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domingo, 29 de novembro de 2020

UM CONTO ESQUIMÓ

 


O MENINO COMILÃO

 
   Um menino vivia com a avó num iglu construído pelo avô. Desde a morte deste, a fome crescia pela casa. Um dia, a anciã tirou o neto do iglu. Não podia continuar a alimentá-lo. Implorou-lhe que encontrasse algo para comer.
   O menino partiu e encontrou um bacalhau que tinha sido largado na praia. Apanhou-o, arrancou-lhe a cabeça e devorou-o de uma só vez. Continuou o passeio e tropeçou num leão-marinho. Atirou-se a ele, arrancou-lhe a cabeça e comeu-o. Mas mesmo assim continuava com fome. Mais adiante, deu com uma morsa de grandes bigodes aquecendo-se ao sol. Antes que a morsa chegasse à água, o menino já lhe tinha arrancado a cabeça e devorou-a sem ressentimentos.
   Por fim, o pequeno glutão avistou uma baleia branca que acabara de ser arpoada por um pescador. Tal como tinha feito com o bacalhau, o leão-marinho e a morsa, arrancou-lhe a cabeça e comeu-a inteira, pele, barba e intestinos incluídos. Sentiu-se então melhor. Pela primeira vez na vida tinha conseguido devorar a sua própria fome. Pôs-se a cantar uma canção que dedicou ao seu estômago. Teve sede e dirigiu-se a um pequeno lago, onde bebeu sofregamente. O lago secou e o menino regressou ao iglu. Porém, tinha engordado tanto que não conseguia entrar pela porta.
  Entra pela janela aconselhou-lhe a avó.
   A janela era mais pequena do que a porta. Contudo conseguiu meter a cabeça, ainda que os ombros ficassem presos.
   Entra pelo respirador aconselhou a anciã. O tubo do respirador era mais estreito do que a janela, mas a cabeça e os ombros do menino passaram, o estômago não.
   Passa pelo buraco da minha agulha rogou a esquimó.
   Levantou a agulha até ao tecto do iglu e o menino passou e caiu no solo. Naquele instante, a anciã deu-se conta de que o neto tinha engordado tanto apenas por haver comido demasiado.
   Não te aproximes da lamparina! disse-lhe com  firmeza.
   Mas o menino, perdendo o equilíbrio, rodopiou até à lamparina. Esta caiu sobre ele e explodiu. A anciã escapara a tempo. Quando o silêncio voltou a reinar, a velha arrastou-se até ao iglu e espreitou pela janela. O menino e a lamparina haviam desparecido. No seu lugar encontravam-se um bacalhau, um leão marinho, uma morsa e uma baleia nadando num pequeno lago azul.
 
In Cuentos Esquimales (Los cuentos del iglú), recogidos por Edward L. Keithahn, adaptación de Louise Weiss, traducción de Silvia Komet, José J. de Olañeta, Editor, 1990, pp. 35-38. Versão de HMBF.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

DEREK MAHON (1941-2020)


 

Morreu Derek Mahon (23 November 1941 – 1 October 2020), extraordinário poeta irlandês, natural de Belfast. Estreou-se em 1965, recebendo vários prémios ao longo da vida. Já este ano foi galardoado com o Prémio Irish Times Poetry Now. Acabei de mudar para português um poema seu, à laia de homenagem, proveniente do livro "The Snow Party" (1975). Espero que o poeta me perdoe, lá onde estiver:

FESTA DA NEVE

para Louis Asekoff

Chegando à cidade
de Nagoya, Bashô é convidado
para uma Festa da Neve.

Há um tilintar de porcelana
e chá da China.
As apresentações são feitas.

Ajuntam-se então
todos à janela
para verem a neve cair.

A neve cai em Nagoya
e mais a sul
nos azulejos de Quioto.

A leste, para lá de Irago,
a neve cai
como folhas num mar de gelo.

Noutros lugares queimam
bruxas e hereges
em praças efervescentes,

milhares morreram desde o amanhecer
ao serviço
de reis bárbaros;

mas há silêncio
nas casas de Nagoya
e nas colinas de Ise.

domingo, 20 de setembro de 2020

UM POEMA DE DEREK MAHON

 



POETAS DOS NOVENTA
 
Lentamente, com a grave negligência
Da sua espécie, cada rosto esculpido em espírito
Surge diante de mim, olhos
Arruinados pela descoberta.
 
Quase me havia esquecido de tais existências,
Tão ciumento andava eu da minha pele
E o mundo comigo. Como
É agora convosco?
 
Ter-vos-ão desapontado a morte e suas metamorfoses,
Assim como os vermes que tão de perto vistes?
Talvez hajais descoberto que tendes de fazer fila
Para um bilhete de entrada no inferno,
Apesar dos vossos perfumes a louro.
 
Fostes todos crianças de sabedoria indefesa,
Tagarelas aposentados que tolos não seriam
Clérigos rurais frustrados
Que jamais alguém ordenaria.
 
Não espereis favores da reincarnação,
Nenhum anseio após o álcool e as putas
Pois vós, mais do que ninguém,
Fizestes a vossa parte
Em levar a natureza até à arte…
 
Dai-vos por satisfeitos ao espalhares pelos prados
Cabelo e bocas juvenis presas a flores
E ficai descansados, o dia
Será a luz do sol, e a noite
Um zeloso espectro de estrelas.
 
 
Versão de HMBF.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

UM POEMA DE DEREK MAHON

 


AVÔ
 
Trouxeram-no do mundo numa maca,
Ferido mas humorado. E logo recuperou.
Salas de caldeiras, filas e mais filas de pórticos abrindo-se
Para revelar a paisagem de uma infância
Que só ele pode reconquistar. Mesmo nas manhãs
Frias levanta-se às seis com um bloco de madeira
Ou uma caixa de pregos, discreto nas intenções
Ou martelando à volta da casa como se tivesse quatro anos
 
Nunca está quando precisas. Mas depois de escurecer
Ouves o som das suas botifarras no corredor
E nelas ele chega, o mais querido possível. Cada noite
Os seus olhos argutos trancam a porta e acertam o relógio
Face ao futuro, depois a sua luz desaparece.
Nada lhe escapa; ele escapa-nos a todos.
 
 
Versão de HMBF.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE HUGO MUJICA



HÁ APENAS ALGUNS DIAS

Há apenas alguns dias morreu o meu pai,
há apenas tanto tempo.

Caiu sem peso,
como as pálpebras ao chegar
a noite ou uma folha
quando o vento não arranca, embala.

Hoje não é como outras chuvas
hoje chove pela primeira vez
                sobre o mármore da sua campa.

Sob as chuvas
podia ser eu quem jaz, agora o sei,
                 agora que noutro eu morri.

Hugo Mujica, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 375.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A EVIDÊNCIA




Desejaria que nenhuma exaltação
acompanhasse esta frase meus filhos
sentavam-se a ver o mar.

Assim era sem dúvida.
A cada noite chegavam em silêncio
e sem qualquer esforço vinculavam o mar
com a contemplação do mar,
a emoção com os objectos.
E sem dificuldade aceitavam a harmonia
que une os corpos à matéria afectada.

Era fácil saber que do mar
lhes chegava uma prova que nos excluía.
Mas por aqui me fico:
não se trata de encher com vacuidades  
o conhecimento directo.
(Um romantismo antiquado, ou um pouco
de pudor caduco, ainda é tolerável.
A metafísica não.)

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 362.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

BALADA DO HOMEM QUE SABE



Passam comboios, aviões, gente que leva no bolso
o seu conhecimento empírico.
O cenário, ainda que preso à terra com um tripé, muda rapidamente:
                vai da certeza à dúvida,
                da dúvida
                à dúvida explícita,
                e torna a começar.

Passam comboios, aviões, cidades que só de olhá-las se aceleram,
e o homem compõe o cachecol, sabe que o frio não se
contradiz, que a chuva não tem duas ideias:
                conhece a rua pela agitação,
                o rumo pelo empurrão da estratégia,
                o alimento pela necessidade.
Sabe que o cenário é o único argumento.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 370.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

«PALAVRAS PARA EXPLICAR PALAVRAS»




PALAVRAS

Vista daqui, a infância cabe na palavra anona.
A palavra Arminda também serve , além de nome
é o resumo de uma celebração.
A palavra juventude é demasiado eufórica,
mas continua, impetuosa e grave, a salvo de
qualquer caducidade.

Também o meu tio Santiago estava a salvo da caducidade:
          sensatamente a ignorava
          quando aos setenta anos fazia projectos que lhe
                          levariam outros setenta
          e sumariava, como quem ensina,
                          sou eterno, isso é tudo.

Não se trata tanto, então, de juntar palavras como
           significados: a persistência de alguém que por acaso
           seja eu.
Porque quem fará o trabalho, senão eu,
           sabendo que consiste, até à exaustão,
           em continuar a procurar o já procurado?

Mais uma vez
não é repetição:
            o que conta é o gotejar,
            o preço da aprendizagem;
surge então a palavra inconclusa: reclama
            a sua metade,
                           encrespa-se e não vem só.

Daí todo este ruído:
            este excesso de palavras
            para explicar palavras.


Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 368-369.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

UM POEMA DE SANTIAGO SYLVESTER



AS PALAVRAS QUOTIDIANAS

A questão é entender a intenção
das palavras que usamos obcecadamente:
as que o ardina grita,
as que o leiteiro murmura entre os vapores
do amanhecer,
as que rodopiam obsessivamente na cabeça do louco,
as que sem saber o carteiro leva no saco.

São poucas as palavras que sustentam a realidade
e que poderiam destruí-la apenas com a sua ausência;
são as que usamos para explicar a nossa parte do mundo,
as palavras de nossa convicção,
da nossa aposta íntima.

A questão é entender a intenção das palavras,
essa harmonia sem ênfase que se parece ao destino.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 361.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

UM POEMA DE ALEJANDRA PIZARNIK



A ENAMORADA

esta mania lúgubre de viver
esta graça recôndita de viver
arrasta-te alejandra não o negues.

hoje olhaste-te no espelho
e ficaste triste estavas só
a luz rugia o ar cantava
mas o teu amado não voltou

enviarás mensagens sorrirás
agitarás as tuas mãos assim voltará
o teu amado tão amado

escutas a sereia louca que o roubou
o barco com barbas de espuma
onde os risos morreram
recordas o último abraço
ó nada de angústia
ri no lenço chora às gargalhadas
mas fecha as portas do teu rosto
para que não digam logo
que aquela mulher apaixonada foste tu

os dias afligem-te
as noites culpam-te
dói-te tanto a vida tanto
desesperada, onde vais?
desesperada, nada mais!


Alejandra Pizarnik (n. 1936 – m. 1972), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 346-347.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

EPIGRAMA DE HORACIO CASTILLO


EPIGRAMA

Eu, Estácio, poeta de uma cidade de província,
nasci, vivi e morri como todos os homens
tal como está escrito neste monumento
junto ao qual paraste para urinar.
Se sabes ler, lê, mas nada esperes de extraordinário,
pois recusei o destino dos grandes, não tanto
por falta de valor ou espírito de aventura
mas por uma inata inclinação para a moleza
e para o malsão cepticismo dos eruditos.
Porque fui erudito, e se algo aprendi — mais
da vida do que dos livros — foi a temer
o inesperado e a evitar, tanto quanto possível,
o mal que afecta o ambicioso.
Suportei tudo o que é possível suportar,
conversa fiada e a força dos factos,
a eterna rotação de causas e efeitos
nefasta para um carácter até certo ponto pusilânime.
Simples entre os simples, cínico entre os cínicos,
respeitei a precária natureza humana,
sabendo que apenas pode considerar-se ditoso
aquele que logra apartar dia a dia a desgraça.
Resta-me o valor de haver escrito alguns versos,
pelos quais os meus conterrâneos me consagraram
este lugar retirado, junto a uma gruta
onde os jovens vêm amar-se sub-repticiamente
arrancando de quando em vez uma letra do meu nome.
Sou Estácio, poeta de uma cidade de província:
nasci, vivi e morri como todos os homens

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 340-341. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

REI CEGUETA



Esta mosca que desova no pântano
e voa de bochecha em bochecha, de pálpebra em pálpebra,
trouxe a peste aos nossos olhos: já não vemos
as nuvens sobre os tectos da aldeia,
a sombra da garça subindo a corrente.  
Mas ao entardecer, quando descemos à margem do rio
e o cegueta coroado de ouro repete sua história,
descobrimos pela sua boca grandes sinais no céu,
sangue do olho que sonha pela tribo.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 335. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MICENAS



MICENAS

As nuvens passam sombrias sobre a pedra
onde em vão se buscam rastos do sangue
que secou para sempre a terra
outrora rica em cavalos.

Por onde passaram os pertences
até ao mar e à guerra
agora um hálito como que de túmulo recém-aberto
sai ao encontro do viajante.

E desde o terraço, se se avista
a áspera e ocre planície,
também se escuta o bronze cintilante  
e o áureo rosto resplandece.

Pura ilusão, nostalgia dos homens
a quem a inteligência sossegou o coração
e já não sabem retesar o arco da vida.


Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 333. Nasceu em Ensenada, província de Buenos Aires, em 1934. Formou-se em Direito. Poeta, ensaísta e tradutor, sobretudo de grego, membro da Academia Argentina de Letras e correspondente da Real Academia Espanhola, estreou-se em 1971 com o livro “Descripción”. Mais tarde acabaria por renegar este primeiro livro, passando a considerar-se “Materia acre” (1974) a sua primeira obra. Recebeu ao longo da vida alguns prémios e distinções, reunindo por duas ocasiões a totalidade do seu trabalho poético. Fortemente marcado pelo imaginário clássico, muita da sua poesia tem como tema central a viagem. Traduziu Odysseas Elytis, Yannis Ritsos, entre outros poetas gregos. Na introdução a “La Casa del Ahorcado” (obra reunida), Pablo Anadón diz que a obra de Castillo combina o intelectualismo girriano com o surrealismo de Enrique Molina e outros, apostando num distanciamento entre o autor e o objecto poético. Dedicou a Alberto Girri um importante ensaio, publicado em 1983. Faleceu em La Plata a 5 de Julho de 2010.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

UM POEMA DE HORACIO CASTILLO


EM CIMA E EM BAIXO

a Hölderlin

Em cima nada mudou ao longo dos anos:
a lua sobre o álamo,
a crista dos telhados,
o terraço onde o senhor Scardanelli
presta diariamente culto aos seus hóspedes.

Em baixo cresceram e tiveram filhos,
vão e vêm por vitualhas e notícias,
ou voltam como agora de enterrar algum morto
e saúdam de passagem o vizinho carpinteiro
que tem um deus como inquilino.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 332.

sábado, 7 de setembro de 2019

ARTE POÉTICA DE HORACIO CASTILLO




ARTE POÉTICA

Soltar a língua, de modo a que não trave o produto
que vem de dentro, motivado
por uma força superior
e pelo hábil jogo de rins e diafragma;
insistir pressionando os músculos
como que para expulsar
um cavalo ou um ciclope;
repetir o procedimento
provocando-o inclusive com os dedos
ou com um objecto picante,
até ficar vazio, apenas pele ressequida,
odre para pendurar na primeira árvore,
extenuada matriz do volátil, quiçá luminosa.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 331.

domingo, 25 de agosto de 2019

QUANDO O AMOR PARECIA MORTO




Quando o amor parecia morto.
Paz na terra.
A morte está sempre a trabalhar.
O amor alimenta a morte?
A morte e o amor
trabalham juntos sem o saberem?

Quando parece haver dor
na morte que trabalha
ou há dor nos trabalhos do amor.
Não dormem o amor, a dor e a morte?

Quando parecia que.
Bestas da memória
farrapos.
A morte não tem farrapos, não morre.
Paz na terra.
O amor derrota a morte
todo o amor
todas as diferentes classes de amor
mas sobretudo o amor inocente.

Quando parecia que o amor
já não trabalhava
ou não alimentava
ou doía ou estava morto.
Subitamente
como daquela vez em que atravessava uma rua
aquela rua inocente
e de súbito soube que era ele
era ele
que era ele quem atravessava a rua.
E como daquela vez
nessa rua inocente
ela chega de súbito
e a dor e a morte
começam a tremer
a tremer
a tremer.

Quando parecia que o amor. Paz
paz na terra
às mulheres de boa vontade.

A luz de um fósforo
pode ocultar a noite
mas toda a noite não pode ocultar
a luz de um inocente fósforo.

Gianni Siccardi (n. Banfield, Buenos Aires, 27 de Setembro de 1933 – m. 29 de Novembro de 2002), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 322-323. Nasceu em Banfield, província de Buenos Aires, no dia 27 de Setembro de 1933. Entre as inúmeras ocupações que desenvolveu ao longo da vida, contam-se as de jornalista e tradutor. Fundou e dirigiu as revistas Juego Rabioso, Baires e Sunda. Com um sentido de humor enraizado no surrealismo, distanciou-se desde cedo do chamado “realismo crítico” praticado por muitos outros poetas da sua geração. No entanto, a ironia nos poemas de Siccardi disfarça o compromisso para com a realidade social através de uma lírica fortemente emotiva. Estreou-se em 1960 com a colectânea “Poesía junta”. Acerca de si mesmo disse: «realizei estudos tão breves como ligeiros, e igualmente proveitosos, quem sabe, de violino, italiano, inglês, alemão, arquitectura, piano, pintura, teatro. E estudos tão sérios e prolongados como ineficazes de canto. Morreu em Novembro de 2002.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

UM POEMA DE GIANNI SICCARDI



SÃO ESTAS AS PALAVRAS QUE AMO

se tivéssemos um ofício em que nos reconhecêssemos
e vontade de envelhecer
se não conhecêssemos tantos lugares de lazer
tantas ruas desordenadas e abertas
tantos bares e hotéis
buracos de perdição ou de violência
onde se usam palavras extraviadas
recursos rápidos
encontros sem destino
vidas diferentes
e houvéssemos abandonado o desejo
de voltar a partir
de conhecer gente fora de órbita
alimentos estranhos
músicas fáceis
ilhas distantes

se não tivéssemos amigos mortos
e inimigos
amores esquecidos
se não estivéssemos cansados
dos diários da manhã
dos desportos e das execuções
das estrelas fugazes
da crueldade da rua
dos ruídos da cidade
a que dentro em breve
juntaremos outros ruídos
deixando que o relógio da cozinha
que o sol
reparem estas peças
as tuas coisas e as minhas coisas
que aqui entrem o calor e os gritos
que as nossas pobres coisas
sejam chicoteadas pelo sol e pelos mal entendidos
que aqui entre a violência e se vá
sem saber que aqui um dia
entraram o desespero e o amor
ou algo que desesperava por parecer amor

se não tivéssemos as palavras
palavras de amizade de fastio de indiferença
palavras complicadas com o amor
palavras que recordam o amor
ainda que não lhe pertençam
se não tivéssemos o ruído das palavras
se não estivéssemos cansados de tanta estupidez
e de tanto esquecimento

herdei de ti
uma solidão incompreensível
passou a minha solidão
que não compreendo
ainda que sempre te encontres entre os ruídos das minhas palavras
ateei este fogo para te reconhecer

Gianni Siccardi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 317-319.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

UM POEMA DE GIANNI SICCARDI

CIGARRAS

Boa noite.
Silêncio.
Os meus pais dormiam
emendavam.

Em casa todos dormiam
e nas casas vizinhas.
Apenas estavam acordados umas cigarras
e a criança que eu era.
Algo palpitava na obscuridade.

E esses sons breves e regulares?
Um forte
e dois fracos.
Será uma dança nocturna
ou um telhado a gotejar suas lamentações?
O mugido distante do comboio
apoderava-se da obscuridade.
A almofada apenas sustentava a minha cabeça.
Sim, mais uma vez
o mais meu do dia era a noite.
Abandonava a mortalha de lençóis
e sigiloso
levava o meu corpo até ao pátio
para escutar o chafariz
as plantas
que respiravam à vontade.
As estrelas ao alcance da minha mão
a cruz do sul
as três marias
os sete cabritos
observávamo-nos longamente.
Elas eram elas
eu era eu.
Atravessávamos a noite.

O mundo fez o seu trabalho
a minha astronomia é um pouco mais complexa
e agora sei que não eram cigarras, não
eram apenas grilos
só um ou dois grilos.

E já não há quem durma na casa
não há danças
nem telhados
nem comboios.
Não há lamentações.

Não há casa.

Mas ainda
o mais meu do dia permanece na noite
e a almofada
apenas sustenta a minha cabeça.
Há que dar ao mundo
o que é do mundo
e ao ser
o que é do ser.
Abro a janela deste décimo segundo andar
as estrelas continuam onde estavam
observamo-nos longamente.
Sinto que atravessamos a noite.

Algo aqui palpita na obscuridade.

Eram cigarras, sim
eram cigarras.



Gianni Siccardi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 324-326.