sábado, 22 de setembro de 2018

PACÓVIO SUBURBANO

Passaria despercebido, até pela irrelevância da personagem, não fora a nossa memória estar atafulhada com personagens irrelevantes. Lembram-se dele? O da cunha para a filha. Outrora. Agora. É só mais um. 

DIA 28 DE SETEMBRO


Mais informações e programa completo: aqui. No dia 2 de Outubro também estarei por lá.

CONTRA A CENSURA



Desde 1971, ano em que iniciou a sua actividade artística, até à morte em 1989, Robert Mapplethorpe cultivou o auto-retrato. Tal como as suas fotografias de outro género, os auto-retratos misturam brutalidade e requinte. O corpo, longe de ser tratado como algo infame, surge glorificado e triunfante, exibindo todo o potencial sexual e orgástico. Mapplethorpe focou-se principalmente na representação dos orifícios corporais, tal como sucede no Auto-Retrato de 1978, no qual, vestido de leather man (conjugando homossexualidade, sadomasoquismo e couro), mostra um chicote introduzido no ânus. Apesar de parecer desdenhoso, Mapplethorpe está na verdade muito mais insolente. Esta imagem é uma espécie de paródia a uma fantasia estereotipada.
Até ao final dos anos 80, o Senador Americano Jesse Helms apoiado pelo Presidente George Bush esteve em guerra com Mapplethorpe e tentou inclusive rastrear as mais insignificantes das suas fotografias de natureza erótica, colocando no topo da lista as que exibissem práticas homossexuais e sadomasoquistas. Ameaçou os museus suportados pelos fundos governamentais no National Endowment for the Arts (NEA), afirmando que lhes retiraria quaisquer privilégios caso intentassem acções no sentido de mostrar os trabalhos do subversivo fotógrafo.
A certa altura, foi levantada a possibilidade de introduzir uma lei que proibisse o NEA de fornecer qualquer apoio a organizações que mostrassem trabalhos de pendor homossexual! Apesar desta proposta ter caído por terra, o Partido Republicano conseguiu celebrar uma pequena vitória sob pressão quando a prestigiada Corcoran Gallery of Art in Washington recusou a exposição Mapplethorpe: The Perfect Moment.

Éléa Baucheron, Diane Routex, in The Museum of Scandals, Prestel, 2013, p. 125. Tradução rápida da minha autoria.

FORTUNA CRÍTICA



Histórias, surpresas, absurdos tudo bem escrito.
Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.

(…) ainda de férias, dou comigo a descobrir um autor, a lembrar outro e a admitir que cada vez mais admiro as qualidades autorais contidas em boas narrativas curtas. (…) E acabo de descobrir um português que capta muito bem o espírito do género, para além de nos cativar pela ironia e pelo domínio da linguagem.
Manuel Frias Martins, no Facebook.

São contos breves (ou brevíssimos), crónicas, reflexões, pequenos engenhos explosivos — entre ficção afiada e poema em prosa. Textos nómadas, mais ou menos selvagens, sempre a tender para a heterodoxia. Henrique M. B. Fialho olha para o mundo e espanta-se, ou indigna-se, ou contrapõe delírios ao caos do quotidiano.
Expresso, na secção Obrigatório.


Mais de cem histórias compiladas em pouco mais de trezentas páginas, num livro que tem tudo para ser portátil, atentos os seus 12,8 x 16,9 cm, em capa mole, para ser lido sem pressa e ser relido, comentado e partilhado, propenso a pensamentos nostálgicos e boas gargalhadas
Francisca Moura, na página Deus Me Livro.

Mais de cem pequenas narrativas compõem este volume delicioso. Livros como este são raros - têm a ver com a arte de narrar sem pirotecnia nem ornamentos excessivos. Histórias e enredos bem desenhados - uma medida perfeita.
Revista LER, na secção Livros do Trimestre.

PURITANISMO SERÔDIO


Dizia ontem a uma colega do Porto que tinha agora um bom pretexto para regressar à invicta, a exposição de Robert Mapplethorpe. Contava levar a família. A Beatriz fez anteontem 12 anos, a Matilde tem 15. Há 4 anos fomos todos ver o Pieter Hugo à Gulbenkian. A Beatriz tinha 8, a Matilde 11. Quando comprava os bilhetes, a senhora de bilheteira preveniu-me para a violência de algumas imagens. Podiam chocar as miúdas. Descansei dizendo-lhe que estavam habituadas a ver o telejornal. 

Era para ir ao Porto ver a exposição de Mapplethorpe, estava contente, adoro regressar ao Porto e visitar Serralves. Já não vou. O mundo está estranho, esquisito, há um puritanismo no ar que me sufoca, não o entendo, não o compreendo, tinha a esperança de alguma evolução nesta matéria, mas de ano para ano assisto a cada vez mais exemplos de um puritanismo serôdio que me fere e desilude e desespera. Estas formas de censura são um absurdo, como outrora sublinhei com os trípticos da nudez: #1, #2, #3, #4, #5, #6. Queria regressar a Serralves, mas é a eles que regresso. Infelizmente.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

20 ANOS DE MARIPOSA AZUAL

(MA)

Na passada terça-feira celebrámos 20 anos de Mariposa Azual, editora acerca da qual António Marques escreveu uma tese de mestrado: aqui.

(MA)

Ouvimos a Helena Vieira contar como tudo começou. E recomeçou. E vai continuando.

(RA)

Falámos de capas e de ilustrações. Recordámos o Olímpio Ferreira.

(RA)

E falámos de parcerias improváveis, como a que juntou a pintura de Paula Rego à poesia de Adília Lopes no livro Obra

(MA)

Contámos com a Elisabete Marques, que nos falou do seu livro de estreia: Cisco. E leu poemas. 

(RA)

E contámos com a Marta Navarro, que participou na antologia Voo Rasante, para leituras intercaladas.

(MA)

Lemos Paulo Condessa, Margarida Vale de Gato, Raquel Nobre Guerra, Elisabete Marques, Henrique Manuel Bento Fialho, Marta Navarro... A banda sonora ficou a cargo da Beatriz Nunes. Foi no Teatro da Rainha. As fotografias são da Margarida Araújo e do Ricardo Aurélio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

SETE


Lá estaremos, a comemorar os 7 anos da volta d'mar, com livrinho colectivo novo, vinho e massa de sargo. Saúde.

MIL E OUTRAS NOITES


Questionaram-me ontem sobre livros novos de poesia portuguesa. Recomendáveis, acrescente-se. Não fiz caso do novos, conceito a que nunca fui atreito, saindo-me de imediato em forma de declaração de princípios: “sou suspeito para falar, porque gosto muito do Eduardo Guerra Carneiro”. Gosto muito não seria o termo, e a suspeição vem apenas de há anos suplicar por, digamos assim, uma certa dignificação da poesia de um dos mais tristemente esquecidos e maltratados dos nossos poetas. Para quem comigo falava, Mil e Outras Noites (Língua Morta, Maio de 2018) não entrava nas contas. Afinal, Eduardo Guerra Carneiro (n. 1942 – m. 2004) nada tem de novo.
Titubeei, fui lembrando este e aquele, poucos, os que me ocorreram. Mas o que eu devia ter reforçado era isto: Mil e Outras Noites, de Eduardo Guerra Carneiro, é dos melhores livros de poesia portuguesa que podíamos desejar. E é novo, completamente novo, mais novo do que a maioria dos novos pode alguma vez suspeitar, ainda que, para mal dos seus pecados, tenha o poeta já nascido velho. Isto é, sábio do seu ofício. Não será por acaso que a páginas tantas, no belíssimo poema em prosa Vendo Bem: Jardins, o escutamos dizer: «Talvez me encontrem num jardim nocturno de qualquer cidade ao norte da Europa. Peregrinações de jovem poeta já cansado» (p. 108). Este «jovem poeta já cansado» tudo fez para que da sua poesia fosse afastada certa imagem de ser-se poeta, e essa é uma das maiores dádivas do seu labor. O poeta não tem idade, muito menos sobre ele pesam as luzes da novidade. Talvez isto explique o descaso de que foi vítima até ao momento de pôr termo à vida, não tendo deixado de o ser até que agora alguém invista na recuperação do seu espólio. Em certo sentido, ainda bem. Também por isso se manterá novo, sempre novo, porque desconhecido, por imprescindível de conhecer.
Da selecção levada a cabo por Miguel Filipe Mochila ficou de fora o primeiro dos seus livros, O Perfil da Estátua (1961), sem que qualquer nota nos explique porquê. Preferiu o editor recuperar para prefácio e posfácio dois textos de um dos seus mais generosos editores. Do primeiro, sublinhamos o tom antiacadémico em concordância com o objecto de análise. Texto datado de 1978, para o primeiro de vários livros de Eduardo Guerra Carneiro publicados na & etc de Vítor Silva Tavares: Como Quem Não Quer a Coisa. Respigado para posfácio, um texto anteriormente publicado na Telhados de Vidro aquando do desaparecimento abrupto do poeta. Dele aí se diz, como sobre Van Gogh disse Artaud, ter sido um «suicidado da sociedade». Quanto a letras, “preferiu (…) o orgulho do isolamento à confraria das «famílias poéticas»”. Paradoxalmente, é de uma poesia aberta ao outro como poucas há que melhor nos chega esta aqui antologiada. Um outro, diga-se, que raramente cabe nos poemas, marginalizado, esquecido, posto de lado como praga social.
Esta linha de relacionamento foi fruto de um contacto com o campo, com as aldeias, com as cidades de província onde Guerra Carneiro colhe grande parte da sua paisagem mais natural. A sua confraria está nas tascas, nas ruas, nos arrabaldes de uma solidão que se carrega como a uma cruz. Livre-se o leitor de entrever aqui qualquer forma de bucolismo, já que «A província é triste, abafada, bafienta, com poeira nas ruas. A província é um deserto parado e povoado de carros de aluguer» (p. 65). Era assim em 1970, no livro Isto Anda Tudo Ligado, não deixou de assim ser até aos nossos dias. Pelo menos onde resta província. Tal como da cidade dificilmente faríamos um retrato diferente daquele que nos foi deixado pelo poeta no mesmo livro: «suja, cinzenta, amarelecida, sem um parque, nem mesmo um lago» (p. 44). A quem advenha cenário distinto para o país do nosso tempo, sugerimos

OS CAFÉS

Nos cafés desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre folhas do jornal. Morrem os cafés
com seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rádio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou Eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.

Aí têm o nosso tempo, personificado n’«aqueles da usura, ratos do cimento», num poema Contra a Corrente (1988). A tender frequentemente para a prosa, esta poesia socorre-se da memória numa luta inglória contra o esquecimento. Talvez seja essa característica o que nela sempre mais nos comoveu. Isso e não se negar à comoção, à ternura, ao sentimento, de não fugir às palavras e de se questionar a si mesma, jamais perdendo de vista o encontro que as palavras tornam possível. Tendencialmente melancólica, o que nela por vezes sobrevém de alegria e gozo é ternura (leia-se o excelente poema da página 37). Isto afirmamos sem qualquer intenção psicologizante, já que no limite sobram imagens de sufoco íntimo, perturbadoras, claustrofóbicas: «A revolta dentro deste quarto» (p. 50) ou «A loucura invadindo o quarto» (p. 83) ou a linguagem corrosiva das duas evocações de Émile Henry: «E, de repente, vontade de partir e partir, escacar tudo, ó meu intelectual de merda!, meu borrabotas lamechas!, meu sentimental barato!» (p. 123) Primando pela contenção verbal, eis uma poesia cujas erupções momentâneas não resvalam para um mero oportunismo sensacionalista ou para foguetórios gratuitos.
A antologia Mil e Outras Noites é um dos grandes livros de poesia publicados entre nós no ano corrente. Recoloca-nos na presença de um extraordinário poeta, faz com a sua poesia o que a sua poesia sempre fez: combater o esquecimento. «É um desafio permanente esta aventura da escrita», disse-nos num poema em prosa do livro Dama de Copas (1981). Desafio permanente é também a aventura da leitura, mais ainda quando se trata de um poeta que nos oferece a lonjura mostrando-nos o que temos mais perto, por vezes debaixo do nariz, e por distracção, ambição ou desmesura, ignoramos. Já mais para o fim, no livro A Noiva das Astúrias (2001), surge tudo muito bem resumido na ideia de um dever voltar ao Outro. Este, em maiúsculas, porque, afinal, é aquele sem o qual o sujeito poético faria qualquer sentido. Quanto ao mais ficou declarado em É assim Que Se Faz A História (1973):

Em resumo: de um estilo de vida mais
do que palavras. Reparo: escrevo
como quem se justifica. A idade
segredou-me o sentido. Escrevo
com medo de ser tarde. Multiplicando
as letras pelas ruas. A toda a hora
escrevo. Sem escrever.

TRÍPTICO DE ELISABETE MARQUES

DOS INCHADOS

I.

Como um balão, redondo de nada
ou de ar, mas nem para flutuar, só
para inventar volume, aí te cresces
de abdómen para atraíres.
Estimas a ventilação, as meiguices,
a atenção ao gesto teu.

Seco, consegues forjar abrigos debaixo
de raízes, de pedras, sob a folhagem,
onde existas imperceptível.
Emergindo ao crepúsculo, quando outros acusam
cansaço, apenas então, activa e voraz,
a língua como um chicote submete
escaravelhos, moscas, pequenas ossadas.

Porém, não tens dentes.
E és forçado a tudo incluir, para teu alívio.
Tua tarefa cumprida em florestas coníferas,
na densa treva para a camuflagem.

Vejo em ti grotesco e suavidade,
não sei de onde me virá tal impressão.
Bateu-me pela primeira vez a tua imagem
no cinema. Eras tragado aos poucos.

O tempo parecia diferente e ficou-me o resíduo
desse acontecimento.
Mas também a voragem púrpura de quem
te abocanhava não mais me deixou.

Estava escuro na sala, as certezas ausentes,
o sentimento de alarme a trepar-nos as pernas,

fazíamos silêncio. Ainda escuto: «consegue forjar
abrigos debaixo de raízes, de pedras, sob a folhagem,
onde exista imperceptível».

II.

Em pequena, diziam-me que não podias deixar
de inspirar. Mesmo com risco de veneno,
mais querias a agonia do que deixar de acumular
ar nos teus pulmões.

Continuo sem saber se haverá verdade nesse conto,
gosto de pensar que sim.
Porque a tua aparência inflamada
teria aí um motivo mais favorável à arte.

Nunca esqueci uma noite cálida, quando primeira vez te vi
movente a custo numa estrada
e alguém soltou creolina,
projectando morte sobre a tua placidez.

No fundo, compreendi então que a fealdade ofende mais do que a culpa,
e que o receio faz das sombras inofensivas o palco do infortúnio.

Ninguém tomou sublime a tua forma,
apenas a julgaram atípica por não acompanhar as medidas
com que folgamos no universo.
E, contudo, busco essa estranheza
sem concessões e absolutamente real.

Talvez pelas horas passadas junto à argila alaranjada.
Talvez pela figueira que chorei sem consolo num inverno.
Talvez por causa dessa noite desalumiada,
talvez pela infância daí para sempre na minha lembrança,
talvez pela brutalidade por mim reconhecida:
quando enrolavam cobras com estacas
ou atiravam os ovos para fora do ninho,
quando estudavam os limites de um gafanhoto,
a raiz de peónia, a resistência das pinhas,
quando assim era e havia em tudo isso singeleza.

Naquele instante, apenas uma certeza.
Sentindo aquele odor forte, percebi que estava condenada
a lembrar-te e aos pequenos que se atiravam a ti com maior cobiça.

Diante de mim estava uma espécie de mistério sem fundura.
Deixei-me estar quieta, confusa sobre a ideia que me atravessava.
Somente me tocou uma leve intuição. Uma brisa remota, algures.

III.

Era no estio que melhor achávamos a tua espécie.
Um som de reco-reco no tecido da noite sufocando-nos
ainda mais, enchendo-nos a insónia,
com o vibrato das cigarras.

Rebolávamos nas camas,
bebíamos a água pousada na mesa-de-cabeceira
e olhávamos as graduações de obscuridade nas paredes.

Certo é que essa tua toada feia nos fazia companhia,
querida, no seu modo curioso de abafar os restantes terrores.
Eras como que uma claridade negra de presença.

A tua fisionomia invocada pelo eco e nós, na calma,
interrogávamo-nos sobre o deus que teria engendrado essas linhas,
essas vozes e essas dermes ásperas.

Era o grande deus das formas, meditávamos, o dos muitos olhos,
aquele que inventa o impensável e sabe que é verdade.
De tal modo que havia criado também o morcego e o sardão.

Não podia haver outra razão para que tantas patas desiguais
tocassem terreno e trouxessem andante a expectativa de vencer a derrocada.

E as tuas tão brutais quanto a plasticidade de um antúrio.
Ainda não nos assustávamos convenientemente
com a televisão, com a colher, com o copo, com o frigorífico, com o fósforo.
Havia familiar instalado nos olhos.

Que tu persistisses ali na lagoa, tu e os teus confrades,
isso é que era inabitual.
Afligia a presença constante de uma coisa
que respira furtiva e tem apetites
e mexe por sua própria vontade.

Nessa experiência do susto e do espanto,
tecíamos sem saber as imagens.
E por vezes, quando o sono se torna cerrado,
ainda acordo em sobressalto acatando a tua rouquidão.


Elisabete Marques, in Animais de Sangue Frio, Língua Morta, Abril de 2017, pp. 61-66. Outro poema da autora foi outrora partilhado aqui. Muito diferente do livro de estreia, Animais de Sangue Frio reúne 9 trípticos (3x3) que, à semelhança deste, acolhem personagens de índole aparentemente mitológica, criaturas fantásticas, estranhas, enigmáticas, seres de um mundo crepuscular. Os animais de sangue frio são, por regra, répteis, anfíbios, mas aqui parecem transcender essa condição biológica para penetrarem uma outra, mais simbólica. O sapo que se adivinha no poema já não é apenas um sapo, dissecado na sua forma e essência. Ele é também aquilo que inspira, certa condição mitológica, mais ou menos pessoalizada num contexto de vivências singulares, o seu significado resulta de uma relação estabelecida com quem o evoca. Príncipe sapo, sapo agoirento, ao mesmo tempo suave e grotesco. É nesse limbo algures entre a realidade e a fantasia que melhor se entende este bestiário, conjunto de poemas sob a forma de pinturas onde a bestealidade exibe tanto espanto quanto inspira comiseração. Livro estranho, repleto de seres estranhos, convocando-nos para lugares estranhos: «Esta questão de lugar, / o lugar sempre outro e atravessado e esquivo» (p. 41). Sobre o primeiro livro da autora deixei aqui uma breve leitura.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

HOJE


A próxima sessão do ciclo Diga 33 terá Helena Vieira (Elvas, 1962) como convidada. Editora da Mariposa Azual desde 1998, coordenou, mais recentemente, a antologia de poesia contemporânea Voo Rasante. O primeiro livro publicado pela Mariposa Azual foi Nova Asmática Portuguesa (Agosto de 1998), de Nuno Moura, escrito sob patrocínio de uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. O primeiro poema, há 20 anos:

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

DO INÍCIO, OUTRA VEZ


I

Foi esta portanto a furtiva impureza que herdámos
sem saber como, este espaço, este canto assim vago,
estes espasmos desmaiados, este tempo, este mundo,
estas arestas, estes pedaços de terra, estes dramas
de inércia e dentes pouco aguçados, os mesmos
rostos rasos ao chão, estes remorsos, estes cafés
onde nos recompomos das derrotas, este modo
de despejar os cinzeiros, estas tardes, este aclarar
da garganta para nada e os rebuçados amarelos
e doces para a tosse, a lucidez, os oscilantes sons
das campainhas, a satisfação ardente dos líquidos
raros, a gradação de intensidade das lâmpadas,
a acidez dos risos, os envelopes bem dobrados,
e os dias sempre os dias outra vez os dias.

II

Certas flores, as mais esfarrapadas.
O vento também. Ou já o disse?
E coisas que ainda não têm nome.
Aquela impressão quando os olhos fecham.
Arriscaria dizer que é de sempre
Este tumulto no pestanejar.

Um dia terei feito as contas à vida. 
Mas julgo que muito se passou atrás das costas.

III

Não nos lembramos bem das canções.
Mas fizemos nosso o seu sussurro obscuro

- será pouco mais que a nossa obrigação.

Em tempos a questão era desmurmurar
os sentimentos, enroscar bem a língua
para saborear todo o amargo e o dormente
e o lento e o cuspo e o abrasivo e o asco.
As gengivas em sangue de tanto remoer.
Chega de tanto.

IV

Tanto mais que nos coube
também a metrologia de coisas instáveis
e de utilidade discutível.

Por exemplo, as nesgas, a palidez granulada da alvorada,
os vários modos de encostar o rosto à almofada e assim
sobreviver ao exílio de vez em quando rindo,
os ímans - ou, mais exactamente, o ponto
indiscernível em que a atracção dos pólos
sossega, por instantes, ou melhor,
em que se fixa no equilíbrio dos contrários
- o recorte dos panos atravessados pela luz
ou as saídas necessariamente de emergência
de um certo quarto onde ouvimos os passos
e nos juntámos à multidão. Os gemidos.

Pois coube-nos a observação das multidões,
também a densidade das esponjas ou o chocalhar
luminoso da face enamorada. Outros elementos,
divisões, categorias.

O verbo que descreve
a antecipação do andamento
que se segue, esse

deslizante verbo

V

A nós coube-nos a desmesura, e as coisas
que nela aprenderemos a incomensurar.

Mais uma razão para termos nos dedos
pontas tão estreitas e tão pouco sábias,
e pálpebras assim, efervescentes.
E tudo isto está ainda por estudar.

VI

Este entrever, este antegosto,
este rosto assim
amachucado entre tantos,
risos até, súbitos
súbitos tambores e sustos,
estes estrondos extenuados
de tão pouco.

Que e fodam os densos mistérios
que a razão nos foi deixando
sobre inumeráveis secretárias.

Temos muito com que nos entreter,
outras penumbras.

VII

Ou nem isso.

Lá se escovam os triunfos anteriores,
meio desbotados, e se reviram os olhos
a custo. Lá se abrem as gavetas
e se colam as visões a cuspo.

Foram-se amontoando futuros.

O que se poderia talvez traduzir
da seguinte forma:

Há zonas de indistinção onde tudo
se joga em mecanismos
de rigor murmurado e eriçado ânimo.
Dobras, vincos.

VIII

Mas talvez nisto haja subtileza a mais.

E que tal assim:
Eis o mundo.
Eis-nos.
Não chegámos a dizer ao que vínhamos.

Somos muitos e por enquanto dispersos.

Antes de mais
e antes do resto.

IX

Coube-nos começar, mas não do princípio.
Coube-nos amarfanhar todos os mapas
(Ainda que os tenhamos desenhado
a canivete, ao de leve, na palma das mãos).

Pelo que o cicatrizar nem sempre ajuda.
Há nisto uma certa poesia, não muito subtil.
E sempre dá algum estremecimento aos apertos de mão.

É mais ranger de dentes que outra coisa,
lançamento de guitas, cordas, fitas
de toda a espécie e alguns ganchos em metal
(de que não se conhece bem o propósito)
para sítios um pouco escuros e adversos.

Quem é que se lembra ainda
para que servem por exemplo os ponteiros
desencontrados nesta armadura de latão?
E por aí fora.

X

Convirá acentuar o quanto é ainda o início.
Um início: a par do riso, a mais discreta,
a mais comum das utopias.


Miguel Cardoso (n. 1976), in Que Se Diga Que Vi Como A Faca Corta (Mariposa Azual, Junho de 2010). «O seu primeiro livro, Que se Diga que Vi como a Faca Corta, remete logo no título para a órbita de Herberto Helder. Todavia, os evidentes pontos de contacto com a escrita do autor de A Faca Não Corta o Fogo – poemas longos; imagens fortes; linguagem ao mesmo tempo obscura e exaltante, densa, visceral – nunca o reduzem à condição de epígono». (José Mário Silva, LER) «Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física». (José Mário Silva, Expresso) «Esta é uma poesia política, que não negligencia o investimento formal, mas que disponibiliza nos seus versos um relatório fragmentário e eficaz de signos reconhecíveis. Estes, embora não sejam representações excessivamente denotativas de certo estado de coisas, formulam quadros de referência que situam os poemas de Miguel Cardoso numa certa forma de entender o seu próprio tempo». (Hugo Pinto Santos, Público)

SOBRE PULHICE E OUTRAS MATÉRIAS


Como não estou minimamente interessado em conhecer as intenções de voto do Valupi, salto a cassete. Prefiro questões de fundo de gaveta, complexas, eventualmente tão improváveis como a existência de buracos negros no interior de buracos negros. Tipo: como compreender que um partido que se diz socialista governe sempre em reiterada contradição com os princípios mais elementares do socialismo? O Valupi foge à questão com uma questão: de que socialismo estamos a falar? Ora, segundo julgo saber, um princípio básico do socialismo é a igualdade de oportunidades. Valerá a pena falar de caciquismo? Valerá o esforço? O exemplo mais pungente nesta matéria é-nos logo oferecido pelo actual presidente do PS: «É um caso raro na política portuguesa: toda a família mais directa do líder parlamentar socialista, Carlos César, está em cargos de nomeação ou eleição política». Talvez a única coisa que possa ser desmentida na notícia é o tratar-se de caso raro. Quanto a pulhas, talvez não fosse má ideia recordar notícias sobre as mãos largas de alguns empresários neste país (aqui). A troco de quê tamanha caridade? Ou voltar a folhear “Os Donos de Portugal”. Ou espreitar os perfis nas redes sociais de alguns administradores e directores de empresas que engordam à custa dos salários miseráveis que pagam aos seus funcionários. Talvez fazendo tal esforço cheguemos a alguma conclusão, caso não as tenhamos já todas previamente definidas por uma qualquer cega fé na inocência dos pulhas.

VIVA O CAPITALISMO


"De acordo com os dados das Nações Unidas, há disparidades “regionais generalizadas”, que se relacionam com “desigualdades de rendimento”, e que afectam as hipóteses de sobrevivência das crianças".

MALDIÇÃO


Chegará o dia em que a tua actividade sexual equivalerá às vezes que vais ao cinema.

domingo, 16 de setembro de 2018

EM NOME DO PAI, DO FILHO, DO ESPÍRITO SANTO E DE BUDA


[A tia de um amigo meu]


A tia de um amigo meu
Que deus a tenha
Apesar de eu não saber
Se faleceu

Falou-lhe um dia
Depois de ver as notícias
De um grande tsinami na ilha de Sinatra

Assim que ele ouviu aquilo
Foi projectado pelo ar
Escavacou a casa toda
E saiu pela janela

Disparou o sobrinho da culatra

Mas mais
Muito mais que isso

Fê-lo à maneira dela.



Sebastião Belfort Cerqueira (n. 1987), in RSO&SBC (Douda Correria, Abril de 2018). «O leitor viciado em ecos talvez possa pressentir aqui o jovem Nemésio esperando o Navio de Sal, ou a batida sincopada do Navio de Espelhos de Cesariny, mas se esta poesia alude, e às vezes expressamente, a poemas doutros autores, de Sá de Miranda a Manuel Bandeira, essas apropriações são sempre desviadas em benefício de um mundo verbal singular e inconfundível» (Luís Miguel Queirós, Público).

sábado, 15 de setembro de 2018

A PERGUNTA É

O que vai acontecer a estes patrões? Se julgam ser caso único, desenganem-se. Já agora, chegam-me ecos alarmantes sobre as condições de trabalho de quem produz o famoso pão de Rio Maior. Amigos jornalistas, não querem investigar? Mexam-se, caralho, dignifiquem a vossa profissão de jornalistas. 

JOCASTA & DIZIMAR



   Após a publicação de Sumo de Limão — Silva de Versos (frenesi, Setembro de 2017), em edição conjunta de que demos conta aqui, Paulo da Costa Domingos (n. 1953) regressa com duas plaquettes vindas a lume com poucos meses de diferença: Jocasta (frenesi, Maio de 2018) e dizimar (frenesi, Agosto de 2018). A primeira, tendo como figura central uma personagem mitológica, inicia com o poema intitulado O Verbo Se Fez Carne. Anteriormente publicado na revista Cão Celeste, este poema indica-nos logo no título uma perspectiva cosmogónica que o léxico dos versos confirma. De um modo irónico, o sopro da criação é desmontado pela vontade de questionar o lugar da mulher na história do mundo. A última estrofe não deixa dúvidas quanto à vertente heterodoxa do poema: «Quem regressa do vale / e seus olhos viram / coisas nunca vistas, / só lhe diz ser altura / de soprar menos» (p. 5).
   A convocação de Jocasta, de certo modo explicada em nota marginal, leva a um questionamento da historiografia burocrática. Se é pacífico ter sido Sófocles quem, entre os poetas trágicos, mais se esforçou por oferecer à mulher um primeiro plano na significação das dores humanas, não tão pacífico será sobrepor a relevância de Jocasta a Antígona neste domínio. De facto, se um dos principais conflitos na tragédia de Sófocles é aquele que opõe a lei do Estado ao direito familiar, Jocasta foi estupidamente secundada por quem sempre preferiu relevar o papel desobediente de Antígona. Afinal, é a mãe de Antígona, nascida de uma relação incestuosa, quem melhor poderá simbolizar posteriormente uma crítica da estrutura base das sociedades judaico-cristãs. Jocasta que se desfez de um filho, pedindo que o matassem, para acabar posteriormente casada com ele, dele tendo filhos, acabará por se suicidar, enforcando-se no quarto: «Voraz, absoluta entrega e / único feminismo sem o sofisma / do horror aos trilhos do coração, / nasce de si mesma: carnívora, / nuamente infame como feixe / d’espinhos coroando a Natureza» (p. 10).
   Este hino orquestrado por Paulo da Costa Domingos concorda com o que conhecemos da sua poesia anterior pela sobreposição dos valores do corpo às leis morais impostas por forças externas à consciência individual, num epicurismo anárquico que não prescinde de sobrelevar o indivíduo a uma qualquer ideia de Estado. Do mesmo modo, no conjunto intitulado dizimar, verbo com conotações etimológicas também elas apelando a certa noção de tragédia humana, o indivíduo surge colocado na posição do condenado que o carrasco se presta a executar. Neste caso, o carrasco tanto pode ser uma ideia de cidade (malha urbana) como os «urbanistas com seus compassos» (p. 11): «¿Que posso eu dizer-vos?... / Que esta maneira de civilização / pinga como uma torneira lassa, / e o seu laço nos estrangula» (p. 5). Quem acaba estrangulado é o rebelde, vítima da normalização que tudo higieniza, tornando a paisagem asséptica, amorfa, monótona, sufocante. A própria poesia acaba posta em causa neste cenário de desolação: «Desta rebeldia / com véus  que encobrem a raiva / e o desespero» (p. 9).
   O espectáculo entristecedor das sociedades de consumo, eufemismo para sociedades autodestrutivas, tem também no centro do seu imenso palco aqueles que se lhe opõem, por vezes perdidos em labirintos de consciência, outras vezes vitimados pelo sufoco a que são sujeitos pelos algozes da normalização. O poeta é uma dessas figuras, não apenas por insistir na prática de uma arte antiprodutiva, logo desconsiderada como esperdício excessivo, mas sobretudo por na sua zona restrita se manter fiel a um propósito antigo, que já vem dos tempos de Jocasta, o de desviar da lógica idealista todos quantos prefiram o veneno do sonho erótico ao veneno do sacrifício redentor. Neste contexto, a poesia de Paulo da Costa Domingos pode também ser lida como esconjuração, grito de rebeldia, espécie de exorcismo proferido contra todas as forças que se oponham à liberdade individual, à autoconsciência, aos prazeres de um corpo que é garantia de estarmos vivos:

¡Vai embora! ¡Larga-nos!,
larga o teu inimigo.

Teu ganho e nossa perda
já mal se distinguem.

Na desolação dos oásis as bocas
abrem-se e são grutas em f’rida.

Solidão de vozes gastas
no sussurro conspirativo.

¡Nem na noite há refúgio!
¡Larga!, larga o teu inimigo.

Fatiga, a luta, e ainda
não chegou o pavor.

Certo. Teremos bebido;
muito menos que mentiras

dizem os poetas durante
uma greve selvagem.

Resta referir, até por respeito a velhas cumplicidades que nestas coisas são o que mais conta, que a capa de Jocasta tem na sua origem uma fotografia de Rui Baião. E de Carlos Ferreiro é a ilustração na capa de dizimar.