segunda-feira, 21 de agosto de 2017

VERBO DESOPRIMIR


O que mais lamento nos pormenores da minha vida de que me esqueci é não haver feito um diário das minhas viagens. Nunca pensei tanto, nunca fui tanto eu, se assim ouso exprimir-me, como nas que fiz só e a pé.


Andar tem qualquer coisa que me anima e aviva as ideias: quase não posso pensar quando estou parado; preciso pôr o corpo em movimento para que o espírito o esteja também.


A vista dos campos, a sucessão dos aspectos agradáveis, o bom ar e o bom apetite, a boa saúde que adquiro andando, a liberdade das tascas, o afastamento de tudo quanto me faz sentir a minha dependência, de tudo o que me recorda a minha situação, tudo isto desoprime a minha alma, me dá uma maior audácia de pensar, me lança de certo modo na imensidão dos seres, para os combinar, escolher, fazê-los meus à minha vontade, sem constrangimento e sem temor.


Disponho da natureza inteira como seu senhor; o meu coração, errando de objecto em objecto, une-se, identifica-se com os que lhe agradam, rodeia-se de imagens encantadoras, embriaga-se com sentimentos deliciosos.


Se para os fixar me distraio a descrevê-los para mim mesmo, que vigor de pincelada, que frescura de colorido, que energia de expressão eu lhes não dou!


Dizem que tudo isso se encontra nas minhas obras, embora escritas no declinar dos anos. Oh! se tivessem visto as da minha primeira mocidade, as que fiz durante as minhas viagens, as que compus e nunca escrevi!...


Porque não as escrevo, dizeis vós? E por que hei-de escrevê-las, responderei eu? Por que hei-de roubar a mim próprio o encanto presente do prazer, para dizer aos outros que tive esses prazeres?


Que me importavam os leitores, um público, toda a terra, quando eu planava no céu? Aliás, levava eu acaso comigo papel e penas? Se houvesse pensado em tudo isso, nada me teria ocorrido.


Não previa que viria a ter ideias; estas vêm quando lhes apetece, não é quando me apetece a mim.


Ou não vêm, ou vêm em tropel, e o seu número e a sua força prostram-me.


Dez volumes por dia não chegariam. Onde arranjar tempo para os escrever?


Ao chegar, só pensava em jantar bem. Sentia que um novo paraíso me esperava à porta. Só pensava em ir em sua busca.


Jean-Jacques Rousseau, in Confissões, Volume I, trad. Fernando Lopes Graça, pref. Jorge de Sena, Relógio D'Água, 1988, pp. 166-167.

domingo, 20 de agosto de 2017

UM POEMA DE RUY CINATTI

7

Ao Ruy Leitão

Deixem-no só,
Sozinho,
Ao bebedor de estrelas.

Deixem-no só,
Sozinho,
Entregue à sua loucura,
À sua saúde,
Sem dicionário.

Deixem-no só,
Sozinho,
Neste momento
Em que as estrelas
Se descerram ao mundo.

Deixem-no só,
Sozinho,
Neste momento
Em que as estrelas cintilam.

Neste momento
Em que as estrelas
Proferem
Nos seus lábios
Os mistérios profundos
Que iluminam por toda a eternidade.

Deixem-no só,
Sozinho,
Ao bebedor de estrelas.

Deixem-no só,
Matar-se,
Por um pouco mais de claridade.

Ruy Cinatti, in Obra Poética, Volume I, pref. Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Outubro de 2016, pp. 213-214.

JERRY LEWIS (1926-2017)


BANDA SONORA ESSENCIAL #16


   O maior desafio que o mal nos coloca é sermos bons. Não se trata de responder ao mal recorrendo aos chavões religiosos da outra face oferecida ou da pena de talião, mas sim de oferecer à razão o tempo de um juízo moral ponderado. É cada vez mais tentador responder instantaneamente a todo o tipo de problemas. A alucinante prática do zapping produz os seus efeitos nefastos em campos inimagináveis. Termos roubado ócio à sensibilidade, mais do que à razão, foi um dos maiores erros a serem futuramente atribuídos a esta nova era tecnológica. Não é preciso ser-se pitonisa para o adivinhar.
   Evitando colocar tudo no mesmo saco, como responder às investidas da extrema-direita neonazi nos EUA? Como responder ao fundamentalismo islâmico do Daesh? Como responder até à insanidade dos pirómanos que vêm transformando o Verão de 2017 num dos mais nefastos da história da democracia portuguesa? Talvez seja imaginoso exigir que amemos essa gente, mas não deixa de ser um contra-senso odiá-los como eles odeiam o mundo. E o que essa gente, nos seus respectivos domínios, odeia é, precisamente, o valor maior de qualquer espécie de humanismo: a solidariedade. Mais do que a tolerância, tão facilmente confundível com bananice, ser-se solidário é um bem imenso que devemos à doutrina humanista.
   Cantava há anos o José Mário Branco, «Ser solidário assim pr’além da vida / Por dentro da distância percorrida / Fazer de cada perda uma raiz / E improvavelmente ser feliz». A quadra é de uma inteligência atroz, muito por culpa do advérbio. A felicidade não é uma probabilidade na vida de quem opte pela solidariedade, mas o ódio também não é. E, por consequência, o mal fica arredado. Constrói-se, cria-se, gera-se. Exactamente o oposto da ruína abraçada pelos paranóicos do Apocalipse. Ao contrário do que atabalhoadamente afirmava o actual presidente da mais poderosa nação do mundo, não há dois lados nesta história nem gente boa de um lado e do outro. A boa intenção conciliadora redunda num maniqueísmo insuportável, pois coloca do lado do mal aqueles que são bons, o que será sempre mais grave do que colocar do lado dos bons aqueles que são maus.
   Mas ser solidário como? Com quem? Com os energúmenos do Daesh? Com os neonazis? Com os pirómanos? Obviamente não. Recorrendo mais uma vez ao poema, «Ser solidário sim, por sobre a morte / Que depois dela só o tempo é forte / E a morte nunca o tempo a redime / Mas sim o amor dos homens que se exprime». O amor penetra então as nossas contas, o amor que surge da oferta ao outro, da entrega ao outro, daquele simples abraço que um rapaz muçulmano andou a oferecer em Manchester após os atentados nessa cidade. O terror é uma merda, o ódio que o fundamenta e estruma tem a sua origem nessa incapacidade de abraçar e amar o diferente, de nos apaixonarmos pelo diverso. É sobre estas coisas que José Mário Branco canta no álbum de 1982, sobre estas e outras porventura mais datadas. Mas estas ficarão para sempre, perdurarão no tempo, vencerão a morte e o esquecimento. O ódio não. Ainda que seja inextinguível, ele não vencerá nada. Porque ele é tão-somente morte.


sábado, 19 de agosto de 2017

EPIFANIAS #27

27

   Levemente, sob a pesada noite de Verão, através do silêncio da cidade que transformou sonhos num sono sem sonhos como um amante fatigado a quem nenhuma carícia sensibiliza, o som dos cascos sobre a estrada de Dublin. Não tão levemente agora que se aproximam da ponte; e momentaneamente, enquanto passam as janelas negras, o silêncio é cortado por alarme como que por uma seta. São agora escutados ao longe — cascos que brilham como diamantes entre a noite pesada, apressando-se para lá da cinza, pântanos quietos para o fim da jornada — qual coração — gerando que notícias?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

BACK TO WORK

Tem O Diário da Ana Franca?

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"TÃO VAGABUNDO EU FUI"

Se excluirmos o conto Ossobó, a Obra Poética de Ruy Cinatti iniciou-se em Março de 1941 com a publicação de Nós não Somos deste Mundo. O primeiro verso desse livro é inteiramente definidor da obra subsequente e da biografia que a sustentou. Raramente um primeiro verso terá sido identicamente sintomático de uma obra tão vasta, aparentemente num pretérito perfeito desadequado em livro de estreia. O poema:

1

Tão vagabundo eu fui
Neste campo de flores e silvas;
Aqueles que eu conheci não só vieram
Como se esconderam além de mim.

Em vão procuro arrancá-los,
A eles que por amigo me tomaram.
No sangue, indistintos, já de carne,
A carne do meu espírito formaram.

Agora, eu procuro a extrema-unção.
Mergulho num mar como se vê nos sonhos;
Não existem fantasmas que me salvem
E os outros desconhecem-me a imaginação.

Eis que eu apelo aos que me odeiam,
Dobrando-me a um tormento mais terrível;
Os que me amam, conhecem o mistério
Que torna a minha voz inesquecível.


Ruy Cinatti, in Obra Poética, Volume I, pref. Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Outubro de 2016, p. 55.

SELVAGEM CHIQUE

   Trago das férias uma proposta turística: mudar o nome da Costa Vicentina para Parque Natural dos Selvagens Chique. Com a proliferação de escolas de surf a desafiarem a nossa inteligência, tornou-se quase impossível entrar no mar para um simples mergulho sem dar pelo menos três porradas em pranchas desse desporto que, julgava eu, se praticava com ondas. Vistos do alto da falésia, os tipos com a indumentária neopreno parecem melgas a boiar em águas mortas. Encontrarem ondas surfáveis em algumas daquelas praias será tão provável como virem a ganhar o Euromilhões. O mais que poderão almejar é uma fotografia ridícula para partilharem no Instagram, enquanto mães, namoradas, tias, primos, ocupam o que sobra de areal com as objectivas e os telemóveis e os tablets apontados para o mar.
   No intervalo das águas mortas, havendo café por perto, pagam-se 7€ por uma caipirinha ou 4€ por um café e uma água ou 2€ por uma mini enquanto o tipo das bolas de Berlim percorre a costa com longos pregões: olha a Bola de Berlim com creme, sem creme, de alfarroba, com Nutella ou chocolate. Perguntei a um se tinha pagamento por multibanco, respondeu-me que não. Mas sugeriu-me a adesão ao cartão de cliente. À décima bola, teria direito a uma bolacha americana. Com Multibanco só me safei na miúda dos tererés e das pulseiras com conchinhas, uma neo-hippie com unhas de gel onde sorridentes rostos de panda olhavam para mim como se me quisessem devorar.
   Começa a ser raro e difícil encontrar praias por aqueles lugares, praias sem banhistas, apenas com tipos e tipas que apreciem mar, rocha, areia e mordidelas de mosquito, que não careçam de raquetes nem de futebóis nem se armem ao pingarelho com pranchas enterradas na areia. Praias que admitam caniches e outras espécies caninas desde que devidamente vacinadas. Com a paisagem neste estado, como pode depois alguém aguentar pacientemente quatro horas para ser atendido num restaurante tão barulhento que mais parece uma tasca na Feira de Agricultura de Santarém?
   Este novo conceito de Selvagem Chique, já instalado, mas indevidamente explorado, aguarda certos desenvolvimentos. Algumas ideias: tendas de campismo com ar condicionado; carrinhas pães de forma com acesso ilimitado a Internet e plasma que permita assistir condignamente a tudo o que é série no Netflix; venda de cerveja em mochila nas praias; acrescentar a opção Donuts às Bolas de Berlim, assim como pacotinhos de bolachas Oreo (as crianças estão cada vez mais exigentes na sua dieta alimentar); espalhar mosquiteiros pelos areais e colunas de som nas arribas, oferecendo aos banhistas o conforto de uma piscina de Hotel cinco estrelas; aditar às tendas de massagem tailandesa, ou coisa que se pareça, áreas de jacuzzi com banheiras de hidromassagem; nas praias pouco areadas, pavimentar com piso flutuante para que os seixos não magoem pezinhos lanudos.
   Há todo um conjunto variado de alternativas que poderão cativar um turismo cada vez mais exigente. Recordemos que os freaks há muito deixaram de ser meros freaks, com a evolução dos tempos foram promovidos a freaks burgueses habituados a todo um estilo de vida muito mais sofisticado. A Natureza é bela até fazer a terra tremer ou, vá lá, até nos picar com ferrões de abelhas. A este propósito, muito importante rever o conceito de trilhos assinalados para percursos pedestres. Não se admite que nos tempos que correm estes trilhos não sejam devidamente acompanhados de áreas de serviço, pelo menos, de 300 em 300 metros. Os terrenos pouco ou nada debastados também não ajudam, sendo a proliferação de vegetação um factor claramente dissuasor da caminhada.
   Por fim, é absolutamente fulcral que a política de arrendamento nestas zonas seja revista. Não se admite a continuada e reiterada propaganda de montes e alvéolos onde proliferam aranhiços, moscas e vacarias nas proximidades. Para não falar de grilos ensurdecedores e de formigas assassinas. Casas sem refrigeração central em pleno Verão são um insulto ao turismo selvagem chique em pleno século XXI, ainda para mais tendo em conta as dificuldades de acesso a Internet que obrigam as pessoas a falar umas com as outras quando poderiam distrair-se a actualizar perfis de Facebook. O Selvagem Chique é um novo turista exigente nos seus propósitos e qualificado nas suas atitudes, obriga a uma oferta sofisticada e atenta. Não podemos perder tamanha oportunidade para a economia nacional. Demos os primeiros passos na direcção de um objectivo para o qual ainda nos falta uma longa caminhada. Tenhamos ânimo, ergamos os pareos. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

FALA MALTE LAURIDS BRIGGE

   Quando se fala dos homens solitários, pressupõe-se sempre demasiado. Pensa-se que as pessoas sabem de que se trata. Não, não sabem. Nunca viram um homem solitário, apenas o detestaram, sem o conhecer. Foram os seus vizinhos que o consumiram, e as vozes do quarto ao lado que o tentaram. Excitaram as coisas contra ele, para que fizessem barulho e o abafassem. As crianças juntaram-se contra ele, por ele ser delicado e criança, e a cada momento do seu crescimento crescia contra os adultos. Eles seguiam o seu rasto até ao seu esconderijo como um animal que se pode caçar e a sua longa juventude não teve época de defeso. E quando não se deixava ficar exausto e escapava, eles gritavam sobre o que dele procedia e diziam que era feio e lançavam  suspeitas sobre ele. E quando não lhes dava ouvidos, tornavam-se mais óbvios e devoravam-lhe o alimento e respiravam-lhe o ar e cuspiam na sua pobreza, para que ela se lhe tornasse repugnante. Difamavam-no como se fosse contagioso e atiravam-lhe pedras, para que se afastasse mais depressa. E tinham razão no seu instinto antigo, pois ele era verdadeiramente o seu inimigo.
   Mas quando ele não levantava os olhos, reflectiam. Pressentiam que com tudo isso só lhe faziam a vontade; que o fortaleciam no seu estar só, e o ajudavam a desligar-se deles para sempre. E então mudavam de táctica e lançavam mão a um último recurso, o mais extremo, a outra resistência: a fama. E com esta ruidosa agitação quase todos levantavam os olhos e se distraíam

Rainer Maria Rilke, in As Anotações de Malte Laurdis Brigge, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Relógio D'Água, Dezembro de 2003, pp. 173-174.

SAM SHEPARD (1943-2017)


Sam Shepard marcou-me, sobretudo, como autor de Crónicas Americanas, um livro por cá publicado pela extinta Difel. Citei-o aqui
Foi um excelente actor. Dei por ele a primeira vez em Days of Heaven (1978), de Terence Malick. A última, foi em O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford (2007), belíssimo western de Andrew Dominik. 
Assinou vários argumentos para filmes, entre os quais o de Paris, Texas (1984), de Wim Wenders. 
Citei-o aqui, há coisa de sete anos, a propósito de matéria essencial. 
Em 2008, publiquei na revista Big Ode um conjunto de estórias a que dei o título de Crónicas Europeias. Não faltou a epígrafe de Sam Shepard. 
É mais uma referência que desaparece. Tem sido assim nos últimos anos, suponho que deva ser assim nos próximos. Atravessando o Paraíso é um título pertinente, dadas as circunstâncias:

CONTIGO NÃO HÁ DISTÂNCIA

   Não consigo lembrar-me como é que era antes de te conhecer. Eu era sempre assim? Lembro-me de mim perdido. Quanto a isso nenhuma dúvida. Deambulando. De nada em nada. De alucinada em alucinada. Permanecendo, por vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que o desnorte delas era mais pronunciado do que o meu. Pelo menos é assim que elas me aparecem. Mas não me lembro de estar assim nervoso como estou agora; assim em frangalhos. Observava-as muito de longe, muito à distância: pedradas, ensaiando banhos de esponja nos seus lavatórios; aparando bolas pretas de haxixe com lâminas de barbear; movendo-se como rainhas em câmara lenta. Depois, transformavam-se em raparigas em quintais de já lá vai muito tempo, desfazendo-se em risinhos e aninhando as longas pernas debaixo do aconchego dos seus corpos: a maneira como se afundavam sobre os seus macios calcanhares e depois meneavam muito o cabelo como cavalos sacudindo as caudas.
   Mas contigo não há distância. Todos os movimentos que fazes, sinto-os como se viajasse na tua pele; as tuas espreitadelas da janela, como se tu estivesses completamente sozinha e sonhando num outro tempo qualquer. De nada me serve dar aos braços a dizer adeus. Agora, está tudo ao contrário.

15/5/95 (SCOTTSVILLE, VIRGINIA)


Sam Shepard, in Atravessando o Paraíso, trad. José Vieira de Lima, Difel, Fevereiro de 1997, p. 85.

CASTIGO DO SENHOR?

Avião atropela banhistas, árvore mata peregrinos, fogos nunca vistos dizimam país ceifando dezenas de vidas. Tudo no ano em que o embuste de Fátima celebrou um centenário com a visita oficial do Papa. 

DUAS SEMANAS

Uma certeza: não senti falta do mundo.

sábado, 29 de julho de 2017

ARROW IN THE DUST (1954)

Exactamente no mesmo ano em que deu corpo a Johnny ‘Guitar’ Logan, naquele que é para muitos o melhor western de todos os tempos, o actor Sterling Hayden foi protagonista num filme de Lesley Selander (n. 1900 – m. 1979) intitulado Arrow in the Dust/A Coragem de Um Desertor (1954). Bart Laish é o desertor da cavalaria que irá fazer-se passar pelo Major Andy Pepperis, com o qual mantinha velhas afinidades, na missão de escoltar uma caravana de emigrantes do Oregon a caminho de porto seguro no Velho Oeste. Em 1954, Selander contava com inúmeros westerns no currículo. Estreara-se dezoito anos antes com dois filmes do género, dando visibilidade, nos primeiros tempos, ao lendário actor Buck Jones, uma das maiores estrelas do western de série B. The Lone Ranger foi uma das figuras icónicas que ajudou a erguer.
Arrow in the Dust é, como muitos dos seus filmes, rápido e repleto de cenas de acção, com diversas sequências de tiroteio e de perseguições. Os efeitos são algo incipientes, embora absolutamente secundarizados pela preocupação de contar uma história com subtilezas que podem passar despercebidas. Tal como o título original indica, e o título português ignora, este filme deve ser visto a partir da perspectiva dos índios. A figura do desertor herói é já por si fortemente polémica, mais ainda por Sterling Hayden não lhe oferecer problemas de consciência. A decisão de fazer-se passar por um Major assassinado mistura oportunismo individualista com uma vontade algo ligeira de fazer qualquer coisa de moralmente aceitável. A flecha cravada na poeira é também um símbolo dessa união, assim como o é da união de duas tribos rivais contra a cavalaria.
A primeira vez que vemos um índio neste filme é logo na sequência inicial, quando Bart Laish entra numa taberna para beber um uísque enquanto foge de um grupo de soldados que o tenta capturar. O índio está de costas, dentro da taberna, a observar um par de botifarras. Não lhe vemos o rosto, sabemos que é índio pelas vestes e pela pena no cabelo. Há ainda dois jogadores numa mesa e uma criança que se aproxima de Bart Laish para pedir esmola. Este pergunta-lhe se é órfão, ao que a criança responde afirmativamente. Dá-lhe uma moeda e deseja-lhe sorte. Logo de seguida a criança avisa-o da aproximação dos soldados e Laish parte, mais uma vez, em fuga. Qual o papel daquele índio que vemos pela primeira vez de costas? Terá alguma relevância nesta sequência inicial?
Logo de seguida, iremos encontrar índios mortos, tombados em combate na sequência de emboscadas sucessivas, vamos encontrá-los prontos para a guerra, organizando-se com flechas e machados contra as armas de fogo da cavalaria. Rasacura é o chefe dos Pawnees, aqui aliados com uma tribo Apache, protagonista sem falas e apenas uma efémera aparição. Os índios não falam neste filme, limitam-se a atacar com comportamentos que obrigam os seus adversários a questionarem-se sobre o porquê daquelas inusitadas acções de guerra. Bart Laish será uma espécie de intérprete neste conflito, fragilizado pelo embuste que é a sua situação particular e que o obriga a relações de confiança com Crowshaw — o batedor que sabe não ser Laish o Major Andy Pepperis, mas que ainda assim aposta não o denunciar. Por que ataca Rasacura esta caravana quando deixou passar todas as outras? O que tem esta caravana de especial? Por que se dirigem especialmente nos seus ataques a uma das carruagens? Perceberemos tudo isso no final.

O interesse de Arrow in the Dust está no jogo hermenêutico exercido entre as duas partes do conflito e na relação de confiança mantida entre Crowshaw e Laish. Tal como o índio que no início observava um par de botas ocidental, Bart Laish observa os índios e tenta compreendê-los. Percebe que a guerra deles não é uma guerra pelo poder, é antes uma guerra pelo equilíbrio de poderes. Eles não pretendem arrasar o inimigo, pretendem não ficar à mercê do inimigo. A luta dos índios neste filme é, tal como a luta interior de Bart Laish, uma luta pela liberdade e pela autonomia. Daí que seja justo considerar o desertor Sterling Hayden como o único índio a quem Lesley Selander ofereceu falas nesta narrativa. Não podemos deixar de lhe gabar a ousadia, que à época não era assim tão indiferente quanto isso. Estávamos no auge do McCarthyism, política de perseguição que teve no actor Sterling Hayden uma das suas mais famosas vítimas. Acabou por confessar ligações ao comunismo delatando colegas de trabalho. O arrependimento não sanou as feridas.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

COMPANHEIROS DE FÉRIAS...





...não desespereis. Em breve, daremos um forte abraço.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

NO VERÃO, POR ESTA ALTURA


A VELHA CANÇÃO

Ela chega normalmente às três da manhã,
nem sequer sei se dorme de costas, talvez
enterre a cabeça na almofada, não sei. No Verão,
por esta altura, os pássaros gritam, os homens
transportam em silêncio as canas de pesca e vão para
o rio. Agora os pombos preguiçam mais,
os limpa-neves rangem para aterrorizar,
depois alguns carros moem a lama escura.
Por fim, o pequeno-almoço à luz da lâmpada,
ela deve estar a acordar. Saímos,
ajudo-a a vestir o casaco.

Marcin Sendecki (n. Gdansk, Polónia, 27 de Novembro de 1967), in Parcelas, tradução colectiva (Mateus, Setembro de 1999) revista, completada e apresentada por Rosa Alice Branco, Quetzal Editores, 2001, p. 39.

SUPORTAR

   Chegam com os filhos às costas como se carregassem fardos, vêm da praia nublada para o inferno do consumismo, deixam para trás o mar, o sossego, metem-se neste sufoco como quem procura o que dizer por cima do silêncio, porque na tenda, uns de frente para os outros, são incapazes de dizer o que quer que seja, não há uma palavra, um jogo, nada que mate o tédio de ter que suportar os fardos.
   O mau tempo tem o rosto dos banhistas frustrados. Cinzentos, vários tons de cinzento.
   Somos as vítimas destas raivas recalcadas, a frustração é descarregada sobre nós como se fôssemos responsáveis pelos males do mundo, como se fôssemos responsáveis por uma infelicidade que é esta de ter que viver sem saber onde pôr as mãos.
   Reconheço a paciência esgotada, o meu fardo é encontrá-la, descobri-la, inventá-la, para que seja possível continuar a dizer: 
                                                        não suporto mais isto.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #15


   A Sofia era muito alta, jogava na selecção nacional de basquetebol. Juniores? Juvenis? Frequentaríamos, se bem me lembro, o 11.º ano. Ou seria o 10.º? A Sofia era do Porto, estava deslocada em Rio Maior por causa de um estágio relacionado com desporto. Sentou-se a meu lado numa aula qualquer, não me recordo qual. Mas nunca mais me esqueci da BASF que me gravou com temas dos Joy Division, uma banda inglesa, de Manchester, com um vocalista que era poeta e se suicidara em 1980.
   A música dos Joy Division era urbana, tinha pouco ou nada que ver com os bucolismos que fascinavam rapazes do campo como eu. Ou com o imediatismo dos punks rurais à época ajuntados por detrás dos pavilhões da escola a fumar os primeiros charros. A Sofia era do Porto, caíra ali de pára-quedas. Eu era só um rapaz que ouvia Dire Straits, um filho da burguesia semi-rural. Ao ouvir os Joy Division cheirei pela primeira vez o dióxido de carbono das grandes cidades, percebi o silêncio escondido por detrás do ruído, fiquei com alcatrão colado à sola dos sapatos.
   Li muito sobre os Joy Division, reli vezes sem conta as letras, os poemas, do tal Ian Curtis, não evitei as lágrimas quando em 2007 vi Control, filme de Anton Corbijn que é muito mais do que um “bio picture”, é um dos raros momentos em que o cinema prestou justa homenagem à música Pop. Se o Miguel Esteves Cardoso escreveu que os Joy Division foram o maior conjunto Pop de todos os tempos, quem sou eu para dizer o contrário? Mesmo que, entretanto, o termo Pop tenha adquirido significados algo espúrios, quem sou eu para desmentir o autor de Escrítica Pop?
   Nesta caixa, sob o título Heart and Soul (1998), coligiu-se praticamente todo o legado dos Joy Division, uma banda formada em 1976, quando o punk rock agitava a juventude perdida das grandes capitais europeias (Lisboa ainda não era uma delas), mas que transcendia musical e liricamente a raiva inconsequente dos punks. Porque ofereceu à raiva uma tristeza, uma desolação e uma dor que patenteiam, ao longo dos quatro CDs aqui reunidos, a essência trágica desse “lugar da música” que é Joy Division. 

COMPANHEIROS DE FÉRIAS...





...não desespereis. Em breve, daremos um forte abraço.

NECROFILIA

Um ou cem, estão mortos. Trazê-los para a praça pública como se fossem matéria de discussão política… é nojento. Ou será um inesperado surto de necrofilia? Ficamos a perceber de onde vem a porcaria, embora não esteja explícito o porquê de tanto alarde em torno da mesma. Serão moscas? Moscas nos partidos, moscas na imprensa? Serão abutres? Hienas? Varejeiras e escaravelhos, bichos que adoram chafurdar na porcaria. 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

EPIFANIAS #26

26

  Ela está comprometida. Dança com eles no salão — o vestido branco levanta-se levemente enquanto ela dança, um ramo branco no cabelo; olhos ligeiramente desviados, um ténue brilho na bochecha. A sua mão na minha por um instante, a mais suave das mercadorias.
— Você raramente vem aqui agora. —
— Sim, estou a tornar-me numa espécie de recluso. —
— Vi o seu irmão há dias . . . . . . Ele é
     muito parecido consigo. —
— A sério? —
   Ela dança com eles no salão— calmamente, discretamente, não se entregando a ninguém. O ramo branco amarrota-se enquanto ela dança, e quando ela fica na sombra o brilho é ainda mais fundo na sua bochecha.


James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

DOIS LIVROS DE SIMONE WEIL



   Entre toda a quinquilharia que tem vindo a lume arrastada pelo centenário da Revolução Russa de 1917, dois livros de Simone Weil (n. 1909 – m. 1943), publicados quase em simultâneo, atraem-nos o foco para o essencial, até pela crítica da União Soviética concebida numa fase de terríveis conflitos internacionais que apelariam mais a sentimentos de simpatia pela Revolução do que de antipatia. Sucede que no pensamento de Simone Weil tais sentimentos foram ultrapassados pelo exercício de uma reflexão crítica autónoma e, acima de tudo, expurgada de qualquer engajamento colectivo. De origem judaica, próxima do comunismo antiestalinista, militou no movimento anarquista, chegando a alistar-se numa milícia da Coluna Durruti no decorrer da Guerra Civil Espanhola. No entanto, se o sindicalismo revolucionário exerceu forte influência nos seus escritos de filosofia política, menos influência não terá exercido um Cristianismo de tipo místico de que se aproximou sem nunca chegar a converter-se.
   No prefácio a Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos (Antígona, Julho de 2017), texto breve redigido numa fase final da vida, pela primeira vez publicado na revista La Table Ronde (Fevereiro de 1950), Júlio Henriques sublinha o modo como a tradição anarquista e as ordens monásticas inspiram, nesse texto, uma negação dos partidos como forças do bem. Tais fontes concorrem na obra de Weil para uma concepção do mundo algo pessimista que situa a existência humana numa experiência do sofrimento e da humilhação. Esta concepção é deveras evidente nas Reflexões Sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social (Antígona, Junho de 2017), iniciadas com uma crítica do marxismo da qual resulta um completo esvaziamento da palavra revolução: «A palavra revolução é palavra em nome da qual se mata, pela qual se morre, pela qual se enviam para a morte as massas populares, mas que não possui qualquer conteúdo» (p. 33). A prová-lo, para a autora, está a «Revolução Russa, que, após haver efectivamente conseguido fazer desaparecer uma certa forma de opressão, assistiu impotentemente à instalação duma nova opressão» (p. 35).
   Contextualizando, a dúvida reside em saber como pode o homem libertar-se da opressão exercida pelo mundo do trabalho. Como pode o homem ser livre? O problema da liberdade é aqui o tema essencial, na sua articulação com as exigências do trabalho e com os factores de servidão que limitam o ser humano pela força não de necessidades individuais, mas de lutas pelo poder no seio das colectividades a que cada indivíduo pertence. O passo que demos de uma economia primitiva para uma economia sofisticada foi o mesmo que nos levou do bem-estar proporcionado pela satisfação das necessidades básicas ao culto do supérfluo, estimulado por uma luta pelo poder, eufemisticamente apelidada de concorrência, que, em vez de emancipar, humilha e oprime. «A Revolução Russa, graças a um singular conjunto de circunstâncias, parecia, na verdade, trazer consigo algo de inteiramente novo; os privilégios que veio suprimir não possuíam já, porém, qualquer base social, com excepção da tradição; e as forças reais, a saber, a grande indústria, a polícia, o exército e a burocracia, longe de haverem sido destruídas pela revolução, atingiram, graças a ela, um poder desconhecido nos outros países» (p. 64).
   Traçado o diagnóstico, exige-se um Quadro Teórico Duma Sociedade Livre. Simone Weil assume os contornos utópicos do seu quadro, transportando-nos para uma hipótese de mundo onde os conceitos de “liberdade perfeita” e de “liberdade autêntica” contrastam com a realidade imperfeita e de aparências a que vamos submetendo paulatinamente as nossas vidas. À sua dimensão, este livro ocupa-se dos pilares sobre os quais pode ser erigida uma sociedade perfeita, isto é, de homens livres. Platão chamou-lhe República, Tomás Moro deu-lhe o nome de Utopia. É ainda no campo do idealismo e do utopismo que se colocam estas questões, apesar de estarmos perante uma autora a quem é impossível negar falta de coerência entre pensamento e acção. Para compreender as angústias dos operários, ela não se limitou a contemplá-los à distância. Trabalhou, ela própria, como operária. E foi dessa experiência que trouxe a sua imagem do “operário qualificado”, ser de uma civilização para a qual ainda olhamos como o burro olha para o palácio. Dotado de pensamento esclarecido e de reflexão metódica, este trabalhador é o princípio base de uma sociedade constituída por homens livres e fraternos. Não estaremos ainda aqui no domínio de um ideal de "homem novo" deveras estranho ao mundo em que vivemos?
   Talvez para essa estranheza concorra uma organização social baseada na chamada democracia representativa, a qual apenas promove os partidos políticos enquanto máquinas de estupidificação do indivíduo. Na simplicidade da Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos vislumbramos, antes de mais, uma inigualável fé no pensamento enquanto princípio libertador e emancipador do ser humano. Ora, na opinião da autora de L’Enracinement, o carácter dos partidos opõe-se na sua génese ao pensamento livre: «Um partido político é uma máquina de fabricar a paixão colectiva. // Um partido político é uma organização construída de maneira a exercer uma pressão colectiva no pensamento de cada um dos seres humanos que dele fazem parte. // A finalidade principal, e, em última análise, a única finalidade de qualquer partido político, é o seu próprio crescimento, e isto sem nenhum limite» (pp. 36-37) Estávamos na época dos totalitarismos, os sistemas de partido único aniquilavam a possibilidade de debate, mas a rigidez interna dos próprios partidos impunha aos seus membros uma concordância acrítica intolerável numa sociedade livre. Weil afirma que o mecanismo de opressão típico dos partidos foi introduzido pela Igreja Católica, comparando-os a pequenas igrejas armadas «com a ameaça de excomunhão» (p. 59). O que fica por explicar é o lugar da proibição numa sociedade livre. As proibições a que o texto alude são conciliáveis com a liberdade reconhecida aos indivíduos para se organizarem como bem entendem? À supressão dos partidos políticos não corresponderia uma diminuição do interesse individual pela vida colectiva? E, em consequência, uma diminuição do debate de ideias? Estaria melhor o mundo quando os partidos políticos não existiam? Ou quando, em momentos históricos situados, foram, lá está, proibidos? 

ESPÍRITO CEGO


   Temos de reconhecer que o espírito cego de partido nos torna surdos à justiça e chega a levar pessoas honestas à mais cruel obstinação contra inocentes. Temos de o reconhecer, mas ninguém pensa em suprimir os organismos que produzem semelhante espírito.
   E, no entanto, os estupefacientes são proibidos. 
   Existem, todavia, pessoas que se abandonam aos estupefacientes. Mas haveria ainda mais se o Estado organizasse a venda de ópio e de cocaína em todas as tabacarias, com cartazes publicitários para encorajar os consumidores.
   Tira-se daqui a conclusão de que a instituição dos partidos parece bem constituir um mal quase sem mistura. São maus nos seus princípios, e maus nos seus efeitos práticos.
   A supressão dos partidos seria um bem quase puro. É eminentemente legítima em princípio e apenas parece susceptível de trazer, na prática, bons efeitos.


Simone Weil, in Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos, trad. Manuel de Freitas, pref. Júlio Henriques, Antígona, Julho de 2017, pp. 61-62.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

PARCERIAS


Vinícius de Moraes fazia milagres com aquela barriguinha.

*

Tom fazia milagres com a barriguinha do Vinícius.


Tó Carlos, in Frases Namoradeiras, Tea For One, 2015, pp. 13-14.

ERNST LUDWIG KIRCHNER


Nasceu no dia 6 de Maio de 1880, em Aschaffenburg, Alemanha. Estudou arquitectura em Dresden e pintura em Munique. Seduzido pelo Neo-Impressionismo, juntou-se a Fritz Bleyl, Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff na fundação da associação Die Brücke. Mudaram-se de Dresden para Berlim em 1911, consolidando um movimento de renúncia às convenções em benefício de uma maior subjectividade.



O advento do denominado Expressionismo Alemão, nomeadamente da Alemanha do Norte, ficou assim associado ao Die Brücke, extinto aquando do início da I Grande Guerra. Kirchner alistou-se como voluntário, sendo dispensado do exército devido à sua precária condição de saúde. Os nervos eram frágeis.




Mais frágeis ficaram quando os nazis purificaram os museus afastando tudo o que manifestasse resquícios de modernismo. Os quadros de Kirchner passaram a figurar na lista dos degenerados, o pintor na lista dos "maluquinhos". Expulso da Academia das Artes da Prússia, colapsou. Suicidou-se a 15 de Junho de 1938. 


(clique nas imagens para ver melhor)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RACISMO EM PORTUGAL

   De quando em vez vem à baila o tema do racismo. Será Portugal um país racista? Mas que raio de dúvida! Claro que é. Quem souber de um país que tenha sido colonizador e não seja racista, atire a primeira pedra. Mas o que é um país racista? A segregação racial, que até há muito pouco tempo era uma realidade portuguesa, desapareceu (a social ainda é). Nos Estados Unidos da América, esse país da Estátua da Liberdade, foi lei. Bob Dylan canta sobre o assunto. Fizemos fortuna no tráfico de escravos, ora. Isso passou? Mais ou menos. As leis domesticaram-nos a maldade, fomos obrigados a baixar a bolinha. Portugueses emigrados em países como a Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Polónia, queixam-se do racismo desses países. Ainda há tempos, um tipo que conheço de uma transportadora tentou fazer vida no Luxemburgo. Veio de lá a bufar cobras e lagartos contra o racismo dos cabrões. De novo instalado ao volante do seu TIR, sente-se à vontade para dizer que não gosta de pretos. Só de pretas. E ri. Ciganos, nem vê-los. Nem ciganas. 
   Não sei se quem por aqui passa estará recordado deste post sobre um cigano que andava à procura de trabalho e foi baleado por um agente da PSP: «Foi alvejado por um agente da PSP que depois de o atingir na cara, levando-lhe parte da dentadura, rematou o gesto com a seguinte sentença: “Tenho um ódio aos ciganos, e à vossa raça, que se pudesse matava-os a todos”. O Tribunal de Beja condenou o agente com uma pena suspensa de um ano e três meses de prisão». Pena suspensa, como no caso dos trafulhas da Universidade Independente. Os ciganos são vítimas especiais do nosso racismo, do nosso e do resto do mundo. Vivem lá na deles e a malta não gosta, quer os ciganos civilizados. Como quis os índios até dar cabo deles. Sim, claro que somos racistas. Até porque somos do mais parvo que possa haver. Homo Sacer e os Ciganos, de Roswitha Scholz, seria leitura recomendável por estes dias. 
   Infelizmente, não tenho amigos do peito que sejam pretos. Nem ciganos. Só conhecidos e vizinhos. Gostava de ter amigos pretos e amigos ciganos para poder dizer que não sou racista, assim como um gajo que é amigo de paneleiros diz que não é homofóbico. Dá sempre jeito ter amigos das minorias por perto, para credibilizarem uma pessoa. O mais que tive foi one-night stand com uma mulata. E toda a vida vivi junto de ciganos. Brinquei na infância com ciganos, cresci a ver o meu pai fazer negócio com ciganos (vendia-lhes monos que eles depois revendiam nas feiras), moro junto a um bairro que é por aqui conhecido como Bairro dos Ciganos. Infelizmente, nunca tive problemas. Gostava de ter tido, para poder despejar o meu ódio nessas raças imundas. Mas nunca tive. Como é que Camões de referia aos indianos? 
   As únicas vezes que fui assaltado foi por gajos brancos, um deles até bastante loiro. Foi no Bairro Alto. Comprei droga algumas vezes, mas sempre a filhos de boas famílias. Alguns com negócios abertos insuspeitos numa sociedade que acolhe sempre bem os seus filhos mais produtivos. Tenho tido azar na vida, sempre que sou enganado, ludibriado, roubado, sempre que me vão ao bolso, sempre que fui traído, foi por tipos decentes. Alguns até bastante católicos. Pelo menos fizeram o crisma e vão à missa. Num país com tantos trafulhas à solta, não deixa de ser admirável que as pessoas continuem a destilar os seu ódios sobre minorias. Há razões objectivas para que assim seja, claro. Desde logo, serem minorias. Depois, no caso dos ciganos, são quase por regra uma minoria desprotegida pela baixa escolaridade. Um burro adora dar coices noutro burro. Um tipo com o 12.º sente-se um doutor ou um engenheiro quando dispara contra "a ciganagem que mal sabe ler e escrever". Esta altivez dos burgessos é coisa muito nossa, da qual não nos livraremos assim tão facilmente. 
   Os meus amigos sabem que se há tema que me leva aos arames é o do racismo, sobretudo contra ciganos. Estes estão em todos os meus livros por razões de afecto e de admiração que não cabe aqui esclarecer. Prefiro partilhar um conto que publiquei num pequeno volume intitulado Call Center (Companhia das Ilhas, Junho de 2014), na esperança de que possam encomendá-lo (é mentira, já não tenho esperança alguma):

ÁRABE

   Um árabe foi assassinado no meu bairro. Alguém desconfiou dos ciganos. Sempre que algo inusitado acontece no meu bairro, alguém desconfia dos ciganos. E sempre que alguém desconfia dos ciganos, todas as suspeitas recaem sobre os ciganos. Sucede que o árabe assassinado era cigano. Na perspectiva dos ciganos, este pormenor excluía-os do grupo dos principais suspeitos. Por outro lado, na perspectiva dos restantes moradores, era precisamente este pormenor que mais contribuía para a desconfiança recaída sobre os ciganos. Toda a gente sabe de variadíssimas histórias de retaliações familiares entre a comunidade cigana, diziam os restantes moradores. Histórias que não são um atributo exclusivo desta etnia mas nela se revelam muito mais frequentes, explicavam os especialistas. À excepção dos guineenses, rematavam os restantes moradores.
   No decorrer das investigações, foi claro que as suspeitas dos investigadores se inclinavam para a versão dos restantes moradores. Curiosamente, um desses moradores era guineense. Precisamente o mesmo que reparou no facto do detective responsável pela investigação ser, ele próprio, de etnia cigana. Isto gerou algum burburinho junto da comunidade. Se por um lado não podiam os ciganos queixar-se de discriminação racial, por outro lado também não podiam os restantes moradores garantir a imparcialidade nas investigações.
   As pessoas começaram a discutir a pertinência daquela opção. Gerou-se um grande debate nacional em torno do tema, com entrevistas para as televisões, artigos de opinião publicados nos jornais, pareceres em linha aberta nas rádios de todo o páis, programas em directo com vários convidados. Foram criadas associações de defesa de diversos pontos de vista, conforme estes fossem a favor ou contra o que quer que fosse na questão em debate, inclusivamente a existência de pontos de vista. O tema, que ficou por encontrar a luz amena de uma solução, ainda hoje é motivo de inflamadas discussões.
   Quanto ao árabe assassinado no meu bairro, posso garantir que era de etnia cigana. E que foi assassinado no meu bairro.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Call Center, com ilustração de Bárbara Fonseca, Junho de 2014, pp. 17-18.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

ONTEM LÁ EM BAIXO NO CANAL


Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)


Frank O'Hara (n. 27 de Junho de 1926, Baltimore, USA - m. 25 de Julho de 1966, Fire Island, Nova Iorque, USA), in Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço, trad. José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Março de 1995, p. 95.

LEI DA ROLHA

Metam a rolha no cu, talvez façam menos merda. Pardon my French.

MESES OU ANOS OU DÉCADAS

O desfecho da comissão parlamentar de inquérito à CGD gerou um episódio que começa por ser inacreditável, e que acabará por ser carimbado como burlesco ou trágico. Inacreditável porque não se acredita que o PS fosse para a votação do relatório – ainda por cima, e antes de tudo, dadas as questões em causa e sua notoriedade – sem saber onde estavam os deputados envolvidos, suplente incluído. Burlesco se a causa tiver sido a incompetência do grupo parlamentar. Trágico se tivermos assistido a uma encenação dos socialistas para obterem exactamente este resultado, o chumbo do relatório. Para clarificar esta última hipótese teremos de esperar pela conclusão das investigações judiciais à Caixa, algo que pode demorar meses ou anos.


Valupi, aqui.

Hhmmmmmm


Por causa de umas borlas para ir ver a bola? 
(o indicador dá voltas na ponta do nariz)

terça-feira, 18 de julho de 2017

MORALISTAS VULGARES


Os moralistas vulgares queixam-se de que o homem apenas é movido pelo interesse pessoal; prouvera que assim fosse! O interesse é um princípio de acção egoísta, mas limitado, razoável, do qual não podem advir males ilimitados. A lei de todas as actividades que dominam a existência social é, pelo contrário, e excepção feita às sociedades primitivas, que cada um nela sacrifica a vida humana, sua e alheia, por coisas que apenas constituem meios para viver melhor. Tal sacrifício reveste diversas formas, mas tudo se resume na questão do poder. O poder constitui, por definição, apenas um meio; ou melhor, possuir uma forma de poder consiste simplesmente em possuir meios de acção que ultrapassam a força restrita de que um indivíduo isolado pode dispor. A busca do poder, porém, exactamente porque lhe é impossível atingir o seu objectivo, exclui toda a consideração de finalidade e acaba por, numa inevitável alienação, ocupar o lugar de todos os fins.


Simone Weil, in Reflexões Sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social, trad. Maria de Fátima Sedas Nunes, Antígona, Junho de 2017, pp. 51-52.

TALVEZ A DÚVIDA



   Tenho um cão com cerca de dezassete anos de vida, está surdo e praticamente cego, caíram-lhe parte dos dentes, mantém um apetite voraz e um faro razoável, e apesar de lhe faltar força nas pernas passa o tempo a andar de um lado para o outro completamente desorientado. Dorme muito, deixou de brincar, faz as necessidades por onde calha, sem critério que se compreenda a não ser o de se ir orientando no espaço. Não me parece que tenha dores, raramente se queixa. Tivesse dores, a opção seria o abate. É assim que se faz com os animais, o abate liberta-os das dores. Com os homens é diferente. Não se abate um homem para o libertar das dores, excepto em casos excepcionais. E mesmo nesses casos a dúvida persiste, a dúvida moral, a dúvida ética, a dúvida deontológica. A dúvida, diga-se, antes de ser o princípio fundamental do método cartesiano para chegar à verdade — cogito, ergo sum —, é uma prorrogação do sofrimento. Porque a dúvida inquieta, desassossega, obriga o pensamento a uma ginástica árdua com consequências lesivas para o corpo de quem duvida.
   Não sei se o meu cão alguma vez teve dúvidas, suponho que nos distingamos dos animais, em parte, por duvidarmos. Os cães desenhados por Bárbara Assis Pacheco para ilustrar Talvez a Dúvida (Douda Correria, Maio de 2017), de Rui Almeida (n. 1972), não parecem perturbados por grandes dúvidas. Ao contrário do célebre cão de Alberto Giacometti, apresentam-se quase invariavelmente de cabeça e rabo erguidos, estão bem alimentados, em posições confortáveis, ora lambendo-se, ora contemplando a natureza. Um deles, na capa, está a lamber-se sobre um monte de livros. O cão aparece num dos poemas deste livro como «Prenúncio de tropeço em trânsito para / A casa aberta onde custa chegar», é a imagem de um animal «indiferente a tudo» que por vezes se nos assemelha no ridículo. Este nós plural determina paradoxalmente o curso dos versos, pois apesar do tom discursivo dos poemas, ao jeito de uma homilia para destinatários incertos, é na primeira pessoa que aqui se discursa. A humanidade é mais dissemelhante do que o nós de seres «azedos, angustiados e tristes» a que o poeta se dirige, logo no primeiro poema, com um propósito clarificador: «Não nos iludamos».
   Não obstante o propósito cartesiano, a ele voltamos, o racionalismo cai por terra abatido pelas emoções. É interessante notar como tão paradoxais são estes poemas, desde logo na sua aparência formal. Rui Almeida nunca descurou a forma na sua poesia, começada a publicar em 2009 com o livro Lábio Cortado. Todos os poemas de Talvez a Dúvida são compostos por quatro quintilhas, mas o ritmo, por vezes pautado por rimas internas ou palavras foneticamente próximas, permitiria quebras de verso que ofereceriam à leitura uma menor rigidez. Desinteressado dessa facilidade, o autor prefere submeter os versos a uma forma que enrijece o diagnóstico deste nós humano em contraponto ao nós canino: solitários, ansiosos, desesperados, marcados pela «ausência de coragem», pela «falta de vontade», iludidos, «vagas entidades», injustos, escravos da rotina e do «Absurdo quotidiano», perdidos. Em suma, radicalmente pessimistas: «A paz é um lugar impossível, absurdo. Não / Vale a pena ser fiel a qualquer raiz nem / A qualquer silêncio consolador. Nem rir».
   Na sua eterna busca de verdade, esta poesia peca por defeito, ou seja, não reconhece no humano o dom da indiferença canina, negando ao cão a faculdade da dúvida. Sem esperar justiça da poesia, questiono-me se fará sentido um diagnóstico deste tipo. A poesia é ainda aqui torrente emotiva, apesar da tendência aforística inerente a estes poemas. É-nos difícil vislumbrar nela o belo e o sublime, embora desconfiemos que essas sejam categorias do pensamento estranhas a um poema que se proponha claro. «Não nos iludamos», ainda que insistamos nas mesmas ilusões, por detrás da aparência derrotada esconde-se o heroísmo da permanência, da dor suportada sem o apaziguamento dos «alívios de circunstância» (paraísos artificiais?) ou a solução final do abate. Há uma espécie de elogio da dor nestes poemas que encalha na ideia de sacrifício, a dúvida é a de Cristo na cruz face ao desamparo e ao abandono. «No entanto, nas mãos / Permanece-nos um pássaro estranho». Que pássaro é este? A esperança? A fé? O espírito santo? «Talvez qualquer pergunta seja sábia / Por causa do medo e há demasiadas / Formas de isolamento — a nossa é / Apenas mais uma, apenas a nossa».
   A dúvida vem depois de cima, menosprezamo-la, talvez, como se afirma num dos poemas, a dúvida «Aproxima-nos da precariedade, / Dá-nos a perceber limites», à maneira de Descartes acabará por levar-nos a Deus. Eis a redundância a que sempre nos leva a brevidade da vida, a efemeridade do belo na terra, sobretudo quando recusamos a luz do riso, quando fechamos a porta à alegria passageira, à sombra, quando não nos contentamos com o ritmo oscilante dos humores que é isto de andar por cá. Ainda e sempre a angústia, mas por lhe faltar o gozo da terra. Outros poetas satisfazem-se com o passar das estações, com o pólen, com a flor que nasce da flor, com a semente regada da qual brotam árvores que dão fruto, com o fruto caído na terra, transformado em estrume, a morte fertilizadora, outros poetas recusaram olhar para o cão como um animal doméstico, descobrindo dentro de si o gene selvagem que tudo relativiza, sobretudo a linguagem, sobretudo a tese, a teoria, o teorema a partir do qual colocamos sobre nós ideias de justiça e de beleza que não passam disso mesmo, de ideias, conquanto as pronunciemos em maiúsculas ou minúsculas. O cão que se lambe sobre um monte de livros é mais humano ou animal? Será metáfora? Será imagem? Deixemos ao improviso a natureza do improviso, por onde quer que sigamos a dúvida acompanhar-nos-á, essa a única certeza:

Aos quarenta e tal damo-nos conta
De que nascemos no país errado,
Numa margem mais fria do que a nossa
Capacidade de sentir. A meio
Da vida, ou do que ela possa ser,

Damos por nós atentos ao que se passa
Por esse mundo fora, usamos o
Sentido crítico, temos opinião
Sobre um pouco de tudo e arrumamos
Pedaço a pedaço em aproximações

Discretas a decassílabos. De
Nada nos vale a força e o trabalho
Com que limpamos a casa onde moramos
Se o que dizemos se repete vezes
Sem conta em tom monocórdico e sombrio,

Se a nossa voz se cansa de tanto arderem
Florestas de árvores secas. Gota
A gota, as cisternas se esvaziam e
Os medos se transformam nesta chuva
A cair espaçadamente sobre nós.