terça-feira, 15 de janeiro de 2019

DIGA 33: JANEIRO DE 2019: HOJE


O ano passado, em Janeiro, fomos brindados com um salmo cantado em hebraico pelo João Paulo Esteves da Silva. Pode ser que este ano venhamos a ser brindados com Píndaro no grego antigo.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #3


Já vos tendo falado dos discursos de Tuiavii, a que atempadamente pretendo regressar, quero agora prevenir-vos contra a arte do discurso. Tende a máxima cautela perante compilações tais como os “121 Discursos Que Mudaram o Mundo”, os “50 Grandes Discursos da História”, os “Grandes Discursos da História” e outros que tais. Nessas obras puramente retóricas podeis dar conta de como de palavras está o Inferno cheio, tomando-se aqui a Terra em que vivemos pelas caldeiras de Mefistófeles. Se no discurso vigora a arte de persuadir, nos ouvidos do auditório é bom que vigore a arte de resistir. Cânticos de sereia é o que não falta por onde quer que andemos, no mar ou em terra. E há delas, as mais perigosas, que vestem batina. Entre os poucos discursos que vos aconselho está o “Discurso Sobre o Filho-da-Puta”, saído da pena inspirada de Alberto Pimenta (n. 1937). Este homo sapiens que nos idos de 1977 se enjaulou no Palácio dos Chimpanzés, em pleno Zoológico de Lisboa, é dos poucos entre nós que vale a pena escutar sem filtros nos tímpanos. Desse gesto performativo retiramos, aliás, sinal daquele cibo de inteligência que nos leva a considerar o homem o derradeiro estádio na longa evolução dos símios (a qual pode ser entendia no sentido inverso ao comummente e cientificamente propagado). No “Discurso Sobre o Filho-da-Puta” esse sinal agrava-se, quer pela acutilância do pensamento, quer pela pertinência do diagnóstico:

É longa, muito longa, a lista do que pode fazer um filho-da-puta especializado em fazer: desde normas e adendas e emendas de formas, até decretos oblíquos e rectos, e despachos discretos, não há nada, não há praticamente nada que um filho-da-puta especializado em fazer não possa fazer. Em toda a parte, um filho-da-puta especialuizado em fazer encontra ocasião de fazer o que deseja fazer. Desde legislação geral sobre a vida, e respectivos despachos normativos, até à gestão de eventuais e efectivos, passando pela criação e fomento dos «temas voltados para a formação específica e complementar de técnicos vocacionados para a área em questão», ou seja, por manobras de diversão e investimentos complementares, não há nada que o filho-da-puta exclua do seu método de «sensibilização».

Esta é uma obra preventiva que ajuda a gerar e reforçar resistências contra aquilo a que certo poeta chamou de “burrocracia”, neologismo do nosso tempo que atribui ao comportamento predilecto dos chatos o qualificativo que melhor lhe convém. Ao longo das vossas vidas, poucas personalidades ides encontrar mais perigosas do que aquelas com tomates de burro atacados por chatos. Portanto, preveni-vos. Há deles aos pontapés no nosso país. Agradecei à tia Manuela este exemplar que vos lego. Foi-lhe gamado com muito carinho.

ARDILA, TINTO


Vinho Regional Alentejano
Herdade dos Arrochais

(Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonez, Trincadeira)

Diz que tem taninos suaves. Escorrega como veludo.

"O HUMANO É O SONHO DE UMA SOMBRA"

PARA ARISTÓMENES DE EGINA, VENCEDOR NA LUTA
446 a.C.

(...)

Quando a alguém cabe em sorte um novo feito esplendoroso,
ele voa para lá da esperança, nas asas da virilidade; a ambição
é mais alta do que a riqueza. Se em pouco tempo cresce a
alegria nos humanos, também em pouco tempo cresce o que
os faz cair por terra, já abatidos pelo derrubar da expectativa.

Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser
Alguém? O que é não ser Ninguém? O humano é o sonho de
uma sombra.

(...)


Nota: (...) O enunciado de Píndaro substantiva a sombra. Dá-lhe uma existência independente, autónoma. A força metafórica do fenómeno da sombra está investida de um sentido contrário ao comum. O plano supostamente degradado do ponto de vista ontológico é elevado a uma dignidade absoluta. A sombra é uma duplicação que remete para o seu original. Mas nesta operação, detectamos três factores de produção de sombras. Uma fonte de luz, uma sombra e um original interposto entre aqueles dois. A sombra está projectada sobre um plano. O original interfere na irradiação luminosa. A sombra está distante da fonte de luz e contudo sob sua dependência. Este envolvimento de dependência está por sua vez fundado num outro, fenomenalmente mais complexo. O da simultaneidade. A superfície onde a sombra se encontra exposta, a própria sombra, o original e a fonte de luz podem estar afastados, até mesmo muito, no espaço. Mas estão absolutamente sincronizados. Dão-se ao mesmo tempo. De tal sorte que se um desses factores for inibido, se a sincronização for anulada, deixa de haver sombra. Na enunciação de Píndaro, a sombra não é projectada, ela tem uma existência independente. Corresponde ao que para nós é um projéctil e uma fonte de luz. A importância dos factores altera-se. A sombra lança luz. (...)

António de Castro Caeiro, in Píndaro - Odes Píticas, trad. e notas de António de Castro Caeiro, Prime Books, Lisboa, Março de 2006, pp. 107-117.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

SOBRIEDADE E ESPALHAFATO


Referi-me anteriormente a Michael Finkel a propósito do livro “Fora do Mundo” (Elsinore, Maio de 2017), trabalho de pendor jornalístico em torno da misteriosa figura de Christopher Knight (27 anos completamente isolado e incomunicável, por vontade própria). Soube recentemente que a vida de Finkel deu um filme. Jonah Hill é o actor que reencarna o ex-jornalista do The New York Times, despedido depois de se descobrir que forjou a identidade do protagonista de uma das suas reportagens a partir de múltiplas entrevistas a diversas fontes. O tema era a escravatura na África contemporânea, e colocava em causa o papel de várias ONG no terreno. Desacreditado enquanto jornalista, Finkel reencontrou-se como escritor. É o episódio deste reencontro que o realizador Rupert Goold (n. 1972) procura recriar em True Story (2015). Parece mentira, mas no exacto momento em que Finkel andava pelas ruas da amargura chegam-lhe ecos de uma história que ele acabará por transformar em livro. Algures no Oregon, um tipo acusado de assassinar toda a família (mulher e três filhos menores) fizera-se passar pelo jornalista Michael Finkel enquanto fugitivo. Finkel, o próprio, visita Christian Longo (interpretado por James Franco), o recluso, na prisão, ansioso por perceber por que tinha sido escolhido como disfarce de um suposto criminoso. True Story recria com agradável sobriedade o relacionamento entre Michael Finkel e Christian Longo, levantando questões intrincadas acerca do problema da identidade e, acima de tudo, do valor da verdade enquanto matéria jornalística e farol existencial. Num jogo de procura e descobre, o ex-jornalista propõe-se escrever a verdade de Longo em livro. Mas será possível chegar a essa verdade? Estará Longo disposto a revelá-la? Não passará toda a história que diz ter para contar de um ardil para usar em sua defesa no tribunal? Estará Finkel, ex-jornalista acusado de manipular a verdade, a ser usado por Longo? A “true story” prometida por Longo a Finkel terá na sua origem outros motivos que não uma confissão autêntica dos factos? Das entrevistas, acabou por resultar o livro “True Story: Murder, Memoir, Mea Culpa” (2005). Sem nunca perder a sobriedade, Rupert Goold consegue manter-nos em tensão do princípio ao fim. Bom filme.

Nos antípodas, o western  In a Valley of Violence/Terra Violenta (2016), de Ti West (n. 1980). Algo que se lamenta, desde logo, olhando para o elenco: Ethan Hawke no papel de Paul e John Travolta como Marshal. Outra presença marcante é a de Burn Gorman, padre alcoólico, vagabundeando de cidade em cidade, tentando espalhar a palavra de Deus junto de almas vendidas ao Diabo. Ele próprio mais parece agente do Diabo do que um servo de Deus. Desencontrado entre o estilo spaghetti e o misticismo de alguns westerns históricos, In a Valley of Violence nunca chega a encontrar-se. É um filme sem personalidade, manta de retalhos com citações desconexas e pouco inspirado na conjugação das fontes. Paul é um ex-soldado em busca de paz e sossego na direcção do México. Segue na companhia de uma cadela (sem dúvida um dos melhores desempenhos é o da cadela Jumpy) até tropeçar com um bando de gente tonta numa cidade que mais parece o Inferno. Em Denton mandam um Marshal que nunca chegamos a saber se é bruto dos queixos ou simplesmente mais esperto que a cambada de idiotas que o rodeia, entre os quais se destaca o filho de nome Gilly. Quando passa pela cidade, Paul só quer beber água, alimentar os animais, tomar um banho. Mas na sequência de uma provocação, acaba por se envolver com o impetuoso Gilly. A partir daqui começa a sua ligação à cidade, a qual terminará com uma batalha sangrenta de um solitário contra todos. Ou nem por isso. A violência e as deixas humorísticas dos diálogos, acompanhados de uma banda sonora a preceito, colam o filme aos tiques narrativos que Tarantino recuperou em Django Unchained (2012). Mas Ti West está longe de ser Quentin Tarantino, o que se nota, desde logo, na indecisão manifesta entre esse registo e um tom místico na personagem atormentada pelo passado de Ethan Hawke. O passado de violência, os traumas de guerra, o abandono da família perseguem-no como a sombra, são uma densa camada de pó que carrega sobre os ombros e da qual nunca se liberta. Bem que tenta tomar banho, mas dura-lhe pouco a limpeza. Ora, a personagem atormentada de Ethan Hawke não liga com os tiques anedóticos e caricaturais das restantes personagens. Portanto, não chegamos bem a saber quem está mal e onde. O que é certo é que tudo parece desconexo, mero entretenimento sem substância.

domingo, 13 de janeiro de 2019

CRUZES


Entre os mais enigmáticos livros de poesia portuguesa publicados em 2018 conta-se Cruzes (Alambique, Outubro de 2018), de Ricardo Tiago Moura (n. 1978), autor acerca do qual tudo quanto sei me é informado por Enfermaria 6: «Publicou os livros Um gato para dois (Hariemuj, 2013), Epístolas a D. (não edições, 2013), Espaço aéreo (Arqueria, 2014 - Brasil) e pequena indústria (Tea for One, 2016). Tem publicado dispersamente poemas em revistas e antologias. Dedica-se também à colagem. Vive em Køge, Dinamarca.» Do último dos livros mencionados, o qual me revelou uma voz incomum, partilhei aqui um poema. O título do livro mais recente faz uso de uma palavra com forte carga simbólica. A cruz ocupa lugar especial na tradição judaica e cristã, que é a nossa, simbolizando o filho de Deus na Terra. Neste sentido, a cruz é Verbo, sinal de intersecção dentre Céu e Terra, símbolo da intermediação que reúne espaço e tempo. Ao lermos os poemas de Ricardo Tiago Moura estas questões não se colocam senão de um ponto de vista pretensioso, carente de sentido, empenhado em encontrar significação para os espaços vazios deixados por uma linguagem fortemente elíptica. Os poemas são mínimos, tendem para o nulo, para o vazio, para o branco: «página a página / escrever branco» (p. 39). No entanto, deixam-nos intrigados. 
   Ao nível da linguagem, é evidente a opção pelos verbos e pelos substantivos, em detrimento dos adjectivos. Estes são raríssimos. O uso gráfico recorrente dos dois pontos suspende a voz, anuncia inflexões discursivas, desloca-nos para momentos de anunciação que remetem o poema para um lugar de definição indefinida. Estas definições não são claras, como que nos introduzem através de fragmentos num universo com as suas personagens particulares (artista, colaboradores, homem-palhaço, mãe, velho, dona-de-casa, ladrão, rapaz, idosa, vizinhas, fantasma…) em situações descritas com parcimónia, gestos simples que o poema esculpe até ao detalhe: «velho zurzindo / junto dos vasos / promete juntar / paus desavindos / sabe esperar / botões inteiros // não regar / a tempo / cada canteiro: // cavar fundo / todos os dias:» (p. 11). 
   Aparentemente ausentes, as emoções parecem ter sido expurgadas dos versos com intuito preciso: demarcar o campo de uma paisagem onde a intimidade do sujeito se cruza com o outro que lhe é exterior, mas com o qual está em relação. Este carácter fenomenológico dos poemas não deixa de transparecer a condição existencial do sujeito através do emprego de termos tais como solidão e medo. A rasura, radicalmente exposta em versos riscados (páginas 26, 28, 30, 36), é aqui um tratamento de expurgação tal como a poda o é para a jardinagem, resultando por vezes a prática em exercícios líricos bastante sedutores: «escolher um homem / dobrar em quatro / rasgar em oito: / guardar» (p. 33). Outro exemplo, desta feita enviando-nos para algo mais próximo do haiku japonês: «lavar janelas: / limpar o sol / pelo lado / de dentro» (p. 34). 
   Mas a poesia de Ricardo Tiago Moura não está especialmente interessada em cativar o leitor pela beleza das imagens suscitadas, ela antes cativa pelo seu poder sugestivo, pelo modo como ao ser assinada de cruz deixa o leitor perante a indefinição da identidade, pela capacidade que denota de através de intersecções subtis nos colocar no centro de um universo particular. Esta política do mínimo, pautada por silêncios bem ilustrados pelo dístico final «pequena política: / dizer: não dizer» (p. 40) , adensa a curiosidade, coloca-nos num espaço de silêncio que contrasta com a tagarelice e a verborreia tão comuns em grande parte da poesia actualmente publicada. Quando o poema se alonga abre-se a porta ao jogo de reflexos, luz e sombra, espaço e tempo, primeira e segunda pessoas aparecem num cruzamento de modos que traduz a natureza desse símbolo máximo da transversalidade, ou seja, do ser que entronca noutro ser, do encontro do diverso, da revelação do dual que existe no uno. E tudo parece existir em função apenas dos dois últimos versos, como as raízes em função da copa:  

no princípio do rio
que nos é mais próprio
pouco se sabe do caudal:
o tempo corre pela margem
o tempo todo:                            superfície-plasma
                                                  água-de-ecrã
no princípio do rio
duas sombras sabem
serem a mesma                        não-sombra ou não-imagem
no princípio
que nos é mais próprio
estamos eu / tu                           de perfil estudado:
               e a nossa sombra        ou a nossa ausência
somos eu / sombra
propriedades do solo
se assim o soubermos:

               sombra que faz o sol
               no princípio do rio:
                                                        duas sombras
                                                        acreditam melhor

sábado, 12 de janeiro de 2019

UM POEMA DE EDGAR BAYLEY


UM HOMEM TREPA PELAS PAREDES E SOBE AO CÉU

Suspenso por um cabo
o homem que escala as paredes
tem botas resistentes com pitons
Escala as paredes
porque se esqueceu das chaves de casa
e enquanto escala as paredes
até chegar ao piso treze
pára por instantes
nas varandas de cada piso
onde inspira o aroma dos gerânios
das madressilvas
das hortênsias
das sardinheiras
Há sol
galhardetes
vendedores ambulantes
e mais além está o rio
e mais além as pontes
por onde se vai aos pampas
Em baixo estão os meninos
que saem das escolas
e pelo céu passam aviões e pássaros
e chapéus de abas largas
que o vento roubou aos desprevenidos
O cabo foi atado à viga
que sobressai no telhado
Um homem atou-o à cintura
e sobe agarrado ao cabo
com as mãos enluvadas
Usa um colete floreado e um boné aos quadrados
Deve chegar ao piso treze
onde tem de regar uns cravos
pisar milho
escrever umas cartas
e preparar um guisado
Sobe lentamente
e em cada piso pára um pouco para descansar
Entra na varanda de cada piso
e senta-se num cadeirão
ou estende-se numa espreguiçadeira
e conversa com a vizinha ou os vizinhos
e aceita um café ou um chimarrão
ou deixa cair um jorro de um odre de vinho
na sua garganta
ou joga às cartas
ou escuta confidências e dá conselhos
e conta algum episódio da sua vida
até que se despede com uma saudação
e continua a trepar pelas paredes
suspenso por um cabo
É o homem tem botas resistentes com pitons
o homem que escala paredes
e um colete floreado e um boné aos quadrados
que se esqueceu das chaves de casa
e inspira o aroma dos gerânios
e deve chegar ao piso treze
antes que apareçam as corujas
e se iluminem as janelas
Os pássaros e o rio estão longe
e a relva do parque
e os cavalos que galopam pela planície
e esta cadeira decomposta
e a banheira
sem uso
cheia de terra e de flores
e o mar e o navio que se aproxima
e a lagartixa que desaparece entre as rochas
e o vendedor de diários que lá de baixo
grita conselhos e advertências
enquanto o homem voa
ascende
conquista com esforço cada piso
e olha sempre para cima
a terra está longe
o céu está longe
O homem que trepa pelas paredes
suspenso num cabo
quando entra numa casa pela varanda
é bem recebido pelos vizinhos
e trata de lhes ser útil
mas num dos pisos
uma mulher inesperada
que é apenas uma
e ao mesmo tempo
todas as mulheres da sua vida
pede-lhe que a leve com ele
Então também ela se ata ao cabo
e sobe com o homem
para lá do piso treze
até às nuvens
ao ar livre
ao céu
ao vento
entre os gerânios
as sombrinhas as espreguiçadeiras
sobre pontes e quiosques
e mastros
e videiras
e algumas gotas
e sementes
e sonhos
com seu boné aos quadrados
com seu colete floreado
com o seu amor de sempre


Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, pp. 127-130. Versão de HMBF. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

AO OUVIDO DO DIABO


Do pacto entre Dr. Fausto e Mefistófeles herdámos uma paixão cega, consumada pela criação de ferramentas que prometendo o caminho dos céus vêm transformando a terra num Inferno. Se a Revolução Industrial modernizou as técnicas de servidão, transformando a paisagem das cidades em acumulações de lixo produzido para satisfação da avidez consumista, a Revolução Tecnológica permitiu transpor fronteiras espaciais, acelerar os ritmos, estendendo pelo mundo inteiro o tapete imundo das nossas cidades industrializadas. O progresso está à vista, incluindo dos cegos, eloquentemente simbolizado pelo ventre descerrado de uma Moby Dick a rebentar já não de óleos e gorduras, mas de plásticos. Os negativos da ruína há muito sustentam os laboratórios da poesia, mas nunca é excessivo lembrá-lo assinalando revelações que vêm surgindo a partir desses mesmos negativos. Quem sussurra Ao Ouvido do Diabo (Companhia das Ilhas, Novembro de 2018), desta feita, é Rui Xerez de Sousa (n. 1979), poeta familiarizado com os domínios da representação teatral. Ainda que nos seus poemas sejamos tentados a desvendar um teatro de guerra, não é pelo lado dramático que melhor se nos impõem. Escutemos o poema que oferece título ao conjunto:

AO OUVIDO DO DIABO

Nem mesmo sei por que somos amigos.
Talvez por partilharmos a frieza de quem trocaria tudo
por um amanhã com migalhas de sonho.
Talvez porque num dia cinzento
vendemos à melhor oferta
os deuses que nos quiseram impingir
e diante de um deserto só nosso
sussurrámos ao ouvido do diabo:
Tudo isto pode ser teu…

   Logo no primeiro verso é-nos sugerido um outro subjectivo, próximo do sujeito poético por amizade. Como certa apresenta-se igualmente a transacção de deuses impingidos por terceiros, da qual resultou um deserto particular. É o processo de secularização a que fomos sujeitos, simbolizado também por pactos com o demónio que nos desampararam a queda e aumentam incertezas aqui ilustradas pelo uso repetido do advérbio de dúvida. Mas tal hesitação é superada noutros poemas pelo tom declarativo dos versos. Tanto em Nunca Serei Um Poeta como em Escrevo Umas Coisinhas, primeiro e último poemas do livro, há uma afirmação da escrita enquanto fuga ao tédio, descomprometida e sem redes, ciente de limitações que não deixam de ligar-se a uma imagem algo batida do que possa ser isso de “ser-se poeta”. O que importa salientar é o descomprometimento, a despreocupação, até um voluntário desleixo lírico do autor na declaração dos seus propósitos. 
   Noutras ocasiões, a actualidade intromete-se no poema fixando-o temporalmente: «Deixaremos de ser escravos na falência da Europa sonho de reis decapitados / enquanto Inna Shevchenko ao derrubar a cruz de Holodomor grita FREE RIOT / sonhando-se talvez La liberte guidant le peuple» (p. 7). Anárquica, voluntariosa, heterodoxa, iconoclasta, esta poesia traduz um sinal destes tempos em que apenas a besta parece apta a dizer a verdade. E essa verdade é cruel, bruta, desmistificadora, violenta, é uma verdade niilista onde se pressente a falência do papel humano no curso da História: «Sherlocks de segunda a ver quem é que estragou tudo. Mas o tédio é o menos. / Malhas dois copos de whisky e já és o Colombo num assombro de novo mundo. / Mas depois, / ultrapassa-nos o naufrágio de sermos apenas isto: / reféns numa história ridícula. Uma vida juntos e nem um olhar» (p. 13). Já o poema Álbum de Memórias pode ser lido como uma sátira ao Portugal desta época, enquanto em muitos outros se faz tábua rasa da moralidade hipócrita que contamina relações familiares e sociais. 
   Na ironia latente vislumbramos momentos de frustração e, como refere Abel Neves no posfácio, «um afiar de lâmina para um qualquer ajuste de contas». Os poemas imprimem uma urgência do dizer que nos leva a pensar numa qualquer linha de separação entre a normalidade e a loucura que foi apagada, restando os destroços da doença e da alienação, os efeitos do estado do mundo no estado de um homem. A fotografia da capa é de Jorge Aguiar Oliveira, e dialoga lindamente com o poema seguinte:

A LINHA

A minha mãe gritava da janela
gesticulando aflições
Cuidado ao atravessar a linha!
E eu sonhava com engarrafamentos
comboios de buzina grave num trote de manada africana
e ao volante
jovens coquetes de macacão e cigarro slim nas ventas.
Mas nem isso. Apenas uma linha deserta.
Sempre nos perguntámos onde ficaria o seu fim.
Chegámos a colocar pedregulhos para descarrilamentos
e se o comboio parar a tempo
ameaçamos o maquinista:
Leve-nos ao fim do mundo!
E ai dele se não levar.

BUFFALO BILL (1944)



  Devemos o modo como imaginamos o Velho Oeste à elaboração de lendas em torno de personalidades como William Frederick Cody, eternizado Buffalo Bill pelas histórias de cordel, pelo circo que ele próprio erigiu em 1883, com digressão europeia a partir de 1887, e pelo cinema. Cecil B. DeMille dedicou-lhe The Plainsman (1936), com James Ellison no papel de Buffalo Bill. Quarenta anos depois, Robert Altman encarregou-se de desconstruir o mito com o hilariante Buffalo Bill and the Indians, or Sitting Bull’s History Lesson (1976). Entre um filme e o outro encontramos Buffalo Bill/Aventuras de Buffalo Bill (1944), de William A. Wellman, tentativa de recriação histórica com maior preocupação factual.
   O actor Joel McCrea ficou com o papel principal, dividido com a enorme Maureen O’Hara no papel de Louisa Frederici Cody. Bill e Louisa casaram em 1866, não tendo a história entre ambos sido tão romântica quanto o filme de Wellman sugere. Mas isso é o menos. Ele representa aqui o lado selvagem do Oeste, é o aventureiro que respeita os índios e procura compreendê-los, ela representa o Leste, a civilização e uma noção de progresso que não está preocupada com a preservação da natureza selvagem nem com nenhum tipo de tolerância para com os seus habitantes. Antes procura dominá-la/dominá-los e transformá-la/transformá-los. Têm um filho, que Louisa tenta proteger da selvajaria deslocando-se para Leste. A criança acabará por morrer com disenteria, uma doença da civilização.
   Grande parte do filme desenvolve-se em torno das guerras indígenas, recriando com naturalismo os cenários de conflito através de sequências captadas com a câmara no centro da peleja. Cavalos, índios em fúria, lanças e disparos parecem vir todos na nossa direcção. A imagem que hoje formamos daqueles tempos tem neste filme uma matriz indubitável: o forte de madeira no meio da planície, rodeado de montanhas vigiadas por índios de rosto pintado e com longos cocares na cabeça, as tranças das mulheres, os tipis montados junto aos rios, as planícies pejadas de búfalos, os sinais de fumo entre tribos, as movimentações da cavalaria, a caça indiscriminada aos búfalos patrocinada por empresários gananciosos do leste norte-americano, tudo isto concorre para um quadro que fez história e perdura enquanto ilustração de uma certa concepção de progresso levando de arrasto o mundo natural com seus povos e nações dele inseparáveis, por se sentirem parte integrante desse meio natural a que os colonos chamavam selva.
  William A. Wellman, a quem devemos alguns westerns sobre temas clássicos (The Ox-Bow Incident, de 1943, era sobre os linchamentos públicos) e metafísicos (Yellow Sky, de 1948, é o melhor de todos eles), parece inclinar-se aqui para as clivagens fundadoras da América. Anthony Quinn, no papel de Chefe Yellow Hand, é outra das personagens preponderantes no conflito. Muitas sequências assumem uma postura algo condescendente para com os métodos índios, levando-nos a crer que os actos bárbaros e guerreiros por eles praticados surgiram sempre na sequência de aproximações traiçoeiras do homem branco. Embora não possamos afirmar que exista no filme uma qualquer predisposição para a sentença, a verdade é que Wellman denota especial afecto pelos mais fracos da História.
   No final, ainda que sobre (de sobrar) o agradecimento a Buffalo Bill enquanto figura inspiradora de uma espécie de confluência multiétnica, fica-nos na retina o processo civilizacional operado sobre o próprio homem das planícies. Bill não é índio, mas é como se fosse. Logo no início ele não encaixa na formalidade dos comportamentos entre os de leste, que o convidam para jantar. Ao longo do filme, nunca parece encaixar nas atitudes, nas opções, nas decisões de um exército ao serviço de interesses económicos devastadores. Mas quando chega a altura de escolher um lado, ele escolhe o lado Bill. Não escolhe o lado Buffalo. Percebemos os efeitos da opção quando o observamos a deambular nas ruas da cidade, quando depois de ter sido elevado a herói cai em desgraça e desacreditado por dizer umas verdades acerca do tratamento dado aos índios pelo homem branco. A decadência e a ruína deste homem deslocam-no para o centro da arena. Com o circo montado, recriando para inglês ver as aventuras vividas no Oeste Selvagem, ele transforma-se numa anedota de si mesmo. 
   «Aprende a tornar-te naquilo que és», aconselhava Píndaro. Buffalo Bill aprendeu-o da pior maneira, tornando-se palhaço com rosto de lenda.

EM QUE PENSA HMBF?

Está um "solinho" que é uma maravilha.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #56



Brendan Perry e Lisa Gerrard são a dupla por detrás dos Dead Can Dance. Ela nascida em Melbourne, na Austrália, ele nascido em Londres, num distrito multiétnico maioritariamente habitado por imigrantes oriundos do Bangladesh. O pormenor não é despiciendo, dada a raiz multicultural da música praticada pelos autores de Garden of the Arcane Delights (1984). Os primeiros álbuns ajudaram a afirmar a personalidade da editora 4AD, fundada em 1980. No catálogo encontramos álbuns dos Bauhaus, Cocteau Twins, Throwing Muses, Pixies, Red House Painters, o que ajudou, numa fase inicial, a impor a marca enquanto abrigo de projectos alternativos inclinados para tonalidades negras, góticas, abstractas. Uma banda como os Dead Can Dance só encaixa neste tipo de linguagem com muito boa vontade, já que a música praticada pelo duo desde o início demarcou um território singular e arredio a rotulagens ligadas ao rock ou à pop. Desde logo, há a raiz étnica a partir da qual muitos dos seus temas se desenvolvem. Do folclore medieval à música cigana, do canto gregoriano às atmosferas renascentistas, percorrendo o mundo em busca de tons, ritmos, cantos, respigando nas tradições melodias modernizadas através de novos instrumentos, a música dos Dead Can Dance impõe-se pelo eclectismo sem tempo nem espaço das composições. É poesia paisagística. The Serpent’s Egg (1988), um dos melhores, está aqui apenas enquanto representação de uma vasta discografia que há-de resistir ao tempo. Temas curtos como Song for Sophia e Echolalia tornam-no inesquecível de um ponto de vista idiomático, fazendo sobressair os dotes musicais de Lisa Gerrard a níveis nunca antes vistos. Mas depois há a festividade de Mother Tongue, a beleza melancólica de The Host of Seraphim, oscilando entre o épico e o elegíaco, as invocações espirituais que fizeram dos Dead Can Dance a mais mística e sincrética das bandas à face da terra. Ullyses é outro grande momento, temperado pela voz de Brendan Perry em viagem por territórios inexplorados, de regresso à casa da nostalgia, de onde partiu em busca do inexorável. Bem vindos ao mundo:

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #2



Tão útil quanto uma enciclopédia, que não esgota a sabedoria mas garante boa figura, é um dicionário. A indispensabilidade da ferramenta obriga a critérios rigorosos de selecção, os quais deverão ter em conta, antes de mais, os pergaminhos do organizador e o fontanário de significados. Deve ser usado com rigor e prudência, parcimoniosamente, de modo a não desgastar eventuais interlocutores sintonizados em frequências distintas da nossa. Como neste mundo em que vivemos, para mal dos nossos pecados, Deus é quem vigora, comandando à hipocrisia quem na terra lhe obedeça, manda a inteligência que dominemos a linguagem do seu mais vetusto oponente. Assim sendo, minhas filhas, deixo-vos de herança o “Dicionário do Diabo”, com o qual e através do qual espero desbravar caminho para que vossos bondosos corações toquem vossas inocentes inteligências. Lede com atenção este Dicionário e rapidamente estareis munidas de material para a vida e, quem sabe, para a morte. Ora dizei lá uma palavra começada pela letra A:

AMOR, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocaram a enfermidade. Esta doença, tal como a cárie e outras, prevalece apenas entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.

Ora experimentai outra começada por L:

LIBERDADE, n. Um dos bens mais valiosos da Imaginação.

           O povo insurgido, exaltado e forte,
Gritava para o palácio: «Liberdade ou morte!»
«Se é a morte que quereis, deixai-me reinar»,
Disse o Rei, «pois não tereis mais que vos queixar.»
                                                               Martha Braymance

Tão valorosa investigação devemo-la, por ironia, a um norte-americano. Nem tudo o que provém das terras do Demo é mau, apesar de por lá jurarem com as patas sobre a Bíblia (obra a todos os títulos desaconselhável). Ambrose Bierce (n. 1842), desaparecido no México (boas terras) em 1914, vendeu a alma ao chifrudo durante 3 décadas, tendo originalmente compilado o pensamento do mestre em 1911 (em 1906, surgiu uma primeira versão com outro título). Por cá, só conheço uma edição truncada, a da Tinta-da-china, que é de Janeiro de 2006 e foi prefaciada pelo estimável Pedro Mexia (católico, conservador, pessimista, não necessariamente por esta ordem). Ora digam lá uma palavra começada por P:

PESSIMISMO, n. Uma filosofia que se impõe às convicções do observador devido à preponderância desanimadora do optimista, com a sua esperança idiótica e o seu sorriso disforme.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #1



Para a Matilde & para a Beatriz.

Como a biblioteca cá de casa não pára de crescer, fazendo parecer que a casa não pára de encolher, surgiu a ideia de antecipar as partilhas. Vou oferecer 100 livros às minhas filhas, na esperança de que possam contribuir para a sua educação. Serão 100 manuais escolares de insuspeito valor pedagógico. Começo por uma enciclopédia. É sempre útil e sinal de inteligência trazer uma enciclopédia à mão, desde logo porque, não sendo muito inteligentes, as pessoas munidas de enciclopédias sugerem um conhecimento e domínio das matérias capaz de impressionar e convencer. Entre muitas e diversas, a mais útil de todas é a “Antologia do Humor Negro” organizada por André Breton. Dizem as boas línguas que o autor tinha mau feitio, queria o surrealismo todo para ele. Que lhe tenha caído bem no estômago é o que desejamos. Por cá, o livro saiu com a famigerada chancela das Edições Afrodite (um amor de chancela). Ficai atentas, queridas filhas, desde logo aos tradutores. Tudo gente de boa cepa: Aníbal Fernandes (é tanto o que lhe devemos que nem com Estádio da Luz pejado de euros lhe pagaríamos), Ernesto Sampaio (autor do mais belo livro de amor), Luísa Neto Jorge (tenha s, tenha z, uma poeta do… vocês sabem do quê), Manuel João Gomes (traduziu os melhores), Jorge Silva Melo (vosso pai já lhe disse, com cara de parvo, que o admira como a poucos)… Se os tradutores são janelas abertas para o mundo inteiro, topem o mundo: Alfred Jarry (a seu tempo, hei-de apresentar-vos ao rei Ubu), Swift (gigante entre anões), Rimbaud (aquele que escreveu tudo enquanto o diabo esfrega um olho), Baudelaire (quando fomos a Paris, deixámos-lhe uma flor do mal no túmulo), Poe (o do corvo e das pessoas enterradas vivas), Kafka (o das pessoas transformadas em bichos), Isidore Ducasse (cuidado com este), Sade (ainda mais cuidado com este), Duchamp (o da obra de arte para fazer xixi), Lewis Carroll (este vocês sabem)… e tantos, tantos, tantos outros que deveis explorar, visitar, com os quais podeis e deveis dialogar, porque tendes muito a aprender sobre coisas tão básicas como ser-se livre, que é uma forma de se ser maluco nesta sociedade que impõe que sejamos rectos à maneira de quem deixa a parte terminal, posterior, do tubo intestinal, à disposição dos mandantes. Podeis aqui aprender coisas elementares, mas esquecidas: «Os abetos que se usam para fazer caixões são plantas de folha verde e perene» (Xavier Forneret). Só a morte é para a eternidade, que entremos nela no melhor dos confortos é o desejo dos parvos. O mais vulgar dos desejos. Mas falemos de matéria positiva, que a procissão ainda vai no adro. Sobre um tal de Jean-Pierre Brisset, lembra o arcebispo Breton: «A ideia mestra de Jean-Pierre Brisset é a seguinte: «A palavra que é Deus conservou dentro das suas obras a história do género humano, desde o seu dia primeiro; e, em cada idioma, a história década povo, com tal segurança e tal irrefutabilidade que confunde os simples e os sábios». Para começar, a análise das palavras permite-lhe estabelecer que o homem descende da rã. Essa descoberta, que ele tenta legitimar e seguidamente explorar através de um jogo de associações verbais de uma riqueza inaudita, vem corroborar, a seu favor, a constatação anatómica de que «o sémen humano visto ao microscópio dá a aparência de um charco de água cheio de girinos, cuja forma e aspecto os pequenos seres existentes nesse mesmo sémen nos recordam, sem tirar nem pôr». Portanto, que mais precisamos nós de saber para a vida acerca da vida senão que descendemos de rãs, e que tudo isto que tanto nos faz sofrer não passa de um charco onde chafurdam girinos, que somo nós?  

SOM & FÚRIA

O manuel a. domingos tem um weblog novo. Diz que é sobre música, à maneira dele. Começou com uma iguana, prosseguiu com uma quadrilha. Passem por: ali

PRESIDENTE DOS AFECTOS


O primeiro gesto de Marcelo Rebelo de Sousa como vencedor das eleições presidenciais foi transformar a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa – fazendo-se o legítimo e actualizado herdeiro de uma dada herança moral – em sede de campanha. Sabia-se eleito, tudo se tratou, em suma, de um plebiscito. Não é pois de admirar que o Presidente da República telefone a felicitar uma “estrela” televisiva no seu programa inaugural. A indignação de hoje só confirma o engano de ontem.


Jorge Muchagato, aqui.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

VIVEMOS DENTRO DE UMA ANEDOTA


A fome no mundo acabou, o clima está ameno, guerreiros depuseram armas, guerras fizeram greve, as máfias converteram-se em instituições de caridade, já não há governos, apenas organizações não-governamentais patrocinadas pela bem-aventurança de filantropos com consciências maiores do que o universo. Dito isto, o que há para noticiar? A transferência da Cristina para a SIC, o início do programa da Cristina, a entrevista da Cristina ao presidente do Benfica, o telefonema do presidente da república portuguesa à Cristina. Neste país em minúsculas que assimila os comentários da Moura Guedes e do Machado neonazi com o mesmo estômago e não vomita, já tudo é possível porque o sentido está em não haver sentido algum. Divirtam-se até que dê.

O MUNDO É UM LUGAR ESTRANHO


Quem pode extrair algum prazer ou ter o mórbido interesse em ver fotografias da dor alheia, imagens de um funeral?


Malomil, aqui.

WINCHESTER 73 (1950)



   Não é difícil perceber as razões que fizeram de Winchester ’73 (1950) um clássico dos clássicos, com o carimbo de Anthony Mann (1906-1967) em pico de actividade. Só no ano de 1950 estreou 4 filmes, três dos quais no estilo western. Dois ficaram para a história do género como obras fundamentais: The Furies/Almas em Fúria e este Winchester ’73. Referi-me a ele anteriormente numa menção ao escritor Borden Chase (Vera Cruz, Backlash, The Far Country, Red River, Bend of the River…), um dos principais contribuidores do ideário nacionalista que contaminou o cinema sobre o Velho Oeste. Winchester ’73 não foge à regra, podendo hoje ser lido como uma insustentável apologia das armas. Mas no início da década de ouro do western a perspectiva era outra. A espingarda que ajudou a conquistar o Velho Oeste aparece antes como um tesouro perdido, símbolo do poder tal qual um ceptro real ou uma varinha mágica, a espada do Rei Artur.
   O filme de Anthony Mann fez escola, estabelecendo paradigmas, fixando modelos, fundando estereótipos que outros se encarregaram de desconstruir posteriormente. O local da acção começa por ser Dodge City, ainda hoje conhecida como a capital mundial dos cowboys. Michael Curtiz dedicou-lhe um filme homónimo datado de 1939. A aura mítica de Dodge City está também associada à presença de Wyatt Earp no território, o qual surge em papel secundário neste filme de Anthony Mann. Oferece-lhe corpo o actor Will Geer. O protagonismo fica para outros. Não devemos também perder de vista o facto de as personagens serem colocadas inicialmente numa celebração do 4 de Julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, de 1876, ano da célebre batalha de Little Bighorn. É o ano do centenário da Independência e da monumental derrota do general Custer nas Guerras indígenas.
   Todos estes factos são elementos decorativos no pano de fundo de um filme que coloca em primeiro plano a disputa entre dois irmãos desavindos. James Stewart é o lado bom da história no papel de Lin McAdam, Stephen McNally é o lado mau no papel de Dutch Henry Brown. Da perseguição que o primeiro faz ao segundo resulta a dinâmica da obra, pautada pela deriva de uma Winchester ganhada por Lin McAdam num torneio de tiro. Dutch rouba-a, este acaba por ter de a vender a um traficante de armas, os índios com quem o traficante negoceia lançam-lhe mão, perdem-na numa peleja contra a cavalaria, o cobarde Steve Miller fica com ela, que a perde para o fora da lei Waco Johnny Dean… Saltando de mãos em mãos, a famigerada Winchester de 1873, única entre um milhão, transporta-nos de cena em cena pelas matrizes do western.
   Temos Wyatt Earp a tentar impor a lei em Dodge City, temos atiradores implacáveis, temos os fora da lei, o assalto a um banco, temos os traficantes de armas, temos índios em guerra, temos a cavalaria a proteger cidadãs indefesas, temos cenas de perseguição a alta velocidade, temos cobardes e heróis, mulheres, uísque, batota, temos amigos que são fieis como cães, temos o bom cowboy solitário em busca de vingança, temos planos em contraluz que parecem pintados a tinta-da-china, temos Caim e Abel. E neste conflito clássico temos uma recriação da luta entre o bem e o mal que sempre fez do western um género essencialmente moral. Não moralista, que isso é outra coisa. Antes um género que se preocupa em reflectir e pensar os caminhos do bem e do mal, os paradoxos, as contradições, a forma como nesses caminhos se cruzam a justiça e a injustiça, o amor e o ódio, a coragem e a cobardia.
   São vários os filmes de Anthony Mann que tenho sugerido. Além deste, dediquei já atenção a The Furies (a obra-prima), Bend of the River, The Far Country, The Tin Star (o melhor dos menos conhecidos). O que mais aprecio nestes filmes é a capacidade por eles denotada de abordar os grandes temas clássicos num contexto de puro entretenimento. Elementos populares como a velocidade das perseguições, os tiroteios e os duelos, nunca esgotam por absoluto o campo onde se desenrola a principal batalha. Esta é mais psicológica do que física, sendo interior mostra-se através de planos focados nos pequenos gestos que sugerem atitudes, receios, anseios, segredos. Há uma cena em Winchester ’73 de que gosto particularmente e que pode servir de exemplo. A personagem interpretada por James Stewart fala com o Sargento Wilkes, responsável por um regimento em situação de inferioridade face ao cerco dos índios. Wilkes conta em poucas palavras o seu historial militar, Stewart escuta-o atentamente. Percebemos no olhar do cowboy uma certa nostalgia, misturada com uma ironia e um respeito que não chegamos a entender de onde vêm. Apercebemo-nos apenas, porque isso é sugerido, que daquela conversa surge um encontro inesperado. Só mais tarde perceberemos porquê. Lin McAdam e o Sgt. Wilkes, agora no mesmo lado da barricada, tinham outrora sido inimigos durante a guerra civil. Ironias do destino que o cinema transforma em magia.  

JOSEF SUDEK, THE WINDOW OF MY STUDIO [SERIES], 1940-1954


A janela do estúdio está aberta. Por um instante,
aqueles dois mundos desviam-se do reflexo
que um é do outro e conectam-se. Definem-se,
dissolvendo-se. Não há interior e exterior.
Um plano onde a chuva escorre e outro onde
o ar é condensação. Não há o homem e um duplo
que se contempla, essa árvore de torso retorcido,
defeituoso, que o tempo, só por milagre, cura
quando floresce a Primavera.

As vidraças nada separam, nada aproximam.
Dois mundos, as estações que se sucedem,
o dia e a noite afectados pela luz interior e exterior,
o que é inteiramente abstracto à superfície
e delicadamente lírico, emotivo, quase espiritual,
no olhar que se prolonga.

Por tudo isto, são pormenores o muro e as casas
para além do jardim ou a composição de natureza
morta no parapeito de madeira. O que importa
é a janela do estúdio, que está aberta, e como
a indeterminação, esse movimento que o
mundo respira, ali se revela.



Sandra Costa (n. 1971), in Untitled. A estreia em 2002, com Sob a Luz do Mar (Campo das Letras), revelou uma voz transparente, contida, depurada. Untitled (volta d’mar, Dezembro de 2017) persegue os caminhos da luz, desta feita em diálogo com fotografias a preto e branco de autores diversos (Elliott Erwitt, André Kertész, Vivian Maier, Dorothea Lange…) A écfrase processa-se a partir de uma complexa ralação de olhares, o do autor da fotografia e o da poeta que a contempla. O poema surge desta relação como uma imagem no decorrer do processo de revelação, da indefinição nublada e sombria das formas até à sua absoluta definição. O título do primeiro livro já havia assumido a relevância da luz nesta poesia, agora novamente sublinhada por uma noção do poema enquanto reflexo. Mantendo-se a natureza no lugar da paisagem preferencial, ela surge enquadrada por uma contemplação afectada pelo silêncio e pela solidão. Os jogos de luz permitem-nos ainda vislumbrar em alguns versos um tom nostálgico que resiste à melancolia, inclinando-se mais para uma noção de espera onde podemos adivinhar certa forma de fé na beleza: «Nesse instante, compreendes: o único caminho / possível até à madrugada insubmissa / também se faz de esperas, // ou de um detalhe que nos salva» (p. 18). Também por isto, podemos dizer que esta é uma poesia que aparece em contramão com as tendências dominantes do seu tempo.

domingo, 6 de janeiro de 2019

A PROGRAMAÇÃO PROSSEGUE COM EDGAR BAYLEY


DIFICULDADES DA TRADUÇÃO

além de vegetações
e palavras
meu único argumento é esta árvore
sob a sua sombra
estou comigo

a folhagem
o fulgor
agitaram-se
e não podem ser traduzidos

tal como nós
árvore terra
ida volta
contigo estou
é o meu argumento
não pode ser traduzido

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 126. Versão de HMBF. 

sábado, 5 de janeiro de 2019

O MELHOR DOS LIVROS EM 2018


Lê-se pouco e mal em Portugal. Em não chegando a percepção de amigos que andam lá por fora, podemos sustentar a conclusão com estudos sociológicos internos: «Apesar de concordar que os hábitos de leitura aumentaram, 68 por cento dos portugueses considera que no país se lê menos do que no conjunto da União Europeia. (…) A maior parte dos inquiridos, 79 por cento, reconhece a utilidade da leitura, enquanto menos da metade, 44 por cento, afirma ter hábitos de leitura». O que significa que 56% dos inquiridos afirmam não ter hábitos de leitura. Quem diz a verdade não merece castigo. Mas dos que dizem tê-los, quais serão os seus hábitos? O livro mais vendido em 2018 na livraria onde trabalho foi “A Arte Subtil de Saber Dizer Que se Foda”. Em 2017 foi o das piadas secas. Venha o diabo e escolha. Descontando livros de leitura obrigatória, lá aparecem no top José Rodrigues dos Santos, Ricardo Araújo Pereira, Nicholas Sparks, Raul Minh’Alma e a youtuber Sea3PO. Sejam bem-vindos aos hábitos de leitura dos portugueses. O cenário é tanto mais preocupante quanto de dia para dia nos confrontamos com o encerramento de livrarias ditas independentes, aquelas onde o livro de uma forma geral, por não estar sujeito às regras do marketing contratado, tem alguma oportunidade de exposição. Na maior rede de livrarias do país o espaço encurta-se, os duplos, triplos e quíntuplos facings absorvem território como o mar come a terra. Há um grave problema ambiental no mercado livreiro português. Aguardem pelas redes de arrasto da Amazon que a coisa ainda ficará mais bonita. Dito isto, vamos às escolhas do ano para a Antologia do Esquecimento (foi consultada para o efeito uma vasta lista de personalidades, entre as quais se inclui um cadáver escrevente):

Melhor Cinta

Lucia Berlin, “Anoitecer no paraíso”, trad. Ester Cortegano, Alfaguara, Novembro de 2018.

Ano fraco em matéria de cintas, quase sempre correctivas ou chamando atenção para prémios e adaptações telecinematográficas. Lucia Berlin é a contista do momento. Merece, depois da vida que teve. Acontece aos melhores só serem lembrados quando já não respiram.

Melhor Sobrecapa

Umberto Eco, “Aos Ombros de Gigantes”, trad. Eliana Aguiar, Gradiva, Outubro de 2018.

Certamente um dos livros do ano. A capa rija, envolta em sobrecapa mole, confere-lhe uma dignidade em concordância com o estatuto de Umberto Eco. Lá para o final, refere-se o autor aos êxtases místicos da salesiana Marguerite Marie Alacoque. É de dar a volta ao estômago.

Melhor Capa

Henry David Thoreau, "Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack", trad. Luís Leitão, Antígona, Janeiro de 2018.

O primeiro livro do grande mestre chegou finalmente às livrarias portuguesas. Carolina Celas é a autora da ilustração de capa, onde tudo se equilibra em honra de Thoreau. O verde da natureza, o barquinho cor de fogo, o azul nas letras do título. Como um céu.

Melhor Contracapa

Rui Caeiro, “Diálogos Marados/Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão”, Livraria Snob, Março de 2018.

Para sermos exactos, não há capa nem contracapa neste pequeno mas agradabilíssimo livro. Trata-se de um 2 em 1, pelo que a capa tanto pode ser contra como a favor. De um lado memórias com poesia, do outro poesia com memórias. Pequenas histórias.

Melhor Primeira Badana

Julio Cortázar, “Os Prémios”, trad. Isabel Petermann, Cavalo de Ferro, Março de 2018.

Em matéria de badanas o ano também foi fraco, pelo que me sinto obrigado a ceder ao convencional. O primeiro romance publicado por Cortázar chega-nos pela mão da Cavalo de Ferro, com uma primeira badana generosa que não esqueceu a fotografia do autor e uma acutilante síntese da sua obra.

Melhor Segunda Badana

Charles Bukowski, “Os cães ladram facas”, trad. Rosalina Mashall, Alfagura, Novembro de 2018.

Com selecção de Valério Romão, esta antologia da poesia do maldito norte-americano vem preencher uma lacuna nas poucas estantes portuguesas onde cabe poesia traduzida. Na segunda badana optou-se pela reprodução de um poema pedagógico que aqui resumimos em quatro versos: «Vai ao Tibete. / Anda de camelo. / Lê a bíblia. // (…) Mas não escrevas poesia.»

Melhor Lombada

Vitorino Neméio, “Poesia (1916-1940)”, Companhia das Ilhas/IN-CM, Setembro de 2018.

Mistério que não me cabe decifrar: como é que a imprensa portuguesa dita da especialidade persiste em não fazer caso dos esforços levados a cabo por uma pequena editora sediada no Pico? O primeiro volume das anunciadas Obras Completas de Vitorino Nemésio aí está, em lombada elegante e irrepreensível. Tendo em conta a relevância do autor, não é apenas grave o descaso nas listas de fim de ano. É pura incompetência.

Melhor Guarda

Yannis Stiggas, “Exupéry significa perder-se”, trad. José Luís Costa, Douda Correria, Abril de 2018.

Um grego contemporâneo entre nós, graças à mais prolífica das editoras marginais portuguesas. As ilustrações são de Tiago Cutileiro, com base no mito de Pégaso. Um verso: «No fundo, o que mais me interessa são as coisas partidas».

Melhor Corte Superior

Herberto Helder, “em minúsculas – crónicas e reportagens de Herberto Helder em Angola”, Porto Editora, Abril de 2018.

Com um império alicerçado na produção de livros escolares, a Porto Editora imbuiu-se de espírito de missão e açambarcou para si a obra de Herberto Helder. Em 2018 recuperou textos jornalísticos publicados entre 1971 e 1972. Que mais irá recuperar, é dúvida que não nos assiste.

Melhor Corte Dianteiro

António Cabrita, “Oitenta flechas para atrair a cotovia – Livro I”, Douda Correria, Abril de 2018.

Surge anunciado como o primeiro de vários volumes cuja missão consistirá em reunir a obra poética de António Cabrita. O editor diz que o autor é o maior dos vivos entre nós. O autor diz que se pudesse não tinha escrito estes livros, foram-lhe impostos. Bem-aventurada servidão.

Melhor Corte Inferior

Eduardo Quina, “Maligno”, Cosmorama, Maio de 2018.

Quase tudo é negro neste pequeno livro, editado com descrição mas inquestionável devoção à arte poética. Nele se retoma a questão levantada por Adorno acerca das possibilidades da poesia depois de Auschwitz. A poesia morreu? A poesia não interessa? Será possível a poesia?

Melhor Folha de Guarda

Valério Romão, "Cair Para Dentro", Abysmo, Fevereiro de 2018.

O homem do ano para a revista não sei quantos é autor de um dos melhores romances do ano em língua portuguesa. A edição cuidada da Abysmo abre com um caderno de ilustrações de Alex Gozblau que resulta numa belíssima síntese do excelente título “Cair Para Dentro”.

Melhor Folha de Rosto

Hugo Milhanas Machado, “Um longo tempo nos pulos do mar”, com ilustração de Patrícia Guimarães, Douda Correria, Fevereiro de 2018.

Nesta entusiasmante incursão pela prosa, Hugo Milhanas Machado não se afastou um milímetro do seu universo solar: praia, férias, pescadores, amigos, mar. Os movimentos marítimos oferecem ritmo aos textos, que se lêem como quem flutua. Belíssima solução para a folha de rosto, numa composição assinada por Joana Pires.

Melhor Dobra

Rui Baião, “qb”, Sismógrafo, grafismo de Paulo da Costa Domingos, Dezembro de 2018.

A derradeira grande surpresa de 2018 foi-nos reservada por um poeta avesso à exposição. Trata-se de uma folha-volante, integrada na Colecção Panorama coordenada por Paulo da Costa Domingos e por Óscar Faria. Uma folha A3 dobrada em 8 partes, um poema.

Melhor Formato

António Miranda, “Só Esperava a Viagem Prometida”, volta d’mar, Junho de 2018.
Joseph Brodsky, “Marca de Água — Sobre Veneza”, trad. Ana Luísa Faria, Relógio D’Água, Janeiro de 2018.

Dois formatos semelhantes que representarem realidades distintas: os livrinhos de poesia da marginal volta d’mar e a colecção de literatura de viagens da Relógio D’Água. Em ambos coincide a temática da viagem. O livro de Brodsky é uma pérola que não pode passar despercebida.

Melhor Impressão

Amalia Bautista, “Coração Desabitado”, trad, Inês Dias, Averno, Maio de 2018.

Já não é novidade para ninguém o cuidado e o amor que a Averno coloca nos livros que vai editando. Com desenhos de Débora Figueiredo, esta antologia de Amalia Bautista está entre o que de mais respirável se vislumbra no claustrofóbico ambiente nacional.

Melhor Miolo

Manuel Resende, “Poesia Reunida”, Edições Cotovia, Abril de 2018.

O gesto de reunir a poesia de Manuel Resende é em si mesmo um acontecimento. Acompanhados, no final, por um ensaio de Osvaldo M. Silvestre, estes poemas voltam a ter uma mais que devida oportunidade. Clique na imagem para conferir.

Melhor Título

Valério Romão, "Cair Para Dentro", Abysmo, Fevereiro de 2018.
Nuno Dempster, “Há rios que não desaguam a jusante”, Companhia das Ilhas, Outubro de 2018.

Um ex aequo. O encerramento de uma trilogia de Valério Romão e a estreia no romance do poeta Nuno Dempster. Sobre o primeiro já tudo foi dito, sobre o segundo ainda não ouvi nada a ninguém. Dada a extensão do volume, damos o benefício da dúvida. Aguardemos.

Melhor Dedicatória

António Cabrita, “A Paixão Segundo João de Deus”, Editora Exclamação, Maio de 2018.

Toda esta paródia de António Cabrita é uma homenagem ao universo do cineasta João César Monteiro. Assim sendo, poderei considerar o livro inteiro uma extensa dedicatória. Não lhe fica mal, até pelo assumido gesto lúdico do texto.

Melhores Epígrafes

Fernando Machado Silva, “Um Espelho Para Reproduzir as Mutações da Vida”, Companhia das Ilhas, Abril de 2018.
Eduardo Galeano, “Espelhos – Uma História Quase Universal”, trad. Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018.

Como se escolhe uma epígrafe? Buscando síntese ou mote, testemunho por identificação, referência, assumida influência. A seu tempo, dedicarei maior atenção a estes dois livros. Resta esclarecer que a do lado esquerdo é do Silva, a do direito reporta ao Galeano. Clique para ver melhor.

Melhores Agradecimentos

Tatiana Faia, “Um Quarto Em Atenas”, Tinta-da-China, Janeiro de 2018.

Foi o livro de poesia portuguesa contemporânea que mais gostei de ler durante o ano que passou. A diferença entre o que considero ser poesia e fogo-de-artifício podia ser explicada através de uma leitura comparada entre dois livros desta mesma colecção. Infelizmente não tenho tempo. Nos agradecimentos finais, a autora faz o sublinhado acima reproduzido.

Melhor Prefácio & Melhor Posfácio

Eduardo Guerra Carneiro, “Mil e Outras Noites”, prefácio e posfácio de Vitor Silva Tavares, Língua Morta, Maio de 2018.

Foi o livro de poesia que mais gostei de ler em 2018. O prefácio e o posfácio são involuntários, resultam de uma inteligente opção editorial. Ninguém melhor que Vitor Silva Tavares para alumiar Eduardo Guerra Carneiro. De ambos, restam-nos as palavras. E não é pouco.

Melhor Nota de Rodapé

José Sesinando, “Obra Perfeitamente Incompleta”, Tinta-da-China, Junho de 2018.

José Sesinando, isto é, José Palla e Carmo, é um desconstrutor por excelência. Incluído na colecção de humor coordenada por Ricardo Araújo Pereira, o tal que salva os tops da absoluta mediocridade, este livro está repleto de excelsas notas de rodapé. Fica uma, ao alto, como mera ilustração. Clique-se.

Melhor Sumário

Sam Shepard, “Espião na Primeira Pessoa”, trad. Salvato Telles de Menezes, Quetzal, Agosto de 2018.

Um livro que é uma comoção, todo ele perfeito. Podia levar também os prémios de melhor capa, melhor formato, etc.. O sumário vem no fim e reproduz-se aqui. Shepard foi um dos autores que, a dada altura, mais influenciou a escrever contos este vosso anfitrião. Portanto, respect.

Melhor Cólofon

COPO, “Poesia de Entretenimento Científico”, Boca, algures num mês de 2018.

Que me recorde, foi o pior ano em matéria de “colofões” desde que me meti nesta aventura. Podia ter-me metido nas drogas, o que seria bem melhor. Neste livrinho amistoso, a última página reproduz índice, ficha técnica, agradecimentos. Consideremos colofão o CD apenso no final.

Melhores Colecções

Colecção Mão Dita, Abysmo.
Série mundo da Colecção azulcobalto/teatro, Companhia das Ilhas.

Poesia e teatro, duas formas resistentes no campo de batalha do mercado literário. Se poucos compram poesia, quase nenhuns lêem teatro (quanto mais comprá-lo). Neste caso, o teatro tem ainda contra si não ser facilmente partilhável através do copy que a poesia inspira nas redes sociais. Parabéns à Abysmo por insistir na poesia, parabéns à Companhia das Ilhas por insistir no teatro.

Melhor Bibliografia

Gary Snyder, “A Prática da Natureza Selvagem”, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018.

Não é extensa, mas está recheada de bons e nutritivos conselhos. Serve a categoria igualmente, confessemos, para recordar um dos melhores livros publicados entre nós no ano que passou. Convém lê-lo e divulgá-lo antes que por incúria e politiquices deixemos que dêem cabo da maior de todas as nossas mães.

Melhor Tradução

Henri Michaux, “Moriturus e Outros Textos”, trad. Rui Caeiro, Língua Morta, Abril de 2018.

Num ano que terminou agitado em torno das traduções de Rimbaud, talvez fizesse sentido olhar comparadamente para as que foram sendo dedicadas a Henri Michaux. Esta edição de “Moriturus” recupera textos já anteriormente publicados em português e junta-lhe outros. Escutemos o tradutor: «não é nada fácil traduzir a poesia de Henri Michaux, dar em português a frescura e o terror do seu universo, das suas imagens». Rui Caeiro foi mais um a tentar. Agradecido.

Melhor Ilustração de Capa

Cláudia R. Sampaio, “Outro nome para a solidão”, com ilustrações da autora, Douda Correria, Novembro de 2018.

Mais do que a ilustração em si, surpreendeu-me a autoria da mesma. Desconhecia o duplo talento de Cláudia R. Sampaio. Uma ilustração de capa que vem da contracapa, fazendo o percurso invertido que mais convém à poesia.

Melhor Fotografia de Capa

Marta Chaves, “Varanda de Inverno”, com fotografia de Daniel Blaufuks, Assírio & Alvim, Abril de 2018.

Digamos que assim é fácil, Blaufuks é um dos nossos melhores fotógrafos. Mas esta fotografia assenta especialmente bem neste livro de Marta Chaves, por lhe captar o tom nostálgico, o romantismo das sombras, da luz que penetra a escuridão como a palavra o silêncio.

Melhor Texto de Contracapa

José Pedro Moreira, “Gatos no Quintal”, Enfermaria 6, Fevereiro de 2018.

É um dos meus ódios de estimação, a selfie. Prática repugnante agravada pelo uso de um instrumento que dá pelo nome de stick. Já me apeteceu andar à porrada por causa destas coisas. Que um livro de poesia dê tão pertinentes conselhos em texto de contracapa, só pode ser considerado uma lufada de ar fresco. Faça o favor de clicar na imagem, mas depois não se esqueça de colocar em prática.

Melhores Ilustrações

Eduardo Galeano, “As Palavras Andantes”, trad. Helena Pitta, gravuras de J. Borges, Antígona, Junho de 2018.

Miguel Granja, “Simão sem medo”, ilustrações de Beatriz Bagulho, Douda Correria, Outubro de 2018.

Seria injusto esquecer as gravuras de J. Borges, das quais tivemos conhecimento através deste livro de Eduardo Galeano. Mas mais injusto seria não dirigir a nossa atenção para as ilustrações de Beatriz Bagulho. O n.º 3 da colecção Puto Xarila é um mimo a pensar na juventude, mas perfeitamente acessível a gente mais crescida. Uma delícia.

Melhor Índice

Ricardo Tiago Moura, “Cruzes”, Alambique, Outubro de 2018.

Livro enigmático, misterioso, ao qual dedicarei mais atenção em breve. O índice escapa à vulgaridade geral, apelando para um exercício de ligações, cruzamentos, possíveis construções poéticas.

Melhor Qualquer Coisa

Éric Vuillard, “A Ordem do Dia”, trad. João Carlos Alvim, Abril de 2018.

Foi o livro que mais gostei de ler em 2018, sendo muito provável que a ele regresse várias vezes nos próximos tempos. Num texto curto e incisivo, a ascensão do nazismo explicada aos meninos. Devia ser de leitura obrigatória nestes tempos em que o politicamente correcto está a dar asas aos inimigos da democracia.

O Livro do Ano

Amadeo de Souza-Cardoso, “XX Déssins”, Ponto de Fuga, Outubro de 2018.


Ruppert & Mulot, “O Reino”, trad. José Luís Costa, Douda Correria, Março de 2018.

São dois. O primeiro não é bem um livro. Trata-se da edição fac-similada de “XX Déssins”, um álbum de gravuras produzido por Amadeo de Souza-Cardoso, em Paris, no ano de 1912. A edição da Ponto de Fuga procura reproduzir fielmente o original. 
O segundo é um álbum de banda desenhada, 24 páginas num formato monumental, assim tipo edição antiga do jornal Expresso, a dar um ar da vastidão do Universo e da pequenez destes nós que o ocupamos. Só tendo o objecto nas mãos se perceberá a sua real grandeza. Fim.