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terça-feira, 9 de março de 2021

TRÊS POEMAS DE HUGO MUJICA


 

AMANHECE E CALO
 
Amanhece e
calo;
 
calo todo o medo, calo qualquer
                                              presságio,
 
                     procuro um alvorecer virgem de mim,
                                                        procuro o nascer da luz,
                                                                             não que me ilumine.

 
 
NEVE AO VENTO
 
Flocos de neve ao vento,
                    caem desde o seu agora,
                                                     caem sobre o seu aqui.
 
Quando não há ontem, quando
hoje é olvido,
não há como imaginar amanhãs:
                                        há só o que sempre existe,
                                                      há este ir nascendo.

 
 
EM PLENA NOITE
 
Também em plena noite
a neve
derrete branca
 
e a chuva
cai
sem perder a transparência.
 
É ela, a noite,
quem nos livra dos reflexos,
 
quem nos dilata
as pupilas.
 
O que o cego busca com a bengala
                                       é a luz, não o caminho.

 

 

Hugo Mujica, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 373-384.

quinta-feira, 4 de março de 2021

UM POEMA DE WENCESLAO RODRÍGUEZ

 


Há não muito, remexendo uma pilha de livros numa desorganizada tenda instalada na frenética Feira do Rastro, em Madrid, encontrei um caderno amarelado cheio de poemas e de pequenos contos manuscritos, onde figurava na folha de rosto o título genérico O manual do perdedor, precedido da dedicatória: “A Beatriz, cujo amor jamais me teria feito desprezar a ousadia de estar vivo” e do nome do autor: Lalo Rodríguez, o qual prontamente me pareceu familiar.
   Passados alguns dias, depois de ter lido o manuscrito com verdadeiro interesse, quase devotamente, referi os pormenores da minha descoberta ao memorioso Andrés Trapiello, o qual me assegurou que, havia aproximadamente um par de anos, o nosso amigo comum Alberto Clos nos tinha pedido para negociar com a Hiperión o lançamento deste autor desconhecido.
   Um tanto envergonhado por motivos que não vêm ao caso, telefonei a Clos, e confesso que não me surpreendi quando me revelou que Wenceslao Roxdríguez se tinha suicidado: de certo modo, a imensa maioria dos seus textos preconizava tal destino. Sopesei por instantes a pausa de ressentimento pressentida do outro lado da linha, balbuciei um “vá lá, Alberto” e aclarei a voz para pedir-lhe mais detalhes.
   Agora, contudo, parece-me inoportuno reproduzir aqui o conteúdo da conversa que, graças ao meu amigo, mantive com os pais do autor. Digamos apenas que Wenceslao Rodríguez Teixedor, nascido a 2 de Junho de 1970 num bairro central de Madrid, foi um filho incompreendido e um jovem aventureiro que cedo conheceu o delírio e o inferno das drogas. A morte sorriu-lhe em Sevilha, numa pensão sórdida chamada El Guaraní. Encontraram-no amarrado a uma viga na manhã de 16 de Outubro de 1997. “A sua última poesia — confidenciou-me sua mãe no meio de um ataque de choro não isento de orgulho — foi escrita para mim”. Aurora Teixedor referia-se à palavra que Wenceslao Rodríguez tatuou numa mão pouco antes de morrer: “Perdão”.
 
MISHA
 
Quem por fim consentiu gozar
atada às grades duma cama,
(aquela que, certo dia, amaldiçoou
o seu pudor e, na minha presença, desocupou o seu ventre),
escreveu-me do Japão para dizer que ultimamente
chove por lá como nunca e que não me esqueça de dar lembranças
suas a toda a Espanha.
Post scriptum: Amo aquele céu azul.
Tua Misha.
Desde O Sol Nascente.

 
Nota: Wenceslao Rodríguez é uma personagem de ficção criada por Eliseo González, in Galería de Suicidas, Huerga y Fierro editores, Maio de 2003, pp. 47-57. Versão de HMBF.

terça-feira, 2 de março de 2021

AFORISMOS DE NICOLÁS ARNEDO

 


 

Por vezes pergunto-me que dissimulado cúmulo de imagens os outros conservarão de mim mesmo. Muitos — adivinho-o porque alguns já tiveram a coragem de me o atirar à cara —recordarão a néscia vaidade dissipada no brilho dos meus olhos; outros, a ameaça indisfarçável de desprezo com que a imbecilidade — especialmente a dos demais — subitamente embrutece as feições do meu rosto; e suspeito que uns poucos aquele poço de temor, a careta de animal acossado e indefeso a que por vezes me reduzem a pena ou a ternura…
   Também eu guardo deles — desses pálidos fantasmas que por vezes se cruzaram e que ainda se cruzam com a minha vida — o afã, a dor, a vergonha ou a coragem que, certo dia, me inspiraram os seus semblantes. Fecho os olhos e logo os vejo. São uma sucessão de flashes que, capturados num ricto, emergem na minha mente. Assim os olhos transviados de Borges numa remota tarde de Abril, o sorriso moribundo da minha mãe ou o último olhar no rosto sem amor de Alina Reyes. São uma projecção de expressões fragmentadas e eu, como o esquecimento, o seu fiel coleccionador…
   De Nicolás Arnedo — sem dúvida alguma o mais excepcional de quantos poetas formam esta funesta antologia de suicidas —, conservo vivamente na memória a imagem da sua cara estupefacta, quando no El Paredón, ao entardecer de uma tarde de Junho, alguém que não eu o abateu com esta frase de Cesare Pavese: “A coisa mais secretamente temida acaba sempre por acontecer”.
   Nicolás Arnedo Marañón, nascido em Segovia a 6 de Agosto de 1950, era um homem de carácter sumamente reservado e depressivo, que viveu permanentemente à custa da dor. Sujeitado à severidade de uma mente hipocondríaca, suportou com inaudita apreensão todos os sintomas de quantas e múltiplas enfermidades tinha conhecimento, sem que alguma delas alguma vez lhe tenha sido diagnosticada. Consciente de que o mal — o mal obscuro* —se encontrava no seu cérebro, buscou salvação no divã de um prestigiado psiquiatra, o qual lhe recomendou que exorcismasse temores escrevendo. Persuadido — talvez como Molière, outro doente imaginário — de que apenas o exercício da literatura aliviaria seus tormentos, entregou-se de corpo e alma à vasta criação desse inteligente labirinto de aflições — solidificado com poemas esplêndidos, breves, ainda que densos, contos, aforismos medíocres e citações desgarradas com aspiração a feitiços — a que deu o nome de Terapia, obra publicada meses antes da sua morte e que, desafortunadamente, nada lhe curou: enforcou-se a 20 de Janeiro de 1991, não deixando como aviso de tal decisão mais do que umas frases sublinhadas na última página do livro O Ofício de Viver, de Cesare Pavese:
 
   «Espantas-te de que os outros passem a teu lado e não saibam, quando tu próprio passas ao lado de tanta gente sem saber: Não te interessa qual o pesar de cada um, o seu cancro secreto?
   A coisa mais secretamente temida acaba sempre por acontecer.
   Tudo isto é asqueroso.
   Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais.»
 
   A autópsia realizada ao cadáver de Nicolás Arnedo revelou a presença de um tumor incipiente no seu cérebro.
 
* O Mal Obscuro, de Giuseppe Berto. Livro de cabeceira de Nicolás Arnedo.
 
 
AFORISMOS
 
6
Propus-me descobrir aquele ser infame
que residia na minha ambição e na minha ganância.
Agora sou eu quem ri, cheio de tristeza.
 
11
Quem escava como um louco nas suas profundezas
corre o risco de arrancar do coalho
a realidade ao sonho.
 
18
Pouco a pouco a intenção de melhorar o mundo
converteu-nos em usurários do fracasso,
em mesquinhos comerciantes da infelicidade.
 
22
Onde a luz projecta a sua estranha
intermitência de encontros imprevistos,
a obscuridade acolhe um açougue
de corpos submetidos ao amor.
 
66
Disse o ilusionista:
“É preferível a ideia de adorar um deus indigno,
a pensar que o homem é obra de um azar incompreensível.
 
 
Nota: Nicolás Arnedo é uma personagem de ficção criada por Eliseo González, in Galería de Suicidas, Huerga y Fierro editores, Maio de 2003, pp. 29-40. Versão de HMBF. Para as citações de Cesare Pavese usei a tradução de Alfredo Amorim, in O Ofício de Viver, Relógio D’Água, 2004.

segunda-feira, 1 de março de 2021

DOIS POEMAS DE ALINA REYES

 


 

A tarde de 14 de Novembro de 1991 não deve ter sido — muito menos para Alina— uma tarde qualquer. Consta que antes de embarcar para sempre na barca de louça atracada numa casa de banho num quarto de hotel, deixou escritas, sobre a mesa de cabeceira, estas palavras que, à maneira de um colofão atordoado ou de uma despedida entorpecida, bem podiam  causar inveja num diário: “Que estranho… A luz está apagada e porém juraria que acabo de acendê-la. Pelo menos, amanhã a empregada não terá de fazer a cama”.
   Alina Reyes Moral nasceu a 1 de Outubro de 1960 em Abia de la Obispalía, povoado remoto de Cuenca. Fruto de um amor proibido e misterioso, foi abandonada pela mãe quando tinha sete anos. Sob o amparo anónimo do remorso paterno, uma vontade obscura conseguiu interná-la num colégio carmelita onde permaneceu até cumprir os dezoito anos. A partir dessa idade, foi tropeçando em diversos empregos e em distintas cidades de Espanha, até que a sorte — ou talvez a desgraça — de conseguir uma vaga nos Correios, a trouxe a Madrid, onde, com mais engenho do que determinação, alentou as suas mais secretas fantasias na busca de um sólido destino literário.
   Quando a conheci, Alina Reyes andava pelos vinte e sete anos. Era uma mulher baixa, de olhos esverdeados e sorrisos que plasmavam no seu rosto um ar ingénuo, impregnado de certa melancolia. Recordo que, amiúde, depois das nossas leituras públicas de poesia no El Paredón, ela costumava confessar aos que lhe eram mais íntimos: “Tenho a convicção de que os meus melhores versos foram escritos por uma impostora. Não sucede o mesmo convosco? Não têm a sensação de por vezes serem outro? Não vos acontece descobrir de repente esse fantasma que entedia as vossas vidas quando vos olhais ao espelho?”
   Durante várias horas da última noite do ano de 1990 — fogo-de-artifício, chamas, beijos emocionados e álcool —, sonhei que algum dia Alina Reyes seria minha mulher. Creio que a amava. Creio que a amei até àquela tarde inesperada de 14 de Novembro, quando, sem motivo aparente, Alina se fechou num quarto de hotel, abriu uma torneira, esperou que a banheira ficasse cheia e cortou as veias.
   Uns meses depois, a generosidade de um obscuro e misterioso amigo — a carta e o dinheiro que recebi chegaram-me de Cuenca — permitiu-me editar a quase totalidade dos seus poemas, reunidos sob o título A mulher de Lot. Desse livro imprimiram-se mil e quinhentos exemplares e, como era de esperar, perdeu-se pelos viciosos circuitos literários com mais pena do que glória. Apenas uma resenha tímida — obviamente minha —, aparecida no hoje obsoleto suplemento cultural do El País, apostava em Alina. Ou melhor, na sua impostora.  
 
A INVENÇÃO DE ADÃO
 
Em que vale,
em que jardim de nunca
decidiste não existir
para que eu te imaginasse.
 
 
O BARCO
 
Hoje é uma tarde qualquer.
Ao longe escuta-se a sirene
de um barco sem regresso,
rumando até ao nada
que a todos espera,
uma tarde qualquer
na barca à deriva dos mortos.

 
Nota: Alina Reyes é uma personagem de ficção criada por Eliseo González, in Galería de Suicidas, Huerga y Fierro editores, Maio de 2003, pp. 9-17. Versão de HMBF.

domingo, 29 de novembro de 2020

UM CONTO ESQUIMÓ

 


O MENINO COMILÃO

 
   Um menino vivia com a avó num iglu construído pelo avô. Desde a morte deste, a fome crescia pela casa. Um dia, a anciã tirou o neto do iglu. Não podia continuar a alimentá-lo. Implorou-lhe que encontrasse algo para comer.
   O menino partiu e encontrou um bacalhau que tinha sido largado na praia. Apanhou-o, arrancou-lhe a cabeça e devorou-o de uma só vez. Continuou o passeio e tropeçou num leão-marinho. Atirou-se a ele, arrancou-lhe a cabeça e comeu-o. Mas mesmo assim continuava com fome. Mais adiante, deu com uma morsa de grandes bigodes aquecendo-se ao sol. Antes que a morsa chegasse à água, o menino já lhe tinha arrancado a cabeça e devorou-a sem ressentimentos.
   Por fim, o pequeno glutão avistou uma baleia branca que acabara de ser arpoada por um pescador. Tal como tinha feito com o bacalhau, o leão-marinho e a morsa, arrancou-lhe a cabeça e comeu-a inteira, pele, barba e intestinos incluídos. Sentiu-se então melhor. Pela primeira vez na vida tinha conseguido devorar a sua própria fome. Pôs-se a cantar uma canção que dedicou ao seu estômago. Teve sede e dirigiu-se a um pequeno lago, onde bebeu sofregamente. O lago secou e o menino regressou ao iglu. Porém, tinha engordado tanto que não conseguia entrar pela porta.
  Entra pela janela aconselhou-lhe a avó.
   A janela era mais pequena do que a porta. Contudo conseguiu meter a cabeça, ainda que os ombros ficassem presos.
   Entra pelo respirador aconselhou a anciã. O tubo do respirador era mais estreito do que a janela, mas a cabeça e os ombros do menino passaram, o estômago não.
   Passa pelo buraco da minha agulha rogou a esquimó.
   Levantou a agulha até ao tecto do iglu e o menino passou e caiu no solo. Naquele instante, a anciã deu-se conta de que o neto tinha engordado tanto apenas por haver comido demasiado.
   Não te aproximes da lamparina! disse-lhe com  firmeza.
   Mas o menino, perdendo o equilíbrio, rodopiou até à lamparina. Esta caiu sobre ele e explodiu. A anciã escapara a tempo. Quando o silêncio voltou a reinar, a velha arrastou-se até ao iglu e espreitou pela janela. O menino e a lamparina haviam desparecido. No seu lugar encontravam-se um bacalhau, um leão marinho, uma morsa e uma baleia nadando num pequeno lago azul.
 
In Cuentos Esquimales (Los cuentos del iglú), recogidos por Edward L. Keithahn, adaptación de Louise Weiss, traducción de Silvia Komet, José J. de Olañeta, Editor, 1990, pp. 35-38. Versão de HMBF.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

DEREK MAHON (1941-2020)


 

Morreu Derek Mahon (23 November 1941 – 1 October 2020), extraordinário poeta irlandês, natural de Belfast. Estreou-se em 1965, recebendo vários prémios ao longo da vida. Já este ano foi galardoado com o Prémio Irish Times Poetry Now. Acabei de mudar para português um poema seu, à laia de homenagem, proveniente do livro "The Snow Party" (1975). Espero que o poeta me perdoe, lá onde estiver:

FESTA DA NEVE

para Louis Asekoff

Chegando à cidade
de Nagoya, Bashô é convidado
para uma Festa da Neve.

Há um tilintar de porcelana
e chá da China.
As apresentações são feitas.

Ajuntam-se então
todos à janela
para verem a neve cair.

A neve cai em Nagoya
e mais a sul
nos azulejos de Quioto.

A leste, para lá de Irago,
a neve cai
como folhas num mar de gelo.

Noutros lugares queimam
bruxas e hereges
em praças efervescentes,

milhares morreram desde o amanhecer
ao serviço
de reis bárbaros;

mas há silêncio
nas casas de Nagoya
e nas colinas de Ise.

domingo, 20 de setembro de 2020

UM POEMA DE DEREK MAHON

 



POETAS DOS NOVENTA
 
Lentamente, com a grave negligência
Da sua espécie, cada rosto esculpido em espírito
Surge diante de mim, olhos
Arruinados pela descoberta.
 
Quase me havia esquecido de tais existências,
Tão ciumento andava eu da minha pele
E o mundo comigo. Como
É agora convosco?
 
Ter-vos-ão desapontado a morte e suas metamorfoses,
Assim como os vermes que tão de perto vistes?
Talvez hajais descoberto que tendes de fazer fila
Para um bilhete de entrada no inferno,
Apesar dos vossos perfumes a louro.
 
Fostes todos crianças de sabedoria indefesa,
Tagarelas aposentados que tolos não seriam
Clérigos rurais frustrados
Que jamais alguém ordenaria.
 
Não espereis favores da reincarnação,
Nenhum anseio após o álcool e as putas
Pois vós, mais do que ninguém,
Fizestes a vossa parte
Em levar a natureza até à arte…
 
Dai-vos por satisfeitos ao espalhares pelos prados
Cabelo e bocas juvenis presas a flores
E ficai descansados, o dia
Será a luz do sol, e a noite
Um zeloso espectro de estrelas.
 
 
Versão de HMBF.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

UM POEMA DE DEREK MAHON

 


AVÔ
 
Trouxeram-no do mundo numa maca,
Ferido mas humorado. E logo recuperou.
Salas de caldeiras, filas e mais filas de pórticos abrindo-se
Para revelar a paisagem de uma infância
Que só ele pode reconquistar. Mesmo nas manhãs
Frias levanta-se às seis com um bloco de madeira
Ou uma caixa de pregos, discreto nas intenções
Ou martelando à volta da casa como se tivesse quatro anos
 
Nunca está quando precisas. Mas depois de escurecer
Ouves o som das suas botifarras no corredor
E nelas ele chega, o mais querido possível. Cada noite
Os seus olhos argutos trancam a porta e acertam o relógio
Face ao futuro, depois a sua luz desaparece.
Nada lhe escapa; ele escapa-nos a todos.
 
 
Versão de HMBF.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE HUGO MUJICA



HÁ APENAS ALGUNS DIAS

Há apenas alguns dias morreu o meu pai,
há apenas tanto tempo.

Caiu sem peso,
como as pálpebras ao chegar
a noite ou uma folha
quando o vento não arranca, embala.

Hoje não é como outras chuvas
hoje chove pela primeira vez
                sobre o mármore da sua campa.

Sob as chuvas
podia ser eu quem jaz, agora o sei,
                 agora que noutro eu morri.

Hugo Mujica, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 375.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A EVIDÊNCIA




Desejaria que nenhuma exaltação
acompanhasse esta frase meus filhos
sentavam-se a ver o mar.

Assim era sem dúvida.
A cada noite chegavam em silêncio
e sem qualquer esforço vinculavam o mar
com a contemplação do mar,
a emoção com os objectos.
E sem dificuldade aceitavam a harmonia
que une os corpos à matéria afectada.

Era fácil saber que do mar
lhes chegava uma prova que nos excluía.
Mas por aqui me fico:
não se trata de encher com vacuidades  
o conhecimento directo.
(Um romantismo antiquado, ou um pouco
de pudor caduco, ainda é tolerável.
A metafísica não.)

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 362.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

BALADA DO HOMEM QUE SABE



Passam comboios, aviões, gente que leva no bolso
o seu conhecimento empírico.
O cenário, ainda que preso à terra com um tripé, muda rapidamente:
                vai da certeza à dúvida,
                da dúvida
                à dúvida explícita,
                e torna a começar.

Passam comboios, aviões, cidades que só de olhá-las se aceleram,
e o homem compõe o cachecol, sabe que o frio não se
contradiz, que a chuva não tem duas ideias:
                conhece a rua pela agitação,
                o rumo pelo empurrão da estratégia,
                o alimento pela necessidade.
Sabe que o cenário é o único argumento.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 370.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

«PALAVRAS PARA EXPLICAR PALAVRAS»




PALAVRAS

Vista daqui, a infância cabe na palavra anona.
A palavra Arminda também serve , além de nome
é o resumo de uma celebração.
A palavra juventude é demasiado eufórica,
mas continua, impetuosa e grave, a salvo de
qualquer caducidade.

Também o meu tio Santiago estava a salvo da caducidade:
          sensatamente a ignorava
          quando aos setenta anos fazia projectos que lhe
                          levariam outros setenta
          e sumariava, como quem ensina,
                          sou eterno, isso é tudo.

Não se trata tanto, então, de juntar palavras como
           significados: a persistência de alguém que por acaso
           seja eu.
Porque quem fará o trabalho, senão eu,
           sabendo que consiste, até à exaustão,
           em continuar a procurar o já procurado?

Mais uma vez
não é repetição:
            o que conta é o gotejar,
            o preço da aprendizagem;
surge então a palavra inconclusa: reclama
            a sua metade,
                           encrespa-se e não vem só.

Daí todo este ruído:
            este excesso de palavras
            para explicar palavras.


Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 368-369.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

UM POEMA DE SANTIAGO SYLVESTER



AS PALAVRAS QUOTIDIANAS

A questão é entender a intenção
das palavras que usamos obcecadamente:
as que o ardina grita,
as que o leiteiro murmura entre os vapores
do amanhecer,
as que rodopiam obsessivamente na cabeça do louco,
as que sem saber o carteiro leva no saco.

São poucas as palavras que sustentam a realidade
e que poderiam destruí-la apenas com a sua ausência;
são as que usamos para explicar a nossa parte do mundo,
as palavras de nossa convicção,
da nossa aposta íntima.

A questão é entender a intenção das palavras,
essa harmonia sem ênfase que se parece ao destino.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 361.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

UM POEMA DE ALEJANDRA PIZARNIK



A ENAMORADA

esta mania lúgubre de viver
esta graça recôndita de viver
arrasta-te alejandra não o negues.

hoje olhaste-te no espelho
e ficaste triste estavas só
a luz rugia o ar cantava
mas o teu amado não voltou

enviarás mensagens sorrirás
agitarás as tuas mãos assim voltará
o teu amado tão amado

escutas a sereia louca que o roubou
o barco com barbas de espuma
onde os risos morreram
recordas o último abraço
ó nada de angústia
ri no lenço chora às gargalhadas
mas fecha as portas do teu rosto
para que não digam logo
que aquela mulher apaixonada foste tu

os dias afligem-te
as noites culpam-te
dói-te tanto a vida tanto
desesperada, onde vais?
desesperada, nada mais!


Alejandra Pizarnik (n. 1936 – m. 1972), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 346-347.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

EPIGRAMA DE HORACIO CASTILLO


EPIGRAMA

Eu, Estácio, poeta de uma cidade de província,
nasci, vivi e morri como todos os homens
tal como está escrito neste monumento
junto ao qual paraste para urinar.
Se sabes ler, lê, mas nada esperes de extraordinário,
pois recusei o destino dos grandes, não tanto
por falta de valor ou espírito de aventura
mas por uma inata inclinação para a moleza
e para o malsão cepticismo dos eruditos.
Porque fui erudito, e se algo aprendi — mais
da vida do que dos livros — foi a temer
o inesperado e a evitar, tanto quanto possível,
o mal que afecta o ambicioso.
Suportei tudo o que é possível suportar,
conversa fiada e a força dos factos,
a eterna rotação de causas e efeitos
nefasta para um carácter até certo ponto pusilânime.
Simples entre os simples, cínico entre os cínicos,
respeitei a precária natureza humana,
sabendo que apenas pode considerar-se ditoso
aquele que logra apartar dia a dia a desgraça.
Resta-me o valor de haver escrito alguns versos,
pelos quais os meus conterrâneos me consagraram
este lugar retirado, junto a uma gruta
onde os jovens vêm amar-se sub-repticiamente
arrancando de quando em vez uma letra do meu nome.
Sou Estácio, poeta de uma cidade de província:
nasci, vivi e morri como todos os homens

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 340-341. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

REI CEGUETA



Esta mosca que desova no pântano
e voa de bochecha em bochecha, de pálpebra em pálpebra,
trouxe a peste aos nossos olhos: já não vemos
as nuvens sobre os tectos da aldeia,
a sombra da garça subindo a corrente.  
Mas ao entardecer, quando descemos à margem do rio
e o cegueta coroado de ouro repete sua história,
descobrimos pela sua boca grandes sinais no céu,
sangue do olho que sonha pela tribo.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 335. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MICENAS



MICENAS

As nuvens passam sombrias sobre a pedra
onde em vão se buscam rastos do sangue
que secou para sempre a terra
outrora rica em cavalos.

Por onde passaram os pertences
até ao mar e à guerra
agora um hálito como que de túmulo recém-aberto
sai ao encontro do viajante.

E desde o terraço, se se avista
a áspera e ocre planície,
também se escuta o bronze cintilante  
e o áureo rosto resplandece.

Pura ilusão, nostalgia dos homens
a quem a inteligência sossegou o coração
e já não sabem retesar o arco da vida.


Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 333. Nasceu em Ensenada, província de Buenos Aires, em 1934. Formou-se em Direito. Poeta, ensaísta e tradutor, sobretudo de grego, membro da Academia Argentina de Letras e correspondente da Real Academia Espanhola, estreou-se em 1971 com o livro “Descripción”. Mais tarde acabaria por renegar este primeiro livro, passando a considerar-se “Materia acre” (1974) a sua primeira obra. Recebeu ao longo da vida alguns prémios e distinções, reunindo por duas ocasiões a totalidade do seu trabalho poético. Fortemente marcado pelo imaginário clássico, muita da sua poesia tem como tema central a viagem. Traduziu Odysseas Elytis, Yannis Ritsos, entre outros poetas gregos. Na introdução a “La Casa del Ahorcado” (obra reunida), Pablo Anadón diz que a obra de Castillo combina o intelectualismo girriano com o surrealismo de Enrique Molina e outros, apostando num distanciamento entre o autor e o objecto poético. Dedicou a Alberto Girri um importante ensaio, publicado em 1983. Faleceu em La Plata a 5 de Julho de 2010.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

UM POEMA DE HORACIO CASTILLO


EM CIMA E EM BAIXO

a Hölderlin

Em cima nada mudou ao longo dos anos:
a lua sobre o álamo,
a crista dos telhados,
o terraço onde o senhor Scardanelli
presta diariamente culto aos seus hóspedes.

Em baixo cresceram e tiveram filhos,
vão e vêm por vitualhas e notícias,
ou voltam como agora de enterrar algum morto
e saúdam de passagem o vizinho carpinteiro
que tem um deus como inquilino.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 332.

sábado, 7 de setembro de 2019

ARTE POÉTICA DE HORACIO CASTILLO




ARTE POÉTICA

Soltar a língua, de modo a que não trave o produto
que vem de dentro, motivado
por uma força superior
e pelo hábil jogo de rins e diafragma;
insistir pressionando os músculos
como que para expulsar
um cavalo ou um ciclope;
repetir o procedimento
provocando-o inclusive com os dedos
ou com um objecto picante,
até ficar vazio, apenas pele ressequida,
odre para pendurar na primeira árvore,
extenuada matriz do volátil, quiçá luminosa.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 331.

domingo, 25 de agosto de 2019

QUANDO O AMOR PARECIA MORTO




Quando o amor parecia morto.
Paz na terra.
A morte está sempre a trabalhar.
O amor alimenta a morte?
A morte e o amor
trabalham juntos sem o saberem?

Quando parece haver dor
na morte que trabalha
ou há dor nos trabalhos do amor.
Não dormem o amor, a dor e a morte?

Quando parecia que.
Bestas da memória
farrapos.
A morte não tem farrapos, não morre.
Paz na terra.
O amor derrota a morte
todo o amor
todas as diferentes classes de amor
mas sobretudo o amor inocente.

Quando parecia que o amor
já não trabalhava
ou não alimentava
ou doía ou estava morto.
Subitamente
como daquela vez em que atravessava uma rua
aquela rua inocente
e de súbito soube que era ele
era ele
que era ele quem atravessava a rua.
E como daquela vez
nessa rua inocente
ela chega de súbito
e a dor e a morte
começam a tremer
a tremer
a tremer.

Quando parecia que o amor. Paz
paz na terra
às mulheres de boa vontade.

A luz de um fósforo
pode ocultar a noite
mas toda a noite não pode ocultar
a luz de um inocente fósforo.

Gianni Siccardi (n. Banfield, Buenos Aires, 27 de Setembro de 1933 – m. 29 de Novembro de 2002), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 322-323. Nasceu em Banfield, província de Buenos Aires, no dia 27 de Setembro de 1933. Entre as inúmeras ocupações que desenvolveu ao longo da vida, contam-se as de jornalista e tradutor. Fundou e dirigiu as revistas Juego Rabioso, Baires e Sunda. Com um sentido de humor enraizado no surrealismo, distanciou-se desde cedo do chamado “realismo crítico” praticado por muitos outros poetas da sua geração. No entanto, a ironia nos poemas de Siccardi disfarça o compromisso para com a realidade social através de uma lírica fortemente emotiva. Estreou-se em 1960 com a colectânea “Poesía junta”. Acerca de si mesmo disse: «realizei estudos tão breves como ligeiros, e igualmente proveitosos, quem sabe, de violino, italiano, inglês, alemão, arquitectura, piano, pintura, teatro. E estudos tão sérios e prolongados como ineficazes de canto. Morreu em Novembro de 2002.