sexta-feira, 10 de abril de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #28


Minhas filhas, calhou-nos nascer num país em que a maioria das pessoas acredita que o universo foi criado em seis dias. Ao sétimo, o Criador descansou. Depois modelou o homem à sua imagem e semelhança, da costela do homem fez a mulher, da mulher fez o pecado e do pecado surgiu o arrependimento. E do arrependimento fez as maldições e os castigos. Minhas filhas, este Deus em que a maioria das pessoas no nosso país acredita tem, como qualquer Deus, as suas particularidades. Ele manda o homem obedecer. Em havendo quem prevarique, ele ordena aos homens obedientes que apliquem sua lei com vergastadas, apedrejamentos, sacrifícios, guerras, condenações à morte, destruição, castrações, mutilações, multas, enforcamentos… Deus exige, Deus revolta-se, Deus é grande e faz-se notar pelo medo: «Não tenhas pena do culpado. Deve-se exigir vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé».
   Minhas filhas, muitas pessoas no país onde por fortuna calhou nascermos crêem que há coisa de dois mil anos esse Deus teve um filho. Foi gerado no ventre de uma mulher virgem. Para que fenómeno tão extraordinário não vos confunda, socorro-me do exemplo de um tal Denis Diderot (1713-1784): «Uma mulher jovem, que se deitava de ordinário com o seu marido, recebeu um dia a visita de um jovem acompanhado por um pombo. Após essa visita, a mulher ficou cheia: e as pessoas perguntavam quem fora, do marido, do jovem ou da ave, que lhe fizera o filho. Um sacerdote que ali estava disse: «Está provado que foi a ave».» E o que está provado, provado está. Para mulheres adúlteras, o tal Deus prevê apedrejamento até à morte. Mas para mulheres engravidadas por pombos ele não previu nada.
   Podeis interrogar-vos sobre o porquê de um Deus perfeito ter pretendido um filho, ao que deverei responder com toda a honestidade: não faço a mínima ideia. Sei que depois do filho ter rezado ao pai, isto é, depois de Deus ter rezado a si mesmo, tornou-se altamente popular entre aqueles que, lavando as mãos da crucificação, agora o representam na Terra sob a figura de um Papa eleito por homens, paridos por mulheres, concebidos em pecado. Confusas? Não desespereis, o enredo vai a meio. 
   De Jesus, o nazareno, diz-se que veio à Terra para nos fazer olhar para o Céu. Com o sacrifício de seu próprio filho, Deus quis dar aos homens um exemplo de fé. Em quê? perguntais-me. Ora, fé num Deus todo-poderoso, omnipresente, omnisciente, a quem nem sequer falta um defeito para que seja perfeito. O defeito é, pois claro, o produto da sua criação. Deus tem fé em si mesmo e espero que lhe sigamos o exemplo. Citemos novamente Diderot: «Todos os povos têm desses factos, aos quais, de maravilhosos que são só falta serem verdadeiros; com os quais se demonstra tudo, mas sem que sejam eles mesmos provados; que não ousa negar quem não seja ímpio, nem pode crer quem não seja imbecil».
   Não satisfeito com o sacrifício do próprio filho, Deus ressuscitou-o. Não satisfeito em ressuscitá-lo, Deus concedeu-lhe o poder de se fazer mostrar em aparições. A ele e à mãe dele. Só Deus não se mostra. Este é, para mim, o maior dos seus milagres. Mais do que curar cegos e coxos, mais do que reanimar mortos, o grande milagre do Senhor é a sua eterna invisibilidade. Ele está lá, mas a gente não o vê. Está na terra manchada de sangue por guerras e crimes hediondos, está nos terramotos e nos marmotos, está na poluição dos céus e dos lençóis freáticos e nos plásticos ingeridos por sagradas criaturas, está nos germes, nas bactérias, nos vermes e nos vírus, está nas pandemias, a gente é que não o vê. Pois o seu milagre é não se mostrar. Deus está em tudo e como é lógico de tudo que está em tudo não estar em nada, Deus não está. Aguardemos por uma vacina.
   Podemos assim admitir, como o fez Diderot, que «Quando Deus, de quem recebemos a razão, exige o seu sacrifício, torna-se um manobrador habilidoso que escamoteia aquilo que deu»; ou que «Se há cem mil condenados por um que se salva, o diabo está sempre em vantagem, sem ter abandonado o seu filho à morte». Mas isto são verdades da lógica, a qual não contempla a Deus. A lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e ainda está para aparecer um Aristóteles que a decifre e disponha numa espécie de “Sagrado Organon”. 
   De sagrado resta-nos a “Bíblia”, esse livro onde podeis melhor compreender um legislador tão perfeito, tão perfeito, que é próprio da sua perfeição abolir-se a si mesmo mandando amar por temor ao ódio. Não vos maçarei com as parábolas do Apocalipse, toda uma lógica divina cujos enigmas estão por desvendar. Haja homem para tanto. Mas gostaria de vos sugerir os “Pensamentos Filosóficos” (Edições 70, tradução de Miguel Serras Pereira) de Diderot como pórtico para uma reflexão que terá de ser vossa. Diderot fê-la anonimamente em 1746, temendo as fogueiras dos zeladores do tal Deus sem perdão para quem questione e duvide.  Começou por ser deísta, crítico e racional como fiel discípulo de Descartes. Acabou ateu, sepultado no Panteão de Paris ao lado de outros tementes a Deus.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

BOLETIM METEOROLÓGICO


Com o país paralisado e a bandeira da cultura à meia-haste, ninguém leva a mal que as pequenas, micro e médias editoras de livros, mormente de poesia, roguem aos céus por milagres pelo menos tão promissores como foi o da ressurreição. Em nome do pai, que os leitores se multiplicassem; em nome do filho, que não fechassem portas as poucas livrarias onde é possível meter livros sem submetê-los à agiotagem de distribuidores gananciosos; em nome do espírito santo, que dos livros que fossem sendo vendidos se recebesse algum como garantia de que outros pudessem ser publicados. No paraíso cada pessoa poderia viver do seu trabalho sem ter de se submeter à servidão pragmática de extras. Longe de havermos lá chegado, e parecendo-nos cada vez mais distante por nas lamas do inferno continuarmos a patinar, ainda por cima rodeados de intervenientes que se divertem com a inumação, resta-nos purgar as mãos e garantir dois metros de distanciamento social na esperança de que em não podendo viver a respirar nos livremos de morrer com falta de ar. Por lavar as mãos entendamos, neste contexto algo parabólico, cumprir o nosso pequeno papel de leitores a quem os livros vão chegando por obra e graça do divino espírito santo.
   Eis que nos chega o “Boletim Meteorológico” (volta d’mar, Março de 2020) de Sandra Costa, autora que “Sob a luz do mar” (Campo das Letras, 2002) descobrimos num tempo já distante e à qual regressámos, mais recentemente, por culpa de um “Untitled” (volta d’mar, Dezembro de 2017) de boa memória. Apoiando-se numa terminologia meteorológica, a autora adopta agora uma coloquialidade que não é das suas marcas mais reconhecíveis, mantendo-se fiel, no entanto, à tematização da lírica amorosa que já lhe conhecemos de outras paragens. Neste sentido, o último poema, intitulado “Amanhã é o primeiro dia de Inverno”, é talvez o mais revelador da comparência de um destinatário cuja ausência ou distância contribui para a conjugação da romantização do amor com a contemplação do mar. 
   Desde a primeira hora marca fortíssima desta poesia, o mar — «elemento que é tão meu» (p. 15) — é o recurso paisagístico que atravessa quatro estações de poemas onde se mede a temperatura às emoções reflectindo estados de isolamento, distanciamento, ausência, solidão: «Em matéria de amor, / o que conta é o que consinto que permaneça / nos olhos, mesmo quando destruo todos / os versos que te escrevo» (p. 10). O objecto amoroso surge, desta forma, enquadrado num ambiente contemplativo onde sobressaem um corpo frio — «A previsão descritiva confirma que o frio / que sinto é real e não o resultado de qualquer / avaria técnica do meu corpo, tão desprovido / da seiva que só existe nos amores correspondidos» (p. 11) —, umas mãos geladas, apesar de ser Agosto, uma intimidade em dessintonia com a impetuosidade geralmente conferida à lírica amorosa: «Em desacerto com a chuva, que ora é íntima e / me desnuda ora é distância e me reveste de sede, / entregue ao frio que só o estado sólido da realidade / não poética consegue provocar, dilacerado por / relâmpagos que iluminam e apagam confidências / em milésimos de segundos como se essa fosse a / duração da eternidade, assim existe e se demora / em mim o único lugar possível onde ainda te / procuro, como um beijo» (p. 24).
   “Boletim Meteorológico” é um pequeno conjunto de poemas de uma autora no domínio pleno da sua arte, consciente do tratamento a dar a temas que, sendo clássicos e lhe sendo caros, podem assumir novas configurações, conquanto quem os recupere saiba respeitá-los fazendo coincidir os mesmos com a cadência de uma respiração singular: «Céu geralmente nublado, com períodos / de chuva e, na costa ocidental, ondas de noroeste / com dois a três metros. A previsão do estado do / tempo a coincidir com o estado de tumulto, encolho / os ombros se lhe chamas delírio, em que se está a / transformar o ritmo destes versos, sempre / a coincidir com a cadência da minha respiração» (p. 15).

segunda-feira, 6 de abril de 2020

VAI FICAR TUDO BEM


Vai ficar tudo bem, o mundo nunca mais será o mesmo. A fome no mundo acabará, os países com produções excedentárias distribuirão os excedentes pelos países necessitados. Serão implementados nestes países programas de desenvolvimento nas áreas da educação, saúde e economia. O trabalho infantil será de uma vez por todas banido da Terra, assim como o tráfico de seres humanos. Os movimentos terroristas irão depor armas, em prol de sociedades democráticas onde as mulheres e os homens tenham direitos iguais, os homossexuais não sejam discriminados e nenhum culto religioso se julgue superior aos demais. As grandes potências reunirão esforços no sentido de resolverem a crise de refugiados no mundo, cessando conflitos, restaurando a paz nos países em guerra e fomentando programas de reconstrução de infraestruturas arruinadas. A humanidade reencontrar-se-à com a Natureza, protegendo florestas e os habitats das espécies em vias de extinção. Serão banidas todas as formas de turismo que impliquem a exploração e o extermínio de outros seres sensíveis, nomeadamente o turismo sexual infantil e os safaris para caça grossa. As pessoas deixarão de ser vaidosas, pelo que o ouro e os diamantes perderão qualquer valor. Serão olhados como pedregulhos iguais aos outros. Ao pescoço, nos dedos e nas orelhas das pessoas muito ricas veremos apenas jóias feitas de materiais recicláveis. Tal como a fome, a obesidade será erradicada do mundo. As nações abdicarão igualmente de grande parte das suas forças militares, prescindindo de investimentos astronómicos em armamento, tecnologia de guerra e serviços de espionagem. Todo esse dinheiro será canalizado para a construção de hospitais, para a investigação científica nas áreas da saúde, microbiologia, química, física e afins. As ciências humanas voltarão a ser respeitadas, a cultura será revalorizada como parte integrante do desenvolvimento humano. As pessoas ocuparão muito mais tempo a ler, a estudar e a instruir-se com filmes, peças de teatro, óperas, concertos do que com fake news propagadas nas redes sociais. Estas, de resto, tenderão a desaparecer, dado o ridículo da sua natureza intrínseca. O mundo nunca mais será o mesmo, vai ficar tudo bem. A Cristina Ferreira voltará a vender hortaliças na praça e o Sporting será novamente campeão.

domingo, 5 de abril de 2020

HÄNDEL


Ao ouvir Georg Friedrich Händel ocorreu-me a possibilidade de estar a escutar música escrita por um eunuco. Deu para perceber que é um tecnicista, espécie de Satriani do Barroco. Não gosto de perfeccionistas, deixam-me a sensação de terem passado ao lado da vida. Por outro lado, o que é a vida? Um aglomerado de experiências e de projectos inacabados ou o mergulho a pique dos especialistas? Consigo admirar tanto algumas pessoas que denotam um vasto conhecimento de uma única matéria como as que sabem um pouco de tudo sem conhecerem nada a fundo. Por quem não tenho admiração alguma é pelos preconceituosos e pelos patetas que se julgam mais espertos do que os outros, menosprezando o saber de cada um. Seja ele superficial ou profundo. Enfim, não gosto nada da música de Händel.

sábado, 4 de abril de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #8


Entre as diversas ocupações que podemos desenvolver durante a quarentena, contar grãos de sacos de arroz é uma delas. Ler todos os volumes de “Em busca do tempo perdido” será outra. Eu fico-me por tentar responder a um questionário de Proust. Eis o resultado:

Qual é a sua ideia de felicidade plena?
Um sono descansado, profundo, silencioso.


Qual é o seu maior medo?
Perder um filho.


Qual é a característica que mais detesta em si mesmo?
Insegurança.


Qual é a característica que mais detesta nos outros?
Soberba.


Que pessoa viva mais admira?
Admiro predicados, não admiro sujeitos.


Qual é a sua maior extravagância?
Banhos demorados. Muito demorados.


Qual é o seu estado de espírito mental?
Pessimismo da razão, optimismo da vontade. Respiguei-o no exemplo de vida de um indivíduo que tinha tudo para ser apenas pessimista: Antonio Gramsci.


Qual considera ser a virtude mais sobrestimada?
A coragem.


Em que ocasiões mente?
Quem conta um conto acrescenta um ponto.


O que menos gosta na sua aparência?
Penugem por todo o lado.


Que pessoa viva mais despreza?
Todas as pessoas que desprezem pessoas.


Qual a característica que mais aprecia nos homens?
A rectidão.


Qual a característica que mais aprecia em mulheres?
Esfericidade.


Que palavras ou frases usa excessivamente?
Estou farto desta merda toda.


O quê ou quem é o maior amor da sua vida?
Isso não é pergunta que se faça a um homem.


Onde e quando foi mais feliz?
Sempre que consegui sair de mim mesmo. Dormindo profundamente, por exemplo.


Que talento mais gostaria de ter?
Funambulismo.


Se pudesse mudar uma característica em si, o que seria?
Mudaria a minha total inaptidão para ganhar dinheiro.


Qual considera ser a sua maior conquista?
Sou um falhado, pá, nunca conquistei nada na vida.


Se morresse e voltasse, que pessoa ou coisa seria?
Seria uma coisa a modos que ociosa. Ou um piano nas mãos de Khatia Buniatishvili.


O que mais valoriza nos seus amigos?
A amizade.


Quem são os seus artistas favoritos?
Os de circo.


Quem é o seu herói da ficção?
O homem que matou Liberty Valance.


Com que figura histórica mais se identifica?
Com o Adriano da Yourcenar, que a certa altura diz: «O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.»


Quem são os seus heróis da vida real?
Todos aqueles que aprendem a dar sem necessidade de cobrar ou de receber pelo que deram.


Quais são os seus nomes favoritos?
Os das operações policiais.


Do quê é que menos gosta?
De que me tomem por parvo quando na realidade o sou sem sequer se aperceberem que tendo consciência de que sou parvo sei bem quando me estão a tomar por parvo.


Qual é a sua aversão de estimação?
Gente racista, machista, homofóbica.


Qual é o seu maior arrependimento?
Não ter aceitado participar num seminário de línguas mortas quando era estudante de filosofia. E ter sofrido sempre por antecipação.


Como gostaria de morrer?
Todo fodido, de preferência. Dizia o Al Berto, e eu concordo: «sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir. vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite suportável, para que a morte nada encontre de mim quando vier».


Qual é o seu lema de vida?
«A vida não é maneira de tratar um animal», dizia o Kurt Vonnegut e eu concordo.


Qual considera ser o seu maior infortúnio?
Ora porra, ter nascido. Para a minha mãe foi mais difícil.


Como gostaria de ser?
Como o homem da harmónica no duelo final.


Qual é a sua asneira favorita?
Foda-se.


Onde gostaria mais de viver?
Fora de mim.


Qual é o bem mais valioso que tem?
Como a família não tem valor, direi que é um terceiro andar junto ao bairro dos ciganos em Caldas da Rainha.


Qual considera ser a maior profundidade da miséria?
Ó Proust, meu burguês, que pergunta de merda é esta?


Qual é a sua ocupação favorita?
Ouvir música.


Qual é a sua característica mais assinalável?
De mim já disseram que sou besta, lombriga, água-choca, brutinho, sabujo, verme, resto de restos, caçador frustrado, ténia, etc. Dentre todas estas características, prefiro a de verme. Tem inspirado muitos e (alguns) bons poemas.


Se Deus existisse, o que gostaria que ele lhe dissesse?
Tu vai dormir, pá.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

BILL WITHERS (1938-2020)



Estreou-se em 1971 com o álbum “Just as I Am”, onde encontramos o clássico de uma vida: “Ain’t No Sunshine”. Apesar da popularidade do tema, só lhe prestei atenção depois de o ver incluído na banda sonora de “Jackie Brown” (1997). No fime de Tarantino, o tom cool de Withers surge inconfundível ao som de “Who Is He (And What Is He To You)”. Vencedor de três prémios Grammy, não gravava um disco de 1985.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #7


Fui despertado pelo vento a roçar-se nos estores. Ontem, enquanto fumava um cigarro na varanda e contava as peças de roupa no estendal da vizinha do prédio direito, pressenti o temporal numa nuvem negra que se avistava ao largo. Pode ser que a trovoada anuncie boas notícias. Duvido. Têm estado umas manhãs maravilhosas em Caldas da Rainha, fenómeno raríssimo na mais britânica das regiões portuguesas. Quase me apetece apostar que choverá a cântaros quando derem a clausura por concluída e nos carimbarem o direito a pôr os pés fora de casa sem prestar contas ao divino Espírito Santo. Talvez devesse apostar. Com a sorte que tenho, perderia a aposta mas ganharia uma épica libertação tingida de sol, luz e ar puro. 
   Escrevo ao som de Ravel, não do "Bolero" mas da "Tzigane". Grande malha. Aproveito as horas mortas para redescobrir os discos de música clássica cá de casa, ao mesmo tempo que reviro as estantes abarrotadas e dou com inúmeros livros por ler. Salto de livro em livro sem prosseguir na leitura, prática que nunca tive e de algum modo me repugna. É como deixar comida no prato, um desperdício, um insulto aos subnutridos deste mundo. A excepção foi “A Mulher do Meio”, de Ivone Mendes da Silva. 
   Não sei se há boas e más conjugações astrais para lermos determinado livro, mas parece-me existir algo de misantrópico neste período da nossa história colectiva que acaba por favorecer os gestos simples e solitários de resistência ao desencanto com que as entradas d’”A Mulher do Meio” nos brindam. A Ivone escreve sem vírgulas, a escrita flui naturalmente, as gralhas e os lapsos conferem aos seus aforismos diarísticos uma sedutora autenticidade. Traçamos o perfil de quem nos escreve à medida que avançamos, sem que tal seja particularmente relevante para que desejemos continuar a avançar. Professora, divorciada, mãe, voluntariamente isolada no seu mundo doméstico temperado a chá, socialmente distante: «Construo a distância e com ela me protejo» (p. 13), «Trato a distância como um tesouro frágil. Protejo-me dos encontros e do ruído» (p. 53). A actualidade de «distanciamento social» politicamente infligido oferece uma ironia profética a algumas entradas : 

«Tenho a paciente ambição de um dia conseguir fechar-me em casa com curtas saídas bem espaçadas apenas para me abastecer de mantimentos e café. Também chá. Mas talvez aí eu sinta falta dos caminhos como senti hoje que não os procurei. Viver retirada afigura-se-me o que de melhor posso esperar da vida. Choveu durante a tarde mas depois abriu e o céu anoiteceu rosado. Pensei que poderia ainda ir caminhar mas recuei. Sentei-me junto à janela aberta e lá em baixo na avenida cheirava à folhagem das tílias. Ou eu o imaginava» (Língua Morta, Maio de 2019, p. 106). 

   Inofensivos, estes textos omitem quanto de desconforto há do ser para consigo mesmo. Tal refreamento é uma vantagem para o leitor. À distância, “a mulher do meio” caminha, cumprimenta, observa os outros, conservando-se igualmente distante para com quem partilha a lassidão quotidiana. Está entre qualquer coisa que se revela sem se confessar e qualquer coisa que se partilha sem se expor. Quando a Matilde terminar “Os Maias” hei-de emprestar-lhe “A Mulher do Meio”. 
   As miúdas saíram para uma caminhada breve, como ordenam os regulamentos. Ainda não haviam passado dez minutos, estavam de regresso. Uma sacristã mais papista do que o papa, devidamente ajaezada na sua farda de PSP, remeteu-as ao lar com o argumento de que não entendiam a gravidade da situação. Metidas num apartamento há três semanas, as pobres coitadas devem ter ficado traumatizadas. O conceito de passeio higiénico adquiriu todo um novo significado com o excesso de zelo da senhora agente: é uma espécie de banho de água fria, rápido e altamente desconfortável. 
   À noite revimos “O Piano”, outra história dramática com final feliz para educação sentimental de reclusos em desespero. Continuo a gostar da banda sonora do Michael Nyman, mas o que mais me impressionou desta vez foi a interpretação de Holly Hunter. O que será feito dela? Depois de “Crash” perdi-lhe o rastro.

terça-feira, 31 de março de 2020

MEA CULPA


A ignorância não tem limites, pelo menos a minha. Serve este para dar conta de uma espécie de redenção. Em 2013, a propósito de um exercício levado a cabo pelos críticos literários do Atual (ainda existirá?), dei aqui conta de uma estupefacção que tinha apenas uma razão de ser: desconhecimento. Entretanto li praticamente todos os livros de Teresa Veiga. O último que li foi História da Bela Fria (Cotovia, 1992), adquirido, pela ultrajante quantia de 1 €, numa banca de velharias. Deixo algumas frases soltas respigadas entre os nove contos do livro, cada um  melhor que o outro:

Os passeios a Milfontes tinham-me convencido de que havia outras maneiras de viver em que passavam por naturais, ou talvez o fossem, coisas que para nós eram inconcebíveis. Neste aspecto a exposição ao sol, com todas as metamorfoses que produz, fez mais pela nossa emancipação que os discursos das feministas, de que só nos chegavam ecos distorcidos. (do conto História da Bela Fria, p. 31)

Culpada ou inocente? A verdade é que não consigo chegar a uma conclusão. Prefiro considerá-los ambos vítimas de uma sucessão de acasos que os ultrapassaram. Mas vítimas que, de alguma forma, mereciam o que lhes aconteceu. (do conto O Poeta do Campo, p. 50)

O filho tinha ainda uma particularidade só dele: era anão, mas um anão alto, um metro e quarenta no bilhete de identidade azul, embora já andasse pelos dezassete anos. Já o vira anteriormente mas só à distância e para lhe mostrar que não o confundia com um garoto cumprimentara-o com um meio sorriso bem feminino. (do conto Consequências do Processo da Descolonização, p. 54)

Sentia-me abrasada de amor e compaixão pela humanidade e em especial pelos cegos, os surdos, e os mudos. (do conto O Queridezas, p. 70)

Só uma coisa me espantava: que ao contrário do que era costume tratando-se de amores ilícitos, estes fossem de vento em popa, de vitória em vitória, sem encontrar entraves externos ou internos de qualquer espécie. Era pena, tentava eu explicar-lhe o meu ponto de vista, pois sem uma certa dimensão trágica, a sua história de amor não passava d euma sucessão de quadros mais ou menos eróticos ou românticos em que os dois amantes, incansavelmente, se esgotavam na repetição dos seus papéis para um público reduzido a eles próprios. (do conto A Amante de Kropotchine, p. 78)

Ah, como é cruel darem-nos uma só vida, colocarem-nos a todo o momento na iminência de ter de escolher! O ser humano é tão contraditório! (do conto O Criado, p. 90)

Ninguém chorou no enterro. O bom povo de Vila Formosa só lamentava que não houvesse um sobrevivente para esclarecer todos os pormenores de um tão excitante enigma policial. (do conto O Criado, p. 109).

Minha querida, de todos os odores que a natureza criou para nosso deleite, posso dizer-lhe que o de uma pele curtida pelo sol é o mais sublime e excelso de todos. (do conto O Homem do Sertão, p. 136)

Nunca acreditei em bruxos e videntes mas verifico amiúde que acertam em cheio, pelo que convém desmascará-los quanto mais cedo melhor. (do conto Barbi, p. 139)

segunda-feira, 30 de março de 2020

GRIFFITH


Por razões que não me apetece desenvolver, mas que estão relacionadas com esta renovada tendência para dizer mal da China, apeteceu-me rever “Broken Blossoms”. Realizado por D. W. Griffith há coisa de um século, conta a história de um chinês que aporta em Londres com a missão de espalhar uma mensagem budista de paz e de amor. Rapidamente capitula perante a corrupção de uma sociedade eficazmente ilustrada na série “Peaky Blinders. É provável que Cheng Huan se tenha cruzado com o gangue da família Gilbert, acabando viciado no ópio e perdido de amores por uma jovem abusada pelo pai brutamontes. Acusado de racismo por causa do filme “The Birth of a Nation”, Griffith procurou redimir-se com “Broken Blossoms”. A generalidade das pessoas é mais ou menos como Griffith, mas sem um milímetro do seu talento e genialidade.

domingo, 29 de março de 2020

sábado, 28 de março de 2020

UM PINGO DE NORMALIDADE


Encostou junto ao muro do cemitério, deixando os quatro piscas ligados e o motor a trabalhar. Saiu pelo lado do condutor, de máscara no rosto e com luvas descartáveis. Retirou as luvas e guardou-as no bolso de trás das calças, ajeitou a máscara abaixo do queixo. De frente para o muro do cemitério, afastou ligeiramente as pernas, abriu o fecho das calças e inclinou a cerviz para trás enquanto desenhava estalactites com um jacto de urina. Respirou fundo como que insuflando os pulmões com o ar de uma certa normalidade. Sacudiu o instrumento antes de o recolher. Voltou a calçar as luvas e a tapar o rosto com a máscara, regressou ao carro e retomou a marcha. Presumo que tão satisfeito por aquele pouco de normalidade quão aliviado da bexiga.

sexta-feira, 27 de março de 2020

O COVID DOS PODEROSOS


Pessoas que estão muito preocupadas com o futuro, deixem-me lembrar-vos uma coisa: Adão e Eva também estavam. Entretanto, há quem julgue que os velhinhos e os doentinhos e os fraquinhos não se importam de dar a vida pela saúde da economia. É a eugenia ao serviço dos mercados. Talvez por isso alguns países tenham optado por políticas de isolamento selectivas, protegendo condomínios fechados e deixando os bairros pobres entregues à sua sorte. Um dos aspectos mais interessantes em alguns discursos que vamos ouvindo tem precisamente que ver com esta concepção maniqueísta do mundo, a qual tende a incutir nas pessoas a necessidade de optarem por uma de duas coisas: saúde pública ou economia? O vírus até pode ser um bem precioso se só matar velhos e gente estragada, o que aliviaria sistemas de protecção social sangrados por uma esperança média de via cada vez maior. Há todo um novo mundo de oportunidades à nossa espera. Só não entendo porque estes dilemas não surgem quando países decidem invadir outros países, fazendo exacta e meticulosamente o mesmo que o vírus agora ameaça fazer sem olhar a quem. Não, lamento. Não é a economia que se pretende salvaguardar, é o nível de vida das classes favorecidas. Só falta dizerem com todas as letras que isto é um problema de sociedades envelhecidas e debilitadas no sistema imunitário, pelo consumo excessivo de álcool, tabaco e benzodiazepinas. Se calhar já disseram e eu não ouvi.

Adenda: este artigo no The New York Times inventaria de modo cirúrgico as mentiras germinadas na boca suja de Donald Trump. São às dúzias. Entretanto, segundo os números da Universidade de Medicina Johns Hopkins, os USA são já o país com mais casos de infecção confirmados: 104837. O número de mortes não pára de crescer: 1711 ao dia de hoje.

quinta-feira, 26 de março de 2020

É A COVIDA, ESTÚPIDO!

Peixes inteligentes, pássaros espertos, líderes burros.

DIÁRIO DA QUARENTENA #6




Pensei que talvez fosse boa ideia contemplar o Atlântico depois de tantos dias fechados em casa. Temendo desrespeitar as regras do estado de emergência, ligámos para a PSP a indagar sobre direitos no usufruto de miradouros e belvederes. O senhor agente deve ter-nos julgado tontos, rematando prontamente a conversa com uma nega tonitruante. Somos um ajuntamento. Ainda pensei fintar a classificação distribuindo o mal por freguesias, que é como quem diz dois em cada viatura, mas logo a consciência pesou tanto sobre os ombros que a cervical voltou a resmungar. A quem mais ouvi dizer que este país precisava de um Salazar em cada esquina ouço agora protestos e divirto-me com as desculpas ensaiadas para fintar os mandamentos da autoridade. Acabámos a ver passar navios da varanda cá de casa. Não posso dizer que se esteja mal, apesar de ao fim de tantos dias confinados o ajuntamento começar a parecer uma multidão. Cabe a cada um a missão de tornar o espaço amplo respeitando os tempos do outro, imprimindo ritmos ao dia que não os desvirtuem da normalidade outrora contestada. «Se tivesse que viver um filme, ao menos que fosse um musical», desabafa a Ana, antes de eu enfiar os auscultadores nos ouvidos para escutar repetidamente a “Polonesa Heróica” de Chopin. Arruinada a pouca reputação que me restava com parvoíces nas redes sociais, socorro-me de um pianista polaco para recuperar alguma consideração. Leio na Wikipédia, inescrutável fonte de erudição, que o tal de Chopin morreu rodeado de amigos. Eu também estou rodeado de amigos, uns espalhados ao longo das paredes de casa, outros nas estantes atoladas de livros, e ainda aqueles que sem se fazerem notar neste modo material de estar vão dando conta de si rumorejando o desejo de um reencontro. Quando isto passar, dizem. E dentro de mim despontam personagens de quando e como isto era antes de ter começado a ser, o psicólogo de Arnaldo aconselhando-lhe vida própria, que o trabalho não podia substituir a vida, era preciso espairecer, estirar as pernas sobre a relva dos parques, desfrutar do convívio numa esplanada em tarde soalheira. E Arnaldo a olhar para a lista interminável de números no telemóvel sem encontrar um a quem achasse valer a pena ligar, hesitando, adiando, protelando para épocas de folguedo um simples “como tens passado?”. E o psicólogo a pensar na falta que lhe faz Arnaldo. Não se está mal na varanda, a espreitar a roupa dos vizinhos nos estendais e a contar gaivotas no céu. Há dias pareceu-me ter avistado um milhafre a pairar nas alturas, enquanto cá em baixo um láparo se ocultava entre as piteiras. Barrico-me na varanda como um gato a mirar melros, pintassilgos, pardais, pombos, rolas… Bem queria encontrar lesmas, Rita, mas para tanto basto eu.

quarta-feira, 25 de março de 2020

QUÓRENTENA


Carolina acha o máximo esta coisa da quórentena. Nunca se sentiu tão livre como agora, a fingir que trabalha de casa, com o consorte por perto, alapado ao smartphone, e os petizes num vaivém de jogos, partidas e piadas secas, que é uma graça só de vê-los. Por ela, ficava de quórentena o resto da vida. Está desejosa que chegue o Verão, o areal da Comporta todo seu. E nem quer imaginar como será no Natal, poder correr a baixa de alto a baixo sem ser importunada pelas multidões. O El Corte Inglés deserto é um sonho que nunca imaginou ver realizado.
— Querido, estava aqui a pensar que este é o momento ideal para levarmos as crianças à Disneyland. Não concorda?

terça-feira, 24 de março de 2020

UM POEMA DE LUÍS CHACHO



GAIVOTAS

«Baixas a bola», atira ela ao homem (dele não sabemos se família afastada ou assim, ou alguém a mais neste momento, apenas que tem mais idade que os outros), no intervalo em que pára os braços, os levanta por entre o nevoeiro, interrompendo seu movimento de lavrar a maré. Faz-lhe companhia, e ajuda com outro braço à mão num ancinho, a criança para cá e lá a afastar o lodo no chão, à procura do que andarão eles à procura. A maré, esta, atrasada em ponto até ao bater na espessa cortina presa ao céu.
O homem afasta-se, por sua vez, até ao limite da sua voz; para que dele se continue a ouvir «amanhã digo a ele que já não lhe voltas a falar, amanhã digo a ele», por cima do musgo e das pedras negras, este conjunto embutido na matéria plástica a maior parte do tempo coberta por água.
Aqui os barcos pousados, presos por cordas a cavilhas grossas, cravadas no mesmo que já vimos.
A canção das gaivotas, pontuando os silêncios entre eles, a virem certeiras a romper o tom cinzento no ar; pousando depois nas poças de água deixada para trás pelo rio, caminhando nelas, a mergulharem o bico na sua pouca profundidade. 

São estas gaivotas que dão princípio à estória; me alertando com a sua presença à margem do que acontece, me imobilizando, me tirando do caminho onde ia, me levando a escrever por cima da tarde em que estamos todos presentes.
«Cala a boca, caralho!», diz por fim a mulher.

Luís Chacho, in Garrotilho, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2020, p. 44.

PECADOS DE QUARENTENA


Tenho pensado muito nas pessoas a quem emprestei livros, CDs e DVDs que nunca me foram devolvidos. Confesso, Senhor, que não têm sido bons pensamentos.

ESTENDAIS


Gina esperou toda a noite que um carro parasse. Não viu vivalma. Pela alvorada, Arnaldo, o voyeurista, passou montado numa trotineta. Gina acenou-lhe, mas ele seguiu na mecha. Recolheu-se na varanda a mirar a lingerie desdobrada nos estendais das vizinhas.