estão frescos». A patroa, num lugar recuado atrás do balcão, encarou
subitamente comigo e com a empregada, acenou com o que me pareceu ser um esgar
de desaprovação. Não augurei nada de bom para a empregada. Lamento. Passados
alguns segundos de tensão entre os segmentos deste triângulo desencontrado, a
moça concluiu justificando os cuidados: «Só estava a pensar na sua barriga.»
Senti-me inesperadamente incomodado, não tanto pela completa ausência de
perspicácia que demonstrei ou pelo olhar reprovador da patroa, mas pelos
pensamentos da pobre rapariga. Não consigo imaginar o que possa ser de tormento
para alguém pensar na minha barriga. Eu, há anos que me libertei de cogitações tão deprimentes. Daí que tivesse solicitado um pampilho. Não
havendo deles frescos, agradeci a deferência e regressei a casa com o
pequeno-almoço por tomar. Encontro-me agora mesmo a beber um chá de menta e a
preparar-me para lançar mãos ao trabalho. A barriga sente-se bem, mercê do anjo
da guarda das pastelarias.
quinta-feira, 10 de junho de 2021
DIA DE PORTUGAL
O que nos vale em Portugal é haver sempre alguém melhor do que os demais. E coincidência extraordinária, essa criatura tem os melhores amigos do mundo. Que, não chegando porém a seus pés, são também todos muito bons e geniais. País incrível, o nosso. É talvez a nação com mais génios por metro quadrado. Lamentavelmente, não está ao alcance da nação reconhecer tamanha riqueza. O que faz de nós não só a nação com mais génios por metro quadrado, mas também aquela com mais génios absolutamente inúteis.
terça-feira, 8 de junho de 2021
KAHLIL THE PROPHET (1963)
Uma história sem interesse: ainda relativamente novo, o saxofonista alto Jackie McLean sacou de uma faca para se defender de um Charles Mingus alterado. Este esmurrara-o, não se sabe porquê. Ou sabe-se, mas eu não quero saber. O que me interessa é a interrupção do gesto. Imaginemos que McLean tinha esfaqueado fatalmente Mingus. Estávamos no início da década de 1950. Imagine-se o que se perderia com Mingus morto e McLean preso, provavelmente para o resto da vida. Em liberdade pôde viciar-se em heroína, gravar Destination Out! com Grachan Moncur III, genial compositor de quem se fala tão pouco, pôde fundar o African American Music Department e formar o filho René McLean, criar com a sua mulher, Dollie McLean, o Artists Collective, Inc. de Hartford, pôde ser uma pessoa normal e deixar um legado. Um gesto, um simples gesto tudo altera, desvia a rota, trepana-a e desconcerta-a. Num passeio pela serra, um passo a mais na direcção do abismo pode ser fatal. Mas não é à morte súbita que me refiro, é antes a uma vida inteira e demorada carregando o peso do gesto determinante, da decisão que nos perseguirá para sempre como uma sombra de que nos libertaríamos houvesse essa possibilidade. Momentos em que a vida inteira se inclui como gérmen numa barriga de aluguer. É a esses momentos que me refiro e à dúvida que fica sobre como seria o presente se não tivéssemos passado por eles, se tivesse sido outro o caminho escolhido na encruzilhada diária, contínua, da existência. Momentos proféticos, oraculares, decisões em que o eco no futuro escutado repousa em silêncio como ruído em potência.
domingo, 6 de junho de 2021
PRIMEIRO POEMA DO EXÍLIO
sábado, 5 de junho de 2021
ROSTOS DA MORTE
sexta-feira, 4 de junho de 2021
ELOGIO DOS TUDÓLOGOS
Ansiedade e insónia, maleitas antigas que a idade e o ar dos tempos têm ajudado
a mitigar. Com a idade, a gente aprende a relativizar a gravidade dos
problemas. Com o ar dos tempos, cravejado de problemas, a gente vê-se na obrigação
de ficar selectivos e criteriosos, usando de esperteza para encontrar remédio
onde outros vislumbram aflição e motivo para angústia.
Por via de confinamentos, emergências e calamidades, recolhido no lar,
dei comigo a navegar num mar de especialistas que sobre tudo peroram e sobre
nada calam. Um que apareça a concluir “não sei”, e a gente alça as orelhas como
canídeo expectante. Não sabe? Como é possível? Hoje toda a gente sabe tudo. Que
raio, alguém assumir um pouco que seja de ignorância onde a genialidade, ao
contrário do bom senso, parece ser a coisa mais bem distribuída do mundo.
Portanto, em terra de génios quem ignora é rei. A ignorância ressuma
excepcionalidade. Apercebi-me disto, pela primeira vez, quando era livreiro,
tantos os pais e as mães e os tios e as tias que me pediam sugestões para os
seus meninos. Questionados sobre a idade dos petizes, lá vinha o “mas”
sublinhando espantosas qualidades: 5 anos, mas muito desenvolvido para a idade;
8 anos, mas já parece que tem 15; 15 anos, mas de uma maturidade inaudita. Como
podia eu saber, ou sequer imaginar, ser este um país de gente sobredotada? A
gente olha à volta e não se nota, vê-se ao espelho e foge.
«Quantos deve haver no mundo que fogem de outros porque não se vêem a si
mesmos!», exclamava o bom Lazarinho de Tormes. E com razão. Quase 500 anos
passados sobre as desventuras desse maltrapilho, eis-nos chegados ao Portugal
dos tudólogos. São uma bênção, um conforto para a alma dos néscios e um consolo
para o espírito dos estúpidos. Inda há dias, contava a um bom amigo, cozinheiro
de profissão, dos efeitos benditos que fui descortinar na melhor das tisanas, a
programação de tudologia disseminada por 500 canais televisivos ao dispor de precatados
cidadãos. Até o Porto Canal tem os seus. Não lhes fixei o nome, que para tais
fármacos as farmácias não exigem receita detalhada, mas há por lá um rapaz, que
aparecia a comentar bola e agora aparece a comentar tudo, que é tiro e queda. Mal
o escuto, ferro-me a dormir.
Entre ancestrais e anciãos, os do “Eixo do Mal” poupam-me milhares em
benzodiazepinas. Aurélio, Oliveira, Marques Lopes, Luís Pedro Nunes e Clara
Ferreira Alves? Benza-os Deus e todos os santinhos. Não os escuto há 10 minutos,
já a mulher fecha a porta da sala para não me ouvir roncar. Em bom rigor, acordo
assim que os ditos se calam, as vozes dos tudólogos devem produzir um feitiço
qualquer, são um poderoso soporífero pelo qual devemos sentir-nos agradecidos.
Não sei se curam covid-19, embora tudo saibam acerca do tema, mas insónias
curam. Sou a prova factual disso mesmo. A família não me deixa mentir. Se me
queixo de sono, noites mal dormidas, buscam na box um desses programas e
abandonam-me na sala, deitado na sofá, como a um viciado numa casa de ópio.
Num destes fóruns, na SIC Radical, é suposto expurgarem-se irritações
semanais. Aquilo é de uma eficácia inacreditável. Anda por lá uma Carla Hilário
Quevedo que é música “new age” aos meus ouvidos, ouvi-la é como se alguém
soprasse ao ouvido, muito baixinho e serenamente, delicadamente, descansa
filho, descansa, vem aí soninho bom e descansadinho, tranquilo. Ela abre a
boca, eu fecho os olhos. O nome do meio até lhe fica mal.
Devo pois um sincero reconhecimento a toda essa malta do comentário universalista,
os tudólogos, sábios imprescindíveis a um sono relaxado. Melatonina? “Eixo do
Mal”, “Governo Sombra”, “Irritações”, “O Último Apaga a Luz” (nome mais
pertinente para um programa congénere não há)... Meus queridos e impagáveis
tudólogos, envio-vos daqui um abraço sincero de profunda gratidão. O sono que
me causam é proporcional à simpatia que vos tenho. Muita.
Henrique Manuel
Bento Fialho
Caldas da
Rainha, 05/Maio/2021
quinta-feira, 3 de junho de 2021
UM POEMA DE RENATO FILIPE CARDOSO
quarta-feira, 2 de junho de 2021
O LAVRADOR DA BOÉMIA
O Lavrador da Boémia é um diálogo entre um Lavrador amargurado pela perda da amada e a Morte que lha roubou, um pouco à semelhança do que o realizador sueco Ingmar Bergman veio a conceber no magnífico O Sétimo Selo (1956) — embora aqui a morte jogasse xadrez com um cavaleiro de regresso das Cruzadas em tempo de peste. A discussão entre o Lavrador e a Morte, escrita num estilo filosófico muito comum em toda a Idade Média, estava ainda longe de possibilitar um jogo entre adversários tão desiguais. A desolação de um homem a tentar ultrapassar o luto da amada não tem argumentos à altura do todo-poderoso Senhor da Morte, mas, ainda assim, é de uma ousadia retórica imperturbável. A perda atiça-lhe a fúria, alimenta-lhe a raiva, impele-o a acusações que se misturam com lamentos em busca de um conforto fugidio. São uivos que ecoam desde que o homem se confronta com a finitude, mas neste caso sobrecarregados pela ausência de sentido.
Distinguimos amiúde a morte por causas naturais das mortes inesperadas. Entre estas, as dos jovens são as que mais pesam por serem as mais absurdas. Porque morre alguém que ainda não viveu o tempo que julgamos justo viver? Porque desaparece precocemente quem aparenta estar a meio de um trajecto? O choque advém tanto da constatação do carácter contingencial da vida, sujeita ao acaso e ao acidental, logo sabotadora de uma ciência fundamentada no previsível, como da efemeridade do que vive. A dúvida impõe-se a quem parta de princípios como aqueles que vigoravam em 1401, ano em que o texto de Johannes von Saaz surgiu, e predominam em 2021: se Deus existe, qual a razão para levar tão cedo as suas criaturas? Por que razão permite Deus que uma criança morra? Neste caso, a jovem e virtuosa Margarida, a décima segunda letra, a Letra M, como no espectáculo levado a cabo pelo Teatro da Rainha em 2009, não seria merecedora de outra longevidade?
São dúvidas legítimas, talvez mais hoje do que outrora, pois hoje podemos erguer-nos contra a vontade de Deus. Mesmo sabendo do fim inevitável reservado a tudo quanto vive, é possível questionar a ausência de sentido e especular sobre as razões de ser assim. As explicações desta Morte do humanista von Saaz são surpreendentemente racionais. A Morte racionaliza o espaço, é uma gestora de stocks, há nela uma função de organização da vida na Terra que justifica a economia da dor sugerida ao pobre Lavrador: «Quanto mais amor te derem, maior será o teu desgosto. Se tivesses amado menos, menor seria o teu desgosto». É um argumento perigoso, pois este amor pode não ter como objecto apenas o outro, mas também o próprio e até, em último caso, a vida em sentido geral. Pode a dor ser superada pelo desamor?
Numa coisa a Morte tem razão, a sua metodologia corresponde a uma inexorabilidade que está no princípio da própria vida. É do húmus que medra a flor. O Lavrador tem dúvidas, questiona: «Quem sois vós? Donde vindes? Onde estais? Para que servis?» E a morte responde: «somos o fim da vida, o fim da existência, o fim do ser, e a origem do mundo». Eis uma ontologia da morte, se tal coisa for possível, que ainda hoje preservamos sem direito a grandes desvios. A Morte torna-se então sarcástica, impõe as suas razões a um Lavrador desesperado. O Lavrador é a vida, lavra e semeia. A Morte ceifa. Lavrar e ceifar são, no fundo, a essência do dinamismo que permite a renovação e a renovação é imprescindível para que o Tempo não cesse. Em cessando o Tempo, pois que tudo cessaria.
Não devemos pois ser tão cruéis para com a Morte, mesmo quando ela parece ser implacável para connosco. Não tendo do homem a melhor das opiniões, como questionar-lhe a vaidade que nos aponta e a tolice que desvela sempre que se nos apresenta? O pranto do Lavrador é compreensível, mas inútil. É aceitável, mas infrutífero. Pelo menos em aparência, porque, na realidade, é desse pranto que brota aquilo a que podemos chamar uma clarividência da Morte. Ela desmente o princípio de não contradição, a sua natureza é ambivalente e dúbia, a morte é e não é ao mesmo tempo, rodeia-nos sem que a vejamos, acompanha-nos sem que a sintamos. Só a nossa própria morte não choraremos, pois quando ela chegar o medo terá partido. E o que leva ao choro, na verdade, é o medo, nada mais senão o medo. O medo do desconhecido, o medo da solidão, o medo do abandono, é o medo que nos faz chorar. O medo da morte, da morte nossa descoberta na morte dos outros.
terça-feira, 1 de junho de 2021
POSITIVELY 4TH STREET (1965)
Leio num poema do Pedro Teixeira Neves qualquer coisa sobre mapas em branco, as superfícies da pintura e da escrita. Lembro-me de uma canção do Dylan que pode ser interpretada à laia de carta aberta, sem refrão, publicada isoladamente, como single, fora de qualquer álbum onde pudesse ser parte integrante de um conjunto que lhe conferiria necessariamente outro significado. Foi, no entanto, um single de sucesso, acabando por figurar em várias colectâneas do singer songwriter nobelizado em 2016. A associação por mim produzida entre o poema e a canção tem que ver com dúvidas pessoais acerca da asserção encontrada nos últimos quatro versos do Pedro e, quanto a mim, desmentida pela canção do Bob. Diz o poema: «escrevemos e pintamos sempre / a página em branco / o vazio aguardando o fulgor da voz / o lugar da mão». Diz a canção: traíste-me, és um hipócrita, põe-te nos meus sapatos. É um recado. Ora, escrever é, sem dúvida, uma espécie de pintura. A gente literalmente mancha a brancura da página com a tinta de uma esferográfica ou o carvão de um lápis, os caracteres virtuais das páginas potenciais. A palavra paisagem pode por si só não ser uma paisagem, mas acompanhada de montanhas e regatos e passarinhos a cantar é como um quadro ou uma fotografia. Há uma sugestão imagética nas palavras, mas também a há sonora. A diferença estaria na cor se as cores não fossem sons. Eu estou convencido de que são. De resto, o Jimi Hendrix também estava. O que a canção me parece confirmar é que não escrevemos sempre a página em branco. O que escrevemos é uma reescrita, a página já foi escrita antes de a escrevermos. E, na verdade, julgo que estamos sempre a escrever sobre o já escrito. A página em branco é a morte. Aquele tratamento que se dá às telas é já uma pele cromática sobre a qual vamos espalhar cores. Há pintores que passaram a vida a pintar sobre pinturas, sobrepondo tintas e traços, rasurando, tentando refazer o feito ou buscando um fim para o que iniciaram sabendo que tudo quanto se começa não tem fim. Não sei se estão a ver, mas imaginem uma tela sobre a qual se pintaria uma pedra sobre a qual se pintaria um rio sobre a qual se pintaria um monte sobre a qual se pintaria um cavalo sobre a qual sucessivas camadas de tinta sobrepostas formassem uma espessa e densa textura rochosa. É como hoje por acaso me disse a Ana Biscaia, desculpando-se por uma frase que não tem fim. Escrevemos frases que não têm fim e pintamos frases que não têm fim sobre brancos que só existem enquanto ideia, isto é, enquanto verdade anterior à expressão ou à representação. Uma frase que não tem fim, escreveu ela. E eu rescrevi agora e é provável que venha a rescrevê-lo algures.
UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

















