segunda-feira, 20 de novembro de 2017

CHUVA

Coisas que me passam pela cabeça
enquanto em vão tento adormecer:
mastigar a dor de dentes até fazer
desaparecer do pensamento todo

e qualquer vestígio de biografia,
mergulhar indefinidamente no sono
e nadar até que a manhã estremeça,
parar de respirar com uma mão

no peito, a outra no lugar do coração.
Depois respirar fundo cada gota
de silêncio, aguardando a chuva que
varrerá de vez esta luz insuportável.

domingo, 19 de novembro de 2017

MALCOLM YOUNG (1953-2017)

TRÊS LIVROS, TRÊS AUTORES

Manuel Fernando Gonçalves (n. 1951), Rui Baião (n. 1953) e Paulo da Costa Domingos (n. 1953) são de uma mesma geração, a última que experimentou o ambiente social da ditadura em pleno uso, por assim dizer, das suas faculdades. Quando se deu a chamada Revolução dos Cravos, teriam aproximadamente vinte anos. Eram jovens num país de poetas entalado entre a herança libertária dos surrealistas e o neo-realismo, mais ou menos de cartilha, em voga nos salões da cultura aparentemente revolucionária. Conquanto tenham alicerçado a sua arte ainda na década de 1970 — Paulo da Costa Domingos, por exemplo, começou a publicar em 1972 —, foi na década seguinte que as suas propostas poéticas melhor se afirmaram. Nomeadamente, contra os salões (fossem eles putativamente revolucionários ou académicos, o que ia dar ao mesmo). Não ficará mal falar de contracultura, se falarmos de uma arte alternativa ao cânone vigente com um forte sentido de experimentação no domínio da contestação social. Apraz-nos constatar que passados quarenta e qualquer coisa anos sobre as primeiras publicações, estes poetas mantenham vivo o impulso criativo que nos três casos, manifestando expressões distintas, se liga por uma concepção da poesia que não abdica do mundo enquanto matéria de reflexão.
Barbearia Tiqqun (Frenesi, Setembro de 2017) é, por si só, um título que nos coloca alerta. Tiqqun é o nome de uma publicação surgida após os atentados de 11 de Setembro de 2001, inspirada na acção anarquista e na filosofia situacionista, que gerou alguma polémica depois de um dos seus membros, o activista político Julien Coupat, ter sido preso sob acusação de sabotagem e de terrorismo. A pergunta impõe-se: que cortes serão levados a cabo nesta barbearia? O intróito entre parêntesis adverte-nos para um Nada absoluto que percorrerá os versos subsequentes. O niilismo, como sabemos, é a derradeira negação de uma possibilidade de sentido para o mundo. Ele começa por negar as sistematizações, não lhe sendo possível, porém, negar a morte enquanto componente determinante da realidade. O niilismo advém de uma noção de crise ou de naufrágio fundada no sentimento de perda, à qual juntamos um inevitável processo de saturação histórica fundamentado na recusa de qualquer tipo de fé que confira sentido ao Mundo e à existência. No limite, como diriam alguns existencialistas, estamos condenados a viver a morte. O niilismo na poesia de Rui Baião exprime-se através de uma linguagem derisória que tem por objecto a actualidade mundana, detectável, por exemplo, num título como “Quod non est in tv non est in mundo…” A opção pela língua morta confere ao poema um princípio irónico, que o verso inicial prossegue sob a forma de axioma: «Morro, morro a rir» (p. 14).
Mas mais do que irónica, esta poesia é sarcástica — no sentido em que expõe com extrema crueldade os podres do mundo. «Por ond’anda o teu silêncio, se não junto / aos tectos do mundo?» (p. 5), questiona Rui Baião no poema inicial. O título “Cesura” é como uma espécie de ignição, o início de uma violenta operação exercida sobre o corpo e sobre a vida. Só não percebemos se esta vida ainda mexe ou se é já um cadáver no momento da autópsia. Alusões às ferramentas tecnológicas que hoje medeiam a existência dos povos, pelo menos tecem um diagnóstico nada favorável. O poema não resulta aqui como uma forma de disfarce, ele expõe o terror do mundo, as fracturas da humanidade, sem qualquer tipo de preocupação para com o belo ou para com as armadilhas de sedução poética de que geralmente os líricos se servem para cativar leitores. Num título como “Cybéria” é a saturação da humanidade que se coloca em plano, uma espécie de doença geral a que não fica alheia a actualidade pirómana nacional. Nem o amor escapa: «Quando é de amor / que se trata, ora aí está. A casa vazia, o remoinho / na empresa, os textos são como os mapas. Choram / os teus olhos, a vela enfunada, a menina dança? / Que descaramento, um predador perdedor» (p. 18).
Reencontramos em Romance Ardente (Frenesi, Setembro de 2017), de Manuel Fernando Gonçalves, vários dos ingredientes observados em Barbearia Tiqqun. Há uma interligação entre os dois livros obviada logo ao primeiro poema, assim como numa referência directa a Rui Baião surgida a páginas 29, com menções repetidas a alguém que se sente perdido, estende o mapa-múndi, ou mapa do mundo, ouve lala mary-am challa… Mas se em “Cesura” Rui Baião se questionava sobre o silêncio de algo ou de alguém junto aos tectos do mundo, em Manuel Fernando Gonçalves: «é aqui, / o tecto do mundo, não é preciso miragens nem boas razões, / mais próximo da realidade, audaz, mais amigo do vento» (p. 8). A epígrafe de Eliot não engana, Romance Ardente é um romance de guerra. No poema longo que oferece título ao livro detectamos uma compulsão narrativa muito característica desta poesia. Os poemas projectam um olhar descritivo da cidade moderna, arrastando na descrição as ruínas culturais de um povo entre muralhas. Os anjos convocados estão cheios de fármacos, carecem eles mesmos de protecção. É evidente o desamparo, sublinhado por uma ironia marcada pelo desalento da figura exemplar: um homem não chora. Vale a pena citar o poema na íntegra:

Um homem não chora, cartilha

Um homem como deve ser deve
estar atento aos sinais, produzir muito
pouco e evitar grandes explicações.
Tem de ser poeta: só nos versos
se emenda a mão, se é inteligente
e se tem razão. Um homem vibra
com certos sons, fremem-lhe os músculos,
percebe o arfar dos tecidos macios da roupa,
o seu desafio são os gestos elegantes
com que caminha, com que cumprimenta,
com que condescende não enunciar.
Nos desafios deve correr ao verso,
à sala das ferramentas, aos instrumentos
que o fazem forte, único e sagaz:
as melhores horas são as do desejo,
com certeza insiste em simular, em virar
o tecido ao decote, decerto as veias da testa
sobressaem quando cita uma erudição
qualquer. Tem de usar a memória,
que até pode ser de mulher, para responder,
sem sentimento, a esses disparates
do quotidiano moderno, a essa politiquice
da comunicação de massas, virtual e menor,
e pode, perfeitamente, aspirar da colher.

Num movimento espiralado e por vezes vertiginoso, as imagens repetem-se como ecos obsessivos de uma mesma percepção. Assim sucede com «a dança surda dos cães que esperam», no poema "A poesia" (p. 11) e no poema "Urze e fantasia" (p. 25). Este efeito de repetição sublinha igualmente a tal saturação que surge em plano de fundo. Como na música dos The Golden Palominos e dos Dead Can Dance, evocados a par de referências literárias diversas, o negrume tinge a poesia à medida que a espiral nos transporta na direcção de uma temática central: a morte. Não perdendo de vista o romance, introduzido por um soneto a páginas 33, é a morte nas suas várias configurações o elemento que se impõe no horizonte. Importa, no entanto, chamar a atenção para esta morte, de algum modo aclarada pelo manifesto que acompanha, ao jeito de introdução, o livro de Paulo da Costa Domingos: Sumo de Limão (Frenesi, Setembro de 2017). Os três livros, publicados em simultâneo pela editora Frenesi, nome ao qual se juntou na capa o prefixo ed. viúva, podem ser lidos à luz do manifesto intitulado "O Estatuto do Cadáver no Mundo Contemporâneo".
Concentremo-nos no verbo perder. O verbo perder pode indicar desorientação. Estar perdido é não reconhecer o caminho, é sentir-se baralhado, é naufragar. Mas perder pode também remeter para o abandono, quando perdemos alguma coisa ou alguém. Por fim, perder é sinónimo de derrota. Por mais que sejam as armas, como na epígrafe de Eliot, a derrota é certa. Ora, em todas estas possíveis conjugações do verbo perder a morte assume o mais preponderante dos papéis. A morte é o princípio do homem absurdo, a consciência da morte rouba ao homem o sentido da existência, fá-lo naufragar, sentir-se perdido ou estrangeiro, como na obra de Camus, entre os demais. É também a morte que nos introduz à perda, ao abandono. Lidar com a morte dos outros é lidar com a perda. No final, saímos todos derrotados. Predadores perdedores, como no poema supracitado, é esta a nossa condição de náufragos. O verso inicial do livro de Paulo da Costa Domingos não podia ser mais claro: «FOI ASSIM: está-se perdido estende-se o mapa-múndi / e sem perda de tempo começa-se logo a respirar» (p. 9).

A relação entre estes três livros não é, pois, meramente geracional. Os motivos repetem-se na distinção das vozes. O olhar lançado sobre a cidade é também o de um divórcio consumado entre o poeta e o seu campo de acção, devidamente ilustrado pela invocação de Herberto no poema final ou pela epígrafe de Richard Sennett no livro de Paulo da Costa Domingos: impõe-se o silêncio, porque o silêncio é a ausência de interacção social. Uma mesma ética subjaz, portanto, ao texto acolhido nestes três livros. Trata-se da ética de um desencontro do poeta com o seu tempo, perdidas todas e quaisquer ilusões sobre a excepcionalidade da poesia. «Ides ler um livro de versos banais», afirma-se no tal manifesto acerca do estatuto do cadáver no mundo contemporâneo.  Mas de banais estes versos têm apenas a força das circunstâncias, a transformação que torna irreconhecível o lugar onde perder é entre os dados adquiridos o mais adquirido de todos. 

UM POEMA DA MARIA

isto é novembro

o que ao longe 
me pareceu
ser 
uma estrada 
de luz, 
era, afinal, 
uma nesga 
de  campo 
orvalhado 
a brilhar 
ao sol 
matinal.



(aqui)

sábado, 18 de novembro de 2017

ESCÓRIA

Escutas, interrogatórios, acórdãos. A gente lê e perde respeito pelo sistema. Que a justiça era um cancro neste país, há muito muita gente o vinha acusando. Mas que seja um cancro assim tão evidente, com os seus principais agentes ao nível da escória, é algo de perder qualquer tipo de esperança na reforma do sistema. 

UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

Bem sabes, já fui preto e jangadeiro e lançado
às águas do teu canal, e tu, branca, lívida, mal
parecias tocar-me, embora fosses torrente e sal.
Nunca tive, sequer, uma terra prometida.

Amigos, tinha. Dos risonhos, verdadeiros
diabos. Pretos, eles também; ¿lembras-te?...
Senhores dos atributos da peste: «outros», dizia-se,
capazes de envergar vestes de zinco, ostracizados.

À fé de quem fui, juro!, drogas não sei se tomavam:
minto; em dois mil novecentos e noventa e nove só se ouvia
o rolar triunfal de garrafas debaixo das camas ou no polígono

do corredor. A cidade está a mudar, até a nossa cor.
¿Alguma vez, alguma vez te perguntei, na escuridão,
no apaziguamento, pelas tuas próprias cinzas?


Paulo da Costa Domingos, in Sumo de Limão, Frenesi, Setembro de 2017, p.12.

EPIFANIAS #34

34

Ela vem de noite quando a cidade se acalma; invisível, inaudível, todos desconvocados. Vem do seu ancestral assento para visitar o último dos seus filhos, mão mais venerável, como se ele nunca se tivesse alienado dela. Ela conhece o íntimo coração; daí que seja gentil, nada exigente; dizendo: eu sou susceptível de mudança, uma influência imaginária nos corações dos meus filhos. Quem tem pena de ti quando te encontras triste entre estranhos? Anos e anos eu te amei enquanto repousavas no meu ventre.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

VENHAM A DEUS OS MACHOS


D. Manuel Clemente desaconselha o sacerdócio a jovens que manifestem inclinações homossexuais. Manifestar inclinações homossexuais é algo vago, pelo que deveríamos exigir a D. Manuel Clemente uma clarificação das recomendações. Aconselha-se o sacerdócio a garanhões? E a ninfomaníacos? E a pedófilos? E a predadores sexuais? As dúvidas são muitas, nesta matéria de difícil compreensão para um ateu. O que já não é tão difícil, e obriga o ateu a manifestar-se, é a constatação de que um discurso segregacionista, homofóbico, discriminatório, proferido por certas clemências não gera tanto asco social, tanta indignação e condenação, como se fosse proferido por outros Manuel. Fica a dúvida: porquê?

A HISTÓRIA DO CHECOSLOVACO

   Entre a enxerga e as tábuas da cama, eu encontrara, com efeito, um velho bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao pano. Relatava um acontecimento cujo início faltava, mas que devia ter sucedido na Checoslováquia. Um homem partira de uma aldeia para fazer fortuna. Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com um filho. A mãe dele, juntamente com a irmã, tinham uma estalagem na aldeia. Para lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher e o filho noutra estalagem e fora visitar a mãe, que não o reconheceu. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De noite, a mãe e a irmã tinham-no assassinado à martelada e atirado o corpo para o rio. No dia seguinte de manhã, a mulher do desgraçado viera à estalagem e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe enforcara-se. A irmã atirara-se a um poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era verosímil. Por outro lado, era natural. De todos os modos, achava que o viajante merecera até certo ponto a sua sorte e que nunca se deve brincar com estas coisas.

Albert Camus, in O Estrangeiro, trad. António Quadros, introdução de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, s/d, pp. 161-162.

MEURSAULT

Cúmplice do cansaço e do sono, aceito
a indolência a que, por ignorância, dão
o nome de indiferença. É castigo deste sol
a censura acomodada do suor, os braços

de Maria como um beco sem saída. Contra
a indiferença do Mundo, temos o torpor
do homem condenado a viver a morte
como cão sarnento levado pela trela. Sublinho

que então tenhas compreendido: “um homem
que houvesse vivido um único dia, poderia
sem custo passar cem anos numa prisão”. Sou,
no entanto, a mosca no rosto que não aceita

teres sido complacente para com o patrão.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

#103


Durante a década de 1990, os The Smashing Pumpkins foram uma das bandas que melhor soube aproveitar a vaga grunge em favor de um rock ambicioso na diversidade das suas propostas. Liderados por Billy Corgan, personagem perturbadora e, ao que se sabe, perturbada, nos The Smashing Pumpkins confluíam tanto a herança do heavy metal da década de 1970 como a pop neo-romântica, de inspiração gótica, da década seguinte. A perda de fôlego começou a desenhar-se já no séc. XXI, com Corgan a envolver-se em novos projectos onde ficavam patentes as mazelas de uma depressão profunda. Não será exacto considerar Ogilala (2017) o primeiro álbum a solo de William Patrick Corgan, embora o registo intimista e acústico, ao jeito mais tradicional de escritor de canções, o permita. Apoiado por um piano e pela guitarra folk, aceitando ocasionais arranjos de cordas e a colaboração de James Iha, guitarrista fundador dos The Smashing Pumpkins, Corgan esconjura em baladas simples e sem segredos, apesar da obscuridade das letras, os demónios de um universo pessoal serenado pela vida familiar. A produção do experimentadíssimo Rick Rubin, que trabalhou com Johnny Cash as American Recordings, dá uma ajuda:


UM POEMA DE MANUEL FERNANDO GONÇALVES

Esta alma de que falo, supercara

Costumava pensar que um subsídio
é que era, dava um jeitão para escrever,
o que significa, de forma mais fria, responder
a esse apelo conforme o clima e a paisagem,
um pouco na mesma onda do cinema,
da responsabilidade política e, até, do crime
organizado. Escreveria melhor, decerto,
pensaria mais, ostentava outra ousadia,
muito mais próxima da realidade, ora não?
Como toda a poesia tem princípios, 
não sei o que mais tem, é bom que se saiba
que o estado é meu devedor e que não relego
o direito de ser um poeta de luxo, de ninguém
me ler o que, acredito, me torna, assim, universal:
não admito a existência sem uma casa grande,
cheia de segredos, impecável, sem uma empregada
que, além do resto, me trate da roupa, receba
pequenos extras, me trate com respeito
e alguma estima. Sem telemóvel é que não!
Senão como falarei para o infinito, para deus,
para os outros poetas sobre a graça
que tem a fina desgraça deste mundo? E as contas,
as contas têm de ser pagas, imaginem só
ficar a dever alguma coisa a alguém! Não há saco
para autarcas e muito mais elegante é pagar,
ao cêntimo, a esses que cobram preços exorbitantes
e, tolos, imaginam que sou eu ao pagá-los.
Também não se suporta vinhos medíocres: fazem mal
ao estômago e qualquer sagitário tem isso como adquirido,
que vinhos só muito bons e libações só mesmo elegantes.
Além de que gosto de guiar, de me precipitar
pelas noites cerradas dos arredores, de passear nas avenidas,
pequeno frisson de dar toques breves na morte:
quase escândalo que comungo com os políticos,
meus superiores e chefes, é que o mecânico me leve,
sem pestanejar, cinquenta euros à hora. Não admira, 
pois, que só escreva se gastar dinheiro, paciência
e génio em símbolos o que, aliás, é congénito, não´
resisto a caprichos desmedidos que me namorem a alma.
Esta alma, de que falo, tornou-se complexa, letal:
quando, por exemplo, trabalho nas coisas inúteis da nação,
desacompanha-me, abandona o seu refúgio de nervos
e sangue e põe-se cá fora, ao lareú, a gozar com o respeito
que devo aos escritores, aos senhores doutores
do poder em toda a instância e lá vou eu parar
ao hospital à mínima emoção, ao mais pequeno sinal
de falta de ar. E falta tanto, o ar, em Portugal!
Ora, isso paga-se, a saúde não é de graça,
nem para graças, se bem que gosto de enfermeiras, éter
e de pequenas brochuras supercaras com cenas
de campo e tratamentos ambulatórios.
Se tivesse ocasião para me aconselhar com o médico
que escreve um dos outros livros, era contado
que a obra morria aqui mesmo e agora. Mas já tenho
título para o novo poema: «ponto de fusão baixo e volátil».
Vou pedir-lhe um atestado para faltar ao trabalho
sem ter de descontar no ordenado
e no tempo de férias.

Manuel Fernando Gonçalves, in Romance Ardente, Frenesi, Setembro de 2017, pp 28-29.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

MAIS SILÊNCIO E MENOS TRETA

Há uns meses, abrindo café novo nas imediações da casa portuguesa, vi que tinham umas prateleiras nas paredes com livros. Passei por lá e deixei uns exemplares que tinha repetidos em casa de Madame Bovary e de Moby Dick. Disse à jovem senhora, agradecida pela oferta e de uma polidez e simpatia irrepreensíveis, que a coisa fica mais composta com aqueles clássicos. De uma geração que fez o secundário e que provavelmente frequentou a universidade, disse que os desconhecia. Nada que surpreenda, nem eu a condeno por isso. É algo de perfeitamente normal entre nós. Todos nós conhecemos gente boa e bem formada que os desconhece.
Por outro lado, há qualquer coisa que falha no sistema de ensino português quando aqueles que o frequentaram chegam à idade adulta sem conhecerem (ainda que pela rama) esses romances fundamentais do sec. XIX. Há algo de errado numa sociedade que não os propaga e oferece, louvando-os, falando deles, aos geral dos indivíduos que a integram. De alguma forma, essa falha é colmatada à medida que nos deslocamos do sudoeste europeu até ao extremo nordeste. Há mais livros, mais leitores. Diria que mais bom-senso e empatia, mais silêncio e menos treta.


Ler o texto completo no Âncoras e Nefelibatas: aqui.

ESCOLA DE TAGARELAS

   Jean-Paul Sarte introduz “O Estrangeiro”, de Albert Camus, afirmando que a noção de absurdo concebida pelo autor nada tem de original. Já antes, uma «espécie de razão seca, curta e contemplativa», de que Pascal seria exemplo, serviu de lugar-comum ao «pessimismo clássico». É o contexto do homem que aspira à eternidade sabendo-se finito. Tendo a morte por horizonte, a vida adquire o sentido do absurdo. O suicídio seria a solução lógica, não fosse a revolta o recurso mais à mão. O homem absurdo não se suicida, revolta-se. Também podia não se revoltar, acomodando-se. O que será mais próprio do homem absurdo: a revolta ou o conformismo? E neste conformismo não estará o gérmen de toda a transcendência? 
   Além de lhe retirar originalidade, Sartre afirma que «Camus cita textos de Jaspers, de Heidegger, de Kierkgaard, que, aliás, nem sempre parece compreender bem». Talvez não os tenha compreendido como Sartre compreendia, o que não determina que os tenha compreendido menos bem. Compreendeu-os de forma diferente. Um texto não aceita uma única compreensão. A crítica de Sartre é em si mesma absurda, na medida em que compreende «a inutilidade da razão que raciocina» sem lhe reconhecer o dado mais óbvio: o da subjectividade da interpretação. 
   Mais adiante, Sartre acrescenta: «será preciso não ver em “O Estrangeiro” uma obra inteiramente gratuita», como se houvesse nela alguma gratuitidade. O disparate vai ao ponto de lhe imputar uma supostamente perniciosa «familiaridade com o silêncio», para depois acrescentar: «Camus fala muito, em “O Mito de Sísiso” chega a tagarelar». Mas quem cumpre melhor o papel de tagarela senão Sartre com tal introdução? 
   O remate redutor, classificando “O Estrangeiro” como «um curto romance de moralista» ao nível de «um conto de Voltaire», é típico de uma leitura incapaz de olhar para o objecto sem ser em comparação, isto é, tagarelando. Muito do que hoje se produz em termos de crítica literária tem nesta introdução um exemplo antecipador. Sartre foi uma espécie de mensageiro isolado na ilha do pensamento. Críticos vários terão encontrado as garrafas que Sartre largou no mar, lendo-lhe as mensagens sem chegarem a perceber de onde e de quem vinham. Também não é imperioso que o saibam, pois mensagens tais enraízam-se sempre onde medra o ressentimento. Já nem sei se pior que isto é fingir que se ignora, fazer de conta que não se sabe ou omitir por calculismo.

UM POEMA DE RUI BAIÃO

Memento mori

O importante é saber se trabalhar cansa.
Só de me rir continuo a morrer. Morto, e bem morto
na morte esse o teu chip romântico?... Trabalhar cansa,
corrói tudo por dentro, como as ratazanas sabem.
Euseilá, se sou meio cá meio lá, de encontro ao muro,
no chão, ou no sofá. A dívida de tão infra humana, o termo-
-aquecimento, os drones a cert'altura, a geolocalização.
É tudo tão triste, euseilá se um peregrino a fazer químio
faz toda a diferença? Euseilá se faz pena uma cidade
com berças. É só conversa, certos Estados democráticos
idem idem, do wi-fi da tua alma que é tão fraco. Do viral terror,
das doenças terminais. Enfim, morrer, morrer de mais cansa.
Dá trabalho a muita gente, a fechadura romântica!?
Trabalhar, dá vontade d'estar preso, d'abrir os portões ao paiol.
Dar de cabra sem saber, se uma chamada caída,
se um avião desviado. A um não-doente, a comichão política
& exsudativa da nação. O prémio da montanha
é de louvar a descida aos infernos. Dá vontade de bazar
daqui para fora. A correr, a saltar. A pular quando
morro a pedalar. Não trabalhar é imperioso.


Rui Baião, in Barbearia Tiqqun, Frenesi, Setembro de 2017.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

VIVA O CAPITALISMO

   A família de Mollie estava a atravessar uma ponte entre, não apenas dois séculos, mas também duas civilizações. A aflitiva situação da família piorou ainda mais em fins dos anos 1890, quando o governo americano intensificou a sua investida rumo ao auge da campanha de assimilação: a distribuição de lotes. De acordo com esta política, a reserva osage seria dividida em parcelas de sessenta e quatro hectares, em propriedade imobiliária; cada membro da tribo receberia um lote, e o resto do território seria aberto aos colonos. O sistema de lotes, que já fora imposto a muitas tribos, foi concebido para acabar com o antigo modo de vida comunitário e transformar os índios americanos em proprietários de terra - uma situação que, não por acaso, tornaria mais fácil a compra das suas terras.
   Os Osage tinham visto o que acontecera à Cherokee Outlet, uma vasta pradaria perto da fronteira ocidental da reserva osage. Depois de o Governo ter comprado a terra aos Cherokee e esvaziado de gente a região anunciou que, ao meio-dia de 16 de setembro de 1893, um colono poderia reivindicar uma das quarenta e duas mil parcelas de terra - desde que ele ou ela chegasse lá primeiro! Durante dias antes dessa data, dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças tinham vindo de locais tão longínquos como a Califórnia ou Nova Iorque, aglomerando-se ao longo da fronteira; a massa andrajosa, imunda, desesperada, de seres humanos, estendia-se até se perder de vista, como um exército pronto a lutar contra si mesmo.
   Finalmente, depois de as autoridades terem abatido vários «apressados» que tentaram passar a fronteira antes do tempo, soou o tiro de partida - UMA CORRIDA PELA TERRA COMO NUNCA FOI VISTA NO MUNDO INTEIRO, como intitulava um jornal. Um repórter escreveu: «Homens desatavam ao murro até que os mais fracos ficavam por terra. Mulheres gritavam e caíam desmaiadas, correndo o risco de morrerem sob os pés da multidão.» E acrescentava: «Homens, mulheres e crianças jaziam por terra ao longo de toda a pradaria. Aqui e ali, homens lutavam até à morte, reclamando cada um que tinha chegado primeiro a determinado sítio. Navalhas e espingardas eram empunhadas - uma cena terrível e impressionante; não há nenhuma pena capaz de a descrever. (...) Era uma luta em que, de uma maneira muito clara, o que estava em causa era o salve-se quem puder e que valha a lei do mais forte.» Ao cair da noite, a pradaria cherokee estava já reatalhada em pedaços.

David Grann, in Assassinos da Lua das Flores - A Matança dos Índios Osage e o Nascimento do FBI, trad. José Vieira de Lima, Quetzal Editores, Julho de 2017, pp. 69-72. 

FALAR PARA O BONECO


Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...

HERANÇA

Foi no Teatro da Barraca, sentei-me
ao lado de teu pai para ouvir a Cláudia
e a Raquel dizerem os teus poemas.
Tinha anoitecido, o teu irmão estava

de pé com uma bebé ao colo. Ninava-a
ao som das tuas palavras. Poucas pessoas
terão entendido cada um dos versos
com que iluminaste a noite dos teus dias.

Por momentos, abstraí-me de tudo e
de todos. Olhei para o tampo da mesa
onde encontrei uma fralda usada pela tua
sobrinha: vi um suculento limão inteiro.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

WC MAIS SEXY DO MUNDO

“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro, no Louvre ou no Kremlin.”


Rui Tavares, aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #25



   Entre as muitas canções popularizadas por Chet Baker, “Like Someone In Love” ocupa um lugar especial. Composta por Jimmy Van Heusen, com letra de Johnny Burke, foi ao longo dos anos objecto de inúmeras versões. Em 1993, a islandesa Björk Guðmundsdóttir incluiu-a no álbum que acabaria por catapultá-la para a fama internacional.
   Antes de Debut (1993), Björk já tinha editado dois álbuns a solo e colaborara com várias bandas. Os The Sugarcubes serão a mais conhecida. O gosto pela música jazz ficara patente no álbum Gling-Gló (1990), pelo que a versão de “Like Someone In Love” não espantou. Às vezes amo Björk, outras vezes odeio-a. Esta relação bipolar tem na sua origem um preconceito para com o deslumbramento visual que acompanha amiúde as suas produções. O engenho vocal ninguém lho tira, pelo que por vezes lamenta-se o excesso de parafernália visual que se lhe sobrepõe. É como pôr demasiada maquilhagem num rosto naturalmente belo.
   Em Debut, “Like Someone In Love” afirma-se como um momento de irresistível intimismo. Acompanhada por uma harpa, Bijörk canta sobre o som das ondas do mar, depois de no início do tema ouvirmos o sorriso de crianças e o motor de um carro a chegar e a partir. Canta para as estrelas, canta para o mar, canta para o pôr-do-sol, enquanto à sua volta finda mais um daqueles dias que Lou Reed classificaria de “perfect”. Ou será que faz testes de som antes de iniciar uma noite de trabalho num clube nocturno?
   “Like Someone In Love” surge a meio do álbum, como uma espécie de pausa entre temas que percorrem tanto os domínios da pop electrónica, perfeitamente dançáveis, tais como “Big Time Sensuality”, e a elegância de baladas com orquestrações românticas ao género de “Come To Me”. Outro momento igualmente intimista e desnudado no álbum é o tema final, “The Anchor Song”. Já este ano, Björk presta-se a reaparecer com um visual directamente inspirado em obras de literatura fantástica ao estilo nórdico. O disco chama-se Utopia. Prefiro-a desmaquilhada ou como no magnífico tema “Aeroplane”, em busca de um lugar que suplante a solidão de corações ao abandono. 


PAI

A poesia é não só, mas também, um discurso das emoções. Mais do que exprimir sentimentos, resvalando por vezes para o sentimental, o poema, como qualquer outra obra de arte, coloca-nos em contacto com a emoção. Um filme emociona-nos, uma canção emociona-nos, um quadro emociona-nos, uma peça teatral emociona-nos. Porque haveria de ser diferente com o poema? Mau seria que se esgotasse na emoção a razão de ser da obra de arte. Ela instiga a reflexão, aclara o obscuro, introduz-nos e inicia-nos no esotérico, exercita o pensamento, mas não podemos esquecer nunca esta ligação da obra de arte às emoções. Ainda para mais quando se torna evidente a conexão entre as emoções e o pensamento. Podemos julgar que na raiz deste contacto, no que respeita à obra de arte, reside uma ideia de beleza, conquanto aceitemos que essa ideia de beleza não recuse a fealdade enquanto contraponto que reforça o belo. A fealdade é aliada da beleza, na medida em que a sua exposição leva-nos a ansiar pelo seu contrário. Sentimentos tais como a raiva e o ódio exigem-nos um encontro com a solidariedade e com o amor. A tristeza, a alegria, a melancolia, que é mais um estado de alma do que um sentimento, surgem entre os mais universais dos estímulos para a concepção do poema: o amor e a morte. 
A elegia será, provavelmente, a forma poética que melhor interliga o amor e a morte. Carlos Bessa (n. 1967) publicou recentemente "uma elegia" de 33 poemas, em memória de seu pai, falecido no ano de 2016. O título Pai (do lado esquerdo, Maio de 2017) vai directo ao assunto, escusando apetrechos líricos que a situação de luto desvaloriza. Há neste livro poemas arriscados, como os intitulados Mesa Mediterrânica e Percursos, devedores in extremis de uma necessidade de clareza que o título do conjunto sugere. Noutros poemas, o autor ocupa-se na recuperação de memórias remexendo cofres ao abandono, capta as rotinas do pai falecido, caracteriza-lhe a personalidade e constrói-lhe uma história, expõe as últimas horas e rememora situações passadas, numa busca de sentido para a vida que é, ao mesmo tempo, uma tentativa de compreensão d’«O estupor da morte que nos assalta a razão» (p. 23). 
No que de melhor ofereceu à filosofia, Martin Heidegger desenvolveu a ideia do ser enquanto ser para a morte. Sabemos que não teremos a experiência da nossa própria morte, mas a experiência da morte dos outros é, de algum modo, a experiência limite que podemos ter da nossa morte. Tratando-se da morte de um pai, a relação de proximidade intensifica essa experiência. Isso mesmo surge sublinhado num pequeno e belíssimo poema intitulado Espelho: «Dizem que somos parecidos / como quando ao nascer se projectam / laços e afinidades. Devemos ser, / mau grado as tantas diferenças. / Somos de tempos distintos. / Na verdade, tu sempre foste melhor, / mais perto dos outros. Eu hesito, / ainda, como se o nome, o meu, / fosse todo o peso de uma herança» (p. 35). A herança não é aqui apenas a de um nome, nem a que os elos filiais determinam, é igualmente uma herança de valores que a perda obriga a reconhecer com a mesma clareza com que se reconhecem «laços e afinidades». 
Os momentos de tardia declaração de admiração que surgem em alguns destes poemas, sem nunca se perderem num sentimentalismo inócuo, são testemunhos pungentes de uma lição para a vida proferida pela experiência prática da morte: «O corpo está na capela mortuária, / tem de falar com uma funerária. Como / se nos piores momentos a morada da poesia / fosse o silêncio que rompe a noite num ah, / há que agir, que falar, que acordar, que pensar. / É preciso combater a anestesia e / arrumar a dor» (p. 26). Talvez os versos, na sua inutilidade mais do que acusada, denunciada, até apregoada, sirvam pelo menos para isto: arrumar a dor. Assim sendo, é um sinal de arrumação que dos 33 poemas que compõem o livro, em coincidência com a data de nascimento da personalidade invocada, o último tenha por tema precisamente o amor. A morte e o amor, os mais universais dos estímulos para a concepção de um poema, numa elegia ao jeito da síntese que a poesia permite quando é sinal de beleza:

CARTAS, MAPAS E LIVROS

O amor, mil maneiras de enlouquecer, é um aviso.
O que importa é o arrebatamento e esquecer,
não fazer perguntas ao passado, às histórias tristes
e banais, manchadas de ritmos que afugentam.

O amor, como lâmpadas que se enroscam e raízes
que se infiltram e espalham num labirinto de confronto.
Frases encaixadas umas nas outras e associações que
envolvem o corpo num peso sem peso, sem infâmia,

apenas luz, apenas cor. Como naquela solarenga tarde
de frio em que os livros foram nossos aliados
na longa caminhada que nos levou por um circuito
de árvores, ruínas e ruas esburacadas de Ermesinde.

UM POEMA DE CARLOS BESSA

MESA MEDITERRÂNICA

Figos, castanhas, laranjas, tangerinas.
Nêsperas, pêssegos, cerejas, melancia.
Uvas, pêras, bananas, kiwis.
Nozes, avelãs, pinhões, amêndoas.

Tripas, rancho, feijoada, chispe.
Cabidela, leitão, lebre, cabrito.
Agrião, alface, salsa, hortelã.
Cozido e mil e uma maneiras de bacalhau.

Robalo, badejo, solha, tainha.
Enguia, lampreia, abrótea, faneca.
Marmota, carapau, chicharro e sardinha.
Salmão, cavala, truta, pescada.

Salmonete, dourada, sargo, peixe-espada.
Chocos, lulas, polvo, cavaco.
Santola, sapateira, lagosta e camarão.
Queijos, enchidos, mostardas e pão.

Alvarinho, verde branco e tinto.
Douro, Ribatejo, península de Setúbal, Alentejo.
Madeira, Porto, aguardentes velhas.
Moscatel, rum e gin. Prazeres simples.


Carlos Bessa, in Pai, do lado esquerdo, Maio de 2017, p. 12.

PROPOSTA PARA PALAVRA DO ANO

Cativações.

domingo, 12 de novembro de 2017

PANTEÃO DE PAROLOS

Subitamente, um sem número de gente acordou para os jantares no Panteão. Os telejornais abrem com o assunto, chamam a si os comentadores, insistem e persistem e é como se nunca antes se tivesse visto coisa assim. Isto só prova que os mortos que ali repousam são os menos mortos deste país de parolos e de parolices. Que tédio.

EPIFANIAS #33

33

   Passam aos pares e em trios por entre a vida na avenida, caminhando como pessoas com tempo livre num espaço por eles iluminado. Estão na pastelaria, tagarelando, esmagando pequenas construções de pastelaria, ou silenciosamente sentados em mesas junto à porta do café, ou descendo de carruagens com agitados agasalhos suaves como a voz do adúltero. Passam num ar de perfumes: sob os perfumes os seus corpos têm um cheiro quente húmido. . . . . Nenhum homem os amou e eles não se amaram a si mesmos: nada deram por tudo quanto lhes foi dado.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

«Do cavalo… Nada sabemos.»


Nietzsche declarou a morte de Deus. E Deus vingou-se no filme de Béla Tarr. Da mesma maneira que criou o dia e a noite, o céu e a terra, o homem e a mulher, também os destruiu, em seis dias.

Rui Manuel Amaral, sobre O Cavalo de Turim, de Béla Tarr (aqui).

PROFECIA

Que a vida digital sobrevive à vida física, já se tinha tornado evidente e por vezes inquietante. Por isso, o Facebook passou a oferecer um serviço que, mediante as provas do óbito, apaga o perfil dos mortos. Mas nem por isso o Facebook deixou de ser um gigantesco cemitério sempre em expansão, e chegará o momento em que terá mais mortos do que vivos.


António Guerreiro, no Público.

sábado, 11 de novembro de 2017

COMUNISMO HOJE

   O maior problema com que o comunismo se confronta na actualidade não é o inegável anacronismo de muitos dos seus defensores, mas sim o insuportável anacronismo dos seus detractores. Não é possível falar de comunismo hoje como se falava há 100 anos. A crítica aos erros cometidos tem vindo a ser feita quer pela história, quer por muitos dos seus principais actores. Como qualquer outra ideologia, o comunismo presta-se a diversas interpretações e, disso podemos estar certos, será sempre mais fecundo enquanto força inspiradora da acção do que foi nas múltiplas tentativas de ser levado à prática literalmente.
   Certas pessoas falam dos crimes cometidos sob a bandeira do comunismo como se falassem de algo extraordinário. O crime não é próprio das ideologias, como nunca foi das religiões. Os crimes cometidos sob a cruz de Cristo esgotam o cristianismo? Alguma vez o comunismo lançou uma bomba atómica? Esteve o comunismo na origem das duas Grandes Guerras do séc. XX? A democracia burguesa não tem também as suas inumeráveis vítimas disseminadas pelos campos de concentração do capitalismo global, chamem-lhe fábricas ou oficinas terceiro-munditas? Os campos de concentração foram uma invenção comunista? Uns males não legitimam outros, o que é válido tanto para uns como para outros.
   Creio que o maior desafio colocado a um comunista na actualidade é o de levar a cabo um exercício crítico sobre o papel de uma ideologia cujo princípio fundamental é o de libertar o homem da exploração por outros homens, servindo-se das experiências do passado não como fardo mas como lição. A luta é pertinente e impõe-se cada vez mais enquanto necessidade absoluta, algo que a mais recente edição do Web Summit tornou claro com a exibição dos seus engraçados robots neoliberais.
   Também já não está apenas em causa deixarmos de ser explorados, está em causa a possibilidade de continuarmos a ser humanos. Os detractores do comunismo ainda não perceberam isso, encantados que andam com a sua cassete simplificadora da luta comunista. Dizem que é sempre a mesma a nossa cassete, como se, tragicamente, não fosse sempre a mesma a que lhes ouvimos quando pretendem desacreditar uma luta fundamental. A história dos comunistas é feita dessa desacreditação. Foi assim quando lutaram pela libertação dos povos em plenos regimes fascistas, é assim na luta pela dignificação de todos os seres humanos em plenos regimes pseudodemocráticos. 
   Pressentirmos que assim continuará a ser não pode desanimar quem se convença da justiça dos propósitos, antes oferece ao discurso um novo e exigente sentido de clareza. A Guerra Fria pode ter acabado, mas a de uma tacanha tepidez crítica ainda agora começou. 

ERIKA

Para o Miguel de Carvalho

Quantos dedos, Erika, terão enrolado
os teus cabelos? Quantas redacções
terás dado à luz, quantas vezes de um
lado para o outro musicando as tardes

do escritor, do redactor, da secretária?
Estás em promoção no OLX com nome
de boneca, brinquedo antigo vencido
por ecrãs tácteis e outras modernices.

Ainda há quem te afague as barras e dê
uso aos tipos, insistindo na anacrónica
linguagem dos erros sob fitas correctivas.
Somos discípulos do mesmo declínio,


Erika.

PANTEÃO

E depois foram todos para o Panteão rapar ossos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

LER, N.º147, OUTONO DE 2017


Clique na imagem para ver melhor.

DÚVIDA QUE SE IMPÕE

Uma aluna viu uma lagarta no prato da refeição escolar e resolveu filmá-la, para posteriormente divulgar o vídeo nas redes sociais. Por conta disso, está a ser alvo de um processo disciplinar. Quando irá Marcelo ao seu encontro para confortá-la?


Adenda: pela democracia, um abraço também ao desgraçado Duarte Marques. A felicidade não é com ele, que anda sempre a perder oportunidades para ficar calado. Veja-se aqui, via Maria.

NAÇÃO BARATA

   Era uma vez um presidente da república a quem só não acusavam de predador sexual por pudor. Passado todo o seu mandato aos beijinhos e aos braços, seria de prever que alguém um dia o apontasse e dissesse: acuso-te de assédio sexual, ó esfregona de mágoas. 
   Qual não foi o espanto quando, já de avesso o país, acabou por ser o próprio presidente vítima de assédio. Quem acima dele poderia fazer tal coisa? Quem assedia não se encontra sempre por cima da sua vítima? 
   Pois bem, certo dia estava o presidente no seu jardim, a ler o jornal com uma mão e a Bíblia do Lourenço com a outra, quando uma barata começou a esfregar-se nos seus pés, subindo até à canela para entre pêlos poucos cocegar-lhe a pele. Sentindo ligeira comichão, a esfregona de mágoas pousou a Bíblia e levantou a calça. A barata, ágil como é costume nas baratas, correu perna acima até ao testículo descaído de sua eminência. O presidente não queria coçá-los, seria impróprio. Mas não lhe restou senão pousar também o jornal e, baixando as calças, começar a coçar desenfreadamente as virilhas. 
   A barata, desprovida de couto, saltou-lhe para o badalo e do badalo novamente para o chão. O presidente não queria acreditar no que via, acabara de ser assediado por uma barata tonta que logo baptizou, muito afectivamente, de nação. 

UM PROBLEMA DE JUSTIÇA

Independentemente do que motivou a contenda, não se pode ver um agente da autoridade a ser agredido e mandar para casa o agressor. A segurança de todos depende também do respeito que devemos a quem zela por essa segurança. Agora chamem-me fascista. 

O PARADOXO DAS SIMONES


Há a Simone Weil, que faleceu com 34 anos...


...e a Simone Veil, desaparecida este ano com 90. Descubra as diferenças no Público, hoje, página 32 do suplemento Ípsilon. Ou então não há diferença alguma, e foi a segunda quem escreveu estes dois livros publicados recentemente pela Antígona.

BANDA SONORA ESSENCIAL #24


   Apanhei na televisão, por mero acaso, um filme sobre Chet Baker. Não sabia sequer da existência do filme. Robert Budreau realizou, tendo cabido a Ethan Hawke a missão de dar corpo a um dos mais carismáticos jazzman de todos os tempos. Muito abaixo do que Clint Eastwood fez com Bird (1988), recriando a vida de Charlie Parker, o filme de Budreau peca por não conseguir resgatar para o seu interior a grandeza de uma música maior do que a vida. Born to Be Blue (2015) concentra-se na dependência de heroína que perseguiu Chet Baker, deixando quase na penumbra a imortalidade de uma submissão maior chamada música.
   O homem que tocava sempre como se fosse a última vez viveu intensamente a sua tragédia, deslocando-nos quando o ouvimos para a sombra de uma vulnerável existência. Chamamos a isso melancolia, por desconhecermos que nome dar ao que torna bela tamanha tristeza. Baker nasceu no Oklahoma a 23 de Dezembro de 1929, mudando-se com a família para Los Angeles quando tinha dez anos. Aperfeiçoou qualidades musicais no exército até ter sido expulso por deserção. A entrada no mundo do jazz correspondeu a outra forma de abandono, um abandono que foi inteira dedicação à música. As drogas levaram-no à prisão, roubaram-lhe os dentes na sequência de uma rixa com traficantes, afundaram-no numa inimaginável solidão. Uma solidão ultrapassada trazendo por companhia a música, a trompete e a voz, enquanto expressões da uma mesma intimidade a desintegrar-se em partículas de som.
   Quase teve que deixar de tocar, mas reergueu-se. Estabeleceu-se na Europa em meados da década de 1970. Data de 1980 uma das suas últimas gravações que mais aprecio, na companhia do acordeonista Richard Galliano, do pianista brasileiro Rique Pantoja Leite, do baixista Michel Peyratoux e do baterista José Boto. Gravado em Paris, Chet Baker and the Boto Brazilian Quartet (1980) recupera o fraseado intimista de Chet Baker tingindo-o com os tons da bossa nova. Ouvimo-lo trautear em Seila num registo romântico que pode não estar ao nível das gravações dos anos 1950 para a Blue Note, mas oferece ao guerreiro um último sopro de dignidade. "Chet is a tightroper artist playing with space and emptiness”, diz Galliano. O que pode ser traduzido por qualquer coisa como “Chet é um equilibrista que contrabalança entre o espaço e o vazio”. Entendemo-lo quando escutamos a voz e o solo de Forget Full, num ritmo que Chet acompanha aos 50 anos como se tivesse 20. A gente escuta-o e relativiza, que isto da música não é de todo para quem quer… é para quem é.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

PONTEIRO

Pus-me a contar os dias pelos dedos
e às tantas estava transformado em
ponteiro, o dos segundos, acelerado
pela urgência azeda do final de dia.

O leite fervido extravasou os limites
do fogo, um bico enferrujado, como
os ossos das pernas depois de oito
horas a carregar sonhos estrangeiros.

Escuta, pá, de um mudo como eu tens
a haver a dicção mínima da palavra caída
em desuso. E terás por certa a morte
assim que o ponteiro regressar a casa.

«Escrevo, decerto, por qualquer / razão inútil que não vais nunca entender.»

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O BIBLIÓFAGO

Existem várias versões acerca da origem do cravo enquanto símbolo da revolução portuguesa de Abril de 1974. A mais conhecida, talvez seja a de uma rapariga que ofereceu um cravo a um militar depois de este lhe ter pedido um cigarro. Os cravos, trazia-os ela da loja onde trabalhava e que então comemorava um ano de serviço. A loja não abriu, os cravos foram ver passar soldados. Outra versão remete para uma florista, que podia ser a Valéria de um conto de Abel Neves (n. 1956). Temente a Deus, militante comunista, ficou desamparada quando com o passar dos anos ficou a saber que ambos lhe tinham morrido: Deus de morte natural, o comunismo de uma doença infantil. O desamparo é uma das características marcantes em muitas das personagens de O Bibliófago e Mais Historietas Breves (Edições Adab, Abril de 2017), colectânea de contos a merecer muito mais do que ficar esquecida nas estantes atoladas das livrarias. Abel Neves tem vastíssima obra dramática publicada e levada à cena, sendo também autor de livros de poesia, ficção narrativa e ensaio. É um dos nossos mais relevantes escritores vivos, pelo que não se compreende o relativo esquecimento a que parte da sua obra tem sido sujeita. Os contos coligidos em O Bibliófago são apenas mais uma prova da sua destreza narrativa, focados em personagens geralmente verosímeis cuja genuinidade não estorva o extraordinário. De ordinário têm as profissões e as ocupações, sejam floristas ou vigilantes, carteiristas ou talhantes, dedicadíssimos donos de restaurantes, sapateiros... Cumprem a vida em locais facilmente identificáveis, nas ruas de Lisboa, a sua maioria, mas também em Viseu, ou deslocando-se de Mangualde para a capital. Em certo sentido, podemos dizer que estas personagens se identificam com o que do mundo rural migrou para a cidade. As suas acções estão eivadas de sonho, como o segurança “Dentinho” que: «Sonhava com praias na Austrália, veredas acidentadas no Peru, focas e icebergs do árctico, mas também com hotéis de palmeira e jacuzzi e bares de gin tónico, raparigas alegres e desprendidas» (p. 97). A realidade não lhes sacrifica o sonho, não as impede de ficcionar a existência, embora o sonho surja quase sempre desfeito pela monótona quotidianiedade das suas vidas. A excepção são os momentos de transformação, as anomalias, as metamorfoses que incutem na descrição dos factos uma dimensão alegórica deveras cativante. Acontece com O Bibliófago que ofereceu título à colectânea, um literal devorador de livros que morre depois de se perder com as edições baratas destacadas semanalmente nos jornais. A fast-food provoca danos colaterais inimagináveis. Outro caso curioso é o de Franco, criador de suínos que acaba no espeto depois de ele próprio se transformar num porco. Ainda nos domínios da suinicultura encontramos Os Nobres da Betesga, entre os quais um deles ficou com o nariz tão danificado pelo pó dos livros que ao morrer mais parecia «um homorco, um misto de homem e porco» (p. 64). Destaque ainda, pela invulgaridade dos factos, para um pobre cão que à força de ter sido tão tratado como humano aprendeu custosamente a falar para dizer: «Quero voltar a ser cão». A fábula, aliás, é outro dos territórios penetrado amiúde pela imaginação de Abel Neves. No entanto, não é esse o mais interessante dos territórios vislumbrados nestes contos. Prefiro, por exemplo, a docilidade de Pombo, vigilante profissional que durante as férias faz tudo para agradar à sua Genoveva: «Ele e as estrelas eram difíceis de compreender. Por mais que abrisse o olhar à noite, por mais que quisesse ser outro sendo ele, Pombo continuava o pacato vigilante do centro comercial» (p. 81). Mas é neste continuar que ele se torna especial, por nos oferecer com o seu exemplo a história de um homem reduzido ao papel que lhe reserva a vida: «A vida podia ser isso também, uma ocupação, os dias continuando tão indiferentes como a natureza aos seus nomes» (p. 176). Ao mostrar-nos assim a vida, Abel Neves faz-nos descer a uma realidade que, afinal, é a nossa mais humana condição, uma realidade inacessível a quem a mire pelos binóculos da lei e da ciência. Nestes contos, o exemplo surge da observação directa e participativa. Afinal, eles germinam do palco onde todos nós somos actores, com mais ou menos jeito para manigâncias, com mais ou menos truques, com dissemelhantes graus de capacidade para a subversão dos papéis. A páginas 57 damos mesmo com um actor de profissão, desafia alguém do público a pegar numa pistola que traz consigo e a disparar sobre ele. Diz: «O interessante no teatro é que se eu vos disser que a minha arma está carregada vocês acreditam que está, e também faz parte do jogo saber que esta arma é minha, mas não é» (p. 57). Chamem-lhe bluff ou prestidigitação, chamem-lhe cinismo ou representação, este jogo é, em suma, o que melhor define a existência de todos quantos passam a vida a fingir que não vão morrer.