domingo, 16 de fevereiro de 2020

LACRIMA


Jornalista de profissão, Augusto Baptista (n. 1946) estreou-se em livro com “Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias” (Campo das Letras, 2000). Desde então, recolhas de pequenos contos tais como “O caçador de luas” (gatopardo, 2003) e, mais recentemente, este “lacrima” (gatopardo, Outubro de 2019) contribuíram para que se tornasse num nome relevante da micronarrativa em língua portuguesa. Uma atitude discreta e, de certo modo, distante, leva a que poucos tenham conhecimento da sua obra, vinda a lume em edições de circulação restrita que não se cingem à arte narrativa. A fotografia e o aforismo, assim como a arte do tangram, são componentes de um labor criativo onde a dimensão lúdica e uma arguta capacidade de observação do mundo circundante se misturam a um só tempo. No weblog azul-canário (http://azulcanario.blogspot.com/) são mais de dois milhares os aforismos, à laia das “greguerias” cultivadas por Ramón Gómez de La Serna. “lacrima” é uma recolha exemplar de um universo ficcional abrangente, ainda que consolidado num exercício de síntese cuja maior virtude é não precisar de muitas palavras para que muito seja dito:

DEFINIÇÃO

   Equívoco é pensar que um qualquer pateta, a escrevinhar numa mesa de café com vista para o mar, é um poeta.

Os enredos destas histórias dispensam rendilhados e floreados, ainda que não se furtem a um extremo cuidado no tratamento da língua. O rigor é, de resto, aquilo que se exige para que o remate funcione, surpreendendo amiúde o leitor com personagens ambíguas e inusitadas. É assim logo no conto A Visita, onde o que pressupomos ser animal redunda em entidade bem distinta. Por vezes políticos, noutras ocasiões apolíticos, estes microcontos compreendem formatos diversos, cabendo destacar um conjunto de “diálogos urbanos” que adivinhamos resultarem do olhar perscrutador do fotógrafo por detrás deles dissimulado. À crítica social, desde logo plasmada num conto intitulado Empreendedorismo, une-se o absurdo, entendido aqui não apenas enquanto recurso estilístico, mas mais como atitude filosófica, em gestos que desarmam a realidade, subvertem as situações, oferecendo à leitura retratos irónicos de uma certa hipocrisia e boçalidade sociais. O humor e a ironia são, pois, ferramentas ao serviço de uma capacidade de ficcionar o real que tanto o denunciam como ridicularizam. Por vezes, em tonalidades negras das quais se dá aqui um exemplo:

OLHO POR OLHO

   Primeiro atropelaram-lhe o pai. Ficou-se.
   Depois mataram-lhe a mãe no passeio. Ficou-se.
   Mais tarde, mulher à entrada de casa, um camião… Ficou-se.
   Quando lhe tolheram os filhos na passadeira, resolveu enfim comprar o caterpillar.
   E saiu para a estrada.

Outra dimensão que não podemos descurar em algumas destas histórias é a sua inclinação poética, quer seja através de recortes imagéticos intrínsecos ao relato, quer a partir de jogos fonéticos (e até caligráficos, como denuncia o "i" invertido de lacrima na capa do livro) herdeiros da tradição concretista. Há ainda ocasiões em que a poesia surge enquanto corpo autónomo, oferecendo ao texto uma ambiguidade de género que muito me agrada. São disso exemplo A Minha Laranjeira, Tecto Branco, Telefonema, O Fundo, Um Senão… À economia vocabular destas “estórias” corresponde um princípio de síntese traduzível na ideia de que um homem cabe numa lágrima como o universo num grão de areia, resultando o texto de uma tensão permanente entre objecto de observação e sujeito que observa. Mais do que provirem de um qualquer lugar fantástico, feérico, fantasioso, estas histórias, por mais absurdas que por vezes pareçam, conservam um elo ao real do qual são indissociáveis. Enquanto tal, são testemunho de um singular modo de ver e de olhar para o mundo, não deixando também de ser um modo de o reflectir:

AUTOESTRADA

   Está bem que ficou desempregado, uma mão à frente outra atrás, de repente a fome, as dívidas, o precipício (compreensivo, mete a 1.ª). Custará perder o carro, perder a casa, certamente (condescendente, mete a 2.ª). E deve doer, não custa admitir, deve doer pôr termo ao estudo dos filhos, encarar o suicídio da mulher, tão nova (condoído, mete a 3.ª). Custará experimentar o ruir dos projectos de uma vida, sentir a humilhação. Custará… Mas, que raio, desempregados há-os aos montes! (incomodado, mete a 4.ª). E o que mais faltava é que andassem todos aí a carpir, a chatear meio mundo com questões pessoais (irritado, mete a 5.ª, de Beethoven).

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Religiões voltam a unir-se contra a despenalização da Eutanásia"


Ora aí está uma bela imagem de paz e amor entre os povos. Pergunto-me apenas sobre qual possa ser o castigo para a eutanásia: apedrejar até morrer?


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

PLANETA VINIL



    Começámos a ouvir falar do “buraco de ozono” em meados da década de 1980, tendo sido necessários dez anos, pelo menos, para que o assunto chegasse às escolas, acompanhado de um discurso pedagógico acerca do perigo da emissão de gases poluentes. As causas ambientalistas e ecológicas adquiriram desde então uma nova relevância, levando à alteração, ainda que lenta, de alguns comportamentos sociais e à adopção de medidas para a resolução de um problema global. O Nobel da Paz de 2007 entregue a Al Gore não foi por acaso, se tivermos em conta o documentário por ele assinado sobre as mudanças climáticas: “An Inconvenient Truth” (2006). 
   Entre o Protocolo de Montreal (1985), que tinha em vista diminuir a utilização de clorofluorcarbonetos pelos países mais desenvolvidos, e o Protocolo de Quioto (1997), que estabelecia metas de redução das emissões de gases de efeito de estufa, pouco mudou em matéria de “realismo político”. O que, de facto, parece estar a mudar é o clima na Terra, com consequências à vista de todos, excepto daqueles, cada vez menos, que teimam em opor-se a uma declaração de estado de emergência climática. Não deixa de ser sintomático de uma certa pasmaceira burocrática que seja uma jovem ambientalista a agitar as águas da decisão política, estimulando as populações a forçarem a adopção de medidas concretas pelos seus governos. Por todos os defeitos que tais movimentos possam ter, este mérito de congregação em torno de uma causa comum já ninguém lhe retira. Sucede que a agudização do discurso ambientalista se faz acompanhar de uma vertigem apocalíptica nada recomendável, tornando por vezes difícil destrinçar quanto há de fundamentalista ou de científico nestas batalhas. 
   Como transmitir a uma criança ou a um jovem a pertinência da causa ambiental, sem que tal pressuponha uma fantasmagoria catastrófica mais deprimente do que estimulante? Como explicar a uma criança que a possibilidade do mundo acabar não nos deve alhear do mundo, mas sim trabalhar para que ele se renove e perdure? Peças tais como “Dois Narizes num Mar de Plástico” (2019) e “Planeta Vinil” (2020), a mais recente assinada por Cecília Ferreira, ambas encenadas por Fernando Mora Ramos para o Teatro da Rainha, inserem-se num contexto de sensibilização para os grandes temas da actualidade que parte de um princípio de entendimento da criação artística enquanto elemento integrante das dinâmicas transformadoras da sociedade. Recusando uma atitude evangelizadora, são peças ditas para a infância que não se demitem de problematizar o mundo actual. 
    A ideia de um “Planeta Vinil” é especialmente feliz, se tivermos em conta que para um jovem da era digital o vinil tem já a natureza obsoleta dos artigos de colecção tal como o planeta Terra aparenta ter sido arrumado na cabeça de alguns líderes mundiais. Às voltas num lado A riscado, uma galinha poedeira une-se a um escaravelho e a uma criança ruiva como o era a Pipi das Meias Altas (a de agora perdeu as tranças), liderados por um peixe fora de água, todos na demanda de um lado B para o mundo. Onde ficará o lado B do mundo? Haverá um avesso do mundo? Sob ameaça de extinção, a trupe caminha a esmo — mas não desiste de caminhar. Perseguidos pelo fantasma do fim, têm no horizonte um objectivo que incita à união, afastando dentre todos preconceitos acerca das características específicas de cada qual.
   Mensagem positiva e conscienciosa, num cenário modesto, mas persuasivo, acompanhada de várias situações cómicas, gagues ao gosto de uma infância que não deixará escapar o sentido parabólico das personagens-tipo em cena. Dos ovos avariados da galinha poedeira ao estrume em que o escaravelho rebola, passando pelo peixe fora de água cujas capacidades de liderança se pautam por ideais à toa, são várias as hipóteses de abordagem desta peça que pode ser vista como uma fábula tanto acerca de um fim iminente — e, por isso mesmo, aterrador , como de uma urgente e necessária congregação de esforços em prol da continuidade da vida na Terra. E neste sentido o terror rende-se à esperança, para lá dos preconceitos que separam o pessimismo do optimismo.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

SEX-TAPES


Ao ouvir Joaquim Vieira falar, na Antena 1, sobre a sua “História Libidinosa de Portugal”, ocorreram-me vários pensamentos perversos que me abstenho de partilhar. A dúvida que se impõe é: como será, daqui a uns anos valentes, a história libidinosa dos nossos políticos actuais? Há coisas que a gente pode imaginar, mas fica mal dizer. Outras contribuem para um imaginário mais ou menos público, desde o episódio Monica Lewinsky (que meteu sexo oral na sala oval) aos fetiches de Donald Trump com xixi. Idealizar Donald com Melania numa cama já é do domínio da abjecção. Mas e por cá, entre os nossos, o que vos passa pela cabeça quando ouvem o Chicão aos berros no púlpito? W. Somerset Maugham fazia a pergunta de outra maneira: «Quantos de nós poderiam suportar que os seus devaneios fossem automaticamente registados e apresentados como uma tela à sua frente? Morreríamos de vergonha.»

FAZER A RONDA


O estado brasileiro da Rondônia, que não sei identificar no mapa, foi notícia ontem e continua a ser hoje por causa de um despacho a pedir que fossem recolhidos vários livros das escolas, alegadamente por conterem conteúdos inadequados para crianças. Entre os 43 livros censurados estavam obras de Kafka e de Poe, todos os outros eram de autores brasileiros. O autor do memorando dedicou especial atenção a um autor: "Todos os livros do Rubem Alves devem ser recolhidos". Fiquei com uma vontade enorme de ler Rubem Alves. Depois de se esquivar ao tema, considerando-o fake news (não é piada), o governo de Bolsonaro disse que não tinha conhecimento da medida. Dada a repercussão pública do caso, o despacho foi abortado (já era um aborto desde o início) e os livros, aparentemente, não foram recolhidos. A Rondônia é governada pelo coronel Marcos Rocha, aliado de Bolsonaro desde a primeira hora. É gente que lê pouco, quase nada de literatura internacional. E não querem que os outros leiam. Passaram os olhos pela Bíblia truncada da IURD, onde por certo as crianças e os jovens brasileiros encontrarão materiais adequados às suas frágeis sensibilidades. Convenhamos que, até ver, o Index Librorum Prohibitorum da Rondônia é de uma pobreza confrangedora. A implicação com Rubem Alves tem a sua razão de ser: com Paulo Freire, é considerado um dos mais relevantes pedagogos brasileiros. Com a agravante de ter sido pastor presbiteriano.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

KIRK DOUGLAS (1916-2020)


The Indian Fighter/O Caçador de Índios (1955): aqui. Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957): aqui. Last Train From Gun Hill/O Último Comboio de Gun Hill (1959): aqui. A Gunfight/Um de nós tem de morrer (1971): aqui.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A POLÉMICA DE IQALUIT


Há coisa de dois meses, Deus sabe a quantidade de especialistas em alterações climáticas que andavam por aí a exibir teorias. Ainda não se foram embora. Basta a Greta levantar o dedo, metem logo os corninhos ao sol. Ou antes metessem, às vezes parece mesmo que as pessoas precisam de apanhar sol. O meu amigo Bernardo diz que nunca houve tanta luz para tanto cego, eu julgo que nunca houve tanto sol para tanta cara pálida. Mas se há dois meses eram as alterações climáticas, há um mês era a iminência (ou será eminência?) de uma guerra nuclear. Os iluminados em relações internacionais e geoestratégia deram todos à costa, nunca antes se tendo visto tanta gente especializada na história do Irão. Exactamente os mesmos que sabem tudo sobre a América do Sul, especialmente quando os assuntos são a Venezuela ou Cuba. O Chile não interessa. Enfim, como o mundo não pára, tiveram os especialistas em conflitos armados o seu momento de glória para logo a seguir serem ultrapassados pelos especialistas em pandemias. Se há mérito algum neste coronavírus, então esse mérito é sem dúvida o de ter desenterrado imensa gente altamente esclarecida sobre vírus, pandemias, epidemias e afins. Há por aí uma pandemia de virologistas que nunca visto. Eu não me canso de admirar a vertigem noticiosa e a sua extraordinária capacidade de germinar génios, peritos em matérias absolutamente improváveis, gente que leu os livros todos, os certos, que conhece os artigos científicos, que domina as matérias, que tem algo de absolutamente determinante a dizer ao mundo, seja sobre incêndios ou sobre a história do colonialismo. Com tanta intelligentsia disseminada pela rede, não admira que o mundo seja um desastre. Os génios ficam sentados ao computador ou agarrados ao smartphone, a postarem a sua incomensurável sabedoria sobre os problemas do momento. Depois não há ninguém no terreno para que os problemas sejam resolvidos. Mas eu faço-lhes um desafio. Vamos lá tentar apanhá-los de surpresa. Assim do nada, quem é que por aí sabe alguma coisa sobre Iqaluit? Ah pois é, bebé, esperem só até rebentar a polémica de Iqaluit. Agora estão todos calados, ninguém fala de Iqaluit, mas assim que rebente a polémica de Iqaluit aposto que aparecerão de súbito e do nada centenas de iluminados sobre Iqaluit. Aguardemos.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

PARADA DE ORGULHO ABSTÉMIO


Esta noite sonhei com uma parada do orgulho abstémio. Damares Alves era a rainha do cortejo. Instalada no púlpito de um carro alegórico protegido por anjos e querubins, acenava ao povo, com ar circunspecto, ao som dos louvores da IURD. Chicão também aparecia, trajado de escuteiro, a cantar aos berros o “Kumbayá”. As bandeiras multicoloridas com os tons do arco-íris tinham dado lugar a bandeirinhas brancas, acenadas por freiras e sacristões. No mais polémico dos carros aflorava uma figura sinistra com cara de padre Frederico, rodeado de centenas de criancinhas cobertas de folhas de figueira. Nas bermas das estradas não havia quem aplaudisse, mas eram inúmeras as pessoas com cilícios autoflagelando-se com disciplinas de sete cordas. Damares erguia os braços ao céu e ria de forma estridente e prolongada, isto é, às gargalhadas, diabólicas gargalhadas.  

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

GEORGE STEINER (1929-2020)


As Artes do Sentido: aqui. Uma citação: aqui.

UM POEMA DE LEONARDO FRÓES


A terra do mim

na cisma da roça o mim dilata
observando tão de perto a menor das coisas
cujas folhas curativas se abrem
rabiscando no dedo um grão humilde

as bananeiras parecem rir desse medo
que a pouco tem de ser controlado
reduzido e repelido para o mim perceber
que nada nunca o separa do comum das sombras

assim como esse cacho cortado
por mim terá de ser dividido,
as folhas do mistério apenas brincam de imagem
armando para mim seu quebra-corpo selvagem

para mim e por mim a natureza-beleza
tece diariamente seus cipós e enredos
permitindo que a entrada no mato
seja uma doação voadora como a dos insectos

a lama a cama a fama o cocô e a casca
tudo participa dessa sensação-liquidez
que leva realmente o coração pela ponte
mas quando eu olho mais de perto só encontro um sorriso

pedras que estão sorrindo percebem
a unidade da botina com as unhas
o continuísmo íntegro de um pé de milho
até as cavidades do estômago

para mim e por mim tudo está fora
da hipótese de eu ter entrado algum dia
numa coberta coerente de pele
que é idêntica na tessitura à poeira

lá ali estão logo e nunca
as coisas que se encontro eu perco
na concepção de mim momentânea
que foi uma defesa sem fundo

mim no máximo serão lembranças vazias
tiques articulações maneiras
ansiedades que obscurecem o alvo
quando é o alvo que na verdade me escolhe 

colheitas de borracha me alargam
nesse momento bem de terra deitado
no útero estacional das raízes
que bombeiam borboletas de seiva

ei você me diz o mim aí vendo
veleidades de verdades em tudo
que não cabe no querer dizer que ele é
a saliva sentimental e só

você cortando pendurado de noite
o cordão já podre das fantasias
ou você então e sua estátua de sombra
zombando inalcançável do apego

cartazes de você predispostos
a uma impossível reunião de desejos
e também suas parcelas caindo
como dentes enferrujados na mesa

seja sempre você me diz o mim
pois é assim que você chega a não-ser
nem mais nem menos do que a liberdade idiota
de participar serenamente do ar

o ar te come a boca aberta
atrás da porta o sereno espia
tudo se resolve negando
mexendo nas afirmativas gerais

sem mim não tem por que nem você
deixa de atravessar quem seja em pé
ou vira, deitado, uma condição
de cobra dorminhoca sumindo

não tem essa paralisia da ideia
não tem esse poder de ficar
não tem um diamante pescado
não tem uma finalidade qualquer

é dodói mas também é remédio
são mínimas transparências que passam
a enxada que você segura com força
e te finca razoavelmente na terra

no entanto o céu cai no prato
e mesmo a misturada dá certo
tudo que acontece dá certo
ou ensina os movimentos então

na hora sem mim deságuam bocas
quebram-se as barreiras de eu ter
pensado, prensado, prendido o corpo, premeditado
o que naturalmente fracassa

ossos peças coisas sólidas firmes
não há em mim estritamente que sonho
e sinto que esse baú não existe
para desmanchar meu prazer


Leonardo Fróes (n. Itaperuna, 1941), in Assim, com apresentação de Júlia de Carvalho Hansen, Douda Correria, Julho de 2019, s/p.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

FOTOGRAFAR CONTRA O VENTO


No exórdio ao seu mais recente romance, “Fotografar Contra o Vento” (Editora Exclamação, Outubro de 2019), António Cabrita (n. 1959) revela ter-se inspirado em José “Vultus” Sequeira para a construção de Tomás Gonzaga, figura central de uma história com contornos quixotescos passada numa Península Ibérica contemporânea. Tal como Sequeira, o “herói” Gonzaga enceta uma peregrinação até à capital espanhola com o intuito de aí tourear na catedral das praças de toiros. Segue a butes vestido a rigor, “trajado de luces”, com a indumentária de toureiro atraindo atenções pelo caminho. O tema da tourada, como é sabido, presta-se hoje a inumeráveis controvérsias, não sendo dos mais apelativos junto de um público leitor que tenha das arenas a imagem de uma câmara de tortura. Por outro lado, esse lugar onde se faz espectáculo de um possível confronto entre inteligência e força bruta resiste, de algum modo, como metáfora de uma encenação dos conflitos que contrapõem o Homem à Natureza. Tomás Gonzaga tem um sonho e isso deve ser respeitado, mais ainda num tempo em que as luzes do pragmatismo forçam a vigília impedindo a utopia. A certa altura ouvimo-lo dizer acerca de si mesmo: «Fui sempre um pouco fora do mundo. Contudo, dantes vivia fora de mim, na realidade dos outros, agora apalpo a minha realidade. Os sonhos têm de ser agarrados pelos colarinhos para se tornarem matéria concreta, e urgem, ao contrário da acção política, que vive a conta-gotas» (p. 207). Mais do que qualquer extrapolação acerca de temáticas fracturantes (como agora se diz), importa neste romance salvaguardar o direito humano ao sonho e à utopia. De resto, o palco em que a aventura decorre e se desenrola produz esse efeito metonímico de os homens surgirem, a espaços, desprovidos de humanidade, transformados em bestas que apenas o sonho, o devaneio, a fantasia, a utopia poderão de algum modo restaurar. É assim numa praça de touros como numa casa de alterne. Quem mais sente as bandarilhas no cachaço ao longo desta narrativa são os homens e as mulheres a quem foi roubada a possibilidade de sonhar, traídos por uma realidade impiedosa que as televisões se encarregam, com suas metodologias de showbiz, de transformar em ficção. Não poderá ser esta uma das lições a retirar de um Quixote actualizado? Se a realidade mais dura e cruel se encarrega de desmentir a fantasia, não é senão pela fantasia que conseguimos a espaços libertar-nos da dureza e da crueldade de um real onde cabem todas as formas de terror. Neste sentido, Tomás Gonzaga é uma espécie de sonho ambulante que vai sendo colhido pela crueldade ao longo da peregrinação, é o toureiro no lugar do touro, porque no seu interior ainda arde o pavio de uma utopia que o mundo à sua volta já só conspurca com desdém. Neste sentido, repito, Tomás Gonzaga é uma espécie de poeta. Não lhe é indiferente o desenrolar político do mundo, mas consegue distanciar-se o suficiente para não acabar ou estendido na arena ou no lugar de quem aplaude cumplicemente os crimes dos homens. Cosmo, com quem se cruza a meio da peregrinação, carrega aos ombros os males do mundo (destino antigo). É-nos inicialmente apresentado como vagabundo, mas logo um passado de jornalista de guerra lhe confere a dimensão que faltava à fantasia. Cosmo conhece de perto o olhar da besta, tocou-lhe no corno e foi por um triz que escapou a uma investida fatal. Cosmo tem a cultura e o saber livrescos, viajou, conhece o mundo, isto é, o Inferno, por nele ter tido papel actuante. Cosmo sabe a que cheira a violência, sabe a que sabe a barbárie, conhece as regras dos “jogos de crueldade”, sabe que o mundo é uma gigantesca praça de touros onde homens matam homens para entretenimento de homens. Não é um contraponto a Tomás Gonzaga, mas antes um complemento: «É preciso abrir as janelas e deixar que as correntes façam entrar em casa o que a trivialidade dos tempos descuidou, a coragem. Percebes, Tomás, que não acredite em ideias gerais, só acredito em pessoas, no furor e na vulnerabilidade com que alguns se superam?» (p. 230). O vigor efabulatório de António Cabrita não pára de nos surpreender ao longo de quase trezentas páginas habitadas por lugares e personagens de um universo altamente verosímil, alicerçado num facto histórico que, curiosamente, é o que se nos apresenta como mais improvável nesta narrativa de cruzamentos diversos e encontros inesperados. Podem já não haver heróis na literatura portuguesa, mas em estando ela carente de um anti-herói à medida ei-lo que se nos apresenta de corpo inteiro e trajado a rigor. Chama-se Tomás.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE HUGO MUJICA



HÁ APENAS ALGUNS DIAS

Há apenas alguns dias morreu o meu pai,
há apenas tanto tempo.

Caiu sem peso,
como as pálpebras ao chegar
a noite ou uma folha
quando o vento não arranca, embala.

Hoje não é como outras chuvas
hoje chove pela primeira vez
                sobre o mármore da sua campa.

Sob as chuvas
podia ser eu quem jaz, agora o sei,
                 agora que noutro eu morri.

Hugo Mujica, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 375.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

VOLTA PARA A TUA TERRA



Não tem conta a quantidade de vezes que ouvi esta expressão ao longo da vida, fosse no pátio de uma escola, num estádio de futebol ou na esplanada de um café. Nunca me foi dirigida, talvez por eu ter cara de lugar nenhum. Qual a nossa terra? Ensinaram-me na escola que Portugal era o fim da Terra, o lugar onde se ficava porque não se podia continuar a caminhar. Sendo verdade, no limite, isto quer dizer que os portugueses são de onde não podem fugir. Ser português é uma condenação. Depois surgiu aquela conversa de dar novos mundos ao mundo. Arranjámos caravelas, metemo-nos mar adentro, fomos parar a outras terras. Passámos de condenados a conquistadores. Nos livros da escola primária do meu pai Portugal ia do Minho até Timor, era um território estranho, amálgama de pintas espalhadas pela superfície do globo. Olho para aquilo e vejo uma espécie de doença cancerígena disseminada pela superfície da Terra. Qual a terra de um português nascido em Timor? E de um português nascido em Angola? E de um português nascido no Brasil? Há tempos, fui beber copos com uns amigos brasileiros. No regresso, um deles, aflito da bexiga, resolveu aliviar-se num recanto público. Era a parede de uma igreja. Alguém o viu a urinar na parede da igreja, invectivou-o, ele pediu desculpa. Ao reparar no sotaque brasileiro do criminoso, logo o puro lusitano soltou o seu grito de guerra: «vai mijar para a tua terra». Acontece que a terra do aflito ficava longe, ele estava mesmo aflito, aliviou-se onde pôde, como pôde, sem sequer ter reparado que estava a aliviar-se nas paredes da casa do Senhor. Não é de todos a casa do Senhor? Durante muito tempo ouvimos falar de Portugal como um país de emigrantes. Os portugueses que foram para França, Suíça, Luxemburgo, os portugueses do Canadá, da América, da Austrália, África do Sul. Depois de perdermos as colónias, terras que porventura alguns ainda julgarão nossas, houve muita gente que regressou à metrópole e ficou a modos que sem terra. Alguns filósofos gregos preferiam dizer-se cidadãos do mundo a reivindicar-se de um lugar, ser cidadão do mundo é ser uma espécie de sem terra. Como é que se manda para a sua terra um cidadão do mundo? Vai para a tua terra ó cidadão do mundo! O insulto torna-se petição de princípio, é como dizer: vai para onde estás. Não compreendo, nunca compreendi, como pode ser insultuoso mandar alguém voltar à sua terra. Julgo que se pretenda rebaixar o outro dizendo-lhe que está numa terra por empréstimo. O vai para a tua terra quer dizer: lembra-te disto, esta terra não é tua, estás aqui porque te acolhemos, portanto respeito, fazes o que mandamos e calas-te, se abrires o bico volta para a tua terra. O “vai para a tua terra” é uma espécie de “cala-te”. Nós só mandamos calar quem não nos convém ouvir, é o argumento final, derradeiro, desesperado, para fugir a um debate e a uma discussão, talvez porque a saibamos perdida. Não queremos discutir com os imigrantes do Bangladesh e da Índia e do Sri Lanka que trabalham nas estufas da Costa Vicentina ou amassam o pão de Rio Maior porque sabemos que o último dos nossos argumentos seria: volta para a tua terra. E se eles voltassem seria uma chatice, teríamos que contratar outras pessoas, porventura com outra capacidade de reivindicação, pessoas que fizessem respeitar os seus direitos laborais. É uma chatice quando um escravo levanta a voz. Em não podendo ser chicoteado, solução feia, sobra-nos mandá-lo para a sua terra.

Donald Trump mandou para a sua terra algumas congressistas que o incomodavam. Não tinha outro argumento. “Go back home”, vociferou o presidente da maior potência do mundo contra Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley, Rashida Tlaib e Ilhan Omar. Trump nasceu num bairro chamado Jamaica, filho de imigrantes escoceses. A Escócia, como sabem, faz parte do Reino Unido. Já a actual mulher de Trump nasceu em Novo Mesto, Eslovénia, ex-Jugoslávia. São pessoas com raízes estranhas, pelo que não é de estranhar que na cabeça daquela gente a expressão “volta para a tua terra” tenha um significado diferente do que tem para o comum dos mortais. Imaginem Ocasio-Cortez, nascida no Bronx, filha de imigrantes porto-riquenhos, mandar para a sua terra Donald Trump, nascido no bairro Jamaica, filho de emigrantes escoceses. O que tem de americano Trump que Ocasio-Cortez não tem? O cabelo? Ao sugerir que Joacine Katar Moreira voltasse para a sua terra, André Ventura, que convive indiferentemente com saudações nazis nos seus comícios, legitimou um tipo de argumento racista que é muito comum. Tal como Trump, ele quis dizer: não estás autorizada a falar deste país porque não nasceste aqui, não és de cá. Isto pressupõe a ideia de que só tem legitimidade para falar de Portugal quem nasceu em Portugal. Não há argumento mais redutor e estúpido numa discussão, até pelos efeitos contraproducentes que introduz. Que dizer ao deputado Ventura quando ele falar de ciganos? Que se reduza à sua etnia. E quando ele perorar sobre o Islão? Que se cale, pois é católico, foi seminarista, fique-se pela sua terra espiritual. Ventura diz que Joacine atacou a História de Portugal, defesa curiosa vinda de alguém que a todo o momento parece estar empenhado em atacar a História de Portugal. Não foi isso mesmo que fez ao defender o regresso da pena de morte? A História de Portugal pode ser contada de muitas maneiras, não necessariamente daquela que mais convém a Ventura. Estarei a atacar a História de Portugal se lembrar que Portugal tem um passado esclavagista e colonialista? Estas pessoas que deslocam uma argumentação típica de esplanada para instituições públicas, sejam elas Trump, Bolsonaro ou Ventura, sendo desculpados por uns, por “falarem da boca para fora”, e por outros, por “no fundo não querem bem dizer o que dizem, é tudo ironia”, arrastam consigo um problema que a certa altura se torna ingovernável: legitimam discursos de ódio, tornando-se cúmplices de eventuais acções que venham a ser promovidas por tais discursos. O problema do que dizem, por mais estúpido que possa parecer, está na legitimação e na vulgarização do preconceito, do ódio, da violência, do racismo. Ora, atacar a História de um país é isto mesmo, é recusar-lhe a sua essência multicultural, partindo do princípio erróneo de que a bandeira tem uma só cor e de que há portugueses de primeira e de segunda. Lançar anátemas sobre a história de um país começa, precisamente, nos anátemas que se lançam sobre os seus cidadãos, procurando diminuí-los por causa de características pessoais que nada têm que ver com os lugares do mundo onde exercem a sua cidadania. Há uns anos, um tipo chamado Jeroen Dijsselbloem, líder do Eurogrupo, acusou os países do Sul da Europa, entre os quais Portugal se inclui, de gastarem demasiado dinheiro com álcool e mulheres. Tentem encontrar uma posição de André Ventura sobre este anátema lançado sobre os portugueses. Pode ser que tenham sorte.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

UM POEMA DE JOSÉ RICARDO NUNES




ainda hei-de assistir ao meu funeral
juro-vos
e as auxiliares riam-se
e pediam para me calar
que em vez de estar com palermices
mais valia chegar-me à janela
e desfrutar das vistas
o parque
as crianças
se já se viu tão cálido Outono

impossível aquietar-me
imaginem-se transformados em marionetas
com mãos por dentro
a conduzirem os gestos
a remexerem
o peito a respirar encostado às mãos
dedos que seguram no vazio
um coração

as auxiliares alinhariam
mesmo atrasadas
cheiinhas de pressa
já ouvia a gargalhada a ecoar no corredor

e depois da higiene e da limpeza do quarto
atiravam-me beijos
consolavam-me disto
de ser nada

não me perdia em detalhes
a matéria fulcral consistia no cumprimento da promessa
eu no meu funeral
tinha-vos jurado
e elas riam-se

ainda as ouvia no corredor
já sentado no muro
de cigarro aceso
aguardando a chegada do cortejo
eu à frente muito adiantado
para não me ver dentro da terra
que custava imaginar-me morto
levar com os torrões húmidos por cima
muito mais agradável sentir
as mãos por dentro de mim a disporem
e eu a obedecer
flexível reversível

acreditar
depende tanto da nossa vontade
não sabia como é que se acredita

erguia-me de supetão
batia as palmas
informava que em breve teria de me ausentar

não custa
tinha já estado tantas vezes no meu funeral
repetira a minha vida tantas vezes
que sabia como se processava

reparem que disponho dos dias todos
um dia mais longo
uma tarde sem fim
a vida a escavar-me
vou e volto já
acreditem que não custa

e dito isto
sem saber se procedia ao anúncio derradeiro
reservando à cautela um resto de fôlego para o regresso
saudava as auxiliares
virava-me para o outro lado
fechava os olhos
que um dos homens da agência deixara abertos
por descuido ou por crença
e expirava



José Ricardo Nunes, in Di dispensa dai fiori, volta d'mar, Janeiro de 2020, pp. 49-51.

MANUEL RESENDE (1948-2020)


Poesia Reunida: aqui. Um poema: aqui.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

BOAS PERGUNTAS

Aqui.

CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS


Em cem pessoas,

sabedoras de tudo melhor —
cinquenta e duas;

inseguras de cada passo —
quase todo o resto;

prontas para ajudar,
desde que não demore muito —
quarenta e nove;

sempre boas,
porque não conseguem de outra forma —
quatro, talvez cinco;

dispostas a admirar sem inveja —
dezoito;

constantemente receosas
de algo ou alguém —
setenta e sete;

aptas para a felicidade —
vinte e tal, quando muito;

individualmente inofensivas,
em grupo ameaçadoras —
mais de metade, com certeza;

cruéis, 
por força das circunstâncias —
é melhor não sabê-lo,
nem aproximadamente;

com trancas na porta depois da casa roubada —
quase tantas como
aquelas que as têm, antes da casa roubada;

não levando nada da vida a não ser coisas —
quarenta,
embora preferisse estar enganada;

agachadas, doloridas
e sem lanterna no escuro —
oitenta e três,
mais tarde ou mais cedo;

dignas de compaixão —
noventa e nove;

mortais —
cem em cem.
Número, até agora, não sujeito a alterações.

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água, Janeiro de 2006, pp. 63-65.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

EL PUCHERO MISTERIOSO



Não sei quando chegaram os telemóveis à Argentina, mas não deve ter sido muito antes de terem chegado a Portugal. O mundo moderno é deveras imparcial na distribuição que opera dos produtos da sua amada revolução (refiro-me à tecnológica). Penso nisto por causa de um poema do argentino Raúl González Tuñón, que morreu no ano em que eu nasci: 1974. O poema chama-se “El Puchero Misterioso”, refere-se a uma hospedaria desaparecida ao tempo de Tuñón. Puchero pode referir-se a muitas coisas, a um guisado, a fazer beicinho, a uma espécie de tijela ou púcara, pode ser a comida do dia-a-dia. Para o caso importa o tom nostálgico do poema, a referência a algo que desapareceu acompanhada de uma espécie de inventário de memórias pessoais, coisas e hábitos caídos em desuso, como os amigos, os cocheiros, a boémia, os encontros, a confraternização que diariamente sucedia no “Puchero Misterioso”. O leitor adquire por este lugar a mesma afeição que tem pelos lugares desaparecidos da sua infância. Torna-se mistério como enigmáticos são os fantasmas. Eu lembrei-me de imediato da taberna da Dona Ilda, num bairro onde os meus pais viviam, onde bebi a primeira ginja com a idade hoje absolutamente proibitiva de para aí uns 8 ou 9 anos. O poema é sobre os “verdes anos”, expressão que de resto surge num verso, é sobre a “nostalgia enquanto quarto habitado pelo insone”. Mas se fosse apenas isso, seria como inúmeros outros poemas voltados para o passado, mais ou menos atormentados com o que se perde e não se recupera, profissões desaparecidas, objectos com elas caídos em desuso, hábitos, costumes e tradições fossilizados, espécies extintas, sinais de uma ruína continuamente produzida pela passagem do tempo. Não é apenas isso o poema, o remate finta a história, trama-nos o sentimento. Passo a citar, segundo tradução minha dos derradeiros três versos: «Tudo se perdeu, tudo, menos o que virá. / E a chuva, os circos, a esperança, / o carteiro». Estávamos em 1974, o carteiro ainda chega e circos não faltam. Para todos os gostos. Apesar das alterações climáticas, rogamos por chuva como outrora rogávamos. Raúl González Tuñón não falhou nos vaticínios, embora nos obrigue a perguntar pelo que fizemos da esperança. Por esta entendo uma espécie de confiança no futuro, o optimismo da vontade que certo intelectual italiano apregoava, pela esperança entendo o contrário de fé. O que esta tem de desespero, aquela tem de confiança. À entrada do terceiro anel deste Diga 33, esboçado em 2018 e desenhado em 2019, julgo eu termos chegado ao momento da coloração. Tínhamos o propósito inicial que continuamos a ter, fazer da poesia um estímulo para a reflexão acerca deste nosso tempo tão pouco dado a reflexões. Fazemos o caminho na companhia daqueles que diariamente insistem nesta forma de arte, os autores, os editores, não por julgarmos que são melhores do que os outros, mas por confiarmos na sua teimosia. Procurámos fazer do Teatro da Rainha, pelo menos uma vez por mês, o “Puchero Misterioso” onde se dá esta coisa fantástica das pessoas prescindirem um pouco da sua contemporaneidade, para penetrarem numa outra espécie de futuro, um futuro paradoxal, aquele em que tornaremos a voltar costas ao sedentarismo quotidiano, saindo de casa porque, isto sou eu a profetizar, as paredes das casas tornar-se-ão absolutamente sufocantes. Tenho esta mania de que as pessoas hão-de gostar de voltar a estar umas com as outras, não apenas como quem se permite substituir emoções por emojis, mas como quem abraça de facto o outro, como quem cheira e toca e sente, corpo a corpo, olhos nos olhos. É este o futuro que pretendemos, tendo esperança de que a poesia e o teatro possam ser a ponte que a tal nos levará, pois se há coisa que o passado mostra é que, em matéria de poesia e de teatro, nem tudo se perdeu. Certos lugares de resistência continuam a resistir. A poesia segue dentro de momentos. Tudo se perdeu, menos o que virá.

Henrique Manuel Bento Fialho
05/Janeiro/2020

domingo, 19 de janeiro de 2020

LER OS OUTROS


No navio onde trabalho, estranham sempre que eu não participe nos jantares de natal ou nas festas de tripulação, preferindo ou a costumeira ida ao ginásio ou a leitura de um livro.
Explico e desculpo-me com a criação de rapaz do campo; há duas coisas de que é prudente guardar uma certa distância: de animais no cio e de árvores em queda.