antologia do esquecimento
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA
Coincide a morte com a vida, o silêncio com a palavra. Escutemo-la. Breve Ensaio Sobre a Potência (Língua Morta, Janeiro de 2012) é apenas uma parte de um livro mais extenso. A data de edição poderá levar-nos a falar, no futuro, de primeira obra póstuma. Prefiro referir-me ao livro como última obra publicada em vida. Pormenores de somenos importância, é certo. Mas convém sublinhar o recato e a discrição dos editores em circunstâncias tão adversas. Com um formato em tudo semelhante ao dos saudosos folhetos da colecção subterrâneo três (&etc.), este poema-sequência marca o regresso de Rui Costa (1972-2012) à edição após As Limitações do Amor são Infinitas (Sombra do Amor, Junho de 2009). Além destes, foram anteriormente publicados os livros A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi Edições, Maio de 2005), Prémio Daniel Faria 2005, e El desayuno de Carla Bruni/O pequeno-almoço de Carla Bruni, edição bilingue com versão castelhana de Uberto Stabile (Ayuntamiento de Punta Umbría/Livrododia Editores, Inverno de 2008) Cingimo-nos, obviamente, à poesia e a publicações em nome individual. Este breve ensaio... são trinta e uma estrofes, na sua maioria de sete versos, onde Rui Costa ensaia uma cosmologia poética em perfeita sintonia com aquilo que foi/é a coerência da sua obra. O verso inaugural — «a luz é a metáfora do verbo» (p. 5) — envia-nos directamente para o Génesis, o primeiro livro da Bíblia onde a criação do mundo serve de cenário a uma análise da condição humana. A metáfora declarada acaba por ser uma não-metáfora, é antes o portal de um discurso algo hermético que procura dar imagem às relações alquímicas que estão na origem das coisas. O poeta não enjeita o invisível e o inexplicável, funde numa só matéria, porque a linguagem lho permite, as relações indecifráveis e enigmáticas entre luz e sombra, fauna e flora, ruído e silêncio. Há nesta atitude a crença numa linguagem poética enquanto território onde o que parece contraditório às leis científicas assume uma lógica própria. Deste modo, a poesia não copia a realidade, reinventa-a, subverte-a, vira-a do avesso com suas imagens e metáforas, armadilha o leitor, deixa-o na expectativa, transforma-o não só num espectador, mas sobretudo num ser actuante. No entanto, o tom dominante nas primeiras estrofes, típico de qualquer cosmologia onde a ciência pede favores à imaginação, adquirirá nas estrofes subsequentes um sentido muito mais acessível. Rui Costa respiga na química, na física, na biologia, na antropologia, vários elementos que incorpora nos seus poemas, evoluindo a pouco e pouco de uma panorâmica geral para uma reflexão mais concentrada na figura do homem (do nascimento à evolução, do homem primitivo ao homem actual). É curioso verificar que a esta evolução corresponde, igualmente, uma inflexão na direcção do discurso. Primeiro o homem pede para nascer, depois «é um fantasma calmo descansando / na margem» (p. 12), entretanto comove-se, «tem vontade de comer mas entretém-se / com uma luz que lhe sai da barriga» (p. 15), pensa, constrói, gera os seus inimigos e inventa Deus, fabrica punhais e degenera numa coisa reproduzível, baixa, saturada:
26
Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
Há uma consciência política na poesia de Rui Costa que pode passar despercebida se lhe fragmentarmos o raciocínio, porque, na verdade, o que este poema-sequência demonstra é que nenhuma parte do poema faz sentido isoladamente. Há, no decorrer das trinta e uma estrofes, uma evolução discursiva que se revela em diversos pormenores formais, semânticos e sintácticos. De um discurso “iniciáticamente” hermético evoluímos para um discurso muito mais claro, mas não necessariamente luminoso, onde o que se joga é, precisamente, a degenerescência do ser humano, o seu afastamento de coisas essenciais tais como a natureza e o amor. É como se ao tornar claro o discurso o poeta quisesse dizer-nos que essa clareza corresponde a uma fase já muito distante da nossa natureza profunda, a qual será sempre, para todos os efeitos, confusa, paradoxal, contraditória, misteriosa, contrastante. As ilustrações são de Maria João Worm.
Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
UTOPIA
Camarada Van Zeller, dou por mim a acreditar na utopia e suas tão raras virtudes. É preciso reanimá-la, se preciso for trazer Tomas Morus em versão de bolso nos anoraques cinzentos deste seco Inverno. É preciso reaprender a semântica do pusilânime nobre, para dar cabo dela antes que ela dê cabo de nós. Por menos que corninhos dissimulados puseram-se a andar ministros, um Presidente insulta toda uma nação e logo aparecem embaixadores do desagravo. Nenhum Ulisses nos salvará em tão desembarcada viagem. As bússolas estão todas sintonizadas numa mesma direcção, entre norte e sul nem uma nesga de raiva permite distinguir a tépida indignação generalizada da generalizada indignação inconsequente.
Os poetas vão à missa quais escuteiros, reúnem-se em retiro, de mãos dadas, a cantar o kumbayah. É tudo belo e maravilhoso enquanto formos anjos do senhor numa anódina e acrítica, pelo menos tanto quanto acéfala, irmandade. Ó pichas moles, ó traída tusa da pátria consumada. Merecemos descanso de tanto tédio. Por todas as ruas, por todas as vielas, por todas as avenidas, manifestações de vergonha sem efeito. Fazem-se petições, compartilham-se cenas tristes, distribuem-se likes e links como quem semeia inoperância, por todo o lado textos saturados de prejuízo, nenhum acto, nenhum gesto para lá da frente amuralhada deste desconforto que é viver postergado pelos chefes da nação.
Só uma explicação existe para o pântano: nas urnas reelegem-se vigaristas, crápulas, tontos, ladrões para podermos continuar a ter alvos à altura do malogro. É puro masoquismo, é puro masoquismo. E a gente, sem querer, corrobora a promoção dos inúteis enquanto abrimos portas já abertas. Dou por mim a acreditar na utopia e suas tão raras virtudes, sou pelas soluções violentas. Em vez de petições matizadas pela parvoeira generalizada, em vez dessas quimeras irrisórias, em vez de tardes inteiras a compartilhar opiniões sem vento nem tempestade, em vez de curtes e menosprezáveis simpatias sociais, proponho soluções violentas.
Não paguemos a água nem a luz, apaguemos os quadros eléctricos, reduzamos ao máximo possível todo o consumo, entreguemos já amanhã todas as boxes, devolvamos o MEO ao MEO, destruamos as televisões, recusemos. Compensemos o mérito com o mérito, incendiemos nas nossas varandas as bíblias do Estado, livros de recibos verdes, declarações electrónicas, seguros, ASAE, sujeitemo-nos à multa generalizada, abramos a porta aos cobradores e aos cobardes e sentemo-nos com eles, à lareira, a beber chá e a declamar poemas. Permaneçamos em casa, abandonemos os postos de trabalho às mãos dos nossos patrões, eles que limpem as estantes, aspirem as alcatifas, eles que carreguem aos ombros o trabalho miseravelmente pago que nos leva o tempo, a família, os amigos, a vida. A Celeste que mude as fraldas ao Eduardo.
Uma moeda para o Presidente não basta, é preciso construir-lhe uma arca com A Utopia bordada nas velas, lançá-lo ao mar e deixá-lo à deriva com suas invioláveis convicções. É preciso encontrar saída para a raiva. Vomitá-la em prosa sem estouro não chega. Amanhã já ninguém se lembrará de que hoje existimos e fomos agredidos pela existência, amanhã o esquecimento fará o seu trabalho ao dobrar da esquina, pois que chegados às avenidas do pensamento é tanto o ruído, são tantos os casos, é tanta a contra-informação que já nenhuma paciência restará para abrir os olhos antes de atravessar a estrada. E quando menos dermos por isso, seremos atropelados sem sequer termos pisado a terra da Utopia.
Os poetas vão à missa quais escuteiros, reúnem-se em retiro, de mãos dadas, a cantar o kumbayah. É tudo belo e maravilhoso enquanto formos anjos do senhor numa anódina e acrítica, pelo menos tanto quanto acéfala, irmandade. Ó pichas moles, ó traída tusa da pátria consumada. Merecemos descanso de tanto tédio. Por todas as ruas, por todas as vielas, por todas as avenidas, manifestações de vergonha sem efeito. Fazem-se petições, compartilham-se cenas tristes, distribuem-se likes e links como quem semeia inoperância, por todo o lado textos saturados de prejuízo, nenhum acto, nenhum gesto para lá da frente amuralhada deste desconforto que é viver postergado pelos chefes da nação.
Só uma explicação existe para o pântano: nas urnas reelegem-se vigaristas, crápulas, tontos, ladrões para podermos continuar a ter alvos à altura do malogro. É puro masoquismo, é puro masoquismo. E a gente, sem querer, corrobora a promoção dos inúteis enquanto abrimos portas já abertas. Dou por mim a acreditar na utopia e suas tão raras virtudes, sou pelas soluções violentas. Em vez de petições matizadas pela parvoeira generalizada, em vez dessas quimeras irrisórias, em vez de tardes inteiras a compartilhar opiniões sem vento nem tempestade, em vez de curtes e menosprezáveis simpatias sociais, proponho soluções violentas.
Não paguemos a água nem a luz, apaguemos os quadros eléctricos, reduzamos ao máximo possível todo o consumo, entreguemos já amanhã todas as boxes, devolvamos o MEO ao MEO, destruamos as televisões, recusemos. Compensemos o mérito com o mérito, incendiemos nas nossas varandas as bíblias do Estado, livros de recibos verdes, declarações electrónicas, seguros, ASAE, sujeitemo-nos à multa generalizada, abramos a porta aos cobradores e aos cobardes e sentemo-nos com eles, à lareira, a beber chá e a declamar poemas. Permaneçamos em casa, abandonemos os postos de trabalho às mãos dos nossos patrões, eles que limpem as estantes, aspirem as alcatifas, eles que carreguem aos ombros o trabalho miseravelmente pago que nos leva o tempo, a família, os amigos, a vida. A Celeste que mude as fraldas ao Eduardo.
Uma moeda para o Presidente não basta, é preciso construir-lhe uma arca com A Utopia bordada nas velas, lançá-lo ao mar e deixá-lo à deriva com suas invioláveis convicções. É preciso encontrar saída para a raiva. Vomitá-la em prosa sem estouro não chega. Amanhã já ninguém se lembrará de que hoje existimos e fomos agredidos pela existência, amanhã o esquecimento fará o seu trabalho ao dobrar da esquina, pois que chegados às avenidas do pensamento é tanto o ruído, são tantos os casos, é tanta a contra-informação que já nenhuma paciência restará para abrir os olhos antes de atravessar a estrada. E quando menos dermos por isso, seremos atropelados sem sequer termos pisado a terra da Utopia.
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
LEGO
Algumas pessoas dizem que é mais fácil se acreditarmos num homem barbudo sentado nas nuvens, mas as nuvens estão distantes da Terra e entre as barbas e a espuma de barbear há toda uma teoria da literatura por fazer. Carente de provas, prefiro acreditar em Santo Agostinho e nas suas dores confessadas. Era muito novo quando ouvi falar dele pela primeira vez. Talvez já tivesse um buço a pedir depilação, mas barba não tinha — ainda que andasse sempre nas nuvens. Contou-me a catequista, que por acaso tinha um talho onde a minha mãe comprava querubins para grelhar, dos amores agostinianos, das falhas e de como a santa providência o encaminhou para a Cidade afastando-o de viciosas inclinações. Ao escutá-la, dentro de mim cresceu um arco-íris de uma só cor com muitas tonalidades. Julgava impossível poder alguém perdoar todos os pecados a tão asquerosa criatura, mesmo tratando-se de pequenos e breves pecados, ligeiros pecados, acumulados ao longo dos anos sem consciência nem intenção. Pecados tais como pilhar galinhas para matar a fome, sonhar com bailarinas para evitar a dança, cuspir para o chão com lenços no bolso, trocar carícias com livros heréticos. Deve ter sido por essa altura que entre mim e as palavras se desfez uma espécie de mistério, o mistério da formalidade que nos obriga a tratar na terceira pessoa quem nos pariu. Pedi à minha mãe que no caminho para o talho passasse pela papelaria e me adquirisse um caderno preto onde pudesse eu apontar todas as batidas do coração. Foi isso que passei a fazer, por culpa de uma catequista que espero vir a encontrar no Inferno — lugar que imagino como uma nuvem carregada de relâmpagos e trovoadas. Saem-me assim os arco-íris com a cadência das arritmias, às vezes em ritmo acelerado, outras vezes em baixa tensão, por vezes ainda em palpitações de intensidade diversa. Não posso por isso dizer que alguma vez me tenha arrependido de dar à luz, mas é verdade que amiúde se instala entre o acto de sentir e o efeito de pensar uma espécie de hiato que só não me dá cabo das têmporas porque as devo ter de ferro. Qualquer dia, fica a promessa, ainda me desmonto por completo como se tivesse nascido lego. Depois hei-de pedir aos meus amores que brinquem com cada uma das peças do meu corpo e que, de preferência, deixem o esterno no lugar do fémur e a tíbia num lugar onde seja confortável coçar os pés. É que assim como nasci não dá jeito algum. E, mal por mal, eu gostava de me olhar ao espelho e reconhecer um pouco de mim.
Ao alto: Diálogo com a Juventude, de Martin Kippenberger, 1981.
dona vida
Há basto tempo não vos conto meus domésticos vícios. Julgaram rotos leitores que a verga se calou, imune ao desafogo que na poesia esbate punheteira forma. Esganai-vos com prosa de só coçardes a dita em perambólica monha, eu vos perdoo. Rico não estou porém da estranja sina, alargo a experiência com tântricos remédios. No mosteiro de singeverga foi assim: o sacristão fendido ajudando a preparação do licor e eu esgalhando a mastodôncia pra cima do madeiro cá de trás. Cantou o coro com a gosma entrando plas bocas a afinar o vício, que a santonta desceu cá abaixo a ver se havia mais. E havia, fiz-lhe um soneto que ela perguntou se podia chamar um anjo pra lhe amparar a excedentária coma s asas. O anjinho entalou-se com a dita e solfejou mais cedo, a superiora também quis. Jesus Cristo dai-me disto. E dei eu, tomai deste céu. Santa senhora, que o sois menos agora. As asas do anjinho esburacadas do travasso assertório resvalando plas hóstias, tvi à porta, o altíssimo de hossanas a pedi-las. E como não gosto que me peçam virei-me às câmaras e entalei o gorgulhão até se virem escuras, e foi assim que me amancebei com deus, que afinal é gaja e tem uma xauvineta que dá pra encalcetar o universo. E depois fui-me, com um sentimento bastante agradável a pingalhar o tapete dos restos da minha alegria.
Alcides, in Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião, prefácio de Henrique Fialho, 7 Dias 6 Noites – Editores Unipessoal, Lda., Exodus, Fevereiro de 2008, p. 21. Mais de Alcides: Alcides.1, Alcides.2, tofu.3, jackpot.4, donamorte.6, virgenetas.7, teoriatoda.8, passagemdeano.9, Pessoa.10 e Oriental.9. Já agora, deixo-vos também ligação para uma Imitação de Alcides.
Domingo, 22 de Janeiro de 2012
NATURALIDADE DA PAIXÃO INSENSATA
Lei da Gravitação Universal de Isaac Newton:
todos os objectos são atraídos uns pelos
outros com uma força directamente
proporcional ao produto de suas massas e
inversamente proporcional ao quadrado das
suas distâncias.
— O homem hoje não vem — pensou a Árvore.
Disse-lhe o Vento:
— Vem ali ao fundo.
Era verdade.
Não era lento, ele, mas fazia muitas paragens pelo caminho. Às vezes olhava para o céu. Depois dava mais uns passos. Metia as mãos nos bolsos e endireitava as costas.
Estava sol. O homem vinha sempre que estava sol e sentava-se à sombra.
— Ele tem sombra dentro de casa, mas gosta mais da minha — pensou a Árvore.
Claro que sabia que não era assim. Dentro de casa não há sombra. Há um líquido qualquer mais imponderável que a seiva. Não chega a ser mais espesso do que o ar —pensou e disse o Vento, enquanto se enrolava nas folhas mais novas.
O Vento falava mas as folhas mais novas não se esforçavam para ouvir. Ficavam tesas esperando que ele fosse para outro lugar. Claro que também nem era isto. Ficavam, as folhas mais novas, à espera do que acontecia. E passados alguns dias habituavam-se ao Vento e deixavam de pensar nele. Aparentemente, essas folhas também não se preocupavam com o homem. Sentiam o estremeção provocado pelo encostar das suas costas ao tronco. Se já conseguissem falar, diriam ao Vento para ir mexer nos cabelos do homem.
O homem não tinha cabelos.
Trazia muita roupa. Parecia que andava sempre com frio. Como é que o Vento fala com um homem sem cabelos? Que homem tão antipático — disse o Vento.
O homem sorriu. Esticou mais as pernas.
A última noite deste homem foi uma noite sem sono. Não é normal um homem de quarenta anos apaixonar-se pela primeira vez. Sempre que sorria, Newton ficava sério durante vários anos.
A natureza é uma coisa estranha — disse-lhe essa mulher, alisando o vestido. — E ocupa muito espaço.
Ele saiu e ela ficou a espreitá-lo da janela com ar enfadado. Desde menina que não descia as escadas até à rua. Traziam-lhe botões de rosa triturados com limão e açúcar. Lia trinta páginas de livros por dia. Falando, fechava levemente os olhos. Lavava os cabelos todos os dias, mas não gostava de sentir a cabeça fria enquanto eles não secavam. Masturbava-se às seis da manhã da primeira segunda-feira de cada mês. Achava que o mundo era bonito, mas não suficientemente imprescindível. E não se comprometia com ele, porque lhe parecia impossível respeitar tudo o que não a fizesse sofrer um bocadinho. Considerava qualquer tipo de acção um abuso, porque sabia que em esforçando-se tudo podia conseguir. Por isso Newton caíra-lhe bem. Era o sujeito menos atraente com que em toda a sua vida se cruzara. Nem sedutor, nem sequer capaz de um veneno miúdo. Finalmente tinha um desafio crescido. Um pouco de incómodo dentro das paredes da casa perfeita sob o mundo. Não era perfeita: na sua órbita nem sequer chovia.
Newton à sombra de Árvore. O sol inchando sobre os campos acossados do país azul. Os animais. As lontras, pode ser, espreguiçavam-se a dois mil quilómetros plenos de água. Focinhos rasantes, a consciência de um habitat devastado. Aqui de novo: sombra sobre a testa de Newton. Agradou-lhe aquela jovem tão robusta de vontade. Depois este pensamento trouxe-lhe um temor: seria santa?
Não era por causa disso. Nem era católica, embora sua educação tivesse sido. Os seus pais levavam vidas normais: nem suficientemente discretos para não se preocuparem com o reconhecimento, ainda que anódino, da sociedade local, nem ambiciosos o bastante para se esforçarem na conquista de lugares proeminentes nas profissões ou na política. Era, provavelmente, como se sempre ela tivesse sido assim. Talvez em pequena já torcesse o nariz quando se tratava de ir ao jardim. E durante os dois anos em que esteve doente os professores iam a sua casa. Mas agora era uma mulher saudável; apenas as saias podiam ser um pouco mais curtas. Estamos no verão, ainda por cima, mas ela parece nunca ter calor. Nem frio, aliás. Santa não é, bem reparei como me olhou os pés, as pernas, subindo pela barriga e até ao pescoço e ao queixo. Depois hesitou, não me olhou os olhos. Mas não é santa nenhuma, nem fez nenhuma promessa. Nem tomou como missão a descoberta dos Rios, o isolamento introspectivo, uma forma invulgar de suscitar atenção. Sim, as saias mais curtas. O Vento explicou à Árvore que ia até ao vale.
Foi então que a maçã se desprendeu.
Caiu-lhe na cabeça com um poc! auto-confiante, saltou ligeiramente, e começou a rolar pela barriga do homem sentado que levantou o corpo e aproximou a mão do fruto condescendente que avançava.
A mão de Newton comandou os dedos e o olhar de Newton arregalou-se com a visão do objecto.
Newton pôs-se de pé, e caminhou como se movido por leis de gravitação universal.
Rui Costa, in Da Natureza — 1 + 9 contos, coordenação editorial de Sara Monteiro, ilustrações de Margarida Parente, Fundação Odemira, Março de 2009, pp. 13-18.
EM MEMÓRIA DE MINHA MÃE
Não penso em ti jazendo no barro húmido
De um cemitério em Monaghan; vejo-te
A caminhar por uma ruela entre os álamos
A caminho da estação, ou indo alegremente
À segunda Missa num domingo de Verão —
Tu encontras-me e dizes:
“Não te esqueças de tomar conta do gado” —
Entre as tuas telúricas palavras vagueiam os anjos.
Penso em ti caminhando ao longo de uma península
De aveias verdes em Junho,
Tão tranquila, tão cheia de vida —
E vejo-nos a encontrarmo-nos por acaso num dia claro
No termo de uma cidade, depois de
Os negócios estarem fechados e nós podermos andar
Juntos entre as lojas e as tendas e os mercados
Livres nas ruas orientais do pensamento.
Ó, tu não estás jazendo no barro húmido,
Pois agora é noite de colheita e nós
Estamos a descascar o trigo à luz da lua
E tu sorris para nós — eternamente.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF.
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
"SÓ ME SAEM DUQUES"*
"Sempre estranhei o Rui. O seu discurso de agradecimento do Prémio Daniel Faria foi como ele era: "o Daniel Faria estará neste momento honrado por me ter como primeiro vencedor". Afastámo-nos naturalmente, dado o meu estranhamento da sua personalidade. Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi."
Esta foi a mensagem que o escritor, poeta, editor, cronista Jorge Reis-Sá achou por bem deixar no Facebook ontem, dia 20 de Janeiro, no dia em que a família e os amigos do Rui Costa lhe prestavam a homenagem devida. Por mais que viva, leia, respire, observe, sinta, jamais conseguirei compreender a cretinice que dá forma a este esterco de gente chamado Jorge Reis-Sá. Como ex-editor do Rui, o Reis-Sá podia ter ido ao funeral. Foi o que fizeram, entre outros e bons amigos, o Rui Manuel Amaral, a Margarida Vale de Gato, o Rui Lage, o André Sebastião, o António Pedro Ribeiro, a Sandra Cruz, a Patrícia Bettencourt... Podia ter mostrado algum pesar, como tantas pessoas fizeram questão de manifestar por essa teia de facebooks e blogs onde parece que vivemos cada vez mais esquecendo-nos de que “a rua é a casa de todos”. Não, preferiu ficar em casa a dar corda a pensamentos mesquinhos. O Jorge sempre estranhou o Rui, eu hei-de sempre estranhar o Jorge. O discurso supracitado foi, de facto, como ele era, um provocador nato, alguém que detestava os formalismos e o conservadorismo da cena literária e procurava romper com isso agindo, provocando, levando o riso a rostos onde só se vê seriedade, pedantismo e presunção. No dia 11 de Dezembro dizia-me o seguinte: «na universidade chamam-me provocador (os profs) /pk mandei umas bocas, pk akilo é elitista e conservador». Era assim o Rui Costa. Provavelmente o Jorge, ao ouvir “as bocas”, deve ter pensado que o Rui se julgava mais importante que o Daniel Faria, poeta que muito admirava. O Jorge é burro, não admira que tivesse pensado assim. Não lhe terá passado pela cabeça que fosse exactamente o contrário, o discurso de alguém que, acreditando na qualidade daquilo que fazia, preferia não se levar demasiado a sério e evitar a “importanticidade” da cena literária portuguesa? O Jorge afirma que se afastou naturalmente, por estranhar a personalidade do Rui. Pode um indivíduo ser editor de livros afastando-se dos escritores por lhes estranhar a personalidade? Meu Deus, há mundo com personalidades mais estranhas do que o mundo da literatura? O Jorge não tem categoria para vender sabonetes, quanto mais para ser editor de alguém. Só num país como o nosso é que se dá guarida a imbecis destes. Imaginem o que seria de Herberto Helder se tivesse apanhado editores como o Reis-Sá, editores que se afastam dos autores porque eles têm personalidades estranhas. No entanto, o editor, afastando-se da personalidade estranha do escritor, não quis afastar-se da personalidade estranha do tradutor. E assim o Rui Costa traduziu para as falidas Edições Quasi livros infantis: O Velhote de Lochnagar, Gordito e os Bombeiros, O que há de errado com o Tim? e Para onde corre a raça Humana? (Maio de 2007), O Snugal-Flijer bebé, Este e aquele em Splat! (Junho de 2007). Portanto, ao afastamento do escritor correspondeu uma aproximação ao tradutor. Mas se isto pouco importa, são águas passadas, o que sobra chega a ser desumano. Os lamentos do Reis-Sá são de uma insensibilidade inqualificável. Convém citar novamente, para que fique bem claro o nojo de gente com que estamos a lidar:
Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi.
E quais foram as causas da morte? O Jorge sabe? A polícia sabe? A família sabe? Os amigos sabem? É que eu ando há 15 dias a imaginar cenários e tudo me parece possível: um homem esbarra e cai ao rio, um homem é empurrado para um rio, um homem atira-se ao rio, um homem é atirado ao rio… Porque nenhum destes cenários está provado, cabe questionar o senhor Reis-sá por que razão para ele um dos cenários é mais válido que o outro? Para poder lamentar uma suposta “insegurança na vida”? Partamos do princípio que sim, que o Rui Costa era “inseguro” como terão sido Antero de Quental, Heinrich von Kleist, Emilio Salgari, Manuel Laranjeira, Sara Teasdale, Vachel Lindsay, Mário de Sá-Carneiro, Marina Tsvetaeva, Vladimir Mayakovsky, Sergei Yesenin, Hart Crane, Ernest Hemingway, Arthur Koestler, Cesare Pavese, Antonia Pozzi, Randall Jarrell, John Berryman, Única Zürn, Paul Celan, Maria Ângela Alvim, Anne Sexton, José Agustín Goytisolo, Sylvia Plath, Alejandra Pizarnik, Luis Hernández Camarero, Eduardo Guerra Carneiro, Ana Cristina Cesar, Pedro Casariego Córdoba, David Foster Wallace, entre tantos, tantos outros escritores, músicos, pintores, artistas “inseguros” ou, quiçá, um pouco mais sensíveis do que a maioria e, por isso, diferentes e “estranhos”. Partamos do princípio de que toda esta gente se matou porque era “insegura na vida”. Esqueçamos as causas íntimas, profundas, irreveláveis e imponderáveis que podem levar a uma decisão fatal. Façamos tábua rasa disso tudo e julguemos, como se fôssemos esterco de gente, que um homem só se mata porque é inseguro na vida. Por que razão isso levaria a uma atitude diferente do editor? Porque teria o editor agido de forma diferente? Dúvidas que permanecerão no ar, com a certeza de que, enquanto for vivo, eu só guardarei tristeza por a vida ser como é.
*Expressão utilizada pelo Rui numa conversa mantida no dia 22 de Novembro de 2011.
Esta foi a mensagem que o escritor, poeta, editor, cronista Jorge Reis-Sá achou por bem deixar no Facebook ontem, dia 20 de Janeiro, no dia em que a família e os amigos do Rui Costa lhe prestavam a homenagem devida. Por mais que viva, leia, respire, observe, sinta, jamais conseguirei compreender a cretinice que dá forma a este esterco de gente chamado Jorge Reis-Sá. Como ex-editor do Rui, o Reis-Sá podia ter ido ao funeral. Foi o que fizeram, entre outros e bons amigos, o Rui Manuel Amaral, a Margarida Vale de Gato, o Rui Lage, o André Sebastião, o António Pedro Ribeiro, a Sandra Cruz, a Patrícia Bettencourt... Podia ter mostrado algum pesar, como tantas pessoas fizeram questão de manifestar por essa teia de facebooks e blogs onde parece que vivemos cada vez mais esquecendo-nos de que “a rua é a casa de todos”. Não, preferiu ficar em casa a dar corda a pensamentos mesquinhos. O Jorge sempre estranhou o Rui, eu hei-de sempre estranhar o Jorge. O discurso supracitado foi, de facto, como ele era, um provocador nato, alguém que detestava os formalismos e o conservadorismo da cena literária e procurava romper com isso agindo, provocando, levando o riso a rostos onde só se vê seriedade, pedantismo e presunção. No dia 11 de Dezembro dizia-me o seguinte: «na universidade chamam-me provocador (os profs) /pk mandei umas bocas, pk akilo é elitista e conservador». Era assim o Rui Costa. Provavelmente o Jorge, ao ouvir “as bocas”, deve ter pensado que o Rui se julgava mais importante que o Daniel Faria, poeta que muito admirava. O Jorge é burro, não admira que tivesse pensado assim. Não lhe terá passado pela cabeça que fosse exactamente o contrário, o discurso de alguém que, acreditando na qualidade daquilo que fazia, preferia não se levar demasiado a sério e evitar a “importanticidade” da cena literária portuguesa? O Jorge afirma que se afastou naturalmente, por estranhar a personalidade do Rui. Pode um indivíduo ser editor de livros afastando-se dos escritores por lhes estranhar a personalidade? Meu Deus, há mundo com personalidades mais estranhas do que o mundo da literatura? O Jorge não tem categoria para vender sabonetes, quanto mais para ser editor de alguém. Só num país como o nosso é que se dá guarida a imbecis destes. Imaginem o que seria de Herberto Helder se tivesse apanhado editores como o Reis-Sá, editores que se afastam dos autores porque eles têm personalidades estranhas. No entanto, o editor, afastando-se da personalidade estranha do escritor, não quis afastar-se da personalidade estranha do tradutor. E assim o Rui Costa traduziu para as falidas Edições Quasi livros infantis: O Velhote de Lochnagar, Gordito e os Bombeiros, O que há de errado com o Tim? e Para onde corre a raça Humana? (Maio de 2007), O Snugal-Flijer bebé, Este e aquele em Splat! (Junho de 2007). Portanto, ao afastamento do escritor correspondeu uma aproximação ao tradutor. Mas se isto pouco importa, são águas passadas, o que sobra chega a ser desumano. Os lamentos do Reis-Sá são de uma insensibilidade inqualificável. Convém citar novamente, para que fique bem claro o nojo de gente com que estamos a lidar:
Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi.
E quais foram as causas da morte? O Jorge sabe? A polícia sabe? A família sabe? Os amigos sabem? É que eu ando há 15 dias a imaginar cenários e tudo me parece possível: um homem esbarra e cai ao rio, um homem é empurrado para um rio, um homem atira-se ao rio, um homem é atirado ao rio… Porque nenhum destes cenários está provado, cabe questionar o senhor Reis-sá por que razão para ele um dos cenários é mais válido que o outro? Para poder lamentar uma suposta “insegurança na vida”? Partamos do princípio que sim, que o Rui Costa era “inseguro” como terão sido Antero de Quental, Heinrich von Kleist, Emilio Salgari, Manuel Laranjeira, Sara Teasdale, Vachel Lindsay, Mário de Sá-Carneiro, Marina Tsvetaeva, Vladimir Mayakovsky, Sergei Yesenin, Hart Crane, Ernest Hemingway, Arthur Koestler, Cesare Pavese, Antonia Pozzi, Randall Jarrell, John Berryman, Única Zürn, Paul Celan, Maria Ângela Alvim, Anne Sexton, José Agustín Goytisolo, Sylvia Plath, Alejandra Pizarnik, Luis Hernández Camarero, Eduardo Guerra Carneiro, Ana Cristina Cesar, Pedro Casariego Córdoba, David Foster Wallace, entre tantos, tantos outros escritores, músicos, pintores, artistas “inseguros” ou, quiçá, um pouco mais sensíveis do que a maioria e, por isso, diferentes e “estranhos”. Partamos do princípio de que toda esta gente se matou porque era “insegura na vida”. Esqueçamos as causas íntimas, profundas, irreveláveis e imponderáveis que podem levar a uma decisão fatal. Façamos tábua rasa disso tudo e julguemos, como se fôssemos esterco de gente, que um homem só se mata porque é inseguro na vida. Por que razão isso levaria a uma atitude diferente do editor? Porque teria o editor agido de forma diferente? Dúvidas que permanecerão no ar, com a certeza de que, enquanto for vivo, eu só guardarei tristeza por a vida ser como é.
*Expressão utilizada pelo Rui numa conversa mantida no dia 22 de Novembro de 2011.
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Dusk in Winter
The sun sets in the cold without friends
Without reproaches after all it has done for us
It goes down believing in nothing
When it has gone I hear die stream running after it
It has brought its flute it is a long way
1967
W.S.Merwin
Without reproaches after all it has done for us
It goes down believing in nothing
When it has gone I hear die stream running after it
It has brought its flute it is a long way
1967
W.S.Merwin
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
HAVIA UM HOMEM QUE CORRIA PELO ORVALHO DENTRO
Herberto Helder - "Havia um Homem que Corria pelo Orvalho Dentro" (Elegia Múltipla III) in «A Colher na Boca» (1961). Dito pelo próprio num disco Vinyl, editado pela Philips para a série Poesia Portuguesa. A remoção dos "cliques" do vinyl diminuiu a qualidade da voz. Alinhamento musical: Gustavo Santaolalla - Thomas Newman. Respigado aqui.
RUI COSTA (1972-2012)

A MÚSICA
A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.
Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)
Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.
A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?
Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.
Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti
Rui Costa (também aqui)
Adenda: O funeral do Rui será no cemitério de Santa Marinha (mapa; coordenadas: 41 07' 43,83''N, 8º 37' 37,64''O) pela 10h30 da manhã do dia 20 de Janeiro. O corpo estará numa das capelas mortuárias do cemitério a partir das 9h00 da manhã do mesmo dia. Após uma breve cerimónia o corpo do Rui seguirá para o cemitério de Macieira de Cambra, Vale de Cambra (mapa; coordenadas GPS: 40º 51' 31,39''N, 8º 22' 28,36''O). Informa António Aguiar Costa, irmão do Rui.
Russell Edson no Gato Vadio
Leitura de textos de Russell Edson, por Jorge Palinhos e Rui Manuel Amaral, no Gato Vadio, dia 21 de Janeiro de 2011, pelas 17h00.
Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto.
Subscrever:
Mensagens (Atom)