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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

UM POEMA DE ALEJANDRA PIZARNIK



A ENAMORADA

esta mania lúgubre de viver
esta graça recôndita de viver
arrasta-te alejandra não o negues.

hoje olhaste-te no espelho
e ficaste triste estavas só
a luz rugia o ar cantava
mas o teu amado não voltou

enviarás mensagens sorrirás
agitarás as tuas mãos assim voltará
o teu amado tão amado

escutas a sereia louca que o roubou
o barco com barbas de espuma
onde os risos morreram
recordas o último abraço
ó nada de angústia
ri no lenço chora às gargalhadas
mas fecha as portas do teu rosto
para que não digam logo
que aquela mulher apaixonada foste tu

os dias afligem-te
as noites culpam-te
dói-te tanto a vida tanto
desesperada, onde vais?
desesperada, nada mais!


Alejandra Pizarnik (n. 1936 – m. 1972), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 346-347.

sábado, 1 de outubro de 2011

RECORDAÇÕES DA PEQUENA CASA DO CANTO



...Era azul como a sua mão à hora da morte. Era a sua mão crispada, era o último orgasmo. Era a sua picha parada como um pássaro por cair, parada para a receber, a morte, a amante (ou não)
...Já não sei falar. Com quem?
...Nunca encontrei uma alma gémea. Ninguém foi um sonho. Deixaram-me com os sonhos abertos, com a minha ferida central aberta, com a minha ruína. Lamento; tenho esse direito. Assim mesmo, desprezo quem não se interessa por mim. O meu único desejo foi
...Não o direi. Até eu, sobretudo eu, me atraiçoo. Calei a minha alma como um bebé. Já não sei falar. Já não posso falar. Desperdicei o que não me deram, tudo o que tinha. E novamente a morte. Ameaça-me, é o meu único horizonte. Ninguém se parece com o meu sonho. Senti amor e maltrataram-no, sim, a mim que nunca quis. O amor mais profundo desaparecerá para sempre. Que poderemos nós amar a não ser uma sombra? Morreram já os sonhos sagrados da infância e também a natureza, a que me amava



Alejandra Pizarnik,, Abril, 1972



Versão de HMBF

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

NESTA NOITE, NESTE MUNDO


nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que alguém quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não da ressurreição
de algo ao jeito de negação
do meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que pode ser dito é mentira)
o resto é silêncio
embora o silêncio não exista

não
as palavras
não fazem amor
fazem ausência
acaso beberei se digo água?
acaso comerei se digo pão?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
percorri-os todos
oh! fica um pouco mais entre nós!

a minha pessoa está ferida
a minha primeira pessoa do singular

escrevo como alguém alçando uma faca na obscuridade
escrevo como estou a dizer
a sinceridade absoluta continuaria a ser
o impossível

oh! fica um pouco mais entre nós!

os detritos das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
comi-os engasguei-me
não mais posso não poder mais

palavras embuçadas
tudo desliza
até à negra liquefacção

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
excepto
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser inútil
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite neste mundo




Alejandra Pizarnik, in La Gaceta del Fondo de Cultura Económica, México, Nueva Época, n.º 19, Julho de 1972.

Versão de HMBF

domingo, 18 de setembro de 2011

A NOITE, O POEMA


Alguém encontrou a sua verdadeira voz e testa-a no meio-dia dos mortos. Amigo da cor das cinzas. Nada mais intenso do que o terror de perder a identidade. Este recinto cheio dos meus poemas prova que a menina abandonada numa casa em ruínas sou eu.

Escrevo com a cegueira cruel com que as crianças atiram pedras a uma louca como se fosse um melro. Na realidade não escrevo: abro uma brecha para que até mim chegue, ao crepúsculo, a mensagem de um morto.

E este ofício de escrever. Vejo por espelho, na obscuridade. Pressinto um lugar que ninguém além de mim conhece. Canto das distâncias, escuto vozes de pássaros pintados sobre árvores adornadas como igrejas.

A minha nudez iluminava-te como uma lâmpada. Apertavas o meu corpo para que não fizesse o grande frio da noite, o negro.

As minhas palavras exigem silêncio e espaços abandonados.

Há palavras com mãos; apenas escritas, tomam-me o coração. Há palavras condenadas como lilases na tormenta. Há palavras parecidas com certos mortos, se bem que prefira, entre todas, aquelas que evocam a boneca de uma menina desafortunada
.

Alejandra Pizarnik, 23 de Novembro de 1969


Versão de HMBF

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

PEQUENOS POEMAS EM PROSA



O sol fechou-se, fechou-se o sentido do sol, ilumina-se o sentido de fechar-se.

*

Chega um dia em que a poesia se faz sem linguagem, dia em que se convocam os grandes e os pequenos desejos disseminados nos versos, reunidos subitamente em dois olhos, os mesmos que tanto louvava na frenética ausência da página em branco.

*

Apaixonada pelas palavras que criam noites curtas no incriado do dia e no seu vazio feroz
.



Alejandra Pizarnik, in La Nación, Buenos Aires, 21-Março-1965


Versão de HMBF

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PRIMEIROS CAPÍTULOS




Chega a morte com a sua manada de ossos
sorrio forçadamente a uma menina idiota
que suplica em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro ofício além de execrar
No final todos se casam:
o mar com as ondas,
a noite com a treva,
a taça com o vinho,
o anel com o dedo,
a morte com o cadáver
.


Alejandra Pizarnik


Versão de HMBF

quarta-feira, 7 de setembro de 2011






cuidado com as palavra
...........................................(disse)
têm gume
.................cortar-te-ão a língua
cuidado
..............não despertar as palavras
deita-te nas areias negras
e que o mar te enterre
e que os corvos se suicidem nos teus olhos fechados
cuida-te
.............não tentes os anjos das vogais
não atraias frases
...............................poemas
............................................versos
nada tens que dizer
nada que defender
sonha sonha que não estás aqui
que já te foste
que tudo acabou



Alejandra Pizarnik


Versão de HMBF

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O DESEJO DA PALAVRA




A noite, de novo a noite, a magistral sapiência do obscuro, o cálido atrito da morte, um instante de êxtase pessoal, herdeira absoluta do jardim proibido.

Passos e vozes do lado sombrio do jardim. Risos no interior das paredes. Não creias que estão vivos. Não creias que não estão vivos. A qualquer momento a fissura na parede e a debandada súbita das meninas que fui.

Caem meninas de papel de várias cores. As cores falam? As imagens de papel falam? Apenas as douradas falam e não há nenhuma dessas por aqui.

Sigo entre muros que se aproximam, que se juntam. Salmodiava toda a noite até à aurora:
Se não veio é porque não veio. Pergunto. A quem? Disse que pergunta, quer saber a quem pergunta. Tu já não falas com ninguém. Estrangeira, a morte está a morrer-se. Outra é a língua dos moribundos.

Esbanjei o dom de transfigurar os proscritos (sinto-os a respirar dentro das paredes). Impossível narrar o meu dia, a minha via. Porém contempla absolutamente só a nudez destes muros. Nenhuma flor cresce ou crescerá do milagre. Toda a vida a pão e água.

Acerca de uma música jamais ouvida declarei-me no cume da alegria. E daí? Oxalá pudesse viver somente em êxtase, fazendo do meu corpo o corpo do poema, resgatando cada frase com os meus dias e as minhas semanas, infundindo o meu sopro no poema à medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimónias do viver
.


Alejandra Pizarnik, El Infierno Musical, 1971.


Versão de HMBF.

terça-feira, 5 de julho de 2011

CAMINHOS DO ESPELHO




I

E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é correcto.

II

Mas a ti quero olhar-te, até que o teu rosto se afaste do meu medo como um pássaro da orla afiada da noite.

III

Como uma criança de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esborratada pela chuva.

IV

Como quando uma flor se abre e revela o coração que não tem.

V

Todos os gestos do meu corpo e da minha voz para fazer de mim a dádiva, o ramo que abandona o vento no umbral.

VI

Cobre a memória da tua cara com a máscara da que serás e assusta a criança que foste.

VII

A noite do casal dispersou-se com a névoa. É a estação das carnes frias.

VIII

E a sede, a minha memória é da sede, eu descendo, no fundo, no poço, eu bebia, lembro-me.

IX

Cair como um animal ferido no lugar que será de revelações.

X

Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Que entre o vento. Tudo fechado e o vento por dentro.

XI

Ao negro sol do silêncio douravam-se as palavras.

XII

Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme.

XIII

Todavia se digo sol e lua e estrela refiro-me a coisas que me sucedem. Que queria eu?
Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo
.

XIV

A noite tem a forma de um grito de lobo.

XV

Prazer de se perder na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui em busca de quem sou. Peregrina de mim, fui até àquela que dorme num país ao relento.

XVI

De queda em queda incessante até onde ninguém me aguardou, pois ao olhar quem me aguardava outra coisa não si senão eu própria.

XVII

Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu, embora me referisse à alba luminosa.

XVIII

Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX

Deslumbramento do dia, pássaros amarelos pela manhã. Uma mão solta as trevas, uma mão arrasta a cabeleira de uma afogada que não pára de olhar-se ao espelho. Regressar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos em guerra, hei-de compreender o que diz a minha voz.



Alejandra Pizarnik, in Extracción de la Piedra de Locura (1968)

Versão de HMBF

domingo, 3 de julho de 2011

PRIVILÉGIO




I

Já perdido o nome que me chamava,
o seu rosto circunda-me
como o som da água na noite,
da água caindo na água.
E o último sobrevivente é o seu sorriso,
não a minha memória
.

II

O mais belo
na noite dos que partem,
ó desejado,
é o teu infindo não regresso,
tua sombra até ao último dos dias
.



Alejandra Pizarnik, in Extracción de la Piedra de Locura (1968)
Versão de HMBF

sábado, 2 de julho de 2011

SENTIDO DA SUA AUSÊNCIA



se me atrevo
a olhar e dizer
é pela sua sombra
unida tão suave
ao meu nome
lá longe
na chuva
na minha memória
pelo seu rosto
que ardendo no meu poema
exala agradavelmente
um perfume
a amado rosto desaparecido



Alejandra Pizarnik, in Los Trabajos Y Las Noches (1965)


Versão de HMBF

quinta-feira, 23 de junho de 2011

CAROLINE DE GUNDERODE




En nostalgique je vagabondais
par l’infini

C. de G.

A mão da namorada do vento
afaga a cara do ausente.
A alienada com sua «mala de pele de
..................pássaro»
foge de si mesma com uma navalha na memória.
A que foi devorada pelo espelho
entra num cofre de cinzas
e apazigua as bestas do esquecimento
.

A Enrique Molina


Alejandra Pizarnik, in Otros Poemas (1959)


Versão de HMBF

quarta-feira, 22 de junho de 2011

ÁRBOL DE DIANA




23

uma olhadela a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolução consiste em olhar uma rosa
até que os olhos sejam pulverizados

37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência



Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

terça-feira, 14 de junho de 2011

A NOITE




Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser
.


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

domingo, 12 de junho de 2011

NOITE




Quoi, toujours? Entre moi sans cesse et
le bonheur!

G. de Nerval



Talvez esta noite não seja noite,
deve ser um sol horrendo, ou
o outro, ou qualquer coisa…
Que sei eu? Faltam palavras,
falta candura, falta poesia
quando o sangue chora e chora!

Podia ser tão feliz esta noite!
Se apenas me fosse possível tactear
as sombras, ouvir passos,
dizer «boas noites» a quem quer
que passeasse o seu cão,
olharia a lua, diria a sua
estranha lactescência, tropeçaria
nas pedras ao acaso, como se faz.

Mas há algo que rasga a pele,
uma fúria cega
que percorre as minhas veias.
Quero sair! Cérbero da alma:
Deixa, deixa-me atravessar o teu sorriso!

Podia ser tão feliz esta noite!
Porém ficam os sonhos adiados.
E tantos livros! E tantas luzes!
E meus poucos anos! Porque não?
A morte está longe. Não me vê.
Tanta vida Senhor!
Para quê tanta vida?



Alejandra Pizarnik, in La Ultima Inocência (1956)

Versão de HMBF

sábado, 11 de junho de 2011

CÉU




observando o céu

digo-me que é celeste desbotado (acalma
azul puro após um duche gelado)

as nuvens movem-se

penso no teu rosto e em ti e nas tuas mãos e
no ruído da tua pena e em ti
mas o teu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
esperava vê-lo colado a ela como um
pedaço de algodão enrolado dentro de fita adesiva
continuo a caminhar

um cocktail mental ladrilha a minha testa
não sei se pense em ti ou no céu
e se atirasse uma moeda ao ar? (cara tu coroa céu)
não! o teu ser não se arrisca e
eu desejo-te de-se-jo-te
céu pedaço de cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois tu + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicolores bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim amor estás longe como o mosquito
sim! esse que persegue uma mosquita junto
ao farol amarelosujo que vigia debaixo do
céu negrolimpo esta noite angustiante
..........................................cheia de dualismos



Alejandra Pizarnik, in Un Signo en tu Sombra

Versão de HMBF

sexta-feira, 10 de junho de 2011

EM PANTANILLO




A don Federico Valle


1


Mil passos arrastam pacientemente as solas maduras em rochas diferentes.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (gaguejante de impuro colorido, de sol inibido, de água acobreada, de cavalos com caldas etéreas, do pranto do cacto impotente…). A cascata reverdeja os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregá-las alegremente em frágeis blocos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar debaixo de tanto céu, tanto lume cromático, tanta conjectura de lugar
.


2


Os meus dedos dactilografam do mesmo modo… (talvez contribuam com seus ruídos para aumentar os ruídos naturais de fundo).
As vozes elevam-se pretendendo matizar as aspirações de solidão a que os espaços obrigam. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem de surpresa no nevoeiro. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem debaixo da opressão tensa do manto ungido de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinzento…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um espaço maior na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim continua, assim caminha, assim se vê esfumar as folhitas a preto e branco deste calendário que transpira o suor de um calor intangível
.


3


As montanhas permanecem impávidas. Dúvida tremenda: arranhar-se debaixo do manto carnal ou remover os caules difusos tentando encontrar o perfil da flor única à luz de um enlevo descolorido.

Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

sábado, 2 de abril de 2011

POEMA AO MEU PAPEL

lendo poemas próprios
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!


Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

sexta-feira, 1 de abril de 2011

EU SOU…

minhas asas?
duas pétalas apodrecidas

minha razão?
cálices de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um gume na cadeira

meu vaivém?
um gongo de brincar

meu rosto?
um zero dissimulado

meus olhos?
ah! pedaços de infinito


Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

quinta-feira, 29 de abril de 2010

QUARTO SOLITÁRIO

Se te atreveres a surpreender
a verdade desta velha parede;
e as suas fissuras, fendas,
formando rostos, esfinges,
mãos, clepsidras,
seguramente virá
uma presença para a tua sede,
provavelmente partirá
esta ausência que te bebe.

Versão de HMBF.




Conta quem julga saber que Alejandra Pizarnik nasceu no dia 29 de Abril de 1936, filha de judeus russos emigrados nos subúrbios de Buenos Aires. Diz-se por aí que não teve vida fácil. Problemas de acne e tendência para engordar ter-lhe-ão abalado a auto-estima. Refugiou-se nas anfetaminas e na poesia, receitas pouco aconselháveis a personalidades demasiado sensíveis. La tierra más ajena (1955), o primeiro livro de poemas, praticamente coincidiu com a entrada para a Universidade de Buenos Aires. Estudos de Filosofia, Jornalismo e Letras foram sendo interrompidos por interesses de ordem estética. Estudou pintura sob tutela de Juan Batlle Planas. Partiu para Paris em 1960, aí tendo ficado até 1964. Na capital francesa, trabalhou para o jornal Cuadernos, traduziu vários autores, participou na cena literária local, frequentou alguns cursos na Sorbonne. De regresso à Argentina natal, continuou a publicar a sua obra e obteve duas bolsas que lhe permitiram sobreviver até à estocada derradeira. No dia 25 de Setembro de 1972 sucumbiu à depressão ingerindo uma dose excessiva de barbitúricos. Diz-se que, antes de morrer, maquilhou as bonecas que lhe faziam companhia à solidão.

P.S.: o fantasma de Alejandra Pizarnik aparece frequentemente, e bem, na casa da lebre. Aqui.