terça-feira, 4 de outubro de 2022

ESCASSEZ DE ÁGUA

 
"Seca no Algarve coloca abastecimento em risco: água pode faltar nas torneiras", lê-se no Público. "Ufa" - comenta Quitéria-, "enquanto faltar nas torneiras, estamos todos muito bem. Pior seria se nos faltasse nas piscinas e nos campos de golf."

BOLACHAS

 
O badocha da Coreia do Norte também está deserto para arranjar porcaria. Espero que a já prometida "resposta robusta" passe por enviar-lhe um carregamento de bolachas, um cargueiro com contentores cheios de bolachas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

GLOVO DE OURO

 
José Milhazes chamou nomes ao Dino d’Santiago por este aceitar tocar na Festa do Avante. O Dino d’Santiago não só foi tocar à Festa do Avante, como fez um statement da sua presença na Festa. Ontem, subiu ao palco para receber um Globo de Ouro no canal que o difamou. Falou de um projecto educativo de inclusão em que está envolvido. Na plateia, o parvalhão do Milhazes engoliu o sapo. O Dino levou o Globo, o Milhazes mandou vir mortadela pela Glovo.

domingo, 2 de outubro de 2022

ÁTRIO

 


Teatro da Rainha, Caldas da Rainha, Portugal.

sábado, 1 de outubro de 2022

WARGASM

 


Hoje, Dia Mundial da Música, foi também dia de teatro. "Police Machine", de Joseph Danan, estreia dia 3 de Novembro no Teatro da Rainha. A certa altura, há umas bandas de rock feminino pelo meio. Nos idos de 1990, chamavam-lhes "all-female bands". Cá por casa moram algumas, tais como as L7, as japonesas Shonen Knife, Savages e as magníficas The Raincoats, da portuguesa Ana da Silva. Não vale bandas como as Hole ou The Breeders, maioritariamente femininas mas com gajos. Têm de ser 100% clitorianas. A fotografia é do ensaio, com as actrizes Marta Taveira, Beatriz Antunes, Mafalda Taveira e Nunita Machada em modo wargasm.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

TEARS COME FROM HEAVEN (1965)

 


Sentada no tronco de uma árvore abatida, observa os carros que circulam em direcções opostas fazendo sinais de luzes, buzinando amiúde, reduzindo a velocidade para logo acelerarem bruscamente. Espera por uma viatura que estacione a seu lado, um vidro a abrir-se por alguém que pergunte: beijinhos, quanto é? Enquanto ninguém pára, ela mantém-se numa posição mais discreta do que seria suposto em quem faz do corpo isco para matar a fome. Por vezes assemelha-se a um desses trabalhadores rurais que descansam pensativamente à sombra de uma árvore, membros superiores sustentados sobre as pernas dobradas, as mãos cruzadas à frente dos joelhos, a cabeça inclinada para o chão. A certa altura pareceu-me vê-la fechar os olhos. Foi nesse instante que lhe ouvi o pensamento, instante que me pareceu eterno, sem raiva nem frustração a tingir as imagens e os sons formando-se no interior da mente: ossos brotando da terra como flores a desabrochar, corolas abrindo-se na ponta dos ossos e no androceu um sangue espesso que abelhas mugindo como vacas lambiam avidamente. Blackout. Do escuro proveio um som luminoso como o relâmpago numa noite de tempestade, um som que não era de trovoada nem de vento nem de chuva a cair, um som lento e arrastado talvez como a água de um ribeiro quase seco dissipando-se até aos últimos pingos de uma fonte ressequida. Depois, com os olhos ainda fechados, ouvi-a assobiar qualquer coisa que me pareceu ser do baterista Pete La Roca. Como é possível? — pensei. Não que assobiasse tão bem nem que fossem tão clarividentes os seus pensamentos, mas como era possível eu ouvi-los e, ouvindo-os, vê-los? Onde estava eu? Onde me encontrava? Fora ou dentro dela?

terça-feira, 27 de setembro de 2022

DIAGNÓSTICO

 
Um povo elitista e altivo, orgulhoso da chico-espertice, cultor da estupidez e partidário da manhosice. Elites populistas e manhosas, endemicamente hipócritas nos costumes e convictamente arrivistas. Um proletariado amorfo e resignado. Gente cada vez mais individualista, reduzida aos lenitivos de um conforto consolador: smartphone, smart tv, smartmobile... A inteligência transferida para os gadgets, porque pensar é cansativo e criticar é inútil. Multidões vencidas pelo cansaço, outras pela indigência, outras tonificando músculos nos ginásios para conseguirem responder aos desafios da proto-pós-modernidade. Responder fisicamente, que o cérebro é cada vez mais músculo e cada vez menos intelecto. Este precisa de palavras. Como é de todos sabido, não há palavras. Simplesmente não há palavras.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

(GI)ORGIA DE FACHOS

 
Os senhores da UE não gostavam do Varoufakis, enquanto não fizerem da Grécia o que queriam não descansaram. Foram condescendendo com a Polónia e as reformas num sistema judicial cuja independência ficou "altamente comprometida". Têm sido condescendentes com Viktor Orbán na Hungria, apesar de reclamarem de "insuficientes medidas anticorrupção". Na Suécia, a extrema-direita xenófoba conseguiu mais de 20% dos votos. São os Democratas da Suécia. Na Holanda, o ano passado, a extrema-direita nunca teve tantos votos. Idem para Marine Le Pen, em França. Por cá a mesma coisa. Agora foi Itália e outros se seguirão. Entretanto, cidadãos de pleno direito, num mundo que há muito garante haver abolido a escravatura, continuam a amontoar-se em campos... de concentração? de refugiados? de migrantes? Grécia, Itália, França, Espanha têm sido o muro dessa gente que levantou um problema para o qual parece não haver solução, a não ser devolvê-los à proveniência, deixá-los naufragar no Mediterrâneo, detê-los em "campos de acolhimento". A extrema-direita continuará a crescer, diabolizando os migrantes como outrora diabolizaram os judeus, gritando muito em nome de um Deus que em pleno século XXI, a despeito de progresso científico e tecnológico, permanece nas cabeças das pessoas com mais clareza do que a tabuada. A fé está a ganhar terreno à razão, as novas tecnologias não ajudam e uma comunicação social subserviente também não. A máquina de estupidificação é fortíssima e será imparável, alimenta-se tanto da letargia e da apatia de uns como do fanatismo de outros. Se o presente é dos hipócritas, o futuro será, sem dúvida nenhuma, dos arrivistas. Meteram o socialismo na gaveta e hipotecaram o estado social a bem da saúde dos mercados. Pois agora aguentem a doença das sociedades.

domingo, 25 de setembro de 2022

NATUREZA, LÍNGUA E AMOR

 
Trabalho é trabalho, não é actividade. Um trabalhador é um trabalhador, não é um colaborador. Resistência é resistência, não é resiliência. Censura é censura, não é cancelamento. Dito isto, não podemos abdicar do direito ao prazer. Não podemos abdicar do direito à alegria. Não podemos abdicar de poder abdicar do que nos intimida, constrange, limita, diminui. A liberdade é um direito, não é uma benesse. A Deus, Pátria e Família eu preferirei sempre a Natureza, a Língua e o Amor.

sábado, 24 de setembro de 2022

DOIS LIVROS DE ANTÓNIO FERRA

 


   Dois livros bastante diferentes um do outro, publicados ambos este ano: “A Poesia Ri Unida” (Eufeme, Maio de 2022) e “Lengas e Narrativas” (Edições Húmus, Junho de 2022). Comecemos pelo primeiro. Tal como o título indica, num humor desimportantizante característico do autor, trata-se de uma reunião, não da obra anteriormente editada em livro, mas de poemas dispersos por revistas publicadas entre 2009 e 2021. A excepção é um inédito intitulado “Dores”, poema pungente em que o mal-estar contagioso da actualidade vem à tona com fúria desmedida: «e eu sem potência para apagar filhos da puta» (p. 37). Não é comum nesta poesia temperaturas coléricas tão elevadas, sendo mais frequente o recurso ao riso enquanto sabotagem da realidade decadente e de um quotidiano pulverizado de personagens por vezes picarescas, noutras ocasiões risíveis, amiudadamente desvalidas. Portanto, a poesia que ri neste volume transborda os domínios da ironia e da sátira reconhecíveis noutros momentos da obra de António Ferra (n. 1947). Mantém-se, no geral, a paisagem suburbana enquanto palco privilegiado das observações do sujeito poético, mergulhado num “modo funcionário de viver” onde recolhe quadros de uma actualidade estrangeirada. O teatro é o da «tirania / num campo de refugiados suburbanos» (p. 11), por vezes em poemas sequenciais que retratam com linguagem militantemente coloquial «o constrangimento dos sonhos, / a severidade das sombras» (p. 48).
   Dá-se especial atenção nestes poemas aos pobres, aos excluídos, aos exilados, aos humilhados e ofendidos, a essa massa de gente infinda usada e usurpada pelas forças que dessa gente se servem esgotando-a, tornando-a impotente e incapaz. É curioso, mais ainda pela dispersão inerente ao conjunto, como em diversos destes poemas surge essa imagem de fraqueza que vai do sentimento de «culpa de não combater» (p. 11) à falta de «voz para gritar a injustiça» (p. 48), desembocando no apelo quase desesperado do poema “Contaminação”: «não feches o riso / que se abre nas tuas mãos abertas, / não feches o grito de revolta / quando a janela se abre aos odores de um fogo extinto» (p. 52). Uma dúvida a esclarecer: o riso é arma ao serviço da revolta ou solução para a impotência?
   Bem diferente, em todos os aspectos, é o segundo livro acima aludido, introduzido por uma explicação prévia à laia de prefácio: «Trata-se de poemas com deliberada intenção de trazer à luz os mais sombrios actos criativos — e caritativos — das palavras, dançando ao ritmo cardíaco dos versos estampados, não negando, todavia, a forte influência de uma corrente barroca, e neoclássica, surrealmente presente nos critérios de recolecção dos versos que integram a antologia “lengas e narrativas”». Neste caso, o espaço de representação confunde-se com a pura experimentação formal. Mais maneiristas do que barrocos, estes poemas afirmam-se pelos desequilíbrios, pelos exageros expressivos, aqui grotescos, acolá burlescos, gozando de uma variedade (in)formal que vai da redondilha à canção. São experiências lúdicas com palavras, a linguagem poética cedendo ao gozo dos efeitos fonéticos — «a salsugem dos barcos / a penugem dos braços» — e polissémicos, jogo que não prescinde do seu inventário intensivo de caricaturas: «o pobre de porshe» (p. 10), «o rico sem cheta» (p. 12), «os ais obscenos / de suínos urbanos» (p. 31), «o mendigo enganado / o bardo e o frade / de cotão no umbigo / e espinho do cardo // o carneiro inchado / a donzela porreira / de seio fanado / e liga de freira // o cilício de nastro / o amante filtrado / o cu de alabastro / da alcoviteira» (p. 41).
   Ao barroco foi António Ferra buscar certa pompa para a desmontar e desfazer ironicamente, nomeadamente ao minar modelos métricos, ao grafitar o luxo das imagens com o corriqueiro, apostando em conceitos rebuscados e títulos extensos: «de autor anónimo (sec. XVIII) publicado na Gazeta «O Furjão» em depósito na biblioteca da Junta de Freguesia de Albergaria de Loivã» (p. 33). Tudo isto é escárnio da pompa e da circunstância, dos efeitos supérfluos e palavrosos, da cagança espaventosa e da solenidade que, em pleno século XXI, se conserva intacta no espírito e nos comportamentos de uma horda de artistas eximiamente distribuídos pelas diversas instituições nacionais. Fique, a título de exemplo, a «efémera fama de um opinion maker»:
 
a efémera fama
tua alma aclama
 
na tua lama
a tarântula branca
anémona plana
numa feira franca
 
tua alma acalma
a efémera fama
abre o melodrama
alimenta a chama
da boca que trama
 
tua alma aclama
a tua boca brama
tua efémera fama

PHAROAH SANDERS (1940-2022)

 


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CAUSAS QUE VALEM A PENA

Os protestos no Irão pelos direitos das mulheres e as manifestações na Rússia contra a guerra e a mobilização de reservistas. Era isto que nos devia ocupar os dias, em vez do circo da morte de uma rainha e do palco dado a cretinos. Acontece que a comunicação social prefere o espectáculo às causas, as patacoadas do Milhazes à voz indignada dos povos. Quem viu uma jovem iraniana a cortar o cabelo e a queimar o hijab em protesto contra a polícia da moralidade, rodeada de uma multidão de homens e de mulheres que gritavam por liberdade, percebe quão errados andamos quando perdemos tempo com inanidades e futilidades. A pergunta é: porque perdem mais tempo os telejornais com tais inanidades e futilidades do que com as reivindicações dos povos? Uma resposta possível: porque são a caixa de ressonância dos facínoras. Agora convençam-me do contrário.

UM ESPELHO DO GALEANO

 


É PROIBIDO RIR
 
As antigas festas dos ciclos da natureza chamam-se agora Natal e Semana Santa, e já não são homenagens aos deuses pagãos, mas rituais solenes de veneração à divindade que ocupou esses dias e se apoderou dos símbolos pagãos.
As Hilárias, herdadas ou inventadas por Roma, saudavam a chegada da Primavera. A deusa Cibele banhava-se no rio, enquanto os romanos, vestidos com roupas caricatas, se rebolavam de riso. Todos troçavam de todos e não havia no mundo nada nem ninguém que não fosse digno de riso.
Por decisão da Igreja católica, esta festa pagã da hilaridade, que festejava a ressurreição da primavera através do riso, coincide em Março, mais dia, menos dia, com a ressurreição de Jesus, de quem os evangelhos não registam uma única gargalhada.
E, por decisão da Igreja, o Vaticano foi construído no local exacto onde culminava a festa da alegria. Aí, na praça ampla onde ecoavam as gargalhadas da multidão, ouve-se agora a voz grave do papa a ler páginas da Bíblia, um livro onde nunca ninguém se ri.

 
Eduardo Galeano (1940-2015), in “Espelhos – Uma história quase universal”, tradução de Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

HETERÓNIMO VEGETAL

 

"Eu sou Tu", diz Novalis num conhecido fragmento. "Je est un autre", dirá Rimbaud. E depois virá Mário de Sá-Carneiro com "Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio", mais Fernando Pessoa com uma catrefa de heterónimos. Kierkegaard também os tinha, uns 20, ou talvez fossem pseudónimos. Para sermos honestos, esta brincadeira começou muito antes. No politeísmo Deus desdobra-se em muitos e até no monoteísmo temos o problema da trindade. Deus é pai, filho, espírito santo. Deus são três. Essa coisa das personalidades é interessante e tem as suas raízes, mas seria mais desafiante que o Uno, em vez de se multiplicar em muitos unos à imagem e semelhança do original, se multiplicasse no diverso. Uma dobrada de personalidades e de identidades, portanto. Dobrada à moda do Criador. Afinal, Deus é a origem de todas as coisas. Não só do Fernando, do Ricardo, do Álvaro, do Alberto, mas também da oliveira e do carvalho, da carraça e da barata. Porque não ser cão ou árvore? Terá Fernando Pessoa imaginado um heterónimo gato ou galinha ou jacaré? E um heterónimo eucalipto? E escrever poemas como um eucalipto? Isso é que era.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

ENCOBRIMENTO DA COBRIÇÃO

 
Manuel Clemente, Ximenes Belo, José Ornelas... Quando alguém vos disser que os comunistas comem crianças, lembrem-se de como são ínvios os caminhos do Senhor. Na verdade, duvido que se lembrem. O vírus das pessoas de bem anda por aí a mastigar memória e discernimento. E se é verdade que quem cala consente, também não é menos verdade que Deus perdoa. Perdoa quem teme a Deus, obviamente. Os outros que se esturrem.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

TALE OF THE FINGERS (1956)

 


A mais nova faz anos, dezasseis. Seria natural dizer que passaram num instante. Acontece que o nascimento dos filhos fez-me sentir o tempo de um modo diferente. Lembro-me das ressacas antes de ser pai, eram mais difíceis de ultrapassar. Depois da primeira nascer, foram-se as ressacas. Não dá. O corpo obriga-se a estar disponível, vai-se a moleza e a indolência. Se a criança chora, a bebedeira passa. É mais forte o choro. Não há melhor antídoto para uma ressaca do que um filho a chorar. Outra coisa que mudou foi a relevância atribuída a certos fenómenos. Pelo menos comigo foi assim, deixei de me chatear com pneus furados e equivalências. O equivalente a um pneu furado é, por exemplo, uma querela literária. São coisas que perdem importância com o nascimento de um filho, a gente mantém-se à distância a observar os pregos muito agitados em torno dos pneus e ri-se de quando se espetam na borracha e ficam ali às voltas e voltas e voltas a fazer uns barulhos irritantes até que na oficina lhes dêem o devido destino. Há uma diferença de três anos entre as duas. Confesso que houve com a mais velha certo deslumbramento da novidade que não existiu com a mais nova, mas depois vi-as crescerem tão diferentes uma da outra que o deslumbramento deu lugar ao espanto e deste se tem feito a observação dos anos que passam. Não fui pai porque quis, sou pai porque quero. E tem sido divertido como tocar numa banda. Há 16 anos ia eu fazer 33, já tinha idade para saber que estar vivo é um instante. Não julgá-lo significativo permite-me não desperdiçá-lo, é o meu modo de fazer bluff num poker com a morte.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

NÃO HÁ ESTÔMAGO QUE AGUENTE

 


   Com a morte da rainha de Inglaterra ficámos a saber que há um imperialismo querido e bonzinho. A hipocrisia com que um pouco por todo o lado, de alto a baixo, se têm calado os crimes e os massacres da coroa britânica é revelador quer da falta de consciência histórica que grassa entre nós, quer de quão subjectiva é a avaliação que as pessoas fazem da maldade perpetrada pelos estados. Já o modo como a imprensa tem abordado o assunto é mais uma prova claríssima dos processos de lavagem cerebral, negacionismo, higienização, hipocrisia e doutrinação que o poder em vigor nos impõe sob a falsa capa do serviço público e de uma democracia cada vez mais incapaz de se defender da sua maior ameaça: o pensamento único.
   Em tempos mais recentes, a coroa britânica torturou e massacrou os independentistas Mau Mau no Quénia. Tal como hoje criticamos à Federação Russsa de Putin o que está a fazer na Ucrânia, seria suposto que tivéssemos uma postura pelo menos igualmente crítica relativamente à potência colonial britânica. Basta o Quénia para obtermos uma contabilidade impressionante: 100 mil mortos, 300 mil prisioneiros em campos de concentração e de tortura. Muthoni Mathenge não foi fotografada pela Vogue, mas sempre podiam fazer uma breve pesquisa no Google sobre o que representa.
   Ou talvez conheçam aquela canção dos U2, "Sunday Bloody Sunday". Que vos sirva de banda sonora quando pesquisarem sobre os crimes ingleses na Irlanda. O "Domingo Sangrento" é só um desses casos emblemáticos de opressão dos britânicos sobre a luta dos irlandeses contra o desrespeito do Reino Unido pelos direitos humanos. Vários civis desarmados foram assassinados pelas forças que sobre eles atiraram indiscriminadamente. Eram russos? Não. Eram ingleses. E esta rainha agora morta já estava no trono, o mesmíssimo trono que continua a julgar que Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia lhe pertencem, tal como Putin também julga que a Ucrânia lhe pertence. Não viram "Fome", o filme de Steve McQueen? Nem "Em Nome do Pai", de Jim Sheridan?
   O Gana, em África, é outro país cuja história vos devia fazer pensar um “niquinho”, em vez de andarem para aí a patrocinar lutos por reinados sanguinolentos. Depois da independência, os britânicos foram financiando golpes militares no Gana até terem o que queriam: um governo títere da Commonwealth. De onde julgam que veio/vem o ouro dos ingleses?
   E das Malvinas, valerá a pena falar? Terão interesse ou também irão fechar hipocritamente os olhos como se esse arquipélago na costa Argentina não estivesse nas mãos dos ingleses? Sabem quantos argentinos foram massacrados para que a coroa britânica ficasse com as Malvinas? Espreitem na Wikipédia.
   Podem continuar com as vossas bandeirinhas de perfil facebookiano e o vosso respeitinho pela rainha boazinha que de uma coisa não se livram, serem cúmplices do colonialismo racista e do imperialismo assassino britânico. A invasão do Iraque também não existiu? Será outra invenção de Hollywood? Nojo, é o que tudo isto mete. E vergonha por ser governado por marcelos e costas, fantoches num país que mais parece um teatro de marionetas.
   Na imagem está Miriam Muthoni Mathenge, viúva do veterano de guerra Mau Mau General Mathenge Mirugi, durante uma entrevista na sua casa em Laburra, condado de Nyeri, a 17 de Outubro de 2020. Por estes ninguém chora, nasceram para ser explorados e escravizados pela parte boa do mundo.

domingo, 18 de setembro de 2022

GRANDE CIRCO IMPERIAL LUSO

 

"Bajazeto e a revolução" é o título de um projecto de Jorge de Sena para teatro que nunca chegou a ser concluído, ao que parece com a intenção de satirizar "as circunstâncias de um abortado golpe de Estado em que participara" (palavras de Mécia de Sena). Estávamos em 1959, o título da peça projectada glosa o "Bajazet", de Racine, que de Sena teria ido ver na noite do golpe para "despistar as desconfianças". Do pouco que sobrou desse esboço, há a referência a um cartaz que diria assim:

GRANDE CIRCO IMPERIAL LUSO

Leões, Navegações, Naufrágios e Conquistas. Mártires e Heróis, todos os dias. A descoberta do caminho marítimo para a Índia, com o Infante D. Henrique e Camões nas caravelas, ao domingo. São Francisco Xavier, às quintas. Aljubarrota, à sexta, em matinée infantil. Palhaços, equilibristas, domadores, trapezistas. Voos à Gago Coutinho. O grande sketch, ao sábado, por toda a companhia: Oito Séculos e meio de História Universal, com grande figuração de negros, mouros, e indianos autênticos. Nu artístico por indígenas do Brasil (em sessão reservada aos homens e a mulheres casadas acompanhadas pelos maridos). Orquestra sinfónica, coros e bailarinas(os) do Estado Português, sob a regência de vários maestros de categoria internacional. Hinos patrióticos e funções folclóricas. Uma Pátria em Armas exposta aos olhos do Futuro.

A ilustração é de Hippolyte Louis Emile Pauquet (1797-1871).