sexta-feira, 15 de novembro de 2019

ESTALAGEM




"ESTALAGEM"
Henrique Manuel Bento Fialho

Medula, Outubro de 2019.



"ESTALAGEM", de Henrique Manuel Bento Fialho, tem uma tiragem única de 100 exemplares, 13 dos quais numerados e assinados pelo autor. O livro tem 47 páginas. 8 € e 10€ (numerados e assinados).

Pedidos: medulalivros@gmail.com

Também se encontra disponível na livraria Poesia Incompleta: aqui. Na Paralelo W: aqui. E na Snob: aqui.

BALADA DO HOMEM QUE SABE



Passam comboios, aviões, gente que leva no bolso
o seu conhecimento empírico.
O cenário, ainda que preso à terra com um tripé, muda rapidamente:
                vai da certeza à dúvida,
                da dúvida
                à dúvida explícita,
                e torna a começar.

Passam comboios, aviões, cidades que só de olhá-las se aceleram,
e o homem compõe o cachecol, sabe que o frio não se
contradiz, que a chuva não tem duas ideias:
                conhece a rua pela agitação,
                o rumo pelo empurrão da estratégia,
                o alimento pela necessidade.
Sabe que o cenário é o único argumento.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 370.

A LENDA ATRAVÉS DOS TEMPOS


(clique na imagem para ver melhor)

Amanhã irei até Almada conversar um pouco sobre o mito de Pedro & Inês na poesia portuguesa. Levo por companhia Camões, Bocage, Torga, Natália Correia, Herberto, as "três Marias", Ruy Belo, António Salvado e Nuno Dempster, mais uma carta na manga que apenas utilizarei na altura certa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

PRÉMIO CERVANTES 2019


EMPILHANDO LENHA

O homem costuma recolher do bosque
os troncos caídos com a tempestade.
Empilha-os nas traseiras da casa.
De cada um recorda
o que o fez cair e onde o recolheu.
Nas noites frias, a contemplar as chamas,
vai queimando o que resta do que ama.


Joan Margarit, in Casa da Misericórdia, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, Outubro de 2009, p. 35.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

UM SEM-ABRIGO

Um sem-abrigo dirigiu-se a mim para me vender a revista Cais, à porta do Shopping Brasília. E eu dei-lhe qualquer coisa e ele disse-me assim: «Ó, senhor Pina, queria pedir-lhe um favor.». E começou a tratar-me pelo nome. «Queria pedir-lhe aquele seu livro, O regresso a casa.». Chama-se O Caminho de Casa, na realidade. «É o seu único livro que eu não tenho. E não tenho dinheiro para o comprar.». Eu fiquei banzado! Como é que um sem-abrigo conhece a minha poesia?! E perguntei-lhe: «O senhor passa por aqui? Eu arranjo-lhe esse livro.». «Sim, sim, agora estou aqui sempre, ando sempre por aqui.». De maneira que, no dia seguinte, fui lá levar-lhe o livro. Até pensei meter uma nota dentro do livro, mas depois tive vergonha. E dei-lhe o livro. Contei depois esta história a algumas pessoas por ser uma história surpreendente. O único dos meus livros de poesia que não tinha?!... Já nem sei em que ano foi isto; foi ainda antes do Euro porque a ideia que eu tinha era pôr dentro do livro uma nota de mil escudos. E tive vergonha porque não se dá assim dinheiro a uma pessoa que o que quer é um livro de poesia. Lá lhe dei o livro e perdi-lhe o rasto. Um dia, estava com o Germano Silva, a quem contei esta história, estacionei o carro na Praça de Lisboa, num parque, e o homem estava a pedir ali à porta. Já não estava a vender a revista Cais; estava a pedir. «Como está, senhor Pina?», cumprimentou-me outra vez, eu dei-lhe qualquer coisa e disse ao Germano: «Este é que foi o tal homem, o tal sem-abrigo que me pediu o livro.». E o Germano reconheceu-o: «Este homem era livreiro.». Então ele trabalhava, salvo erro, no Marinho, um alfarrabista aqui do Porto. E ainda anda por aí a pedir. Agora pára na Rua Fernandes Tomás, disse-me o Germano, que o encontrou no outro dia. Porque é que eu conto esta história? Porque este homem também tem consciência da presença do regresso na minha poesia. Ele disse-me que o título do livro era O regresso a casa. Ele associou o caminho de casa ao regresso a casa, achou natural que o título fosse este. Curioso, não é?


Manuel António Pina, citado por Inês Fonseca Santos, in Regressar a casa com Manuel António Pina, Abysmo, Fevereiro de 2015, pp. 62-63.

domingo, 10 de novembro de 2019

VIDA DUPLA

...Bernard Lahire. Sustentou o francês que a vida dupla do escritor «é mesmo plurissecular e estrutural», mas será essencial e benéfica? «Para quem», dispara de imediato [Patrícia] Portela, «Numa época em que trabalhar a tempo inteiro não compensa nem financeiramente, nem ecologicamente, nem socialmente, nem mentalmente, nem economicamente, para a família ou para o mundo, pergunto-me de que raio de benefícios ou de essências estamos a falar. Uma coisa é termos todos vida dupla, sermos escritores e biólogos, sermos escritores e jornalistas, sermos escritores e cozinheiros porque gostamos de ambas as profissões, porque precisamos delas, porque a nossa vida é feita e se alimenta de mundos diferentes. Outra coisa é aceitar o que quer que seja para pagar as contas ao fim do mês, ser humilhado oito horas por dia para contribuir para uma empresa ou serviço que em nada contribui para o bem-estar de quem trabalha. A plurissecular e estrutural vida dupla dos escritores é interessante quando uma alimenta a outra, não quando uma penaliza a outra.»

Inês Fonseca Santos, in Vale a pena? Conversas com escritores, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Abril de 2017, p. 73

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

«PALAVRAS PARA EXPLICAR PALAVRAS»




PALAVRAS

Vista daqui, a infância cabe na palavra anona.
A palavra Arminda também serve , além de nome
é o resumo de uma celebração.
A palavra juventude é demasiado eufórica,
mas continua, impetuosa e grave, a salvo de
qualquer caducidade.

Também o meu tio Santiago estava a salvo da caducidade:
          sensatamente a ignorava
          quando aos setenta anos fazia projectos que lhe
                          levariam outros setenta
          e sumariava, como quem ensina,
                          sou eterno, isso é tudo.

Não se trata tanto, então, de juntar palavras como
           significados: a persistência de alguém que por acaso
           seja eu.
Porque quem fará o trabalho, senão eu,
           sabendo que consiste, até à exaustão,
           em continuar a procurar o já procurado?

Mais uma vez
não é repetição:
            o que conta é o gotejar,
            o preço da aprendizagem;
surge então a palavra inconclusa: reclama
            a sua metade,
                           encrespa-se e não vem só.

Daí todo este ruído:
            este excesso de palavras
            para explicar palavras.


Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 368-369.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

EM AÇÚCAR DE MELANCIA


De dez anos e alguns meses empregado na maior rede livreira do país, guardo com especial sacrifício certa reunião em que o CEO de serviço explicou aos presentes o conceito de venda acrescentada comparando o comércio de livros com a venda de molhos para batatas fritas num restaurante de hambúrgueres. Não é especialmente chocante que alguém metido num negócio estabeleça o lucro como fim último da sua actividade, mas não deixa de ser perturbador verificar que alguém metido no negócio dos livros seja tão indiferente ao seu produto que consiga comparar o grau de exigência na actividade de livreiro ao de um funcionário num restaurante de fast-food. O resultado desta mentalidade está à vista e já foi exaustivamente dissecado. Quem não espere de um livro que seja mero ornamento no prato principal, tem bom remédio: procure-os onde eles não sejam produzidos e, já agora, sugeridos como molhos para batatas fritas.
Em Açúcar de Melancia (Livraria Snob, Setembro de 2019) é um desses objectos cada vez mais raros em que se torna patente, da capa à contracapa, o cuidado, o respeito e o amor dedicados a uma actividade por todos os lados ameaçada, como seja a de conceber livros sem ter no horizonte, única e exclusivamente, um número numa folha de Excel que determine relações de custo-benefício. Não admira que surja com o selo editorial de uma livraria das chamadas independentes, que é o mesmo que dizer devotas de uma cada vez mais anacrónica paixão ao saber e ao conhecimento. Refira-se, em abono da verdade, que não é a primeira vez que o norte-americano Richard Brautigan (n. 1935 – m. 1984) surge em língua portuguesa. Em 2003, a Editorial Teorema tinha publicado Uma Mulher Sem Sorte, romance póstumo e, dizem os especialistas, o pior de todos quantos Brautigan escreveu. Onze, dos quais Em Açúcar de Melancia foi o terceiro.
   Tendo começado por publicar poesia no final da década de 1950, o autor de Trout Fishing in America (1967) sofreu uma infância atribulada marcada pela separação dos pais, pela pobreza e pela instável companhia da mãe. É a própria filha, Ianthe Brautigan, que no prefácio a esta edição conta que a certa altura o pai atirou uma pedra à janela de uma esquadra para ser detido na perspectiva de uma refeição quente. Não só acabou detido, como foi internado num hospital onde lhe diagnosticaram esquizofrenia paranóide, maleita tratada à base de electrochoques. São dados relevantes para construirmos o puzzle sugerido pelo universo surrealista em que a sua produção literária de algum modo se afirmará. The Return of the Rivers (1957) foi o livro de estreia.
   Ligado aos movimentos de contracultura em São Francisco, participou em várias actividades dos The Diggers de Emmett Grogan, autor de uma extraordinária autobiografia intitulada Ringolevio (1972). Quando Grogan faleceu, aparentemente de overdose, Brautigan dedicou-lhe o poema Death is a Beautiful Car Parked Only. Mas foi o romance Trout Fishing in America (1967) que lhe trouxe fama e proveito, atingindo valores de vendas absolutamente inesperados. Nenhuma das suas obras posteriores repetiu o feito. No dia 16 de Setembro de 1984 suicidou-se com um tiro na cabeça. Em Açúcar de Melancia foi escrito 20 anos antes numa casa em Bolinas, Califórnia, precisamente a mesma localidade onde viria a falecer.
Tudo neste livro é ao mesmo tempo cruel e inofensivo, tal como a narrativa visual de Pedro Simões que o introduz. Entramos Em Açúcar de Melancia da melhor maneira, as ilustrações são o pórtico através do qual damos o primeiro passo para um mundo fantástico e onírico. Escrito em capítulos breves, com uma clareza e ingenuidade semelhantes à de uma história infantil, este romance é uma viagem ao «fundo dos nossos sonhos» (p. 37) com uma vila chamada euMORTE em pano de fundo. O narrador vive lá perto, num barraco, e leva-nos pela mão com algumas advertências iniciais: «O meu nome depende de vocês. Chamem-me o que vos vier à cabeça» (p. 40). Seria um desperdício de tempo buscar explicações lógicas para os acontecimentos que vai relatando, dos tigres que lhe mataram e comeram os pais, antes de lhe ensinarem aritmética, aos livros que são usados como combustível, das metamorfoses de euMORTE às trutas que saltam no rio sobre os túmulos dos mortos ali “enterrados”.  
   A profusão de imagens, como a de alguém que tem o vento a parar-lhe nas mãos, ou a dos mortos enterrados em «caixões de vidro no fundo dos rios» com «fogos-fátuos dentro dos túmulos para que brilhem à noite» (p. 93), acusa uma carga metafórica à qual nos entregamos como a uma criança pedimos que se entregue a uma fábula. Nada há que nos demova desse prazer, ainda que a espaços nos sintamos tentados a estabelecer ligações entre a orfandade do narrador e a infância do autor, entre o estado delirante das personagens e o historial clínico de Richard Brautigan. O suicídio também não escapa enquanto tema. 
   Independentemente das alusões possíveis e legítimas, o melhor que se retira desta leitura não provém de um campo onde as conexões lógicas e o sentido se impõem. Leituras sociais, políticas e psicológicas podem ter a sua lógica, mas apartam-se do que de melhor o livro tem para oferecer ao leitor, isto é, a liberdade de uma poesia onde a ausência de sentido se revela o melhor dos mundos possíveis: «Quando o sol surgisse no horizonte do nosso mundo, a escuridão continuaria e não haveria qualquer som ao longo do dia. As nossas vozes desapareceriam. Se deixássemos cair alguma coisa, não se ouviria som algum. Os rios permaneceriam em silêncio» (p. 176). Tradução de Sara Veiga.

sábado, 2 de novembro de 2019

JORGE DE SENA (2 DE NOVEMBRO DE 1919 - 4 DE JUNHO DE 1978)


Dedicácias (aqui), correspondência com Sophia (aqui), Mécia (aqui), um poema (aqui), outro poema (aqui), um excerto de Sinais de Fogo (aqui), um excerto do ensaio A Poesia e a Vida (aqui), momento presente (aqui)... e um micróbio em sua memória (aqui).

ORDEM N.º 2 AO EXÉRCITO DA ARTE


É a vós —
barítonos bem alimentados —
que desde Adão
até hoje
comoveis as espeluncas — a que chamam teatros —
com as árias dos Romeus, árias das Julietas.

É a vós —
artistas-pintores,
gordos como cavalos
ornato relinchante e devorador da Rússia,
acachapados no fundo dos estúdios,
a aperfeiçoar constantemente
florinhas e engodos.

É a vós —
escondidos à sombra de místicos folhetos,
arando com mil rugas vossas frontes —
pequenos futuristas,
pequenos imaginistas,
pequenos acmeístas,
embaraçados entre a teia das rimas.

É a vós —
que em mechas hirsutas tendes transformado
vossos cabelos bem penteados,
e o verniz dos sapatos em tamancos,
«prolecultistas»
que remendais
o fraque desbotado de Puchkine.

É a vós —
bailarinos, tocadores de trompete,
que vos entregais abertamente,
ou calmamente pescais,
e imaginais o futuro
como uma academia imensa.
É a vós que o digo,
eu —
genial ou não genial,
que abandonei a quinquilharia da arte
e trabalhei na Rosta,
eu vo-lo digo —
antes que vos expulsem à coronhada.
Deixem-se disso!

Deixem-se disso!
Esqueçam,
ponham de lado
rimas,
romances,
roseiras em flor,
e todas as outras «melrancolias»
dos arsenais das artes.

A quem interessa que
«— Ah, pobre criança!
Como ela a amava
e como era infeliz...»?
Hoje
necessitamos de mestres
e não cabeludos pregadores.
Oiçam-nas!
As locomotivas gemem,
sopram pelas fendas, pelo chão:
«Dêem-nos o carvão do Don!
Serralheiros,
mecânicos, ao Depósito!»

Em cada embocadura de rio
vemos os barcos deitados,
um buraco no flanco, gritarem nas docas:
«Dêem-nos a nafta de Baku!»

Enquanto nos perdemos em querelas vãs,
buscando não sei que secreto sentido,
atravessa as coisas um enorme soluço:
«Dêem-nos formas novas!»

Já não há imbecis
para,
multidão boquiaberta,
esperar que caia dos lábios do «mestre» uma palavra.
Camaradas,
inventai uma arte nova
que arranque
a República da lama.

(1922)


Vladimiro Maiakowski, in Autobiografia e Poemas,s/t,  Editorial Presença, s/d, pp. 62-64.

ÍNDIOS E PEIXINHOS



Mais um líder indígena assassinado por madeireiros no Brasil. Paulo Paulino Guajajara é o nome da vítima, anuncia a imprensa. Com a costa atacada por petróleo venezuelano transportado em barris da Shell, o governo brasileiro faz a sua propaganda com vídeos enternecedores de militares empenhados no auxílio às populações afectadas. Sobre não ter sido accionado plano de contingência, nada. O vídeo acima ilustra melhor o estado a que o Brasil chegou. O inferno é o socialismo, o inferno é o PT, o inferno é Lula, o inferno é a Globo. Os madeireiros são só manchas de petróleo. Se os índios fossem inteligentes como peixinhos, desviavam-se do caminho.

BAZUCA


Enquanto o assessor arredonda a saia e a deputada gagueja, chamando a si a atenção das massas, por cá “a velha banca testa bazuca contra novos concorrentes”. O título é do Público. Tendo em conta o histórico da velha, é muito provável que a bazuca tenha sido gamada em Tancos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

PORQUE CANTA UM PEQUENO CORAÇÃO


Porque Canta Um Pequeno Coração (não (edições), Setembro de 2019) é o segundo livro de poemas publicado por José Pedro Moreira (n. 1983). O primeiro foi Gatos no Quintal (Enfermaria 6, Março de 2018), ao qual de algum modo agora se alude no poema “A pequena Lizzie”. Dirige-se este ao Sr. Leitor, pressupondo em tão abstracta figura considerações acerca da matéria oferecida pel’ «o cavalheiro com pretensões a poeta» (p. 116). Escusa de pretender, já o é. E para tanto não necessitávamos sequer do jogo a que se propõe ao interpelar-nos daquela forma.
Os poemas de José Pedro Moreira assumem descontraidamente e sem preconceitos a natureza lúdica que os anima sem que a tal se restrinjam. A própria organização deste volume parece querer sublinhar esse aspecto, distribuindo o conteúdo por um Lado A e por um Lado B aos quais se acrescenta, no final, um “poema escondido”, como em certos CDs passámos a encontrar, a certa altura, temas escondidos. Clássico e modernidade conjugam-se e equilibram-se deste modo, sem que nenhum dos lados se imponha ao outro ou revele pretensões de protagonismo.
   Dedicado à memória dos avós, os quais aparecem retratados, especialmente, nos poemas do Lado B, este livro não negligencia a experiência vivida enquanto fonte privilegiada do poético, mas mistura-a, por vezes confunde-a, incorpora-a até numa leitura particular da mitologia que alicerça a história ocidental. O efeito proporcionado é altamente compensador, na medida em que faz descer à banalidade dos dias os heróis de uma ancestralidade mais mitológica do que historiográfica. Se foi Deus quem nos criou à sua semelhança ou nós que gerámos os deuses para fazer sobressair os vícios e as virtudes humanas, pouco aqui importa. Acabamos todos a um mesmo nível, aquele em que o vício do jogo e uma receita de culinária podem transformar-se em assunto de poesia sem que se perca o fio à meada.
   O herói clássico pode então confundir-se com o moderno vocalista de uma banda rock que a certa altura, incomodado pelos fãs, «pigarreia / abre os olhos / for fuck’s sake / why won’t you fuck off» (p. 23). Os clientes mistério desta poesia são, pois, gente vulgar como o poeta de Facebook ou os frequentadores do Akiport Cafe, a estrela rock ou anónimos que se cruzam numa qualquer cena quotidiana, mas também um dos maiores poetas da Roma Antiga, um célebre casal de pobres camponeses cantado por Ovídio, o avô Augusto e a avó Alzira. Uma das características mais fascinantes desta poesia é a cultura erudita que sugere sem necessidade de ostentação, a qual tantas vezes derrapa, noutras circunstâncias, num pedantismo insuportável, enterrando-se numa indecifrabilidade que não permite o poema respirar.
   Por vezes humorísticos, estes poemas superam com acutilância a monotonia quotidiana, fintando-nos na volta com comoventes ingressões pelos lugares da memória, como nessa extraordinária sequência intitulada “A morte de Augusto”, no que poderia ser considerado um mero divertimento sobre o fundador do Império Romano, não fora Augusto também o nome do avô a quem o poema se dirige. Um outro poema sequência, porventura o melhor que tive o prazer de ler este ano, glosa com hábil comicidade o excêntrico condutor de limusines e foguetes Mike Hughes. A singularidade da personagem presta-se ao serviço, mas o poema "TODA A VERDADE!!!" acaba por retratar, de um modo mais geral, o estado de estranheza, bizarria e extravagância a que a humanidade chegou: «e para salvar a democracia / das maquinações / das elites liberais / foi preciso / suspender as eleições» (p. 48).
   Acerca de Gatos no Quintal sublinhei noutro texto a capacidade de questionar a realidade a partir de um jogo persistente entre passado e presente, prática que José Pedro Moreira desenvolve neste novo livro com especial habilidade. O que se me tornou agora mais evidente, porém, é a emotividade velada pela atitude lúdica e irónica. Os ambientes podem camuflar os valores dessa emotividade, mas esta acaba por se revelar no interior de uma narratividade que tende para remates onde a amizade e o amor se sobrepõem à leitura histórica: «deste santuário não resta / qualquer vestígio arqueológico / e há bons motivos para acreditar / que os fragmentos de Riano / são uma falsificação moderna // mas estás tão bela / naquela fotografia / ainda vermelha / do escaldão que apanhaste / no dia anterior» (p. 61).

terça-feira, 29 de outubro de 2019

LEVAR A SAIA A GARCIA


Não sou esquisito em termos de dress code, procuro respeitar o que as circunstâncias exigem conquanto não me obriguem a dispensar cuecas esfarrapadas e meias rotas. Nunca precisei de dar nas vistas para marcar posição, mas também nunca precisei de marcar posição senão perante a minha consciência. Cuecas esfarrapadas e meias rotas são a minha arte poética, o meu statement contra a ditadura das aparências, do parecer, da hipocrisia. Assinalam igualmente uma espécie de solidariedade para com os desafortunados, irmandade que a indigência me inspira. No fundo, o meu princípio é sempre o mesmo: podem enfeitar-nos com fatiotas no caixão, o tempo encarregar-se-á de transformar tudo em pó e trapos.

domingo, 27 de outubro de 2019

JOSÉ BENTO (1932-2019)


    O que ele não viveu nos anos suprimidos
depois de ter abandonado
a terra hoje rescaldo na memória
(ruas, sombras, páginas, crepúsculos
a transbordar de becos ou ateando o mar,
aquele rosto ainda mais seu do que este
que desde o início se lhe impõe no espelho),

— é acaso a sua vida verdadeira,
a única a manar o impulso estranho
que no sonho se atinge
com tanta força que tem de dissipar-se.

   O que foram esses dias abolidos
sob motivos nulos
por actos não mais que nascituros
ninguém decifrará nunca,
e ele menos que todos:
ignora quem era
quando não se reconheceu ao contornar
a distância a que de si vagueava.

    Regressar, se possível fosse
avivar anos pútridos — tantos
que uns sobre os outros se esfacelam —,
e entre os seus estratos
retomar o que não pôde apreender-se
por não ter assumido a sua forma?

    Talvez então entre os corpos ressurgidos
ele brotasse, não como ressurgido
mas caminhando uma vez mais
por ruas familiares, a repor casas
onde alguém se lembraria do seu vulto,
sustentando nos ombros a matina
que o chamasse não importaria aonde:

    unos por fim aquele rosto tão ansiado
e este outro de que mal sabe ser o seu.


José Bento, in Canal - Revista de Literatura, n.º 3, Edição Palha de Abrantes, Julho/Agosto de 1998,  p. 10.

sábado, 26 de outubro de 2019

MAPAS


John Freeman (n. 1974) foi editor da Granta entre 2009 e 2013, revista literária cuja edição portuguesa é publicada pela mesma editora que acolheu por cá o seu primeiro livro de poemas. Mapas (Tinta-da-China, Março de 2019), com tradução de Miguel Cardoso, surge à margem da colecção de poesia da mesma editora, o que lhe confere certo destaque, mas quem esteja familiarizado com a moderna poesia norte-americana perceberá não haver nada de excepcional neste livro. Os três conjuntos nele incluídos mapeiam os lugares e as memórias do autor, resvalando amiúde para um biografismo, de que o poema “A Insciência” é o exemplo mais vivo, assinalado por perdas pessoais, pelo contexto familiar, pela doença e pela dor. Este território íntimo faz-se acompanhar por um percurso que nos desloca amiúde para cenários desoladores e conflituosos, através de referências a Beirute, Sarajevo, Damasco, só para dar três exemplos. Alguns poemas referem-se a situações específicas, localizadas no espaço e devidamente datadas, outros são mera expressão de um intimismo marcado pela dor da perda: «E / se tatuasse / a cara dela / na minha cara, achas / que chega? Conduzimos / por uma milha, em / silêncio até nos / apercebermos de / que é precisamente / isso que uma cara é» (p. 83). Fazendo uso de uma linguagem sóbria e contida, Freeman relata-nos viagens no espaço e no tempo, faz de cada poema testemunho de um momento onde a paisagem física se mistura com reflexão. Por vezes o verso alonga-se e chega a transformar-se em prosa, sem que cheguemos a dar pela diferença entre a realidade restringida no poema curto e a espraiada em verso longo. Lá pelo meio há um poema em toada portuguesa:

SAUDADE

quer dizer nostalgia, fiquei a saber, mas também
nostalgia do que nunca foi. Mas não é
a mesma coisa? Num café
do Rio moscas coroam o meu copo.

Como te terias deliciado com isto: o empregado
a escurecer de suor a camisa de rede. Crianças
a trotar de fatinho ou calção comprido arrastando
brinquedos e toalhas rumo à praia. Falamos,

ou falo eu, imagino a tua resposta, o calor a toldar-nos a vista.
Aqui, outra vez, o desgosto vertido na sua mais cruel tradução:
o meu tu imaginado é tudo o que me resta de ti.


John Freeman, in Mapas, Tinta-da-China, trad. Miguel Cardoso, Março de 2019, p. 103.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

UM POEMA DE RAPHAEL SASSAKI


gravidade

às vezes os literatos
valorizam demais a literatura
e isso, me parece
é um bocado errado

estou aprendendo a ler mapas de ponta cabeça
e a tirar fotos do coração das bananas

no jornal diziam que os portugueses
haviam descoberto a molécula da saudade
e aqui em São Paulo todos os dias
há graffitis novos
para apontarmos o dedo

os escombros de prédios aqui
parecem pavimentos de montanhas

às vezes tenho medo
que algum objeto estranho
leve teu corpo embora

mas é sempre bom lembrar
que mesmo na chuva
podemos sair de casa
para jogar brisa na cara
e achar pedaços de verdade
nesse fosso de estrelas


Raphael Sassaki (n. 1988), in A destruição do Mundo, Douda Correria, Junho de 2019, s/p.

HABEAS CORPUS



   Suponho que um dos maiores desafios colocados a quem escreva um conto seja o de conseguir sintetizar a vida inteira num mínimo de palavras, partindo para tal de uma situação que convide o leitor a embarcar numa viagem sem fim. Os melhores remates deixam tudo em aberto, a "punchline" e o “wit” são meros adereços num cenário sem muros nem fronteiras. Nisto o conto distingue-se do fragmento e do aforismo, frase onde o pensamento se manifesta sem recurso à acção e à personagem. E afasta-se da poesia, quando se afasta, pelo uso de uma linguagem que encerra discursos, gestos, acções, tendencialmente circunscritos a uma situação específica. 
   Se tomarmos de exemplo o conto que oferece título à mais recente colectânea de Carlos Querido (n. 1956), a segunda depois de Insanus (Abysmo, Julho de 2017), perceberemos melhor esta especificidade do conto. A situação é um funeral, as personagens são os amigos do defunto, a acção é o conflito entre os amigos e a família do defunto. Há um motivo para esse conflito. A família pretende um funeral católico convencional, desrespeitando a última vontade do morto. Os amigos empenham-se no cumprimento dessa vontade, a qual incluía cremação, a leitura de um poema de Ruy Belo e subsequente libertação das cinzas ao largo do Cabo Carvoeiro. A solução decorrente do conflito não chega sequer a ser o aspecto mais relevante. Múltiplas seriam as opções. 
   O que se me afigura bem mais relevante é o modo como o tema da morte aparece tratado neste Habeas Corpus (Abysmo, Maio de 2019), tanto neste como nos outros contos do livro. A linguagem jurídica que a expressão latina define não determina o âmbito de acção nestes contos, os quais extravasam amiúde as leis da lógica e da normalidade para confrontarem o leitor com configurações alternativas do real. Se a procura do “sentido da vida” (vide conto “O Confronto”) se processa a partir da constatação da finitude, não deixa de ser verdade que essa mesma busca leva as personagens a olharem mais para o interior de si mesmas do que para fora. 
   A certa altura, no conto “O Regresso a Casa”, deparamos com um final denunciador da filosofia subjacente ao conjunto: «Um dia, cansado de aventuras, suspendeu o olhar em redor e voltou-se para si. Tão insondáveis como o universo, só os enigmas da alma» (p. 31). Ao cansaço colhido da vida corresponde o movimento introspectivo que leva à doença, podendo esta ser entendida não apenas no sentido literal do termo mas enquanto experiência da anormalidade, do desequilíbrio, do defeito, experiência do enigmático e do misterioso. A uma percepção objectiva dos factos (vide conto “O Vidro Embaciado) preferem-se visões alternativas, subjectivas, marcadas pela doença, consultas psiquiátricas, sinais de estranheza, momentos de paralisia, confissões de traumas, angústias, medos, obsessões. E assim como sonham imenso, algumas destas personagens são também perseguidas por insónias causadores de delírios e de alucinações. 
   Carlos Querido oferece voz aos mortos para que os vivos possam falar, é a voz dos mortos que faz ressoar os mistérios recalcados na intimidade dos vivos. Não estranhemos, pois, a dupla vida da personagem no conto com o título “Duplicação”, ou aquela que se sonha árvore, ou a outra que vê saltar do espelho a sua dupla personalidade como quem se sente perseguido pela própria sombra. Os retratos dos antepassados ganham vida e peso, condicionam quem estando vivo adquire a consciência de que está à morte. No conto “O Vírus” alguém diz: «Sinto-me pertencer a um mundo paralelo, mágico, de luzes e combinações infinitas» (p. 71). É um simples técnico de informática quem fala, o que nos leva a pensar que no imo da confissão desse sentimento de pertença paira implícita uma forma de desconexão com o mundo real. Ele não se sente pertença do mundo dito normal, o mundo dos factos objectivos, o mundo das regras, das normas, das leis. O seu “habeas corpus” é a pertença a um mundo alternativo à dimensão sem dúvida nem mistério da existência, é isso que o liberta. Condenado a viver, projecta-se para fora da vida como um artista se projecta na sua criação. Libertando-se. 
   Deste modo, o que estes contos têm para nos comunicar pode também resumir-se usurpando uma frase do conto “Grafitos”: «Tinham morrido há muito, sem se aperceberem» (p. 101). E para tanto bastou arrastarem-se na vida sem a viverem. Não há melancolia nesta morte, há desespero de viver.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

UM POEMA DE SANTIAGO SYLVESTER



AS PALAVRAS QUOTIDIANAS

A questão é entender a intenção
das palavras que usamos obcecadamente:
as que o ardina grita,
as que o leiteiro murmura entre os vapores
do amanhecer,
as que rodopiam obsessivamente na cabeça do louco,
as que sem saber o carteiro leva no saco.

São poucas as palavras que sustentam a realidade
e que poderiam destruí-la apenas com a sua ausência;
são as que usamos para explicar a nossa parte do mundo,
as palavras de nossa convicção,
da nossa aposta íntima.

A questão é entender a intenção das palavras,
essa harmonia sem ênfase que se parece ao destino.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 361.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

SEM SOMBRA DE VEDETA


(clique na imagem para ver melhor)

Excerto de uma entrevista a Rui Jordão feita por Fernando Assis Pacheco, in Retratos Falados, Edições ASA, Maio de 2001, pp. 91-105.

RUI JORDÃO (1952-2019)



Foi um dos meus ídolos da infância. Discretíssimo, dedicou-se à pintura depois de abandonar o futebol. Na Wikipédia diz-se que, em 2001, concluiu Pintura e Desenho, Introdução à Historia da Arte, Historia da Arte do século XX, Temas de Estética e Teorias da Arte Contemporânea, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Lisboa. Jogava muito, falava pouco. Já não se fazem assim.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

DIA 15, TERÇA-FEIRA, ÀS 21H30


Negrume (2006), aqui, O Ano da Morte de José Saramago (2010), aqui, Açougue (2012), aqui, Um Pouco Acima da Miséria (2014), aqui

PROVEITOSA ILEGALIDADE




   À margem dos depósitos legais, eis que deparamos com duas traduções de poetas norte-americanos por cá praticamente desconhecidos. Há nomes por detrás destes esforços de divulgação e partilha. Ana Salomé (n. 1982) assina as Versões (Edições Rochedo, Maio de 2018) de Robert Duncan (n. 1919 – m. 1988), publicação de que terão sido feitos meros 20 exemplares. John Wieners (n. 1934 – m. 2002) aparece pela mão de Miguel Cardoso (n. 1976), numa recolha proveniente do livro The Hotel Wentley Poems (1958) acrescida de três dispersos e uma breve nota biográfica. Imprimiram-se 50 exemplares de Poemas do Hotel Wentley (Abril de 2019), editados por Nuno Moura no terceiro número de uma Colecção Particular que se pode considerar espécie de braço armado da já de si paralela Douda Correria. 
   Duncan e Wieners cruzaram-se algures no Black Mountain College em meados da década de 1950. Viveiro de poetas, o Black Mountain College acolheu nas suas salas Charles Olson, fundador da The Black Mountain Review e, com Robert Creeley, de uma escola de poesia frequentada por imensa gente que ficou associada aos movimentos vanguardistas daquele período. Foi nesse contexto que Olson publicou o famigerado ensaio Projective Verse, defendendo uma poética aberta à respiração do autor, na sua relação com o lugar e com a sua percepção desse lugar, garantindo ao poeta a “pauta e o compasso do músico” para que o leitor possa “vocalizar a linha” em silêncio ou em alta voz. Talvez não seja abusivo associar tais teses à então emergente relação da poesia com a música improvisada, acabando Robert Creeley por fazer a ponte entre Black Mountain e o movimento Beat de São Francisco. 
   Foi precisamente em São Francisco que Robert Duncan se tornou uma figura central da poesia norte-americana. Nascido em Oakland, recebeu da família adoptiva influências ocultistas que acabam por se reflectir nos seus poemas. Estudou em Berkeley, envolveu-se com os movimentos de esquerda, penetrou na vida boémia local, acabando por se juntar a uma comuna em Woodstock. Homossexual assumido, escreveu em 1944 o ensaio The Homosexual in Society. Em matéria de poesia, Selected Poems apareceu apenas em 1959 na City Lights de Lawrence Ferlinghetti. 
   Os quatro poemas traduzidos por Ana Salomé denotam a influência da cultura esotérica, confundindo-se neles a primeira pessoa do sujeito poético com uma segunda pessoa inspiradora de incerteza e perplexidade: «Que passageiro, que navegante / enfrenta as correntes que rodopiam em teu redor, / como se visse nessas profundezas o seu próprio espelho?» (p. 2). O diálogo constante com outros autores e obras alheias, aqui bem representado pelo poema Dois Dicta de William Blake, abre novos caminhos para uma poesia que parece edificar-se a partir de um projecto de reflexão acerca do lugar da poesia no campo de batalha onde se confrontam certas ideias de eternidade e a evidência do efémero. 
   Diferente no conteúdo, mas não necessariamente na forma, a poesia de John Wieners faz-se na relação com a efemeridade, parecendo por isso preferir a observação à reflexão. Natural de Milton, no Massachusetts, andou por Boston, Cambridge, São Francisco, Nova Iorque. Estreou-se em 1958 com The Hotel Wentley Poems, publicando posteriormente Ace of Pentacles (1964). Esteve internado em hospitais psiquiátricos, daí resultando Asylum Poems (1969). Envolveu-se em diversas causas sociais, quer na defesa dos direitos da comunidade gay, quer nos protestos contra a guerra do Vietname. 
   Frequentemente associado ao movimento Beat, os poemas de John Wieners são, como bem os sintetizou Miguel Cardoso, «líricos, perversos, reticentes, crus, eróticos, magoados, americanos, derrotados, delicados, esperançosos, frágeis». Neles sentimos a pulsação de uma América na qual o poeta mergulha sem defesas, percorrendo cidades, dedicando versos a quem com ele se vai cruzando, seja na rua, em galerias de arte ou em bares homossexuais. Quotidianos, os poemas de Wieners parecem respeitar a teses projectivas de Charles Olson, chegam-nos como um projéctil que atravessa espaço e tempo concretos, vividos, experienciados, para atingirem o coração de um país: «O poema / não nos mente. Deitamo-nos à sombra / da sua lei, vivos no glamour desta hora / com licença para entrar nos lugares sagrados / do seu povo escuro que carrega segredos / vidrados nos seus olhos e esconde palavras / debaixo dos céus das suas bocas» (s/p).
   Com estas duas publicações ligamos as margens, elas são pontes estreitas para um vasto campo inexplorado de poetas de outros tempos e de outras latitudes que assim nos  vão chegando com a beleza de um crime inofensivo. Em si mesmo, a edição destas pequenas publicações é gesto poético, proveitosa ilegalidade ao serviço de escassos leitores. 20 exemplares? 50 exemplares? Estão lançadas as sementes.