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sábado, 17 de novembro de 2018

ALGUM VESTÍGIO DO TEU PASSO



A doçura de recordar o sol na espiral do sonho
e a vã glória de ter ido tão longe.

Tão estranho é perdurar, ouvir ainda
a litania grave dos ossos e o feitiço do mundo.

Deixa-me ver, deixa-me ver:
alguém que se oculta me trouxe até aqui,

coberto de grandes prados, climas,
abrigos inúteis, luzes que brilham

no farol onde acaba a terra.
Saído de lugares incertos, de trópicos e chuvas,

voraz como fogo, intruso,
a impressão de seus beijos e dentes na maçã.

De quem será o rosto desconhecido entrevisto
onde se perde? É incerto e ansioso

extraviado na obscura fábula da minha vida.
Adeus, minha sombra.



Enrique Molina, em versão de HMBF, a partir do original coligido in La poesía del siglo XX en Argentina, edición de Marta Ferrari, colección Visor de Poesía, 2010, p. 65.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

ARES DO MÉXICO




Despertei sob as patas de um pássaro, sob
uma manta indígena,
ouviam-se relinchos e chocalhos distantes.
Será o único hotel? questionei, perdido entre cactos,
gente muito antiga, com máscaras de terra vermelha,
ginetes cobertos de alamares, mulheres
sempre nas praias ardentes da morte.
Saúdo os deuses com tequila e pimentão,
Sopra aqui aquela canção do mar entre caveiras de açúcar,
e de súbito tanto frenesim no meu coração,
o sabor da idolatria, o gosto por semelhantes estrelas, blusas
bordadas, cavalheirismos,
e a orquestra de esqueletos a fazer soar seus ossos cobertos de
confettis,
despedindo-me, despedindo-me mais uma vez.
Despedindo-me destas matérias solares
de onde subitamente desperto perdido na minha memória.

Enrique Molina, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 63.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

UM POEMA DE ENRIQUE MOLINA



ALIMENTOS

Ó comidas! Ó miragens!
Instalo-me diariamente em lugares extravagantes
Com grande vontade de viver
Comedores anónimos incluídos no repertório da loucura
Liturgias e terebrantes megafones do porto sob ventiladores
— Falsa comida dos hotéis multiplicada por espelhos —
A toalha sempre em fuga flamejando com a tormenta
E a minha ávida boca coberta de mucosas vermelhas
Como um candelabro imperial iluminando a mesa de cabeceira
— Ó comestíveis! —
A grande hóstia nutritiva onde habitam o desejo e o fogo
Saladas hirsutas guisados desafortunados
Sem ajuda — de todos os buracos
Desde o próprio fundo do planeta
Chega o rumor eterno de mandíbulas enormes que devoram —
Adâmicos parentescos com folhas e bestas
O esplendor desta comida demente
Cativa vigorosamente minha alma
Como uma mulher nua exibindo o húmido relâmpago do seu sexo
Onde os cães do meu sangue repartem o coração do sol
Entre aromas de frituras milagres e vinhos
Desafiando a cascavel dos mortos
Enquanto fosforeja a ratazana diabólica que percorre toda a minha vida
Insaciável
Sem jamais alcançar um prato

Versão de HMBF.


Poeta e pintor argentino filiado no movimento surrealista, Enrique Molina (n. 1910 – m. 1997) formou-se em direito sem nunca ter exercido. Preferiu correr o mundo como tripulante na marinha mercante. Fundou com Aldo Pellegrini a revista A partir de cero, estreando-se em 1941 com Las cosas y el delirio. Viveu em vários países da América Latina, cultivando uma poesia arreigada ao universo simbólico e mítico dos povos ameríndios. Foi distinguido em vida com importantes prémios. Sobre ele escreveu Octavio Paz: «é uma jóia viva neste imenso deserto de ninharias». Nos seus poemas cabem desejos e paixões, mas também terrores sagrados; o belo e o horrível; a invocação do estado primitivo das coisas a partir da observação da sua degenerescência.  

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

FELICIDADE SEM TESTEMUNHAS




Preparo meu alimento
a mesa indolente muda de forma conforme a intempérie
adquire a aparência de uma mulher
de uma faca à procura do meu peito
de projectos ao lume nocturno dos fracassos
vitrine de viagem incendiada ao rasar as paisagens secretas da noite
por vezes um velho dia ressoa
surge um osso de nuvem
um insecto barrando o trilho para as montanhas
um sorriso gelado
o remoto tambor azul feito de espumas
o caminho inocente que assassina
Limites de ferro
a terra uiva na sua jaula
com a negra armadura do esquecimento
com olhar de lobo entre ruinas
insegura beleza inalcançável
o relâmpago ensopou esses rostos
a cama perde-se pelas cidades e na folhagem
Não há mais chaves do que teu desejo a tremer de raiva entre as pedras
o selvagem paraíso do sexo
com seu pó de fogo em busca das almas
nenhuma esperança:
a porta foi rachada pela astronomia
o jardim é o riso dos mortos


Enrique Molina (n. Buenos Aires, Argentina, 2 de Novembro de 1910 – ibidem, 13 de Novembro de 1997), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 57-58.