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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

PRIORIDADE AOS PATEGOS

 
O que significa prioridade aos nossos? Que entre a Rosa Grilo e um imigrante nepalês vocês escolhiam a Rosa, que entre o Pedro Dias e um santo do Bangladesh vocês escolhiam o Pedro, que entre o Manuel Palito e um refugiado sírio vocês optavam pelo Palito, que entre o Joe Berardo, o Luís Filipe Vieira, o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou outro qualquer a quem andaram os portugueses a lamber as botas e um imigrante que faz por ganhar a vida vocês não hesitariam na escolha: votavam no trafulha. Porquê? Por ser português. Ora, é precisamente esta mentalidade que faz de nós um relógio atrasado pela Inquisição, denunciou-o o Cavaleiro de Oliveira no século XVIII e a coisa não mudou. Somos o que somos, uns pategos. Portanto, prioridade aos pategos.

domingo, 16 de agosto de 2026

O PROBLEMA DAS BURCAS

Obsessão pela cirurgia estética cresce entre os jovens

Já atendi miúdas menores que querem fazer botox. Cirurgias e tratamentos estéticos antes procurados sobretudo por pessoas mais velhas estão a atrair cada vez mais jovens, incluindo menores. Médicos relatam pedidos de botox para prevenir o envelhecimento e preenchimentos labiais com ácido hialurónico.

(...)
«Nos últimos anos, multiplicaram-se filtros e aplicações que permitem alterar as fotografias para eliminar imperfeições da pele e modificar a cara, nomeadamente aumentar o volume dos lábios, ‘rasgar’ os olhos, estreitar o nariz e levantar as maçãs do rosto, o que contribuiu para enraizar um padrão de beleza extremamente homogéneo, popularizado por muitas celebridades e influencers, e que ficou mesmo conhecido como “Instagram Face”.
O uso destes filtros banalizou-se sobretudo entre os mais jovens nas selfies que publicam nas redes sociais, o que fez aumentar a insatisfação com a sua imagem real, alimentando, muitas vezes, uma obsessão em relação a determinados pormenores ou supostos defeitos do seu rosto. “Alguma literatura científica já fala mesmo numa dismorfia associada aos filtros”, diz ao Expresso Sofia Marques Ramalho, psicóloga e investigadora na área da obesidade, comportamento alimentar e imagem corporal.»
(...)

Vem no Expresso.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ESCREVER COM IA

 
"O problema de escrever com IA é o enfraquecimento das capacidades mentais — oferece um elevador quando, na verdade, precisamos é de criar o hábito diário de subir escadas. À medida que se torna omnipresente, a IA mina não só a nossa capacidade individual de escrever, mas também o cultivo do raciocínio e a capacidade colectiva de raciocinar e de nos preocuparmos. Já estamos a lidar com o declínio bem documentado da leitura; a IA está a acelerar o declínio da escrita, conduzindo-nos mais ainda para aquilo a que Rose Horowitch, da revista The Atlantic, chama a nossa “era pós-alfabetizada”. (...) A relação entre literacia e democracia é bem conhecida: historicamente, as pessoas que sabem ler e escrever estão mais habilitadas a escolher e a defender os seus próprios interesses. O que acontece quando o processo se inverte? Quando as pessoas não têm paciência para absorver argumentos com mais do que algumas páginas ou frases? Quando lhes falta a capacidade de contrariar estes argumentos porque nunca melhoraram, através da prática diária, a competência mais essencial para um pensamento objectivo?"

Bret Stephens, no The New York Times.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

MEDIANIA

 
Clara Ferreira Alves, em crónica assinada no Expresso, diz que estes são bons tempos para o humor político, os bonecos fazem-se por si. Falta é talento. Tem razão, ela que nem sempre a tem. Uma pessoa olha e pasma, das juntas às câmaras, da assembleia à presidência, é tudo tão medíocre que mete dó. Não há perspetivas de futuro, não há planos que se vejam, nem bons, nem maus, tudo empurra com a barriga e varre para debaixo do tapete, não há políticas que façam uma pessoa sentir: ora aqui está um rumo. Até podia não parecer o melhor, mas que houvesse rumo. É tudo conta corrente, gestão diária da popularidade, medidas avulso para agradar a gregos e troianos, capas e máscaras sob as quais a vidinha se vai organizando com os olhos postos na reforma. Ouvem-se os intervenientes na comunicação social, nas redes sociais, e sente-se vergonha alheia. Sigam o exemplo de Seguro, mantenham-se calados. Calados são autênticos poetas. É que de ouvi-los falar até dá medo, pensarmos nós que estamos entregues a tamanha vulgaridade, à mais boçal das ausências de pensamento, a esta enxúndia de víboras a morder víboras. Talvez a razão para isto seja mesmo a falta de vontade. Qualquer pessoa com dois dedos de testa dificilmente se mete na política hoje em dia, a não ser que pretenda sujar-se. Ficam por lá os cabeçudos, cheios de lata, indiferentes à ignominiosa falta de estro que nos assaltou.

sábado, 1 de agosto de 2026

PICKPOCKET

 
A moda dos pickpocket pegou por cá. Para quem não saiba, trata-se de uns tipos que andam a caçar carteiristas em flagrante. Agora até usam sprays de tinta para marcar os larápios como se fazia aos judeus na Alemanha nazi. Claro que filmam tudo, partilham nas redes, são deveras populares. Andam atrás dos carteiristas e apontam o dedo aos berros: pickpocket, pickpocket... Hoje, estava eu na Praia da Amália a mirar gaivotas, dei por mim a pensar como seriam úteis esses caçadores de carteiristas aos balcões das seguradoras, nas estações de serviço, nas agências bancárias ou até mesmo nos restaurantes que cobram 20€ por garrafas de vinho que compramos a 5€ num qualquer supermercado. Precisamos desses heróis onde eles são realmente necessários, onde nos roubam à tripa-forra sem vergonha e com consentimento. Infelizmente, os vídeos pickpocket só rendem quando os ladrões são pobretanas como as gaivotas atrás de migalhas.

domingo, 26 de julho de 2026

GRANDES TEMAS

 
Escolha o grande tema do dia:
1. Influencers portugueses visitam Gaza a convite de Israel
2. Joana Marques versus Mafalda Matos
3. Assalto ao gabinete de André Ventura
4. Bombeiros portugueses salvam cão nos incêndios de Espanha
5. Preço das respostas classificadas e dos exames reapreciados
6. Imigração em Ceuta
7. A Odisseia, de Christopher Nolan
8. Isto hoje ainda vai abrir

domingo, 21 de junho de 2026

GENEBRA

 
Alguém sabe como está a vida em Genebra? Já recuperaram das escolas destruídas, dos hospitais em ruínas, das zonas habitacionais em cinzas? E dos jornalistas assassinados, dos médicos executados, das crianças, dos velhos, das mulheres e dos doentes exterminados? Alguém pode dizer se Genebra ainda existe? Estou preocupado, os extremistas da extrema-esquerda andavam a destruir aquilo tudo. Terá sobrado alguma coisa? Não deviam a RTP, a SIC, a TVI, a CNN, a CMTV, o Now agendar uma entrevista exclusiva com André Ventura para nos esclarecerem sobre o massacre em Genebra?

terça-feira, 16 de junho de 2026

LIXO EM CHAMAS

 
Tanto comentador indignado com caixotes do lixo e carros a arder em Genebra, tantos jornalistas a encher a boca com grupos de jovens radicais de extrema-esquerda, horas e mais horas em directo diabolizador. Na Irlanda do Norte prossegue o pogrom, Gaza são cinzas, o Líbano foi invadido, na América continua o mundial da vergonha... O ICE pode perseguir, torturar e matar, Netanyahu pode exterminar, nas televisões os cúmplices do genocídio têm antena sem contraditório, queimar carros e baldes do lixo é que não pode ser, que horror. Vendam já a RTP ao Ventura, vendam-lhes o mundo inteiro, será o paraíso na Terra.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

INFANTINO

 


Gianni Infantino é, por estes dias, o rosto da mais ignóbil venalidade que assaltou o mundo. Depois do gesto bajulador com prémios da paz a cheirar a tumefação, aí o temos diariamente a pôr água na fervura, a usar paninhos quentes, a oferecer a sua cara de pau careca a uma organização que é a antítese do espírito desportivo. Mas não nos iludamos, a uma escala micro este mundo está repleto de infantinos cujo propósito único e final é apenas e tão-só ficar bem na fotografia ao lado de quem lhes possa ser útil às ambiçõezinhas mais fúteis. Sem o mínimo escrúpulo daquilo a que podemos chamar ética social, o que move esta gente é a vaidade, o egoísmo, enfim, a vanitas. E o povo vai atrás como n’A Parábola dos Cegos, de Bruegel, o Velho, a fazer bicha no beija-mão que sempre entusiasma as hostes e sintonizando o canal na selecção porque, enfim, as violações anais do CR7 serão sempre mais entusiasmantes do que o extermínio em Gaza. Depois é ouvi-los queixarem-se de berardos e espíritos santos a quem só não beijaram o cu se não puderam, pois a culpa é da justiça portuguesa, dos ciganos e dos comunistas.

domingo, 24 de maio de 2026

GENTRIFICAÇÃO

 

Escreve João Vieira Pereira, no Expresso:

"A gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte, a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade vertiginosa."

Um país a saque, cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas, futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão, suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

FOGO DE ARTIFÍCIO

 
Entre os investimentos estruturais que nunca carecem de fundos neste país à beira-mar plantado temos o fogo de artifício. Pode não haver dinheiro para ajudar quem precisa, para fazer face às intempéries, para a cultura, para melhorar escolas, pagar a cantoneiros, etc., mas que nunca nos falte o fogo de artifício. Seja no Ano Novo ou no ano velho, queimem-se os euros na pólvora que nos ilumina e no ruído que nos ensurdece.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

DIA DA CIDADE

 
Amanhã é dia da cidade. Por certo haverá fogo-de-artifício, para alegria dos homens e desespero dos animais, assim como música pimba, para alegria dos animais e desespero dos homens.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

NOTÍCIAS DE FACEBOOK

 
Há dias, o Carlos perguntava: "Alguém daqui já leu algum livro do «autor mais influente da literatura em Portugal»?" Fiquei a pensar quem seria o autor, mas tendo a pergunta origem numa declaração do Osório pensei o pior. Fico agora a saber, através do Pedro, que o autor mais influente da literatura em Portugal, segundo o Osório dos parágrafos infecção urinária, é um tal de Couceiro. Nunca li, nem creio que alguma vez vá ler, mas sei que editou o "Sentir" da Cristina Ferreira numa editora com o mesmo nome de uma que, em tempos idos, publicou Cesariny, Herberto, etc. A do Pacheco. Está tudo certo, para mim está tudo certo. E agora vou ali comer caracóis, o prato mais influente da gastronomia portuguesa.

domingo, 26 de abril de 2026

DOS AFUNDANÇOS SENSUAIS

 
Não deixa de ser impressionante a agilidade, a eficácia, a ligeireza, elegância e coordenação motora, aquele pragmatismo que só pode vir da prática, enfim o desembaraço de Melania Trump a ajoelhar-se debaixo da mesa.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

APOSTAS

 
O mundo transformado num casino, com políticos a actuar como jogadores de poker exímios no bluff. Revela o The New York Times que o filho mais novo de Trump tem ligações aos dois maiores "prediction markets" (mercados de profecias), o Polymarket e o seu concorrente, o Kalshi: «É consultor remunerado do Kalshi. E a 1789 Capital [grande nome!], uma empresa de capital de risco da qual Donald Trump Jr. é sócio, investiu no Polymarket. Trump é também consultor não remunerado da empresa.» O que são estas empresas de oráculos? São, basicamente, casas de apostas que permitem aos jogadores apostar numa vasta gama de eventos futuros. Vão os EUA transformar Gaza num resort de luxo? E o povo aposta com a mesma excitação de quem se entrega às raspadinhas, mas ganha quem estiver na posse de informações sobre o futuro. Quem são os Tirésias da actualidade? Por exemplo: «um soldado das forças especiais do Exército dos EUA envolvido na captura do presidente Nicolás Maduro da Venezuela foi acusado de usar informações confidenciais para apostar em eventos relacionados com a missão.» Nestes sites de apostas tanto se pode apostar em quanto tempo o primeiro-ministro britânico Keir Starmer se aguentará no cargo como em quantas mensagens Elon Musk enviará nas redes sociais no próximo mês ou qual será a temperatura em Paris num determinado dia. Resultado: «Antes de grandes acontecimentos, como o ataque americano-israelita ao Irão ou os Óscares, um grande número de apostas surgiu nos mercados de previsão, a maioria delas a prever correctamente o que estava prestes a acontecer. Talvez estas pessoas tivessem sorte ou fossem extremamente perspicazes. Mas também surgiu a suspeita de que poderiam ter tido informações privilegiadas e usá-las nas suas apostas — tal como alguns investidores podem usar informações privilegiadas para ganhar dinheiro ilegalmente no mercado bolsista. Uma análise do New York Times baseada em dados da Polymarket mostrou centenas de apostas num único dia de Junho passado a prever que os Estados Unidos atacariam o Irão. O Times descobriu que tais apostas eram bastante incomuns até então.» Estão a ver a coisa? Chama-se economia de casino, os cidadãos são jogadores. Para quê leis laborais se podemos ganhar a vida a apostar na aprovação do pacote? Diz a ainda o TNYT que, em 2003, «o Pentágono planeou um mercado online no qual os apostadores poderiam prever ataques terroristas, assassinatos e outros acontecimentos políticos de grande impacto, na esperança de obter dados úteis. O plano gerou protestos por parte dos legisladores que consideraram macabro a ideia de as pessoas lucrarem com acontecimentos terríveis, e foi rapidamente descartado.» Foi há 23 anos. Já não é. O que há duas décadas era do domínio da ficção científica e das mais improváveis distopias, faz hoje parte do nosso quotidiano. É neste mundo que estamos a viver, o da lógica do bluff.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A/C DOS JORNALISTAS PORTUGUESES

André Ventura já acordou e lavou os dentes, está na hora de uma entrevista exclusiva, uma reportagem, um directo: dormiu bem? sonhou? teve pesadelos? a sua senhora teve um soninho descansado? que pasta dentífrica usou? que tipo de escova de dentes usa, manual, eléctrica, interdental, ortodôntica? deu algum pum durante a noite? Portugal precisa de saber, é dever dos jornalistas informar, o povo merece.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

CRISTINAS

 
Há anos, vi-me envolvido numa polémica de lana-caprina por ter declarado ódio à Dona Cristina. Dizia, e repito, que representa tudo o que mais odeio no mundo, a saber o culto da estupidez que tanto leva à veneração de ídolos de pechisbeque como à reverência a líderes alarves. Vide Trump e seu séquito de imbecis. O histerismo da Dona Cristina deu-lhe popularidade num país de histéricos, de que os pulos do Baião com o macaco foram precursores e as parolices do Goucha fizeram escola. A programação matinal das televisões é uma panela em que se confecciona todo o tipo de imbecilidades, as quais entram pela tarde e se instalam nas casas dos segredos e big brothers. É assim há anos porque o nível desceu, a fasquia ficou tão baixa que só importa a audiência, a sala cheia. E os senhores políticos, sem excepção, aproveitam o embalo aceitando convite para a conversa fiada em período eleitoral. Isto é o que temos um pouco por todo o país, a televisão contamina e retrata o resto, esta indigente rendição aos formatos do sucesso, os quais, para nossa desgraça, revelam sempre valores negativos no termómetro da inteligência. Fizeram da Dona Cristina uma estrela ao ombro da qual adoram pousar para a fotografia, indiferentes às alarvices que a senhora profira e as suzanas garcias de serviço corroborem. Não se admirem, depois, da teia em que foram apanhados, ela aí está com trumps, chegas e afins. Se julgam que isto não está tudo ligado, desenganem-se. Sempre que somos complacentes com a merda, o mais certo é acabarmos cagados.

terça-feira, 14 de abril de 2026

ERÍSTICA

Há mais de dois mil anos, um senhor chamado Aristóteles dedicou alguma atenção aos paralogismos, ou seja, argumentos que parecem sê-lo, por oposição aos silogismos. Pretendia ele refutar os sofistas que negociavam uma sabedoria aparente preferindo parecer sábios a sê-lo de facto. Enumerou argumentos, dividindo-os segundo a espécie, desmontou os propósitos de quem polemiza, denunciou falácias, "erros que acompanham a opinião fundada na percepção", enfim, as tretas dos sofistas. Assim mesmo, tretas. Isto foi antes de a sociedade do espectáculo impor as suas regras, as quais já nada têm que ver com a busca da verdade. Parte integrante desta tragédia deprimente, os polígrafos procuram desmentir fake news partindo de uma perspectiva equívoca sobre a realidade: a de que os factos resultam de um jogo com regras claras. Ontem, um homem quis fazer de polígrafo e acabou a fazer a figura triste que sempre fazem os velhos que teimam em não aceitar as novas regras do jogo. O jovem sofista, exímio na exibição de uma sabedoria aparente, lucrou. A razão é óbvia, não lhe interessa minimamente a verdade. Só tem em vista a vitória, seja lá por que meios for. Assim temos, mais uma vez, o espectáculo garantido num canal televisivo cujos investidores esfregam hoje as mãos de contentamento e brindam com Moët & Chandon.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

CARTA BRANCA

 
Israel tem carta branca para matar. A Organização das Nações Unidas nada consegue contra, a União Europeia nem pia, os Estados Unidos da América apoiam, os países árabes olham sobre o ombro dos Estados Unidos da América, África e América do Sul não contam, Coreia do Norte cala-se, China cala-se, Federação Russa mata na Ucrânia, o Japão cala-se, o mundo de joelhos legitima Benjamin Netanyahu como um inimputável que pode cometer os crimes que lhe apetecer. Israel tem carta branca para matar. Nem a Palestina nem o Líbano interessam, podem desaparecer, milhares e milhares de pessoas a morrer, outras a sofrer, o mundo a assistir. Israel a matar.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

CONTAGEM DECRESCENTE

 
Diz Manuel Cardoso no Expresso:

"A CNN, a SIC Notícias e a NOW, durante toda a emissão de terça-feira, optaram por exibir um cronómetro em contagem decrescente que culminava no fim do prazo que Trump tinha dado ao Irão para reabrir o estreito de Ormuz. Aparentemente, o conflito atual em que se tomam decisões mais destrutivas é a guerra de audiências. Para competir com uma noite de Champions, os diretores de informação decidiram pôr no ar um contrarrelógio para o momento em que podiam ser lançadas armas nucleares. O telespectador ficou indeciso entre ver o Arsenal e ver o arsenal. Apesar de tudo, o canal de notícias da Media Livre perdeu a oportunidade de reforçar ainda mais o dramatismo: podia ter alterado, durante 24 horas, o seu nome para Apocalipse NOW."

O Manuel é humorista e isto não tem piada, é mero relato do que se passou, não é caricatural, é verdadeiro, é um retrato fiel da absoluta miséria em que estamos atolados. Felizmente, entre teatro, exposições, instalações e performances, escapei do pântano e passei ao lado do fim do mundo. Que já foi, porque o mundo era composto de seres humanos. Restam simulacros.