quinta-feira, 15 de novembro de 2018

TAZA, SON OF COCHISE (1954)



   Filho de dinamarqueses, Douglas Sirk (Hans Detlef Sierck) nasceu na Alemanha no dia 26 de Abril de 1897. O interesse pelo teatro e pelo cinema surgiu antes de ter sido estudante de Direito, Filosofia e História da Arte. Por mero acaso, acabou como encenador de uma peça que obteve relativo sucesso. Em 1925 foi pai pela primeira vez. Curiosamente, Klaus Detlef Sierck tornou-se ainda criança num dos principais actores da propaganda Nazi. Divorciado da primeira mulher, casado agora com uma judia, Sirk foi impedido de ver o filho que acabaria por morrer durante a II Grande Guerra num conflito travado em terras ucranianas.
   Hans Detlef Sierck realizou vários filmes na Alemanha, antes de se ter mudado para os EUA reiniciando a carreira de realizador como Douglas Sirk. Logo em 1942, atraiu atenções com o declaradamente antinazi Hitler’s Madman. John Carradine, que entrou no mítico Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939), de John Ford, era um dos actores do elenco. Melodramas, thrillers, comédias, são o que mais se encontra num curriculum onde sobressai “um western memorável”. Taza, Son of Cochise/Herança de Honra (1954) tem a particularidade de oferecer aos indígenas todo o protagonismo. Não sendo fiel à História, apoia-se em personagens reais.
   Rock Hudson representa o papel de Taza, filho mais velho de Cochise. Figura tutelar entre os Apache da tribo Chiricahua, Cochise chefiou a sua tribo em várias guerras até assinar um tratado de paz com a cavalaria norte-americana. Rivaliza com Geronimo, que nunca quis assinar tratados de paz e combateu os brancos até lhe restarem forças. Broken Arrow/A Flecha Quebrada (1950), de Delmer Daves, recria a rendição de Cochise. O filme de Sirk vai beber tanto da sua inspiração a esse filme aliás, Jeff Chandler é o actor que faz de Cochise nos dois filmes como a Fort Apache (1948), de Ford. São filmes onde os índios aparecem num raro enquadramento, expurgado de leituras diabolizadoras ou, o que por vezes ainda é pior, altamente paternalistas.
   Taza, Son of Cochise/Herança de Honra (1954) começa com a cerimónia fúnebre de Cochise, que então passa a liderança da tribo ao filho mais velho. Taza tem um irmão, Naiche, a quem o pai pede no leito da morte que defenda o irmão na prossecução da paz com os homens brancos. Mas Naiche prefere juntar-se a Geronimo, dando continuidade a uma luta armada à revelia do novo líder Apache. Entre os irmãos desavindos há ainda uma mulher, Oona, filha de Águia Cinzenta, que Taza pretende para sua mulher. Este duplo conflito apenas apimenta a história, não é especialmente interessante e desvia-se de uma linha narrativa que podia concentrar-se nos factos mas prefere dar asas à imaginação.
   É verdade que Cochise morreu de causas naturais, mas a ideia de que foi um pacificador não é verdadeira. Ele manteve acesos focos de resistência até se ter rendido ao General George Crook, apoiado na perseguição do líder por Apaches batedores. O aspecto mais discutível deste filme é a imagem que faz passar de Geronimo, rebelde oportunista e traiçoeiro. Cochise morreu em 1874, tendo a tribo sido posteriormente deslocada para uma reserva em San Carlos. Taza morreu apenas dois anos depois, de pneumonia, na sequência de uma viagem a Washington D.C. O irmão Naiche, que surge assassinado no filme na sequência de um conflito entre brancos e índios, viveu com os Mescalero até ao final dos seus dias. Discutiu com Geronimo a rendição em Março de 1886.
   O filme de Douglas Sirk é, pois, uma ficção construída a partir de interpretações livres dos factos históricos. As desavenças tribais podem aqui ser lidas à luz de acontecimentos históricos externos, mostrando como a divisão entre os mais fracos é tantas vezes a sua maior fraqueza. Enquanto estiveram unidos, os Apache foram conseguindo pequenas vitórias que permitiram negociar e reivindicar com proveito. A divisão levou à rendição, e desta à morte lenta em reservas foi um passo curto. O que este filme tem de memorável é a tentativa levada a cabo de humanizar os índios na tela do cinema, resgatando-os de um limbo onde ou tinham sido retratados como selvagens ou simplesmente caricaturados como pobres imbecis. Sirk oferece-lhes um rosto humano, com seus tradicionais conflitos familiares, com suas divisões, com atitudes perante a lei mais rigorosas do que por vezes se pretende supor.

UM POEMA DE ENRIQUE MOLINA



ALIMENTOS

Ó comidas! Ó miragens!
Instalo-me diariamente em lugares extravagantes
Com grande vontade de viver
Comedores anónimos incluídos no repertório
   da loucura
Liturgias e terebrantes megafones do porto
   sob ventiladores
— Falsa comida dos hotéis multiplicada por
   espelhos —
A toalha sempre em fuga flamejando com a
   tormenta
E a minha ávida boca coberta de mucosas vermelhas
Como um candelabro imperial iluminando a
   mesa de cabeceira
— Ó comestíveis! —
A grande hóstia nutritiva onde habitam o desejo e o
   fogo
Saladas hirsutas guisados desafortunados
Sem ajuda — de todos os buracos
Desde o próprio fundo do planeta
Chega o rumor eterno de mandíbulas enormes
   que devoram —
Adâmicos parentescos com folhas e bestas
O esplendor desta comida demente
Cativa vigorosamente minha alma
Como uma mulher nua exibindo o húmido
    relâmpago do seu sexo
Onde os cães do meu sangue repartem o
   coração do sol
Entre aromas de frituras milagres e vinhos
Desafiando a cascavel dos mortos
Enquanto fosforeja a ratazana diabólica que percorre
   toda a minha vida
Insaciável
Sem jamais alcançar um prato

Versão de HMBF.


Poeta e pintor argentino filiado no movimento surrealista, Enrique Molina (n. 1910 – m. 1997) formou-se em direito sem nunca ter exercido. Preferiu correr o mundo como tripulante na marinha mercante. Fundou com Aldo Pellegrini a revista A partir de cero, estreando-se em 1941 com Las cosas y el delirio. Viveu em vários países da América Latina, cultivando uma poesia arreigada ao universo simbólico e mítico dos povos ameríndios. Foi distinguido em vida com importantes prémios. Sobre ele escreveu Octavio Paz: «é uma jóia viva neste imenso deserto de ninharias». Nos seus poemas cabem desejos e paixões, mas também terrores sagrados; o belo e o horrível; a invocação do estado primitivo das coisas a partir da observação da sua degenerescência.  

"Ich weiss nicht was Sie sagen"


Podes assinar por mim? Era assim que nasciam grandes amizades no tempo da universidade, amizades que ficavam para a vida.

QUESTÕES CIVILIZACIONAIS


Empresas que paguem pelo mínimo não podem exigir o máximo aos seus trabalhadores. A exploração não é uma questão de gosto, é um problema civilizacional. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

VEM NA WIKIPÉDIA


(clique na imagem para ver melhor)

FELICIDADE SEM TESTEMUNHAS




Preparo meu alimento
a mesa indolente muda de forma conforme a
   intempérie
adquire a aparência de uma mulher
de uma faca à procura do meu peito
de projectos ao lume nocturno dos fracassos
vitrine de viagem incendiada ao rasar as paisagens
   secretas da noite
por vezes um velho dia ressoa
surge um osso de nuvem
um insecto barrando o trilho para as montanhas
um sorriso gelado
o remoto tambor azul feito de espumas
o caminho inocente que assassina
Limites de ferro
a terra uiva na sua jaula
com a negra armadura do esquecimento
com olhar de lobo entre ruinas
insegura beleza inalcançável
o relâmpago ensopou esses rostos
a cama perde-se pelas cidades e na
   folhagem
Não há mais chaves do que teu desejo a tremer de
   raiva entre as pedras
o selvagem paraíso do sexo
com seu pó de fogo em busca das almas
nenhuma esperança:
a porta foi rachada pela astronomia
o jardim é o riso dos mortos


Enrique Molina (n. Buenos Aires, Argentina, 2 de Novembro de 1910 – ibidem, 13 de Novembro de 1997), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 57-58.

OS MAIAS DO BRAISL



Tem a edição original de “Os Maias”?
O que quer dizer com original?
Aquela do Brasil.

domingo, 11 de novembro de 2018

FORTUNA CRÍTICA



Histórias, surpresas, absurdos tudo bem escrito.
Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.

(…) ainda de férias, dou comigo a descobrir um autor, a lembrar outro e a admitir que cada vez mais admiro as qualidades autorais contidas em boas narrativas curtas. (…) E acabo de descobrir um português que capta muito bem o espírito do género, para além de nos cativar pela ironia e pelo domínio da linguagem.
Manuel Frias Martins, no Facebook.

São contos breves (ou brevíssimos), crónicas, reflexões, pequenos engenhos explosivos — entre ficção afiada e poema em prosa. Textos nómadas, mais ou menos selvagens, sempre a tender para a heterodoxia. Henrique M. B. Fialho olha para o mundo e espanta-se, ou indigna-se, ou contrapõe delírios ao caos do quotidiano.
Expresso, na secção Obrigatório.


Mais de cem histórias compiladas em pouco mais de trezentas páginas, num livro que tem tudo para ser portátil, atentos os seus 12,8 x 16,9 cm, em capa mole, para ser lido sem pressa e ser relido, comentado e partilhado, propenso a pensamentos nostálgicos e boas gargalhadas
Francisca Moura, na página Deus Me Livro.

Mais de cem pequenas narrativas compõem este volume delicioso. Livros como este são raros - têm a ver com a arte de narrar sem pirotecnia nem ornamentos excessivos. Histórias e enredos bem desenhados - uma medida perfeita.
Revista LER, na secção Livros do Trimestre.

Chama-se A Festa dos Caçadores, mas na verdade o mais recente livro de Henrique Manuel Bento Fialho é uma festa literária, pela forma como habilmente joga com a linguagem, com os géneros, com as personagens, com o absurdo da vida, com o quotidiano.
Inês Fonseca Santos, no programa Todas as Palavras.

BÁRBARA CIVILIZAÇÃO


Desde 1970, já eu era nascido, o Homem dizimou 60 % dos animais do mundo. Mais de metade dos mamíferos, répteis, aves e peixes do planeta foram mortos em poucas décadas. A manter-se o ritmo, dentro de uns anos não haverá animais nesta Terra. Ficaremos com os insectos, quando muito. A notícia, terrível, surgiu no Guardian, leiam-na, por favor. 


Via Malomil, aqui.

GOSTARIA DE FAZER CONTIGO UM FILME SONORO




Escuta miúda, que falas pelo nariz e és sardenta
e tens vinte anos e uma grande ambição
e um noivo canalizador parecido com o Nils Asther
e uma tela verde sobre o olhar azul:
Gostaria de fazer contigo um filme sonoro

Cantam sobre as árvores os pássaros pintados.
Mulheres com canastras vêm dos mercados.
Aqui produzem, vejo os homens e as luzes,
prostitutas, esqueletos, mapas, vigas e cruzes.
Radiosos elevadores em edifícios alvejantes,
sobem novos rumores de porões flamantes.
Penso em ideias velozes que vão do coração
até ao cérebro tal e qual uma exalação.
Lojas dos 300. Cansados jogadores,
colunas de cores nas barbearias.
Casas em cujos largos e estreitos corredores
são da mesma cor as noites e os dias.

E um porto. Um porto é sempre querida paragem.
Nele estão a aventura, lembranças, uma miragem
e quem a ânsia de partir nunca terá sentido?
Um porto, as tabernas e todo o mar chovido.
Por isso te digo, digo, que a tua boina vermelha
bem que um dólar e cinquenta pode custar.
Gostaria de fazer contigo um filme sonoro.
E alguma coisa mais, que não posso contar.

Raúl González Tuñón, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 41-42.

sábado, 10 de novembro de 2018

AS PALAVRAS ANDANTES


Vale a pena conhecer José Francisco Borges, um dos mais reconhecidos praticantes da literatura de cordel no Brasil. Literatura de cordel ou folhetos, como por cá diríamos, através dos quais se fixou a tradição oral. De cordel por serem os folhetos em exposição pendurados por cordéis. J. Borges, como é conhecido entre o meio artístico, ganhou também fama como xilogravurista, isto é, autor de gravuras em madeira. Na década de 1970, o escritor uruguaio Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015) desafiou-o a “ilustrar” as histórias recolhidas no volume que veio a ser publicado com o título As Palavras Andantes (Antígona, Junho de 2018). As gravuras de J. Borges reproduzem monstros, dragões, serpentes, figuras mitológicas, ancestrais, parecem vindas de um tempo ancestral, pré-histórico, misterioso, casando lindamente com estas histórias de Galeano. As Palavras Andantes é um livro diferente dos outros de Galeano que a Antígona publicou até agora, quer pela profusão de imagens, quer pela componente imagética das próprias histórias. Estas têm praticamente todas um cunho alegórico que nos transporta para tempos imemoriais, são pequenas cosmologias provindas de um universo sul-americano onde os deuses da terra se confundem com os do céu. Metamorfoses do Belzebu, mitos indígenas, personagens folclóricas, misturam-se em contextos quase sempre fantasiosos, reforçando a ideia de que «Pouca graça tem escrever o que se vive» (p. 25). Neste caso, o que se vive surge nos ínterins como que pautando um possível balanceamento entre «o daquém e de dalém» (p. 31) dos contos. Galeano recorre a lendas antigas, a delírios, sonhos, faz descer à terra as transmutações do mundo celeste, ressuscita os mortos e enterra os vivos com a mesma naturalidade de um milagreiro, sem nunca fechar as janelas desta moradia incomum à realidade envolvente.  Casos de almas trocadas, bruxarias, gravidezes improváveis, fenómenos xamânicos, manifestações de espectros, mitos criacionistas, fábulas e feerias, fantasmagorias, exílios e desterros ultraterrestres, maldições, superstições, dão corpo a uma mitologia galeana enraizada na História das Américas que nunca perde de vista o aforismo e a poesia das palavras:

JANELA SOBRE O CORPO

A Igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.

Alguns dos contos mais longos podem parecer meros divertimentos, como a História do Homem Que Queria Parir ou a História do Sobredotado, Suas Façanhas e Seu Assombroso Destino, mas delas sempre guardamos uma imagem forte sobre os destinos do mundo e da humanidade. Como não raras vezes sucede na literatura que se encarregou de fixar as tradições orais dos povos indígenas, os desenlaces raramente são óbvios, apelam ao espanto e à reflexão, sugerem caminhos para um pensamento destemido, capaz de percorrer o irracional sem se sentir obrigado a proverbializá-lo, antes paradoxializando a relação da linguagem com a realidade. Do indigente que se mascarou de Diabo para ter sucesso na vida, o desenlace é mais moralista:

   Felicindo tentou tirar a máscara com as unhas, experimentou com água e com aguardente, com detergente e com esfregão de arame.
   E até hoje continua a querer arrancar essa cara que o espelho lhe devolve diariamente.
   Ele consola-se sabendo que esse é o problema de quase toda a gente.

Não é mal que não seja comum, de facto. Mas esta é uma das raras ocasiões em que o remate se fecha sobre si mesmo. Na maioria das vezes, os textos são como as gravuras de J. Borges. Deixam-nos no limbo, a pensar se haverá algo de real naquelas figuras monstruosas, e se não será típico da realidade a monstruosidade que melhor a transfigura. A morte que vive é, afinal, o esqueleto que cada um de nós transporta pela vida, o mal, o medo, circulam no sangue como reflexos num charco, «poderes e mistérios» (p. 219) são próprios tanto das personagens como dos homens, sobre ambos pesará a mesma pedra, ou seja, a mesma perda:

HISTÓRIA DA PÁSSARA QUE PERDEU UMA PATA

   Os filhos já tinham quebrado os ovos e, chilreando, espreitavam no ninho. A Tenquita voou à procura de comida para eles. Era Inverno em Colchagua e a neve gelou-lhe uma pata. A pássara protestou:
   Porque me deixaste coxa?
   E a neve:
   Porque o sol me derrete.
   E a Tenquita queixou-se ao sol, e o sol:
   Porque a névoa me tapa.
   E a névoa:
   Porque o vento me arrasta.
   E o vento:
   Porque a parede me detém.
   E a parede:
   Porque o rato me esburaca.
   E o rato:
   Porque o gato me come.
   E o gato:
   Porque o cão me persegue.
   E o cão:
   Porque o pau me bate.
   E o pau:
   Porque o fogo me queima.
   E o fogo:
   Porque a água me apaga.
   E a água:
   Porque a vaca me bebe.
   E a vaca:
   Porque a faca me mata.
   E a faca:
   Porque o homem me afia.
   E o homem:
   Porque Deus me criou.
   Andando aos tombos, a Tenquita cantou em busca de Deus. E Deus ouviu-a. Então, ela perguntou-lhe porque fez o homem que afia a faca que mata a vaca que bebe a água que apaga o fogo que queima o pau que bate no cão que persegue o gato que come o rato que esburaca a parede que detém o vento que arrasta a névoa que tapa o sol que derrete a neve que me gelou a pata.
   Ai, Tenquita — disse Deus. — Eu tive de criar o homem para que o homem me criasse a mim.

10 DE NOVEMBRO DE 2018

Por que aceitaria eu receber mensagens de quem um dia me recusou uma rosa?

O OPTIMISMO HISTÓRICO



Eu sei que tudo muda,
que nada permanece,
nem uma árvore permanece
e até a pedra é viajante.

A solidão não existe,
o mundo é companhia.
Nem a morte está só.

Tudo quanto é, é luta.
Sou imortal, pois passo.
Apenas a estátua fica.
E até ela se move.

Em vão vos empenhais
em deter a história.
Sei que chegará o dia.
Também o sol o sabe.

Raúl González Tuñón, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 47.

Na imagem: Raúl González Tuñon um mês antes de morrer. Respigado aqui.

CIÊNCIA POLÍTICA


Eduardo Galeano, in As Palavras Andantes, tradução de Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018, p. 320.

ESTÁS À ESPERA DE QUÊ?


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

OS LADRÕES



Os ladrões usam gorro cinzento, cachecol escuro e camisa às riscas. Alguns levam uma lanterna de furta-fogo no bolso. Por outro lado, apaixonam-se por raparigas robustas, coleccionam postais e às vezes usam uma tatuagem no braço esquerdo, uma flor, um barco e um nome: Rosita. Todos os ladrões estão apaixonados por Rosita e eu também. Os ladrões sabem assobiar, sair dos carros em movimento e dançar valsa. Amam principalmente a mãe idosa e quando esta morre cantam um tango, choram desconsoladamente e dos objectos deixados pela morta, a repartir entre irmãos, elegem uma virgem de prata e o canário.

Raúl González Tuñón, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 44.

RAÚL GONZÁLEZ TUÑÓN



O PAÍS DA CHUVA E DA DISTÂNCIA

Todo o esplendor termina, as grandes vozes emudecem,
o verde-mar das pradarias seca,
mas aquilo que mais profundo e íntimo foi
perdurará na memória inapelável,
ali de onde o poema impreciso vigia
esperando que regressem os deuses do desterro.

Pois também a memória tem suas avenidas
de luzes silenciosas e esquinas recolhidas,
sua margem passando pelo fio do sonho.
O esquecimento cansa-se de chamar à sua porta.

O saguão é quem vela enquanto a casa dorme.
Houve um na infância, a recordação
colocou certa vez ali sua magnólia figo.
E na cancela eu desenhei uma tarde
o país da chuva e da distância.


Raúl González Tuñón (n. 29 de Março de 1905, Buenos Aires, Argentina - m. 14 de Agosto de 1974, idem), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 52. Poeta e jornalista, Raúl González Tuñón participou na vanguarda literária argentina da década de 1920. Viajou pela Argentina, cobrindo acontecimentos trágicos que o motivaram a desenvolver uma poesia de cariz social. Os seus poemas são habitados por ladrões, prostitutas, marginais, pelos excluídos dos bairros, dos mercados e das praças de Buenos Aires. Contactou em Espanha com poetas tais como Federico García Lorca e Pablo Neruda, tornando-se fervoroso militante antifascista. Filiado no Partido Comunista da Argentina, permaneceu fiel às suas convicções estéticas polemizando com outros membros do partido vinculados ao chamado “realismo socialista”. É hoje considerado o fundador de uma corrente moderna de poesia urbana, dando lugar ao testemunho e às temáticas sociais. Estreou-se em 1923 com Las puertas de fuego.

JORNAL(ISMO) DESPORTIVO


Se até um jornal desportivo, que supomos não ter as mesmas necessidades que outros, se transforma nisto, então como não pensar que o jornalismo acabou definitivamente?

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

UM POEMA DE RAÚL GONZÁLEZ TUÑÓN



O POETA MORREU AO AMANHECER

Sem um cêntimo, tal como veio ao mundo,
morreu por fim, na praça, diante da inquieta feira.
Velaram o cadáver do doce vagabundo
duas musas, a esperança e a miséria.

Foi um poeta cheio de vida e de obra.
Escreveu versos quase celestes, quase mágicos,
de invenção verdadeira,
e como homem que do seu tempo era,
também árias ardentes e poemas civis
de cantos e bandeiras.

Alguns, os mais velhos, repudiaram-no desde o início.
Alguns, os mais jovens, repudiaram-no depois.
Hoje irão ao seu enterro quatro bons amigos,
os paroquianos do café,
os artistas do circo ambulante,
uns quantos operários,
um antigo editor,
uma mulher bela,
e amanhã, amanhã,
florescerá a terra que sobre ele cair.

Deixa muito poucas coisas, livros, um Heine, um Whitman,
um Quevedo, um Darío, um Rimbaud, um Baudelaire,
um Schiller, um Bertrand, um Bécquer, um Machado,
versos de um ente querido que morreu antes dele,
muitas contas por pagar, um mapa, um cata-vento
e uma antiga fragata dentro de uma garrafa.

Os que o viram dizem que morreu como uma criança.
Para ele foi a morte como o espanto derradeiro.
Tinha uma estrela morta sobre o peito vencido,
e um pássaro no ombro.



Raúl González Tuñón (n. 29 de Março de 1905, Buenos Aires, Argentina - m. 14 de Agosto de 1974, idem), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 45-46.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #53



   Perdi o rastro aos Massive Attack em 2003, depois do decepcionante 100th Window. As críticas foram positivas, apesar de a banda aparecer reduzida a um dos seus elementos. Robert Del Naja, dito 3D, jamais poderia render tanto sozinho como outrora tinha rendido ao lado de Grant Marshall, Andrew Vowles & Companhia Lda. O registo spoken word de 3D afastava definitivamente a banda das raízes hip-hop, a guitarra de Angelo Bruschini surgia demasiadamente atmosférica e repetitiva. Mais trip do que hop, 100th Window foi um álbum a espaços terapêutico, mas algo enjoativo. A colaboração de Sinéad O Connor, entretanto convertida Shuhada Davitt, parecia desastrosa se comparada com as aparições de Elizabeth Fraser em Mezzanine (1998) ou Shara Nelson em Blue Lines (1991).
   Passados 20 anos sobre a edição de Mezzanine, continuo a ouvi-lo como se fosse a primeira vez. O entusiasmo não esmoreceu e o espanto é aquele que se deve apenas às obras-primas. Anunciado o regresso a Portugal, o tempo apela à recordação das ocasiões em que pude experimentar ao vivo o poder hipnótico dos Massive Attack. Falar de trip-hop a este propósito é apenas um chavão. Ouvimos o baixo poderoso de Angel, escutamos a voz de Horace Andy, somos abalroados pelos riffs épicos de Angelo Bruschini e percebemos que na tensão entre os ambientes sombrios, claustrofóbicos, e as abertas delicadas de temas como Teardrop ou o instrumental Exchange, resiste muito mais do que um estilo efémero como o são todos.
   A este propósito, talvez seja conveniente reforçar a ideia de que no domínio da música electrónica poucas foram as ocasiões em que um disco suplantou o transitório. E sempre que o fez, salvo uma mão cheia de excepções, conseguiu-o recorrendo a material orgânico que a arte do sample e das programações não logra imitar. As guitarras, os baixos e contrabaixos, a bateria, as vozes, conferem a Mezzanine um tom clássico e único que o resgata da efemeridade. O que tem de especial é precisamente o equilíbrio alcançado entre todos os elementos, mesmo quando as melodias parecem implodir largando estilhaços sonoros pelo ar. Outra característica fascinante é o facto de todos os temas apelarem à dança, ao balanceamento dos corpos, sem que a mesma redunde em mera distracção. Se há um ballet da classe operária, aí o têm:


(…)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A TEIA


(clique na imagem para ver melhor)
(se quiser ver)

domingo, 4 de novembro de 2018

UM CONTO DE EDUARDO GALEANO


HISTÓRIA DO HOMEM QUE QUERIA PARIR

   As mulheres? Uma raça inferior, como os negros, os pobres e os loucos. Inaptas para serem livres, como as crianças. Destinadas a chorar e a gritar, a dizer mal umas das outras e a mudar diariamente de opinião e de penteado. Na cama e na cozinha, às vezes dão prazer. Fora disso, só desgostos.
   Dom Seráfico sempre fora um homem de ideias claras. Mas agora, no crepúsculo dos seus anos, o diacho de uma sombra toldava-lhe a razão. Uma coisa nas evas não lhe inspirava desprezo nem pena. Por mais que lhe custasse reconhecê-lo, invejava-as: elas podiam ser habitadas e ele não; elas podiam ser dois, e ele não. Dom Seráfico não se queixava da vida, que muito gozo e fortuna lhe oferecera; mas ele nunca parira e indignavam-no os privilégios alheios. Não estava disposto a despedir-se deste mundo sem ter vivido a experiência de dar à luz.
   — Vou parir um menino — jurou — ou, quando mais não seja, uma menina.

   Outro juramento aconteceu por esses dias, nos montes em redor. Os caçadores tinham montado as suas armadilhas e o tigre caíra nelas. O tigre suplicou ajuda a um macaquinho que se baloiçava, pendurado num ramo, mas o macaco desconfiou. E o tigre jurou, beijando o ar:
   — Serei teu escravo.
   O macaco abriu a armadilha e foram-se embora. O tigre ia à frente, a abrir caminho e a varrer o chão que o macaco ia pisando. Quando o macaco se sentava a descansar, o tigre abanava-o com uma folha de bananeira. 

   Dom Seráfico entrou na loja de Dona Juana Obánla, pôs aos seus pés uma torre de notas e avisou-a de que não queria mulher mas também não queria marido, nem amante marinheiro, nem Espírito Santo. Juana Obánla era a bruxa de Camajuani. Sem conchas nem cartas nem bolas de cristal, augurava venturas, consolava desventuras e juntava o possível ao impossível. 
   A bruxa coçou a cabeça, meditou. E ficou absorta, a ruminar pensares, até se lembrar de que os filhos são feitos dos mesmos materiais dos sonhos e dos pesadelos. Então, preparou a poção: sete conchas de carbono, dezassete de hidrogénio, uma de nitrogénio e três de oxigénio.

   Durante todo o dia, o tigre foi um lacaio fiel. Mas quando a noite caiu, o felino pousou uma pata no ombro do símio. E não estava a abraçá-lo, estava a apalpá-lo. Acariciando o peito, comentou que os tigres não devoram a lua por terem pena da noite, que ficaria às escuras. Imediatamente o macaco explicou que fraco favor lhe faria a sua carne atacada por hepatite, malária, sífilis e sida.
   — De alguma coisa temos de morrer — reflectiu o tigre, enquanto o macaco escapava e, com um salto, desaparecia. 

   Nove luas passaram.
   Dom Seráfico não tinha nenhum menino, nem menina, na barriga, mas fora destruído pelo alvoroço de duzentas e setenta noites de azáfama incessante. Assim que punha a cabeça na almofada e fechava os olhos, o sonho condenava-o a cumprir proezas extenuantes:
   ele corria sem parar, durante toda a noite, perseguido por um comboio enlouquecido que lhe pisava os calcanhares,
   ou trepava por um pau ensaboado, enquanto os crocodilos esperavam por ele em baixo, com os maxilares abertos,
   ou passava a noite inteira a fazer amor com as onze mil virgens da escolta de Nossa Senhora da Caridade do Cobre, que, uma após outra, investiam sobre ele, ondulando a dança do ventre, e lhe davam a volta atirando-se nuas para os seus braços.
   Acordava num estado lastimável. Arrastava-se a muito custo até ao pátio e molhava a cara com água fria, temendo que brotassem palavras ou lagartixas, em vez de água, pela boca da fonte. 

   Quando a nona lua iluminou o bosque, o tigre e o macaco estavam esquálidos e esgotados; mas o perseguidor não desistia de procurar o seu fugitivo jantar. Os seus passos soavam cansados, mas faziam crepitar as folhas secas, e as orelhas ainda seguiam o rasto, que anunciava o salto mortal; os seus rugidos afónicos chamavam pelo prófugo e ofereciam-lhe saliva para te empapar, língua para te encurralar, dentes para te triturar. Assim era de dia, tempo das cores, e assim era de noite, tempo dos odores.

   Agora Dom Seráfico tinha dois problemas: continuava sem dar à luz e sofria a maldição do sonhar incessante.
   Foi até à cidade, recorreu à ciência. Pagou consulta a dobrar à maior das sumidades.
   O doutor Bonfin ouviu-o sem mexer uma sobrancelha. Dom Seráfico explicou que decidira gerar, no seu próprio ventre, sem mulher, o príncipe que coroaria a sua estirpe; e prometeu tudo o que tinha em troca da fórmula da gravidez masculina. O doutor Bonfin avisou-o:
   — Parir dói.
   Enfiou-lhe um funil na boca da frente e, com um tampão, fechou-lhe a boca de trás. Deitou o paciente e despejou, através do funil, uma panela inteira de óleo de rícino.
   Nessa altura, Dom Seráfico pediu-lhe a receita contra o tormento dos pesadelos que o acossavam. O doutor Bonfin limitou-se a perguntar-lhe se dormia com os braços sobre as cobertas ou com os braços tapados, e se dormia com os punhos fechados ou com as mãos abertas.
   Dom Seráfico nunca mais conseguiu pregar olho na vida; mas, naquela tarde, saiu do consultório em avançado estado de gravidez.

   A prudente distância do inimigo, o macaco pôs-se a dormir a sesta na copa de uma mutamba.
   Sesteando estava, quando ouviu queixumes humanos. Espreitou: debaixo da ramagem estava um homem redondo, de cócoras. Com a sua enorme barriga apoiada no chão, Dom Seráfico gemia, suava fogo, suava gelo. O macaco escorregou até ao chão e sentou-se, silencioso, a observar o espectáculo.
   Quando o tampão saltou e aquela bola explodiu, um trovão de trovões fez tremer o mundo; e o macaco deu um salto.
   Dom Seráfico, desinchado, caído, chegou a vê-lo. E, banhado em lágrimas, choramingou:
   — É feiinho, mas não tem importância.


Eduardo Galeano, in As Palavras Andantes, trad. Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018, pp. 150-156.

AS DESCULPAS EVITAM-SE



A Ordem do Dia, de Éric Vuillard, é um dos melhores livros que li este ano. Referi-me a ele aqui. Como foi possível o nazismo chegar ao poder e levar a cabo tudo o que se seguiu? É uma pergunta que se ouve muitas vezes, como se para ela não houvesse explicação. Mas há. E a mais simples é a mais correcta: quando o ódio se mistura com o deslumbramento, quando este se promove com a indiferença, temos uma mistura explosiva. Deslumbramento e indiferença. Aquele, excitado pelas massas em fúria; este, adormecido pelas massas resignadas, confortavelmente instaladas, laxistas, tolerantes, permissivas.

Lembrei-me muitas vezes da fotografia ao alto enquanto lia o livro. No meio de uma multidão obediente, um homem, com um simples gesto, mostra que estava do lado certo ao não fazer a saudação nazi quando todos os outros a faziam. A História mostrou-nos que ele estava certo. Vuillard não fala daquele homem, prefere lembrar quanto todos os outros à volta dele contribuíram para que fosse possível o nazismo ascender ao poder e fazer tudo aquilo que sabemos hoje que fez. 

Vuillard lembra os empresários que beneficiaram com o nazismo, aproveitando a mão-de-obra barata dos campos de concentração, os benefícios fiscais por terem passado o cheque ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, dito nazifascista, anticomunista, antissocialista. Vuillard lembra igualmente todos os cidadãos anónimos que se deixaram fascinar pelo ódio, não querendo ver o que estava à vista de todos, acenando «bandeirolas que estremecem à passagem do cortejo», e «os padres [que] apelaram no púlpito a que se votasse a favor dos nazis», e os empresários oportunistas. 

A dúvida que coloca já não é sobre como foi possível, pois essa está explicada. É outa: «Serpentinas, papelinhos, bandeirolas. Que terá acontecido a essas meninas loucas de entusiasmo, o que terá sucedido aos seus sorrisos? à sua despreocupação? aos seus rostos tão sinceros, tão alegres! a todo esse júbilo de março de 1938? Se uma delas de repente hoje se reconhece no ecrã, em que é que pensará?» 

Pois bem, no futuro quero ver-me no ecrã como aquele homem isolado da fotografia ao alto. Quero não sentir vergonha por ter apoiado quem prometendo ordem apenas semeou caos, quem prometendo paz o fez apelando ao uso da força, das armas, quem prometendo países grandiosos o fez amesquinhando seres humanos. Porque as desculpas não se pedem, evitam-se. E vergonha na cara talvez não pese tanto quanto orgulho ferido, mas a falta dela transforma o rosto numa coisa odiosa.

VIVA O CAPITALISMO



Quando a globalização do capitalismo era tema cheguei a discuti-lo nas aulas , um dos elogios que se fazia a esse fenómeno pós-Guerra Fria era a queda dos muros, a transposição das fronteiras. O mundo iria ser só um, todos a prosperarem à conta da produção e do consumo. Entretanto, verificou-se que a globalização do capitalismo serviu sobremaneira as multinacionais que facilmente se deslocam para onde conseguem mão-de-obra mais barata. Não serviu as populações. Essas, em vez de depararem com fronteiras abertas, deparam hoje com muros intransponíveis, sejam eles na América ou na Europa. Conclusão: desenvolvemo-nos, progredimos, crescemos à conta da exploração de povos mais fracos, aos quais impusemos a nossa vontade e a nossa força. Qual a diferença para o que se passa hoje? A escravatura deixou de ser legitimada pelo papel, mas mantém-se prática no dia-a-dia. O capitalismo global é isto: muros para as pessoas, via verde para as multinacionais.

MÃO-DE-OBRA



A notícia diz que Portugal precisa desesperadamente de imigrantes para combater falta de mão-de-obra. Podia dizer que imigrantes precisam desesperadamente de Portugal para sobreviver. Não. Ao contrário, Portugal precisa de mão-de-obra. E é por precisar de mão-de-obra que precisa desesperadamente de imigrantes, pois imigrante é sinónimo de mão-de-obra. De preferência barata, daquela mão-de-obra que não temos em Portugal porque a mão-de-obra portuguesa sai cara a Portugal. Os portugueses saem caros a Portugal, ao contrário dos imigrantes. Até que os Portugueses comecem a temer os imigrantes e se transformem naquilo que já são, isto é, até que deixem emergir o vómito do ódio, do racismo, da xenofobia, e comecem a vomitar slogans de “trumpa” contra a imigração. Porque os portugueses querem trabalhar, mas não por qualquer preço. Assim os imigrantes e os emigrantes. Acho eu.


Adenda: este post, no Xilre. 

sábado, 3 de novembro de 2018

INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5249, sexta-feira, 26 de Outubro de 2018.

(também aqui)