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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A VIDA


a jacques mamruth

quando o meio-dia
te oferece um mundo vazio
quando um passo a trás é a morte
e ficar quieto é um passo a trás
então
levado pela inocuidade do momento
deixas mover alguma parte do teu corpo

pensaste
deixarei que algo aconteça
se tudo é nada também algo será nada

enganas-te
através dessa lacuna
toda a realidade inteira escoará

se permites o menor movimento à quietude
se deixas entrar no vazio a mais parda molécula
esse movimento essa molécula
nessa quietude nesse vazio
armarão uma festa gloriosa

e festa após festa
o restaurado meio-dia promete a tarde acobreada
sentes-te senhor
e começas a viver novamente

e é assim
nada há a fazer

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 150-151.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

UM POEMA DE CÉSAR FERNÁNDEZ MORENO



MADRIGAL

tal como um gato envolto no seu pêlo
se senta na fria calçada da madrugada
ao pé da porta que seu dono ausente fechou à chave

tal como esse gato a miar debilmente enquanto  olha para a alta fechadura
e depois ansioso para os poucos transeuntes que passam a essa hora
quem sabe amigos do seu dono ou mesmo seu dono
quem sabe podendo abrir-lhe a porta inacessível
permitindo-lhe regressar ao calor de que a sua natureza necessita

assim também eu na esperança de tão remotas possibilidades
olhava e observava qualquer pessoa recolhido na calçada
até que por azar tu passaste sensível a todos os animais
me olhaste como eu a ti
me disseste qual era a minha porta verdadeira
e te fizeste minha dona

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  P. 149.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

WHISKY AND SODA




Levado por circunferências de aço
que rodam sobre complacentes paralelas também de aço
chupo o cilindro, forrado com papel
que contém na ponta iluminadas folhas picadas tostadas
bebo da vasilha de quartzo translúcido
este líquido composto por álcool
misturado com água de onde o gás sobe em pequenas esferas
esgrimo este outro cilindro de madeira com eixo de grafite
aplico-o na plana celulose branca sumamente delgada
elevo finalmente o meu repugnante coração sobre as ondas
da técnica
e consigo dizer amo-te

César Fernández Moreno (n. Buenos Aires, 26 de Novembro de 1919 – m. Paris, 14 de Maio de 1985), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 140. Diplomata de profissão, era filho do poeta Baldomero Fernández Moreno. É um dos nomes mais destacados da chamada Geração de 40, tendo dirigido as revistas Contrapunto, Correspondencia, e integrado o grupo da revista Zona de la poesía americana. O primeiro livro foi Gallo ciego (1940), com prefácio do pai. Colaborou na imprensa escrita como crítico de cinema. A sua poesia revelará algumas inflexões na década de 50, optando por um registo irónico de cunho social. Uma das suas obras mais aclamadas é Argentino hasta la muerte (1963). Fundou e dirigiu a colecção Fontefriada.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

MEU DEUS




o que me queres dizer quando me apertas a cabeça meu deus
com essa garra excessivamente doce
há coisas que posso compreender mas não conduzir
como modelar meu ser com polegares tão desajeitados
como mudar a carga de tantas células perdidas

não dês tantas voltas meu deus para que chegue o calor
deixa-o vir
deixa-me ser assim
não arrastes a dor até à perfeição
eu simplesmente não vou ensombrecer o teu mundo
já sei que o eu dói
que matando-o não doeria

assim dizia um homem apertando a cabeça
a cambalear ao acaso com os olhos fechados
falando para um cão morto

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 146.