Não se tente, porém, segurar o vento.
antologia do esquecimento
Domingo, 27 de Maio de 2012
Sábado, 26 de Maio de 2012
ESTE É O BOM GOVERNO DE PORTUGAL!
Luís Pedro Russo da Mota Soares chegou ao Governo de Vespa e logo se mudou para um Audi de 86 mil euros. Nuno Paulo de Sousa Arrobas Crato tinha todas as soluções para a educação antes de chegar ao ministério. Ao chegar, a amnésia varreu-lhe as ideias. Pretende reduzir a carga horária em vários anos e aumentar o número de alunos por turma. Por este andar, acaba como Ministro da Economia. Paulo José Ribeiro Moita de Macedo traz na lapela o distintivo de exímio gestor. Para não desfazer o mito, sugere o encerramento de uma das poucas instituições que funcionam bem neste país: a Maternidade Alfredo da Costa. Maria da Assunção de Oliveira Cristas Machado da Graça, a super-ministra, não se poupa em medidas ambientalistas: exige que no seu ministério ninguém use gravata porque há estudos que mostram que prescindir da gravata permite descer em 2ºC a temperatura do ar condicionado. Infelizmente, não sabemos de nenhum estudo que prove ser a “esperança que chova em breve” uma medida adequada no combate à seca prolongada. Álvaro dos Santos Pereira, o ministro romancista, quer ser tratado por simplesmente Álvaro e trata o desemprego por coiso. Roubaram-lhe o QREN, mas não faz disso assunto. Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas é amigo de seu amigo, sobretudo se seu amigo for ex-espião. Porque não gosta de ser espiolhado, embora não recuse uma boa espiadela, põe-se a ameaçar jornalistas. Já está mais fora do que dentro. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz não brinca com medidas do género Estímulo 2012. Contrariando a tendência para empregar licenciados com propostas de remuneração a rondar os 500€ mensais, nomeou, a 19 de Janeiro do corrente ano, o licenciado Ricardo José Galo Negrão dos Santos, para realizar estudos pelos quais auferirá uma remuneração mensal de 3892€, acrescida de subsídios de férias e de Natal de igual montante, subsídio de refeição, bem como despesas de representação fixadas para os adjuntos dos gabinetes dos membros do Governo. Fim de citação. Miguel Bento Martins da Costa de Macedo e Silvado, o esbugalhado, foi catado a receber um subsídio de alojamento por ter que se deslocar para Lisboa com morada em Lisboa. A vida está cara, mas o ministro renunciou ao subsídio para dar o exemplo. As suas polícias é que não ficaram satisfeitas com a renúncia e desataram à bastonada em cima de jornalistas no pleno exercício da sua profissão. José Pedro Correia de Aguiar Branco tem-se esforçado para manter as Forças Armadas sossegaditas. Tanto trabalho que nem damos por ele. Paulo de Sacadura Cabral Portas tinha urticária ao poder, jamais seguiria uma carreira política, acabou como Ministro do Mar a comprar submarinos aos alemães e é agora Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mantém activas todas as fotocopiadoras do seu gabinete, não vá o mafarrico tecê-las… Vítor Louçã Rabaça Gaspar anuncia medida de austeridade sobre medida de austeridade como se estivesse a ler aos portugueses A Crise Explicada às Crianças. No topo do bolo, qual cereja, Pedro Manuel Mamede Passos Coelho is a Portuguese politician que pede aos portugueses que não sejam piegas e aconselha-os a emigrar, porque o desemprego é uma oportunidade para mudar de vida. Este é o bom Governo de Portugal!
AMÉLIA PINTO PAIS (1943-2012)

Soube há dias, através do weblog picosderoseirabrava, que a nossa amiga Amélia Pais foi encontrada inanimada em casa, tendo dado entrada no hospital de Leiria. Comunica-me agora a Soledade, por e-mail, de mais uma perda irreparável. Conheci a professora Amélia pessoalmente, trocámos vários e-mails, era de uma simpatia e generosidade extremas. Pedia-me várias vezes para divulgar textos meus no seu weblog, o ao longe os barcos de flores. Dizia-se semeadora de versos. Assim era. Poderão ler neste post uma entrevista à autora e ficar a saber um pouco mais sobre quem estava por detrás da sementeira. Muitas das suas adaptações dos clássicos estão disponíveis nas livrarias, tornaram-se elas próprias clássicos da iniciação ao que de melhor tem a literatura portuguesa. Saudades. »»
Sexta-feira, 25 de Maio de 2012
Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #53
Falemos de génio, a mais rara encarnação humana. Miles Davis deu-lhe rosto ao nascer no dia 26 de Maio de 1926. O jazz moderno confunde-se com o seu percurso. O be-bop dos anos 40, o cool jazz da Tuba Banda na passagem para os 50, o hard-bop dos 60 e Bitches Brew. Bitches Brew (1970) é todo um tratado sobre a arte de improvisar com um instrumento nas mãos, economizando evidências e destaques em prol de uma linguagem onde o múltiplo se torna Uno. Pura alquimia. Depois disto falou-se de free jazz (conceito que Miles Davis repugnava), de jazz de fusão, de cedências ao rock e à pop, falou-se de tudo. Os críticos falaram assim: «Miles tinha-se rodeado de um insólito formigueiro de sons, cruzamento entre o jazz, rhythm and blues e rock psicadélico, obtendo resultados de uma tensão altíssima que, após a surpresa inicial, convenceu os exigentes aficionados do jazz». Preferimos falar de uma dança aparentemente desorganizada, de movimentos caóticos, com os instrumentos a dispararem em todas as direcções. O tom inicial é algo enigmático, mas logo explode com uma energia onde não há lugar para perplexidades. Os solos emergem sob rumos diversos, conjugando-se sem predomínios numa atmosfera que nos transporta, na escuridão de uns olhos fechados, para remotas paisagens tribais. Talvez enraíze o exorcismo certo culto do voodoo, o mesmo que deu cor à anarquia psicadélica de Hendrix. A capa não engana. E o tema do título é um excelente exemplo dessa misteriosa evocação dos espíritos, com a trompete de Miles chamando a si a pronúncia dos salmos. Frases curtas, mas soantes, como quem por negras magias expurga a alma de demónios malignos. Tal como nesse portentoso Miles Runs the Voodoo Down. Além de Miles, tocam Wayne Shorter, Bennie Maupin, Joe Zawinul, Chick Corea, John McLaughlin, Dave Holland, Harvey Brooks, Lenny White, Jack DeJohnette, Jumma Santos. Já tive a felicidade de ouvir alguns deles ao vivo. Posso não vir a morrer feliz, mas infeliz também não hei-de morrer.
NÃO É VIOLÊNCIA, É EDUCAÇÃO
Camarada Van Zeller, de vez em quando dou comigo a pensar que talvez fosse melhor emigrar para o Médio Oriente. Não é lá que olho por olho, dente por dente? Um palestiniano atira umas pedras, o judeu responde com mísseis, o árabe arremessa cocktails, o israelita replica com obuses… Imagine a coisa aplicada por cá, seria um descanso. Por exemplo, nas escolas. Volta não volta, vem à baila o problema da violência nas escolas. Que me lembre, opinei sobre o assunto aqui e acolá. Há quem não se sinta chocado por um professor responder com tabefes aos insultos dos alunos, esses delinquentes que é preciso pôr na ordem sob pena de virem um dia a transformar Lisboa numa qualquer Atenas, Madrid ou Londres. Nós somos um povo de bons costumes, manda o bom costume que o aluno seja tratado como merece: ao tabefe. A realidade justifica-o. As nossas escolas, ao contrário das americanas, são autênticos antros de maldade, os nossos alunos uns energúmenos enraivecidos. Isto não é Beslan, Bath School, Virgínia Tech, Maalot, Dunblane, Gutenberg, Columbine, Montreal, isto não é a Universidade do Texas ou a Escola Tasso da Silveira ou Toulouse, onde acontecem massacres motivados, certamente, pela passividade nas novas teorias da educação. Por cá, o belo do tabefe deve continuar a fazer escola na escola. Ora, o que se passa actualmente nas escolas portuguesas é uma pouca vergonha. Por certo as terríveis criancinhas nasceram assim, não se tornaram no que são em interacção com pais, sociedade, escola. Não, elas nasceram más. Logo, terão o que merecem. Os cães educam-se a pontapé, o mesmo deverá ser com as terríveis criancinhas do nosso país que andam para aí a ameaçar professores, aos empurrões e cuspidelas, jogando ao bullying como quem joga o berlinde. Não interessa a causa do problema, importa a solução: porrada em cima deles. Olho por olho, dente por dente, como no Médio Oriente. E se os pais vierem responder, que sejam lapidados. A escola deverá amarrá-los, apedrejá-los, a bem da boa educação do país, a que formou bons exemplos da nação tais como o ministro Relvas, o Duarte Lima, a “catrefa” do BPN e demais amigos de seu bom amigo. Esses sim, gente bem-educada, bons pais de família. Sei do que falo, fui professor durante dez anos, tenho Himalaias de amigos stôres e professores e professores doutores. Sei do que falo. Um reguila só se verga a murro, o pai do reguila a bastonada e assim sucessivamente. Mais sugiro que a mesma táctica seja aplicada nos hospitais entre doutores e pacientes, nos tribunais entre juízes e réus, nos quartéis entre capitães e magalas, nos próprios lares entre maridos e mulheres. Dantes é que era bom, mulher em casa a cuidar dos filhos, marido fora a cuidar-se com amantes. Dantes é que era bom, um país de gente bem educada que saía da escola a saber ler e com a tabuada na ponta da língua e os nomes dos rios de Portugal e tudo o que era rei decorado… A porcaria da Internet veio dar cabo disto tudo, devíamos voltar ao dantes. Quais competências técnicas, quais carapuça. Eu quero é que as minhas filhas saibam de cor as dinastias que nos trouxeram a esta miséria, e quero que elas saibam quem foi Salazar para que o culto lhe seja prestado pelos bons serviços oferecidos à nação. Olho por olho, dente por dente, e a PIDE com eles todos afiados, os olhos e os dentes, num país de populaça desdentada e olhos comidos pelas cataratas. Que o professor tem que dar o exemplo? Pois que o dê à traulitada! Seja ele um exemplo de como um bom par de estalos corrige os desvios e não causa traumas. Trauma é chegar ao século XXI observando o estado a que isto chegou, um estado de gente amorfa num país de ladrões bem-educados, todos eles saídos de escolas com excelentes professores, muita ordem e bonomia, e hordas de maltrapilhos a darem cabo da boa tradição: olho por olho, dente por dente. Não traumatiza nadinha, não custa nadinha, tudo à mocada pela ordem, pela autoridade, pela dignidade humana (pelo menos a de alguns). Eu, meu caro, vou já ali praticar: tenho duas filhas e uma mulher que estão mesmo a pedir. Não custa nada, não traumatiza nada. Não é violência, é educação.
ESGOTAR OS ARGUMENTOS
Uma vez questionaram Marcuse sobre a sua declarada inclinação para a pornografia, ao que este respondeu, muito naturalmente, porque entre apanhar uma doença má nas putas ou sentir-se vulgar a trair a mulher, preferia satisfazer-se a ver pornografia. O jornalista, pressentindo polémica, insistiu: então porque não se satisfaz com a sua mulher? Marcuse olhou-o nos olhos, cofiou as barbichas, e disse: cheguei à conclusão que sexo, com a minha mulher, só é possível quando ela sente ao largo a ameaça duma fêmea depredadora. Nesse sentido, o ciúme pode ser um aliado fiel. Noutras ocasiões exige-me amor. E no que respeita a amor, já esgotei todos os meus argumentos.
SR. MINISTRO, ESPERAMOS QUE TENHA HUMILDADE SUFICIENTE PARA SE DEMITIR

Bárbara Reis esteve a ser ouvida na Entidade Reguladora para a Comunicação Social durante duas horas e meia, em conjunto com o director-adjunto Miguel Gaspar.
No telefonema que fez à editora de Política depois de ter recebido por e-mail uma pergunta da jornalista Maria José Oliveira, “o ministro disse que ia fazer queixa à ERC, aos tribunais, ia dizer aos membros do Governo para não falarem com o PÚBLICO e iria revelar dados da vida privada da jornalista”. Questionada pelos jornalistas, a directora afirmou que o ministro especificou os dados, mas Bárbara Reis adiantou que não é “o momento” para os identificar.
“Na sequência dessa pressão, a direcção entendeu por correcto e importante protestar formalmente junto do ministro [dizendo-lhe] que o telefonema e a pressão tinham sido inaceitáveis”, contou Bárbara Reis. Nessa conversa, “o ministro respondeu a uma série de coisas e disse que tinha humildade suficiente para pedir desculpa à Leonete Botelho e foi o que foi fazer”.
(aqui)
Terça-feira, 22 de Maio de 2012
OS MEXICANOS DA GRÉCIA
Entrei na Grécia por Patras, depois de apanhar um ferry em Brindisi. 18 de Agosto de 1998. Uma noite de viagem passada no convés, ora lendo, ora à conversa com quem mostrasse vontade de paleio. Lembro-me de trocar algumas impressões com um inglês que andava a ler o Drácula de Bram Stoker, seis anos antes perdera-me várias vezes pelas salas de cinema de Lisboa a ver a adaptação do Coppola. Mas a maior parte do tempo foi ocupada na companhia de dois alemães, munidos com cerveja, e um indivíduo da Charneca da Caparica com um sentido de humor amplamente beneficiado pelas bolotas enroladas sucessivamente. Sempre soube escolher companhias. Ainda me enfiei no saco-cama e adormeci ao relento, iluminado por altas e românticas estrelas onde não vislumbrei conforto senão para divagações inúteis.
A alvorada foi crescendo envolta em nevoeiro, deixando perceber aqui e acolá ilhas não mais atraentes do que a Berlenga. A chegada a Patras deu-se em confusão, sem saber para onde me virar, com uma mochila às costas, sem postos de turismo por perto, o corpo maçado e sujo, a cabeça, já de si débil, desfeita em divagações. Lá encontrei o caminho para os comboios, uma estação velha e decadente, um corrupio danado onde contrastavam duas velhas ao largo vestidas de negro da cabeça aos pés. Pareciam viúvas da Nazaré, aspecto melancólico e passado, elegias ambulantes equilibrando sobre a cabeça canastras cheias de víveres.
O comboio para Atenas estava apinhado de gente, sobretudo turistas, malta dos inter-rails. Sentei-me ao lado de um tipo provavelmente de origem nipónica. Ofereci-lhe o melhor do meu inglês e ele pagou-me na mesma moeda, falámos muito sem entendermos nada do que dizíamos um ao outro. Com o italiano instalado defronte a conversa foi mais inteligível. Era arqueólogo, andava em investigações, o que, dada a sujidade espalhada pelo corpo, me pareceu evidente. Sem saber explicar porquê, olhava para ele e via uma personagem d’Os Caminhos de Katmandu.
Pouco tempo antes tinha avistado em Patras um porco com uma mochila às costas e, por instantes, julguei estar a ver-me ao espelho. A higiene não era, definitivamente, uma das nossas prioridades. Ainda assim, consegui do italiano informações valiosas sobre como lidar com os gregos. Era preciso desconfiar de tudo o que dessem por garantido, jamais sorrir para um homem na rua sem pretender engatá-lo, mostrar firmeza na hora das decisões mesmo que, do outro lado, nos chegasse a mais cínica das indiferenças. Interrompido o diálogo pelo espanto ao atravessarmos o Canal de Corinto, prestei alguma atenção a um Mexicano que há largos minutos tentava vender as vantagens de uma pensão chamada Aphrodite.
Segui os bons conselhos do italiano e não me deixei ir em cantigas, embora o procurador não fosse grego. Parvo fui ao deixar-me cair numa esparrela de nome San Remo; quarto por mil dracmas, terraço amplo, ao ar livre, por metade do preço. Tendo em conta a bofa, não me pareceu mau negócio. Ora experimentemos o terraço. Uma lixeira a céu aberto, gerida por um emigrante do Sri Lanka casado com uma indonésia. O procurador era mexicano. Da falta de cosmopolitismo não nos podíamos queixar. Havia também uma espécie de bar, frequentado sobretudo por nórdicos, enfeitado com canas verdes e uns bancos de palha, muito ranhosos, quase tão labregos como o arqueólogo italiano.
No amplo terraço, os inquilinos pareciam vítimas dum terramoto em busca de lugar num qualquer abrigo. Encontrei um canto onde podia pousar a mochila, mas era impossível esticar as pernas. Peguei num toalhão e dirigi-me à casa de banho para tomar duche. O cenário era surreal. Uma casa de banho que cabia no elevador do meu prédio em Chelas, um cubículo com sanita e chuveiro, um orifício numa das paredes, de onde entravam melgas enormes enquanto me tentava esfregar com sabão azul, batiam na água e escorriam-me pelo corpo abaixo em direcção ao ralo, para aí desfalecerem sem dó nem piedade. Nunca tomei um banho que me fizesse sentir tão sujo.
Não quis saber de mais nada nesse dia. Procurei o mexicano que me trouxera à alfurja e comuniquei-lhe que só ficaria em troca de um colchão onde pudesse esticar as pernas e descansar, o que me foi prometido para a noite seguinte. A latrina estava sobrelotada, não havia como resolver o meu problema e imediato, se estivesse cansado que fosse até ao bar trocar impressões com os nórdicos sobre filósofos antigos e mitologia grega, os quinhentos estavam pagos e não havia como reavê-los. Cabrão do mexicano, pensei. Voltei-lhe as costas e fui até ao bar. Pedi uma cerveja e perguntei ao índio que geria o estaminé se serviam algo comestível. O tipo olhou-me desconfiado e respondeu três vezes, não fosse eu não perceber à primeira: no snacks, no snacks, no snacks. Paguei a cerveja, peguei num mapa e saí.
A caminho da Praça Victoria fui interpelado por um velho. Queria saber se eu andava perdido, se precisava de um guia. Disse-lhe que precisava de comer. Indicou-me alguns locais no mapa onde seria possível provar o melhor feta de Atenas e beber o melhor ouzo do mundo, a preço de vagabundo e com direito a música tradicional ao vivo. Se eu quisesse, poderia fazer-me companhia. Dispenso, disse-lhe, ao que me apalpou o cu, sorriu e despediu-se com um bye bye beautiful Apollo. Acabei num McDonald’s, julgo que, à época, o único de Atenas, a devorar um Big Mac como se estivesse a banquetear-me em casa de Ágaton. Depois vagueei pelas ruas, sem mapa nem direcção, observando os edifícios decrépitos, uma vasta panóplia de janados, metáfora perfeita de armaduras perdidas e civilizações caídas em desgraça.
A noite no terraço da pensão San Remo foi passada na conversa. Ainda consegui deitar-me sobre uma manta improvisada com caixas de cartão desfeitas, fechar os olhos por breves horas até um sol impiedoso começar a assar-me o corpo. De manhã, mudei-me para um quarto. Haviam providenciado um divã singular junto a duas camas de casal. Iria dividir os aposentos com dois polacos (um ele e uma ela), uma italiana e um norueguês chamado Klaus. Seguiram-se longas caminhadas pelas ruas da cidade, os olhos esbugalhados respigando os pormenores dos confins da Europa, mercados a céu aberto com vísceras atraindo a voracidade das moscas, vermes em acção, iscos por todo o lado aos quais não era difícil resistir dada a precariedade da carteira pessoal.
2000 dracmas para visitar a Akropolis e provar a inexistência dos deuses. Fossem eles reais, nunca aquelas ruínas engessadas teriam acontecido, nunca o teatro de Dionysus se teria transformado num monte de calhaus, numa curiosidade arqueológica onde imaginamos Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, para conforto da memória e desconsolo da realidade. Lá do alto, junto ao Pártenon, a vista sobre a cidade não podia desmentir o desconchego. Uma densa nuvem de poluição caía sobre os edifícios erigidos em torno do centro histórico, era como se estivéssemos ali para comprovar a porcaria em que nos tornámos. As raízes, as origens, transformadas em peças de museu. E nós a visitarmos a nossa própria decadência, pagando para ver como paga para ser açoitado o masoquista.
Nenhum vestígio de Sócrates, nenhum resquício de Platão, nenhum rasto de Aristóteles. Nos jardins de Epicuro regavam-se pedras. Mataram os cínicos, enterraram-nos sob a desmesurada ambição do catolicismo, reduziram a pó e cinzas o gozo da liberdade. Resta-nos o ouzo e o queijo feta, filosofias não dão jeito ao estômago. Não me repetirei com histórias já contadas noutras províncias. Como, a título de exemplo, a de pela noite dentro terem os polacos começado a foder e eu, no meu divã singular, sem saber se partir ou ficar. Acabei por partir e juntar-me ao Klaus no bar de San Remo. Era um tipo simpático, sereno, com quem passei umas boas horas numa esplanada perto, talvez, da Praça Sintagma onde agora os gregos bulham. Depois regressei a Patras para dividir um quarto com dois mexicanos, ambos deitados com as botas calçadas, como nos filmes do Sergio Leone, e sem conversa alguma para cambiar. Enfim, não posso dizer que guarde boas memórias dos mexicanos da Grécia.
A alvorada foi crescendo envolta em nevoeiro, deixando perceber aqui e acolá ilhas não mais atraentes do que a Berlenga. A chegada a Patras deu-se em confusão, sem saber para onde me virar, com uma mochila às costas, sem postos de turismo por perto, o corpo maçado e sujo, a cabeça, já de si débil, desfeita em divagações. Lá encontrei o caminho para os comboios, uma estação velha e decadente, um corrupio danado onde contrastavam duas velhas ao largo vestidas de negro da cabeça aos pés. Pareciam viúvas da Nazaré, aspecto melancólico e passado, elegias ambulantes equilibrando sobre a cabeça canastras cheias de víveres.
O comboio para Atenas estava apinhado de gente, sobretudo turistas, malta dos inter-rails. Sentei-me ao lado de um tipo provavelmente de origem nipónica. Ofereci-lhe o melhor do meu inglês e ele pagou-me na mesma moeda, falámos muito sem entendermos nada do que dizíamos um ao outro. Com o italiano instalado defronte a conversa foi mais inteligível. Era arqueólogo, andava em investigações, o que, dada a sujidade espalhada pelo corpo, me pareceu evidente. Sem saber explicar porquê, olhava para ele e via uma personagem d’Os Caminhos de Katmandu.
Pouco tempo antes tinha avistado em Patras um porco com uma mochila às costas e, por instantes, julguei estar a ver-me ao espelho. A higiene não era, definitivamente, uma das nossas prioridades. Ainda assim, consegui do italiano informações valiosas sobre como lidar com os gregos. Era preciso desconfiar de tudo o que dessem por garantido, jamais sorrir para um homem na rua sem pretender engatá-lo, mostrar firmeza na hora das decisões mesmo que, do outro lado, nos chegasse a mais cínica das indiferenças. Interrompido o diálogo pelo espanto ao atravessarmos o Canal de Corinto, prestei alguma atenção a um Mexicano que há largos minutos tentava vender as vantagens de uma pensão chamada Aphrodite.
Segui os bons conselhos do italiano e não me deixei ir em cantigas, embora o procurador não fosse grego. Parvo fui ao deixar-me cair numa esparrela de nome San Remo; quarto por mil dracmas, terraço amplo, ao ar livre, por metade do preço. Tendo em conta a bofa, não me pareceu mau negócio. Ora experimentemos o terraço. Uma lixeira a céu aberto, gerida por um emigrante do Sri Lanka casado com uma indonésia. O procurador era mexicano. Da falta de cosmopolitismo não nos podíamos queixar. Havia também uma espécie de bar, frequentado sobretudo por nórdicos, enfeitado com canas verdes e uns bancos de palha, muito ranhosos, quase tão labregos como o arqueólogo italiano.
No amplo terraço, os inquilinos pareciam vítimas dum terramoto em busca de lugar num qualquer abrigo. Encontrei um canto onde podia pousar a mochila, mas era impossível esticar as pernas. Peguei num toalhão e dirigi-me à casa de banho para tomar duche. O cenário era surreal. Uma casa de banho que cabia no elevador do meu prédio em Chelas, um cubículo com sanita e chuveiro, um orifício numa das paredes, de onde entravam melgas enormes enquanto me tentava esfregar com sabão azul, batiam na água e escorriam-me pelo corpo abaixo em direcção ao ralo, para aí desfalecerem sem dó nem piedade. Nunca tomei um banho que me fizesse sentir tão sujo.
Não quis saber de mais nada nesse dia. Procurei o mexicano que me trouxera à alfurja e comuniquei-lhe que só ficaria em troca de um colchão onde pudesse esticar as pernas e descansar, o que me foi prometido para a noite seguinte. A latrina estava sobrelotada, não havia como resolver o meu problema e imediato, se estivesse cansado que fosse até ao bar trocar impressões com os nórdicos sobre filósofos antigos e mitologia grega, os quinhentos estavam pagos e não havia como reavê-los. Cabrão do mexicano, pensei. Voltei-lhe as costas e fui até ao bar. Pedi uma cerveja e perguntei ao índio que geria o estaminé se serviam algo comestível. O tipo olhou-me desconfiado e respondeu três vezes, não fosse eu não perceber à primeira: no snacks, no snacks, no snacks. Paguei a cerveja, peguei num mapa e saí.
A caminho da Praça Victoria fui interpelado por um velho. Queria saber se eu andava perdido, se precisava de um guia. Disse-lhe que precisava de comer. Indicou-me alguns locais no mapa onde seria possível provar o melhor feta de Atenas e beber o melhor ouzo do mundo, a preço de vagabundo e com direito a música tradicional ao vivo. Se eu quisesse, poderia fazer-me companhia. Dispenso, disse-lhe, ao que me apalpou o cu, sorriu e despediu-se com um bye bye beautiful Apollo. Acabei num McDonald’s, julgo que, à época, o único de Atenas, a devorar um Big Mac como se estivesse a banquetear-me em casa de Ágaton. Depois vagueei pelas ruas, sem mapa nem direcção, observando os edifícios decrépitos, uma vasta panóplia de janados, metáfora perfeita de armaduras perdidas e civilizações caídas em desgraça.
A noite no terraço da pensão San Remo foi passada na conversa. Ainda consegui deitar-me sobre uma manta improvisada com caixas de cartão desfeitas, fechar os olhos por breves horas até um sol impiedoso começar a assar-me o corpo. De manhã, mudei-me para um quarto. Haviam providenciado um divã singular junto a duas camas de casal. Iria dividir os aposentos com dois polacos (um ele e uma ela), uma italiana e um norueguês chamado Klaus. Seguiram-se longas caminhadas pelas ruas da cidade, os olhos esbugalhados respigando os pormenores dos confins da Europa, mercados a céu aberto com vísceras atraindo a voracidade das moscas, vermes em acção, iscos por todo o lado aos quais não era difícil resistir dada a precariedade da carteira pessoal.
2000 dracmas para visitar a Akropolis e provar a inexistência dos deuses. Fossem eles reais, nunca aquelas ruínas engessadas teriam acontecido, nunca o teatro de Dionysus se teria transformado num monte de calhaus, numa curiosidade arqueológica onde imaginamos Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, para conforto da memória e desconsolo da realidade. Lá do alto, junto ao Pártenon, a vista sobre a cidade não podia desmentir o desconchego. Uma densa nuvem de poluição caía sobre os edifícios erigidos em torno do centro histórico, era como se estivéssemos ali para comprovar a porcaria em que nos tornámos. As raízes, as origens, transformadas em peças de museu. E nós a visitarmos a nossa própria decadência, pagando para ver como paga para ser açoitado o masoquista.
Nenhum vestígio de Sócrates, nenhum resquício de Platão, nenhum rasto de Aristóteles. Nos jardins de Epicuro regavam-se pedras. Mataram os cínicos, enterraram-nos sob a desmesurada ambição do catolicismo, reduziram a pó e cinzas o gozo da liberdade. Resta-nos o ouzo e o queijo feta, filosofias não dão jeito ao estômago. Não me repetirei com histórias já contadas noutras províncias. Como, a título de exemplo, a de pela noite dentro terem os polacos começado a foder e eu, no meu divã singular, sem saber se partir ou ficar. Acabei por partir e juntar-me ao Klaus no bar de San Remo. Era um tipo simpático, sereno, com quem passei umas boas horas numa esplanada perto, talvez, da Praça Sintagma onde agora os gregos bulham. Depois regressei a Patras para dividir um quarto com dois mexicanos, ambos deitados com as botas calçadas, como nos filmes do Sergio Leone, e sem conversa alguma para cambiar. Enfim, não posso dizer que guarde boas memórias dos mexicanos da Grécia.
OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - H
Não me resigno com o estado a que chegou o meu Sporting. E por muito que me custe, são figuras de outros clubes as únicas que conseguem com clarividência analisar o problema. Esta apatia generalizada, esta normalização da derrota corrói o clube por dentro e paulatinamente atira-o para uma posição secundária no futebol português. Cada vez me convenço mais: o Sporting é gerido por amadores e mentecaptos.
Comunicado: Empresa ataca liberdade de expressão em Blogue dos Precários Inflexíveis
O movimento Precários Inflexíveis foi alvo de uma Providência Cautelar pela empresa Ambição International Marketing. Esta empresa, dizendo-se injuriada por vários comentários (escritos por centenas de pessoas) num post de denúncia, avançou com um processo em tribunal para forçar o movimento a apagar todos os comentários do blogue. Independentemente de serem ou não contra esta empresa, independentemente do que está escrito, a empresa quer que seja apagado cada um dos mais de 350 comentários.
Infelizmente o Tribunal colocou-se do lado da empresa de forma mais do que inesperada: na sentença proferida, condena o PI a retirar não todos, mas muitos dos comentários escritos pelos cidadãos que por vezes nem sequer referem a empresa. Como sempre dissemos, nunca faremos qualquer censura nem julgaremos ninguém pelas suas opiniões. Por isso, discordamos frontalmente da sentença executada.
Apresentamos alguns factos:
- A empresa em causa, Ambição Internacional Marketing, exige que se retirem os comentários sobre um texto que é sobre outra empresa, Axes Market, e não sobre qualquer texto em que fosse citada.
- A Ambição International Marketing, que avançou com o processo, nunca pediu direito de resposta ao PI e nunca dirigiu qualquer carta ou contacto ao movimento.
- Nenhuma das empresas (ou talvez a mesma com nome diferente) avançou com qualquer processo ou queixa contra quem escreveu os comentários. Portanto, o que preocupa a administração da empresa é a liberdade de expressão na internet. O mesmo preocupa o Tribunal.
O resto do comunicado está disponível em "Ler mais".
Sentença disponível aqui.
O movimento Precários Inflexíveis defende e defenderá sempre a liberdade de expressão e a igualdade na exposição de textos e ideias, críticas, ou outras, na internet, salvo excepções sobre textos violentos sob qualquer ponto de vista: físico ou social. A internet deve continuar a ser um espaço de liberdade e igualdade.
O PI vai reagir judicialmente, porque não aceita que o Tribunal e a Justiça sejam instrumentos para afirmar que as empresas podem exigir que os comentários negativos sejam apagados ou que os seus textos e marcas valem mais do que as opiniões e denúncias dos cidadãos. Particularmente quando centenas de pessoas denunciam actividades suspeitas de empresas como esta. A liberdade é a base da democracia, porque, antes de mais, significa igualdade. Lutaremos por elas até ao fim.
Pedimos a divulgação ampla desta luta que diz respeito a todos e a todas – é a luta de quem defende a liberdade e a democracia no espaço público, virtual ou não.
Infelizmente o Tribunal colocou-se do lado da empresa de forma mais do que inesperada: na sentença proferida, condena o PI a retirar não todos, mas muitos dos comentários escritos pelos cidadãos que por vezes nem sequer referem a empresa. Como sempre dissemos, nunca faremos qualquer censura nem julgaremos ninguém pelas suas opiniões. Por isso, discordamos frontalmente da sentença executada.
Apresentamos alguns factos:
- A empresa em causa, Ambição Internacional Marketing, exige que se retirem os comentários sobre um texto que é sobre outra empresa, Axes Market, e não sobre qualquer texto em que fosse citada.
- A Ambição International Marketing, que avançou com o processo, nunca pediu direito de resposta ao PI e nunca dirigiu qualquer carta ou contacto ao movimento.
- Nenhuma das empresas (ou talvez a mesma com nome diferente) avançou com qualquer processo ou queixa contra quem escreveu os comentários. Portanto, o que preocupa a administração da empresa é a liberdade de expressão na internet. O mesmo preocupa o Tribunal.
O resto do comunicado está disponível em "Ler mais".
Sentença disponível aqui.
O movimento Precários Inflexíveis defende e defenderá sempre a liberdade de expressão e a igualdade na exposição de textos e ideias, críticas, ou outras, na internet, salvo excepções sobre textos violentos sob qualquer ponto de vista: físico ou social. A internet deve continuar a ser um espaço de liberdade e igualdade.
O PI vai reagir judicialmente, porque não aceita que o Tribunal e a Justiça sejam instrumentos para afirmar que as empresas podem exigir que os comentários negativos sejam apagados ou que os seus textos e marcas valem mais do que as opiniões e denúncias dos cidadãos. Particularmente quando centenas de pessoas denunciam actividades suspeitas de empresas como esta. A liberdade é a base da democracia, porque, antes de mais, significa igualdade. Lutaremos por elas até ao fim.
Pedimos a divulgação ampla desta luta que diz respeito a todos e a todas – é a luta de quem defende a liberdade e a democracia no espaço público, virtual ou não.
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - G
Tinha sido mágico, absolutamente mágico; porque não podia ser de outro modo, não havia alternativa possível. Seria sempre mágico. Mas depois, logo depois (e tão depressa que tudo passa, quando o tempo está suspenso), deixara de o ser; a magia desvaneceu-se lentamente, dissipara-se, deixando no seu lugar um vazio e uma ausência, uma privação e um incómodo, uma angústia, uma dor; duas solidões. Foi então, que ele perguntou, numa voz quase desconsolada: que se faz após se ter sido completamente feliz? E acrescentou: sim, como se sobrevive à felicidade absoluta?
Ela poderia ter respondido: toma-se banho. Mas, na verdade, não havia resposta possível.
Ela poderia ter respondido: toma-se banho. Mas, na verdade, não havia resposta possível.
TRÊS CONTOS DE DALTON TREVISAN
Dalton Trevisan nasceu em Curitiba a 14 de Junho de 1925. Diplomou-se pela Faculdade de Direito do Paraná. Fundou, na sua cidade, uma das revistas literárias mais importantes da década de 40, Joaquim. Começou a editar os seus contos em folhetos que lembram a literatura de cordel. A partir de 1959, com a publicação das Novelas Nada Exemplares, a sua obra passa a ter repercussão nacional.
BONDE
Solteiro, comerciário, ele se desespera na fila das seis da tarde. Na meia hora de vida roubada por esse bonde, José podia ter feito grandes coisas: beber rum da Jamaica, beijar Mercedes, saquear uma ilha. Pula de um pé no outro, impaciente de assumir o seu posto no mundo, assim que o bonde chegue - o navio fundeia nos verdes olhos.
Não dói o calo no pé esquerdo, nem pesa o guarda-chuva no braço, a um flibusteiro que bebe rum em crânio humano daria o Capitão Kidd desconto de 3% para vendas a vista? Desafia os vagalhões na sua nau Catarineta, eis que um pirata lhe bateu no braço e o herói saltou em terra.
- Seu moço, para onde vai esse bonde?
- Por cem milhões de percevejos fedorentos!
Bom rapaz, não praguejou feito um excomungado lobo-do-mar, e deu a rota de sua fragata. Um moço - vinte anos, puxa! - com a idade do homem de negócios, o guarda-chuva é negra bandeira de tíbias cruzadas. Nesse bonde que ninguém não viu ele quer fugir para o longe, abandonando a donzela de cigarro na boca, triste no cais. A seu lado, o barbudo Zequinha Perna-de-Pau e a pálida filha do Vice-Rei da Ilha das Tartarugas bóiam, náufragos como ele, atirados à praia pela maré. O velho de olhos azuis de contramestre, um pacote de bananas no braço, sorri para ele. Na testa lateja uma espinha, até isso!
Morte aos barões cornudos! Desfralda no crepúsculo o seu grito de guerra. Todo velhote é um canhão de museu, sente gana de afogar o Corsário Mão-de-Gancho que não o deixa se fazer ao mar. Corpo de cavalo-marinho, uma dama igual àquela, triste no cais, sopra inquietos ventos nas velas rotas de seu bergantim. Arrasta as correntes da âncora que enleia a partida: piedade filial, temor a Deus, devoção à pátria.
Em vão vogava em maré de barataria, o bonde que chega abriu a goela de baleia, onde Jonas esperava por ele com um barril de rum.
A consciência de sua idade lhe dói no calo do pé, na espinha da testa, nas vozes de sereias que cantam só para ele. A maruja iça a bujarrona e o velho tropeça no estribo, derrubando o pacote. Sem orgulho ou dignidade, o pirata recolheu as bananas amassadas e subiu, perdido o último banco da popa.
O bonde joga no mar grosso, dele não se pode ver o céu. O contramestre retira uma banana do pacote, é a segunda vez que oferece. De pé, no cesto da gávea, grita o Capitão - "Terra!", os telhados de Ítaca tremulando ao longe.
O CICLISTA
Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba - levanta vôo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte com o trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.
É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné.
Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfano esqueleto. Se não estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e - uma perna mais curta - foge por entre as nuvens, a bicileta no ombro.
Opõe o peito magro ao pára-choque do ônibus. Salta a poça d'água no asfalto. Num só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.
Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.
APELO
Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada - o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhor, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
Todos os contos de "II - Os Mistérios de Curitiba", in Os Desastres do Amor. Rio, Civilização Brasileira, 1968. Respigado na antologia O Conto Brasileiro Contemporâneo, organizada por Alfredo Bosi, Editora Cultrix, São Paulo, 1995.
DALTON TREVISAN
Este ano, o Camões foi para um contista. Fica bem entregue... se ele o receber. Um conto aqui.
Domingo, 20 de Maio de 2012
PORTUGUÊS TÉCNICO
Tanta gente preocupada com o inglês técnico de Sócrates, e basta ver cinco minutos dos Globos de Ouro para percebermos que mais valia preocuparmo-nos com o português técnico dos apresentadores da SIC.
OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - F
É inegável que, tal como diz Vargas Llosa, hoje triunfa o frívolo e o entretenimento, ao mesmo tempo que os intelectuais (como os concebemos no passado) se tornam invisíveis na nossa sociedade, desprovidos de qualquer influência.
Fragmentário (Orhan Pamuk e Mario Vargas Llosa num post sobre ensaios)
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