domingo, 28 de agosto de 2016

POETA E PALAVRA


Quando o ar, suprema companhia,
ocupa o sítio dos que já partiram,
dissipa seu olor, seus gestos, seus rumores
e, único, volta a preencher
a ordem natural do seu silêncio,
ele, a cujo domínio infinito se reduzem
a meia-noite, o meio-dia
(horizontes de prata ausente ou mais além de ouro)
fica com o ar em seu lugar,
docemente cingido pela atmosfera
da propriedade azul eterna.

Pode esquecer, calar, gritar então
a palavra que chega do harmonioso todo,
harmonioso todo solitário;
que o centro escuta em círculo
preparado desde sempre e para sempre;
que permanece leve e firme sobre tudo;
a vibrante palavra muda,
a imanente,
única flor que não se dobra,
única flor que não se extingue,
única onda sem fracasso.

De todos os segredos brancos, negros,
concorre a ele em eco, enamorada,
plena e alta de seus tesouros todos,
a profunda, silenciosa, verdadeira
palavra,
que só ele ouviu, ouve, ouvirá em sua vigília.
A sua carne, a sua alma unas, no seu ar,
são então palavra:
princípio e fim,
presente sem mais olhar para trás,
destino, chama, olor, pedra, asa, válidos,
vida e morte,
nada ou eternidade: então palavra.

E ele é o deus absorto no princípio,
completo e sem ter falado nada;
o embriagado deus do suceder,
inesgotável em seu nomear exacto;
o deus unânime no fim,
feliz por tudo repetir em cada dia.


Juan Ramón Jimenez (n. Moguer, Andaluzia, Espanha, 23 de Dezembro de 1881 - m. San Juan, Porto Rico, 29 de Maio de 1958), in Antologia Poética, selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Relógio D'Água, 1992, pp. 140-141.

TRABALHO


Leio em rodapé na televisão que muitos portugueses deprimem no regresso das férias. Notícia tão previsível e óbvia que nem devia ser notícia. Aceita-se como rodapé. Muitos portugueses, a maioria, são infelizes. No trabalho, na vida. Estudos, estatísticas, apontam nesse sentido. O caso português não é sequer agravado pelo fado, tem que ver com uma outra ordem de razões. País velho, com uma história onerosa, faz de cada um dos seus cidadãos uma espécie de Sísifo. A gente carrega o país às costas, é a nossa pena. Carrega-o como um fardo, aceitando o privilégio de duas semanas para descansar de subir e descer a mesma montanha entediante da vida. Acresce o dever moral, as obrigações, a consciência a pesar por aqueles que nem duas semanas podem roubar ao destino para descanso. Os portugueses têm trabalhos de que não gostam, vivem frustrados, levam vidas a contragosto, o leque de oportunidades, por assim dizer, é reduzidíssimo para quem não tenha apelido nem situação. Os portugueses não deprimem no regresso das férias, voltam à realidade, restabelecem os índices miseráveis de alegria quotidiana. O que é estranho, e por isso deveria ser notícia, é os portugueses terem pelo menos duas semanas por ano para sorrir com leveza. 

sábado, 27 de agosto de 2016

RUDY VAN GELDER (1924-2016)


Rudy Van Gelder, o homem do som que ofereceu ao jazz a expressão de que ele precisava em registo fonográfico. Por coincidência, ainda ontem fazia uma referência a Moanin' no Facebook. Foi gravado no Van Gelder Studio em Outubro de 1958. E não podia ser de outra forma. Mais aqui.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

CRUZAMENTO


Posso ter falhado em muitos dos caminhos da vida, por vezes atalhei e foi pior a emenda do que o soneto. Posso ter, como se diz, metido o pé na argola com diversas opções, ter virado à esquerda ou à direita sem prever consequências. Posso até ter perdido o sentido de orientação em momentos para os quais seria indispensável o norte que me faltou. Mas neste cruzamento nunca me perdi, soube sempre para onde me voltar, que caminho seguir, por onde continuar. Por duas vezes aqui me vieram as lágrimas aos olhos, de pensar que jamais abriria pisca à direita ou continuaria em frente até ao fim da estrada. Atrás das placas havia pinheiros altos, vi um deles tombar de velho, sentei-me no meio da estrada só para escutar as pinhas caindo dos ramos como lágrimas pesadas. À noite, estes matagais são viveiros de grilos. A imaginação dança ao escutá-los, enquanto o coração repousa das dúvidas e das incertezas que o atormentam. Porque aqui os caminhos são certos, qualquer uma das opções será pela rara alegria de viver. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

FOTOGRAFIAS TIPO PASSE

Passam na televisão milhares de rostos
enfileirados em tipo passe
coloridos ou a preto e branco
com sorrisos na cara, faces distintas
gordas magras sardentas níveas

São rostos de pessoas descampadas
existiram apenas naquele momento
de pose rarefacta, vulgar, quotidiana

Passam na televisão como registo
de um acidente que as levou para sempre
envoltas já num manto de esquecimento
naturalmente mortas, assassinadas
ou simplesmente desaparecidas entre escombros

Dez cem mil fotografias por mim dentro
escorrendo dos olhos à aorta
e o coração responde como um tambor
até que as mãos tremam de vergonha

Identificados desaparecimentos
de identidades interrompidas
vidas que poderiam ser humanas
não tivessem sido apenas de tipo passe
em cartões de cidadão, lajes de mármore
em páginas de jornais sensacionalistas
em noticiários televisivos

Percorrem agora o mundo tais rostos
pelos carris da informação
entrando pelos olhos de todos quantos
estejam ligados na distância
a observar as mortes uns dos outros

De tamanhas existências trágicas
guardaremos porventura a memória de um peixe
afogando-se na sua própria respiração
nós que em tipo passe reduzimos tudo
quanto tenha vida quanto tenha rosto

Pouco importam nomes e ocupações
de nada interessa saber
onde encalharam os futuros
Passaram
e é tudo quanto conseguimos perceber

Estamos como cada um daqueles rostos
condenados a uma moldura
com sorte
ramos de buxo em dia de finados

Tiveram ainda que o não saibam
direito a horário nobre
Não foram sequer quinze segundos de fama
nem talvez microssegundos de compaixão
passe a emoção instantânea
com que locutor e espectadores
se sentaram à mesa de jantar

Foi a nossa fome de ter rostos para a tragédia
a exibi-los assim desprevenidos
nem que somente em tipo passe
acenando para nós tão anacronicamente
que chegam a ser imorais de tão inocentes
tais acenos
tais sorrisos

CREPÚSCULO


Fotografias do sol a pôr-se são uma vulgaridade. No entanto, ninguém resiste a registar pelo menos uma vez na vida o astro rei acoitando-se por detrás do horizonte. Porquê? Porque é bonito, porque a beleza, mesmo a mais vulgar das belezas, impressiona-nos sempre, extasia-nos, anima-nos, espanta-nos. Claro que nem toda a gente fotografa o pôr-do-sol da mesma maneira, nem todos descobrem e trabalham os mesmos aspectos desse momento deslumbrante. Fenómenos naturais são sempre motivo de derivações mentais, haverá boas e más interpretações dos mesmos. E, por consequência, boas e más representações dessas interpretações. Nem todas as fotografias do sol a pôr-se são em si mesmas belas, o que há de belo nelas é o registo de algo que em si mesmo é belo. Pudessem os nossos olhos reproduzir automaticamente o que vêem, filtrada a percepção pelas sensações e emoções despertas no corpo, e nenhum destas questões se colocaria. Talvez a melhor representação de um fenómeno destes sejamos nós próprios, ou seja, o modo como ele nos afecta e a consequente resposta que lhe damos diariamente enquanto pessoas. A questão é: se toda a gente percebe a beleza de um pôr-do-sol, por que será que nem toda a gente repercute tal beleza nas suas acções quotidianas? Por que será que as pessoas são feias com tão belos sois postos por perto? 

INDIFERENTE

Certas pessoas denotam um entusiasmo incompreensível com a notícia da descoberta de um planeta semelhante à Terra. Não entendo o entusiasmo. É verdade que preferiria sentir o mesmo entusiasmo em cuidados com a Terra que já têm, mas não o entendo porque sendo o planeta novo semelhante à Terra a probabilidade de por lá existirem seres semelhantes aos humanos é grande. Logo, é-me indiferente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

GUIA DE AVES

Conheço alguns pássaros pelo canto
Esta manhã acordei ao som de rolas
abriam asas dentro da minha cabeça
e sacudiam-se freneticamente
largando entre as sinapses alérgicas vertigens

É frequente olhar para o céu
à procura de gaivotas
prefiro vê-las em bando anunciando tempestades
a ouvi-las isoladas num canto absurdo
da consciência
Ainda sobre gaivotas posso dizer
que estranho a dieta com que sobrevivem
num mundo carregado de supressões
e de vocabulário limitado

Reconheço à distância o crocitar dos corvos
quando planam milheirais
ou pousam num ramo em fogo
incêndios de augúrios
Temos dessas aves de corso negro
uma injusta mitologia
na realidade anunciam fortuna onde os gatos
pardam melancolia
Além do mais dão-nos cabo dos verbos
com rimas estropiadas à sintaxe das horas

Também sei distinguir uma coruja de um estorninho
Por vezes não é fácil, nas aldeias onde me movimento
Ao contrário do que possa supor-se
nessas aldeias o estorninho adquire um canto
circunflexo, muito semelhante ao das aves rapina
exibindo desenvolturas de milhafre
que qualquer fisga de oliveira facilmente desmentiria
Mas as pessoas têm geralmente para com o estorninho
assim como para com as andorinhas
uma religiosa paciência
São aves de Deus, intocáveis
mesmo que à passagem deixem tudo
num lastimável estado de porcaria

Já as corujas e os mochos inspiram desconfiança
intrometem-se nas noites
para desfazer o silêncio da imaginação
com ninhos de fobias
E a gente logo lhes inventa feitiços e bruxarias´

Das cegonhas nunca ouvi o canto
e de aves rasas como perdizes, galinhas, galos, codornizes
nada tenho a dizer
são rasas quanto baste à minha ignorância
Só as compreendo em capoeira ou aviário
pelo que não me suscitam sequer a ternura que sinto pelos reclusos
O infortúnio dessas aves é existirem
melhor estaria o mundo se jamais nos tivessem dado o exemplo
da domesticada resignação que apõem
à maldade dos homens

Felizmente existem melros para enxotar condomínios
o pior que lhes pode ser feito
é tomá-los por periquitos e metê-los numa gaiola
como se pudessem aí viver mais que meios dias
metade da vida a olhar para a morte
a outra metade em coma profundo
pelos agoiros que no bico reluzem como sóis de verão

Leva-me o sol ao canário
cão de guarda de mineiros precavidos
pássaro de asas flutuantes
com um canto que é todo ele respiração
leveza e ar
Não os saberia distinguir da cotovia
a mais literária de todas as aves
por em ambos estar suposto o alento das palavras
São aves que cantam como quem declama
ao contrário dos homens têm uma voz

O meu canto preferido é porém o do albatroz
pássaro que nunca vi nem sequer sonhei
mas escuto-o repetidamente na memória
por ser dele o canto de quem pela ausência
mais insiste em se mostrar
Ó aprazível melodia das minhas dores
tão eloquentes são as pautas dos teus desejos
que a paixão reviras e dos amantes fazes parasitas
morcegos mudos e sequiosos
tão distantes da presa como o verbo da acção

Podia ainda acrescentar vários cantos tropicais
de aves multicoloridas
um caleidoscópio de acordes bemóis
e de notas sustenidas
mas dessas aves guardo sempre a impressão
por certo ingrata e desacertada
de que não cantam tanto quanto falam
Pelo que a tais me dispenso

Já me basta a gralha

terça-feira, 23 de agosto de 2016

XISTO


Uns chamam-lhe concha, outros chamam-lhe anfiteatro. Fica na Praia da Carreagem (há quem escreva Carriagem), no Rogil. Chegava-se lá descendo um carreiro desenhado por pescadores. Entretanto, por cima do carreiro construíram umas escadas de madeira. Passou a ser procurada por mais banhistas do que por pescadores. Tem alguns segredos que não vou desvendar, sobretudo para quem pretenda mergulhar, nadar, apanhar sol. Prefiro guardar os segredos. Em 2008, salvo erro, foi neste ambiente que acabei de ler Moby Dick, enquanto o Luís tentava pescar robalos e fanecas. Deitado sobre cascalho xistoso, com o olhar dividido entre a encosta e o horizonte marítimo, enquanto o sol nascia deslocando a sombra na direcção da vila. A casinha de madeira ainda persiste, assim como o fio de água doce onde lavávamos rosto e pés e mãos. O que já não existe é a inocência do primeiro olhar, o silêncio, o cheiro natural da vegetação a misturar-se com a maresia. Agora intrometem-se as fragrâncias dos protectores solares, o estalido das bolas nas raquetes, crianças impacientes, sotaques estrangeiros aparentemente desorientados. Não me apetece voltar a ser simpático com as minhas frustrações, penso-as como quem olha estas rochas, de ano para ano ali paradas sem que nada possa ser feito contra elas, a não ser acrescentar-lhes ruídos, disfarces, a não ser soltá-las para sempre na direcção de um mundo silencioso. Submersas, é como se não existissem. Mesmo que continuem a existir. Mas não as vemos. Não as vendo, é menos provável que as sintamos. Afogados.

ESTRANHO

Não é estranho que as pessoas sejam amigas, marquem presença, elogiem-se, não é estranho serem todos umas queridas e uns queridos, passarem momentos fantásticos. Estranho é que seja sempre genial, magnífico, fabuloso. Estranho é não haver ninguém que diga, enfim, foi mais ou menos, não foi assim tão genial, foi assim assim, foi uma seca.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CHEGA DE SAUDADE

É um dos melhores livros publicados este ano entre nós, perfeito da capa à contracapa. Jornalista de profissão, o brasileiro Ruy Castro (n. 1948) tem várias obras publicadas sobre a cultura popular brasileira. Biografias do futebolista Garrincha e da cantora Carmen Miranda fazem parte do currículo. Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova (Edições Tinta-Da-China, Junho de 2016) foi originalmente publicado em 1990, aporta nas livrarias portuguesa com cerca de 25 anos de depuração. Edição revista, esta versão portuguesa com quase 500 páginas lê-se obsessivamente. O mérito está no autor do livro, que soube oferecer o protagonismo às personagens de um movimento repleto de estrelas. Presume-se que escrever uma obra destas seja como cartografar o céu, recolhendo dados que permitem organizar por constelações grupos, querelas, conflitos, manias, todo um conjunto imenso de histórias, umas caricatas, outras trágicas, que acabam por retratar um tempo e as suas circunstâncias. 
Chega de Saudade não é apenas sobre um género musical, é também um retrato da sociedade brasileira, com especiais sublinhados para as suas assimetrias e divergências de raiz, e é também um ensaio acerca do meio cultural na sua relação com uma indústria ávida de sucessos e tantas vezes indiferente à criação. Enriquecido com várias fotografias, vasta bibliografia, uma cançãografia e uma discografia imprescindíveis, o volume foi dividido em duas partes que oferecem um nexo cronológico à narrativa. No prólogo percebemos desde logo que o astro central será João Gilberto, a quem se confere a invenção da bossa nova sem pruridos de maior. As origens, os vícios, as obsessões, os traços de personalidade, as cismas, o encanto e o desencanto, os encontros, as parcerias, os desencontros, a coluna vertebral do autor de Bim Bom (1958) percorrem todo o livro como uma espécie de fio condutor. Mas na primeira parte, intitulada O Grande Sonho, ficamos a saber que a bossa não nasceu do nada, que na cabeça de Gilberto não havia uma tabula rasa, houve antecedentes que convém registar, buracos negros e erupções solares cujos efeitos foram determinantes para que a edição de Desafinado se tornasse um marco histórico. 
Deste modo, os anos 30 e 40 não foram esquecidos, a relevância de autores como Orlando Silva, Dorival Caymmi, Dick Farney e Lucio Alves é mais do que apontada. O magma que nesses anos escorreu sobre a Terra surge não só como a semente da qual brota o fruto, mas como a própria terra onde a semente vai germinar. Se é justo falar do percurso de João Gilberto como uma espécie de fio condutor, seria injusto não reconhecer nas referências a Frank Sinatra as duas pontas desse fio. Na relação com a música norte-americana, a produção musical brasileira de vanguarda nesses anos encontra no jazz um parceiro ideal. Sinatra é a voz, pelo modo de cantar, de abordar a palavra, pela postura: ««Night and day», lançada em 1932 por Fred Astaire, tornara-se quase propriedade particular de Sinatra nos anos 40 e, juntamente com a sua coleção de gravatas-borboleta, tinha sido uma das principais causas de desmaios femininos durante a Segunda Guerra. (…) E «Copacabana» era a canção que revelara o brasileiro Dick Farney e demonstrara aos infiéis que era possível ser moderno, romântico e sensual em português, sem os arroubos de opereta de Vicente Celestino» (pp. 30-31). Não será pois incorrecto supor que a bossa nova surgiu de uma confluência entre ritmo e dicção que Sinatra terá inspirado, numa época onde já não fazia sentido ceder ao lamechismo a carga dramática de um romantismo que buscava a “joie de vivre” entre destroços. Daí que entre a formação do Sinatra-Farney Fan Club ainda na década de 1940 e o encontro seminal de Tom Jobim com o popular cantor norte-americano, 20 anos depois, exista uma espécie de princípio e fim que corresponde à imposição internacional da bossa nova. É como se finalmente os pulmões tivessem encontrado o ar. 
É correcto afirmar-se que Chega de Saudade se lê como um romance, uma história repleta de episódios com imensas personagens que dariam, por si mesmas, cada uma delas, muitas delas, um livro inteiro. Além dos supracitados, e para não tornar a prosa um inventário de nomes, referiam-se apenas Stan Kenton e Stan Getz como influências incontornáveis provenientes do jazz, o guitarrista Baden Powell, os compositores Carlos Lyra e Roberto Menescal, o poeta Vinicius de Moraes, cantoras como Dolores Duran, no início, e Elis Regina ou Nara Leão numa fase mais desenvolvida e em auto-negação do movimento. Enfim, um sem número de personagens que contribuíram para que a cultura musical brasileira fosse um viveiro sem fim. Num ano em que tanto se tem falado do Brasil, quase sempre pelas piores razões, este livro oferece um outro olhar sobre a cultura brasileira, uma cultura onde a criação fervilha de braço dado com o conflito. Uma cultura onde os artistas ainda têm um papel social a desempenhar, mais que não seja o de procurar expressão para a desventura de um povo assaltado pelo poder, como quase sempre são os povos, mas que nem por isso deixa de sentir e de buscar no amor e na alegria alimento para os dias.

O PRISIONEIRO DO TEMPO


Começou porque me limitavam os anos,
doze anos, quinze anos, vinte anos...
Eram limites, eram fronteiras suportáveis:
o ano que vem, quando cumprir trinta anos,
o ano passado, o ano novo...
Eram limites amplos,
era possível a distância, o horizonte,
por muitos anos! Os espaços
dominavam o tempo
recebias a aurora, despedias a tarde
amplamente e amavas
docemente os sonhos.
Os anos eram os carcereiros
mas rondavam muito distanciados.
Havia quem vivesse cem anos!
Mais tarde, começaram os meses a limitar-me,
apareciam subitamente, tudo era muito distinto,
o tempo dominava os espaços,
era um limite mais pesado,
estavam mais próximos os carcereiros,
eram carcereiros!:
o mês que vem, dentro de uns meses,
oprimiam-me os meus próprios limites,
originava limites!
Que terá sido daquelas agradáveis distâncias,
há tempo pela frente, dizia,
quando me limitavam os anos.
Agora olhava com receio todas as coisas,
nove meses, três meses, um mês de prazo,
meses, meses voando sobre os sonhos.
E as semanas?
Deixaram os meses de cingir-me
e um novo limite controlava-me, uma nova medida
estendida por todo o mundo,
cobrindo de miragens todas as suas galerias.
Contava a vida por semanas,
semana atrás de semana.
Os carcereiros eram os oficiais de semana,
distraíam-me, envolviam-me nas verdades falsas,
a próxima semana, dura muito pouco uma semana,
a semana santa,
o meu mundo era a semana, a realidade era a semana,
a semana, só existia a semana.
Que era um mês senão quatro semanas
e que era um ano senão cinquenta e duas semanas...
E contava as semanas
e via a humanidade ansiosa
forçada à semana, vivendo para o fim de semana, vivos, livres
só o fim de semana.
Depois foram os dias,
comecei a contar os dias
sobressaltaram-me os dias,
era questão de dias,
pesavam enormemente os dias
e desejava por sua vez que passassem os dias
e que não passavam...
Aferrava-me aos dias, bons dias!,
o dia estava ali, era um carcereiro inamovível, omnipresente,
tudo mediam em dias.
Não era livre! Não podia ser livre!
O dia da minha boda, o dia da minha licenciatura em filosofia,
apenas um vazio para a minha aventura,
apenas ficava espaço e eu necessito de espaço, muito espaço,
não podia sair dos dias,
um dia e outro dia,
o dia das forças armadas, amanhã será outro dia,
outro dia!
Crescia a muralha dos dias,
o circo dos dias, um dia comia o outro dia,
os limites eram insustentáveis,
dias de jejum, dias de alegria,
mas tudo medido, era preciso obedecer ao dia,
despertar ao despertar o dia,
dormir ao dormir o dia,
a ordem do dia!
um dia é um dia, nos próximos dias...
agora, enquanto escrevo este poema,
já não conto os dias senão as horas, 
faltam três horas, dura quatro horas,
que horas são, a que horas...
Os carcereiros converteram-se na minha sombra,
apenas falo, as horas confundem-se e confundem-me,
limites, limites, a tarde, a manhã, o meio-dia,
uma hora cai sobre outra hora, vence a outra,
uma hora é como outra hora,
hora adiantada, horas extraordinárias,
faz horas extraordinárias!,
a dança das horas, horas perdidas, o recorde da hora,
não somos seres, somos horas, corda de horas,
uma cada duas horas, quase seis horas,
e sonham as horas e já só podes ouvir as horas,
e tudo há-de mover-se num horário,
tudo há-de estar à hora,
tudo tem a sua hora,
quantas das minhas horas são horas minhas,
meia-hora, um quarto de hora, a hora!
Destrói-me pensar que nasci para as horas,
abro as mãos e tenho-as cheias de horas.
Ah, carcereiros, horas terríveis que nublais os meus olhos!:
dentro, levo-vos dentro, estou cheio de carcereiros, de sombras.

Não quero nem pensar como será a minha vida
quando ela depender dos minutos, quando
forem eles os meus carcereiros e não existam
os espaços, os sonhos, as dúvidas,
quando o meu corpo for uma garagem de minutos,
minutos, minutos, não tenho nem um minuto, só cinco minutos,
tudo sucederá em minutos, que fará de mim a fúria dos minutos,
quando não puder perder nem um minuto,
que humilhação me aguarda quando na minha vida
só se movam as agulhas dos minutos
que espaço pode haver entre minuto e minuto.
Que escura noite havia em vós, meses, anos,
e que traição os vossos espaços!
Éreis minutos, minutos, só minutos!
Que o mundo se afunde será questão de minutos!
Finalmente, finalmente, ah, finalmente,
quando apenas um sopro alente os meus sentidos
e só existam os segundos, sejam os segundos
os que cingem o meu corpo, a minha vida,
todo o meu ser um carcereiro monstruoso, uma áspide, uma víbora
destruindo os últimos reflexos,
todo o mundo um carcereiro horrível, 
e quando todos forem fantasmas e as ideias se converterem em nuvens
e os sentidos em cavernas
e nos últimos segundos
passem os anos, os meses, os dias e as horas
convertidas em ar
e se encerrem os meus olhos e o rosto sem vida
riam como nunca por todos os abismos do mundo,
como desejarei continuar prisioneiro do tempo
como amarei o tempo - eu era tempo, doloríssimo tempo! -,
como amarei os limites - somente eles não estavam mortos -,
os anos e os meses,
os dias e as horas e os minutos,
todos os limites do mundo.
Como me arrancará a eternidade do tempo!


Jesús Lizano (n. 23 de Fevereiro de 1931, Barcelona - m. 26 de Maio de 2015, idem), in O Engenhoso Libertário - breve antologia poética de Jesús Lizano, organização, tradução e prefácio de Carlos d'Abreu, Douda Correria, Julho de 2015, s/p.

domingo, 21 de agosto de 2016

ROCHAS


Não sei por que me agrada esta paisagem, tem tudo para me desagradar. Olho para estas rochas e não entendo nada do que nelas me atrai. Talvez por isso me atraiam, por não entendê-las. Sim, desde sempre este fascínio pelo ininteligível, pelo absurdo, pelos paradoxos. Sei que morreria feliz sabendo que espalhariam as minhas cinzas por ali, que a minha memória se fundiria para sempre com o mar, com a areia, com as rochas, com esta ausência absoluta de sentido. Um geólogo terá todas as explicações para as minhas dúvidas, mas ainda assim o mistério: como é possível haver paz nesta agressividade? A paisagem é agreste, porém pacificadora. Não estamos a falar de dunas com palmeiras, de quilómetros de areal com a água a afagar a Terra como um homem afaga um gato. Estamos a falar de perigos. O que há nisto de belo é a incerteza, não sabermos se a praia vai estar areada, se entre as rochas se escondeu algum polvo, se haverá mosquitos a atazanarem-nos a pele, se estaremos suficientemente abrigados de ventos e de tórridas manhãs. Anda-se descalço nestas margens e sente-se a natureza a entrar no corpo, como uma ferida, o peso da carne contra a solidez da rocha abre feridas nos pés com facilidade, mas são feridas e dores boas, nelas reside a solução que o crente vislumbra face à imagem de Deus. Já me magoei a sério por ali, já senti a vida em risco por ali, mas foi uma satisfação enorme perceber que não estava morto depois de escapar às rasteiras da vida. Agora não sei, sinto-me cansado, não retiro prazer das acções, a escrita é-me um sacrifício, o trabalho uma expiação, sinto que estou a cumprir uma pena por crimes que desconheço. O álcool desvia-me as atenções, mas estou farto. Sinto que sempre estive farto. Nenhuma privação, simplesmente saturado de farto. Só me apetece olhar, se pudesse concentrar-me totalmente nas retinas e ficar simplesmente a olhar.


COISAS

Tenho que me desfazer das coisas, tantas coisas, muitas coisas, demasiadas coisas, tenho que dar, oferecer, vender, destruir, tenho que, não posso continuar a acumular coisas como se o espaço fosse infinito, como se o tempo fosse infinito, tenho que converter em lixo milhares de coisas, tenho que reciclar as coisas, perdê-las, tantas são as coisas de que devia libertar-me, tantas coisas, coisas, coisas e mais coisas.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

ANDRÉ JORGE (1945-2016)


Não conheci, nem de perto nem de longe. Mas tenho muitos livros da Cotovia cá por casa. Estas férias, por exemplo, li “A paz doméstica” (Cotovia, Março de 1999), de Teresa Veiga. A última frase do livro é medonha: «Não teve culpa se na sua vida mesquinha não surgiu ninguém que suplantasse o seu amor pelos mortos». Presumo que não se tenha passado assim com André Jorge, a quem devemos uma excelente colecção de poesia, bons livros de teatro, clássicos imprescindíveis, livros sobre arte e artistas… Não é fácil ser editor em Portugal, disso tenho a certeza, muito menos outorgando à posteridade um catálogo. Repito: um catálogo, coisa cada vez mais rara. Fique este singelo agradecimento pelo trabalho efectuado. A imagem é do Público. Ler notícia aqui.

BURKINI

A minha mulher foi ao banho toda vestida e com lenço na cabeça, as pessoas olharam para mim como se eu fosse terrorista. Para mostrar que não era, despi-me e fui ao banho nu. As pessoas acusaram-me de depravação. Tentei mostrar a um senhor polícia que não era depravado, até tinha um cãozinho que trazia comigo para a praia. Não podia, é proibido. Abandonei-no então numa rua para que me pudessem acusar de maltratar os animais. Enfim, também quero imunidade diplomática para poder matar quem me apetecer à paulada e ficar em liberdade. Entretanto, vou ouvir o Strange Days antes que chegue a hora de voltar ao serviço.

DISPOSIÇÃO

Em conversa com um homem de 83 anos, chamo-lhe velho a pedido do próprio. Gosto que me chamem velho, explica-me, porque é sinal de que já vivi muito. Ocorre-me que podia morrer agora mesmo e não sinto nada. Gosto de viver, mas não o suficiente para que tema a morte. Há pessoas que dizem não temer a morte, mas sim o sofrimento. Também não temo o sofrimento. Talvez tema ficar sem qualquer possibilidade de pôr um termo ao sofrimento, ter a possibilidade de me suicidar é uma bênção. Se algum dia me arrancarem essa possibilidade, desejarei apenas morrer depressa, nem que seja de medo, medo de não poder deixar de viver. E nesta correria de pensamentos e imagens sobrepostas, vejo-me velho, com 83 anos, o corpo completamente degradado, todo lixado dos pulmões, manco, a ver mal, vejo-me com dificuldades respiratórias, sem vontade, nem desejo, nem paixão, vejo-me a definhar, vejo-me cheio de grão nos olhos, tudo turvo, sem saúde alguma nem capacidades, vejo-me sem lucidez, sem consciência de mim mesmo nem dos outros. Não me consigo ver como o velho com quem falei, lúcido, ágil, sem a força de outros tempos, é certo, mas bem disposto.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

EUFEMISMO ESTATÍSTICO

Anda meio mundo a aldrabar meio mundo. Mas da metade enganada, pelo menos 50% adora sê-lo. 

O NOSSO MELHOR

Tentar explicar ao burro que tem quatro patas. O burro não percebe, zurra. Tentar servir, diria mesmo ajudar, quem convencido de que sabe tudo se deixa levar pela mentira como o mosquito pela teia. Enfim, nada como a consciência de que fizemos o nosso melhor. 

PRONOME PESSOAL

Certas manifestações de ingenuidade denotam soberba. Supor-se, por exemplo, que o exercício de uma arte pode trazer satisfação. O artista é insatisfeito por natureza, quando a mostarda do sucesso lhe chega ao nariz simplesmente espirra. Nenhum reconhecimento pode pagar a frustração que o acompanha durante a vida inteira como uma sombra. Nisso, distingue-se do atleta olímpico. Este sofre por uma medalha, o outro sofre por saber que nenhuma medalha lhe amenizará o sofrimento. A sua meta é a morte, como qualquer comum mortal. É óbvio que muita dessa gente que se faz passar por artista tem carácter de atleta olímpico, corre por medalhas, simplesmente, medalhas de múltiplas formas, com muitas cores e algumas até com duas pernas e algo entre que estimule a criação. Mas ninguém é pintor, músico, escritor porque ganha medalhas. Na melhor das hipóteses, acabaremos com um olho cego por detrás de uma pala, uma perna coxa apoiada num ceptro, na melhor das hipóteses acabaremos sós. Perdoem-me o pronome pessoal.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CACHOEIRA


A primeira vez que fui ao Festival Sudoeste foi em 1999, quando ainda era possível encontrar no cartaz bandas tais como Massive Attack, The Jon Spencer Blues Explosion, Mercury Rev ou Stereolab. Tinha acabado de tirar a carta, o meu pai emprestou-me a Renault 4L e fui a conduzir com o amigo Mário no lugar de pendura. Guardamos dessa viagem vários episódios caricatos, mas nada que se compare à descoberta de um lugar a que todos se referiam como Praia da Amália. O lugar ficou assim conhecido por haver no alto da falésia uma casa cuja proprietária foi a fadista portuguesa. Notícia do Público, datada de 2012, dá conta de que a Herdade Amália Rodrigues foi entretanto convertida em alojamento turístico de luxo. Curiosamente, até lá se chegar passamos agora por inúmeras estufas onde trabalham no duro pessoas vindas dos quatro cantos do mundo. Desconfio que a palavra luxo seja para elas uma miragem. À época, em 1999, as estufas não existiam. Difícil dar com a herdade e mais difícil descer à praia, o que apenas era possível contornando a propriedade por um carreiro que ainda hoje existe envolto em vegetação. O percurso é bonito, oferece a sensação de estarmos a penetrar território selvagem. Quando por lá estive na primeira ocasião ainda era possível beber água de uma nascente que dava para o riacho que ladeia o caminho, os aromas a rosmaninho e a tomilho misturavam-se com a maresia, a chegada à escadaria de pedra que dava para a praia oferecia uma paisagem deslumbrante. Natureza em estado puro. Tenho passado por lá todos os anos, desde então. Por vezes, com indisfarçável desgosto. A fonte desapareceu, a escadaria foi-se degradando, restando alguns degraus e, este ano, um tabulado onde antes tínhamos um tronco tornou a praia mais acessível. Resultado: amontoados de lixo espalhados pelo areal. Pressinto que não regressarei, tendo sido este, muito provavelmente, o último ano em que refresquei corpo e alma na pequena cascata que ali cai sobre o mar. 

BISONTE

O Bison priscus, actualizado bisonte-da-estepe, popularizado como búfalo, era conhecido dos homens pré-históricos, que o representaram em grutas da Europa, lhe ofereceram danças na América, que o veneraram por África e Ásia, elevando-o a símbolo de força e de generosidade. Praticamente extinto das pradarias da América do Norte, onde ocupou lugar sagrado em múltiplas tribos ameríndias que tanto o veneravam como lhe tinham o temor que Deus inspira, o bisonte foi recolhendo pelo mundo uma simbólica da extinção. 
Na bela capa da mais recente recolha poética de Daniel Jonas (n. 1973), o Bisonte (Assírio & Alvim, Abril de 2016), ainda que numa dimensão que o engrandece, aparece isolado. Procuramo-lo pelos versos e encontramos várias referências, quase sempre em poemas de maior fôlego que alternam com brevíssimos apontamentos num jogo de extensões e de escalas que percorre todo o livro. 
No poema Deslocação das Nuvens, vasta panorâmica dividida em quatro partes, ele surge involuntariamente da feérica leitura que o nefelibata faz do mundo à sua volta. E o mundo à sua volta são nuvens deslocando-se num vasto céu. «A paisagem é triste como uma lezíria» (p. 42), o sujeito poético tem nos olhos o carvão com que desenha as formas do que transita. Eis que surge: «O bisonte pasce a erva benta / conquistando rarefeito o grande espaço / agoráfobo, / panavision» (p. 44). O contraste estabelecido entre o clássico e o hodierno, tão típico dos jogos de linguagem que caracterizam a poesia de Daniel Jones, acolhe também aqui um confronto entre a natureza sagrada do selvagem e a asma do mundo sacralizado. Mas o que de mais sugestivo o poema tem é o enquadramento, sendo nele perceptível os traços do pintor nas imagens a que as palavras dão forma. O remate é elucidativo: «Estou tão arrependido dos dias que hão-de vir» (p. 44). São dias de extinção e de perda, são dias de alienação contra os quais insiste a poesia, também ela confinada a zonas protegidas com seus poetas a "pascentar" no vasto campo da língua palavras caídas em desuso, ressequidas palavras. 
Podemos, por isso, estabelecer um paralelismo entre o animal e o poeta, entre o que a extinção do animal simboliza e a existência do poeta significa. Só falha se pensarmos nas jaulas e nos muros de um zoológico que são porventura mais representativos do universo poético actual. Num outro poema intitulado A Tua Memória é Uma Dor Constante, a confusão de identidades é evidente: «Ainda bisonte bisonho mordendo nuvens / mordo a tua cabeça transpiro o teu suor / estou ligado a ti como dois hemisférios» (p. 75). O elo com o poema anterior não se opera apenas a partir da figura central do bisonte, mas também a partir das nuvens e dos seus sentidos plásticos. A duplicidade de hemisférios reforça a ideia dos contrastes, das oposições, passado/presente, outrora/agora, selvagem/doméstico… O lugar da poesia neste contexto é o de uma função, a de preservar o elemento essencial da sua própria natureza: as palavras. 
Note-se como no poema Caravana e Estepe o bisonte surge do interior de uma consciência do tempo com suas ressonâncias aterradoras, a consciência de uma espécie de afogamento na trivialidade dos dias, separados que fomos de infância, alienados que vamos da pureza, indómita bravura, encalhados que estamos numa domesticada respiração de horizontes curtos e pardos, uns por cima dos outros, acotovelados em frenéticas filas de trânsito: «Um bisonte perdido / fazendo coisas de lobos com os olhos / mais gregários ainda. // Costumávamos pegar fogo aos rios, a coisas com água, / execrávamos a falta de humor, o Innisfree das coisas, / agora imolamo-nos na praia ao pôr do sol / que é quente que baste para o frio que nos trouxe — / púnhamos laçarotes nos garrotes / fumávamos pira fúnebres / inalávamos o couro quérulo» (p. 121). 
Pouco dada à ruralidade, muito menos à natureza selvagem, a poesia portuguesa tem feito o seu caminho invariavelmente perdida no trânsito das urbes. São raras as excepções. Com Bisonte, Daniel Jonas arrisca uma paisagem que nos é pouco familiar, ainda que o faça com o sentido irónico de recuperar a força bruta da natureza para mostrar quão débeis nos tornámos, nós que obedientemente temos insistido em dominar todas as espécies à face da Terra, distraídos que andamos de quanto a Terra nos domina. O domínio rítmico, os sublinhados cultos, a riqueza de linguagem, a sobreposição de tempos e de formas literárias, não são novidade para quem tenha lido outros livros do autor. Por aqui, referi-me anteriormente a Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005), Passageiro Frequente (Língua Morta, 2013) e Nó – sonetos (Assírio & Alvim, 2014). À liberdade discursiva, Jonas acrescenta agora uma cativante resistência crítica do seu tempo. Lê-se e relê-se com empatia. 

PROVEITO

A verdade, a beleza, a bondade: são raras. Daí que seja tão importante preservá-las e tão sábio acolhê-las, não as desperdiçar ao longo da vida como desperdiçamos o tempo. 

HORTA


Data de 2005 a nossa primeira relação de proximidade com esta horta. Dela colhemos abóboras, tomates, curgete, couves, pepinos, alface, beringela, cebolas, batatas, louro, melancia, meloa… É impagável o que nos deu em duas semanas de férias ao longo de onze anos, mais ou menos cinco meses e meio de vida ali passados. De ano para ano, as novidades foram sucedendo. Este ano descobri por lá cana-de-açúcar, graças a amigos brasileiros que me ensinaram como há 30 anos se deliciavam no Brasil a mascar cana. Mas há uma espécie diferente de alimento aqui colhido, alimentou os sentidos sem que por ele alguém tivesse que fazer o que quer que fosse. Talvez seja semeado e cuidado como qualquer outro hortofrutícola, mas o trabalho que dá a tratar não é da mesma ordem, não carece senão de suores frios a escorrerem pelas paredes dessa coisa a que chamam alma. O restolho dos canaviais, o vento a circular por entre folhas, as sinfonias de grilos e de cigarras, visitas ocasionais de animais fantásticos para quem do campo guarde já só raízes. Vou sentir saudades desta pequena horta, lugar de encontro entre realidades distintas, ponte que aproxima margens de outro modo difíceis de aproximar, muito mais ignorantes de cada uma delas e, por consequência, igualmente de si próprias. Centímetros de terra cujo valor é indeterminável, por mais contas que se façam. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

CEGONHAS


De que me vale ter lido Marx se nada entendo de cegonhas? Observo-as encantado, procurando compreender a improbabilidade das suas opções. Como escolherão elas o lugar para o ninho? Terão algum critério? No alto da torre de uma igreja, juntam-se aos pares, aos trios, levantam voo, regressam, buscam no horizonte utopias indecifráveis. Não se perturbarão com o sino da igreja? Talvez ao olharem para a cruz de Cristo tenham pensado tratar-se de um poste de alta tensão, talvez percebam naquela torre uma corrente energética que me escapa. É-me certo que conferem beleza onde haveria apenas património morto se lá não estivessem, se a vida com que engrandecem a torre fosse apenas e tão-somente o anúncio de uma procissão a chegar. 

ADMONIÇÃO AOS IMPERTINENTES

Eu desejo estar só. Não busco companhia.
Quero só o silêncio. Não me agrada murmúrio
nenhum à minha beira. E se a voz subterrânea
da canção se aproxima, que me chegue em surdina: 
se é canção ruidosa, com a mudez a insulto;
se trouxer muita música, que no Hades se tanja
ou em qualquer região do negro Hades vizinha...
Ruído: cala-te! Pregão de aziago augúrio!
Eu desejo estar só. Não busco companhia.
Quero gozar silêncio, minha única iguaria.

Se sou o Solitário,
se sou o Taciturno,
deixai-me só.

Se sou o Obscuro, o Arbitrário,
se sou o Lucífugo, o Nocturno,
deixai-me só.

Minha sandália (minha alpercata ou meu coturno)
não os piseis, tumulto tumultuário,
deixai-me só.

Judeu, quíchua, orangotango, ariano,
— porque sou da estirpe de Saturno 
deixai-me só.

Decanto em meu recanto o menor canto,
silencioso; alquimista sou sem igual,
jogral oculto, fabulador abscôndito.
Deixai-me só.

Bom provador (sob um mísero manto)
Bom tangedor (sem Amati ou Guarneri)
Alto cantor (porém baixo cantante)
Deixai-me só.

Deixai-me só. Não quero companhia.
Deixai-me ser esquivo. Eu não gosto de coros.
Não temais: não presumo de Orfeu
encantador de ferozes animais.

Deixai-me só soprando a minha cana
silvestre. Não me agrada o ronronar pueril.
Não sou efeminado. Não sou pagem de damas.
Sou áspero, másculo, Sou rude, sem lamentações.

Sem queixas. Mais mudo que Beethoven surdo.
Sem louvores. Mais canhoto do que Cervantes coxo.
Sem pathos. Mais magro do que Falstaff gordo.
Solitário. Adusto. Sou o único a bordo.
Espírito a negro. Coração a branco.

E deixai-me ser esquivo. Sou arrancador de notas
do meu cravo. Sou bordador de fábulas
sobre o canhamaço do meu pentacórdio.
Urdidor de facécias. Por dentro me estanco.
Deixai-me ser único. Jamais transbordo.

Se sou o Solitário,
se sou o Taciturno,
se sou o Obscuro, o Arbitrário,
se sou o Lucífugo, o Nocturno,
deixai-me só.

Se sou o Atrabiliário,
se sou Sérgio, o Lobo da estepe,
se já tenho o Corvo e o Abutre
dos acerbos cruéis descendentes de Saturno,
deixai-me só. 

Deixai-me só. Não quero companhia.
Deixai-me ser esquivo. Eu não gosto de coros.
Não temais. Não presumo de Orfeu
encantador de ferozes animais.

Nem ela vem a mim, nem eu vou à montanha
Nem vassalo nem César, nem Juiz nem Réu:
Sérgio, o Lobo da estepe, o Atrabiliário Leo.
Com o meu tonel. Da minha cruz cireneu.
Rei de Troças, soberbo: ceptro ou cana
o mesmo são para a minha intratável altivez.
Deixai-me só.


León de Greiff (n. 22 de Julho de 1895, Medellín, Colômbia - m. 11 de Julho de 1976, Bogotá, Colômbia), in Troco a Minha Vida por Candeeiros Velhos, selecção de Hjalmar de Greiff, prefácio de Jerónimo Pizarro, tradução de Gastão Cruz, Abysmo, Novembro de 2014, pp. 93-95.