sexta-feira, 22 de março de 2019

EURICO, O CAVALEIRO NEGRO


Eurico, o Presbítero teria tudo para ser um enorme êxito hollywoodesco, não fora ter sido escrito por um português no século XIX. Datado de 1844, o romance surge normalmente englobado no conjunto de obras que conferem ao autor o estatuto de primeiro grande cultor do romance histórico entre nós. O próprio Herculano denota escrúpulos na classificação do livro, referindo-se-lhe como «crónica-poema, lenda ou o que quer que seja». A acção decorre no fim do século VII, aquando da chegada dos árabes ao Reino Visigótico. O comandante Ṭāriq ibn Ziyād é uma das personagens históricas evocadas. Do lado cristão, evoca-se a figura do suevo Teodomiro e coloca-se em acção Pelágio das Astúrias. Mas a personagem central, um godo de nome Eurico, é pura ficção, apesar de no séc. V ter existido um Eurico rei dos visigodos.
   Duas existências pelejam no interior de Eurico, uma antes de ter experimentado o amor por uma mulher, outra depois de esse amor se ter revelado impossível. Hermengarda é o nome da amada, recusada a Eurico devido à posição humilde por este ocupada. Convertido à religião e à poesia, Eurico, o presbítero, recolhe-se na pobre paróquia de Carteia durante dez anos de vida, até que a vista dos árabes a invadirem terras espanholas, e a tomada de conhecimento de traições em curso no reino visigótico, o levam a vestir novamente a farda de cavaleiro negro. Presbítero pela mulher amada, Cavaleiro Negro pela pátria, Eurico transporta a característica essencial a todos os grandes heróis de ficção: a ambivalência. Metade humano, metade animal, como as lendárias figuras mitológicas, cavaleiro solitário com o coração dividido entre a melancolia e a ferocidade.
   «Orgulho humano, qual és tu mais feroz, estúpido ou ridículo?», pergunta-se a determinada altura como quem encontra subtítulo para a história de uma vida. Dito isto, os condimentos estão lançados. Temos intriga política, brutais cenários de guerra, desconfianças e traições, temos sequências violentas como a de um suicídio em massa de freiras que recusam terminar como prostitutas nas mãos dos árabes, temos resgates improváveis, perseguições, temos batalhas sangrentas, temos muito sangue, muita porrada, donzelas lindíssimas e frágeis, gente que enlouquece por amor, temos desespero e esperança, guerreiros resistentes como aço, gritos, maldições, martírios. E temos um amor impossível em cenário de fundo, do qual retiraremos um sacrifício final em nome da vingança. Pela pátria? Pelo amor impossível? Pela busca da paz eterna?
   A gente lê e é como se estivesse a ver um Braveheart à portuguesa. Houvesse por cá máquina de cinema, seria isto um sucesso dos diabos. Ainda mais agora, neste tempo de discussão civilizacional, com o fantasma do califado a açoitar o Ocidente através de um terrorismo atroz. Talvez o politicamente correcto trave o ímpeto comercial da coisa, pelo que cabe perguntar: «Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará ele para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto?» Lido o livro, fica-se com a nítida sensação de que daria um belíssimo filme de acção. Cenários não faltam onde pudéssemos reproduzir as cordilheiras cortadas, os algares profundos, as gargantas selvosas, os picos agudos por onde os godos fugiram dos árabes, por onde os árabes assaltaram os godos. Herculano propôs-se pintar o último semideus a combater na Terra. O último não terá sido, mas não restem dúvidas de quão bem pintado foi.

quinta-feira, 21 de março de 2019

SE ALGUM DIA VOLTARMOS À NAZARÉ


BANDA SONORA ESSENCIAL #64



   Sobre a música de Bernardo Sassetti (1970-2012) parece sempre pouco o que possamos dizer, o talento do pianista transcende tudo quanto as palavras podem apenas ilustrar. Com estudos de piano clássico, acabaria por dedicar-se mais ao jazz. Com apenas 17 anos já tocava entre os melhores. Tive oportunidade de o escutar ao vivo algumas vezes, impressionando-me sempre a leveza que inspirava, perfeitamente apreensível em discos como Indigo (2004) ou Motion (2010). 
   A música para cinema foi uma das dimensões importantes do trabalho outorgado por Sassetti. Neste domínio, um dos seus discos é pura superação. Alice (2005) não é só a banda sonora para o excepcional filme de Marco Martins, é um monumento à música. É provavelmente um dos melhores filmes que alguma vez a música nos ofereceu, sendo o filme, também provavelmente, uma das melhores fontes de inspiração que alguma vez o músico experimentou. 
   Podemos dizer que a relação de proximidade com a sétima arte reforça a carga imagética. Mas ainda que devamos ver o filme, porque é mesmo muito bom, não é preciso vê-lo para sentir o que a música tem para oferecer. E ao ouvir a música podemos construir um outro filme, uma outra história, talvez, mas a emoção profunda que ambos liga mantém-se indestrutível. 
   Ao voltar a escutar a linha de piano que surge nítida em Noite-Parte V o coração ressente-se, pelo corpo circula uma melancolia capaz de abrir no peito vazio uma réstia de esperança. Não carece de muito um músico para nos oferecer música de excelência. Neste caso, além do piano ouvimos por vezes um clarinete, um contrabaixo e… um copo de cristal. Os temas surgem ligados pelos sons de fundo do cinema, a respiração do pai à procura da filha desaparecida, o tiquetaquear do relógio a pautar o ritmo do desespero, a ansiedade, os motores dos transportes, as ruas, o comboio, os carros, a cidade, a ampla confusão dentro da qual se busca o ínfimo, um ínfimo que é tudo, um ínfimo maior que o mundo. 
   São menos de 40 minutos de pura genialidade, da busca iniciada com Prólogo: Hoje à tensão do penúltimo tema intitulado Indiferença. O filme é sobre um homem em busca de uma parte de si, a filha desaparecida. A música é uma busca de si mesmo.


"Sabeis o que é esse despertar de poeta?"

   É ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele.
   É o ter dado às palavras - virtude, amor pátrio e glória - uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia.
   É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
   Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
   É então que para ele há unicamente uma vida real - a íntima; unicamente uma linguagem inteligível - a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia - a da solidão.


Alexandre Herculano, in Eurico, O Presbítero, MEL Editores, Junho de 2011 (1.ª edição, 1844), pp. 30-31.

UM PROBLEMA DE FRONTEIRAS


Não há argumento, apenas descrição e remate aberto. Mas sendo público que Rentes de Carvalho votou em Wilders, questionamo-nos sobre a solução do “encerramento de fronteiras”. Devemos fechá-las também a norte-americanos, noruegueses e australianos? Como todos os países têm os seus terroristas domésticos, questiono-me até se não deveríamos encerrar aos portugueses as fronteiras de Portugal? 

quarta-feira, 20 de março de 2019

VIVA O CAPITALISMO



Mais desenvolvimentos: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui... 

O RAPAZ QUE PRENDEU O VENTO


The Boy Who Harnessed the Wind (2019) marca a estreia de Chiwetel Ejiofor na realização. Vimo-lo como actor secundário em Amistad (1997), de Steven Spielberg, já com outro protagonismo em Dirty Pretty Things/Estranhos de Passagem (2002), curioso filme de Stephen Frears, no inesquecível papel de Solomon Nortup, em 12 Years a Slave (2013), do impagável Steve McQueen. A temática africana mantém-se, aparentemente enquanto viagem ao encontro das raízes. Chiwetel é filho de nigerianos, descendente da etnia Igbo. The Boy Who Harnessed the Wind baseia-se nas memórias de William Kamkwamba, famigerado engenheiro do Malawi que em criança salvou da fome a sua aldeia ao construir um moinho de vento que alimentava uma bomba de onde provinha água para consumo e cultivo. Sem perder de vista a questão política, Chiwetel preferiu centrar-se na relação do jovem Kamkwamba com o pai. As questões familiares oferecem às personagens uma ideia de conflito geracional que permite elaborar o elogio do conhecimento, a importância da escola e da informação, contra uma atitude conservadora de arraigamento às tradições rurais. O poder da inovação tecnológica enquanto superação de limitações físicas e geográficas, mas também culturais, é uma das possibilidades de leitura deste filme. A temática política, ilustrada pelo abandono e pelo oportunismo das forças no poder perante uma situação calamitosa, parece secundária. O que mais importa é a relação entre William Kamkwamba, interpretado pelo jovem Maxwell Simba, e o pai Trywell Kamkwamba, recriado pelo próprio Chiwetel Ejiofor. As personagens ora comunicam no dialecto local, ora falam num inglês carregado de pronúncia. Nota-se o esforço de recriação de uma paisagem agreste, marcada pela carência de recursos, pela pobreza generalizada, por um sistema educativo altamente deficitário. William é um jovem de origens humildes, impedido de desenvolver o seu potencial intelectual por ser afastado da escola devido à falta de pagamento de propinas. Por si só, a história já é tocante. O filme acrescenta-lhe uma dimensão altamente emocional, a espaços refreada pela necessidade de denúncia de um sistema que em nada contribuiu para que possa sair da pobreza quem nela nasceu. As imagens que chegam agora de Moçambique superam em tudo aquilo que um filme destes possa ilustrar. Sabemos que contra a fúria da Natureza pouco resta aos homens, mas assistir à destruição, em larguíssima escala, provocada pela passagem de um ciclone, dá bem conta das fragilidades de um país onde as populações ficam à mercê do azar. Não é só os telhados que voaram onde havia telhados, as ruas invadidas pela fúria das águas, as sensações de desamparo e desabrigo deixadas pelo rastro de destruição, é também tudo o que se lhe segue, a fome e a doença, esta condenação ao fracasso impossível de aceitar.

terça-feira, 19 de março de 2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

UM MINUTO POR MOÇAMBIQUE



Literalmente, nem mais. Qualquer ventania com meia dúzia de estufas danificadas ocupa mais tempo nos telejornais do que a tragédia de Moçambique. Tão estranha, esta distância. Tão difícil de compreender o desinteresse das pessoas por Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, um dos países que mais precisa da nossa atenção. 

ESCALA


As estimativas dizem ainda que todos os dias caem na Terra 48,5 toneladas de matéria meteórica. A maior parte delas desfaz-se em poeira ao entrar na atmosfera.


Notícia do Público, aqui.

Leitura possível: a maior parte das estimativas desfaz-se em poeira ao entrar na atmosfera.

domingo, 17 de março de 2019

PERCALÇO DO AMOR

   As mulheres que amam envelhecer são mais numerosas do que se pode julgar. As que vão deixando de lado os sapatos desconfortáveis e os métodos depilatórios; as que, pouco a pouco, se transformam, como árvores desgrenhadas, com pólipos e rugosidades, musgos e crostas, com sinas cemiteriais nas mãos, com unhas duras como cascos e cheias de veias salientes; as que prescindem das faixas, cintas, bandas e alças; as que se tornam vitoriosas por efeito dum gáudio que emascula os homens; as que acabam com a contracepção e suas infames ciladas e se emancipam deveras do espermatozóide, do ventre, do percalço do amor e do sexo; as que, enfim, concebem num canto da memória essa falta menstrual que foi a vida inteira, a falha da paixão dinâmica e gloriosa que não aconteceu nem acontecerá nunca. A velhice é para elas o prazer que encobre a morte, sem pecado, risco e culpa formada.


Agustina Bessa-Luís, in O Mosteiro, Lisboa, Guimarães Editores, 1980, p. 68, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e a Estrada - biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 457.

sábado, 16 de março de 2019

CONVOCADO PARA PALRAR


Mais informações: aqui.



Adenda:

EC.ON, Lisboa, 16 Março

Acorro ao ciclo poético da EC.ON e assisto, com prazer, ao Jaime Rocha desenhar o palco que a Nazaré se tornou para ele, no qual nunca mais deixou de ouvir conversas com mortos, nem de acompanhar figuras de negro a passearem medos e angústias, sem esquecer a íntima observação do mar ininterrupto e o cultivo do silêncio. Vi até uma enxada a passar à beira do café em Benfica e na mão de um semeador de cães e gatos. Ouvi também o dodecassilábico Henrique Manuel Bento Fialho defender acesamente a contaminação entre géneros, a descoberta do verso na prosaica planura da prosa, ou da centelha da ideia em pleno poema. Pensei, por causa disso, que o gesto poético surge que nem aquelas utilíssimas placas de sinalização espalhadas pelo nosso interior. Perdidos, acendemos os faróis para ver melhor a indicação que nos salvará a pele e eis que surge, brilhando, «outras direcções».

João Paulo Cotrim, aqui.

sexta-feira, 15 de março de 2019

CONVOCADO PARA APRESENTAR


UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

CAPELA DOS OSSOS

É o labirinto das medidas drásticas
no domicílio, no casulo controverso
de gente capaz de tudo, nem as feras.

Quase julgam-se felizes no atropelo,
e é que o são mesmo, como animais
enlouquecidos na sua vazia esfera.

Alguém lhes pôs água nas cabeças;
antes os houvesse afogado, mas não,
só fazem isso, a frio, à gataria.


¿Existe por estes lados um' agonia
que possa ser tida por boa, útil,
aprazível, salutar e duradoura?

¿Será um problema d' aerodinâmica
onírica?... quando a coisa única
que nos separa, ou liga, é a polícia...

Crânio sobre crânio, tarso sobre
tarso, cóccix sobre cóccix, vieram
os arquitectos compartimentar

o beco sem saída que esta vida é,
tod' os danos que deixámos para trás,
to-da a men-ti-ra piedosa...


Paulo da Costa Domingos, in A Vau, Companhia das Ilhas, Dezembro de 2018, p. 43.

TERRORISTAS


A Wikipédia chama terrorista doméstico a Timothy McVeigh. Já Anders Breivik é terrorista cristão da extrema-direita. O australiano Brenton Tarrant ainda não tem a sua página, mas há-de ter. E nela se dirá também que era de extrema-direita. Estas criaturas existem, assim como aquelas que defendem a distribuição de armas de fogo pelas populações. A extrema-direita, e não só a extrema, tem muita gentinha a pensar assim. Com o argumento de que as populações precisam defender-se, pois claro. Do Brasil de Bolsonaro chegam notícias sobre um atentado à Escola Estadual Professor Raul Brasi, massacre na linha do que Michael Moore documentou em Bowling for Columbine (2002).Quando é que começaremos a chamar terroristas às empresas que lucram com a venda de armas? E aos políticos que defendem políticas que apenas favorecem os interesses meramente comerciais dessas empresas? Quando é que toda essa gente terá uma página na Wikipédia a chamar-lhes o que são: terroristas?

quinta-feira, 14 de março de 2019

ESTÁ NO AR

Mais um Et de plomb et de plume: aqui. É o melhor "programa de rádio" do mundo. E eu a ouvir, enquanto espero pela pizza. Há dias assim.

ÁRVORE EM FLOR


Ainda não fez um ano que enterrámos o corpo debaixo daquela árvore, calcando bem a terra e sinalizando o lugar com um pedregulho. Não consigo lembrar-me da árvore, apenas da sombra que fazia. Estava frio, eu tinha frio. Continha o choro como sempre contenho o choro, uma dor a querer saltar pela boca, uma dor presa à garganta, o peito a puxar a dor para baixo, uma dor colada às paredes do peito.
Emociono-me com facilidade, houve um tempo em que chorei muito. Quase tudo quanto em mim havia para chorar. Com o passar dos anos, emociono-me mais facilmente. Perdi defesas onde ergui muros. É com estranheza que constato o facto, parecendo-me até paradoxal que assim possa ser. Mas não importo nada.
Agora é tempo das árvores em flor, o corpo morto como que refloresceu na velha árvore. Não sei se alguma vez terá dado fruto, recebe do céu água e sol, tem acolhido pássaros e aves de criação, domésticas como as pessoas que entram e saem das casas, como os corpos a seu tempo acolhidos pela terra.
Fazem-me chegar a imagem da árvore com uma declaração de amor. Sempre que penso no amor, é curioso, surge-me de imediato no pensamento a imagem da morte. É assim porque julgo inseparáveis as duas forças, um tender para fora, um tender para dentro. Amorte será a palavra correcta, como música que embala a dança das feridas. Penso na morte embaraçado pelo medo da perda, penso na morte porque amar é querer o bem e querer o bem é desejar vida, até quando se pede morte. A carta escrita por Gorz é tão bonita. Mas não importa, nem eu nem a carta importamos.
Agora é tempo de árvores em flor, dos frutos colhidos, do sumo bebido dos frutos espremidos, é tempo de céus limpos. A visitação da brisa, como certa vez escrevi num poema que pretendia dizer: se algum dia morrermos, tenha quem nos ama a lembrança de deixar para sempre os restos debaixo de uma árvore. Nada de corpos, apenas cinza. 

Como uma brisa a visitar a terra.  

Detenho-me na árvore
pouso os olhos nos ramos,
os meus olhos são pássaros
que cantam cada uma daquelas folhas,
diria que as folhas são as notas musicais
deste canto que sai das retinas em flor,
não sei onde chegará a voz do pássaro,
não quero que chegue a lado nenhum,
queria apenas que pudesse ser
escutada debaixo da terra,

se o canto dos pássaros
pudesse ser escutado
debaixo da terra,

em nossos olhos a sombra
alumiaria as formas

e tudo surgiria nítido
como num dia limpo.

quarta-feira, 13 de março de 2019

UM POEMA DE JOÃO RIOS

deram-me
vinte séculos
de heróis

e um nome

mas não encontro
oceano bastante
com que salgar o embuste
desse inebriante património


João Rios, in Os Heróis Transformados em Floreiras, Douda Correria, Março de 2017, s/p.

terça-feira, 12 de março de 2019

CITAÇÃO


Recorrer à greve da fome para resolver questiúnculas salariais é uma ofensa à memória de todos aqueles que morreram de fome por grandes causas. 
Eremita, aqui.

CLASSICO


Desde o livro de estreia, "Rua 31 de Janeiro (Algumas Vozes)" (&etc, Dezembro de 1998), que se coloca na poesia de José Ricardo Nunes (n. 1964) o problema da relação do sujeito com a realidade, aprofundado no livro intitulado “Apócrifo” (Deriva, Outubro de 2007) e extremado no volume “Compositores do Período Barroco” (Deriva, Junho de 2013). A este problema corresponde uma dúvida acerca das possibilidades da própria poesia enquanto gesto revelador. O poema é composto por palavras, estas são uma representação do real e, enquanto tal, oferecem-nos apenas simulacros da realidade. Esta noção é sobretudo relevante se tivermos em conta a hipótese da poesia enquanto busca da verdade, elemento esquivo, ainda que desafiante, nos poemas de José Ricardo Nunes. O livro “Andar a Par” (Tinta-da-China, Maio de 2015) tornou ainda mais complexa esta questão, na medida em que nesses poemas tudo parecia desenvolver-se a partir de um terreno confessional.
   Não por acaso, no poema 11. do mais recente “Classico” (Companhia das Ilhas, Janeiro de 2019) os versos iniciais jogam com a ideia de confissão desconstruindo-a: «Confesso: era eu / quem fugia e também eu / quem consumava a ligação directa / enquanto ela segurava o volante / em vez de ter eu, eu / ainda, o livro nas mãos» (p. 21). Na senda de Rimbaud o Eu destes versos é um Outro, ou como diria um dos nossos maiores modernistas «Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio».  Este “intermédio” resume a natureza do sujeito poético, mesmo quando o discurso parece adoptar um tom confessional. Recordemos, aliás, que um dos livros de José Ricardo Nunes se intitula precisamente “Confissões” (Companhia das Ilhas, Dezembro de 2013). A confissão é uma violência exercida sobre o sujeito, a qual no limite pode levar a processos de despersonalização. Disto resulta uma poesia em que o eu se manifesta sempre por interposta pessoa, tal como sucedia nas vozes de "Rua 31 de Janeiro" e se declara, mais uma vez, no poema 11. já aqui citado: «Tinha as suas vantagens, a vida / por interposta pessoa, não há / como negar, tinha, como gosto de afirmar, / as suas compensações» (p. 21).
   "Classico", assim mesmo, sem acento, reúne 24 poemas escritos entre 2015 e 2018. O autor faz questão de o sublinhar, levando-nos a crer numa preocupação com a organização que tende a associar o poema a um período existencial específico. Estes poemas, tal como os do livro anterior, surgem marcados pelo ferro do tempo vivido, são “consequência do lugar” e da experiência. Neles encontramos referências concretas a espaços físicos (Casa Antero, Hotel Classico, Igreja de Nossa Senhora do Pópulo… ) e a pessoas com nome próprio (Miguel, Jales, Manuel, Margarida, Henrique, Pedro…), como que oferecendo uma clareza de exposição na qual acabamos por subentender momentos de reflexão intimistas, obscuros, melancólicos. O dentro (interior, intimidade) é escuro, não se deixa revelar facilmente. A vida tende para um vazio, para o desperdício, e é sempre enigma irresolúvel.
   Percebemos que na divisão dos poemas em três conjuntos existem diferentes ordens temáticas, correspondendo o primeiro conjunto ao quotidiano, o segundo à memória, sobretudo às memórias da infância, com evocações de familiares, e o terceiro a um presente alumiado pela paixão e pelo amor enquanto esforços de superação da «rotina da vida». A epígrafe pedida de empréstimo a Pasolini clarifica a relevância nestes poemas do amor enquanto modo de conhecer. Classico, o Hotel de Bremen, surge como microcosmo pautado pela passagem e pela fugacidade. Tal como o Hotel, a vida é lugar de passagem. Um não-lugar, para usar a famosa expressão de Marc Augé. Mas o Classico confunde-se no poema com o Eu, o próprio Eu surge como lugar de passagem onde as pessoas vão entrando, pernoitando, saindo, o Eu é essa entidade fenomenológica aberta ao mundo através da qual o Outro nos ocupa: «Imagina que não és tu, / que em vez de seres tu / o hóspede é o quarto do hotel / que te ocupa» (p. 9). Desta relação que impele o ser para o vazio (entre o início e o termo do primeiro poema do livro podemos ler qualquer coisa como “Imagina (…) o vazio”) concluímos o amor como espécie de solução, como única forma de superação. 
   No poema 4, que pode ser lido sob a forma de arte poética, os versos parecem querer sublinhar precisamente as coordenadas a partir das quais o poema se desenvolve: «Nada acerca da poesia, tudo / sobre o maldito emprego, / (…) tudo sobre a loucura e a ausência / e a ausência de saudades, / tudo sobre o amor, / a vida, o desgarrado mundo, / a vida perdida, a vida ainda» (p. 12). É à vida que os poemas de José Ricardo Nunes se vêm agarrando desde “Andar a Par”, não perdendo de vista a problematização do ser, mas pretendendo alargar o campo de representação ontológico às forças concretas da experiência, aos lugares, às pessoas, ao que surde da relação entre as pessoas no contexto de certos lugares, não apenas à linguagem, não apenas a uma ideia de linguagem: «Tivesse outra idade, fosse / a tempo de escolher outra profissão / e seria arrombador, / armaria bombas em caixas-fortes, // amaria muito mais» (pp. 40-41).

domingo, 10 de março de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #12


Se é importante saber de onde vimos, não menos será que fiquemos atentos ao modo como os outros nos vêem. Certo que jamais teremos acesso ao que pensam sobre nós, mal seria se tivéssemos. Imaginai o inferno se outros acedessem ao que acerca deles pensamos. É saudável e até agradável esta distância que nos separa do outro, este exílio que obriga à reflexão e à desconfiança. Mas não menos agradável é assistir a quem fale de nós abertamente, desbravando terreno à imaginação como ao espelho se abre um rosto. Quando digo nós, minhas filhas, não me refiro ao indivíduo, que esse será sempre mistério inconfessável para si mesmo, mas antes ao que no individuo há de influência exercida pelo colectivo. Refiro-me à cultura, à sociedade, ao ambiente social que nos deforma e conforma ou que simplesmente nos informa, permitindo-nos que cresçamos em reacção e conflito ou em acomodação e renúncia.
   Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ilustre espanhol que ousou pensar-nos em voz alta, dedicando-nos o opúsculo com o título Os Portugueses, Um Povo Suicida. Originalmente escrito em 1908, podeis conhecê-lo na edição da Ática datada de Abril de 2011. Não é difícil encontrar sensatez no diagnóstico: «Portugal é um povo triste e é-o mesmo quando sorri» (p. 7). Classificar-nos de povo suicida não nos socorre na manifesta propensão genética que temos para a desgraça, mas livra-nos do fardo que leva a concluir a inutilidade da vida. Com tão cruel evidência não se conformam os fadistas, encalhados entre o oceano e sucessivas invasões. A solução para os portugueses está em fugirem de si próprios como o diabo da cruz. Daí que se detestem, daí que se ocupem tanto zurzindo contra si mesmos, daí que se mostrem tão afáveis e complacentes para com aquilo que vem de fora e implacáveis para com aquilo gerado dentro.
   Li algures, minhas filhas, um retrato cómico da sociedade portuguesa: espécie de bolha onde todos dizem mal uns dos outros sem terem a noção de que os outros são essa massa indefinível entre os quais também nós nos encontramos. Sendo que cada um de nós é sempre um outro, não resta nada de bom entre os portugueses. No entanto, a desgraça tem sido nossa força. Sabemos rir da aspereza com que nos crucificamos. Talvez aí germine o gene desta lúgubre inclinação para o suicídio, não necessariamente físico, mas também moral, espécie de “genocídio” focalizado no ânimo com que poderíamos encarar a inutilidade das nossas existências. A aceitação desta inutilidade afigura-se elementar, na medida em que se impõe como a única atitude verdadeiramente útil à fatal condição elegíaca.
   Há neste povo «mais apaixonado do que sentimental» de que falava Unamuno uma matemática inquestionável: «os sonetos são um grande purgante das paixões excessivas, pois sabe-se de sonetistas que morreram de fome mas de nenhum que tenha morrido de amor» (pp. 8-9). Podeis imaginar quanto disto vale num país que se diz de poetas! O resto é História e alternância democrática, aquele masoquismo de passarmos o tempo a vituperar quem elegemos reiteradamente, a indolência com que tratamos tudo quanto nos indigna, um deixar andar na esperança de melhores dias que virão, porventura, como virá o tal que se perdeu nas áfricas, embrulhado em bruma invisível. Sabemos rir, excepto de nós próprios. Por isso nos suicidamos.
   Como pode não ser suicida um povo assim? Os suicídios de Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Trindade Coelho, enumerados por Unamuno, são resíduos numa sociedade toda ela suicidária, mero exemplo lacónico, previsível, sucinto. A orgânica não poderá ser outra enquanto persistirmos na saudade, no lamento, nesse pó cavernoso que a todos inspira versos tristonhos e esmorecidas elegias. Sobre toda essa tralha, um lençol de gargalhadas estridentes e a consciência interna da maior das forças vitais: nada há de mais útil nesta vida efémera que a inutilidade decretada às coisas que dão prazer e fazem rir. O resto subentende-se no opúsculo: «Não falta mesmo por aí quem diga que isto não é já um povo, mas sim o cadáver dum povo» (p. 13). Portanto, ride, ride de vós próprias e do espanhol que nos define, ride do mundo e da vida, ride com alegria e paixão, pois só rindo de tudo e com todos os dentes à mostra podeis um dia dizer ter estado próximas da felicidade. Isto é, da alegria de viver.

sábado, 9 de março de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #63



Há dias um amigo telefonou-me com uma daquelas novidades que eu julgava perdidas para sempre nos idos da adolescência: comprou uma guitarra. Queria saber quais os acordes básicos das intermináveis performances que, não tantas vezes quanto eu gostaria, costumam juntar três ou quatro ou cinco malucos com a mania de que sabem tocar, ao que lhe respondi prontamente: Mi – Lá – Si. Em boa verdade poderia ter dito Sol – Lá – Ré ou Dó - Fá – Sol que ia dar ao mesmo. Para começar, talvez seja preferível a mais tradicional, básica e mágica sequência dos blues. Mas importa, desde logo, desfazer o mito. Sendo básica a sequência, as variantes são múltiplas. Rapidamente o que parece fácil pode transformar-se num pesadelo. O mito segundo o qual tocar blues é fácil devia ser abolido de uma vez por todas, obrigando quem o proferisse a ouvir vezes sem conta as gravações primitivas de um Jelly Roll Morton ao piano ou de um Robert Johnson na guitarra. Pela parte que me toca, expurguei de uma vez por todas a cagança quando comecei a prestar atenção ao legado de McKinley Morganfield, isto é, Muddy Waters.


Nascido algures no Mississipi, Waters foi influenciado por Blind Lemon Jefferson e por Robert Johnson. A sua versão de Walkin’ Blues é uma pequena maravilha. O vozeirão e a harmónica ajudaram a singularizar o estilo, transformando-o num dos músicos mais influentes do universo bluesístico. Não sendo exímio guitarrista, conseguiu apontamentos únicos e inconfundíveis. Percebemos que tinha algo diferente ao ouvirmos êxitos como Rollin’ & Tumblin’, Louisana Blues, Baby Please Don’t Go ou Stuff You Gotta Watch (puro rock & roll pré-histórico). A guitarra eléctrica providenciou-lhe um volume de som adequado à potência da voz, permitindo-lhe experimentar novos ritmos sem perder a profundidade daquilo a que vulgarmente damos o nome de feeling e não sabemos exactamente o que é. Algumas composições de Willie Dixon tornaram-se hits universais na sua voz. São disso exemplo (I’m Your) Hoochie Coochie Man e I Just Want To Make Love To You. Mas mais importante foi a influência exercida sobre bandas como os The Doors, The Rolling Stones (que devem o nome ao tema Rollin’ Stone), e sobre guitarristas de excelência como Jimi Hendrix, Jimmy Page (Led Zeppelin), Eric Clapton, Gary Moore, Angus Young (AC/DC)… Na Wikipédia cita-se B. B. King: “Vai levar anos e anos até que as pessoas percebam quão enorme foi o contributo de Muddy Waters para a música norte-americana”. The Anthology (2001) recupera 50 gravações efectuadas entre 1947 e 1972, acompanhadas de um ensaio assinado por Mary Katherine Aldin que explica tudo muito melhor. All Aboard é o penúltimo tema:


HYALINOBATRACHIUM YAKU




Foi descoberta uma nova espécie, a rã transparente
nela observamo-nos tal como somos
um sistema de órgãos funcionais,
tubagens e ligamentos

se a perfurarmos veremos nitidamente
como sofre cada pedaço do corpo,
o que nos faz retroceder
e desejar deixá-lo intacto,
museu escancarado de frangibilidades orgânicas
de onde ao mesmo tempo a ideia de corpo está excluída,
remetida às representações humanas
em que a dor se revolteia sob capas e peles,
e o sangue fulge só entre brechas

perfurar este batráquio revelaria uma simples destruição,
a quebra das acoplagens,
o fim da palpitação cronometrada

ainda que a transparência,
ao ser rasgada,
nos arrojasse de frente o halo da vida desprotegida


Catarina Costa (n. 1985), in Essas Alegrias Violentas (Companhia das Ilhas, Março de 2019). Desde Marcas de Urze (Cosmorama, 2008) que vem publicando com regularidade em editoras de distribuição restrita, o que explicaria alguma desatenção da crítica especializada não obedecesse esta a uma selectividade que pouco ou nada tem que ver com o âmbito de distribuição das editoras em causa. Na sua poesia vislumbramos jogos de contrastes entre luz e sombra, entre tempos e espaços diversos, ora oníricos, ora materiais, entre os domínios da loucura e da normalidade, da saúde e da doença. Destes contrastes retiramos a ideia de uma inclinação para o anómalo, por vezes detectado na alusão a disformidades corpóreas, na sugestão de um pathos determinado por imagens violentas, desfocadas e desfiguradas como sejam as que dão corpo à memória. O poema é ponto de encontro entre uma primeira e uma segunda pessoas, por vezes desdobradas numa terceira que abre os campos da intimidade e da confidencialidade, ainda que nunca de um modo absolutamente claro ou óbvio: «violo o laço da ínfima voz entre nós / perante um terceiro / na tentativa de obter uma resposta externa / aos fragmentos de adivinhas que me deste e não resolvi» (E. A. V., p. 34). Não violentando a leitura com exasperações e fúrias, Catarina Costa deixa subentendida nos seus versos uma violência à qual corresponde um processo de atrofia do ser. A solidão, o isolamento, o exílio, o afastamento, o desamparo, surdem de uma ideia de desejo não consumado, latente, que é o que realmente violenta o sujeito na sua intimidade.

sexta-feira, 8 de março de 2019

GUERRACIVILÂNDIA EM MAU DECLÍNIO


Imaginemos um mundo em que tudo fosse mensurável, em que cada gesto tivesse a sua ordem de medida determinada por um objectivo estipulado, em que a própria respiração fosse avaliada de acordo com taxas de concretização, em que os recursos valessem segundo metas de sucesso burocratizadas nos ficheiros informáticos de gestores obcecados com lucros dos quais eles próprios não retirassem proveito, pois nesse mundo tudo seria de tal modo hierarquizado que nem certos cargos de chefia valeriam mais do que o reconhecimento vazio de mãos invisíveis, financeiras, movidas por uma desumanizada ganância. Num mundo assim, que não será difícil de imaginar, teríamos camadas sobre camadas de cargos intermédios governados por gente subordinada, servente e servil, gente burrocratizada, como  diria o poeta, carregando aos ombros o peso da frustração e no estômago a azia da mediocridade, um mundo de humilhados e ofendidos, como denunciou Dostoiévski, mas agora eles próprios humilhadores e ofensivos, infligindo em quem está por baixo o que lhes seria infligido por quem está por cima. Paremos de imaginar, um mundo assim não é muito diferente do mundo em que vivemos. Nada há nesse mundo que possa ser produto de uma imaginação fértil, nele tudo resulta de uma observação arguta e crítica do mundo em que vivemos, isto é, sobrevivemos. Esse mundo surge nitidamente retratado nos contos do norte-americano George Saunders (n. 1958), reunidos na obra de estreia recentemente vinda a lume em Portugal com o título GuerraCiviLândia Em Mau Declínio (Antígona, Janeiro de 2019). São seis contos e uma novela marcados pelas consequências do capitalismo (selvagem) numa mente com necessidade de se vingar, fazendo-o a partir de uma abordagem dos states que pondera uma sociedade dividida entre Normais e Defeituosos, isto é, gente produtiva e consumista e gente fracassada segundo os parâmetros impostos pelas sociedades consumistas. A ideia de "parque temático" que surge amiúde enquanto cenário de divisões e conflitos mais ou menos hostis dá conta, com impecável sentido de humor, do modo como as relações laborais e o mercado de trabalho neste mundo surgem delimitados por forças desproporcionais que não só potenciam a servidão e a exploração como a promovem. Saunders é exímio na criação de situações alegóricas, embora por vezes aparentemente caricatas, sobre o declínio e o fracasso num universo regido por ideais tontos de sucesso. O conto intitulado O Director Executivo de Cento e Oitenta Quilos é das melhores peças que li nos últimos tempos sobre a legitimação da ofensa e daquilo a que hoje se chama bullying ou assédio moral, práticas tão correntes que chegam a passar despercebidas enquanto máquinas de castração activadoras do conformismo e do abismo existencial: «Eu não sou má pessoa. Se ao menos conseguisse deixar de ter esperanças. Se ao menos conseguisse dizer ao meu coração: Desiste» (p. 59). Numa nota final o autor refere-se aos seus contos como sendo «maldosos, a espaços», cruéis, «ocasionalmente desagradáveis», e talvez tudo isso seja verdade, não pelos contos em si, que vêm sempre acompanhados de um sarcasmo visceroso e de um sentido de humor cativante, mas pelo realismo que denotam em situações aparentemente nonsense e surreais: «Depois avistas uma luz através das árvores. Numa colina vês um sinal de néon e um castelo iluminado. / TERRA DA ABUNDÂNCIA, diz o sinal, ONDE O MÉRITO É REI TAL COMO VOCÊ!» (p. 147) Esta luz existe, estas árvores são de um naturalismo inquestionável, este sinal é vulgar, tudo nesta descrição é de uma plausibilidade atroz quando nos confrontamos com um mérito que se avalia em função da capacidade que cada um adquire para ser indiferente ao outro, para lhe foder a vida de modo a ficar por cima. E a abundância traduz-se numa avidez insaciável, numa histeria materialista, consumista, geradora de cidadãos transformados em meras máquinas de consumo, gente que não diz o que pensa nem o que sente, talvez até porque desaprenda de pensar e de sentir, mas simplesmente o que convém. É nesta Terra que o gesto supostamente mais humano se converte num desastroso e inconveniente equívoco, como no final do magnífico A Fracassada Campanha Terrorista de Mary, A Oprimida. Atribuísse estrelinhas este que vos escreve, seriam cinco garantidas. Incluindo a tradução de Rogério Casanova.

quinta-feira, 7 de março de 2019

UM POEMA DE JORGE LEÓNIDAS ESCUDERO



ÚLTIMA APOSTA

Afastem-se, deixem-me passar,
venho de ir existindo e já sei que
irei empalidecer. Mereço
descanso, mas antes
quero olhar por detrás do horizonte
para não me ver sempre como árvore seca
que nada mais tem para dizer.

Não estorvem, não digam que há bom remédio,
deixem-me sentar no umbral
a ver passar as últimas pessoas. Os pássaros
estão a esconder a cabeça debaixo da asa.

Mandem alguém comprar pão,
não para já mas para amanhã
porque a minha fome derradeira
é do que ainda não vi.

Jorge Leónidas Escudero, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 183.

ELAS (em construção)


Recupero este post, iniciado vai para quatro anos. Continuará em construção. São vozes femininas da poesia portuguesa do século XX. Os nomes estão a vermelho para sinalizarem links. É só clicar. 


Fernanda de Castro (1900-1994), Maria da Graça Freire (1911-1993), Merícia de Lemos (1913-1996?), Leonor de Almeida (1915- ?), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Natália Correia (1923-1993), Maria Amélia Neto (1928), Ana Hatherly (1929-2015), Isabel Meyrelles (1929), Eduarda Chiote (1930), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Maria Teresa Horta (1937), Luiza Neto Jorge (1939-1989), Fátima Maldonado (1941), Inês Lourenço (1942), Hélia Correia (1949), R. Lino (1952), Ana Luísa Amaral (1956), Rosa Maria Martelo (1957), Isabel de Sá (1951), Adília Lopes (1960), Sandra Costa (1971), Margarida Vale de Gato (1973), Ana Horta (1975), Catarina Santiago Costa (1975), Sandra Andrade (1976), Marta Chaves (1978), Raquel Nobre Guerra (1979), Filipa Leal (1979), Rute Mota (1980), Cláudia R. Sampaio (1981), Matilde Campilho (1982), Catarina Nunes de Almeida (1982), Ana Salomé (1982), Elisabete Marques (1982), Madalena de Castro Campos (1984), Beatriz Hierro Lopes (1985), Catarina Costa (1985), Tatiana Faia (1986)...