quinta-feira, 19 de julho de 2018

NELSON MANDELA (1918-2013)


Aquele momento, marcar o passo entre grades. 
Esse momento basta-me.

SIMPLES


O que se conclui da lamentável ida de Manuel Pinho ao Parlamento é que os deputados não deviam ter aceitado as condições por ele impostas. Pinho terá certamente o direito de não falar, mas é um direito de todos - e até um dever de cidadania, acrescento - não o ouvir sobre mais nenhum assunto enquanto ele não falar sobre o que realmente interessa. 


Eremita, aqui.

TERÇA DE CELEBRAÇÃO



Na terça-feira foi diferente, como não podia deixar de ser. Pela primeira vez, desde que iniciámos o ciclo Diga 33, não contámos com a presença física do autor em foco. Daí a palavra homenagem, que não é das melhores. Mas simplifica.


Tivemos a Cláudia Souto, a quem o Rui Costa dedicou o livro de estreia, a falar dos primeiros tempos. Leu com pronúncia do norte a nuvem prateada, tal qual foi escrita.


E a mim pareceu-me ter sentido a presença do Rui naquela voz, como que numa evocação ameríndia aos que por terem passado são os mais presentes. 


O André Corrêa de Sá, acabado de chegar de Santa Bárbara (Califórnia), apontou pistolas às noitadas no Porto. Andámos pelo Pinguim, pelo Púcaros, lembrámos os Mana Calórica  e enviámos um abraço ao A. Pedro Ribeiro. 


E rimos com a Margarida Vale de Gato quando ela nos mostrou um pouco do que era trabalhar com o Rui Costa, neste caso numa peça de teatro a duas mãos. 


Mostraram-se livros.


Leram-se poemas.


Distribuíram-se sorrisos.


A Sílvia Guerra, surpresa fora de programa, visitou-nos vinda de Paris para mostrar como a poesia do Rui Costa tem andado de mão dada com a arte contemporânea no projecto Metaphoria. Primeiro em Guimarães, depois em Atenas, em breve na cidade luz. 


Foi mais ou menos isto, respeitável auditório. Sete meses cumpridos, cabe agradecer ao Nuno Moura e ao João Paulo Esteves da Silva, ao Paulo da Costa Domingos, ao manuel a. domingos, ao Carlos Alberto Machado, ao Miguel-Manso e ao Pedro Mexia, à Cláudia Souto, à Margarida Vale de Gato, ao André Corrêa de Sá e à Sílvia Guerra. À equipa do Teatro da Rainha. Ao José Ricardo Nunes. Ao Fernando Mora Ramos e ao José Carlos Faria, que leram poemas e, queiram os indígenas da poesia, hão-de ler mais. A todos quantos têm aparecido nas sessões, reaparecendo ou desaparecendo. Em Agosto descansamos, voltaremos em Setembro com a Mariposa Azual. As fotografias são da Margarida Araújo.

terça-feira, 17 de julho de 2018

HOJE, NO TEATRO DA RAINHA, ÀS 21H30



A próxima terça será dedicada ao Rui. Acerca de Rui Costa, várias matérias: aqui. Por ora, recordemos um poema:



NÃO SÃO POEMAS

Não são poemas o que eu escrevo.
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor.
Não são mortalhas incondicionais do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÃO
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo.
São espelhos onde os rostos principiam.

Rui Costa, in “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”, Prémio Daniel Faria 2005, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 19.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

UMA ESTRELA


   Quando Miguel Esteves Cardoso publicou “O Amor é Fodido” a discussão em torno da linguagem teve algum interesse. Diversos sucedâneos que não farão história procuraram utilizar a provocação do título como argumento publicitário. O que havia de interessante na discussão desceu ao grau zero, pelo que já ninguém levou a sério o título “Como é Linda a Puta da Vida”. Entre as crónicas deste livro, que foi um sucesso de vendas, estavam histórias de amor que fazem as delícias das redes sociais. A linguagem já não importava, pelo menos não tanto quanto as emoções associadas às palavras. 
   Recentemente, as livrarias foram invadidas de títulos congéneres. Em comum, o uso do calão. A culpa é do bestseller “A Arte Subtil de Saber Dizer Que se Foda”, de Mark Manson, publicado pela neófita Desassossego. 


O cheiro a sucesso impregna de tal modo a cabeça dos editores portugueses que as réplicas não tardaram. Já sem nenhuma subtileza, e criatividade zero, a IN publicou "Mude a Sua Vida Aprendendo a Dizer Que se Foda", de Sarah Knight. 



Correndo atrás do cifrão, a Vogais procurou inovar. Substituiu o palavrão publicando "Como Sobreviver a um Filho da Puta", de Robert I. Sutton. Nada de novo, porém. Há anos, a Casa das Letras publicou "O Livro do Filho da Puta", que nada tem que ver com a genial sátira assinada por Alberto Pimenta com o título "Discurso Sobre o Filho-da-Puta".



Isto podia ter ficado por aqui, não fosse dar-se o caso de onde há foda e putas haver sempre lugar a merda. Eis que chega às livrarias "Como Deixar de Se Sentir Uma Merda", de Andrea Owen. Publica a Presença. 



Comum a todos estes livros, uma estrela no lugar de uma letra. Uma estrela. Nas livrarias, estes livros roubam posição de destaque a outros livros. Adivinhem quais. 

domingo, 15 de julho de 2018

A FESTA DOS CAÇADORES


A Festa dos Caçadores (Abysmo, Abril de 2018) é o meu livro mais recente. Encontra-se disponível para encomenda através do sítio do editor (aqui), ou nos sítios da Wook e da Bertrand. Também está disponível nas livrarias Bertrand, sendo possível reservar através do site: aqui

A Festa dos Caçadores reúne em mais de 300 páginas várias histórias que poderão ser lidas como uma colectânea de contos ou como um romance fragmentário. De um mundo rural em vias de extinção à deslocação urbana, acompanhada de sensações de exílio, solidão e desenraizamento, as personagens destes contos acabam por se fixar num lugar sem espaço nem tempo, nos «desastres de uma vida perdida algures pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo». 

A epígrafe é de Lucia Berlin: «"Hush John," Florida said. "That's only phantom pain." / "Is it real?"" I asked her. / She shrugged. "All pain is real."» 

sábado, 14 de julho de 2018

MERDE D'ARTISTE



Discussão animada no Governo Sombra acerca da transferência de Cristiano Ronaldo para a Juventus. Os números são de deixar embasbacado qualquer ser deste mundo: O clube de Turim vai pagar €100 milhões pelo concurso do internacional português, montante que será liquidado em dois anos. A este valor acresce as verbas do mecanismo de solidariedade da FIFA (€5M) e encargos acessórios (€7M), perfazendo total de €112 milhões. Cito A Bola. O liberal indefectível crê na lógica do mercado, antecipando lucros para a Juventus que justificarão a transferência (entendida aqui como investimento). O esquerdista fã de bola não disfarça o incómodo, contorcendo-se em hipóteses, possibilidades, que redundam num “nim” incosequente. O conservador de serviço denota alguma compreensão social, fazendo justiça à veia democrática-cristã. A pornografia do fenómeno está no facto de a contratação só ser possível através de um investimento que tem origem no trabalho desenvolvido na fábrica Fiat Chrysler Automobiles, com os operários a reclamarem por há muito não sentirem o cheiro dos lucros que dão à empresa.
   Fosse lá pelo cheiro, fosse pela ligação a Itália, lembrei-me de Piero Manzoni. Nos idos de 1960 gerou escândalo no mundo das artes quando se lembrou de empacotar os próprios excrementos em latinhas a que deu o nome de Merde d’artiste. Fez noventa delas, o que terá obrigado a muito cagar, literalmente vendidas a preço de ouro. Com tal gesto, Manzoni questionava os caminhos da arte contemporânea, reduzida a negócio que já pouco ou nada tinha que ver com arte. A verdade é que Merde d’artiste originou diversos episódios caricatos, entre os quais queixas acerca do conteúdo das latas. Havia quem afiançasse que não continham merda do artista, pelo que não valeriam o dinheiro que se pedia por elas. Alguém andava a vender gato por lebre, ou seja, carne picada por cocó. Fosse o que fosse que estivesse dentro das latas, agitou as águas (por assim dizer). 
   Há qualquer coisa nestas transferências multimilionárias no mundo do futebol que me lembram a “merda de artista”, talvez pela estúpida sobrevalorização do culto de uma autoria que esvazia de qualquer sentido a arte praticada. No fundo, é tudo muito simples. Mesmo ressalvando a possibilidade do bom investimento, o que nesta matéria indigna qualquer ser cuja sensibilidade não seja medida pelo dinheirómetro é a sufocante exorbitância dos valores. Quando comparados com as misérias do mundo deixam claras as prioridades de quem detém o poder. Portanto, ontem como hoje: trabalhadores de todo o mundo, uni-vos! 
   Por falar no assunto, relembro uma história que publiquei num pequeno livro com o título Call Center (Companhia das Ilhas, 2014):

GALERIA

   Saberá o leitor que o mundo artístico está repleto de obras que geram casos, debates mais ou menos intermitentes, intermitências intermináveis. Em 1961, por exemplo, Piero Manzoni pegou numas latas de metal, atestou-as com 90 gramas de excrementos de artistas e vendeu as conservas à cotação diária do ouro. Conta-se que, passados 30 anos, perante a iminente corrosão de uma das latas, certo museu dinamarquês teve que despender avultadas quantias para conservar os excrementos enlatados de Piero Manzoni. Que dizer, ou pensar, da instalação intitulada Cloaca, autoria do belga Wim Delvoye? Consistia a mesma numa reprodução do sistema digestivo humano, cujo objectivo final se resumia, nem mais nem menos, à produção de excrementos em série. Poderíamos ainda citar vídeos, performances, instalações de distintos artistas realizados à base de diversos materiais, tais como: vomitado, esperma, sangue e, claro está, matérias fecais. Pois bem, saído de um Centro de Arte Moderna onde decorria uma mostra dessas aventuras do espírito humano, só dois pensamentos ocorriam ao Visitante: 1. há merdas que não entendo; 2. não sei o que pensar desta merda. Ao reflectir desta maneira, fê-lo em alta e viva voz. Calhou que um dos artistas presentes na mostra o tivesse escutado. Chegada a oportunidade, adormeceu-o com clorofórmio, embalsamou-o e metamorfoseou-o em obra de arte híper-realista exposta neste preciso momento numa galeria internacionalmente reconhecida. Não será difícil encontrá-la, caríssimo leitor.

   Dito isto, estou como o Visitante. Só espero que não me embalsamem, até porque à merda de artista prefiro a "merda de mundo". Este em que vivemos.

14 DE JULHO DE 2018


Quando Boris Iéltsin parecia alcoolizado e fazia “coisas engraçadas” para gozo das multidões, eu não gostava. Via apenas um velho alcoolizado. Quando Fidel caiu e toda a gente anedotizou o facto, eu não gostei. Vi apenas um velho a dar um trambolhão. Quando Junker se apresentou trôpego numa conferência da NATO, queixando-se da ciática, e toda a gente satirizou o momento, eu não gostei. Vi apenas um velho enfastiado, a tentar disfarçar o tédio da senilidade. Sou um chato aos 43, nem quero imaginar como serei ao 44.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

"TUDO BEM ESCRITO"


Segundo o Correio da Manhã.
Apanhado aqui.



Nota: na verdade, há uma história intitulada Conto com citação de Raymond Carver que saiu com gralha. Caiu o d no Raymond, que acabou com Raymon. Adenda: afinal quem o afirma é Francisco José Viegas, em nota de rodapé na coluna que mantém no respectivo:


Clique na imagem e saque do telescópio para ver melhor.

UM POEMA DE MIGUEL MARTINS

Os grandes desafios são dois: largar o balastro,
o sentimento; viver do ar. Isto, para quem queira
sobrevoar as coisas do mundo, ter a justa medida
de pessoas e bens, do abandono a que foram votados
sete dias de criação inspirada, demasiado lírica,
demasiado épica, demasiado multicolor para o daltónico
organismo humano, nuns casos feito para mandar,
noutros para obedecer. Que ora imagina impérios,
ora se contenta em alimentar pombos junto ao adro
da igreja, onde foram velados os relutantes avós
de uns e outros. Mas um balão a gás é um artefacto
mais ou menos indomável, e do glórico trajecto tentativo,
em geral, já só sobram destroços, quando é chegada a hora
de autopsiar o corte entre vida e loucura. As testemunhas,
poucas, ou pouco disponíveis, referirão o ego,
a óbvia propensão para o escaparate, os anemómetros
(que mais não são que cata-ventos de última geração)
e, para finalizar, algum talento na desusada arte
da arte desusada. E di-lo-ão de pés bem cravados na terra
e municiadas de éticas e conceitos e jovens tradições
indesmontáveis ou apenas recorrendo a alguma força,
martelos, alicates e chaves sextavadas.


Miguel Martins, in Pince-Nez, Douda Correria, Novembro de 2016, s/p.

PREFÁCIO INVOLUNTÁRIO

Lembremos a desalmada promessa de Sataspe, sobrinho do imperador persa Xerxes. Sataspe, acusado de violação da filha do general do reino, foi condenado a ser empalado. Na aflição, a sua mãe propôs ao seu irmão imperador um castigo alternativo: que Sataspe fizesse uma viagem à Líbia (assim se designava África naquele tempo) e redigisse, no regresso, um relatório.
   O estremecimento de Sataspe não foi pequeno: viajar para além do conhecido e trasladar o visto em palavras? Será possível nomear o desconhecido, descrever sem um modelo preexistente? Sataspe, por exclusiva fidelidade à mãe, prometeu mundos e fundos e partiu. Mas rapidamente foi tomado pelo pânico e regressou. Preferiu ser empalado.
(...)
   Tanta conversa fiada para explicar que, ao contrário do que julgam todas as professoras primárias e as esposas dos senhores secretários de estado, o poeta não é o homem mais sensível mas aquele que consegue distanciar-se até poder falar por palavras que lhe sejam próprias (Rafael Argullol). O que o coloca num patamar de solidão danada, que não é para quem quer mas para quem pode. Por isso amiúde se matam, ou se embebedam, ou enlouquecem sem remissão tantos poetas. O equilíbrio não é fácil e a poesia não é, lamento desiludir-vos, um jogo de sociedade. É antes a aventura de Sataspe a sós com o seu medo, o seu deslumbramento e busca de uma forma para nomear o desconhecido. Daí que a poesia não se agradeça.

António Cabrita, in Para Que Servem os Elevadores e outras indagações literárias, Alcance Editores, Maputo, Setembro de 2012, p. 61-65. Respigo a citação no ensaio Como se desmama o crocodilo?, 7 cartas a um jovem poeta que deviam ser de leitura obrigatória em todas as escolas onde a poesia for tema. Leio-as e identifico-me com elas, aproprio-me delas e penso como dariam um belo prefácio involuntário para o meu livro Suicidas. Título péssimo, que deveria antes ter sido, não fosse a ausência de perspectiva, o segundo de três com o título Estranhas Criaturas. Foram publicados o primeiro e o segundo, o terceiro mantém-se inédito. O resto deixo ao cuidado dos curiosos que queiram espreitar em Ruy Belo o Breve Programa Para Uma Iniciação ao Canto, que não enjeita a sensibilidade do poeta. Contextualiza-a. 

quinta-feira, 12 de julho de 2018

#107



   Inéditos não será o termo exacto. Vários dos temas agora coligidos no mais recente álbum, em dose dupla, de José Mário Branco já haviam sido editados em EPs e singles. Falemos antes de raridades, pérolas compostas entre 1967 e 1999 que no ano da graça de 2018 foram recuperadas para bem dos nossos ouvidos.
   Ao ouvir este disco, a primeira palavra que vem à memória é a palavra exílio. O exílio em Paris, fugindo da guerra colonial, pois claro, mas também um exílio criativo característico do autor de FMI. José Mário Branco é um extraordinário caso da música portuguesa, quase sempre estupidamente associado à chamada canção de protesto como quem etiqueta, data, arruma na gaveta. De resto, nesses idos de 1960, o que de novo trouxe à canção de protesto ou militante ou socialmente interventiva, como preferirem, foi precisamente uma riqueza musical que liberta a canção de uma época específica inscrevendo-a num tempo universal. Ouvimos Remendos e Côdeas, escrita a partir de um poema de Brecht, e damos com uma sofisticação que já nada tem que ver com a escola de “baladeiros” de antanho. Certo, data de 1986. No entanto, se escutarmos o single que juntou Ronda do Soldadinho e Mãos ao Ar! não vislumbramos a mesma sofisticação ao nível da composição?
   Se há característica que este álbum vem salientar é a de um compositor multifacetado, tão capaz de penetrar os territórios do rockDô-Yô (à maneira de The Shadows) — como de abraçar a música erudita — três andamentos de Fantaisie Languedocienne. Exímio arranjador, José Mário Branco denota uma cultura musical extraordinária que lhe permite pegar no Cancioneiro Galaico-Português e musicar um punhado de cantigas de amigo à moda dos trovadores medievais, mete um pé na chanson française e o outro nas marchas populares, escreve para teatro e compõe para cinema: Cantar da Viúva de Emigrante, escrita para o filme Gente do Norte, de Leonel Brito, e Fuga do Mar, com poema de Alexandre O’Neill, gravada para o filme O Ladrão do Pão, de Noémia Delgada, são duas peças etnomusicológicas absolutamente tocantes.
   Mas há ainda Fim de Verão (à maneira d’Os Conchas), para o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, em toada pop, e Alma Herida (bolero à maneira de Antonio Machin), composta para o filme A Raiz do Coração, de Paulo Rocha. Canta em português, em castelhano, em italiano, em francês, brinca com a voz alcançando tons que dificilmente reconheceríamos como sendo de José Mário Branco não soubéssemos que com José Mário Branco (quase) tudo é possível. Se as sobras são isto, imaginem a riqueza do repertório. Não é preciso imaginar, ele está disponível, façam-lhe justiça, ouçam-no:


VIVA O CAPITALISMO


Os trabalhadores da fábrica do grupo FCA (Fiat Chrysler Automobiles) em Melfi, no sul de Itália, vão fazer dois dias de greve em protesto contra “tanta iniquidade”. Em causa está a contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus, clube liderado por Andrea Agnelli, herdeiro do fundador da Fiat, e detido pela EXOR N.V., a mesma sociedade que é dona da FCA. (…)“Dizem-nos que o momento é difícil, que devemos recorrer às prestações sociais enquanto esperamos pelo lançamento de novos modelos que nunca chegam. E enquanto os operários e as suas famílias apertam cada vez mais o cinto, os proprietários decidem investir imenso dinheiro num único recurso humano!”, acrescenta o texto da organização sindical, onde se questiona: “Isto é justo? É normal que uma pessoa ganhe milhões e milhares de famílias não consigam chegar ao fim do mês?”


quarta-feira, 11 de julho de 2018

MULHER AO MAR E GRINALDA


Margarida Vale de Gato (n. 1973) publicou Mulher ao Mar (Mariposa Azual, Abril de 2010) há 8 anos, sendo que desde então o livro tem vindo a ser revisto em reedições ulteriores ligeiramente alteradas no título: Mulher ao Mar Retorna (Mariposa Azual, Dezembro de 2013) e, mais recentemente, Mulher ao Mar e Grinalda (Mariposa Azual, Março de 2018). Uma leitura comparada das três edições permitirá constatar a supressão de alguns poemas, arrumações ligeiramente distintas dos que vêm resistindo ao jugo da autora, acrescentos consideráveis.
Mulher ao Mar e Grinalda inicia com “uma grinalda” de 15 sonetos novos. Por grinalda entendamos aqui selecta, embora a confusão com diadema não ficasse mal a um conjunto que pelo título “Mais do Mesmo” ironiza certa ideia de excepcionalidade, concordante com uma poesia aureolada que não é, de todo, onde esta se inscreve. A opção pelo soneto, assim como por outras formas ditas clássicas, acompanha a poesia de Margarida Vale de Gato desde o início. Mais timidamente em Mulher ao Mar, em poemas tais como Declaração de Intenções, Cat People, Émulos, Senhora do Ó, Reparação; de um modo disruptivo, posteriormente, em poemas como Se Sinto Isto Aqui Chiar Cá Dentro, Aniversário (II) ou Condições Mínimas. Não está em causa apenas a consciência da tradição que se exige a todos os poetas, mas antes um diálogo profícuo com essa mesma tradição. Resulta esse diálogo numa interpelação da norma, o que é bem diferente de um respeito reverencial pela convenção.
Os 15 sonetos que inauguram Mulher ao Mar e Grinalda são como que um único poema em concertina: o último verso do primeiro soneto surge como primeiro verso do segundo e assim sucessivamente, com ligeiras modificações sintácticas a imprimirem novas possibilidades de sentido aos mesmos vocábulos. Outra característica desta poesia é a sua inclinação experimental no domínio da forma e dos jogos fonéticos, assim como a capacidade que mostra em subverter temas e adulterar tiques a esses temas associados. Ao poema de amor clássico prefere Margarida Vale de Gato o poema de ex-amor, deixando ao leitor indícios da sua real intenção: «crio teu perfil / e faço para não te deixar ir / em serpentina todos estes versos // com regras que de cor sei, corrompo / e busco língua nova que destape / a tumba hetero-sapiens do discurso» (p. 17). Esta busca de uma língua nova não arroga conquistas, simplesmente eleva o grau de exigência, denota uma coragem incomum na nossa época.
O erotismo que amiúde emerge destes versos já não é o de um conteúdo exclusivamente declarativo. Os corpos, a carne, os coitos, os líquidos, surdem de um jogo inerente à escrita do poema. Como se o próprio poema fosse corpo, corpo rítmico, corpo linguagem, movimentando-se na direcção do leitor. A condição feminina aludida convoca, por vezes, nomes próprios que podem ser entendidos enquanto paradigmas dessa condição (Sylvia Plath, Anna Karenina, Christina Rossetti, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Medeia, Maya Deren…), nomes que nos deslocam para singular universo referencial da autora, demarcam o seu território doméstico (leia-se o poema Vida em Comum), aludem à mulher mãe, à mulher filha, à mulher amante, à mulher escritora, sem nos fecharem numa redoma confessional ou meramente lamuriosa. Antes pelo contrário, há nestes poemas uma urgência de deflagração que o trabalho linguístico tende a retardar ou, se preferirem, a conter. O lado emotivo dos versos é detectável, visível, mas nunca põe em causa a estrutura formal do poema. Note-se como nesse exercício de inclinação concretista intitulado Ribanceira da Vamba a forma se sobrepõe a uma lenda de amores proibidos, sem que deixe de servir o propósito de denúncia de uma condição feminina proscrita e amaldiçoada.
Por fim, julgo também ser possível falar de uma ambiguidade identitária detectável nos poemas de Margarida Vale de Gato. No poema intitulado Texto de Apresentação, auto-retrato que encontrámos pela primeira vez em Mulher ao Mar Retorna, a primeira estrofe é clara: «É-me indiferente: poeta, poetisa / dependerá do ritmo ou da medida / prefiro tradutora, mas admito / que por vezes não dobro e sou narcisa» (p. 27). Não quero aqui ressalvar a subjugação do género à condição formal do ritmo, mas sim a preferência por “tradutora” na eventualidade de uma identificação. Indiferente que seja poeta ou poetisa, prefere tradutora. Porquê? De facto, o labor da tradução é uma das actividades há muito desenvolvidas por Margarida Vale de Gato. Traduzir é trair, é interpretar, é estar em relação com. Na sua poesia isso reflecte-se num bilinguismo que não enjeita de todo a influência anglo-saxónica, patente nos poemas Virginia Woolf, Transatlântico, Bilinguismo, mas também no mais recente Monterey, California. Talvez mais assertivo que os restantes, é com ele que termino, não por julgá-lo representativo do todo, mas por me parecerem nele claras diversas das pistas de leitura que aqui tentei deixar:

MONTEREY, CALIFORNIA

Cyndi Lauper na MTV cantava que as miúdas
queriam mas era curtir e todos menos eu
eram como ela ou o Michael Jackson
broads afro-americanas com jeans da Guess
e unhas e cabelos em pé densos
espessos eretos meninas
da Martin Luther King Middle
escondiam garrafas nos lockers
e tinham mães incrivelmente desmazeladas.
De certeza que há um year-book
e como ainda hoje me embaraçaria dar
com a portuguesa nerd malfeita
de púbere idade giggling na tarde
podre americana. I pledge allegiance
to the flag of the United States of America.
Estávamos em 85/6, a central vertia em Chernobyl
e as tropas de Ronald Reagan desfilavam para a CNN.

Pedia-me a stôra de Social Studies
que apontasse no mapa de onde eu era.
Também me fez pesquisar Margaret Mead.
Eu com doze anos a minha inépcia
e indecidível existência étnica.
Acabaram por me arrolar com os mexicanos
que nesse ano se orgulhavam dos seus pais
por causa do Campeonato do Mundo.
Apesar de mal planarem na minha língua
deixavam-me por ali cheirar churros e ganzas
e via Portugal perder na TV.
Umas quantas habilidades que guardei:
dactilografar sem ver, sonhar com sotaque,
imitar as focas no Fisherman’s Wharf.


Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar e Grinalda, Mariposa Azual, Março de 2018, pp. 32-33.

terça-feira, 10 de julho de 2018

10 DE JULHO DE 2018


Uma das personagens da minha vida foi interpretada por William H. Macy no filme Magnolia, de Paul Thomas Anderson. Donnie Smith carrega na vida adulta a popularidade que atingiu na adolescência, quando o sucesso num concurso televisivo o tornou para a vida no Quiz Kid. Em adulto, Donnie é aquele tipo que as mentes mais pragmáticas classificam como fracassado. O seu fracasso em adulto corresponde, em termos de intensidade, ao seu aparente sucesso na adolescência. Foi muito popular para acabar deprimido, só, sem saber onde colocar o amor que tem dentro. Esperemos que não façam dos miúdos tailandeses agora resgatados uma equipa de Quiz Kid Donnie Smith. Que os deixem em paz, nas suas vidas, é o maior trunfo que lhes pode ser oferecido.

O MELHOR DO ANO FICA


E vai ser campeão. Querem apostar?
Força Varandas!

TEATRO IMPOSSÍVEL



   Encontrei recentemente num ensaio de Agustina Bessa-Luís dedicado a Kafka a ideia de um escritor que «não escreve para ser lido como escritor, mas como compositor», buscando acordos musicais entre ideia e palavra, descrevendo gestos que devem ser lidos como a música. A linguagem musical é a que mais convém ao absurdo, na medida em que confere à ambiguidade do som todo o sentido. O significado das palavras esfuma-se na sonoridade, o sentido perde-se no ar, decompõe-se, cedendo toda a lógica discursiva a elementos de decifração indefinível. Terá sido Samuel Beckett quem primeiro levou mais longe esta ideia de escrita-musical. No romance “Watt” a língua surge repleta de hiatos, a pontuação marca um ritmo muito próprio, espécie de percussão, as palavras puxam as palavras, o som de uma palavra leva a outra, o coro que a determinada altura se escuta reproduz um enigmático compasso que apenas pode ser lido como música.
   Não por acaso, no "Teatro Impossível" de Álvaro García de Zúñiga (1958-2014) encontramos uma referência ao texto de Beckett: «Sam dizia maldito seja quem assina y Watt» ("Teatro Impossível", Acarte, 1998, s/p). Na versão recentemente dirigida por Fernando Mora Ramos esta dimensão musical da palavra impõe-se com especial evidência. Não era sequer necessária uma arpa no cenário para constatarmos que na sala-estúdio do Teatro da Rainha assistimos a um concerto em torno da possível impossibilidade do teatro. Tudo gira à volta dessa impossibilidade, numa dança entre quatro actores (+ um vendedor de fúrias e beijinhos) ligados por jogos de palavras cruzadas que são o fio condutor entre nascimento e morte. No subtexto é precisamente esse o fio condutor vislumbrado, um ser nascente «excessivamente novo» que acabará morto. Esse ser nascente pode ser homem, pode ser palavra, será por certo a própria ideia de teatro.
   Tudo começa com disparos na direcção do público. Mata-se o público para que nasça a ideia, esta assume, desde logo, uma desvinculação. Não será o público a determinar o nascimento da ideia, ainda que a ideia cresça na direcção do público. Haverá público para esta ideia? Não haverá? Pouco importa. O ser/ideia nasce esqueleto e vai sendo preenchido ao longo da peça, como que fazendo o sentido inverso de uma lição de anatomia. Não há um corpo para dissecar, há um esqueleto para preencher com nervos, músculos, veias, carne.
   O "Teatro Impossível" de Zúñiga ensaia o divertimento do pensamento com a linguagem, servindo-se da língua teatral como da música se serviram os escritores-compositores. A composição que nos é oferecida mostra a linguagem a divertir-se consigo própria, reflectindo-se a si mesma. Como já alguém referiu é um sinal de pós-modernidade esta capacidade que uma arte tem de se reflectir, o poema que se questiona dentro do poema, a música que se pensa a si própria, a arte que é anti-arte, o poema anti-poema, o teatro que se constrói no fazer-se destruir. Podemos também chamar-lhe desconstrução: «Nenhuma personagem. / Nenhum palco. / Nenhum cenário. / Nenhum teatro. / Nenhuma palavra. / Nada». Prefiro, no entanto, o conceito de simulação. Como no desporto, o artista opta por ameaçar com uma intenção para seguir na direcção contrária, fintando o sentido e as expectativas do público. Daí que seja tão surpreendente o efeito gerado por um jogo que não se estabelece apenas entre as palavras, mas também entre aquele que as emite (suposto actor) e quem as recebe (putativo público).
   As palavras jogam consigo mesmas, mas já não são meros jogos de palavras: essência é ser, ideia, aroma; tresanda, ou seja, recua, cheira mal. A multiplicidade de sentidos de uma palavra resulta no sem-sentido do texto, da comunicação. O sem-sentido é a impossibilidade, tal como o nonsense é a essência. Mas repare-se como há uma ética neste raciocínio, a ética que se opõe ao sentido único, que recusa o sentido único, uma ética da liberdade do pensamento e da linguagem, logo, uma ética da arte, do teatro: «E foi então que entendi, vi, percebi que nos restava uma voz inesgotável para andar à volta do nada dizer». Não podia ser esta frase um aforismo de Emil Cioran?
   Jogam igualmente as palavras com os corpos de quem escuta, como quando a actriz oferece ao corpo a forma de um Y enquanto outro actor diz que a primeira letra que aprendeu foi o Y grego maiúsculo. A imagem é de uma beleza desconcertante, obriga-nos a olhar para a sala como um todo, percebendo o efeito que um som ali produzido tem num corpo acolá deslocado. Ou quando o corpo se inclina para que o actor fale em itálico, gesto simples, depurado, mas com forte resultado visual. Estas dinâmicas entre corpo e palavra outorgam à palavra um corpo orgânico, tornam o próprio corpo palavra. A linguagem transmuta-se, deixa de ser apenas metafísica, texto escrito, simbólico, debitado, passa a ser texto dançado. Por isso falamos de música e de dança quando nos referimos ao "Teatro Impossível".

segunda-feira, 9 de julho de 2018

09 DE JULHO DE 2018


   Os 12 da Tailândia foram encontrados numa gruta, subnutridos, encurralados, frágeis. Um homem morreu a tentar resgatá-los. Começam a chegar intermitentemente à superfície, protegidos de milhares de câmaras apontadas para os buracos negros da terra. 
   Neste preciso momento, romancistas já trabalham na história, provavelmente um estúdio de Hollywood patenteou direitos de adaptação, contratando guionistas para um filme sobre a comoção internacional em torno de 12 desconhecidos, jovens tailandeses encurralados numa gruta. Mas o filme é isto a que assistimos em directo, dia a dia, esta novela com seus episódios devidamente distribuídos. Uns julgavam infeliz o final, outros exigiram alegria. 
   Pessimistas e optimistas, daqui a dias estaremos todos a chorar pelo mergulhador que sucumbiu a tentar salvar os 12 da Tailândia. Faltou-lhe o ar. 
   O mundo é tão previsível: falta-me o ar. O fabricante das guitarras Gibson apresentou falência. A breve trecho, prevejo que todos iremos apresentar falência. Ninguém para nos resgatar. Faltar-nos-á o ar.

CHEIRO A NAPALM PELA MANHÃ


sábado, 7 de julho de 2018

UM POEMA DE JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO


O SEGREDO

Entraste na noite
pelo lado da solidão.
A ela contas que sais com eles,
a eles que sais com ela.
Encaminhas o velho Renault 4
para certo lugar desabitado
da cidade.
Fizeste entrar um corpo,
acenderam um cigarro enquanto
procuras um retiro pelas sombras.
Silencias a sua voz quando quer falar-te,
com um gesto decides
forma de desejo.
Entraste num corpo
pelo lado da solidão.
Por um instante sentiste-te bem
mas não o dizes,
embora não consigas reprimir
uma carícia no vidro embaciado.
Atrás da porta que fechou deixa-te
um rastro de perfume ignóbil
que aspiras com deleite:
como símbolo o queres
para quando queimar a claridade
da manhã.


José Ángel Cilleruelo (n. Barcelona, Espanha, 1960), in Antologia, trad. Joaquim Manuel Magalhães, Averno, Junho de 2005, p. 43.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

O AMOR ESTÁ FORA DE MODA



In Suicidas, Deriva Editores,Julho de 2013,  p. 121.
(clique na imagem para ver melhor)

O KAFKA DE AGUSTINA



   «Não sou uma ardente admiradora de Kafka, pois prefiro o estilo maravilhado ao pedagógico», declara Agustina. Mas o que quererá dizer quando distingue o maravilhado do pedagógico? É difícil compreendê-lo. Não poderá um estilo pedagógico ser igualmente maravilhado? Fará sentido esta distinção, mesmo que aplicada a um autor tão complexo como Kafka? Para Agustina, o tema obsessivo de Kafka é «o direito do ínfimo, do pequeno ser desqualificado socialmente». Citemos: «Kafka é o super-homem no sentido mais estilizado: aquele que não precisa de ilusões, nem esperanças; basta-lhe o fastio da vida para ser feliz. Não é desgraçado, longe disso. Aborrece-se em toda a parte, mas, como ele diz, com infinito espírito: «o mal tem que ser como é, senão ele piora». O mal não é sentir-se na vida com violenta propensão para coisa melhor; o mal é não saber isso». Sublinhamos: basta-lhe o fastio da vida para ser feliz. O Kafka de Agustina é feliz, contradiz as leituras de um homem angustiado, submerso no pântano da dúvida. Será a felicidade conciliável com o absurdo? Com a consciência do absurdo? Poderá o homem-absurdo ser feliz?
   Kafka imiscui-se nos seus livros, confunde-se com o que escreve sem se expor por completo, mais claramente num conto como o Covil, como bem nota A Sibila. Há uma longa citação que podia aclarar isto, quando a autora portuguesa afasta a ideia batida de uma hostilidade de pai e filho no caso kafkiano. O pai é imaginário, para Agustina. Metafísico? Agustina rejeita igualmente a ideia de uma obra neurótica e pessimista, preferindo sublinhar o riso, o humor. Porventura o riso daquele que se defende da tragédia do mundo, digo eu, daquele que por conhecê-la ou simplesmente pressenti-la, fica inibido, hesita, não decide: «Ansiava ama, mas fugia do amor, escrevia uma frase e riscava-a logo a seguir, queria ser judeu e não sabia como; queria viver e não sabia como viver. Vivia enterrado no lodo burguês até ao pescoço, e não sabia como sair de lá». Entendemos o fastio. Mas que devemos fazer com a felicidade? A felicidade do homem aborrecido denota altivez, qualidade que dificilmente atribuiríamos a Kafka. Contudo...
   Gosto do Kafka que Agustina nos apresenta, aceito-o como a um irmão mais velho, aprendo com ele a «interpelar o tédio». Mas Kafka era um génio, apesar de Agustina preferir o estilo maravilhado (?) de Walser. «Kafka não tem imaginação», diz, o que se nos apresenta como uma leitura extraordinária. Para o leitor comum, o autor de A Metamorfose é por excelência o mestre da imaginação. Para a leitora incomum, o «bacilo da indecisão» é o alicerce trémulo de uma vida «cavada em labirintos». Talvez nenhuma imaginação o alimente, talvez antes uma leitura cifrada de si mesmo. Como num sonho acontece por vezes flutuarmos, faltar-nos a vós, fazermos coisas extraordinárias que psicanaliticamente simbolizam coisas insignificantes. «Não há em toda a literatura um conhecedor da alma como Kafka».
   «A grande ideia de Kafka é a de que o amor está fora de moda». Associei esta ideia ao suicida Kawabata, depois de ter lido Terra de Neve. É um livro memorável sobre um amor completamente fora de moda, diria sobre o amor com aquele sentido trágico que conferia textura e peso à palavra. O símbolo maior do amor na nossa cultura morreu crucificado. É uma imagem terrível, anti-pedagógica. Prefiro a tuberculose de Kafka ao sacrifício de Jesus. O segundo apela-nos ao martírio, é o amor dos casados, dos conformados, é o amor por dever que kant tornou imperativo categórico sem nunca ter amado. O primeiro interroga-nos como ao tédio, a doença que lhe tomou os pulmões e dificulta a respiração é a mesma do romântico, do amor trágico recuperado pelos românticos, sobretudo pelos alemães, mas também pelos ingleses, que entendiam haver entre amor e paixão muitos platões pelo caminho que cabia aos amantes ultrapassar como a Hércules foi exigido que matasse a Hidra. 
   Associei a Kawabata a ideia de um amor fora de moda. Também em Kafka a neve, homem que escreveu das mais belas cartas. Agustina não é uma ardente admiradora de Kafka…

quinta-feira, 5 de julho de 2018

PARVALHEIRA


Algo vai mal, mas mesmo muito mal, diria pessimamente mal, quando com tanta matéria relevante por tratar, reportar, anunciar, se perde o tempo que se perde num telejornal com a transferência de um jogador de futebol, enviando repórteres para Madrid e Turim num pingue-pongue de não notícias completamente aparvalhado.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

04 DE JULHO DE 2018


   Chego tarde a casa, deito-me no sofá a disfarçar a solidão com um copo de vinho branco. Ligo a televisão e salto de canal em canal, brinco com o comando como vejo as pessoas que me são estranhas brincarem com os seus telemóveis. De quando em vez, paro. Um filme, uma cena estrambólica, uma qualquer imagem desopilante faz-me parar. Por breves segundos fico boquiaberto a constatar, mais uma vez, a degradação humana exibida em todo o tipo de lixo televisivo. O canal radical da SIC é exímio neste tipo de propagação, oferecendo-nos tudo o que meta nus humanos já sem aqueLa graça primitiva das moças que se despiam enquanto liam no ponto as notícias do dia. Passo por tais fenómenos como cão por vinha vindimada. 
   Às vezes sou surpreendido por um mau filme, mas não tão mau que me demova. Há maus filmes com argumentos no mínimo curiosos. O Ilustre Cidadão (2016), por exemplo, dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, engendra o regresso de um Prémio Nobel da Literatura à sua terra natal. O resultado é um autêntico descalabro, repleto de equívocos motivados por uma incompreensão do que separa obra ficcional e vida vivida. Do mesmo ano, apanhei anteontem London Town. Realizado pelo alemão Derrick Borte, coloca em cena um casal de adolescentes apaixonados pela cena punk londrina dos anos 1970. De origens distintas, como ficarão a saber, têm a ligá-los a paixão pela música dos Clash. O actor Jonathan Rhys Meyers faz de Joe Strummer. É um filme de improbabilidades, mitologia adolescente para domingo à tarde. Mas também tem a sua piada no modo como cruza ficção e história, ainda que aqui a ficção vença. No final, há beijo de amor adolescente. 
   A solução para O Ilustre Cidadão parece-me mais realista, ele acaba só, expulso da terra, exilado na mesa de uma conferência de imprensa a explicar que a verdade não existe. Existem perspectivas.

AFONSO CAUTELA (1933-2018)


Afonso Cautela, sendo um poeta que se desinteressou muito cedo da publicação dos seus versos, já que tinha apenas 28 anos quando deu a lume o seu derradeiro livro, nunca parece ter deixado de atribui um alto significado ao fato de escrever versos, como ora se vê pela quantidade de inéditos publicados e que fazem parte das caixas do seu espólio entregue à Torre do Tombo. (...) Há poetas que escrevem para publicar em livro. Têm de passar todos os anos o exame do público e da crítica. São poetas esforçados, que se obrigam a prestar provas do seu talento - o estilo existe aí para dar notícia de si. Há depois os poetas que escrevem e não publicam. Dentro desta categoria há duas classes: os que de momento não publicam mas aguardam a publicação a médio ou longo termo e os que de todo afastam do seu horizonte a possibilidade de editar em livro. Cautela faz parte desta segunda categoria, a única que de verdade escreve para não publicar.

António Cândido Franco, in A "Arte Bruta" de Afonso Cautela, publicado na revista Flauta de Luz, n.º 5, Abril de 2018, pp. 144-148. 

RICARDO CAMACHO (1954-2018)


Mais informação: aqui.

terça-feira, 3 de julho de 2018

O GRILO NA VARANDA


Já não se escrevem cartas, ou escrevem-se tão poucas que fica difícil imaginar o que possa ser a literatura epistolar no futuro. Agora escrevem-se e-mails, o mais despachados possível e num linguajar de meter vergonha. E enviam-se sms, recados em post-it, brevíssimos, corriqueiros, abafados. Aquela coisa da obra epistolográfica parece ter entrado em vias de extinção, e com ela uma certa autenticidade. Luiz Pacheco, numa das  milhentas cartas por si assinadas, afirma que «numa terra de lápis-azul, a epistolografia (género menor, concedo) é um dos mais livres, talvez o único livre». Talvez, mas não apenas «numa terra de lápis-azul». Onde a liberdade parece absoluta, pelo menos no que tocaria a escrever/dizer, a autocensura  toma as rédeas. A carta exige um compromisso que o e-mail desautoriza, como recentemente se tem visto. À primeira publicação, a dúvida instala-se como um escudo protector: verdadeiro ou falso. O e-mail, a mensagem electrónica, permite à caligrafia e à assinatura uma protecção que a carta não dava. A carta expunha, estabelecia um contrato indelével entre o autor e o conteúdo. É verdade que se forjaram cartas, é verdade que estes se fizeram passar por aqueles. Mas nesse tempo em que a pós-verdade nem miragem era, a mentira configurava calúnia, não apenas manipulação. Talvez fosse mais fácil desmascarar o fantasma. 
   Não cabendo aqui explorar tais mecanismos detectivescos, certo é que o quase completo desaparecimento das cartas levou consigo algo de muito valoroso. Refiro-me já não apenas à liberdade mencionada por Luiz Pacheco, mas a um elo confessional, com qualquer coisa de sagrado, entre remetente e destinatário. Se a carta pode ser queimada e o e-mail pode ser apagado, há algo que muda radicalmente a ralação entre os correspondentes. Damos-lhe o nome de pausa dialogal, marcada pelo tempo que demora entre leitura e resposta, o tempo de chegada, de partida, de espera, um tempo que entre pergunta e resposta possibilita o pensamento, a vida, oferece a possibilidade de acrescentar à conversa algo novo, vivido, experimentado. O carácter de urgência é outro, como se na carta o corpo físico de alguém nos chegasse às mãos transportando cheiros, textura, pele, um corpo ausente por via tecnológica, aqui transformado em pixel, caractere inolente, anódino, apenas eco de ecos. 
   Ler hoje um livro como O Grilo na Varanda Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2001) pode ser uma experiência altamente melancólica, tingida de uma nostalgia rameira que desconsola o leitor desprevenido. Também pode ser uma experiência mitológica, como que empolgando no íntimo do leitor a reconstrução de uma época extinta, diferente da actual, mais frenética, esvaziada, efémera. Para mais, a edição da Tinta-da-China foi enriquecida com um DVD do documentário de Paulo Pinto: Laureano Barros, Rigoroso Refúgio. Belo título. Os dois objectos reaproximam-nos de um mundo em ruínas. Por um lado, Laureano Barros (1924-2008), bibliófilo empenhado, exilado na província, moralmente vertical, matemático, metódico, introspectivo. Por outro, Luiz Pacheco (1925-2008), escritor libertino, editor empenhado, crítico impetuoso, coleccionador de aventuras e desventuras. Ambos são hoje figuras excêntricas com a aura de impossíveis. A miséria material em que Pacheco viveu grande parte da vida é conhecida, a faceta para uns caricata, para outros insuportável, do deboche, da alcoolemia, do desenrascanço, faz já parte da história portuguesa. O que aproxima estes dois é que pode permanecer misterioso, pelo menos digno de especulação. 
   Se, por um lado, a fortuna do bibliófilo sustentava a desgraça do escritor, podendo supor-se uma relação interesseira entre ambos, por outro lado temos que ao fazer de Laureano Barros o fiel depositário do seu espólio criativo, Pacheco confiou-lhe o que por certo de mais precioso tinha além da Comunidade: «Preso, há tempo para escrever. Ler. Meditar. São vantagens, que não troco pela vida (embora atormentada) de estar com os restos da minha Tribo» (p. 91). A vasta correspondência trocada entre 1966 e 2001 dá provas de uma cumplicidade, ainda que à distância, a extravasar o mero interesse material. A «moralidadezinha católico-policial» da aborrecida sociedade portuguesa de então ofereceu a Luiz Pacheco um confidente, um suporte para a vida, aquele elo desinteressado que tanto rareia num mundo já só movido por interesses, proveitos, vantagens ainda que quase invariavelmente mesquinhas, corriqueiras, moralmente insultuosas: «Como sair disto? que fazer? uns malabarismos, de efeito nem sempre gracioso para quem vê ou esperava outra coisa, melhor. E para os palhaços do circo literário, que somos os que escrevem por dever de sobrevivência, e porque já agora não sabem fazer outra coisa, a esperança que os Amigos se lembrem de nós de quando em quando, nos julguem com dureza e sentido das realidades, que não comunguem na Enorme Aldrabice que isto é tudo. Logo: nos sirvam de amarras e de faróis» (p. 131). 
   Estas cartas chegam-nos de um tempo que tenderíamos a dizer já não existir não fosse a constatação diária de que a «negra sociedade salazaresca» perdura onde menos a suporíamos, com outras metodologias, transfigurada, mas igualmente negra. O que não perdurou é o que de mais precioso atestam as cartas, a intransigência na verdade e na liberdade de que são exemplo autêntico tanto Laureano Barros como Luiz Pacheco. Daí que ambos tenham acabado sós, como bem constata um dos intervenientes no documentário de Paulo Pinto. Disso dão conta várias cartas, num estilo ora comovido, ora galhofeiro, mas sempre inquestionavelmente genuíno: «Você não faz ideia ou faz? o que lutei por esta casa, este sol, este silêncio, este filho tudo o que me resta da Irene, e há numa carta sua, de há anos, uma interrogação a que não sei se respondi, ou só os factos, depois: que era isso de eu ficar inteiramente só? mais ou menos isto. É que eu nem tinha a vantagem da surpresa: sabia-a antes» (p. 120).