sábado, 20 de julho de 2019

O MEU VOUCHER É MELHOR QUE O TEU


A saga dos manuais escolares começou. É o momento em que melhor objectivamos o povo que temos, fica tudo evidente. Desde pais que desconhecem o ano de escolaridade dos filhos aos que recusam reutilizar manuais (era o que mais faltava, os filhos aprenderem por livros em segunda mão), há de tudo um pouco. E depois as pressas, o pânico, a tendência para complicar. Tenho duas filhas, uma vai para o 11º e a outra para o 8.º. Não me lembro de alguma vez ter stressado minimamente com a porcaria dos manuais escolares, antes pelo contrário. São miúdas com excelentes notas, melhores do que as que eu tinha. O tempo passa e eu cada vez percebo menos esta paranóia das pessoas com os manuais escolares. Faço tudo por um governo que acabe com esse instrumento obsoleto, apenas existente para favorecer um monopólio editorial. Sebentas iguais para todas as escolas fornecidas pelas próprias escolas, é quanto basta. O resto serve apenas a sofreguidão de impérios editoriais vergonhosamente protegidos pelo Estado e a vaidade mesquinha e saloia do consumidor, que adora ter à sua disposição gamas diversas dos mesmíssimos produtos.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

COMPLEXO DE BRIAN



Sempre que escrevo Donald Trump ou Jair Bolsonaro no weblog, o número de visitas aumenta estupidamente. Grande parte vem dos Estados Unidos e do Brasil, os dois países que registam mais visitas no histórico de visualizações do ‘blog. Não sei o que isto significa, mas sinto-me um pouco como o Brian dos Monty Python: a minha sandália não é sinal nenhum, é só uma sandália.

O SALOIO E O BURGESSO


“Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?”, assim reagiu Jair Bolsonaro à morte de João Gilberto. “Ganhou um Nobel? Incrível! Então porquê?”, perguntou Donald Trump a Nadia Murad, activista yazidi vítima do Estado Islâmico. Não são meros deslizes, são sinais fortíssimos de um esvaziamento que caracteriza o mundo político nos nossos dias. Aquelas duas pessoas têm milhões de apoiantes que se estão nas tintas para a insensibilidade e a ignorância dos seus líderes, conquanto eles continuem a inflamar ódios básicos prometendo eliminar as causas de todas as frustrações. Um deles acha que a Amazónia é uma fábrica de madeira, o outro nega as alterações climáticas. São iguaizinhos, ainda que Bolsonaro tenha qualquer coisa de saloio que Trump só tem de burgesso.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

(CULTURAS SUPERIORES)



Culturas superiores constroem pirâmides (com mão de obra escrava), culturas superiores fazem revoluções culturais (com gente faminta), culturas superiores desbravam caminhos (para massacrarem indígenas), culturas superiores levantam impérios (e traficam pessoas), culturas superiores industrializam o mundo (poluindo-o), culturas superiores expandem-se geograficamente (praticando genocídios), culturas superiores têm fornos crematórios para os povos vivos de outras culturas superiores, culturas superiores inventam coisas (tal a bomba atómica), culturas superiores invadem (protocolarmente), culturas superiores financiam óperas e erigem palácios (onde se intentam intrigas), culturas superiores delineiam declarações com discursos (contra a hipótese de existirem culturas superiores), culturas superiores são um enorme parêntesis na história da humanidade, têm pedras no sapato, fartam-se de parir mentes brilhantes que fazem coisas horríveis e palermas inofensivos que escrevem coisas parvas.

AINDA JUAN GELMAN



CORAGENS

é enorme a tristeza que um homem  uma mulher
podem gerar entre si
como enormes são aqueles dois passaritos parados
num galho a bicarem-se
e enorme é a própria árvore com chuvas sob o sol
que se lhe vê no rosto

choverá? não choverá? será isso
que cantam os passaritos? continuará a enorme
tristeza mandando crescendo como um lago ou mar
entre um homem e uma mulher?

voará a tristeza entre árvore e árvore?
como passos solitários numa habitação?
como madréporas pelo ar?
como tábuas como pontes porém desoladas desamadas?

um ramo caiu no lago e navega
é enorme a tristeza que um homem e uma mulher
podem gerar entre si
como enorme é a navegação do ramo no lago
encharcado da sua própria coragem

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 307.

ESTE LIVRO VAI SER PUBLICADO


Mais informações: aqui. Mas vão directamente para aqui e contribuam. E partilhem, divulguem. 

terça-feira, 16 de julho de 2019

segunda-feira, 15 de julho de 2019

PALMAS PARA A NOVA TECNOLOGIA


No dia lá das “franças” os políticos assistiram com entusiasmo à parada militar. A certa altura, vogou no céu claro um indivíduo que mais parecia saído de um filme de ficção científica. Fez acrobacias montado na geringonça esvoaçante, com arma automática pendurada ao ombro. Podia trazer um colete salva-vidas e uma bóia de salvação para os náufragos do mediterrâneo, podia trazer medicamentos para os aflitos das zonas inacessíveis, podia até trazer um ramo de flores para a mulher do presidente. Ninguém levaria a mal o romantismo. Trazia antes uma arma automática a tiracolo. Os políticos assistiram entusiasmados e aplaudiram efusiva e orgulhosamente.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

TRÊS GRAÇAS


A presença de divindades pagãs num poema épico cristão é um dos elementos d'Os Lusíadas que mais perplexidade e desaprovação têm causado à crítica ao longo dos séculos. É verdade que Os Lusíadas são o único poema épico do Renascimento que os usa, mas não é menos verdade que o uso dos deuses pagãos era corrente tanto na pintura quanto na poesia pastoril renascentistas. E embora Vénus tenha servido a Camões para estabelecer uma relação histórica entre Roma e Portugal por referenciação intertextual à Eneida, a Vénus que responde às preces cristãs de Gama é também - mais ainda do que a deusa pagã da épica virgiliana - a Vénus pastoril do epicurismo renascentista, cuja representação nas Três Graças servia para significar as três vias capazes de levar o homem universal à verdadeira felicidade, combinando Poder, Sabedoria e Prazer, vita activa, vita contemplativa e vita voluptuosa.

Helder Macedo, in Cada Um Com o Seu Contrário Num Sujeito, Abysmo, Fevereiro de 2019, pp. 30-31.

LODO


com que dedos hesitas aproximar
a tua pele da minha?
são teus ou de uma sombra
que por ti respira e ama?
com que voz perguntas
pelo dia que acabou?
silêncio que não retorna
do fosso onde a paixão caiu,
essa voz precede o eco de um dever
acomodado às paredes do corpo.
e eu um erro, e tu um lapso,
e nós apenas mais um caso
de águas paradas onde o lodo vinga.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

BLUFF



   Desconheço a origem da palavra bluff, que segundo o Wiktionary talvez esteja no termo bluffen (fanfarronice, alarde), mas pelo que obriga a necessidade aprendi a detectá-lo no olhar dos parceiros de cartadas. Para o poker, por exemplo, o bluff está como a simulação na jogada de futebol, é pura ironia, dar a entender algo e fazer o seu contrário. Várias circunstâncias da vida obrigam-nos a estar atentos ao bluff, quando não a tirarmos proveito dele. A carga ética negativa que poderia ter, assemelhando-se à hipocrisia, transforma-se numa espécie de ferramenta, escudo de defesa no mundo cínico das “notícias falsas”, de todo o tipo de abusos e de manipulações, seguidas de proverbiais perdas de memória quando toca ao esclarecimento da verdade. Daí que o bluff não se oponha à verdade, muitas vezes é o estribo onde a investigação se apoia. O “cogito, ergo sum” cartesiano, por exemplo, é bluff em defesa da racionalidade, matéria que nos levaria a uma discussão infindável se a tal estivéssemos dispostos.
   António Ferra (n. 1947), autor de obra multidisciplinar iniciada na década de 1970, optou por dar o título de Bluff (Douda Correira, Março de 2019) a um dos seus mais recentes livros. Em literatura o bluff pode também confundir-se com o fingimento pessoano, porventura assumido nestas narrativas breves a partir da epígrafe tomada de empréstimo ao modernista Almada Negreiros. Tal como acontecia em Marias Pardas (& etc, Março de 2011), outro livro do autor onde o poético e o narrativo se misturam, neste o carácter lúdico da linguagem é logo detectável nos inúmeros jogos fonéticos, trocadilhos, paranomásias. O primeiro texto intitula-se “Entrudo são”, o último chama-se “Equílogo” (por causa de um cavalo que entra pelo meio). A verdade é que a essência destes textos está em serem o nada com que se parecem, divertimentos carregados de ironia onde o mundo actual surge pintado em figuras tipo da nossa sociedade tais como «os youngmen de fato preto» ou «os funcionários do bluff», contando-se entrementes a história de uma mulher, de seu nome Graziela, e seu marido, Jacinto.
   Ao contrário do que sucede nas fábulas, aqui as personagens são humanos com comportamentos animais. Mas de modo semelhante à fábula também estas narrativas apresentam no final uma espécie de moral, espécie porque o que enunciam entre parêntesis são falas, vozes, diálogos, cuja principal característica é a sua absurda veracidade. Exemplo:

De toda a água me rio

Graziela precisava de uma certidão de emagrecimento, documento imprescindível para voar low cost. A senhora do balcão de atendimento sugeriu-lhe que fizesse tudo online, e que comesse apenas legumes, uma só peça de fruta, duas bolachas integrais e, sobretudo, que bebesse muita água, toda a água de um rio para perder o peso dos dias e das noites e para expelir na urina os abusos que sofria.
E que voltasse ao fim de cinco dias inúteis.

[ Já não faço nada online, é tudo bluff, desde que nasceu a minha filha deixei-me disso, nem mesmo sexo virtual, tenho medo de engravidar outra vez.]

   O aspecto cómico destes textos está na capacidade que revelam de caricaturar os hábitos (preferencialmente os maus) e os costumes da vida moderna, dita cheia de pressas para um fim seguramente universal e claramente passageiro. Ao lê-los lembramo-nos das contradições que nos contornam a negro dias e noites, pensamos na pertinência de uma antimoral que nos desobrigue de afazeres esgotantes e esgotados de humanidade. Pelo caminho da ridicularização, estes textos denunciam a bizarria do “modo funcionário de viver”, retirando a gravata à prosa e brincando alegre e livremente com as palavras. Aceitam até certa ingenuidade nos comportamentos das personagens, preferindo observá-las a censurá-las. Não há mal algum em chamar-lhes poesia, dessa que tantas vezes se confunde com a pequena narrativa reclamado para si mesma o direito a não ser só uma coisa nem outra, ser livre, sem rótulo nem arrumação.

[—Tens as mãos transpiradas. Passa-se alguma coisa?
— Não, não, é só esta desumanidade que se entranha no corpo]

MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES



Temos vindo a acordar lentamente para o desastre, uns mais incrédulos que outros. Presumo que quando estivermos todos acordados já o dia tenha terminado. Que fazer para travar isto? Só há uma solução: mudar radicalmente de vida, varrendo desde logo para o lixo as políticas que nos trouxeram a este estado lastimável de coisas.


JUAN GELMAN E O EXÍLIO



CITAÇÃO VI (SANTA TERESA)

alma que resfolgas na metade
do pensamento / da vida / como
um cavalo que correu / onde está a ração
que detenha tuas patas loucas? / ânsia

de derramar grandíssimo o amor
para que durma abraçada ao esposo
que treme à aurora contra a sombra
da tua meditação? / flores que cheiras

na macieira do amor crescido
onde as minhas várias almas se perderam
para que almes meu desencarcerado rosto

com ela aberta na metade de si /
beleza de vós enquanto orações
onde madruga em pena o meu silêncio?



Poeta, jornalista, tradutor, Juan Gelman (Buenos Aires, 3 de Maio de 1930 – Cidade do México, 14 de Janeiro de 2014) foi um importante poeta argentino a quem atribuíram em 2007 o Prémio Cervantes. A participação em organizações de guerrilha contra a ditadura levou-o ao exílio, acabando por radicar-se no México. Publicou o primeiro poema com apenas 11 anos, vindo mais tarde a integrar a corrente da “nueva poesia” (1955-1967) fundando o grupo “El pan duro”. Neste grupo militavam jovens poetas comunistas que propunham uma poesia politicamente comprometida. Abandonou o Partido Comunista por volta de 1960, defendendo a luta armada à semelhança do que havia acontecido na Revolução Cubana. Formou então o grupo "Nueva Expresión", dedicando-se ao jornalismo revolucionário. Com Eduardo Galeano esteve na revista “Crisis”. Forçado ao exílio, viu serem sequestrados os seus filhos Eva e Marcelo, assim como a nora, grávida à época, María Claudia Irureta Goyena. Soube através da Igreja Católica que a nora havia dado à luz em cativeiro. Durante este período da ditadura, mais de 30000 pessoas foram dadas como desaparecidas na Argentina. Os restos mortais do filho foram posteriormente encontrados num rio de San Fernando, dentro de um contentor cheio de cimento. A autópsia revelou que tinha sido assassinado com um tiro na nuca. Juan Gelman conseguiu descobrir que a nora foi deslocada para o Uruguai durante o conhecido Plan Cóndor. Escritores como Günter Grass, Darío Fo, José Saramago, exerceram forte pressão internacional para o ajudarem a encontrar a neta, o que aconteceu em 2000. O poema acima transcrito, composto durante o exílio, faz parte de um conjunto de poemas que dialogam com o castelhano do séc. XVI através de citações dos místicos São João da Cruz e Santa Teresa. Gelman referiu-se a eles como uma necessidade de encontrar através da linguagem as raízes profundas de um exilado. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 308.

CHORRILHO DE IDEIAS FEITAS


O assunto já fede, mas façamos um resumo: a historiadora revelou-se ignorante ao escrever que a mutilação genital feminina é “imperativa nas tribos muçulmanas” (a mutilação genital feminina precede o islamismo e não é praticada em muitos países muçulmanos).
Evidenciou também uma lógica absurda com a enigmática genealogia do “nem uns nem outros [africanos e ciganos] descendem dos Direitos Universais do Homem”, não se percebendo se os direitos deixaram entretanto de ser universais ou se há direitos de autor a pagar, e o non sequitur “os africanos são abertamente racistas”, como se ficasse legitimado o racismo dos brancos, quando a única conclusão que se poderia retirar – se se desse por válida a observação – é que também na propensão para o racismo alguns brancos e negros não se distinguem e transcender as nossas tendências naturais é um desafio comum a todos os homens. Enfim, frise-se ainda o insondável mistério que são as defesas inflamadas da “entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade” sem um resquício de bondade cristã.
Como discutir serenamente o delicado e complexo tema das quotas étnico-raciais depois da diatribe da Doutora Bonifácio?

Vasco M. Barreto, aqui.

ESTUPIDEZ INSTITUCIONAL


A estupidez institucional é muito pior e mais danosa do que a nesciedade individual.  Bonifácio é uma cidadã que goza do direito à opinião e de liberdade de expressão, pelo que qualquer tentativa de criminalização não pode ser admitida e deve ser contestada com a mesma veemência com que se tem de combater o racismo e a xenofobia -- e, já agora, as organizações criminais que passam por entidades políticas e concorrem alegremente a eleições.  Causas como o combate ao racismo, à xenofobia e a outras exclusões dispensam bem os polícias da linguagem e os agentes fardados do controlo do pensamento. Ideias básicas ou parvas combatem-se com argumentos; no caso de desonestidade intelectual, há sempre recurso à ironia queirosiana. Costuma ser mortal.


Ricardo António Alves, aqui.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

JOSÉ MARÍA ARGUEDAS



   Transformei as mãos em espátulas e procurei no fundo da terra os restos mortais de um grito, encontrei as ossadas de Túpac e nelas tentei ler o destino das sombras. 
   A voz de um índio persegue-me, o canto de um povo amortalhado na dor. 
   Sento-me a observar o llama no jardim zoológico, circunscrito por gradeamentos e flashes fotográficos, reparo na sua ansiedade e como que a humanizo no corpo frágil de um homem que procura. Aconteceu-me o mesmo com o tigre às voltas na jaula, jardim zoológico de um mundo ilustrado por Drummond com demasiada ternura. E vi também reflectida nos olhos do gorila encarcerado esta frustração animal de quem nasceu livre para viver acorrentado para que à hora da morte suspire finalmente a derradeira libertação para.
   Se apenas na morte nos é dado sentir a paz do voo, que fazemos nesta terra Amaru kamaq? 
   Flagelados pelo chicote da ganância, tais cavalos mortos resfolegamos com ódio e raiva impotentes. 
   Não me agrada remexer no passado as ossadas de um grito, não é destino que desejasse quando por baptismo me foi concedida a graça de querer. 
   Agora, na pirâmide deste gesto sacrificial ofereço aos deuses o desespero com que respiro num mundo militantemente asmático. 
   Repara na cobra que se consome a si mesma, repara como ela começa a engolir-se pela cauda e quando chega à cabeça fica revirada, repara como uma nova pele do avesso a disfarça, repara na poética da flauta que chora. 
   Alguém diz: com as asas do pensamento chegarás mais alto do que o condor. Não creio que assim seja, com as asas do pensamento abatemos o condor, encarceramos o gorila, flagelamos o cavalo, enjaulamos o tigre, exibimos o llama aos turistas, enterramos o grito.
   A dança cessa, a música cala-se.
   Por isso transformo as mãos em espátulas e procuro nos ossos a dor que não cabe nos museus, a respiração que nenhum frasco com formol deterá, a luminosidade inimitável de uma íris livre, o sopro do vento nas flautas de cana. 
   Que me sobra Túpac? Que me sobra de sopro? Que sopro me sobra?
   Um rastro de sangue a indicar o abismo, as nuvens no céu, os ossos na terra, tudo disposto e zoologicamente arrumado, fauna e flora devidamente identificadas por placas com design ecológico, a extinção das espécies assinalada com fotografias que sensibilizam os peregrinos para a raridade dos encontros, florestas desbravadas por unhas de ferro, terras áridas, solidão. 
   Tenho nas mãos as ossadas de um grito, concentro-me o mais que consigo no seu chamamento. 
   O sol dança à hora da morte, morrerão de cansaço os pássaros por qualquer dia não terem onde pousar, as cobras devorar-se-ão a si mesmas desesperando a falta de alimento, qualquer coisa há-de perdurar, qualquer coisa breve.
   Canto.

Nota: José María Arguedas nasceu a 18 de Janeiro de 1911 em Andahuaylas, no Peru. Por ter perdido a mãe muito cedo, por ter tido um pai ausente, foi de algum modo criado pelos empregados de origem indígena. Assim começou a ganhar forma o seu interesse pelos Quíchuas, o qual o marcaria para a vida. Estudou literatura e etnologia, dedicando-se como antropólogo à preservação da cultura peruana. No dia 29 de Novembro de 1969, frustrado e deprimido, suicidou-se com um tiro.

terça-feira, 9 de julho de 2019

EU INFERIOR ME CONFESSO


Acredito no progresso; acredito que há culturas superiores a outras; acredito que o multiculturalismo assolapado desembocou numa guetização nefasta em certos países ocidentais; acredito que a cultura que produziu os Direitos Universais é infinitamente superior ao wahhabismo ou às tradições ancestrais de mutilação genital feminina; e acredito que existe demasiada complacência em relação ao tratamento das mulheres nalgumas comunidades.

   Estas palavras de João Miguel Tavares são elucidativas da dificuldade que ainda existe em falar de certas matérias sem rapidamente resvalarmos em profissões de fé. Num artigo supostamente apreciável, por ter a coragem de criticar um nojo de artigo assinado por «uma intelectual consagrada» expressão especialmente infeliz no caso em apreço , João Miguel Tavares declara-se progressista contra o conservadorismo moralizante da senhora historiadora para dizer isto: «há culturas superiores a outras».
   A premissa é em si mesma problemática por nos obrigar a ponderar quem possa ser a mente superior a quem devamos confiar a hierarquização das culturas. Confiamos uma coisa dessas a Donald Trump? A um Jair Bolsonaro? Que cultura superior terá alimentado este par de jarras? Enfim, a questão teria pano para mangas. Sem nos alongarmos, basta olhar para a História para pensar em culturas superiores que produziram superiores máquinas de morte: da globalização da escravatura às máquinas de extermínio dos nazis, da bomba atómica aos mecanismos de dizimação da Natureza, pode o freguês aviar-se à vontadinha no seu superior hipermercado.
   Eu, que também acredito no progresso, julgo que não há nada de superior em nos julgarmos superiores aos outros. Aliás, se há matéria progressista em que devamos acreditar é precisamente nessa ideia de que as culturas se constroem diariamente. Uma cultura é um corpo vivo que avança e recua, onde os valores se transformam e se cultivam, fortalecendo-se uns, reivindicando-se outros, num diálogo vivo e desafiante entre teses oponentes. Depois, à força da lei impõem-se limites que no seu tempo próprio se consideram razoáveis até serem julgados anacrónicos e obsoletos. Está a ficar chato o discurso.
   O problema é andarmos a ensinar nas escolas que o etnocentrismo cultural é mau, que o multiculturalismo obriga a um esforço de entendimento do outro, que o relativismo cultural não significa baixar as calças ao outro, obriga a um trabalho atento e crítico de compreensão. Andamos a ensinar que é esse o bom caminho, mas depois aparecem-nos nos jornais e nas rádios e nas televisões estas «intelectuais consagradas» de uma “cultura superior” a estragarem tudo. Ou nem tudo. Foi publicada, o que não é mau sinal. Tem sido criticada, o que é excelente sinal. Esperemos agora que o pântano do politicamente correcto não a impeça de trabalhar como a certos cartoonistas, ainda que os seus bonecos sejam mais ofensivos (precisamente por não se tratar de bonecos, mas de textos supostamente sérios assinados por uma "intelectual consagrada").
   O que quero dizer é, e para sintetizar, que dá sempre jeito ter à mão uma «intelectual consagrada» em quem possamos malhar, levando de arrasto, já agora, todas as mentes superiores que contribuíram para a sua consagração. É que o país está mesmo a abarrotar de consagrados com mentalidade de alimárias, exemplos não faltam.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

JOSÉ ASUNCIÓN SILVA


(...)

Não procures entender os livros, meu bem, não tentes soprar-lhes a boquilha à espera de um som, dança no folheio das páginas, pega neles, arremessa-os contra os teus piores inimigos, oferta-os, pela dádiva que são, aos teus mais queridos amigos, trata-os como achas que devem ser tratados, como tratarias um amor.
   Por mim, agito os timbaus dos livros e os do meu bem, agito-os porque deles não anseio a pureza que busco no ar, nem a mansidão que procuro na sombra quando caminho por entre searas e atravesso riachos e subo e desço montes e caminho por entre vinhas e me perco entre os prédios da grande cidade e me encontro nos becos sombrios desta urbana melancolia a que vou dando pausa, isso, meu bem, com os livros.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 61. Nota: depois de perder a irmã, o colombiano José Asunción Silva perdeu também grande parte do seu trabalho na sequência de um naufrágio. No dia 24 de Maio de 1896 deu um tiro no coração, um dia após haver pedido ao médico que lhe marcasse o lugar exacto do coração no corpo.

sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO (1931-2019)


A CIDADE DOS PÁSSAROS




Um ano após “A Paz”, o Teatro da Rainha regressou à comédia de Aristófanes através da adaptação que o dramaturgo francês Bernard Chartreux preparou para "As Aves". Pelo meio, já este ano, devemos assinalar a parceria com o Teatro Nacional de São João na montagem de “O resto já devem conhecer do cinema”, recuperação de “As Fenícias”, de Eurípedes, assinada por Martin Crimp. Esta opção pela revisitação do teatro clássico manifesta uma atitude programática que pode ser entendida de várias formas. Desde logo, assinala a preferência por um teatro que não surja desligado da sociedade à qual se dirige. Tanto ontem como hoje estas peças mantêm um elo com a realidade social, política, cultural, que procura respeitar a capacidade que a massa a que chamamos público possa ter de reflectir o seu tempo sem lhe apagar a História.



Numa época especialmente dada a revisionismos de toda a ordem é relevante esta capacidade de vincular a arte à História sem desleixar aspectos críticos e poéticos, de liberdade interpretativa, de observação lúdica, de pura efabulação. Trata-se de um teatro que insiste no seu papel socialmente interventivo, chamando inclusive para palco um grupo de amadores que de algum modo incorporam uma ideia de povo à qual a mensagem se direcciona.



Assim como na Grécia antiga o teatro tinha preocupações pedagógicas, exercitando a crítica do quotidiano e apelando à reflexão colectiva, também nestas adaptações encontramos, misturadas com o natural entretenimento que a comédia propicia, os mesmos cuidados. O encenador Fernando Mora Ramos fala mesmo de uma revalidação do «teatro directamente político pela via do cómico», devendo aqui entender-se por político o que de nobre possa perdurar no conceito.



Curiosamente, é a degenerescência desse conceito de “política” que está em causa no original de Aristófanes e se retoma na “Cidade dos Pássaros”. Evélpides e Pistetero, os dois agastados atenienses que buscam um mundo melhor, distanciando-se de uma Atenas decadente, podem ser entendidos nessa necessidade inicial como produtos de um momento de decepção para com a pólis, desconfiando da democracia, desiludidos com os oportunistas que tomaram conta da vida pública, eles próprios em vias de se transformarem naquilo que os decepciona e desilude. Não é exactamente assim que tem sucedido com inúmeros movimentos de “cidadania política” a cavalgarem o discurso do ódio à política e da desconfiança nos políticos, do medo das políticas e da desilusão com o Estado?



Que a utopia descambe numa distopia não admira, é essa a ordem natural das coisas quando a meta final é o poder pelo poder. A ambição desmesurada de Pistetero ao convencer Tereu, mortal metamorfoseado em poupa, de que sobre os deuses devem reinar as aves presta-se a inúmeras alusões, associações, interpretações. Cada elemento da assistência que faça as suas. Se no início o desejo de felicidade parece ser legítimo, pelo meio a transformação dessa hipótese de felicidade num reinado manipulador coloca tudo em causa, desde a hierarquia entre homens, pássaros e deuses à desmesura de um projecto imperialista que, como todos os congéneres, assenta inevitavelmente na miséria da maioria para fausto de uns poucos.



O actor Fábio Costa vai excelente no papel de Pistetero, impressionando tanto pela energia como pelo ar alucinado que oferece à personagem. Menos interveniente nesta adaptação do que no original, Alexandre Calçada encarna igualmente bem Evélpides. Mas onde melhor se revelam os seus dotes caricaturais é no Hércules abrutalhado que surge mais para o fim. Manuel Freire, o da "Pedra Filosofal", aparece travestido de Camões para nos fazer lembrar o estado das artes em geral, que Sophia já tinha de algum modo ilustrado no poema "Camões e a Tença". Venâncio Calisto é um Prometeu dissimulado, afastado dos deuses como de Atenas se afastou Pistetero. Também o seu projecto de oferecer o fogo aos homens se revelou desastroso.



São muitas as figuras e os figurões que desfilam num cenário simples, mas atraente, com figurinos belíssimos no que toca ao coro de aves com movimentos próprios de aves, onomatopeias próprias de aves, mas com características comportamentais típicas de homens que facilmente com aves se confundem. Entre estas, a rouxinol interpretada por Mafalda Taveira é particularmente cativante. O seu canto oscila entre o lirismo de uma esperança encantadora e o lamento da tragédia anunciada. O projecto d’ “A Cidade dos Pássaros” redunda nesta indefinição, na medida em que procura estabelecer-se segundo os parâmetros de uma cidade dos homens, esses que tudo conspurcam e destroem com ambições desmedidas e ganância sem fim, esquecendo a mais invejável virtude dos pássaros: o voo livre.


Que da muralha erigida entre homens e deuses venham a sobrar apenas cacos, não espanta. Mas o texto é meramente preventivo. A verdade nua e crua tem as suas muralhas bem altas e intransponíveis, todas elas erigidas na terra para separarem já não os homens dos deuses, mas os homens de outros homens. Talvez no fim acabemos a falar aos peixes como o dos sermões. Se ainda houver peixes.


sexta-feira, 5 de julho de 2019

O SABUJO


Se chamarmos sabujo ao sabujo ele não vai entender, tem limitações no vocabulário que lhe dificultam o entendimento. Devemos chamar-lhe logo lambe-botas, isso ele entenderá. Mas com indiferença. O lambe-botas que a cada peidinho do chefe assegura andar no ar uma fragrância perfumada é indiferente a tudo quanto lhe chamem, desde que mantenha a sua posição de lambe-botas com o beneplácito de quem calça as botas. Como é que podemos então afectá-lo para que ele não nos afecte? Descalçando as botas ao chefe, claro. Desse modo o lambe-botas irá sentir-se perdido. Uma coisa é lamber botas, outra bem diferente é lamber pés.


P.S.: este post não é sobre a União Europeia.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

ACERCA DA POESIA




haveria algumas coisas a dizer /
que ninguém a lê muito /
que são poucos esses ninguém /
que o mundo inteiro está com o tema da crise mundial / e

com o tema de comer diariamente / trata-se
de um assunto importante / lembro-me
de quando o tio Juan morreu de fome /
dizia que não se lembrava de comer e não havia problema /

mas o problema veio depois /
não havia dinheiro para o caixão /
e quando finalmente passou o camião municipal para o levar
o tio juan parecia um pequeno pássaro /

os do município observaram-no com desprezo ou desdém / murmuravam
que estão sempre a dizer mal deles /
que eram homens e enterravam homens / e não
pequenos pássaros como o tio juan / especialmente
porque o tio foi toda a viajem a cantar piu-piu até ao crematório municipal /

e isso pareceu-lhes falta de respeito e sentiam-se muito ofendidos /
e quando lhe davam uma chapada para que calasse a boca /
o piu-piu voava pela cabine do camião e eles
sentiam o piu-piu dentro da cabeça / o

tio juan era assim / gostava de cantar /
e não via por que seria a morte motivo para não cantar /
entrou no forno a cantar piu-piu / as cinzas saíram e piaram um pouco /
e os funcionários municipais olharam envergonhados para os sapatos cinzentos / mas

voltando à poesia /
os poetas agora passam-na muito mal /
ninguém os lê muito / são poucos esses ninguém /
o ofício perdeu prestígio / cada dia é mais difícil para um poeta

conseguir o amor de uma rapariga /
ser candidato a presidente / que algum merceeiro lhe fie /
que um guerreiro consiga façanhas para que ele as cante /
que um rei lhe pague cada verso com três moedas de ouro /
e ninguém sabe se assim é porque acabaram as raparigas / os merceeiros / os guerreiros / os reis
ou simplesmente os poetas /
ou as duas coisas aconteceram e é inútil
maçar a cabeça a pensar no assunto /

lindo é saber que alguém pode cantar piu-piu
nas mais raras circunstâncias /
tio juan depois de morto / eu agora
para que me ames /

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 309-311.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #21


Como sabeis, tenho a pancada das listas. Faço listas de tudo, dos livros que mais gostei de ler, dos discos que mais gostei de ouvir, dos lugares que mais gostei de visitar, dos objectos decorativos que mais aprecio, dos filmes preferidos, dos concertos, das obras de arte, de compras, de angústias e desesperos, de paixões e embaraços. Geralmente imponho-me uma ordem. As listas oferecem-me certa organização ao pensamento, ajudam-me a enquadrar factos. É obsessão que não aconselho a ninguém, julgo que ocupa em mim o lugar que noutros é ocupado pelo coleccionismo. Nunca tive espírito de coleccionador, irrita-me procurar. Prefiro ser surpreendido pelo encontro inesperado. Colecciono listas, são a excepção.
Muitas das listas que faço seguem datas, outras obedecem ao alfabeto. Por alfabeto, quais os meus escritores preferidos? E então listo: Artaud, Beckett, Camus, Dostoiévski, etc.. Estas listas não são dicionários, nem se pretendem enciclopédicas. Quero-as flexíveis, efémeras. Podem ter aspectos distintos num mesmo dia, por certo não se aguentam mais do que horas. Altero-as de um dia para o outro, com pequeníssimas excepções. Por causa das listas sei dizer-vos qual a minha canção preferida: “Redondo Vocábulo”. E sei dizer-vos qual o meu filme preferido: “Nostalgia”, do Tarkovski. E até arrisco que o meu livro preferido é o “Livro do Desassossego”. Sei estas coisas porque sempre que penso nestas coisas são estes os nomes que surgem primeiro, são estas as palavras que se sobrepõem a todas as outras.
Alguns dos livros que publiquei foram organizados alfabeticamente, dispondo os textos pela ordem alfabética dos títulos. Não estou interessado na ordem cronológica dos textos, mas interesso-me por datas de nascimento. Isto para vos dizer, minhas filhas, que as listas dão jeito, são um admirável auxiliar da memória e facilitam a arrumação da História e dos conceitos e das ideias e das imagens. A cada uma dessas listas posso dar o nome de vade-mécum, como antigamente se dava a pequenas obras de consulta para orientação de espíritos inquietados pela doença da dúvida. Ao pensar nestas coisas lembrei-me que talvez gostásseis de conhecer o “Pequeno Vade-Mécum” (Antígona, Março de 2004) de Montaigne (n. 1533 – m. 1592), síntese do pensamento de um homem que preferia a acção. Ou talvez preferisse o pensamento em acção, conceito hoje estranho a mestres de secretária e seus embasbacados pupilos. Diz ele sobre o cu: «No trono mais alto do mundo, continuamos a estar sentados no nosso cu».
Nesta obra ides encontrar fragmentos colhidos nos seus inúmeros ensaios. Nele se elogia ter recusado transformar a opinião em poder, como hoje podeis constatar ser regra. Não é a isso que determina a opinião pública? Nele se elogia o desprezo pela violência e pela crueldade, males que nenhuma tecnologia soube tratar. Nele se elogia a defesa do prazer, ao contrário do discurso vigente que obriga a pedir perdão pelo riso e a exaltar todas as formas de sofrimento como vias na direcção do espírito. Contra o sacrifício, a palavra de Montaigne: «Quanto a mim, amo a vida e cultivo-a tal como Deus entendeu conceder-no-la. Não desejaria que ela ignorasse a necessidade de beber e de comer».
Os ensaios de Montaigne fazem o elogio da vida num tempo seu que, tal como no nosso, padecia de intolerâncias diversas e muros intransponíveis. Se ouvirdes dizer que está melhor, desconfiai. Podeis estar a falar com uma mente insensível. Se ouvirdes dizer que está pior, desconfiai também. Podeis estar a falar com uma mente apocalíptica. Em ambos os casos sugiro que vos acauteles contra profecias da desgraça e alegrias tontas, sendo o justo meio sugerido por Gramsci o mais recomendável: pessimismo da inteligência, optimismo da vontade. E a utopia no horizonte a guiar-nos com o gozo de estarmos vivos e capazes de dizer “não sei”: «Todos os abusos do mundo resultam do facto de nos ensinarem a ter medo de manifestarmos a nossa ignorância».

O PAÍS DAS TROTINETES


O mercado de transferências desportivas não me estimula. Os números também não me impressionam, já vi muita pornografia. Tudo se passa às claras como num leilão, com governos e fiscais demasiado ocupados em operações stop. O que me desassossega é a passividade das gentes, dos milhões de adeptos e de anónimos, as pessoas, as massas, o povo, o que me desassossega é a sua passividade e até certa adesão ao espectáculo. Que um jogador de bola valha 120 milhões ou mais é motivo de regozijo e disputa clubística à mesa do café, que um medicamento para salvar uma criança custe 2 milhões é dano colateral. Em 2019, o orçamento para a cultura em Portugal previa 501 milhões. A cultura no país das trotinetes vale 4,17 jogadores da bola com 19 anos. Isto causa estranheza, mas não motiva indignação. É a vida, ou seja, é o mundo em que vivemos.

terça-feira, 2 de julho de 2019

LÁGRIMAS & TERRA

(...)

Comíamos lágrimas mais duras que pedras

(...)

É triste comer terra para morrer
criador!
é triste morrer
a comer terra que não é nossa

(...)

Pedro Eiras, in Um Punhado de Terra, Deriva Editores, Abril de 2009.

INGRID JONKER



Não me interessa ser feliz. Neste corpo de sangue arenoso nem cactos vingarão. Sempre que rio traio o destino, jamais por alegria ou felicidade. Rio para seduzir quem me saiba trair. Tenho dois braços disponíveis para abraçar quem dance, conheço bem a gramática do prazer, mas também sei de quem viole e seja violado sem sequer sentir que o foi. O meu mundo não é redondo, jamais por alegria ou felicidade poderia ser. O meu mundo é disforme como as pedras, tem cheiro a buxo em noites de primavera, sabe a sangue coalhado. Em criança, costumava arrancar as pústulas com os dentes e mastigava-as como se fossem pastilha elástica. Depois chupava o sangue e embebedava-me de mim, jamais por alegria ou felicidade. Agora que escrevo esta carta para um novo mundo sinto quão distantes ficaram tais gestos, amparo a chuva com o rosto até que os olhos se afoguem num relâmpago, danço como uma louca abandonada no deserto por amantes traidores. A areia do deserto onde danço é ardente, começo a transformar-me em cinza pelos pés depois de ter sentido o corpo todo em brasa. Não me interessa fazer perdurar a chama do meu corpo, é-me tão indiferente que entendam esta sombra à volta do sangue, é-me indiferente que riam ou chorem. Apenas a dor que vejo florescer em cada canto de ruína me comove e inspira, apenas essa dor que desabrocha das pedras adquirindo uma forma de vida própria no meu corpo, penetrando-me por todos os orifícios até que o sangue se transforme em areia, apenas essa dor me faz estremecer e deixa à beira de um precipício como o miserável diante da esmola. Rio para seduzir quem me saiba trair, escrevo. Jamais por alegria ou felicidade, apenas porque ao escrever pressinto o eco de uma voz distante, talvez a voz dos tais gestos perdidos, a voz daquela boca que na infância mascava pústulas e se enchia de sangue, a voz desesperada dos miseráveis que caminham sobre as areias do deserto como sobre as águas terá caminhado o filho de deus. Sempre que escrevo essa voz aproxima-se trazendo consigo imagens dispersas, saúda-me com silêncios mais cheios de significado do que enciclopédias inteiras, diz-me que vim ao mundo para mergulhar bem fundo na gramática do prazer. E eu mergulho. Mergulho no mar e nado em frente sem nada buscar senão um horizonte para lá do horizonte. Abraço com os braços disponíveis as ondas, convido-as para dançar, danço com as ondas enquanto nado sempre em frente buscando um horizonte para lá do horizonte. Jamais por alegria ou felicidade, apenas porque para trás podem ficar os gestos distantes de quem traiu e foi traído, de quem violou e foi violado, nado em frente para deixar ao largo a voz aguda e dilacerante dos miseráveis, para que um manto de silêncio possa sobrepor-se a tudo com seus infindos significados, para que ao perguntar por ti uma voz finalmente se ouça e ao escutá-la um rosto se forme no pensamento e nesse rosto possa eu finalmente alcançar o fim último do horizonte.

Nota: este texto surgiu após a leitura do apontamento que Sérigo Ninguém dedica a Ingrid Jonker, de quem eu nunca tinha ouvido falar, no n.º 12 da revista Eufeme. Natural de Douglas, África do Sul, Ingrid perdeu a mãe pouco antes de completar 11 anos. Depois de recuperar de um esgotamento nervoso, faleceu na sequência de um cancro. Ingrid Jonker começou a escrever poesia muito cedo. Casou em 1956 e teve uma filha, mas o matrimónio durou apenas 3 anos. Uma depressão na sequência de um aborto, relações cortadas com o pai, levaram-na ao internamento num hospital psiquiátrico. No início da década de 1960 ganhou um importante prémio literário que lhe permitiu viajar pela Europa, passando inclusive por Portugal. No dia 19 de Julho de 1965 cometeu suicídio por afogamento na praia de Three Anchor Bay, em Cape Town.