domingo, 20 de Dezembro de 2009
sábado, 19 de Dezembro de 2009
POETA FAZENDEIRO
Manoel de Barros nasceu em Cuiabá a 19 de Dezembro de 1916. Filho de um capataz influente, tinha apenas um ano quando o pai fundou uma fazenda no Pantanal. Cresceu a brincar na terra, entre gado e plantações, no contacto com as coisas desimportantes que lhe marcaram a poesia. Estudou no colégio interno de Campo Grande e, posteriormente, no Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro. Dez anos de internato suportados no convívio com a obra do Padre António Vieira. Ao abandonar o colégio, encontrou-se com as palavras de Rimbaud, leu Marx, conheceu alguns engajados, aderiu à Juventude Comunista. O primeiro livro, escrito aos 19 anos, ficou por publicar. Conta-se que procurado pela polícia, depois de ter grafitado um Viva o comunismo numa estátua da cidade, foi livrado da prisão por ter a dona da pensão onde então morava advertido os polícias de que o jovem rebelde era bom rapaz e até tinha escrito um livro: Nossa Senhora de Minha Escuridão. O polícia apreendeu os poemas e deixou o poeta em liberdade. Afasta-se do partido depois de ouvir Luiz Carlos Prestes apoiar o ditador Getúlio Vargas à saída de 10 anos de cativeiro. Termina o curso de Direito em 1949. Regressou ao Pantanal, andou pela Bolívia, Peru, Nova York, onde estudou cinema e pintura. Volta para o Brasil com a insígnia de advogado, conhece Stella e, passados três meses, estão casados. Do casório resultaram três filhos. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, tinha sido publicado em 1937. Da primeira edição fizeram-se apenas 20 exemplares artesanais. Avesso a caciques e modas poéticas, permaneceu praticamente anónimo durante vários anos. Em 1960 recebeu o Prémio Orlando Dantas, atribuído pela Academia Brasileira de Letras ao livro Compêndio para uso dos pássaros. Posteriormente, foram-lhe atribuídos muitos outros prémios e a sua poesia é hoje reconhecida como uma das mais originais da literatura contemporânea brasileira. Em minha modesta opinião: Manoel de Barros é um dos poetas mais singulares da língua portuguesa. Em Junho de 2007, as Quasi Edições reuniram-lhe os poemas no volume Compêndio para Uso dos Pássaros – Poesia Reunida 1937-2004:
A DISFUNÇÃO
Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 ─ Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 ─ Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 ─ Percepção de contigüidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 ─ Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 ─ Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 ─ Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 ─ Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.
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Os mestres e as criaturas novas
LOVE STREET
Se quiseres saber o que acontece na rua do amor, entra pela porta da pele, apanha as vias de circulação interna, vai de boleia com as sinapses, montado num glóbulo vermelho, segue pelos nervos, pelas veias, penetra as artérias, contorna os obstáculos. A rua do amor está no coração, uma casa com um jardim que pulsa à razão de um batimento sem pulso.
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Ilhas Desertas
RUA CAMÕES
A Rua Camões liga a Rotunda da Rainha ao Hospital Termal e separa uma floresta em cativeiro de uma selva cativa. Pela rua, circulam veículos enxotados pela pressa, transeuntes de matiz diversificado, raízes com muitas perninhas pequeninas que parecem lagartas. De vez em quando, os poetas param na Rua Camões. Seguram livros, fumam cigarros, despedem-se do palreio com que adornaram a janta na restauração limítrofe, disfarçam o cansaço. De que falam os poetas na Rua Camões? De erros nossos, má fortuna, amor ardente. Uns buscam o riso, outros um pouco de consolo, outros ainda nada buscam ou buscam apenas a razão de parar enquanto o resto do mundo transita, parar os olhos sobre o mundo, observá-lo, dizê-lo, fixá-lo nas páginas digitalizadas de um livro, tinta que o tempo há-de comer porque já ninguém faz livros como no tempo de Camões e nenhum Camões pode parar na sua própria rua.
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Universos Desfeitos
SEMÂNTICA ELECTRÓNICA
Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenhador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
Coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim ─ o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
─ Mas ─ diz-me a ordenança ─
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
Vitorino Nemésio (n. 19/12/1901 – m. 20/02/1978), do livro Limite da Idade (1972), in Antologia Poética, Círculo de Leitores, 1988, pp. 200-201.
Ordeno ao ordenhador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
Coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim ─ o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
─ Mas ─ diz-me a ordenança ─
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
Vitorino Nemésio (n. 19/12/1901 – m. 20/02/1978), do livro Limite da Idade (1972), in Antologia Poética, Círculo de Leitores, 1988, pp. 200-201.
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Os mestres e as criaturas novas
sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
FODA-SE!!!
Por esta é que eu não esperava:
Aqui entre nós, bloggers (ao que parece, mais uma espécie condenada à extinção), quero se foda! O que importava de início permanece: quem tem algo a dizer diz; quem não tem cala-se, ou parte para outra. A comunicação/o caralho/a civilização sempre funcionaram assim e nada indica que vá mudar. Daí que vá dedicar os próximos parágrafos ao que para mim foi o melhor blogger de 2009.
Sem prejuízo de mais meia dúzia que o meu agrado prefere conservar anónimos, permito-me destacar apenas um. Não seria necessário, mas, porque no tempo em que era hábito atribuir Óscares da Bloga no final de cada ano ficava-se com a sensação que a amizade, por vezes, pesava demasiado nalgumas escolhas, ressalvo desde já que este destaque não se deve a qualquer laço de amizade com o seu autor, o qual nem sequer conheço pessoalmente.
Não obstante, a minha escolha está viciada à partida, uma vez que se trata do blog que visito com maior regularidade. São muito simples as razões que têm levado a essa frequência. Mais do que o valor intrínseco de cada post (todos sabemos que os leitores, quer em pixels quer em papel, costumam encontram num texto aquilo que querem encontrar, mesmo o que lá não se encontra), trata-se de «mais», da palavra/conceito «mais». Especifico:
Sendo-o sobretudo, é mais do que um blog exclusivamente dedicado à literatura, é mais do que um blogue exclusivamente intimista, é mais do que um blogue exclusivamente dedicado à divulgação de eventos culturais, é mais do que um blogue de reflexão exclusivamente política, é mais do que um blog que divulga exclusivamente tubos de música, mas, caramba, tem tudo isso, mais o que o amanhã trouxer.
A bem dizer, creiam, trata-se de um blogue colectivo, elaborado por uma só pessoa que há vários anos tem conseguido maior diversidade discursiva do que muitos blogues, hum, colectivos. Concluo:
Porque nada tem a ver com a tendência de especialização temática a que a avalanche informativa nos têm obrigado, porque rema contra a corrente de lassidão e abandono comum à maior parte dos bloggers (onde me incluo, foda-se!), porque persiste, resiste e induz, produz como poucos, porque fuça no que acredita sem qualquer verniz elitista (porque divulgou Vonnegut e Daniil Kharms, caralho!), para mim, se alguém merece ser considerado o melhor blogger de 2009 esse alguém foi Henrique Fialho.
Sendo hoje o meu último dia de folga antes do Natal, ou seja, o meu último dia verdadeiramente dia antes do Natal, até vou aproveitar o inchaço para ir ali ao lado desinchar com uma garrafinha de tinto. Estas coisas não se agradecem, estas coisas coisam-se. Portanto, coiso.
Paulo Querido, com alguma ironia de quem anunciou há quase dois anos a subalternização dos blogues relativamente a ferramentas mais recentes das chamadas redes sociais, pergunta aqui: “Atão? Este ano não há prémios da bloga?”. Mais uma vez (não foram assim tantas), apeteceu-me mandá-lo para o caralho, mas, goste-se ou não, a fria realidade é que a Bloga já não dá o que dava entre 2003 e 2006. Basta cada um reparar no decréscimo de comentários, de links, no rastreio elitista/economicista do Technorati desde Março de 2009. Não sendo/nunca tendo sido o mais importante, a ausência da idiotice dos prémios serve como mais um indício de que a febre dos blogues já passou.
Aqui entre nós, bloggers (ao que parece, mais uma espécie condenada à extinção), quero se foda! O que importava de início permanece: quem tem algo a dizer diz; quem não tem cala-se, ou parte para outra. A comunicação/o caralho/a civilização sempre funcionaram assim e nada indica que vá mudar. Daí que vá dedicar os próximos parágrafos ao que para mim foi o melhor blogger de 2009.
Sem prejuízo de mais meia dúzia que o meu agrado prefere conservar anónimos, permito-me destacar apenas um. Não seria necessário, mas, porque no tempo em que era hábito atribuir Óscares da Bloga no final de cada ano ficava-se com a sensação que a amizade, por vezes, pesava demasiado nalgumas escolhas, ressalvo desde já que este destaque não se deve a qualquer laço de amizade com o seu autor, o qual nem sequer conheço pessoalmente.
Não obstante, a minha escolha está viciada à partida, uma vez que se trata do blog que visito com maior regularidade. São muito simples as razões que têm levado a essa frequência. Mais do que o valor intrínseco de cada post (todos sabemos que os leitores, quer em pixels quer em papel, costumam encontram num texto aquilo que querem encontrar, mesmo o que lá não se encontra), trata-se de «mais», da palavra/conceito «mais». Especifico:
Sendo-o sobretudo, é mais do que um blog exclusivamente dedicado à literatura, é mais do que um blogue exclusivamente intimista, é mais do que um blogue exclusivamente dedicado à divulgação de eventos culturais, é mais do que um blogue de reflexão exclusivamente política, é mais do que um blog que divulga exclusivamente tubos de música, mas, caramba, tem tudo isso, mais o que o amanhã trouxer.
A bem dizer, creiam, trata-se de um blogue colectivo, elaborado por uma só pessoa que há vários anos tem conseguido maior diversidade discursiva do que muitos blogues, hum, colectivos. Concluo:
Porque nada tem a ver com a tendência de especialização temática a que a avalanche informativa nos têm obrigado, porque rema contra a corrente de lassidão e abandono comum à maior parte dos bloggers (onde me incluo, foda-se!), porque persiste, resiste e induz, produz como poucos, porque fuça no que acredita sem qualquer verniz elitista (porque divulgou Vonnegut e Daniil Kharms, caralho!), para mim, se alguém merece ser considerado o melhor blogger de 2009 esse alguém foi Henrique Fialho.
Sendo hoje o meu último dia de folga antes do Natal, ou seja, o meu último dia verdadeiramente dia antes do Natal, até vou aproveitar o inchaço para ir ali ao lado desinchar com uma garrafinha de tinto. Estas coisas não se agradecem, estas coisas coisam-se. Portanto, coiso.
ISTO ANDA TUDO POBRE
─ Vendem presépios?
*
─ Têm calendários de bolso para oferta?
─ Não.
─ Nada, nada, nada?
─ Nada.
─ Que raio, isto anda tudo pobre, ninguém tem nada para oferecer a ninguém.
*
─ Têm calendários de bolso para oferta?
─ Não.
─ Nada, nada, nada?
─ Nada.
─ Que raio, isto anda tudo pobre, ninguém tem nada para oferecer a ninguém.
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Livros Pedidos
DE LA SAUDADE A LA MAGUA
De la Saudade a la Magua – Antología de relatos lusocanaria. Da parte portuguesa, constam A. M. Pires Cabral, António Manuel Venda, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Esteves Pinto, Filomena Marona Beja, Gonçalo M. Tavares, José Carlos Barros, Lídia Jorge, Miguel Real, Maria Antonieta Preto, Paulo Bandeira Faria, Paulo Kellerman e Rui Costa. Das Canárias, constam José Rivero Vivas, Eduvigis Hernández Cabrera, Anelio Rodríguez Concepción, José Manuel Hernández, Gabriel Cruz, Víctor Ramírez, Roberto Cabrera, Quintín Alonso Méndez, Javier Hernández Velázquez, José Manuel Brito, Eduardo Delgado Montelongo, Alicia Llarena, Agustín Díaz Pacheco. A edição é da Baile del Sol (2009). A convite de Fernando Esteves Pinto, a apresentação dos autores portugueses é da minha responsabilidade. Começa assim:
ABRIR UN LIBRO, DEJARLO EXISTIR
A menudo se critica en Portugal la falta de lectores para el cuento, a lo que se añade la falta de editores que apuesten por este género con el mismo interés que lo hacen por la novela. No necesito verificar la justicia de estas acusaciones, creyente como soy en el inmenso valor del cuento para la conformación de un «saber narrativo» (Ver Jean-François Lyotard en «La Condición Pos-Moderna»). Cierto es que algunos de los mayores talentos de nuestra literatura practicaron con brillantez la narrativa breve. Basta nombrar a Camilo Castelo Branco y a Eça de Queirós. En el año 2000 surgió en Portugal una revista de cuentos llamada Ficciones, dirigida por Luísa Costa Gomes ─ a propósito, una brillante cuentista ─, cuyo trabajo en la promoción de este género literario no puede pasar desapercibido, hasta hacer presagiar, en cierto modo, una nueva actitud. Los trece autores portugueses seleccionados para este volumen, como otros que no dejaré de mencionar, prueban que actualmente existen excelentes cuentistas en la lengua de Camões. Es imposible presentarlos con el rigor necesario en un texto breve, así pues, optaré por reflexionar sobre cada uno de ellos poniendo el acento en los relatos que aquí se muestran. Espero que estas consideraciones permitan al lector adquirir una perspectiva de los dominios en los que la narrativa breve ha ido afirmándose en la literatura portuguesa actual.
(…)
A DÉCADA COXA
Nota: apesar da onda avassaladora de balanços da década em revistas, jornais, blogues ou até na televisão, não será aqui divulgada nenhuma lista sobre a curiosa década de 9 anos. Por embirração matemática, a 1.ª década do 3.º Milénio, logo do século XXI, iniciou-se a 1 de Janeiro de 2001 e só termina a 31 de Dezembro de 2010. Por curiosidade, aqui fica a pergunta: em que década do século XX se deu a implantação da república em Portugal, na 1.ª ou na 2.ª?
Aqui.
COMBINADO
LOVE WILL TEAR US APART
O jovem Curtis suicidou-se depois de constatar que não podia viver ensanduichado. Deixou uma filha pequena, ainda sem idade para compreender o que leva um corpo à forca. A mulher nunca lhe perdoou ter sido trocada pela morte. A amante nunca lhe perdoou ter ficado por ser amada.
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Ilhas Desertas
2010
Tudo indica que 2010 será um ano muito bom. Fiquei mais convencido dos prenúncios positivos depois do que me aconteceu ontem. Não é todos os dias que um homem escreve sobre futuros safanões no presente e a Terra começa a tremer. Isto tem de querer dizer alguma coisa, só pode haver um significado escondido nestes fenómenos, assim como há um significado escondido nas estrelas que lá do alto iluminam o céu com a sua morte, estrelas que estão lá não estando, estrelas que são já não sendo, estrelas que já se foram ainda estando. É muito provável que tudo isto signifique alguma coisa, alguma coisa que eu não sei o quê. Para já, vou pensar que sim, que tudo isto quer dizer que 2010 será um bom ano, um ano muito bom, um ano como outro qualquer, mas melhor que todos os outros, um ano em queda, um ano-estrela-que-está-não-estando.
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Universos Desfeitos
quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
MANIA DAS PERGUNTAS
Ia sossegadamente pela estrada cheia de sol, um pouco cansado com o passeio e farto de poeira e de tantas ralações.
Aí, salta-lhe à frente um pássaro ridículo com rabo de bicho feroz e cara de mulher gulosa.
─ Quem és tu? ─ perguntou o pássaro, atravancando a estrada.
Olhou para aquele pássaro idiota e respondeu aborrecido, embora com delicadeza:
─ Sou Oedipo.
─ Pois eu sou a Esfinge.
─ Já ouvi falar, sim senhora. Agora com licença. Vou com pressa. Boa tarde.
O pássaro sacudiu o rabo, passou a língua pelos lábios, atravancou ainda mais a estrada com as asas abertas e disse, num sorriso gulotão:
─ Espera aí. Vou fazer-te uma pergunta. Se não responderes, já sabes, como-te. Qual é...
─ Que mania de fazer perguntas! ─ comentou Oedipo. Tirou a granada ofensiva do saco de couro que trazia a tiracolo e enfiou-a, discreto, pela boca aberta do pássaro.
Ouviu o estoiro e prosseguiu o seu caminho para Tebas. Em sossego, mas realmente farto de poeira e de tantas ralações.
Mário-Henrique Leiria, in Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro, 2.ª edição, Editorial Estampa, Janeiro de 1978, p. 109.
Aí, salta-lhe à frente um pássaro ridículo com rabo de bicho feroz e cara de mulher gulosa.
─ Quem és tu? ─ perguntou o pássaro, atravancando a estrada.
Olhou para aquele pássaro idiota e respondeu aborrecido, embora com delicadeza:
─ Sou Oedipo.
─ Pois eu sou a Esfinge.
─ Já ouvi falar, sim senhora. Agora com licença. Vou com pressa. Boa tarde.
O pássaro sacudiu o rabo, passou a língua pelos lábios, atravancou ainda mais a estrada com as asas abertas e disse, num sorriso gulotão:
─ Espera aí. Vou fazer-te uma pergunta. Se não responderes, já sabes, como-te. Qual é...
─ Que mania de fazer perguntas! ─ comentou Oedipo. Tirou a granada ofensiva do saco de couro que trazia a tiracolo e enfiou-a, discreto, pela boca aberta do pássaro.
Ouviu o estoiro e prosseguiu o seu caminho para Tebas. Em sossego, mas realmente farto de poeira e de tantas ralações.
Mário-Henrique Leiria, in Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro, 2.ª edição, Editorial Estampa, Janeiro de 1978, p. 109.
ESMOLA
O tempo não perdoa, disse a morte à eternidade. Mas tu estás muito bem, comentou a eternidade. Depois deixaram cair uma esmola na lata da esperança, que por ali mendigava, e foram fazer as compras de Natal.
SISTER MORPHINE
A terra tremeu. Fiquei à espera que tremesse novamente, mas o abalo não quis voltar a fazer-se sentir na Terra. Tremi eu. Não de frio, não de medo. Talvez da ressaca que a dor nos deixa por herança quando resolvemos fechar as cortinas do sonho.
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Ilhas Desertas
FASCÍNIO
É o mesmo fascínio que me humedece as retinas quando estou à beira de uma falésia e tenho pela frente a imensidão do oceano. A força com que as ondas rebentam contra as rochas transmite-nos um respeito que se fundamenta na consciência da nossa fraqueza. Seremos sempre impotentes perante uma força destas. Essa impotência causa-nos medo, faz-nos sentir sós. Quando a terra treme, o fascínio é do mesmo género. Ou quando o vento levanta em círculos o que julgávamos apenas possível de erguer pela força humana ou por outro tido de força manipulada pelos braços dos homens. Nenhum braço humano levanta a terra como a terra vomitando-se a si própria quando um vulcão entra em erupção, jamais algum braço humano esbofeteará a pedra com a dignidade de uma onda rebentando contra o abismo, jamais entraremos por um copo dentro como o mar entrando pela terra num tsunami, jamais dançaremos com a mesma impetuosidade que o vento assume quando arrasta casas, homens, árvores, tudo e mais alguma coisa à passagem de um tornado. Noites de tempestade fascinam-me, a aurora boreal à qual nunca assisti é um mito que guardo cheio de esperança, uma chuva de estrelas, relâmpagos, trovões, um simples e pueril arco-íris, a terra gretando-se como se fosse um corpo velho, o fundo do mar, as tempestades do deserto, entrar numa floresta e sentir o corpo perdido nos mistérios da natureza. Sentir o medo. Os mistérios são fenómenos para os quais a razão não vislumbra qualquer explicação. Tudo isso me fascina imenso, esse poder da natureza, essa força com que se nos impõe aos sentidos e nos captura a razão deixando-nos em delírio, em espanto ou num medo aterrador que petrifica os músculos. A ter algum Deus, tenho esse Deus que se manifesta no poder da Natureza. Não é um Deus que me ordena que o domine, é um Deus que me mostra ser eu o insecto que a qualquer momento pode ver a vida esmagada por uma unha da mão imensa que a alimenta. Esta noção, esta consciência, leva-me não só a adorar a natureza como a glorificar a vida, não no sentido com que se absolutizam conceitos morais para tentar justificar o domínio sobre as acções dos outros, mas naquele sentido com que alguém glorifica o que tem por excepcionalidade, o que não mais pode ter, no sentido com que alguém glorifica o que lhe resta porque mais não tem senão apenas esse resto. E tudo o que temos é precisamente esta vida, esta vida que treme quando a terra treme, esta vida que dança quando o vento se zanga, esta vida que se alumia sob um manto de estrelas em queda, esta vida em queda. É tudo o que temos, não há outra vida, esta é a única vida. Prescindir de uma vida destas é sempre um acto de desapego, mas é mais ainda um gesto de liberdade que mete tanto respeito quanto saber que se está vivo no seio de uma vida assim. Por isso se apresenta tão precioso o tempo que nos resta, por isso esse tempo nos exige a melhor ocupação possível. Não perder tempo com o fútil, não perder tempo com o dispensável, não perder tempo com tudo o que nos consome para lá desta ideia de que o tempo é precioso e não espera por ninguém, não perder tempo com tudo o que nos gasta esta vida distraindo-nos de que ela é a única que temos, não outra, não perder tempo com o que nos desinveste do tempo é sinal de maturidade. Importa, deste modo, investir o tempo no que nos traga a vida aos pés, naquilo que nos evoque o riso do espanto perante a desgraça que é estar à mercê de fatalidade que um dia nos roubará o prazer de sentir tudo à nossa volta num abalo inexorável.
Nota: a obra ao alto é de Caspar David Friedrich (5 de Setembro de 1774 - 7 de Maio de 1840).
Nota: a obra ao alto é de Caspar David Friedrich (5 de Setembro de 1774 - 7 de Maio de 1840).
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Livro de estilo
«ÉPOCA DE CAÇA»
Um corpo fazendo deserto de outro corpo
com suas pedras, seus oásis, suas vastas areias
um corpo à beira de outro corpo
deserto frente ao deserto
um nómada fazendo chão de outro nómada
areias que sempre em movimento permanecem
como inexpugnáveis
inexpugnável corpo a conhecer.
Um corpo medindo outro corpo
como a temperatura de um deserto, suas riquezas
seu início, textura de areia em movimento:
quantas pedras, quantos cactos
quantas violências e mansidões que eu possa beber?
Rute Mota (n. 17 de Dezembro de 1980), in Nenhuma Palavra nos Salva, Livraria Livrododia, 2007, p. 64.
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Os mestres e as criaturas novas
TIME WAITS FOR NO ONE
É que existem as condicionantes. Um tipo tanto pode nascer numa favela como num palácio. As condicionantes, não determinando o futuro, darão safanões no presente. Por isso é que se diz que a vida exige de certos homens um esforço triplicado para conseguirem o que outros homens têm de mão beijada sem esforço algui… foda-se, que a terra está toda a tremer!!!
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Ilhas Desertas
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
FRIO
Está um frio do caneco. Um frio mesmo frio. A Beatriz diz que o vento está a soprar gelo. E é verdade. Protegemo-nos com camisolas, anoraques, casacos de lã, cachecóis, blusões forrados com pêlo artificial, aquecedores, aquecimento central, casacos de pele, recuperadores de calor, ar condicionado, etc. Agora imaginem como era quando não havia aquecedores, recuperadores de calor, aquecimento central. Imaginem como seria à volta de uma fogueira, um cobertor sobre o corpo. Imaginem que estão na Sibéria dentro de uma barraca. Imaginem-se, inclusive, sem cobertores, revestidos com a pele dos animais que tiveram de caçar para proteger o canastro do frio. Imaginem-se num campo de concentração a imaginar um argumento para um livro. Estou a imaginar-me no Pólo Norte, sou um esquimó, a minha sobrevivência está dependente da morte de umas tantas espécies das quais aproveitarei a pele para me oferecer uma segunda pele, mais resistente, mais forte. Está um frio do caneco. O aquecimento global resulta deste estranho paradoxo: o homem a dar cabo da natureza para se proteger dela dando cabo de si próprio. Como é que se evita uma coisa destas? Voltando ao tempo em que vivíamos à volta de uma fogueira e matávamos animais para conseguirmos uma segunda pele?
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Universos Desfeitos
UNS DIÁRIOS (1937-1944)
Nas páginas ressequidas e amarelas
das agendas desses anos
estende-se a sua letra, dela e dele,
miúda, aproveitando todos os espaços
entre o dia do mês, da semana,
e os nomes dos santos.
Desdobra-se, ofuscada e luminosa,
a paixão de viver. Até mesmo
nos lixos do medo.
Escrever serviu-lhes para estarem juntos
apesar das gavetas vazias, desesperadas
como ataúdes da guerra, e aqueles comboios,
abarrotados, sujos, lentos, que os separavam.
Tentaram escapar-se daqueles anos
com palavras de amor, cobrindo de musgo
as rochas ásperas onde depois a vida,
mais dura do que a guerra, os espatifou.
Porque a intimidade é como um subterrâneo,
sempre esconderam estas agendas.
Hoje o seu amor, como o dinheiro
republicano ao acabar a guerra,
já não é de curso legal. Não lhes serve para nada.
O passado volta, mas a vida
já o desmascarou.
Joan Margarit, in Casa da Misericórdia, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, Outubro de 2009, p. 59.
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Os mestres e as criaturas novas
ISOLADOS DO QUÊ, ISOLADOS DE QUEM?
Isolado estou eu, desses isolados,
isolados estamos nós, uns dos outros,
todos da natureza, isolados,
incomunicáveis, impenetráveis.
DEMOCRACIA
Quando Fidel tropeçou e caiu em pleno palco, houve quem dissesse que a imagem não lhe provocava qualquer comentário jocoso ou vontade de rir. Afinal, era a imagem de um homem velho a cair. Agora que Berlusconi levou nas trombas, não ouvi ninguém dizer que aquela era apenas a imagem de um homem a levar nas trombas e que isso não nos deve provocar comentários jocosos ou vontade de rir, mas sim um sentimento de repugnância por todo o tipo de violência. Ainda bem que não ouvi ninguém com esse tipo de discurso. Seria demasiado hipócrita para que o conseguisse suportar. Cá para mim, há na imagem do rosto de Berlusconi a sangrar uma justiça que leva a maioria das pessoas (pelo menos das pessoas que não votam em Berlusconi) a pensar: ora aí tens o que mereces.
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Universos Desfeitos
SOPA
Cresceu-lhe uma borbulha na ponta da língua. Ao espremê-la, a borbulha verteu uma série de letrinhas com que ele fez a sopa do dia.
O PESSIMISTA
Fechada a loja, um homem entra no carro, acende um cigarro, liga o rádio à procura de uma música esclarecedora, reconfortante. A primeira coisa que escuta, lá muito ao longe, é um psicanalista com um discurso cada vez mais confuso, um psicanalista cada vez mais parecido com os dias. Certamente ao seu lado, um tal de Magno comenta:
─ O professor Medina Carreira é extremamente popular. Imaginemos que ele chegava a Ministro. As pessoas que o apoiam, que lhe compram os livros, que o aplaudem, iam para a rua protestar contra as medidas que ele defende para o país.
Foi mais ou menos isto que eu ouvi. A metáfora é boa. Eu acho que só mesmo Medina Carreira ainda não percebeu, talvez ludibriado pelo sucesso comercial do seu discurso, que a sua popularidade é como a do palhaço pobre. Toda a gente lhe acha graça, mas ninguém quer ser como ele. O pessimismo de Medina Carreira é cómico, faz-nos rir. É para isso que serve um pessimista como Medina Carreira.
─ O professor Medina Carreira é extremamente popular. Imaginemos que ele chegava a Ministro. As pessoas que o apoiam, que lhe compram os livros, que o aplaudem, iam para a rua protestar contra as medidas que ele defende para o país.
Foi mais ou menos isto que eu ouvi. A metáfora é boa. Eu acho que só mesmo Medina Carreira ainda não percebeu, talvez ludibriado pelo sucesso comercial do seu discurso, que a sua popularidade é como a do palhaço pobre. Toda a gente lhe acha graça, mas ninguém quer ser como ele. O pessimismo de Medina Carreira é cómico, faz-nos rir. É para isso que serve um pessimista como Medina Carreira.
THE SACRIFICE
Não me consigo abstrair do piano abandonado na praia, nem da mulher com um dedo metálico, nem do homem que a queria por um dedo, nem da música que se afundou com a impossibilidade do amor. Acredito em histórias assim. Não me consigo abstrair daqueles indígenas.
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Ilhas Desertas
terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
É JÁ A SEGUIR
quarta-feira, 23 de Dezembro às 22h00
Concerto de Natal
Ventilan
Os Ventilan não nasceram de uma ideia, nasceram de uma vontade. Não são, por isso, um projecto. São puro acto. Seguem à risca a máxima segundo a qual a poesia é cada vez mais claramente a antimatéria da sociedade de consumo. Cada acto é um ensaio e cada ensaio é, helás!, um acto. Raramente o acto acontece mais que uma vez por ano. Os (in)suspeitos implicados são: Nuno Moura na leitura, Pedro Serpa nos sopros, Henrique Fialho nas cordas, Luís Fonseca no teclado. Por cima do ruído é costume escutarem-se versos, mas nada impede que por cima dos versos se venha a escutar ruído. Tudo porque a poesia é, também e talvez sobretudo, para gingar, pronunciar, respirar, dançar, menear, cantarolar, representar, exorcizar, clamar, vociferar, gritar, goelar, tragar, manjar, respirar, respirar, respirar.
Nuno Moura Henrique Fialho Pedro Serpa Luís Fonseca
Mais informações: aqui.
RELATÓRIO
Um relatório acerca da luminosidade das noites deve incluir as palavras fé, esperança, loucura, mesmo que ao passar as mãos pelo tampo da mesa já não nos seja possível sentir os veios da madeira. Dessas noites que agora relato, guardo a resina dos troncos como se fosse um daqueles recipientes de barro que se vislumbravam no interior dos bosques quando eu era. Para essa leitora que ontem me foi apresentada sem estar presente, guardo um Nietzsche à beira-mar: «Eu não faria uma casa para viver (e uma das coisas que me faz mesmo feliz é não possuir uma casa). Mas, se tivesse de a fazer, iria construí-la, tal como muitos romanos o fizeram, a entrar pelo mar dentro; bem gostaria eu de partilhar alguns segredos com esse belo monstro!» (A Gaia Ciência) Eu não construí nenhuma casa a entrar pelo mar dentro, mas quando estive no Caveau de La Huchette senti-me como aquela toupeira da história de Natal que, na impossibilidade de decorar um pinheiro de Natal na toca onde vivia, aproveitou as raízes das árvores para fazer o seu abeto natalício. Cá estou eu a sonhar novamente com os dias que salvei sob o manto quente do meu coração. A noite passada a isso obriga. A gente está na presença de alguém que apetece escutar, alguém que viveu e vive a vida que viveu e nos conta como é estar vivo depois de ter vivido, a gente está na presença de alguém cuja voz nos consola e mete-se logo a sonhar com casas construídas pelo mar dentro. Aquela voz era uma luz branca a chispar no breu da noite, aquela voz era um poema tocado em surdina, como a trompete de Miles Davis evocada na paixão por Juliette Greco numa canção de Robert Wyatt. Aquela voz, e não quero exagerar, era em si mesma um relatório sobre a luminosidade das noites. Tinha fé, esperança e loucura entre as linhas, quando levantava os braços e falava da poesia como se a poesia pudesse reunir os milhares de pedaços espalhados pelo mundo de um espelho estilhaçado. Ouvi a imagem ao poeta Margarit e pus-me a sonhar com casas a entrar pelo mar dentro. Depois, entrei no bosque de Robert Wyatt, um vento demoníaco, um sopro, vim assim a modos que balanceado pela efusão do consolo, porque há dias pelos quais vale a pena estar lunar, mesmo quando as canções denotam a melancolia de uma árvore a crescer enquanto à sua volta raparigas ciganas dançam, homens ciganos tocam guitarra e cantam e batem palmas, enquanto as canções se perdem no ar como o fumo dos cigarros, enquanto as cinzas das guerras travadas encontram o seu repouso na ausência de memoriais para esses que simbolizam a civilização desintegrada. Pois bem, a casa de Nietzsche como memorial para todos os ciganos exterminados numa fábrica de porcos, a casa misericordiosa de Nietzsche a entrar pelo mar dentro como a poesia a sair da voz do poeta em pequenas vagas de luz onde foi bom mergulhar os ouvidos. Deixa-me então terminar recordando-te a velha no Caveau de La Huchette, em Paris, muito depois de termos sido servidos por um português de bigode daliniano. Ela era como a árvore que continua a crescer enquanto as guerras são travadas, ela era as raízes da árvore que uma toupeira decorou com enfeites de Natal, ela era um desses pedaços de espelho estilhaçado que a poesia procura reunir, ela era a voz do poeta a contar as suas histórias, a partilhar as suas comparações, ela era tudo isso numa figura solitária que ninguém ousa compreender porque ninguém pára para olhar, os repórteres de guerra estão demasiado ocupados com os seus heróis e nós estamos suficientemente desocupados deles para não nos preocuparmos com as suas ocupações. Ela era uma figura, uma imagem que apetece ouvir como um beijo na boca. Ela não precisava de ter cuidados, ela não carecia de insidiosos apaparicos, ela dispensava conselhos, ela não se deixava embalar pelo sorriso dos amigos que nos desejam a morte, ela era apenas uma velha solitária, sentada no meio do fumo como uma estátua de pedra rodeada de nevoeiro, ela era em silêncio como o homem que fala alto por não temer que ouçam o que ele tem para dizer, ela era o último adeus daqueles que acabam de chegar apenas com uma ideia na cabeça: construir diariamente a casa que entra pelo mar dentro.
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Redondo Vocábulo
UM JOVEM POBRE
Há vidas assim, vidas que vale a pena conhecer um pouco melhor, vidas que geram obras, obras que são devidas à vida. 13 de Dezembro de 1911, Niles, Ohio, nasce pobre, cresce pobre, joga à bola, trabalha numa fábrica, ainda menino, trabalha numa fábrica onde ajuda o pai, um operário siderúrgico que não pode, por falta de recursos económicos, sustentar os estudos do filho. Perde a irmã Kathleen na sequência de um atropelamento. Vidas. É verdade que cumpriu os estudos básicos, até publicou alguns textos no jornal escolar, foi apresentado às palavras de Melville, Dante, Shakespeare, entre outros. É verdade que ainda frequentou a Universidade, no Wisconsin, publicou um soneto no New York Times, foi para o Arkansas, pôs-se a andar, fez-se à vida. Vidas. Trabalhou como jardineiro, operário fabril, entre tantas outras actividades enquanto percorria a América do Norte. Foi em trânsito que conheceu e se apaixonou por Miriam Oikemus, durante uma festa de Natal, com quem veio a casar-se em 1934 depois de muitos poemas de amor com dedicatória. Viveram em Greenwich Village, cenário que suportou a escrita do primeiro livro de poemas: Before the Brave (1936). Miriam foi a bengala de que o jovem pobre carecia para poder dedicar-se à escrita, mais ainda depois de uma lesão na espinha que o paralisou em 1937. Sucessivas cirurgias não lhe resolveram a maleita, a qual também não o impediu de ganhar uma bolsa de estudo Guggenheim, escrever mais de quarenta livros de poesia, teatro, prosa, colaborar com John Cage na criação de uma peça radiofónica, estimular o desenvolvimento da chamada Jazz Poetry, inspirar dadaístas, beats, surrealistas, ler poesia acompanhado por agrupamentos de Jazz, enveredar pela chamada poesia experimental e visual, compor variadíssimos picture poems, ser um empenhado pacifista. Poetas como Eliot, William Carlos Williams, e. e. cummings, foram amigos generosos. Em 1967, recebeu da National Foundation on the Arts and Humanities um prémio pela contriuição para a cena literária norte-americana. Mudado com a mulher para Palo Alto, na Califórnia, pereceu a 8 de Janeiro de 1972. Eis um exemplo da sua arte:
REPOUSA, CORAÇÃO DO EXAUSTO MUNDO
Repousa, coração do exausto mundo.
Schiu… adormece.
Homens e cidades mantêm suas frias e terríveis vigílias,
E o oceano rói estas nuas terras da dor.
Schiu… e adormece.
Esta rubra chuva…
Respirar…
Chorar…
Amar onde um só crime se cumpriu…
Achar mocidade, e fé, e a súbita congénie delas,
Sepultas fundo em gralhantes câmaras de horror…
Não.
É que não sabemos ver,
Que não sabemos ouvir
Que não sabemos cheirar,
Saborear, sentir, pensar;
Pois que decerto nenhum crer em céu ou terra
Suportaria o que, parece, possuímos;
Vivemos na sombra de uma sombra maior —
Mas há o sol!
E dele o homem terá vida,
E alívio terá de tantos crimes
Da sua mais brutal habitação…
REPOUSA, CORAÇÃO DO EXAUSTO MUNDO
Repousa, coração do exausto mundo.
Schiu… adormece.
Homens e cidades mantêm suas frias e terríveis vigílias,
E o oceano rói estas nuas terras da dor.
Schiu… e adormece.
Esta rubra chuva…
Respirar…
Chorar…
Amar onde um só crime se cumpriu…
Achar mocidade, e fé, e a súbita congénie delas,
Sepultas fundo em gralhantes câmaras de horror…
Não.
É que não sabemos ver,
Que não sabemos ouvir
Que não sabemos cheirar,
Saborear, sentir, pensar;
Pois que decerto nenhum crer em céu ou terra
Suportaria o que, parece, possuímos;
Vivemos na sombra de uma sombra maior —
Mas há o sol!
E dele o homem terá vida,
E alívio terá de tantos crimes
Da sua mais brutal habitação…
Ó repousa, coração do exausto mundo.
Schiu… e adormece.
Há um tão belo trabalho para todos os homens,
E acordaremos enfim dentro do sol.
in Perspectivas dos Estados Unidos – As Artes e as Letras, trad. Jorge de Sena, Portugália Editora, s/d, pp. 255-256.
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Os mestres e as criaturas novas
O CARTEIRO
Ouvi a história de um carteiro que, durante anos, deitou para o lixo a correspondência que era suposto entregar na caixa postal dos respectivos destinátários. Estes ficaram sem receber todo o tipo de correio. Também podem agora argumentar que nunca responderam a esta ou aquela carta por nunca a terem recebido, mesmo que isso não seja verdade. No meu caso, está explicada a razão pela qual nunca recebi as tuas cartas de amor. Sei agora que as escreveste e que o carteiro as entregou ao lixo, conseguindo assim a metáfora ideal para a nossa relação. Entre mim e o lixo, como sabes, existiu sempre uma evidente correlação. Ou então pensa desta forma: eu já sabia de mim como correspondência extraviada*, mas desconhecia que a culpa de nunca me ter encontrado era do carteiro.
*
assino corpo numa folha
lacro-me em correio azul
e envio-me a mim mesmo:
correspondência extraviada
(in antologia do esquecimento, 2003)
lacro-me em correio azul
e envio-me a mim mesmo:
correspondência extraviada
(in antologia do esquecimento, 2003)
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Ilhas Desertas
CONEXÕES
A propósito deste texto, o Rui Almeida lembrou-se de um poema de Marttin López-Vega:
HABITACIÓN DE HOTEL (Edward Hopper)
Llegó al hotel hace unas horas.
Dejó las maletas en una esquina
y dio un paseo por la ciudad.
Ahora está sentada en la cama,
casi desnuda,
y sostiene en sus manos
una carta que no se atreve a releer.
Se acostará enseguida,
y sin apagar la luz
mirará al techo, pensando
en ella, en él, en que es una pena
no haber sido Giovanna Tornabuoni,
y tener ese mismo rostro,
que enamora con tan solo verlo,
que tenía en 1488,
cuando la pintó Ghirlandaio;
bastaría una mirada dulce,
dirigida a los ojos y enseguida a los labios,
y todo arreglado, sin necesidad
de cartas de despedida ni huidas
ni estas ganas inmensas que la invaden
de no volver a amar nunca,
de no escribir nunca más una carta,
de dejarlo todo en esta habitación.
Suspirará después, esbozará una tenue sonrisa
sabedora de lo estúpido que es sentirse así,
pero no se encontrará mejor. Con ese rostro
que tiene siempre la tristeza,
el mismo de la pelirroja de blusa blanca
que imaginó Toulouse-Lautrec,
apagará la luz sin conseguir dormir.
En vano tratará
de vencer sus fantasmas con fantasmas.
(de Travesías, editorial Renacimiento, 1996)
segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
HOJE
Joan Margarit, uma das grandes figuras da poesia catalã contemporânea, lança o seu primeiro livro em Portugal a 14 de Dezembro, pelas 18.30h, na Casa Fernando Pessoa. Na sessão participará também o escritor Fernando Pinto do Amaral. Casa da Misericórdia tem chancela da ovni e tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, e recebeu, entre outros, o Prémio Nacional de Poesia em 2008, galardão conferido anualmente pelo Ministério de Cultura de Espanha à obra de poesia que mais se destaca em qualquer uma das línguas oficiais do país.
Para mais informações, por favor consulte:
Microsite OVNI dedicado à obra de Joan Margarit
Casa da Misericórdia no site da OVNI
Casa Fernando Pessoa
A edição portuguesa de Casa da Misericórdia tem o apoio do Instituto Ramon Llull.
NO TESTAMENT
Não deixarei testamento. Tudo o que tenho é um nada intransmissível. Portanto, quem ficar depois de mim poderá apenas esperar que fique de mim esse nada.
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Ilhas Desertas
GULODICE
A maior parte das pessoas come bolos executando uma espécie de rito. Olha-os, regala-se por antecipação, observa a forma e a cor, entrega-se a suposições sobre o que será o recheio oculto, espera um pouco para a surpresa ser mais excelente e só então os come, com discretas dentadas saboreantes.
Makarel não. Quando via um bolo avançava com raiva. Adquiria-o, furioso, e acabava com ele logo ali. Então lambia o beiço, esfregava as mãos e, satisfeito, ia à procura de outro.
Portanto, nada mais compreensível do que ver Makarel entrar, já zangado, na pastelaria Ao Doce da Malásia. Foi logo direito ao balcão envidraçado e observou o que havia, disposto a tudo.
Viu-o imediatamente. Era redondo, bem grande, coberto de creme amarelado, maligno e quase tão agressivo como Makarel.
Não hesitou.
─ Este!
Apontava o bolo com o dedo, enquanto olhava imperativamente o empregado.
O empregado pegou no bolo com a pinça e estendeu-o a Makarel, com um guardanapo de papel a acompanhar.
Makarel abriu a boca, sorriu na vingança a vir, ergueu o bolo e avançou a cabeça, com a outra mão por baixo para não sujar o fato.
O bolo saltou-lhe da mão e ficou pousado na mesa, atento.
Makarel teve um sobressalto. Que era aquilo? Resistência?
Atirou uma sapatada velocíssima, na intenção certa de pegar o bolo.
Qual nada! O bolo, mais veloz ainda, zás, em cima do balcão.
Então Makarel encanzinou-se. A ferocidade recalcada veio-lhe toda acima. Arreganhou os lábios, com os caninos à vista, em agressão declarada.
E atirou um murro demolidor ao bolo e ao balcão. Acertou no balcão e partiu tudo. No bolo, não.
O bolo engrossara, estava de pé junto à porta dos Cavalheiros, fitando friamente Makarel através do creme cor de creme.
Pessoas levantavam-se, algumas cadeiras caíam, o empregado rugia entre os restos do balcão.
Makarel avançou para o bolo. Perdera a noção da prudência, queria comer, queria matar aquele bolo, queria destruir a coisa redonda, mergulhar as mãos até ao fundo no creme, esfrangalhar, triturar.
O bolo avançou também, determinado, num caminhar maciço.
Enfrentaram-se.
Makarel atirou-se de punhos para a frente e cabeça encolhida entre os ombros.
As portas rebentaram, deixando os gonzos solitários, a montra estilhaçou-se e vomitou lampreias de ovos. Lascas de madeira tinham sido mesas, cadeiras esmagavam-se ao sopro vindo de uma fúria ciclópica.
As pessoas saíam, numa correria de alucinação. Procuravam a polícia, os bombeiros, o exército, o ministério, a presidência, até mesmo a NATO pelo telefone.
O primeiro a chegar foi Gumersindo, da charcuteria ao lado, com a tranca da porta das traseiras.
Deu uns passos temerosos, avançando com cuidado entre o desastre caótico. Tudo estava calmo, num silêncio de abismo milenário.
Lá ao fundo o bolo abominável sorria, a limpar o creme que lhe escorria ao de leve entre o açúcar.
Mais ninguém, na pastelaria Ao Doce da Malásia.
Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin-Tonic, 2.ª edição, Editorial Estampa, Outubro de 1976, pp. 107-109.
Makarel não. Quando via um bolo avançava com raiva. Adquiria-o, furioso, e acabava com ele logo ali. Então lambia o beiço, esfregava as mãos e, satisfeito, ia à procura de outro.
Portanto, nada mais compreensível do que ver Makarel entrar, já zangado, na pastelaria Ao Doce da Malásia. Foi logo direito ao balcão envidraçado e observou o que havia, disposto a tudo.
Viu-o imediatamente. Era redondo, bem grande, coberto de creme amarelado, maligno e quase tão agressivo como Makarel.
Não hesitou.
─ Este!
Apontava o bolo com o dedo, enquanto olhava imperativamente o empregado.
O empregado pegou no bolo com a pinça e estendeu-o a Makarel, com um guardanapo de papel a acompanhar.
Makarel abriu a boca, sorriu na vingança a vir, ergueu o bolo e avançou a cabeça, com a outra mão por baixo para não sujar o fato.
O bolo saltou-lhe da mão e ficou pousado na mesa, atento.
Makarel teve um sobressalto. Que era aquilo? Resistência?
Atirou uma sapatada velocíssima, na intenção certa de pegar o bolo.
Qual nada! O bolo, mais veloz ainda, zás, em cima do balcão.
Então Makarel encanzinou-se. A ferocidade recalcada veio-lhe toda acima. Arreganhou os lábios, com os caninos à vista, em agressão declarada.
E atirou um murro demolidor ao bolo e ao balcão. Acertou no balcão e partiu tudo. No bolo, não.
O bolo engrossara, estava de pé junto à porta dos Cavalheiros, fitando friamente Makarel através do creme cor de creme.
Pessoas levantavam-se, algumas cadeiras caíam, o empregado rugia entre os restos do balcão.
Makarel avançou para o bolo. Perdera a noção da prudência, queria comer, queria matar aquele bolo, queria destruir a coisa redonda, mergulhar as mãos até ao fundo no creme, esfrangalhar, triturar.
O bolo avançou também, determinado, num caminhar maciço.
Enfrentaram-se.
Makarel atirou-se de punhos para a frente e cabeça encolhida entre os ombros.
As portas rebentaram, deixando os gonzos solitários, a montra estilhaçou-se e vomitou lampreias de ovos. Lascas de madeira tinham sido mesas, cadeiras esmagavam-se ao sopro vindo de uma fúria ciclópica.
As pessoas saíam, numa correria de alucinação. Procuravam a polícia, os bombeiros, o exército, o ministério, a presidência, até mesmo a NATO pelo telefone.
O primeiro a chegar foi Gumersindo, da charcuteria ao lado, com a tranca da porta das traseiras.
Deu uns passos temerosos, avançando com cuidado entre o desastre caótico. Tudo estava calmo, num silêncio de abismo milenário.
Lá ao fundo o bolo abominável sorria, a limpar o creme que lhe escorria ao de leve entre o açúcar.
Mais ninguém, na pastelaria Ao Doce da Malásia.
Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin-Tonic, 2.ª edição, Editorial Estampa, Outubro de 1976, pp. 107-109.
CRUCIFIXO
O que me havia de calhar na rifa, uma vizinha mais beata que o papa. Fala com uma voz angelical que lhe disfarça o coração demoníaco, é claramente paranóica, histérica, neurasténica, usa um grande crucifixo de madeira ao pescoço e decorou as paredes de casa com imagens de centenas de santos, uma energúmena capaz de desconfiar até das plantas que adornam o hall de entrada do prédio. Não é dela que vos quero falar. Prefiro falar-vos da professora Gertrudes. A professora Gertrudes anda sempre com um ar muito triste, não aquela tristeza comezinha dos coitadinhos, não é um ar triste de quem espera a pena dos outros, é um ar triste de desamor. Olhamos-lhe o marido e percebemos porquê. O tipo é uma besta-quadrada. Mas para compreendermos bem a história da professora Gertrudes precisamos de andar um pouco para trás no tempo. Ter nascido filha única foi o mais desgraçado dos prenúncios, podemos mesmo afiançar que, no caso, tratou-se de uma pena sentenciada logo à nascença. O pai era marinheiro, passava pouco tempo em casa. A mãe viu-se, deste modo, trocada pelas marés. Vivia numa solidão que foi sendo preenchida com uma beatice insuportável. Usava um grande crucifixo de madeira pendurado ao pescoço, decorou as paredes de casa com imagens de centenas de santos, rezava a toda a hora ajoelhando-se defronte a um relicário que foi construindo ao longo dos tempos numa das divisões de casa. O tratamento que deu à filha não andava muito longe do tratamento que dava aos anjinhos, uma espécie de devoção obsessiva que impedia a filha de respirar e os anjinhos de levantar voo. A pequena Gertrudes aturou-lhe as preocupações, as obsessões, as intromissões, as ocupações, as invasões, durante toda a infância, adolescência, juventude e parte da idade aulta. Só se libertou da mãe com o casamento, embora o casamento a tivesse enclausurado atrás das grades de uma besta-quadrada, um energúmeno, paranóico, histérico, neurasténico, um coração demoníaco que usava um grande crucifixo de madeira pendurado ao pescoço e obrigava a mulher a decorar a casa com imagens de centenas de santos. A desgraçada da professora Gertrudes, casada com este animal, muito apaparicado, enaltecido, elogiado, consolado até e sabe-se lá mais o quê pela sogra, vivia, deste modo, numa tristeza cabisbaixa capaz de causar comoção, compaixão, solidariedade até ao mais cínico dos cínicos corações indolentes. Obrigada a ser a melhor aluna, era agora obrigada a ser a melhor mulher, ou seja, a melhor aluna de um claustro sacrificial que é aquilo em que se transforma a vida com uma besta-quadrada como o marido que lhe calhara em sorte, uma sorte engendrada pelos desejos e pelas ambições da mãezinha. Não tinham filhos, o que era um descanso. Para os filhos, claro. Já que o marido lamentava-se frequentemente do desconsolo que era não lhe terem dado aquilo para o que ele trabalhara pouco mais que um panda em processo celibatário. No entanto, a pobre professora Gertrudes vivia numa espécie de contradição. A ideia de vir a ter um filho, fenómeno pouco provável, poderia transformar-lhe a vida, o que seria um milagre, como poderia também vir a transformar-se em mais um pesadelo, isto é, a constatação de que a sua vida estaria fatalmente condenada a repetir-se na vida de um filho nascido em seio doentio como aquele que foi o seio que apascentou a malograda professora Gertrudes. Os seus filhos eram os seus alunos, aqueles a quem chamava meus meninos enquanto lhes ensinava e transmitia os bons valores da educação que havia recebido, bons valores sedimentados na prática da oração. Depois falava-lhes de centenas de santos, apresentava-os recorrendo a imagens fotocopiadas de livrinhos religiosos, ao mesmo tempo que beijava repetidas vezes a cruzinha de prata que trazia ao pescoço e dizia: o senhor está connosco, ama-nos, acompanha-nos para todo o lado, a nossa vida é um milagre nas mãos do senhor, amai-vos uns aos outros, perdoai-vos uns aos outros assim como Deus vos ama e perdoa. Dizia isto aos seus meninos com os olhos húmidos de comoção, mas eles não compreendiam nada do que ela dizia, achavam-na uma chata insuportável, um coração claramente neurasténico, de crucifixo ao pescoço e anjinhos na lapela, uma energúmena capaz de desconfiar até das plantas que adornavam o recreio da escola.
O TESTEMUNHO
Os aplausos e os gritos da turba descontrolada
sobrepõem-se às palavras que faziam corpo
comigo na solidão dos caminhos. As coisas
já não exigem as suas palavras.
Desculpem-me o desabafo.
E é tão deselegante, bem sei, chamar poetas
para aqui, ainda para mais os que ficaram
fechados em livros, no desamor do esquecimento.
De resto, revelei-me incapaz de passar despercebido ─
eu que apenas sou mencionado
quando o atleta se descuida e falha a transmissão
ou me deixa cair a meio da corrida.
Mais forte do que eu, simples
tubo metálico de fabrico em série.
Já fui invólucro de ordens, notícias,
mensagens que se transformavam
em acontecimentos assim que eram destruídas.
Relegado de vez para o desporto,
passo agora vazio de mão em mão
pelas pistas dos estádios.
José Ricardo Nunes (n. 14 de Dezembro de 1964), in Versos Olímpicos, Deriva, Março de 2009, p. 22.
sobrepõem-se às palavras que faziam corpo
comigo na solidão dos caminhos. As coisas
já não exigem as suas palavras.
Desculpem-me o desabafo.
E é tão deselegante, bem sei, chamar poetas
para aqui, ainda para mais os que ficaram
fechados em livros, no desamor do esquecimento.
De resto, revelei-me incapaz de passar despercebido ─
eu que apenas sou mencionado
quando o atleta se descuida e falha a transmissão
ou me deixa cair a meio da corrida.
Mais forte do que eu, simples
tubo metálico de fabrico em série.
Já fui invólucro de ordens, notícias,
mensagens que se transformavam
em acontecimentos assim que eram destruídas.
Relegado de vez para o desporto,
passo agora vazio de mão em mão
pelas pistas dos estádios.
José Ricardo Nunes (n. 14 de Dezembro de 1964), in Versos Olímpicos, Deriva, Março de 2009, p. 22.
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VIOLÊNCIA CONTRA ANIMAIS
Bush teve reflexos suficientes para se desviar do sapato, resultando a tentativa de agressão numa lamentável oportunidade perdida. Berlusconi gastou todo o jogo de anca com prostitutas. Ainda assim, o resultado é uma lástima. Apesar de ter levado com uma catedral nas trombas, sobreviveu aos ferimentos. Uma lástima. Lamentável.
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