sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

PALAVRAS PARA QUÊ?

 
Em 2022 o programa do Chega foi criticado por só ter 9 páginas. Para quê um programa que ninguém lê? Não temos o TikTok, o X, o Facebook, o Instagram à disposição? Ora aí está, nivelemos por baixo, o mais baixo possível, até as palavras implodirem formando imagens muito lindas e apelativas e sedutoras. Sloganes, precisamos de sloganes. Estou a pensar escrever um livro só de sloganes, um tratado lógico-filosófico à base de frases de efeito. Estou rendido ao soundbite. A nossa aposta é no mínimo de palavras, no máximo de imagens, na profilaxia da eficiência elíptica. A bem das pessoas, que não têm tempo para ler, vivem num fastio de afazeres, estão esgotadas. Um dia, deixaremos de comunicar por palavras. A inteligência artificial fará isso por nós. Sejamos artificiais, joguemos Candy Crush Saga. É lá que está o futuro e o futuro é aqui, é agora. No post, curto, breve, incisivo. Este já vai longo, é defeito de fabrico.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

TRUMP DOS PEQUENINOS

 


Já tínhamos o Portugal dos pequeninos, temos agora também de gramar com o Trump dos anões, o Bolsonaro dos minorcas. Sempre esta baixeza, esta pequenez, esta mediocridade atroz. Como é possível haver quem se entusiasme com este aldrabão? Quem veja nele o líder do que quer que seja? É preciso um país de rastos para haver quem confie nesta criatura rastejante que passa o tempo todo a mentir, a aldrabar, a manipular. Ao nível disto, por cá, só mesmo o Carvalho que foi presidente do SCP e acabou como concorrente num Big Brother. Que miséria, que tristeza.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

DESCONSOLO

 

Quitéria está desconsolada, não houve um jornalista, um único, que tivesse perguntado isto a André Ventura:

- O que acha dos apoios do Estado aos media?

- O que faria com o serviço público de media português se fosse primeiro-ministro?

- Se for primeiro-ministro, revoga a lei da IVG?

- Numas eleições em que fossem candidatos Donald Trump e Barack Obama, em quem votaria?

- André Ventura quer usar bens de corruptos antes da condenação. Como sabe se uma pessoa é corrupta antes de ser condenada? E se vier a provar-se que o acusado é inocente e as suspeitas são infundadas? Deve o Estado ser penalizado por isso? Se sim, não podem as acusações de corrupção transformar-se num negócio para sacar dinheiro ao Estado?

Etc...

- Gosta de espargos?


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

POLÍTICA DO ESPECTÁCULO

 
O espectáculo está montado, com a conivência dos protagonistas: políticos, jornalistas, comentadores, manifestantes. Toda a gente se presta ao ridículo nesta luxuosa produção à americana, uma produção que não presta. É deprimente assistir à caminhada para o abismo com tanto cego iluminado. Distância, preciso de distância disto tudo, já não vou para novo e ainda tenho "Em busca do tempo perdido" para ler.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

MÁQUINA FANTÁSTICA

 

Conta-se que ao ver a encenação da sua coroação filmada por Meliés, o rei de Inglaterra terá exclamado: «Que máquina fantástica!» Capaz de mostrar tudo, até o que não aconteceu. Só o rei era real, tudo o mais era cenário e actores franceses. Em 1962, no magnífico “The man who shot Liberty Valance” — e repare-se no duplo significado de shot — o mestre John Ford ofereceu-nos a maior desmontagem da sua própria arte, com aquela cena final em que os homens da imprensa discutem a melhor forma de dar uma notícia. A mais vantajosa. Optaram por queimar a verdade da história sobre quem havia, de facto, matado Liberty Valance, pois sabiam que quando a lenda se torna um facto é a lenda que deve ser impressa. Eis-nos no pântano da manipulação dos factos, da informação, das imagens que sustentam os factos. Chegámos a um ponto sem retorno. Das duas hipóteses que restam, nenhuma é especialmente animadora. Ou engolimos tudo acriticamente ou não acreditamos em nada. Temo que faltem filtros, o sentido crítico que oferece distanciamento e instaura a dúvida interrompendo o fluxo da mentira. Já não se trata de distinguir o verdadeiro do falso, a verdade da mentira, mas tão só do modo como lidamos com as nossas percepções sob o fogo cruzado das perspectivas subjectivas de quem dispara o que é vendido como informação. Ou acreditamos e somos ludibriados, aldrabados, ou não acreditamos em nada e ficamos isolados, embrutecidos. O mais normal será a paranóia, a teoria conspirativa ao rubro. Com o advento da Inteligência Artificial isto será sempre a piorar, não há retorno possível. A opção terá de ser a de não confiar em nada que não traga o selo de objecto artístico, porque aí a verdade é inquestionável: sabemos que estamos diante de uma representação, estamos precavidos pelo objecto em si, não mente, não sugere ser uma coisa que não é, não simula nem dissimula, é o que é. O mais, seja na TV, seja na rede, seja em qualquer outro suporte, é e será cada vez mais objecto de desconfiança. O que nos coloca um problema terrível na nossa relação com a verdade, na nossa relação de confiança com o jornalismo, por exemplo, cada vez mais também sujeito à encenação espectacular que o consumismo desenfreado promove e as audiências determinam. Está desbravado o caminho por onde a mentira desfilará com pompa e circunstância.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

DAR ÀS COUSAS QUE VIA OUTRO SENTIDO

 


Vinde cá, meu tão certo secretário
Dos queixumes que sempre ando fazendo,
Papel, com quem a pena desafogo!
As sem-razões digamos, que vivendo,
Me faz o inexorável e contrário
Destino, surdo a lágrimas e a rogo.
Lancemos água pouca em muito fogo;
Acenda-se com gritos um tormento
Que a todas as memórias seja estranho.
     Digamos mal tamanho
A Deus, ao Mundo, à gente, e, enfim, ao vento,
A quem já muitas vezes o contei,
Tanto debalde como o conto agora;
Mas, já que pera errores fui nacido,
Vir este a ser um deles não duvido.
E, pois já de acertar estou tão fora,
Não me culpem também se nisto errei.
Sequer este refúgio só terei:
Falar e errar, sem culpa, livremente.
Triste quem de tão pouco está contente!
 
Já me desenganei que de queixar-me
Não se alcança remédio; mas quem pena
Forçado lhe é gritar, se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
A voz pera poder desabafar-me,
Porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará, sequer, que fora mande
Lágrimas e suspiros infinitos,
Iguais ao mal que dentro na alma mora?
     Mas quem pode alga hora
Medir o mal com lágrimas ou gritos?
Direi, enfim, aquilo que me ensinam
A ira, a mágoa, e delas a lembrança,
Que outra dor é por si mais dura e firme.
Chegai, desesperados, pera ouvir-me,
E fujam os que vivem de esperança,
Ou aqueles que nela se imaginam,
Porque Amor e Fortuna determinam
De lhes deixar poder pera entenderem,
À medida dos males que tiverem.
 
Quando vim da materna sepultura
De novo ao Mundo, logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado;
Com ter livre alvedrio, mo não deram;
Que eu conheci mil vezes na ventura
O milhor e o pior segui, forçado.
E pera que o tormento conformado
Me desse coa idade, quando abrisse,
Inda minino, os olhos, brandamente,
     Mandam que, diligente,
Um Minino sem olhos me ferisse.
As lágrimas da infância já manavam
Com a saudade namorada;
O som dos gritos, que no berço dava,
Já como de suspiros me soava.
Coa idade o Fado estava concertado:
Porque, quando, por ‘caso, me embalavam,
Se de Amor tristes versos me cantavam,
Logo me adormecia a natureza,
Que tão conforme estava coa tristeza.
 
Foi minh’alma a fera; que o Destino
Não quis que mulher fosse a que tivesse
Tal nome pera mim; nem a haveria.
Assi criado fui, porque bebesse
O veneno amoroso de minino,
Que na maior idade beberia,
E, por costume, não me mataria.
Logo então vi a image e semelhança
Daquela humana fera tão fermosa,
     Suave e venenosa,
Que me criou aos peitos da esperança,
De quem eu vi depois o original,
Que de todos os grandes desatinos
Faz a culpa soberba e soberana.
Parece-me que tinha forma humana,
Mas cintilava espíritos divinos.
Um meneio e presença tinha tal,
Que se vangloriava todo o mal
Na vista dela; a sombra, coa viveza,
Excedia o poder da Natureza.
 
Que género tão novo de tormento
Teve Amor, sem que fosse não somente
Provado em mim, mas todo executado!
Implacáveis durezas, que ao fervente
Desejo, que dá força ao pensamento,
Tinham de seu propósito abalado,
E corrido de ver-se e injuriado;
Aqui, sombras fantásticas, trazidas
Dalgas temerárias esperanças;
     As bem-aventuranças
Também nelas pintadas e fingidas.
Mas a dor do desprezo recebido,
Que todo o fantasiar desatinava,
Estes enganos punha em desconcerto.
Aqui o adivinhar e o ter por certo
Que era verdade quanto adivinhava,
E logo o desdizer-me, de corrido;
Dar às cousas que via outro sentido,
E pera tudo, enfim, buscar rezões;
Mas eram muitas mais as sem-rezões.
 
Não sei como sabia estar roubando,
Cos raios, as entranhas, que fugiam
Pera ela por os olhos sotilmente!
Pouco a pouco invisíveis me saíam,
Bem como do véu húmido exalando
Está o sotil humor o Sol ardente.
O gesto puro, enfim, e transparente,
Pera quem fica baixo e sem valia
Este nome de belo e de fermoso;
     O doce e piadoso
Mover de olhos, que as almas suspendia,
Foram as ervas mágicas que o Céu
Me fez beber; as quais, por longos anos,
Noutro ser me tiveram transformado,
E tão contente de me ver trocado
Que as mágoas enganava cos enganos;
E diante dos olhos punha o véu,
Que me encobrisse o mal, que assi creceu,
Como quem com afagos se criava
Daquela pera quem crecido estava.
 
Pois quem pode pintar a vida ausente,
Com um descontentar-me quanto via,
E aquele estar tão longe de onde estava;
O falar sem saber o que dezia;
Andar sem ver por onde, e juntamente
Suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava,
E aquela dor, que das tartáreas águas
Saiu ao Mundo, e mais que todas dói,
     Que tantas vezes sói
Duras iras tornar em brandas mágoas;
Agora, co furor da mágoa irado,
Querer e não querer deixar de amar;
E mudar noutra parte, por vingança,
O desejo, privado de esperança,
Que tão mal se podia já mudar;
Agora a saudade do passado
Tormento, puro, doce e magoado,
Que converter fazia estes furores
Em magoadas lágrimas de amores?
 
Que desculpas comigo só buscava,
Quando o suave Amor me não sofria
Culpa na cousa amada, e tão amada!
Eram, enfim, remédios que fingia
O medo do tormento, que ensinava
A vida a sustentar-se de enganada.
Nisto a parte dela foi passada,
Na qual, se tive algum contentamento,
Breve, imperfeito, tímido, inocente,
     Não foi senão semente
Dum comprido, amaríssimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
Estes passos vãmente derramados,
Me foram apagando o ardente gosto,
Que tão de siso n’alma tinha posto,
Daqueles pensamentos namorados
Com que criei a tenra natureza,
Que, do longo costume da aspereza,
Contra quem força humana não resiste,
Se converteu no gosto de ser triste.
 
Destarte a vida em outra fui trocando;
Eu não, mas o destino fero, irado,
Que eu, inda assi, por outra a não trocara.
Fez-me deixar o pátrio ninho amado,
Passando o longo mar, que ameaçando
Tantas vezes me esteve a vida cara.
Agora exp’rimentando a fúria rara
De Marte, que nos olhos quis que logo
Visse e tocasse o acerbo fruito seu.
     E neste escudo meu
A pintura verão do infesto fogo.
Agora, peregrino, vago, errante,
Vendo nações, linguagens e costumes,
Céus vários, qualidades diferentes,
Só por seguir com passos diligentes
A ti, Fortuna injusta, que consumes
As idades, levando-lhes diante
Ũa esperança em vista de diamante,
Mas, quando as mãos cai, se conhece
Que é frágil vidro aquilo que aparece.
 
A piedade humana me faltava,
A gente amiga já contrária via,
No perigo primeiro; e no segundo,
Terra em que pôr os pés me falecia,
Ar pera respirar se me negava,
E faltava-me, enfim, o Tempo e o Mundo.
Que segredo tão árduo e tão profundo:
Nacer pera viver, e pera a vida
Faltar-me quanto o mundo tem pera ela!
     E não poder perdê-la,
Estando tantas vezes já perdida!
Enfim, não houve transe de fortuna,
Nem perigos, nem casos duvidosos,
Injustiças (daqueles que o confuso
Regimento do mundo, antigo abuso,
Faz sobre os outros homens poderosos),
Que eu não passasse, atado à fiel coluna
Do sofrimento meu, que a importuna
Perseguição de males em pedaços
Mil vezes fez, à força de seus braços.
 
Não conto tanto os males, como aquele
Que, depois da tormenta procelosa,
Os casos dela conta em porto ledo;
Que inda agora a Fortuna flutuosa
A tamanhas misérias me compele,
Que de dar um só passo tenho medo.
Já de mal que me venha não me arredo,
Nem bem que me faleça já pretendo,
Que pera mim não vale astúcia humana;
     Da força soberana,
Da Providência, enfim, divina pendo.
Isto que cuido e vejo, às vezes tomo
Pera consolação de tantos danos.
Mas a fraqueza humana, quando lança
Os olhos no que corre e não alcança
Senão memória dos passados anos,
As águas que então bebo e o pão que como
Lágrimas tristes são, que eu nunca domo,
Senão com fabricar na fantesia
Fantásticas pinturas de alegria.
 
Que, se possível fosse que tornasse
O tempo pera trás, como a memória,
Pelos vestígios da primeira idade,
E, de novo tecendo a antiga história
De meus doces errores, me levasse
Pelas flores que vi da mocidade;
E a lembrança da longa saudade
Então fosse maior contentamento,
Vendo a conversação leda e suave
     Onde a e outra chave
Esteve de meu novo pensamento,
Os campos, as passadas, os sinais,
A vista, a neve, a rosa, a fermosura,
A graça, a mansidão, a cortesia,
A singela amizade, que desvia,
Toda a baixa tenção, terrena, impura,
Como a qual outra alga não vi mais…
Ah! vãs memórias! onde me levais
O débil coração, que inda não posso
Domar bem este vão desejo vosso?
 
No mais, Canção, no mais; que irei falando,
Sem o sentir, mil anos. E se acaso
Te culparem de larga e de pesada,
Não pode ser (lhe diz) limitada
A água do mar em tão pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
Co gosto do louvor, mas explicando
Puras verdades já por mim passadas.
Oxalá foram fábulas sonhadas!
 
Luís de Camões (1524? – 1580?)


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

UMA PESSOA ENTRA NUM BAR

 


Maike Bispo, Uma Pessoa Entra num Bar, Paper View.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

VEM NO PÚBLICO

A provedora geral militar de Israel Yifat Tomer-Yerushalmi escreveu, numa carta à procuradoria-geral militar, que encontrou casos de “conduta imprópria” de soldados na Faixa de Gaza e que alguns deles “ultrapassam a esfera disciplinar e passam o limite para o criminal”, cita o diário israelita Haaretz. Tomer-Yerushalmi elencou uma série de acções: “Declaração não apropriadas que encorajam fenómenos não apropriados, uso de força sem justificação operacional, incluindo contra detidos, pilhagem, que inclui o uso ou remoção de propriedade privada com objectivos não operacionais, e a destruição de propriedade civil de modo contrário a ordens”.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

PÁTRIA

 
A minha pátria é a língua portuguesa, grega na música, latina no amor, árabe no álcool, castelhana na guerrilha, com francês no croissant, a tocar italiano no violino, alimentada a bifes ingleses, com mergulhos indígenas no Tejo.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

COSTINHA

Eu não percebo nada disto. Então estes gajos estão a criticar o Raimundo por não ter o que criticam o Ventura de ter? 
Cipriano, no café Estrelícia. Com a televisão sintonizada no Costa piqueno.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

DIZ QUITÉRIA

 Entre Montenegro e Ventura, a minha preferência vai para os Unidos da Tijuca.

APARECEU NO MEIO DO NADA, O NADA É UMA CAIXA DE SURPRESAS

 


 

«O artista estava a morrer de sede. Encheu um copo de água, pegou no copo, levou-o à boca e começou a beber. Sentindo algo estranho a escorrer-lhe pela garganta, interrompeu o trago e pousou o copo. Olhou-o, perscrutou-o, verificou que lhe faltava um pouco de vidro. Ao copo. No entanto, continuava cheio. Nem um pingo de água a menos. Mais estranho era a água não verter pelo pedaço de vidro em falta, como se estivesse congelada. Não estava. Conservava-se no estado líquido natural, ele remexeu-a com o dedo para se certificar. Voltou a levar o copo à boca e a mesma sensação se repetiu. Olhou de novo para o copo, desta feita sem o pousar, aproximado os olhos e rodando-os sobre uma das mãos. Faltava mais um pedaço de vidro. Bebeu mais um gole. Novo teste. Concluiu não estar a beber água, matava a sede com vidro, o vidro de um copo que se desfazia quando era levado à boca. Incrível era a água não desaparecer, manter-se intacta. Por vezes o artista sentia-se desconfortável, aquela sensação de haver sido trocado, de não estar bem consigo mesmo, de haver uma cisão qualquer, um corte, um lapso, um hiato, uma fenda entre si e o seu corpo, entre o corpo e a mente que o corpo albergava, entre os pensamentos e o resto, a carne, os ossos, a máquina. Talvez fosse defeito, um qualquer defeito de nascença. Mas agora isto, um copo a desfazer-se na boca, liquefazendo-se pela garganta como se água fosse. Ter sido trocado, não à nascença, mas a meio do percurso, era a hipótese que se afigurava mais verosímil. Que idade teria quando se deu a troca, em que momento se desviara de si mesmo? E agora, o que era ele: o copo ou a água, o recipiente ou o conteúdo, a forma, o recheio? Não sabia. Só estava certo de que a sede continuava e por isso beberia o copo até ao fim, até ficar diante de uma porção de água com a forma de copo. Como que sólido em estado líquido, todo ele dentro, interior, nada de fora, nada de corpo, nada de copo.»

domingo, 11 de fevereiro de 2024

ÀS DUAS HORAS DA MANHÃ

 
Em “Às Duas Horas da Manhã”, o alemão Falk Richter questiona os efeitos do trabalho e da tecnologia na vida íntima de pessoas cujas relações se apresentam congeladas. O mundo globalizado é o de uma rede geradora de solidão que torna confusa a fronteira entre o real e o virtual. Num teatro que recupera a função de questionar a vida na cidade, este é também um momento de catarse, um grito contra as democracias liberais rendidas ao capitalismo selvagem sufocante e esmagador da identidade. Levada à cena, pela primeira vez, em Frankfurt, no mês de Fevereiro de 2015, esta peça tem por base momentos de inquietação e de insónia que espoletam crises latentes de sentido. Os problemas existenciais das personagens revelam-se descontrolados, desgastam os indivíduos levando-os a situações de esgotamento nervoso. A busca de um outro real entra em conflito com as exigências do trabalho, a pressão relacionada com o tempo, a optimização e eficiência dos procedimentos, uma exigência de identificação plena com a dimensão laboral que se intromete nas vidas íntimas das personagens e nas suas relações interpessoais. «Porque se trata só de AVANÇAR E MELHORAR, não vale a pena parar por coisa nenhuma e muito menos por causa de um ser humano e especialmente para estar a seu lado», diz Marc em registo de palestra motivacional. O que é a autenticidade num mundo que impele os seres humanos para o vazio da auto-representação, da dissimulação, do disfarce, da uniformização? Como autor e encenador, Richter desenvolveu este projecto teatral a partir dos seus próprios textos em conjunto com músicos, actores e bailarinos. A música original foi composta pelos islandeses Helgi Hrafn Jónsson e Valgeir Sigurðsson, sendo o segundo um reconhecido produtor que trabalhou com artistas de renome internacional tais como Björk, Radiohead, Sigur Rós.

ANTI-ANTI

Tanta gente anti isto, anti aquilo. Eu cá sou toda pro. De procrastinar.
 Diz a Quitéria.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

A HISTÓRIA DE UMA ESPÉCIE DE DEBATE

 


Paulo Raimundo está nos antípodas daquilo que a comunicação social espera na actualidade, ou seja, o espectáculo. É um homem simples e sério, cujas convicções políticas podem ser debatidas, mas cujos valores éticos não estão sujeitos a debate. Ontem teve à sua frente o que mais agrada à imprensa portuguesa, o espectáculo, a mentira, a demagogia, o chiste, a provocação. 


Alguns comentadores acusam Raimundo de falta de energia, que não tem verve nem respostas na ponta da língua como se os problemas não fossem complexos e exigissem reflexão. É claro que, nesses aspectos, Ventura está em vantagem, tem doutoramento em populismo na escola mediática com tese no comentário futebolístico (esse antro de fanatismo onde tudo é permitido, da agressividade ao insulto, deste à violência). Só que ontem foi metido no bolso, e a expressão não é minha. É de uma jornalista que nunca se furtou a críticas ao PCP. 

Raimundo não só desmentiu com clareza mentiras que circulam sobre o PCP, como expôs propostas honestas. Ao contrário de Ventura, que, demagógico como sempre, exibiu propostas inexequíveis, disparou insultos e provocações como bullie que é, e meteu o rabo entre as pernas quando confrontado com a verdade: Quanto é que o Chega pagou de impostos, perguntou Raimundo. Não sei, engoliu Ventura. Vamos todos ficar à espera da resposta. O debate foi mau? Foi. Nenhum debate com Ventura pode ser bom. E Raimundo está a começar, precisa de traquejo. Mas pelo menos serviu para, muito claramente, demonstrar onde estão a seriedade e a desonestidade.

Para uma leitura avisada dos acontecimentos, ler aqui o relato: https://www.dn.pt/7080208626/raimundo-veio-acabar-com-uma-mentira-ventura-acusou-o-pcp-de-morte-roubo-e-destruicao/

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

A PROPÓSITO DE ASSASSINOS

 
"Deus, Pátria, Família": A frase do Estado Novo repetida por André Ventura. Isto era título em 2021. Em 2022, passou a ser assim: Vários deputados do Chega fazem referências a Salazar e ao Estado Novo. Em 2024, o mentiroso mor refere-se em debate aos assassinatos do PCP. 50 anos depois do 25 de Abril de 1974, ainda é preciso lembrar quem foi realmente assassinado.










VEM NO THE GUARDIAN

 
“Destruição massiva” de infra-estruturas civis pelas FDI em Gaza equivale a um “crime de guerra”, diz alto comissário da ONU. Volker Türk, o alto comissário da ONU para os direitos humanos, disse na quinta-feira que a destruição generalizada pelas IDF das infra-estruturas civis em Gaza “equivale a uma grave violação da Quarta Convenção de Genebra e a um crime de guerra”. Türk criticou a “extensa destruição de propriedade, não justificada pela necessidade militar e realizada de forma ilegal e desenfreada”.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

DEBATES POSSÍVEIS

 
Luís Montenegro não quer debater com PCP e Livre, manda o Nuno Melo pagar a despesa. Resta saber com quem irá debater Gonçalo da Câmara Pereira. Tino de Rans já se disponibilizou.

EM NOME DA TRANSPARÊNCIA

 
Quitéria espera que a SIC convide o José Milhazes a avaliar os debates da CDU. Só assim estarão garantidas a isenção e imparcialidade procurada pelo carnaval de Carnaxide, ó lá o que é.

VOTA FARIA

 
Quitéria propõe um debate entre João Adelino Faria e André Ventura, moderado pelo Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita com VAR.