DO DECLÍNIO
1
amarga é a luz que se põe
sobre o corpo das pétalas
basta-me a raiz de cada peito
o verde tracejado do musgo
a água a pingar dos olhos
gosto de demorar as unhas
sobre as penas da carne
e dizer: urina, merda, esperma
como quem diz homem
2
ainda há tempo para respirar
acordar três vezes a meio da noite
voltar as costas de novo ao sono
enquanto os apuros nos aguardam
com os seus requintados desafios
3
rebolar pelos declives do
corpo como
se o corpo não fosse já a verdade
de estar morto, petrificado, arrumado
de uma vez para sempre nos suspiros
de quem fica
4
mais um dia a partilhar culpas
desejos, condenações implacáveis
pronuncio algumas das palavras
que dançam na nossa galeria privada:
corola, borboleta, vento, água, nuvem
pouco importa que ainda respire
pouco importa que ainda deseje
pouco importa que ainda espere
pouco importa que ainda pontue
a vida com palavras que julgam
que arbitram e que condenam
porque já ninguém senão eu habita
no interior da minha própria tragédia
5
hoje trago-te a cinza da terra
adormecida
trago-te a cabeça peneirada, pendendo
ligeiramente para onde caem as lágrimas
trago-te a tristeza, a falência e uma vontade
imensa de rir. mas também te trago uma breve
melancolia ante o sorriso rasgado à pele
trago-te uma mensagem:
Henrique Manuel Bento Fialho,
in “Poema Poema – Antología de la Poesía Portuguesa Actual”, edição bilingue
com traducción de Eva Lacasta Alegre, Aullido, Revista de Poesía, n.º 15 –
Punta Umbría, Huelva – Marzo 2006, Uberto Stabile Editor, pp. 75-78. Poemas de
Ana de Sousa, Fernando Cabrita, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Henrique
Manuel Bento Fialho, Francisco José Viegas, João Bentes, José Agostinho
Baptista, José Carlos Barros, José Félix, José Mário Silva, Luís Ene, Pedro
Afonso, Rui Costa, Sandra Costa, Sara Monteiro e Teresa Rita Lopes.
sobre o corpo das pétalas
basta-me a raiz de cada peito
o verde tracejado do musgo
a água a pingar dos olhos
gosto de demorar as unhas
sobre as penas da carne
e dizer: urina, merda, esperma
como quem diz homem
acordar três vezes a meio da noite
voltar as costas de novo ao sono
enquanto os apuros nos aguardam
com os seus requintados desafios
se o corpo não fosse já a verdade
de estar morto, petrificado, arrumado
de uma vez para sempre nos suspiros
de quem fica
desejos, condenações implacáveis
pronuncio algumas das palavras
que dançam na nossa galeria privada:
corola, borboleta, vento, água, nuvem
pouco importa que ainda respire
pouco importa que ainda deseje
pouco importa que ainda espere
pouco importa que ainda pontue
a vida com palavras que julgam
que arbitram e que condenam
porque já ninguém senão eu habita
no interior da minha própria tragédia
trago-te a cabeça peneirada, pendendo
ligeiramente para onde caem as lágrimas
trago-te a tristeza, a falência e uma vontade
imensa de rir. mas também te trago uma breve
melancolia ante o sorriso rasgado à pele
trago-te uma mensagem:

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