sábado, 10 de dezembro de 2016

JOHN MONTAGUE (1929-2016)


Um poema aqui. Outro aqui.

A CHAMA E AS CINZAS

Ainda que ancorado nas naturais limitações de uma síntese, um livro como A Chama e as Cinzas (Bertrand, Setembro de 2016) padece, à partida, de um mal sem cura: propõe-se realizar o que sabe irrealizável sem resvalar para generalizações de objectividade duvidosa. Uma das primeiras generalizações proposta pelo autor é a de três orientações para a literatura portuguesa produzida depois da Revolução: a que olha para trás (focada na História), a que olha para a distância (focada em espaços geográficos exteriores ao território nacional), a que olha para dentro (focada no Eu próprio). A pergunta que se impõe é: não foi sempre assim? O que há de novo nestas três, que poderiam ser quatro ou cinco ou seis, orientações? Nada. Sempre em todas as épocas houve escritores que olharam para fora tanto quanto olharam para dentro, ainda que rareiem aqueles que preferem olhar-se ao espelho, não para se contemplarem, mas para se questionarem sobre o que em si há de verdadeiramente humano e universal. Talvez seja isto o que falta tanto à literatura portuguesa como à crítica que a fixa, estando porventura essa lacuna relacionada com uma ausência de espaço crítico verdadeiramente autónomo e independente.
Percebemos que esse espaço crítico é exíguo quando no texto intitulado Literatura e sociedade: as hipóteses de Abril, se sugere uma ideia de literatura enquanto «fenómeno das margens», a qual parece desfasada do espectáculo festivaleiro que tem vindo a aglutinar toda a indústria livresca (falo de indústria livresca pensando em todos os seus agentes sem excepção). Curioso notar que estes textos tenham sido motivados pela nomeação de Portugal como país-tema na Feira do Livro de Frankfurt de 1997, a qual não deixa de ser feira por ser em Frankfurt e, por consequência, ao ser feira, não deixa de arrastar consigo as vaidades que o autor do livro em causa parece desdenhar. Que margens serão essas que uma Feira como a de Frankfurt se encarrega de promover? Não há margens, o espaço de resistência fica ao lado de quaisquer panorâmicas de pendor académico, por mais que o academista reclame para si um lugar de exclusão. Tudo isto se integra, portanto, num espectáculo em torno do livro que o reduz, por um lado, a objecto de mero entretenimento e, por outro, a certificado para consagração na sociedade anónima da autoproclamada intelligentsia.
Igualmente redundante resulta o capítulo intitulado Leituras da História: facto e ficção no romance. Às teses explanadas nada há que contrapor, a não ser a constatação de um laconismo resultante de uma decepcionante colagem ao cânone (Saramago, Lídia Jorge, Jorge de Sena, Vasco Graça Moura). Não estando em causa a noção mais usual de “romance histórico”, mas antes a relação do romance com tempos históricos concretos para a metaforização do presente, é difícil aceitar a inexistência de uma referência, por mais fugaz que fosse, aos romances de J. Rentes de Carvalho, precisamente pela consciência da História que revelam ao reflectirem o tempo do autor tanto a partir de uma observação do país anterior à revolução como de uma análise crítica do que a revolução trouxe a esse mesmo país. A prosa de José Martins Garcia mereceria também uma referência, nomeadamente pelo olhar desempoeirado, céptico e desencantado que oferece sobre a Guerra Colonial e os primeiros anos de regime democrático. As referências que João Barrento respiga num quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000) acabam por ser mais do mesmo, ou seja, as que encontramos profusamente divulgadas nas páginas dos suplementos literários, no jornal dito da especialidade, nas revistas literárias onde a crítica se vai exercendo de um modo oficial e oficioso.
Um capítulo sobre a “literatura de mulheres” é sempre simpático, ainda que discutível nos termos em que aparece invariavelmente formulado: é discriminatório falar em literatura feminina, mas... Ora, é precisamente no mas que reside o problema de tal critério. Em suma, podemos defender que esta separação não faz sentido. Há boa e má literatura, independentemente do género do autor que a produz. A optar-se pela divisão, sobretudo colocando o enfoque numa mudança de paradigma social, por que não um capítulo dedicado à chamada literatura gay? João Barrento está mais interessado na «transformação radical (…) da perspectiva narrativa (as mulheres narram a partir de um olhar mais estático e interiorizado, como que à janela, observando o mundo a parir [sic] da casa)» (p. 64). Não comento. As obras em evidência são as de Maria Velho da Costa e da inevitável Maria Gabriela Llansol. No entanto, Barrento apoia-se nelas para sublinhar características que não são exclusivas de uma suposta narrativa no feminino. O mesmo acaba por reconhecê-lo, socorrendo-se de livros tais como Finisterra, de Carlos de Oliveira, e esse «belo e estranho livro de contos que é A Casa do Fim», de José Riço Direitinho, ou ainda a obra de Rui Nunes, para sublevar estratégias discursivas que, na opinião do ensaísta, se revelam com maior acuidade na chamada escrita feminina: polifonia narrativa, supressão da temporalidade linear, a textualização em primeiro plano, a contaminação do romance por outros géneros (poema em prosa, ensaio, fragmento, carta, autobiografia…). Mesmo delimitando a análise à experiência literária portuguesa ocorrida entre os anos de 1974 e 2000, parece-nos algo forçado, para não dizer contraproducente, sustentar em tais tendências discursivas uma literatura que é muito mais fruto do tempo do que de um género.
Mais entusiasmante é o capítulo dedicado ao conto, com uma abordagem certeira à problemática encerrada nas formas narrativas breves. Ainda que notemos algumas ausências relevantes no decurso de uma espécie de genealogia do conto português durante o séc. XX — José Gomes Ferreira, tão injustamente esquecido, será a ausência mais chocante —, é de sublinhar o esforço de divulgação de obras não tão consensuais (onde cabem tanto Pedro Paixão como Jacinto Lucas Pires) a par de outras relegadas, sem que entendamos porquê, para um segundo plano (Teresa Veiga, Maria Judite de Carvalho ou o supracitado José Riço Direitinho). Incompreensível, porém, que ao falar-se de conto português num período como o abarcado por esta obra se omita por completo a influência de Mário-Henrique Leiria e Ana Hatherly, com as Tisanas, sobre um conjunto de autores que à entrada do séc. XXI intentaram explorar os territórios mais experimentais da micronarrativa. Da mesma forma, torna-se difícil aceitar que um contista como Alface, com livros fundamentais publicados nas décadas de 1980 e 1990, seja ainda hoje, passados quase 10 anos sobre o seu desaparecimento, um não-autor nas contas da crítica especializada.
Resta a poesia, que para o drama não houve tempo. Reconhecida a impossibilidade do balanço, João Barrento toma o pulso à «nossa época pós-moderna, glamorosa e hedonista», uma época que «quer ver caras e corações, quer nomes, rostos e as vozes humanas dos poetas, quer espectáculo e histórias (talvez por isso proliferem hoje, pelo menos na Europa, os Festivais e as leituras de poesia)» (p. 118). Estas coisas afirmam-se não sem razão, acolhem fácil e rapidamente a empatia de todos quantos denunciam esse aparato vampírico da nossa época. O problema são os reis que desfilam nus. Segue-se, então, um longo programa de enumerações especialmente preparado para a Feira (seja ela a de Frankfurt ou a dos poetas incipientes à espera de serem citados). Impressionante que um género tão low profile provoque sempre tamanha celeuma e obrigue a cuidados redobrados. Será da hipersensibilidade dos poetas? Findo o tempo dos grupos associados a revistas, siga-se então o tempo das publicações associadas a grupos. O primeiro passo (um dos) será dado por quatro poetas muito respeitáveis e a publicação de um Cartucho: Joaquim Manuel Magalhães, o mais lido dos quatro nestas páginas, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, o menos lido dos quatro nestas páginas, e Helder Moura Pereira.
Na verdade, estamos numa encruzilhada. Tal como é impossível caminhar num pântano sem ficarmos nele atolados, também se afigura missão impraticável falar da poesia num tempo histórico sem nos prendermos à diversidade (imensa, no caso português, mesmo quando adoptamos a postura exigente do cirurgião) das suas vozes. E nisto, como em tudo, há sempre um grau de subjectividade inultrapassável. Sublinhe-se o risco dos traços gerais. Barrento sugere três orientações maiores: 1.ª viragem para uma poesia da experiência quotidiana, 2.ª regresso às histórias, ao poema longo e narrativo, 3.º um ecletismo que acolhe tanto o tom elegíaco e desencantado como o regresso à tradição. Em suma: o primeiro Joaquim Manuel Magalhães. O problema é que estas são apenas três orientações de uma encruzilhada bem mais complexa. Onde encaixar aqui, por exemplo, a assimilação da cultura Beatnik no Portugal atrasado da década de 1970 em diante, nomeadamente nas obras dos três autores por detrás da antologia Sião (Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião)? E que tem que ver com esse realismo apontado por João Barrento o António Ramos Rosa dos anos 1980 e subsequentes? E o poema em prosa, extremamente metafórico, de Luís Miguel Nava? E a poesia minimalista de um Jorge Sousa Braga? E o confessionalismo dito pop de uma Adília Lopes? E a reflexividade ensaística, situada nos territórios da contracultura, de um Fernando Guerreiro? E a diarística de um reiteradamente ignorado Silva Carvalho? O novo realismo que João Barrento ajuda a impor é apenas uma face de um rosto cúbico, com muitas mais do que duas faces à disposição dos leitores.
Tendemos a crer que não há tendências dominantes na poesia de uma época senão no discurso tendencioso de um crítico. Falar de poesia de uma época estando tão dentro dela já se nos afigura tarefa hercúlea, quanto mais delimitar-lhe tendências. É o crítico quem procura impor domínios, tentando separar águas que serão sempre mais fecundas se nelas se debaterem a multiplicidade de discursos possíveis no contexto de uma literatura polissémica. Dito isto, sobraria a dessacralização da poesia como tendência geral não fosse, aqui e acolá, a resistência de vates mais dados às coisas do sagrado que porventura se julgarão no papel de demiurgos a cada vez que escrevem um verso. Ficou feio ser-se ideológico, é certo, o hermetismo entrou em desuso, mas mantém-se uma enorme indulgência para com tudo quanto queira ver Deus (o do Tolentino ou o do Barahona) entre as ruínas do temp(l)o. E uma poesia do feminino, não há? Deveremos apô-la, contando com as explicações supra, a estas tendências masculinas? Não existem respostas para estas perguntas em A Chama e as Cinzas. Há apenas a reafirmação das «tendências elegíacas de alguma da novíssima poesia portuguesa» como se o mundo aí tivesse parado, como se ao lado e sobre as lágrimas contidas de uma melancolia rasa não troasse já o riso escarninho e a ironia fina de uma poesia muito mais lúdica, satírica, solar até.

Em suma, o diagnóstico é hiperbólico na leitura negativista que oferece do mundo: «A escala do mundo define-se hoje por dois parâmetros que se opõem e se completam em cada indivíduo: o movimento das Bolsas (o único lugar onde a vida se rege ainda por «valores») e as vivências do corpo (quase só valorizado na sua dimensão cosmética e hedonista)» (p. 177). Quando as premissas são estas, valerá a pena partir para a discussão crítica de um tempo? Esta é a questão que talvez devêssemos formular antes de todas as outras, pois todas as outras serão uma consequência da resposta a esta pergunta. O mundo parece sempre mais diverso do que esses dois parâmetros permitem adivinhar. A crise profunda que, segundo João Barrento, afecta hoje os estudos literários é, como todas as crises, um teste ao paradigma da tradição que enforma tais estudos. Numa sociedade que espera dos seus cidadãos apenas competências técnicas, torna-se quase anacrónico exigir-lhes competências críticas. Digamos que o homem da cidade não está preparado para tanto, ele é ao mesmo tempo carrasco das velhas figuras e vítima da ausência de tradição (a qual redunda no desenraizamento histórico). Continuamos a pensar, as leis do pensamento coligidas por Aristóteles são as mesmas, mas o foco e o interesse são outros. O diagnóstico elaborado por Barrento é, desta forma, convincente na denúncia dos perigos que nos espreitam, mas acaba por perder credibilidade quando ao longo de 170 páginas insiste numa leitura demasiado concentrada da literatura portuguesa. As redes de comunicação que hoje cativam as massas também têm os seus méritos. Um deles, é o de dar a entender e mostrar que há mais literatura para lá do cânone. E ao tempo caberá, mais do que nunca, fazer viver ou enterrar o que já não está nas mãos dos cangalheiros da universidade. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CELEBRE-SE A VIDA


Kirk Douglas faz 100 anos. Num ano de lutos sucessivos, celebremos a vida deste bom velho cowboy. Podemos revê-lo em The Indian Fighter, do grande André de Toth. Ou em Last Train From Gun Hill, do inevitável John Sturges. Ou numa das mais inesquecíveis encarnações do célebre Doc Holliday, em Gunfight At The O.K. Corral. Ou, para terminar, num improvável mas extraordinário duelo com o escritor de canções Johnny Cash, em Gunfight. Clique nos títulos a vermelho e será reencaminhado para as boas memórias de um grande actor.
And if my thought-dreams could be seen
They’d probably put my head in a guillotine
But it’s alright, Ma, it’s life, and life only


Bob Dylan

I'M ONLY BLEEDING

A meio da década de 1960, Bob Dylan inflectiu na direcção dos blues e do rock’n’roll com homenagens a Chuck Berry, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson. A influência de Woody Guthrie mantém-se tanto em termos líricos como ao nível da composição. Sucede que a tradicional viola acústica a que a folk music se confinava encontra o ruído das guitarras eléctricas, conjugando-se para ultrapassar convenções e desbravar o caminho para uma dimensão lírica do rock até então desconhecida. Já toda a gente sabe do escândalo que foi Bob Dylan aparecer em palco como uma guitarra eléctrica a tiracolo, mas poucos se têm interrogado sobre a atitude contestatária inerente a tal gesto de rebeldia. Em si mesmo, o gesto de Dylan foi uma canção a derruir as muralhas do preconceito. Acresce que em Bringing It All Back Home (1965) encontramos alguma da lírica mais alucinada e onírica saída da pena dylaniana. O ano ficará marcado pela chegada de tropas americanas ao Vietnam, pelo assassinato de Malcolm X, pela invasão da República Dominicana, por toda uma série de factos e de acontecimentos que conferiam ao mundo uma imagem apocalíptica. Canções como On the Road Again, Bob Dylan’s 115th Dream, Mr. Tambourine Man, reflectem esse estado caótico da sociedade de então, tendo algumas das imagens surrealistas que as compõem chegado a ser associadas ao consumo de drogas como se fosse necessário um homem drogar-se para exprimir a vertigem de um tempo confuso e desarrumado. No zénite deste onirismo, como o velho da montanha que lá do alto nos observa, surge It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding). É difícil não falar de génio quando nos deparamos com uma canção destas. Quem questiona ou duvida das capacidades poéticas de Bob Dylan devia ser obrigado a ler esta letra em voz alta pelo menos uma vez na vida:


(…)

For them that must obey authority
That they do not respect in any degree
Who despise their jobs, their destinies
Speak jealously of them that are free
Cultivate their flowers to be
Nothing more than something they invest in

While some on principles baptized
To strict party platform ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God bless him

While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society’s pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he’s in

But I mean no harm nor put fault
On anyone that lives in a vault
But it’s alright, Ma, if I can’t please him



(…)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DAQUI PARA FORA


Quem percorra a página do Público, deverá fazê-lo com cautela. Aliás, hoje em dia toda a relação com um órgão de comunicação social exige enorme cautela. Ao mínimo descuido, sai-se ferido com mazelas para a vida. 
A imagem ao alto é o destaque do dia, sob a qual surge uma notícia que parece anúncio a thriller de série B: «Rui Rio ensombra Passos ao participar em almoços e jantares do PSD». O contraste não podia ser maior, pensamos. Mas logo somos desmentidos pela notícia que se segue: «O que menos interessa no debate sobre O Último Tango em Paris é a manteiga». Recordar-se-ão da célebre cena de sexo lubrificado com manteiga. Toda a gente lhe chama cena de sexo anal, mas eu não me recordo de ver referências a isso no filme. Também não me apetece revê-lo. Estou mais interessado em conseguir conciliar as ruínas e a miséria de Alepo com as aparições no interior do PSD e pacotes de manteiga em cenas filmadas há 42 anos. Não conseguindo, volto-me para a cultura e para o desporto como quem busca refúgio para a sanidade mental: «Cheerleading e Muay Thai com estatuto olímpico provisório», «Numa praça de Beja, ficou provado que substituir calçada por laje não é boa ideia». 
Com legitimidade interrogamo-nos sobre o sentido deste mundo e não vislumbramos resposta minimamente satisfatória. Parece tudo improvável como num filme de ficção científica. O mais que podemos supor é estarmos precisamente a viver num filme de ficção científica, guiados por um génio maligno para o qual a razão não tem filtros. 
Ora tentemos conciliar mais dois cabeçalhos: «Trump nomeia um céptico das alterações climáticas para Agência de Protecção Ambiental» e «Os americanos acreditam em notícias falsas 75% das vezes». Talvez exista um sentido escondido por detrás de tudo isto, um sentido que desafia imaginação e perspicácia, indução e dedução, um sentido ao qual uma outra notícia, também relacionada com os EUA, oferece maior problematização: «Perdeu o seu amor por apoiar Trump? Há um site para encontrar um novo par». E assim concluímos que vivemos no melhor dos mundos possíveis, como pretendia o filósofo e inúmeros dos seus seguidores. Enfim, não admira o tempo perdido no entretenimento à disposição.
Ontem, a caminho do mar, ouvia, com a boca mais aberta do que os ouvidos, os comentários em antena aberta à notícia do dia: «Portugal é dos países onde mais alunos pobres conseguem bons resultados». Os resultados no estudo PISA são animadores, mas os portugueses, a generalidade dos portugueses, não sabem lidar com resultados animadores. Se por um lado se discutia a quem devemos dar louros pelos resultados alcançados, por outro a ladainha do costume fazia as honras da casa. «É preciso é disciplina, disciplina e mais disciplina, no meu tempo coisas que se passam hoje eram impensáveis, os professores não têm autoridade, não há respeito». Poderíamos congratular-nos com a boa notícia, aproveitá-la para pensar os critérios do estudo em causa e as razões dos resultados obtidos. Nada disso. Infelizes com a felicidade, buscamos de imediato pretextos para transformar uma boa notícia num pesadelo. 
Tudo isto é de uma insignificância atroz, obviamente. Alepo, sites de encontros para eleitores de Trump, cenas com manteiga, fantasmas no PSD, cheerleading com estatuto olímpico, notícias falsas e a rede social dos literatos lisboetas com o pito aos saltos por causa de quem pediu prefácio a quem... nada disto tem interesse algum. Farinha do mesmo saco demente. Pela parte que me toca, concentro-me no feijão mágico que a Beatriz me ofereceu. Cresce a olhos vistos com um coração em cada face, já rebentou as asas e aguardo pacientemente que comece a voar e me leve de pendura daqui para fora. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

#88



Aproximamo-nos vertiginosamente da idade do luto. Tornou-se demasiado natural alguém nos morrer. Sentimos que estamos a envelhecer quando a morte encarna uma cadência repetitiva ao redor das coisas que amamos. 2016 é, definitivamente, um ano de luto, por razões várias e tão diversas quanto a merecida banda sonora que lhe foi oferecida. Logo a inaugurar o ano, David Bowie despediu-se com um perturbador Blackstar. Nick Cave expurgou a perda de um filho com Skeleton Tree. Um mais sentimental, outro mais catártico, são discos que ficarão para a história também pela dimensão redentora que inspiram. 
Transcendendo todas as trincheiras da mais vulgar das ânsias e do mais traumático dos medos, Leonard Cohen despede-se com a mais poética das cartas de despedida. You Want it Darker (2016) não é apenas um até sempre, é um dos melhores álbuns de Cohen e uma lição de elegância e de serenidade face ao rosto da morte. A produção de Adam Cohen, filho de Leonard, acrescenta ao registo uma extraordinária poética dos afectos, almejando para uma voz arrastada, envelhecida e saturada o suporte musical necessário e imprescindível. As palavras soam como orações, soam como lições, soam como devem soar as palavras de um sábio, são de uma entrega e de uma tranquilidade impressionantes. O timbre clássico das composições, divididas com Patrick Leonard e Sharon Robinson, conhecem o parceiro ideal em apontamentos de uma modernidade singela mas invejavelmente eficaz. 
Em Traveling Light, por exemplo, as cordas ao jeito judaico equilibram-se com programações e coros que nos transportam para uma espécie de dança celestial. Conduzidos pelo israelita Roï Azoulay, os coros são de uma beleza inexcedível e formam instantes de puro génio nos diálogos que estabelecem com a voz do monge no centro de um templo onde é ainda possível escutar discretos solos de guitarra, malhas de baixo, violinos, bandolins, sem que as partes se dispersem e perturbem o todo. O todo que é uma voz, uma voz que é sabedoria. «I’m ready, my Lord», canta Leonard Cohen logo na primeira canção. E a gente agradece por nos ter deixado em paz com mais uma mão cheia de canções inesquecíveis:


ANONYMOUS

O anonimato não espelha necessariamente uma atitude cobarde. Ele pode ser o escudo por detrás do qual o guerreiro se protege num tempo em que uma das maias poderosas armas é o aparecer. Com o tempo vamos aprendendo a valorizar tais armas, sobretudo ao constatarmos que, em certos casos, a supressão do anonimato redundaria apenas no reforço do insuportável teatro das conveniências. Ou seja, desfeito o anonimato: amigos para sempre. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

EDUARDO GUERRA CARNEIRO


Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 33. Clique na imagem para ver melhor. Sobre Eduardo Guerra Carneiro, algumas notas aqui, aqui e aqui

FAZ DE CONTA

Há dias fui jantar com um grupo de amigos. Amigos com histórias para contar. Algumas com 20, 25, 30 anos. Amigos de infância, amigos de adolescência. Enfim, velhos amigos. Uns mais, outros menos. Cada qual com a sua vida, seguindo o seu rumo, em direcções por vezes opostas. Mas amigos. Como pode alguém ser amigo de alguém de quem jamais seria amigo na vida real? Isto é, fora de uma rede social. A rede social também é real, mas será real o que se passa na rede social? Suponho que o conceito de pós-verdade tenha que ver com isto. Suponho que comece aqui. Não é verdade que as pessoas sejam amigas, entre elas estabelecem-se elos interesseiros que nada têm que ver com a amizade. São amigos a brincar. A pós-verdade é uma verdade a brincar, reflecte a tal infantilização do mundo que temos vindo a denunciar. O mundo está cada vez mais faz de conta. Recuso juízos de valor sobre isso, limito-me a constatá-lo. 

MARIA HELENA E JORGE JESUS


Maria Helena é uma espécie de bruxa fina com direito a espaço mediático nas manhãs da SIC, em canal aberto. Já publicou livros, os quais vendem que nem tremoços. Maria Helena diz que resolve problemas de Amor, Trabalho, Saúde, Dinheiro, tudo através do poder dos astros e das cartas. A popularidade destas técnicas ancestrais é indiscutível. Podemos, no entanto, interrogar-nos por que está a Maria Helena nas manhãs da SIC e não o Professor Karamba? Talvez a resposta resida naquilo a que chamamos poder de comunicação. A Maria Helena é loura, apresenta-se como um anjo caído do céu com o ar respeitável que um par de óculos confere. Sente-se como peixe na água à frente das câmaras, não vacila mediante questões palermas. Tem uma capacidade retórica invejável. 
Nos tempos que correm, tudo se reduz ao poder de comunicação. Não importa o que se diz, os conteúdos podem ser os mais abjectos e imbecis desde que a forma seja a correcta. Na arte também se passa isto. Maria Helena é o paradigma do artista tagarela que expõe um tijolo no meio de uma sala mas consegue elaborar um discurso coerente e sedutor acerca do tijolo, conquistando assim atenções e adeptos para a sua causa. Não importa a obra, importa o discurso que se tenha acerca da obra. Não importa a razoabilidade do tarot, importa o palavreado, a conversa, a tagarelice em torno das cartas. 
Há quem não veja mal algum no sucesso destas personagens, afirmando com complacência e certo desleixo: desde que as pessoas se sintam bem. Pois, desde que as pessoas se sintam bem. Sempre que ouço alguém falar assim recordo-me de um episódio numa série (House, M.D.?) em que uma rapariga se queixava de que o seu namorado só queria ver pornografia e não fazia amor com ela. O rapaz sentia-se bem a ver pornografia, retirava mais prazer da masturbação enquanto assistia a cenas porno do que a fazer amor com a namorada. Para a namorada ele tinha um problema, mas ele achava que não. Sentia-se bem. E se calhar não tinha, e se calhar tinha. Mas o problema dele não o afectava, afectava a sua relação com a namorada. 
Ora, com as Maria Helena deste mundo passa-se o mesmo. O prazer não está no bem-estar que proporcionam a quem as tenha em boa conta, mas na relação que os espectadores passam a ter com a realidade, com a ciência, com o saber, com o conhecimento, com o mundo à sua volta. Jorge Jesus é a antítese de tudo isto. As suas capacidades retóricas são absolutamente miseráveis. Quem o ouça falar só pode concentrar os seus esforços na contenção do riso. O homem é uma máquina de produzir calinadas. No entanto, os seus méritos de treinador são inegáveis. Jorge Jesus é a personificação derradeira da cultura de mérito. Como costuma dizer-se, percebe de futebol como ninguém. Talvez a linguagem dos homens que lidera seja do mesmo tipo, talvez exista entre ele e os seus jogadores um patamar comunicacional que escape ao mundo que os rodeia. Portanto, nada mal desde que resulte. 
Não importa que o português de Jorge Jesus seja miserável, não importa que nas conferências de imprensa ele diga as maiores barbaridades para a plateia de milhões que aguarda ansiosamente qualquer uma das suas intervenções. Importa que resulte. A favor do espectáculo. Não fosse este lado pragmático da showciedade, poderíamos olhar para Jesus como um contrapoder, um digno representante da contracultura comunicacional. Mas tal como a Maria Helena nos ensina a sermos felizes, o Jorge Jesus explica-nos os trâmites do desaire. São ambos figuras de um alçapão mediático que ajuda a entender o sucesso das iniquidades que têm na sua origem um crescente desrespeito e desinteresse por tudo quanto leve a um pensamento articulado, aquele onde a linguagem não fica reduzida à superficialidade de uma qualquer forma de empatia. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FERREIRA GULLAR (1930-2016)


José de Ribamar Ferreira nasceu a 10 de Setembro de 1930, na cidade de São Luís, Maranhão. De origens humildes, estudou numa escola técnica até aos 17 anos de idade. Do autodidactismo fez uma arma ao serviço da inteligência. Nasceu Ferreira Gullar, o pseudónimo literário. Publicou em 1949, com socorro materno, o seu primeiro livro de poemas: Um pouco acima do chão. Tinha 18 anos. Apesar de posteriormente renegado, esse livro foi o princípio de uma aventura que teria continuidade no Rio de Janeiro após promissora vitória no Concurso Nacional de Poesia promovido por um importante jornal carioca. 
Vários empregos na área jornalística foram dando para pagar as contas. A luta corporal, o segundo livro, surgiu em 1954 «prenunciando o movimento de vanguarda intitulado concretismo». Mas os interesses de José de Ribamar não podiam confinar-se a um movimento. Dedicou a década de 1960 da sua vida à prática de uma poesia engajada politicamente, acabando preso, clandestino, exilado. Viveu dois anos em Moscovo, andou pelo Chile, Peru e Argentina. 
Escreveu em Buenos Aires aquele que viria a ser o mais aclamado dos seus livros: Poema sujo (1975). Conta Antonio Carlos Secchin: «O impacto do livro foi de tal natureza que levou um de nossos maiores críticos, Otto Maria Carpeaux, a declarar que a obra deveria chamar-se “Poema Nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças do homem brasileiro"». 
Mas Gullar não escreveu apenas poesia. No conjunto da sua obra encontramos também peças de teatro, contos, memórias, crónicas, ficção infantil, ensaio. Em Uma Luz do Chão (1978) escreveu assim: 

«Quando digo que minha poesia se confunde com minha vida digo o que qualquer outro poeta diria de sua própria poesia. Faço-o, no entanto, aqui, para sublinhar o fato de que, em minha experiência, o trabalho poético sempre esteve comprometido com indagações que o antecedem e transcendem. Fazer o poema sempre foi, para mim, a tentativa de responder às indagações e perplexidades que a vida coloca. Não quis, ou não pude, buscar nele o píncaro serenamente erguido acima do drama humano. Antes, quis fazer dele a expressão desse drama, o ponto de ignição onde, se for possível, alguma luz esplenderá: uma luz da terra, uma luz do chão — nossa»

Um poema:

VIDA,

     a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa
     corpo
sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança
     fogo
sem adjectivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)

Poderia escrever na pedra
meu nome
     gullar
mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo
     facho
nos lábios da poeira
     lepra
     vertigem
     cona
qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo
     câncer
     vento
     laranjal


Ferreira Gullar, in O Vil Metal (1954-1960), in Poesia Completa, Teatro e Prosa – Volume único, prefácio, organização e estabelecimento de texto (com assistência do autor) de Antonio Carlos Secchin, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2008.

BOAS MÁS NOTÍCIAS

O que há nas boas notícias que as torna desinteressantes? As boas notícias são como as personagens boazinhas, rapidamente as olvidamos. Paradigma, ao Kevin Spacey de Sete Pecados Mortais bastaram poucos minutos em cena para se tornar inesquecível. A quantas personagens boazinhas é dedicada a mesma atenção? Amélie Poulain precisou de um filme inteiro centrado nela. Da Áustria chegam-nos boas notícias. A derrota da extrema-direita nas presidenciais só aparece ao fundo da página. Seria assim se tivesse vencido? Por sua vez, no topo temos o não à reforma constitucional referendada em Itália. A acompanhar a notícia, que para o cidadão comum não é boa nem é má, lá vem o parágrafo sobre eventuais eleições antecipadas, porta aberta aos populismos italianos, declarações da xenófoba francesa Le Pen à propos. Os media já não sabem viver sem esta excitação do mal, do negativo, do medo. O pânico é um aliado infalível das notícias, mas um inimigo cruel da reflexão. Por que é que uma boa notícia na Áustria não tem o mesmo interesse que uma notícia assim-assim em Itália? Porque a notícia assim-assim tem uma face carregada de ansiedade, e é isso que empolga as massas, atrai as atenções. Desta miséria humana já não nos safamos. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

THE RARE BREED (1966)



Depois do drama familiar encenado em Shenandoah/O Vale da Honra (1965), Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014) deu seguimento ao seu percurso pelo Antigo Oeste num registo mais ligeiro. The Rare Breed/Rancho Bravo (1966) como que aproxima o mais clássico dos géneros cinematográficos daquilo a que hoje chamamos comédia romântica. A insistência em James Stewart no papel principal é um forte argumento a favor deste filme, ao qual devemos adicionar a presença da belíssima Maureen O’Hara (lembrar-se-ão dela em Rio Grande). Mas há ainda, para os indefectíveis do western, aparições mais ou menos fugazes de actores carismáticos tais como este respeitável trio constituído por Harry Carey Jr., Jack Elam e Ben Johnson. São presenças que oferecem a Rancho Bravo um proveito insofismável, nomeadamente se tivermos em conta o plot algo caricato desta obra. 
Uma inglesa e a sua filha fazem tudo o que está ao seu alcance para introduzir nas pradarias norte-americanas a raça de bovino Hereford, contra a incredulidade e até o descrédito dos instalados criadores de Texas Longhorns. O pretexto serve a Andrew V. McLaglen a possibilidade de engendrar todo um rol de piadas subtis acerca da miscigenação, mormente acerca dos preconceitos que ainda hoje opõem britânicos e americanos. Os estereótipos são por demais evidentes. De Inglaterra chega-nos a forma, a América oferece-nos o conteúdo. Os primeiros são utópicos, os segundos são pragmáticos. Talvez ambos se aproximem pela obstinação, embora nos primeiros esta seja representada por figuras femininas e sensíveis, ao passo que nos segundos a ela se oferece a figura do cowboy truculento. 
Entre os dois campos da batalha surge também um escocês há muito radicado na paisagem americana, já mais descrente do que confiante, embora ousado e intransigente. A transformação operada na aparência dessa personagem interpretada por um cómico Brian Keith, de sotaque scottish a acompanhar uma figura abrutalhada progressivamente transfigurada num romântico e cerimonial pretendente, é em si mesma a representação de uma dualidade anglo-saxónica em evidência ao longo de todo o filme. Tenhamos em conta o facto de o próprio Andrew V. McLaglen ter nascido em Londres, radicando-se nos Estados Unidos para aí concretizar praticamente toda a sua carreira cinematográfica. A inclinação para o western, género tipicamente norte-americano onde conseguiu os seus filmes mais aclamados, é reveladora da assimilação de uma cultura que, apesar das naturais ligações à monarquia britânica, pouco tem que ver com as formalidades do império de sua majestade.
The Rare Breed, traduzível à letra por A Raça Rara, trata disto mesmo com inquestionável fair play. Ao longo de inúmeras cenas de acção tão empolgantes quão divertidas, pode no entanto passar despercebida a maravilhosa dádiva que este filme tem para oferecer. Envolto numa aura de puro entretenimento, ele fala-nos dos esforços porventura contraproducentes para domesticar o indomesticável. A raça rara que o filme patenteia é a dos espíritos livres, autónomos, independentes, que apesar das diferenças culturais se aproximam pela mais tirânica das leis: a natureza segue o seu curso, contra isso pouco há a fazer. Ou talvez haja, pois no curso da natureza inclui-se a própria acção humana, com a sua vontade e determinação em mudar, transformar, realizar. 
Talvez o que há a fazer seja precisamente deixar que o curso da natureza se afirme, não por conformismo ou conservadorismo do que à volta se lhe poderia opor, mas por nele estarem implícitas as contradições, os paradoxos, os conflitos, as oposições sem as quais o progresso e a mudança seriam inexequíveis. Enquanto arte popular, o cinema tem também esta capacidade de reafirmar a relevância do sonho contra o determinismo das mentes mais conservadoras. James Stewart e Maureen O’Hara acabam por encarnar uma sedutora parelha neste processo de persecução de um sonho, ou, se preferirem, de uma utopia, falhada a priori, mas bem-sucedida a posteriori. O final feliz e luminoso não renega, porém, os obstáculos e as sombras encontrados pelo caminho. Simplesmente o disfarça, para que o sonho se fomente. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

ALERTA AMARELO

Pessoas que amam a democracia, mas são incapazes de discutir um assunto sem se exaltarem e começarem a cuspir perdigotos enquanto acusam com o indicador em riste: estás a contradizer-te. / Pessoas que detestam uniformes mas convivem pessimamente com os paradoxos do pensamento. / Pessoas para quem tudo tem uma lógica tão infalível como uma equação matemática. / Pessoas que odeiam ditaduras, mas convivem cumplicemente com o estalinismo tecnocrático de inúmeras empresas a operar no mais selvagem dos capitalismos. / Pessoas liberais para quem dois homens a beijarem-se na rua reflecte um comportamento intolerável, inadmissível. / Pessoas capazes de desencantar valores morais de entre os bichos, como se a moral não fosse uma abstracção do pensamento humano maleável pelo tempo, pela história, pela cultura, pelas ideias. / Pessoas que não são racistas, mas... / Pessoas que vivem entre outras pessoas que vivem entre outras pessoas que vivem entre animais. /Pessoas para quem os animais são pessoas mas as pessoas não são animais. / Pessoas que acreditam em Deus mais do que acreditam nos homens que têm à sua frente. / Pessoas capazes de ver um conflito onde há apenas o gozo da discussão inútil. / Pessoas que falam como se estivessem a evangelizar. / Pessoas incapazes de reconhecer a inutilidade dos conflitos. / Pessoas com duas pernas, dois braços, dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, uma boca e um gorro enfiado na cabeça. / Pessoas que mugem, vacas que falam. / Pessoas que vivem. E subitamente desaparecem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

JORNALISTA, POETA, EDITOR


PIRÂMIDE

As pessoas são exploradas, são manipuladas, são ludibriadas, são pressionadas, são coagidas, são insultadas. E sob o tecto um sepulcral silêncio. Por que se calam as pessoas?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


No próximo Sábado estarei de serviço, a apresentar o mais recente livro de m. parissy. Sou gajo para levar uma garrafa de vinho que é vinho.

E SE O EA FOSSE UM VINHO?


Agora imaginem que um poema podia ser um boneco (via Malomil):


E se um dummy fosse presidente dos Estados Unidos? E se as coisas fossem apenas o que são? E se o que é não fosse? E se o vinho e a poesia e os bonecos se reunissem para tomar o mundo de assalto? Porra, que mania minha esta de complicar. 

A PENSAR

A poesia não salva, nada resolve, será sempre um falhanço, mas é também uma forma poderosa de enganar um pouco a morte.

Rui Manuel Amaral, aqui.

UM POEMA DE REINALDO ARENAS


CONTRIBUIÇÕES

   Karl Marx
não teve nunca sem sabê-lo um gravador
estrategicamente colocado no seu sítio mais íntimo.
   Ninguém o espiou do passeio da frente
enquanto rabiscava à vontade folhas e mais folhas.
Pôde inclusive dar-se ao luxo heróico de maquinar
pausadamente contra o sistema imperante.
   Karl Marx
não conheceu a retractação obrigatória,
não teve por que suspeitar que o seu melhor amigo
poderia ser um polícia,
nem, muito menos, teve de se converter em polícia.
A pré-fila para a fila que nos dá direito a seguir na fila
onde afinal o que havia eram recargas para
agrafador («E já se acabaram, camarada!»)
também lhe foi desconhecida.
   Que eu saiba
não sofreu uma imposição que o obrigasse a rapar-se
ou a extirpar a sua anti-higiénica barba.
A sua época não o cominou a esconder os seus manuscritos
do olhar de Engels.
(Por outro lado, a amizade destes dois homens
nunca foi «preocupação moral» para o Estado.)
   Se alguma vez levou uma mulher para o seu quarto
não teve de guardar os papéis debaixo do colchão e,
por cautela política,
lhe fazer, enquanto a acariciava, a apologia do Czar da Rússia
ou do Império Austro-Húngaro.
   Karl Marx
escreveu o que pensou,
pôde entrar e sair do seu país,
               sonhou, meditou, falou, tramou, trabalhou e lutou
contra o partido ou a força oficial imperante na sua época.
   Tudo isso que Karl Marx pôde fazer pertence já
à nossa pré-história.
As suas contribuições para a época contemporânea foram
   imensas.


Reinaldo Arenas (n. Holguín, Cuba, 16 de Julho de 1943 - m. Nova Iorque, EUA, 7 de Dezembro de 1990), in Poesia Cubana Contemporânea, selecção, prefácio e notas de Pedro Marqués de Armas, tradução de Jorge Melícias, Março de 2009, Antígona, pp. 51-53.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

NOITE ESTRELADA


Rogil, volta d'mar, Março de 2012, p. 26 (esgotado). Clique na imagem para ver melhor. Em alternativa, poderá ler o poema aqui.

OPÇÕES

Há quem se contente com o velho dito: se não os consegues vencer, junta-te a eles. Há quem não se contente com o velho dito. Anda triste,

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

FLASHING FOR THE REFUGEES ON THE UNARMED ROAD OF FLIGHT

Muitas canções de Another Side of Bob Dylan (1964) distanciam-se do tom socialmente empenhado dos registos anteriores, enveredando por um lirismo de tipo romântico marcado por histórias onde incompatibilidades diversas colocam o amor em xeque. All I Really Want to Do dirige-se desde logo a uma segunda pessoa, neste caso indefinida, declarando uma posição sobre o relacionamento a dois: «I ain’t lookin’ for you to feel like me / See like me or be like me». Canções como Black Crow Blues ou I Don’t Believe You, mas também Ballad in Plaine D ou It Ain’t Me, Babe exibem o estigma da separação. Noutros casos, a presença de personagens femininas – a «gypsy gal» de Spanish Harlem Incident, Ramona, ou mesmo Rita da divertida Motorpsycho Nightmare – parecem aludir a uma espécie de incompatibilidade entre o espírito livre e alucinado do trovador, como se nota em I Shall Be Free N.º 10, e os requisitos de uma existência a dois. 
É relevante que no primeiro volume das crónicas Bob Dylan reforce a importância determinante que a família acabou por exercer nas suas decisões, sobretudo na opção por uma vida recatada e tanto quanto possível concentrada no núcleo familiar. Mas mais relevante ainda é tentar conciliar essa opção com a bandeira da liberdade. Naquela que é talvez a mais reinterpretada canção de Another Side of Bob Dylan é-nos oferecida uma perspectiva complexa da liberdade, a qual aceita no seu vasto programa todos quantos à face da terra façam da vida uma luta pela sobrevivência. O que é a liberdade senão esta possibilidade de, como se costuma dizer, fazer pela vida? 
Chimes of Freedom é um poema enorme em qualquer parte do mundo, daí que não seja de estranhar o sentido que faz tanto na voz de Bruce Springsteen como na de Youssou N’Dour. Os The Byrds ofereceram-lhe uma versão açucarada, saltando três estrofes inteiras. Mas vale mesmo a pena ler aqui a letra na íntegra.


CONFORTO DO LAR

Deverá o conforto de um lar determinar a credibilidade de uma opinião?
Opiniões de barriga cheia acerca do problema da fome são credíveis?
Precisará de contrair o vírus aquele que o trata?
Se a fome impede o pensamento, como pensar a fome sem estar alimentado?
Aquele que atravessou o terror estará mais habilitado a falar acerca do terror do que aquele que nunca o atravessou?

O que é um lar confortável para o animal selvagem?
Poderá o macartismo ser aceitável?
Que credibilidade oferecer a teorias sobre a liberdade proferidas por aquele que coloniza?
A caridade iliba o crime?
Mais simples: quem estou eu a ajudar se comprar umas sapatilhas Adidas made in Camboja?

domingo, 27 de novembro de 2016

FERIDO

Sob o pseudónimo literário de m. parissy, o jornalista Mário Galego (n. 1969) vem publicando desde a estreia em 1989, com um volume em edição de autor intitulado corpo indómito, vários livros de poesia em editoras de distribuição restrita. Oriundo da Nazaré, foi aí que participou na dinamização de projectos editoriais como a extinta non nova sed nove ou a activa Volta d’Mar. Além dos opúsculos editados através desses projectos, conhecemos-lhe livros aparecidos na Universitária Editora - dublin e tu (1999) -, nas Edições Mortas – morte com dedos em ferida (2000) -, na Black Son Editores - mãos de arquipélago (2003) -, na Canto Escuro – vertigem (2007) -, e na Tea for One – dança (2015). O seu mais recente livro, intitulado Ferido (Setembro de 2016), é o quarto título que faz sair na Volta d’Mar. Tal contabilidade é relevante para que se perceba a inscrição desta poesia num circuito marginal ao da produção poética merecedora, aqui e acolá, de atenções críticas facilitadoras de uma visibilidade menos reduzida.
Do que conhecemos desta poesia, importa salientar, desde logo, uma forte ligação ao lugar de origem do seu autor. Os livros de m. parissy são profícuos na reprodução de uma paisagem costeira onde o mar, a praia, as falésias, marcam presença recorrente. Ferido não é excepção. Logo nos primeiros versos encontramos “mares desconhecidos” e “cheiro a peixe”, tornando-se ainda mais evidentes as demarcações geográficas com a referência a locais concretos tais como a pensão Leonardo ou a uma toponímia deveras familiar: «rua França Borges, rua / da Saudade, rua das Flores» (p. 10). Estas referências, que em livros anteriores poderiam surgir mais veladas, assumem num livro com as características de Ferido um papel determinante. São o espaço de ocorrências que os versos recuperam e percorrem como quem narra uma história. Ainda que a dimensão metafórica não tenha sido de todo abandonada, ela encontra-se aqui em equilíbrio com a dimensão narrativa.
Não é por acaso que o livro começa com a conjugação do verbo haver na primeira pessoa do singular do pretérito imperfeito do indicativo, anunciando a existência de algo ao mesmo tempo que nos envia para um tempo passado. Onde se lê havia podíamos ler era uma vez, como tradicionalmente sucede na maioria das histórias. E é a partir de aqui, e desta forma, que somos introduzidos num universo íntimo onde a memória ocupa uma função primordial. De estrofe em estrofe, como quem salta de capítulo em capítulo numa sequência cujos versos se interligam naturalmente, ficaremos a saber que esse tempo é o da infância, clara e objectivamente declarado numa das estâncias finais do poema. É a memória dos sete anos, idade de uma etapa escolar iniciática, que aqui vem à superfície, não por dela se conservar a banal imagem do paraíso perdido ou o tão vulgarizado sentimento de uma nostalgia romântica, mas por nela se entreverem fracturas que o poema procura resolver num gesto que é em si mesmo catártico e, por isso, rejuvenescedor: «Foi preciso / inscrever o passado, para que dali / voltasse a nascer» (p. 30).
A par desta dimensão narrativa do poema, m. parissy insiste numa das suas características discursivas mais reconhecíveis, isto é, o uso sem peias de uma linguagem metafórica como reforço imagético de sensações e de percepções dos momentos em que o sujeito poético se coloca: «Um nevoeiro cobria o / peito» (p. 10), «Um sol / por baixo da língua» (p. 11), «Acordava com o silêncio que doía» (p. 22)… Agradável se torna quando associamos estas leituras da realidade à criança de sete anos aludida no poema, por fazerem ainda mais sentido no contexto específico em que a criança se encontra: fechada num quarto, isolada do exterior, adivinhamos que por doença, ligada ao mundo apenas através de uma janela de madeira velha que nunca se abre. Seis meses de reclusão aos sete anos de idade são, pois, a ferida que o poema procura sarar. Dessa experiência de reclusão, surge «O medo que a liberdade / não existisse» (p. 37). Ora, que medo maior pode um poeta sentir?

Tudo era esterilizado: pratos,
toalhas, roupa. Nada podia conter
sinais do exterior. Nem sequer as
revistas Natura pousadas na mesa-
de-cabeceira. Nem a comida, nem
as duas mãos que a transportava.


A esterilização do espaço interior para o qual vamos sendo deslocados ao longo do livro contrasta com a liberdade do espaço exterior, onde para lá da sombra se vêem rapazes a brincar, a jogar a bola, e o mundo decorre com uma normalidade insultuosa para quem se encontra na anormal circunstância de não poder sequer ser tocado pelas mãos impuras que lhe trazem comida. Entre os planos da doença e da saúde estabelecem-se elos de inúmeras leituras possíveis, acerca dos quais poderíamos formular as mais variadas conjecturas. A verdade é que não nos parece legítimo enveredar por tais caminhos quando a reminiscência transfigurada num livro como Ferido é já de si tão forte e intensa: uma criança de sete anos, isolada do mundo durante seis meses, fechada num quarto, limitada a observar o mundo exterior por uma janela fechada como se fosse um criminoso sem consciência do crime que cometeu. Transportar a intensidade de uma experiência destas para o poema, sem a tornar despudoradamente emocional e sentimental, é revelador de um engenho sem o qual nenhuma boa poesia subsiste. 

NA MORTE DE FIDEL

Tem piada, o modo como as pessoas reagem à morte de um homem. Lembrava-me ontem a Ana da repulsa que partilhámos ao observar as imagens de Muammar al-Gaddafi ou Saddam Hussein a serem humilhados e executados. Nenhuma simpatia pelas personagens fundamentava tal repulsa, apenas respeito pela pessoa humana. Esse respeito paradoxal que nos obriga a salvaguardar a humanidade da selvajaria, mesmo quando estão em causa seres humanos que atentaram contra outros seres humanos. 
O exemplo de Fidel é diferente, muito diferente. As pessoas que festejam a sua morte têm as suas razões, tal como aqueles que ainda hoje celebram o aniversário de Salazar. Tenho a certeza que há-de haver quem festejará a morte de Mário Soares, como vi pessoas festejarem a morte de Cunhal. Há gente para tudo, diz a minha mãezinha amiúde e eu repito. 
Mas para mim Fidel é mesmo um herói, sem qualquer espécie de dúvidas e apesar de vários gestos que podemos criticar na sua acção ao longo dos anos. As grandes figuras históricas são sempre ambivalentes. Constato porém que para as pessoas que hoje celebram a morte de Fidel, chamando-lhe ditador, como se nessa palavra estivesse contido o significado final do mal (Bush filho, por certo, não foi um ditador, e no entanto…), Cuba não existia antes da revolução. Saberão as pessoas o que era Cuba antes de Fidel e de Che? Saberão o que era a Cuba de Fulgencio Batista? Talvez não fosse esperar muito que investigassem um pouco, procurando pelo menos perceber que a História não é a preto e branco. Está tingida de inúmeras nuances
Libertada Cuba de Batista, saberão de facto as pessoas o que foi o regime implantado por Fidel e seus camaradas? Como se relacionou com o mundo do seu tempo? Como conseguiu sobreviver à reacção do neo-colonialismo norte-americano? Saberão das privações a que ficou obrigada toda uma nação depois de um embargo que fez o que fazem sempre as tão elogiáveis "democracias" do mundo capitalista? Isto é, isolar, condicionar, manipular, obrigar os outros a serem como elas são em proveito não de si próprias, mas dos interesses de terceiros. 
Leia-se este livro e tente-se perceber um pouco para lá dos lugares-comuns que tantas vezes limitam o pensamento. Muitas pessoas estarão convencidas de que a democracia, por si só, é um dado adquirido, mesmo quando permite que energúmenos se perpetuem no poder. E que democracias? Votar de quatro em quatro anos? Esperar que esta gente esclarecida possa em consciência escolher os seus líderes? Fará sentido a democracia se não for acompanhada de educação e de cultura? De uma imprensa de facto livre que não esteja à mercê dos interesses de quem a financia? 
Mais ou menos repressivos, os sistemas encontram sempre maneira de reprimir quem se lhes oponha. Em última instância, somos todos vítimas das black fridays que, tal como nos tempos do pão e do circo, falseiam a negra realidade de um mundo profundamente desigual, assimétrico, onde uns poucos obesos consomem desmesuradamente os recursos do mundo, condenando à miséria perpétua a maioria que nele sobrevive em condições democraticamente aceitáveis. Mas as boas consciências do capitalismo selvagem podem suspender a democracia quando bem entenderem.
Grato, pois, a Fidel, e a outros como ele, por terem colocado as suas vidas ao serviço de um mundo mais equilibrado, contra injustiças que, está visto e provado, não são eleições de quatro em quatro anos, com percentagens absurdas de abstencionistas, que as vão resolver. O problema é mais profundo e não tem uma única face. Tem várias. Daí que seja tão subjectivo falarmos hoje de "imprensa livre" (qual?) ou de democracia (quais?), apontando o dedo àqueles cuja história foi e é de resistência, resiliência e sobrevivência a males bem maiores do que não haver eleições de quatro em quatro anos ou uma imprensa tão livre e esclarecedora como, por certo, será a nossa (para não irmos mais longe). 
A talho de foice, desejo apenas que todos os portugueses que este Natal façam compras numa Zara, a título de exemplo, se sintam imensamente gratos pela democracia que vigora no Bangladesh.

sábado, 26 de novembro de 2016

FIDEL CASTRO (1926-2016)


A história absolver-me-á! - afirmou nos idos de 1953. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

DEFINA POVO