sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

HIGIENE


A história da arte é um desfile de escândalos, para o qual tanto contribui a força desafiante da linguagem artística como as resistências de sociedades enraizadas no costume e na tradição. O final do ano de 2019 ficou marcado por uma peça de Maurizio Cattelan que tudo tinha para passar despercebida, não fosse a facilidade com que hoje se transforma em polémica universal qualquer gesto que afronte ou desmonte a hipocrisia sobre a qual se ergue o chamado mundo civilizado. A banana colada à parede teve esse mérito de pôr a discutir, ainda que falhasse no objecto de discussão. A intenção do artista seria representar o comércio global, não sendo de enjeitar que os 120 mil dólares pagos pela banana, dias antes de ser exposta numa feira de arte contemporânea, fossem uma das componentes da instalação. O caso não se ficou por aqui. David Datuna, artista nova-iorquino, foi ver a banana e comeu-a. Deu um nome à performance: “Artista com fome”. Assim vai o mundo da arte nas sociedades civilizadas, as superiores. 
   Já este ano, e à medida que nos convém, fomos surpreendidos pelo escândalo de Leça da Palmeira. Uma escultura de Pedro Cabrita Reis, vandalizada por grafites, tornou-se assunto nacional pelas piores razões. O vandalismo a que foi sujeita? Não propriamente. Interessava antes saber a origem política do vandalismo, para perceber a legitimidade da indignação. O motivo das inscrições era o custo da obra: 300 mil euros. Como é possível, com tanta gente a morrer de fome, alardeou-se aos quatro ventos. Algures, alguém, nunca se sabe exactamente quem, encarregou-se de chamar a atenção para o “investimento” dos nossos municípios em fogo-de-artifício. Ora, o que leva alguém a indignar-se com o custo de uma obra de arte, independentemente do mérito que possa ser reconhecido à mesma, e a não se indignar com o desperdício de dinheiros públicos em fogo-de-artifício? 
   Mais uma vez, eis-nos perante exemplos práticos e factuais de como a arte ainda leva ao escândalo e à discussão. Involuntariamente? Pelas piores razões? Pouco importa. Julgo ser mais relevante assinalar esta pulsão para debates contaminados a priori por preconceitos, ideias feitas, lugares comuns, disseminados por áreas onde o pensamento vai sendo paulatinamente higienizado pelos modos de fazer e de estar incapacitantes do espírito autocrítico. O mais recente livro de poemas de Rui Almeida (n. 1972) confronta-nos com matérias semelhantes, fazendo uso de exemplos diversos. Em poemas onde se evocam quadros milionários de Basquiat e Francis Bacon, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro ou a “higienização” do Miradouro de Santa Catarina, ao serviço de certo hotel de luxo, sobressaem as contradições do mundo actual e o ambiente de desorientação generalizada que patrocina a angústia e o medo, o sufoco e o pânico, levando à saturação aqueles cuja sensibilidade já só resiste sob a forma de sujeito poético (uma espécie de perfil falso). 
   Aproximando-se de um tempo real, misturando-se nos factos da vida, estes poemas adoptam uma perspectiva crítica e assumem a sua vertente política sem perderem de vista um lirismo a que se agarram como a um molho de ramos se agarra quem se afunda num pântano: «Itinerantes / São todos os humanos, / Logo ao nascer, e / Sinuosos como regatos / Apenas por terem começado, / A dado momento, a ingerir / O ar venenoso do mundo» (p. 27). Há uma ironia no título que não passa despercebida. A higiene aqui retratada pode assumir vários significados, arriscando eu naquele que é o de uma higiene que, mais do que purificar ou expurgar, simplesmente conspurca, é a higiene dos falsos moralismos e das doutrinações simplistas empenhadas numa uniformização do pensamento que desprovê as pessoas de ferramentas críticas, ferramentas que levam a pensar antes de julgar, a ponderar antes de agir, a reflectir antes de generalizar. Sinal de tempos, é certo, que nos remetem para outros tempos. Isto da história se repetir tem também muito que se lhe diga. 
   Não me parece por acaso que, num livro cujo tema essencial parece ser o da falsificação dos homens, ou seja, da adulteração de um humanismo que livrou o homem de ser besta, Rui Almeida se socorra de vários exemplos colhidos no mundo das artes. Não foi na e pela arte que começámos a trabalhar a sensibilidade e o pensamento? Não foi através dessa dimensão criativa dos homens que conquistámos as maiores vitórias em matérias de empatia e de compaixão? Ora, o que se passa é que desde a desacreditação da ciência à promoção de fanatismos alienantes, passando também por uma subsunção do artístico às leis do consumismo desenfreado e da sociedade do espectáculo, sobra-nos este tédio da “violência nas ruas”: «Os felizes permanecem ignaros / E o mal dos outros é ainda / Aquilo com que vivemos melhor» (p. 20). "Higiene" (volta d’mar, Outubro de 2019) é um grito de alerta sem megafone, é um grito que se reconhece maioritariamente para surdos, circunscrito que está ao núcleo restrito daqueles que ainda passam cotonetes pelos ouvidos da consciência interrogando-se ao espelho sobre quanto valem neste mundo.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

UMA DÉCADA EM RESUMO


1 - O Laço Branco (2009), de Michael Haneke. Estreou por cá a 14 de Janeiro de 2010.
2 – Um Ano Mais (2010), de Mike Leigh. Estreou por cá a 27 de Janeiro de 2011.
3 – Poesia (2010), de Chang-dong Lee. Estreou por cá a 3 de Março de 2011.
4 – Cosmopolis (2012), de David Cronenberg. Estreou por cá a 31 de Maio de 2012.
5 – Nebraska (2013), de Alexander Paybe. Estreou por cá a 27 de Fevereiro de 2014. 
6 - Ida (2013), de Pawel Pawlikowski. Estreou por cá a 25 de Outubro de 2013.
7 – Joe (2013), de David Gordon Green. Estreou por cá a 19 de Junho de 2014.
8 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 17 de Outubro de 2014.
9 - The Revenant: O Renascido (2015), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 21 de Janeiro de 2016.
10 – Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino. Estreou por cá a 4 de Fevereiro de 2016.
11 – Christine (2016), de Antonio Campos. Lançado a 14 de Outubro de 2016.
12 - Paterson (2016), de Jim Jarmusch. Estreou por cá a 17 de Novembro de 2016.
13 – Uma Mulher Não Chora (2017), de Fatih Akin. Estreou por cá a 23 de Novembro de 2017.
14 – Roma (2018), de Alfonso Cuarón. Lançado a 27 de Outrubro de 2018.
15 - Parasitas (2019), de Bong Joon Ho. Estreou por cá a 26 de Setembro de 2019.
16 - Joker (2019), de Todd Phillips. Estreou por cá a 3 de Outubro de 2019.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

NUNO REBOCHO (1945-2019)



MORITURI

a câmara dos óbitos reúne a amostragem
as lágrimas os sussurros e os odores.
o luto faz contas de cabeça
enquanto as donzelas dedejam os seus amores.
a morte está morta
alheia ao silêncio e ao ruído:
orienta-se pelo ouvido
e só as coroas importunam os vivos.

o morto está morto: a morte só lhe custou
no primeiro momento.
depois habituou-se e tomou-lhe o jeito
e foi pela morte dentro
de peito feito. os viúvos os órfãos os enlutados
bem lhe puxaram pela manga
mas o morto lá ia
mudo aos apelos e aos desvelos
e cansado da cerimónia.
já levava o corpo gasto
como em vida
— mas de diferente maneira.

Nuno Rebocho, in O Discurso do Método, Canto Escuro, Janeiro de 2008, p. 40.

domingo, 12 de janeiro de 2020

EU CIGANO ME CONFESSO


Portugal tem um problema com as minorias étnicas, apregoa-se aos quatro ventos e eu não discordo. A minoria étnica dos arrivistas, a minoria étnica dos oligarcas, entre outras minorias étnicas congéneres, são não apenas um, mas vários problemas com os quais a nossa ilustre nação se depara na actualidade. Penso, por exemplo, em Duarte Lima, o bom Domingos para os amigos, arrancado ao seio humilde de nove irmãos, algures em Miranda do Douro, rumando à capital sob alto patrocínio de gente capaz de sustentar estudos na Universidade Católica e nas melhores universidades italianas. Duarte, esse de quem se diz ter acabado a assassinar uma velhinha para lhe sacar o guito, é um problema para o país. Desconfio que haja nele algo de cigano que possa ser apontado e criticado e vilipendiado, assim como o há em José Sócrates, Zé dos Cofres para os amigos, nascido em Vilar de Maçada. Quem nasce numa terra com tal nome só pode trazer ruindade dentro de si, uma ruindade gitana como sói ser a de quem chega a primeiro-ministro e abandona o cargo cheio de bons samaritanos amigos de seu amigo. Eu, que sou cigano do lado da mãe e sarraceno do lado do pai, o mais que consegui na vida em matéria de esmolas foi uns trocos do Sousa Lara, que, como é sabido, faz parte dessa minoria étnica de políticos bafejados pela sorte das subvenções vitalícias. Fita-se o 4.º Marquês de Lara, 2.º Conde de Guedes, e o que se topa? Um cigano sob capa monárquica, só para disfarçar. É um problema para o país. De resto, esta gente tem-se organizado com o passar dos anos, já não são os dançarinos e cantadeiros ilustrados por Youssef Chahine no filme “O Destino”, muito menos os romanis atabalhoados e castiços de Emir Kusturica. Não, esta gente tem hoje ao seu serviço autênticas Mossad, com infiltrações em inúmeros serviços de informação de segurança, tentáculos espalhados pelo mundo com perfis falsos nas redes sociais, uma autêntica NSA, dita Agência de Segurança Nacional, supostamente americana, zíngara de verdade, que nos ludibria, manipula, marioneta. Cuidado com esta raça altamente sofisticada, capaz de se fazer passar por ilustres banqueiros nas pessoas de José de Oliveira e Costa, o do BPN, fiel amigo de seu amigo Cavaco, muito provavelmente também este etnicamente obscuro, ou João Rendeiro, o do BPP, o tal que é capaz de passar entre os pingos da chuva sem se molhar ou queimar ou lá o que é. São coisas que aprendem na escola de ciganos, magias. Depois iludem-nos com ricardos Quaresma e djangos Reinhardt, aquele a quem faltavam dedos, como leitoras de sina na Feira do Relógio. Sim, caros concidadãos, temos um grave problema a resolver com as nossas minorias étnicas. Eu, na qualidade de cigano, isto é, na falta de qualidades, quero aqui deixar o meu testemunho garantindo que nunca me cruzei com Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo (só a sigla já cheira a pesticida), excepto daquela vez, no Mercado de Santana, em que a minha senhora lhe tentou vender um jogo de lençóis bancos (sic) em sacos azuis, para que o cigano da Lapa pudesse ir amealhando trocos antes de se ver vilmente espoliado por uma justiça tão cega e lenta como as lemas. O Pedro Dias, esse bom homem, português de raça, é que a sabe toda, ele e o Manuel Palito e o Rei Ghob e a mulher do triatleta, mais uns quantos finos exemplares de puros lusitanos, denegridos por uma sociedade doentia que teima em não ver as coisas como elas são. E como são as coisas? São em forma de assim, já dizia o poeta e eu não discordo. Abaixo, pois então, os ciganos e todas as minorias étnicas que conspurcam a nossa nação com vis acções, cotadas na bolsa e nos paraísos fiscais da Madeira, paraíso onde os ciganos não chegam. Abaixo eu próprio, mim mesmo, que cigano me confesso. Abaixo toda essa gente minoritária, excepto os que expiam pecados na missa ao beijarem as mãos de padres pedófilos (não digo em Portugal, que os não há). A propósito, é impressão minha ou o Bibi tinha uma tez aciganada? Estou desconfiado de que o era.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

BIBLIOTERAPIA

Imaginem um retiro de leitura, seja lá isso o que for, num espaço gerido pelos descendentes de Almeida Garrett. Pobre coitado. Imaginem que o retiro será orientado por uma biblioterapeuta, seja lá isso o que for, que promete uma receita prévia de leituras personalizadas, especificamente indicadas para cada participante, ou paciente, mediante consulta especializada. Haverá direito a palestra sobre as propriedades terapêuticas da leitura, para que os enfermos não fiquem às cegas quando sujeitos à biblioterapia, presumindo-se que esta seja apresentada de acordo com parâmetros científicos universalmente reconhecidos. A troca de impressões sobre os livros receitados será acompanhada de tertúlia com autor convidado, tudo ao preço de módicos 345 €. Se julgam anedota este spa literário, esqueçam. Ocorreu-me em tempos a ideia de uma loja de poemas a metro, mas faltou-me empreendedorismo para levar o projecto a bom porto. Resta-me agora vomitar para dentro, curioso, porém, por saber a opinião deste senhor sobre as propriedades terapêuticas da literatura.

P. S. : todo um novo mundo por descobrir aqui

LIVROS COM RUM

Podeis escutar aqui (emissão 619) a conversa que tive com António Ferreira, algures em Braga numa tarde de Dezembro passado. "A Festa dos Caçadores" como pretexto, dores fantasma como destino.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O PEDIDO DE EMPREGO



   Havia, não sei se ainda há, um programa chamado Shark Tank, com versão portuguesa traduzida como Lago dos Tubarões. O peixe graúdo, temível, era composto por certo tipo de gente a quem eufemisticamente se dá o nome de “investidores”, malta com pilim a quem o peixe miúdo submete reverencialmente as suas ideias na esperança de poder vir a crescer, adquirindo no futuro, quem sabe, o estatuto de tubarão. É o mundo do empreendedorismo na sua versão soft, para entreter famílias depois da telenovela. Chamar “lago” ao habitat dos tubarões é só parvo, era preferível a literalidade do termo tanque ou aquário ou piscina ou reservatório. 
   Kevin O’Leary, estrela do programa, pelo estilo implacável, dito pragmático, muito à maneira do que se espera de um magnata, competitivo, agressivo ou, como agora se diz, impactante, ficou conhecido no meio como Mr. Wonderful, apesar do discurso que qualquer humilde fã do Papa Francisco consideraria abjecto não fossem as necessidades. “Sou o teu melhor amigo, os teus sentimentos não me interessam”, “se está furioso, mate”, são algumas das máximas atribuídas a este aparentemente bem-sucedido homem de negócios. Diríamos que o mundo está cheio de homens destes, não fôssemos desmentidos pelas estatísticas. 
   Os 26 mais ricos do mundo têm tanto dinheiro quanto a metade mais pobre da população mundial, o que nos pode levar a pensar nos tubarões como uma espécie em vias de extinção. Na realidade, há vários tipos de tubarões. São cerca de 375 espécies, 88 das quais, curiosamente, nos mares do Brasil, variando de tamanho sem nunca largarem o topo da cadeia alimentar. No mundo dos homens, o peixe miúdo é a metade mais pobre da população mundial que serve de alimento aos tais 26. A desproporção devia chocar toda a gente preocupada com desigualdades sociais, mas nas sociedades de espectáculo promovidas pelo capitalismo selvagem aqueles 26 são uma espécie de luz que maravilha os idealistas, que fascina os lunáticos, que seduz os sonhadores, que garante o sucesso dos tais Mr. Wonderful, reproduzindo em massa vidas que alternam entre a absoluta escravidão, nos países subdesenvolvidos, a servidão, nos países em vias de desenvolvimento, e uma submissão voluntarista, nos países civilizados (o termo não é meu). 
   O dramaturgo Michel Vinaver topou cedo a mecânica das coisas, não apenas através de uma capacidade reflexiva de tipo académico, mas fazendo uso daquilo a que em ciências sociais e humanas se dá o nome de observação participante. Nascido em 1927, formou-se em literatura na Sorbonne. Mas, em 1953, entra como estagiário para a Gillette, acabando como chefe de serviços administrativos. A experiência como alto quadro de uma multinacional ofereceu-lhe uma perspectiva clarividente sobre matérias que outros apanham apenas pela rama. A peça “O Pedido de Emprego” é uma de várias que escreveu, dedicadas a estes assuntos da sobrevivência na selva dos homens. Assinala agora a estreia de António Parra como encenador. 
   Depois da estreia no Teatro da Rainha, a trupe segue em digressão pelo Teatro das Beiras já no próximo dia 10 de Janeiro. É mais uma oportunidade para assistir a um competente trabalho de encenação, em torno de um texto que adivinhamos altamente desafiante de colocar em cena. Nuno Machado é Fage, quarentão em busca de uma nova oportunidade de trabalho. José Carlos Faria, na personagem de Wallace, é o técnico de recursos humanos que submete Fage a interrogatório. Depois há Luísa, interpretada por Inês Fouto, mulher de Fage, e Mafalda Taveira no papel de Natália, a filha adolescente de Fage e Luísa, perdida de amores por um jovem revolucionário que a engravida nos intervalos da formação em anedotário progressista. A teia de diálogos cruza tempos e situações a um ritmo alucinante, levando a pensar tanto no cubismo, enquanto capacidade de multiplicar perspectivas num só enquadramento, como em algo muito mais prosaico, como seja a impressão de frenesim social que faz da vida mero instante. 
   Interessa-me Fage, encurralado entre as obrigações familiares e os deveres profissionais, esforçando-se por causar boa impressão àqueles que sabe serem os seus algozes, perdido num labirinto de vozes disparadas de todos os lados, sem saber para onde se voltar se quiser encontrar a saída. Imagino-o assim mesmo, dentro de um labirinto (peixinho às voltas no aquário?), a tentar escutar quem o chama. Chegam-lhe ecos de todos os lados, ele concentra-se, tenta perceber-lhes a origem, quer chegar ao corpo que emite o chamamento, porventura para ser abraçado ou abraçá-lo, gestos humanos luxuosos numa sociedade cujo princípio e propósito é desumanizar. Porquê? Para quê? Ora, para garantir o estatuto de wonderful àqueles cujo fascínio exercido pela maioria procura justificar uma vida, esse instante efémero, de servilismo, sem sequer deixar hipótese de nos intervalos da servidão a considerarmos desperdiçada.
   Para mim, depois de 11 anos ao serviço de uma empresa cuja mecânica consiste em explorar à exaustão as capacidades dos serventes, pagando-lhes pelo mínimo o que se propagandeia como máximo, “O Pedido de Emprego” retrata já não apenas a descartabilidade da pessoa humana em contexto laboral, mas como somos levados a desperdiçar a vida dando de comer aos tubarões a nossa própria consciência. Olho para Fage e para a sua família, olho-o e penso se é justo acusá-lo de desperdiçar a vida. Que alternativas lhe restavam? Em nome de quê, o desperdício? Talvez em nome dos chamados pequenos luxos que nos fazem enganar o tempo, julgando valer a pena morrer de velhos sem um único ano das nossas vidas ter sido verdadeiramente vivido, luxos esses tão bem ilustrados pela gravata que Luísa engoma, pelos sapatos que engraxa. Num mundo assim estruturado, que futuro sobra para a criança no ventre de Natália? Talvez seja preferível não responder, deixemos em aberto a possibilidade de vir a ser ela a escolhê-lo. Se for essa a vontade da progenitora... e de quem lhe dê emprego?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

PONTO FINAL


"Irão ataca alvos norte-americanos no Iraque com mísseis balísticos." Não perder de vista que há dias os EUA assassinaram o general iraniano Qasem Soleimani, argumentando que: "O ataque tinha como objetivo impedir futuros planos de ataques iranianos". Ou seja, o assassinato do general iraniano tinha como objectivo impedir coisas que ainda não aconteceram mas na cabeça de Trump e dos seus lacaios estariam prestes a acontecer se não fossem impedidas executando quem as poderia fazer acontecer. A guerra começou assim, não de outro modo. É importante que o percebam, pois entretanto serão intoxicados com campanhas de ódio contra o Irão e os iranianos e os muçulmanos em geral e o modo de vida daquela gente e as execuções de homossexuais e as mulheres que nem podem tirar a carta e etc. A guerra não começou hoje, com o ataque do Irão. A guerra começou com o assassinato de um general iraniano. Quem começou a guerra? Os EUA. 


Adenda retroactiva: em breve andará toda a gente a discutir se fica na claque da América ou na claque do Irão, como se estivessem a discutir bola. A pergunta que mais se ouvirá, para nos distrair do problema, será: preferias viver no Irão ou nos EUA? E no fim tudo se resumirá a mais destruição, mortos, famílias desfeitas, mais refugiados, mais caos, mais ódio, mais fundamentalismo. Alguém ganhará com isto, os que não "irão" à guerra. A indústria do armamento também, claro, e os senhores do petróleo. (3 de Janeiro de 2020)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

MOTIVAÇÕES BRUTAIS


15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e deram-lhe cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos. O grande debate do momento é se o crime teve na sua origem motivações raciais, debate tão aceso e luminoso que acabaremos todos ofuscados pela sabedoria universal, omitindo ou esquecendo que 15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e deram-lhe cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos. Antes de mais, é disto que se trata. Se as motivações foram raciais, faciais, anormais ou banais, pouco me importa. Certo é que foram brutais, pelo que não devemos deixar cair no esquecimento o essencial: 15 energúmenos continuam à solta depois de fazerem uma espera a um rapaz e lhe darem cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

UMA CANÇÃO FESCENINA DE JOSÉ LUIZ TAVARES

CAVALGADA DA SABURA


Ó poldra que me arroteaste a tusa,
loba que uivasses, dura musa,
nem sabes, na hora do tesão,
que o diabo te tem na mão; ou não

montasse eu em ti, tal potranca
que, com arreganho, dando o pinote,
diz: «saudades do repinicante chicote,
que me faz viva, mesmo se desanca.»

Poldra ou puta, tudo é anelo
de destreza ou lhaneza na largura;
mas se descomposta, na hora da sabura,
nem pra recobro se recolhe o martelo

— bumba que zumba, na crica
que replica, ó brutal cavalgada,
só vida que fervilhasse na danada,
na hora em que, sem pose, se claudica. 

José Luiz Tavares, in Arder a Vida Inteira, Abysmo, Maio de 2019, p. 66.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

HIPOCRISIA ULULANTE


(...)

O populismo ainda não chegou ao poder mas já condiciona a opinião publicada. Não encontrei nenhuma defesa descomplexada da obra de Cabrita Reis e da decisão de a comprar vinda de quem não esteve envolvido neste episódio, muito provavelmente porque já não podemos ser elitistas. Os economistas, que não viram a crise, as redes sociais, que democratizaram a opinião, e os intelectuais de direita, traumatizados pelo marxismo cultural, deram cabo do elitismo. Quem hoje defender a existência de um serviço público de televisão que, em  detrimento das audiências, da pimbalhada e da telenovela, deixe a música erudita e os filmes da criterion collection ao alcance de todos, será imediatamente acusado de elitismo ou apelidado de "pseudo-intelectual". Há nisto uma hipocrisia ululante.

(...)


RAMELA


O episódio do Papa a enxotar uma beata é comparável, pela perda de compostura, ao de António Costa a enxotar um velho durante a campanha nas legislativas. A simpatia que nutro por um é a mesma que nutro pelo outro, mas não posso deixar de reparar nas avaliações tão díspares inspiradas pelos dois episódios. Aí está um reflexo da nossa incapacidade de discutir o que quer que seja sem os olhos remelosos do clubismo. Pensar pela própria cabeça dá uma trabalheira danada, vestir uma camisola é muito mais simples.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ARMADILHA PARA CAÇAR HIPÓCRITAS



   Começar o ano a ler teatro, nomeadamente duas peças de Luigi Pirandello (n. 1867 – m. 1936). Com tradução de Isabel Lopes, “O Barrete de Guizos” e “O Homem, A Besta e A Virtude” são as duas peças, reunidas num só volume, que marcaram o início da parceria estabelecida entre o Teatro da Rainha e a editora Companhia das Ilhas. Entretanto, foram publicados na mesma colecção volumes de Beckett, Martin Crimp e Jean-Pierre Sarrazac. À maneira de prefácio, Fernando Mora Ramos apresenta Pirandello como um “contra-aristotélico”. Assim o é, quer na lógica, quer na ética. A ligar estas duas peças, por exemplo, o tema do adultério surge expurgado de qualquer consideração moralizante, sublevando as partes implicadas num processo que tem tanto de humorístico como de desmistificador. 
   Em “O Barrete de Guizos”: uma mulher ciumenta e desconfiada procura incriminar o marido, tentando apanhá-lo em flagrante com a suposta amante. Esquece-se de que ao fazê-lo põe também em xeque a honra do marido da amante, servo fiel do presumível marido adúltero. A quadratura poderia fechar-se neste cruzamento de interesses em que tanto a “corda da civilidade” como a “corda da seriedade” parecem desafinadas, não fosse haver entre o interior e o exterior da quadratura um desajustamento  que nos leva ao que é verdadeiramente essencial nestas peças: desmontar a hipocrisia com que, por interesse ou pressão social, somos levados a fazer o que não queremos e, por com sequência, a ser o que não somos. 
   Ciampa, corno eventual, sabe bem onde está metido, tem até uma tese sobre o assunto fundada no que poderíamos apelidar de alegoria das marionetas: «No íntimo, ninguém está contente com o seu papel. Cada qual, tendo diante de si a sua própria marioneta, havia certamente de lhe cuspir na cara. Mas pelos outros não, pelos outros gostaria de a ver respeitada»
   Também o professor Paolino, da peça “O Homem, A Besta e a Virtude”, fala de hipocrisia aos seus alunos: «Uma pessoa que finge, precisamente como um comediante, que finge ser, por exemplo, um rei e, no entanto, não passa de um pobre piolhoso, ou que representa qualquer outro papel. Que mal há nisso? Nenhum. Dever! Profissão! — Então onde é que está o mal? O mal é quando não se é hipócrita dessa maneira, por dever, por profissão, em cima do palco; mas por gosto, por interesse, por maldade, por hábito, na vida — ou mesmo por educação — não haja dúvida, porque educado, ser educado, quer dizer isso mesmo: — por dentro, negros como corvos; por fora, brancos como pombas; fel no corpo, mel na boca. O mal é quando se entra aqui a dizer: Bom dia, senhor professor, em vez de: — Vá para o diabo, senhor professor!» Mas aqui a história é outra. O professor é o homem, ou seja, aquele que trai, por razões que considera não apenas justas como até virtuosas. A Besta é o marido traído, por razões que somos levados a considerar mais que justificadas. E a Virtude é a mulher adúltera, com motivos mais que razoáveis para que o seja. 
   A inversão dos padrões morais levada a cabo nestas duas peças tem um sentido divertido do tipo “crítica de costumes”, cem anos depois estupidamente actualizada com a virtualização das relações humanas a permitir um crescendo de moralismo evangelizador disseminado um pouco por todo o mundo. Claro está que por detrás do véu moralista, castrador e puritano, outras devassas se vão perpetuando sem que ninguém se preocupe em disfarçá-las, de tão entretidas andarem as massas a discutir futilidades. Nestas duas peças do Nobel Pirandello, a “santa paz doméstica” é antes a fachada que derrui para que o público assista um pouco ao ridículo de si mesmo. A verdade e a mentira deixam de ser avaliáveis segundo padrões axiológicos, podendo, dadas as circunstâncias, assumir num mesmo rosto faces viciosas e ao mesmo tempo cheias de virtude. 
   Engraçado é perceber a fragilidade dos absolutismos e das tão fáceis, urgentes e comuns precipitações do julgamento alheio, estabelecendo paradigmas e estereótipos acerca dos comportamentos humanos como se não fosse paradoxal a realidade a que em todo o momento estamos enredados. O que é a honestidade e a virtude onde o vício surge legitimado pela prática comum? Por cá, o povo diz «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Que é isto senão uma legitimação da gatunagem? Quem nunca pecou, atire a primeira pedra. Será esta uma mensagem de perdão universal? 
   Mais do que sublinhar virtudes ou apontar pecados, mais do que legitimar comportamentos, a arte que deste modo nos revela enquanto seres ambíguos e paradoxais, resulta de uma auscultação, de um diagnóstico, de uma observação que dá a ver a realidade sem filtros morais, tal qual ela se apresenta a quem a viva na plenitude das suas contradições intrínsecas. Talvez por isso este também seja um teatro de denúncia, denúncia da hipocrisia com que disfarçamos a nossa natureza para nos desresponsabilizarmos das nossas acções. A graça está em assim nos vermos a descoberto, como na antiguidade o actor que apontava sentado na plateia o visado que inspirara a personagem. A arte também é uma armadilha para caçar hipócritas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

BOM ANO


Bom Ano a todas e todos. 
Saúde. 

UM POST RECOMENDÁVEL

É curto, mas resume bem a imagem com que fico deste ano que ora finda. A socialização da futilidade: aqui.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

STIGMATA


Nascida em Viña del Mar, no Chile, Teresa Wilms Montt (1893-1921) passou como um relâmpago por este mundo. Aos 17 anos, contrariando ditames familiares, casou com um tal de Gustavo Balmaceda Valdés, mudando-se para Santiago e aí participando na actividade cultural do país. Aproximou-se dos movimentos reformistas e feministas, assim como de um primo do marido. O caso culminará com internamento no Convento de la Preciosa Sangre, sob acusação de adultério. Deprimida, tentou suicidar-se, pela primeira vez, em 1916. O poeta Vicente Huidobro ajudou-a a escapar dos rigores conventuais, levando-a para Buenos Aires. Será na capital argentina que se estreará em livro, publicando Inquietudes sentimentales e Los tres cantos em 1917. Luiza Nilo Nunes conta-nos a história toda num elucidativo posfácio a que deu o nome de “Um exercício fúnebre”, sendo igualmente da sua responsabilidade a selecção e tradução dos textos coligidos, em edição bilingue, nesta antologia intitulada “Stigmata” (Anjo Terrível, Maio de 2019). 
   “Os Três Cânticos” são o pórtico escolhido para entrada nesta poesia, percebendo-se, desde logo, o pendor satanista de versos largos que oscilam entre louvores, orações e lamentações que têm como objecto tanto a Natureza como as forças de um misticismo sombrio. A “excelsa Natureza” destes poemas aparece envolta em imagens de um êxtase cujo horizonte é feito de catástrofe e de morte: «Natureza, Deus meu! Em joelhos, junto a este túmulo amado, imploro-te como uma filha em agonia à sua mãe carinhosa. Zela por ele! Zela por quem me deu o milagre do alvorecer no frio ocaso da minha tristeza; cuida e não o maltrates; em troca leva de mim a juventude para alimento dos teus roedores necrófagos, e o sangue das minhas artérias, para que se embriaguem como num vinho escarlate de esquecimento» (p. 27). O tom remete para certo romantismo de pendor gótico, aqui comprometido na subversão da liturgia oficial recuperando os valores do paganismo e assumindo a blasfémia e a excentricidade como vias de culto prestado aos mortos. 
   São os mortos, para todo o efeito, quem melhor revela aos vivos o sentido da existência. Teresa Wilms Montt compreendeu-o cedo e da forma mais trágica, depois de assistir ao suicídio de um seu admirador. Horacio Ramos Mejía tinha apenas 19 anos e de algum modo é o destinatário da sequência de poemas em prosa intitulada “Na Quietude do Mármore” (1948). Antes, Teresa andou por Nova Iorque, onde foi acusada de espionagem, foi deportada para Espanha, transformando-se na musa de Julio Romero de Torres. Foi em Madrid que publicou, sob o pseudónimo de Teresa de la Cruz, o segundo livro coligido nesta antologia. “Na Quietude do Mármore” é uma sequência de 35 poemas em prosa que têm por destinatário Anuarí, transfiguração espiritual do jovem Horacio Ramos Mejía. 
   O sujeito poético destes poemas encena um contacto algo sobrenatural com o amante morto, não enjeitando imagens de um erotismo necrófilo e assumindo o “delirante êxtase” de uma “mística unção”.  Amor e morte fundem-se em textos marcados a ferros pela dor da perda, uma dor espiritual sujeita a somatização num corpo que sofre tanto da ausência de toque e como da consciência de uma ilusória presentificação do amado: «Falo com o teu retrato, minha criatura, derramando-lhe coisas pueris e profundas, como se fossem flores; choro, rio e, a sentir-te entre os meus braços, canto-te como se de mim houvesses nascido. / E nasces de mim; e para mim e em mim vives, porque para todos os demais estás morto. / Extraí-te do sangue mais nobre do meu coração e uni-te ao meu destino para sempre» (p. 71). 
   Fixada em Madrid, Teresa conseguiu viajar por Londres e Paris, onde se reúniu com as filhas após 5 anos de separação. O regresso das filhas ao Chile agravou-lhe a depressão, acabando por se suicidar, com apenas 28 anos de idade, na véspera do Natal de 1921. Enterrada no Père-Lachaie, Teresa Wilms Montt não caiu totalmente no esquecimento. Em 2009, um filme da realizadora chilena Tatiana Gaviola tentou recriar-lhe parte da vida. Esta antologia faz por cá um trabalho de divulgação que estava por fazer, desbravando caminho para uma obra que merece a atenção de todos quantos se interessem por uma poesia de pendor heterodoxo, mormente exercida por raras figuras femininas que no início do século XX ousaram desafiar convenções, preconceitos e estreitezas de pensamento. À laia de auto-retrato, Teresa Wilms Montt é de uma objectividade sem igual: «Fui crucificada, morta e sepultada, / pela minha família e pela sociedade. / Nasci cem anos antes de ti / mas vejo-te igual a mim. / Sou Teresa Wilms Montt, / e não sou recomendável para senhoritas» (p. 135). Agora que passaram quase 100 sobre a sua morte, não podemos senão ficar agradecidos a Luiza Nilo Nunes por este trabalho de recolha e de preservação num tempo histórico em que ser mulher continua, para mal dos nossos pecados, a ser tantas vezes sinónimo de vítima. Assim o é nas culturas que se dizem superiores como nas outras.

domingo, 29 de dezembro de 2019

BALANÇOS


Um balanço do ano sem vida pessoal é um balanço impessoal. Mas como falar em público do que deve manter-se privado? Calamos o mais relevante por medo, para não ferir o outro e para não nos ferirmos com as feridas infligidas no outro, talvez calemos a intimidade por cobardia ou simplesmente por decoro. Num mundo em que o privado e o público se confundem em encenações coloridas de vidas a preto e branco, num mundo onde se espera que os filtros fiquem rotos e tudo se partilhe sem pejo, num mundo assim é talvez por resistência (inadaptação?) que calamos, silenciamos, disfarçamos, maquilhamos, recalcamos a intimidade. O mais que conseguimos é um desabafo, jamais a confissão. Essa reservamo-la para o texto poético, aquele em que a metáfora nos protege da revelação, ou para a história, aquela em que a ficção nos defende da censura. Há muito que me habituei a isto de alguém se rir do que me faz chorar, de alguém se comover ou entristecer com o que me faz rir, pelo que me responsabilizo em absoluto pelo desajuste. Também atravessamos um tempo em que à tal confusão entre público e privado se junta uma completa, radical e perigosa trapalhada entre a ficção e a realidade. Quantas vezes não ouvimos no ano que passou alguém dizer que “contado ninguém acredita”? Muita matéria de facto seria considerada inverosímil se a metêssemos em ficção. Por cá, basta pensarmos em José Sócrates ou no chamado caso Tancos. Lá fora, Trump e Bolsonaro são o rosto do inimaginável. Portanto, tudo o que há anos parecia impossível é hoje possível, tudo o que há anos parecia inverosímil é hoje verosímil. O cinismo e o humor são ferramentas a que nos agarramos para não cairmos no abismo. Viver num mundo que continuadamente se nos mostra por dentro leva-nos facilmente à loucura, ninguém aguenta a saturação a que fica sujeito com tamanha perversidade, pelo que procuramos descontinuá-lo tentando desligar momentaneamente os canais que nos trazem esse mundo, que nos metem dentro desse mundo, que nos transformam em parte integrante desse mundo. A essa descontinuação momentânea (que podemos chamar de pausa ou de interrupção) oferecemos o melhor das nossas vidas, conscientes, porém, de quão débil e escasso é já esse melhor. Uma perspectiva optimista destas coisas leva a que o balanço se concentre no trabalho, isto é, na vida profissional, sobretudo quando a vida profissional o não é, pois andamos quase todos a sobreviver profissionalmente de ocupações que julgamos secundárias. Ninguém paga contas com os poemas que escreve, ninguém alimenta os filhos com os livros que publica, ninguém garante meia dúzia de extravagâncias por ano (restaurantes, cinema, teatro, viagens…) com o fruto da criação. E reparem como lhes chamo extravagâncias. Ao essencial passámos a chamar extravagância, assim o é por estarmos absolutamente dependentes dos sapos que engolimos para podermos continuar a respirar. Quando digo ninguém talvez devesse dizer uma imensa maioria, pois há sempre quem por sorte ou talento almeje a fortuna de um desafogo material que lhe permita ser quem verdadeiramente é. Reduzir um ano a feitos profissionais também não é solução, acaba por soar a falso, uma mentira que pregamos a nós próprios para parecer que a vida é outra coisa que não um projecto eternamente adiado, incompleto, fracassado à partida mas com inúmeras possibilidades de miseráveis vitórias no seu decurso. Quanto vale um ano numa vida? Entre nascermos e morrermos, que verdadeira importância tem um ano na nossa vida?  Talvez a resposta mais honesta, e por isso a mais cruel, seja mesmo: nenhuma. Foi só mais um ano, como diria Artaud, a comer e a cagar, a beber e a mijar, a dormir e a trabalhar, foi só mais um ano a fazermos coisas que podíamos não ter feito e a não fazermos coisas que podíamos ter feito. A compensação para esta monotonia é a constatação de que em breve tudo acabará, deixaremos de contar os anos, os balanços que fizemos cairão no esquecimento, o pó tomará conta de todas as coisas como se nunca tivessem sido.

sábado, 28 de dezembro de 2019

#113



   A acreditar no que por aí se diz, “Ghosteen” (2019) é o terceiro tomo de uma trilogia que começou a ser desenhada com “Push the Sky Away” (2013) e teve continuação em “Skeleton Tree” (2016). Não sei até que ponto fará sentido tentar encontrar entre os três álbuns alguma coerência que não se restrinja à progressiva influência de Warren Ellis, o multi-instrumentista dos Dirty Three, na parceria estabelecida com Nick Cave em matérias de composição e de arranjos. Seja como for, trata-se sem dúvida da fase mais monótona, porventura melancólica, na já longa discografia assinada por Nick Cave and The Bad Seeds. 
   Talvez a explicação mais óbvia para esta monotonia, sobretudo nos dois últimos álbuns, seja a experiência da perda de um filho de 15 anos tragicamente passada por Cave aquando das sessões de gravação do álbum “Skeleton Tree” (2016). É verdade que a morte e a perda são temas recorrentes nesta obra desde “From Her to Eternity” (1984), mas uma coisa é a morte pensada em termos ficcionais, outra coisa bem diferente é experimentá-la na perda de um ente querido e procurar transferir essa experiência para um trabalho criativo. Neste sentido, a poesia de “Ghosteen” (2019) surge-nos ao mesmo tempo pacificadora e angustiante. O tema final sublinha bem a ambivalência, com o tormento associado a sinais de esperança. 
   Dedicado a Conway Savage, parte integrante dos Bad Seeds desde a década de 1990, vítima de tumor cerebral em 2018, este é um álbum que não disfarça com melodias fáceis a tristeza e a nostalgia em que se funda. Não obstante o tom elegíaco, o processo de luto transfigurado neste disco é mais complexo do que aparenta. Desde logo, faz-se acompanhar de meditações sobre o sentido da vida que problematizam o tema da fé. A experiência da perda é a experiência da dúvida, dúvida acerca da efemeridade, da beleza, da dor, da presença de Deus no mundo. 
   Não é preciso ser-se crente para perceber o desassossego da transitoriedade existencial, a constatação de que estamos para deixar de estar, a confrontação com o mal e com a fealdade num mundo onde Deus deixou de ter sentido e perdeu significado. “This world is beautiful”, canta Nick Cave no tema que oferece título ao álbum, para posteriormente insistir no sonho e na esperança enquanto suportes de uma paz que há-de chegar. Em canções repletas de referências religiosas, evocações da figura de Jesus, inquietações espirituais, num álbum que começa logo no título por nos introduzir num território fantasmagórico, a voz de Cave poderia ressoar amiúde como a do pregador de rua a que não prestamos atenção ou fazemos por ignorar. A diferença está no tom de falsete com que nos sussurra, induzindo uma atitude confessional e expiatória a que é impossível ficar diferente. 
   Muito na linha musical de “Skeleton Tree” (2016), a música é minimalista, repetitiva, lenta, recorrendo a sintetizadores e a lopps que remetem para segundo plano os instrumentos acústicos. A certa altura lembramo-nos dos Sigur Rós, mas a espiral de crianças que, no tema “Sun Forest”, surge a subir na direcção do sol talvez seja a melhor imagem de que dispomos para sublinhar a sintonia num canal de despedida que é aquele onde “Ghosteen” (2019) melhor encaixa. 
   “Peace will come in time”, canta-se no início, “And I’m just waiting now for peace to come”, confessa-se no fim. Pelo meio, “There's nothing wrong with loving something / You can't hold in your hand”. Há nisto uma face estupidamente emotiva que tanto pode escandalizar como comover, sendo certo que em nenhum dos casos deixará de merecer o mais básico respeito pelo que de manifestamente autêntico há neste retrato do luto. No limite, que resta a quem sofre senão fazer desse sofrimento matéria de reflexão? Um tema, porventura mais convencional do que os restantes, responde à questão:


SODOMA & GOMORRA




isto foi antes de deus ter destruído sodoma e gomorra
homens suspeitos de exibicionismo contra menores
produtor predador denunciado por antigas vítimas
milionário suspeito de recorrer a rede de prostituição
material pedófilo de extrema violência no whatsapp
polícia mata suspeitos por violação colectiva
supremo reduz pena a abusador de seis menores
homem abusa sexualmente de enteada de 12 anos
detido homem que violava filha de 4 anos
pena suspensa para professor que abusava de aluna
milhares de prostitutas chinesas na áfrica subsariana
12 anos para 164 crimes sexuais contra filha e enteada
207 pessoas detidas por crimes relacionados com
a exploração de crianças para fins sexuais
pena de morte para 16 pessoas que queimaram viva
jovem que denunciou director de escola por assédio
homem julgado por 139619 crimes de pornografia
as vítimas são sobretudo jovens do sexo feminino
homem de 73 anos abusa de doente psiquiátrica
homem abusa da filha com conivência da mulher
há cada vez mais homens vítimas de abuso sexual
a situação nunca foi tão grave: vídeos e fotografias
de pornografia infantil subiram para mais do dobro
337 detidos de 38 países em rede de pornografia infantil
pedófilo inglês assassinado na própria cela
cumpria 22 sentenças de prisão perpétua
180 agressões sexuais por dia no brasil
fbi investiga ilha das orgias de epstein
5 jovens abusam de norueguesa em benidorm
1700 padres abusadores vivem com pouca supervisão
há mais jovens a pedir ajuda devido a chantagem sexual
homem detido por filmar mulheres por baixo da saia
quatro rapazes detidos por violação em grupo
pai do android terá pago a escravas sexuais
padre exorcista acusado de violação
homem acusado de abusar de filho menor na praia
jovem de 16 anos detido por abuso sexual de bebé
ex-militar lidera organização criminosa que se dedica
ao turismo sexual de crianças e adolescentes
bombeiros de paris acusados de violação em grupo
destino incerto para ex-escravas sexuais do boko haram
mulheres moçambicanas violadas em troca de comida
agente da gnr suspeito de abusar de detida
máfia de leste dava choques  a prostitutas
a fantasia de desflorar mulheres virgens faz esgotar pacotes
de turismo sexual comprados por milionários europeus
china aboliu sistema reeducativo que permitia deter prostitutas
menores migrantes denunciam abusos sexuais nos EUA
as 8 ideias do papa para acabar com os abusos:
1. papa quer que bispos informem as autoridades
2. representante do papa investigado por abuso sexual
3. bispos portugueses esconderam pelo menos 3 casos
4. bispos pedem perdão por abusos sexuais
5. abade de barcelona esconde abusos durante 20 anos
6. abrão levantou acampamento e foi viver para os carvalhos
7. dá-me só as pessoas, podes ficar com os bens
8. à terceira denúncia o padre desapareceu
enfermeiro acusado de abusar de mulher em coma
vaticano encobriu casos de pedofilia pelo menos desde 1943
o mundo secreto da prostituição de luxo
mais de 100 mulheres obrigadas a prostituir-se
para rede internacional no norte do país
portugueses lideram turismo sexual no brasil
espanha é o novo destino de turismo sexual na europa
na tailândia tudo vale em matéria de turismo sexual
tráfico de nigerianas para prostituição na europa
atinge níveis sem precedentes
o vale de sidim estava cheio de poços de betume
os reis de sodoma e de gomorra caíram dentro deles