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domingo, 20 de março de 2011

A MORTE QUE ALGUÉM ESPERA




A morte que alguém espera
A morte que alguém evita
A morte que vai pelo caminho
A morte que vem taciturna
A morte que acende os castiçais
A morte que se senta na montanha
A morte que abre a janela
A morte que apaga as luzes
A morte que aperta a garganta
A morte que fecha os rins
A morte que parte a cabeça
A morte que morde as entranhas
A morte que não sabe se deve cantar
A morte que alguém entreabre
A morte que alguém faz sorrir
A morte que alguém faz chorar

A morte que não pode viver sem nós

A morte que vem a galope no cavalo
A morte que chove em grandes estampidos


Vicente Huidobro, do livro Últimos poemas (1948), in Poesía y Poética (1911-1948), antología comentada por René de Costa, Alianza Editorial, Madrid, 1996, p. 308..
Versão de HMBF

ÉRAMOS OS ELEITOS DO SOL

Éramos os eleitos do sol
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito


Vicente Huidobro
Versão de HMBF

sábado, 12 de março de 2011

IMPOSSÍVEL




Impossível saber quando adormeceu esse recanto da minha alma
E quando voltará a tomar partido nas minhas festas íntimas
Ou se esse troço partiu para sempre
Ou sequer se foi roubado e se se encontra integrado num outro

Impossível saber se dentro do teu ser a árvore primitiva ainda sente o vento milenário
Se tu recordas o canto da mãe quaternária
E os grandes gritos do teu espanto
E a voz soluçante do oceano que acabava de abrir os olhos
E agitava as mãos e chorava no berço

Não precisamos de tantos horizontes para viver
As cabeças de papoila que devorámos sofrem por nós
A minha amendoeira fala por uma parte de mim mesmo
Eu estou perto e estou longe

Tenho épocas centenárias na minha breve idade
Tenho milhares de léguas no meu ser profundo
Cataclismos da terra acidentes planetários
E algumas estrelas de luto
Lembras-te quando eras um som entre as árvores
E quando eras um pequeno raio vertiginoso?

Agora temos a memória demasiado carregada
As flores das nossas orelhas empalidecem
Às vezes vejo reflexos de penas no meu peito
Não me olhes com tantos fantasmas
Quero dormir quero ouvir novamente as vozes perdidas
Como os cometas que passaram para outros sistemas

Onde estávamos? Em que luz em que silêncio?
Aonde estaremos?
Tantas coisas tantas coisas tantas coisas

Eu sopro para apagar os teus olhos
Lembras-te quando eras um suspiro entre dois ramos?



Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF

terça-feira, 8 de março de 2011

Só só entre a noite e a morte
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio

A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta

Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente

A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte

Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida


Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAIXÃO E MORTE

Senhor, hoje é o aniversário da tua morte.
Há mil novecentos e vinte e seis anos estavas tu numa cruz
Sobre uma colina repleta de gente.
Entre o céu e a terra os teus olhos eram toda a luz.
Gota a gota sangraste sobre a história.
Desde então um rubro regato atravessa os séculos regando a nossa memória.

As horas passaram diante da ombreira extra-humana.
O tempo ficou cravado com os teus pés e as tuas mãos.

Aqueles martelos ainda ressoam,
Como se alguém batesse às portas da vida.

Senhor, perdoa-me se te falo numa língua profana,
Mas de outro modo não poderia falar-te pois sou essencialmente pagão.

Se por acaso fores Deus, venho a pedir-te uma coisa
Em versos rimados com cansaços de prosa.

Há no mundo uma mulher, quiçá a mais triste, sem dúvida a mais bela,
Protege-a, Senhor, sem vacilar; é ela.

E se realmente fores Deus e puderes mais que o meu amor,
Ajuda-me a guardá-la de todos os perigos, Senhor.

Senhor, estou a ver-te com os braços abertos.
Quiseras abraçar todos os homens e todo o universo.

Senhor, quando dobraste a tua cabeça sobre a eternidade
As pessoas não sabiam se era dos teus olhos que brotava a obscuridade.

As estrelas desapareceram uma a uma em silêncio
E a lua não tinha como esconder-se atrás dos outeiros

Rasgaram-se as cortinas do céu
Quando a voar tua alma passou

E eu sei o que então se viu; não foi uma estrela,
Senhor; foi a cara mais bela,
A mesma que agora mesmo verias
Se rasgasses a carne do meu peito.

Como tu, Senhor, tenho os braços abertos esperando por ela.
Assim lho prometi e me cansam tantos séculos de espera.

Caem-me os braços sobre a terra como crucifixos partidos.
Não poderias, Senhor, adiantar a hora?

Senhor, na noite do teu céu passou um meteorito
Levando um seu voto e o seu olhar até ao fundo do infinito.
Até ao fim dos séculos continuará rodando nosso anseio ali escrito.

Senhor, agora estou doente de verdade
Uma insuportável angústia mastiga-me o peito.
E esse meteorito assinala-me o caminho.
As nossas vidas amarrou num só destino.
Entrelaçou-nos a alma melhor que uma qualquer aliança.

Senhor, ela é débil e ténue como um ramo de soluços.
Olhá-la é uma vertigem de estrelas no fundo de um poço.

Os rouxinóis do delírio cantavam nos seus beijos,
Enchia-se de febre o tubo dos ossos.

Alguém plantou na sua alma vis ervas de dúvida e já não crê em mim.
Prova-me que és Deus e no máximo em três dias leva-me daqui.

Quero evadir-me de mim mesmo.
O meu espírito está cego e rodopia entre planetas cheios de cataclismos.

Também a minha vida sangra sobre a neve,
Como um lobo ferido que faz a noite tremer cada vez que se move.

Estou crucificado sobre todos os morros.
Uma coroa de espinhos crava-me o coração.

As lanças dos seus olhos ferem-me as costelas
E um ribeiro de sangue sobre o silêncio dir-te-á que passei.

Faz agora uns quantos meses, Senhor, abandonei a minha velha Paris,
Um estranho destino trazia-me a sofrer no meu país.

Faz frio, faz frio. O vento empurra o frio sobre os nossos caminhos
E os astros enrolam a noite girando como moinhos.

Senhor, pensa nos pobres imigrantes que vieram até à América de ouro
E encontraram um sepulcro em vez de caixas de tesouros.

Eles impregnam as ondas com o ritmo dos seus cantares.
A tempestade das suas almas é mais horrível que a de todos os mares.

Vê como choram pelos seres que não mais verão;
Gritam-lhes na noite todas as coisas que para trás deixaram.

Senhor, pensa nas pobrezitas que sofrem ao humilhar a carne,
As novas Madalenas que hoje choram a dor da tua madre.

Agachadas ao fundo da angústia da sua absurda Babel,
Bebem lentamente grandes copos de fel.

Senhor, pensa nas espirais dos naufrágios anónimos,
Nos sonhos truncados que se quebram em pedaços de asteróide.

Pensa nos cegos com as pálpebras cheias de música, choram pelos olhos do seu violino.
Eles esfregam os seus arcos sobre a vida numa amargura sem fim.

Senhor, vi-te sangrando nos vitrais de Chartres
Como mil borboletas que fazem os sonhos partir.

Senhor, em Veneza vi o teu roso bizantino
Num dia em que o ar se rompia de beijos e vinho.

As gôndolas passavam cantando como ninhos
Entre ramos de ondas, levando o nosso sorriso até ao Lido.

E tu ficavas sozinho em São Marcos, aspirando as selvas de orações
Que crescem a teus pés em todas as estações.

Senhor, vi-te num ícone, obra de um monge sérvio que ao pintar os teus espinhos
Sentia a alma repleta de andorinhas.

Que significas tu na história do mundo?
Há ano e meio discuti este tema num café de Moscovo.

Um sábio russo não te dava grande importância.
Eu dizia ter acreditado em ti durante a infância.

Uma bailarina célebre pela sua beleza
Dizia que tu és somente um conto de tristeza.

Todos te negaram e não consta que um galo tenha cantado.
Talvez Pedro, escutando-nos, tenha chorado.

E ao fundo de uma velha Bíblia o teu sermão da montanha
Continuava ressoando de uma maneira estranha.

Senhor, também eu tenho uma vida dolorosa, minhas recaídas e minha paixão;
Saltando meridianos como um tigre ferido, sangra e uiva o meu coração.

Reina o amor em todas as suas esplêndidas catástrofes internas,
Mil rubis trovejam no fundo do cérebro
E as plantas do desejo bordam o ar destas noites eternas.

Poeta, poeta escravo de aventuras e de algum sortilégio,
Como tu suporto a vida, o maior sacrilégio.

Senhor, a única coisa que vale na vida é a paixão.
Vivemos para um ou outro momento de exaltação.

Abre-se a meus pés um precipício de suspiros; detenho-me e vacilo.
Logo como um sonâmbulo atravesso o mundo em equilíbrio.

Senhor, que te importa o que digam os homens. Ao fundo da história
És um crepúsculo pregado a um madeiro de dor e de glória.

E o regato de sangue que brotou das tuas costelas
Ainda, Senhor, não foi estancado.


Vicente Huidobro, poema publicado originalmente na primeira página de La Nación (Santiago de Chile, 2 de Abril de 1926). Versão caseira do HMBF.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ainda duas palavras, meus amigos, antes de terminar: vãs são nossas lutas e nossas discussões, vã a fosforescência das nossas espadas e das nossas palavras. Só o caixão tem razão. A vitória é do cemitério.Vicente Huidobro

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CUBISMO LITERÁRIO






Vicente Huidobro foi uma espécie de Giovanni Pico della Mirandola da poesia chilena. Com apenas 23 anos, escrevia isto: «Soy uno de los pocos poetas de hoy que lleva tras de sí una verdadera y enorme labor artística». Uma afirmação destas, no Portugal moderno, era meio caminho andado para ser encostado à boxe pelos «imbéciles que en el mundanal ruido se llaman críticos». De facto, o poeta foi a todas. Do dadaísmo ao surrealismo, da poesia visual aos caligramas, do épico ao prosaico... Uma das fases mais interessantes por que passou é a do denominado cubismo literário, que se define pela descontinuidade do discurso como forma de possibilitar várias combinações lexicais. Hoje em dia, isto não interessa para nada. A maioria dos poetas escreve por escrever, sem preocupações formais de monta nem concepções estéticas fundamentadas. Mas no início do séc. XX o classicismo combatia-se com conhecimento de causa e vontade de mudança. A supressão da pontuação, os espaços em branco, as quebras de verso abruptas, traziam em si não só uma nova estrutura rítmica como também uma intenção plástica que buscava a coerência numa justaposição de imagens que apelava à imaginação do leitor. Desta fase, gosto muito da sequência que tem por motivos a lua e um relógio. Integra o volume intitulado Poemas árticos (1918). Deixo aqui uma versão possível:

LUA

Estávamos tão distantes da vida
Que o vento fazia-nos suspirar




A LUA SOA COMO UM RELÓGIO

Inutilmente fugimos
O inverno caiu no nosso caminho
E o passado cheio de folhas secas
Perde o carreiro da floresta

…………………..Tanto fumámos debaixo das árvores
…………………..Que as amendoeiras cheiram a tabaco

………………………………Meia-noite

Sobre a vida longínqua
…………………………………alguém chora
E a lua esqueceu-se de dar as horas




LUA OU RELÓGIO

As tardes prisioneiras
……………………………….nas vielas frias
E as canções cónicas dos jardins
Andorinhas sem asas
………………………………entre a névoa sólida
Angústia na minha garganta
Sobre a testa a coroa seca
E nas tuas mãos uma estrela fresca
Depois no vale sem sol
………………………………….um mesmo ruído
A lua e o relógio

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ARTE POÉTICA



Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto os olhos vejam criado seja,
E a alma do ouvinte fique a tremer.

Inventa novos mundos e zela pela palavra;
O adjectivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo está exposto,
Como recordação, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O verdadeiro vigor
Reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema;
Somente para nós
Vivem todas as coisas debaixo do Sol.

O poeta é um pequeno Deus.



Vicente Huidobro, in El espejo de agua (1916)
Versão de HMBF