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sábado, 27 de abril de 2019

OS PÁSSAROS PERDIDOS




Amo os pássaros perdidos
que retornam do além,
confundindo-se com um céu
que jamais poderei recuperar.

Retomam as memórias,
as jovens horas que ofereci,
e do mar chega um fantasma
feito de coisas que amei e perdi.

Foi tudo um sonho, um sonho que perdemos,
como perdemos os pássaros e o mar,
um sonho breve e antigo como o tempo
que os espelhos não podem espelhar.

Depois tentei perder-te em tantas outras
e todas e aqueloutra eram vós;
logrei por fim aceitar quando um adeus é adeus,
devorou-me a solidão e fomos dois.

Regressam os pássaros nocturnos
que voam cegos sobre o mar,
a noite inteira é um espelho
que me devolve a tua saudade.

Sou apenas um pássaro perdido
que retorna do além
confundindo-se com um céu
que jamais poderá recuperar.


Mario Trejo (n. 13 de Janeiro de 1926, Argentina – m. 14 de Maio de 2012, Buenos Aires, Argentina) , versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 229-230. Desconhece-se o local de nascimento, informação que o poeta fazia questão de desprezar. Foi jornalista, argumentista, actor, letrista, participando em vários grupos reunidos em torno de revistas tais como Poesía Buenos Aires (de Edgar Bayley e Raúl Gustavo Aguirre), Contemporánea, Luz y sombra. Relacionou-se nos anos de 1950 com o Grupo de Arte Concreto-Invención. A sua poesia surge caracterizada como detentora de uma ironia que questiona as convenções sociais e políticas, comprometida com diversas causas sem se tornar panfletária. Pájaros Perdidos foi musicado por Astor Piazzolla.

sábado, 20 de abril de 2019

UM POEMA DE MARIO TREJO



A PROPÓSITO DA PALAVRA DEUS

Dizê-la
Nomeá-la
Rogá-la
Temê-la
Observá-la
Tocá-la
Negá-la
Gritá-la

Creio em todo este caos
Creio em toda esta loucura
Crimes e torturas
Que um dia terminarão

Creio em tanta injustiça
E na lei da selva
Viver é uma guerra
Que um dia terminará

Creio sem dúvida
Que no meio do incêndio
Quando tudo está a arder
Algo existe

Beleza dos loucos
Crepúsculo em chamas
Infância destroçada
Algo existe

Labirintos intrincados
Espelhos sem saída
Amor enceguecido
Algo existe

Roleta de esperanças
Memórias como flechas
Domingo interminável
Algo existe

Beijar pela primeira vez
Lutar contra o esquecimento
Reencontros inúteis
Algo existe

Balas na boca
Negro sol de tristeza
Escolher o esquecimento
Algo existe

Loucura do planeta
Razão do universo
Que ignora o bem e o mal
Tambores que à noite
Repetem a palavra
Obsessiva como o mar

Saber que não há resposta
E contudo dizer
Algo existe Algo existe


Mario Trejo (n. 1926 – m. 2012), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 219-221.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

APONTAMENTOS PARA UMA CRÍTICA DA RAZÃO POÉTICA



Digamos, por exemplo:
de um dado ponto fora da lua
apenas e tão-somente uma perpendicular
poderá delinear a dita lua.

Ou também:
chama-se barroco a todo aquele
para quem a distância menor
entre dois pontos
é a curva.

Proposição:
passar de uma poética da moral
à moral poética.

Exemplo:
de dois perigos deve precaver-se o homem novo:
da direita quando é destra
da esquerda quando é sinistra.

Em resumo:
mais vale ser cabeça de leão do que cauda de rato.

O melhor modo de esperar é ir ao encontro.

Mario Trejo (n. 1926 – m. 2012), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 224.