quarta-feira, 10 de agosto de 2022

PRIORIDADES

 
Pincinhas na pedofilia entre a padralhada, marteladas pneumáticas nos artistas que actuam na Festa do Avante. Enfim, prioridades.

VEIA SAFENA MAGNA

 
Esta noite tive um sonho estranhíssimo, desconfio que animado pelas fotografias estivais partilhadas nas redes. Esses instantâneos de gente estendida na praia com o horizonte a espreitar entre as pernas estão a provocar estragos na minha sanidade mental. Uma pessoa fica a olhar para os fragmentos de pernas, reduzidas a parte das coxas e aos joelhos, e dá por si a imaginar as cosias mais horríveis. No sonho eu estava a chegar a uma praia e reparei que todas as pessoas que, como eu, chegavam ou, em sentido inverso, dela partiam, circulavam em cadeiras de rodas ou à laia de amputados das duas pernas que se apoiam nos braços para se deslocarem. Não havia banhista que tivesse pernas, nem os nadadores-salvadores. Só se via gente amputada abaixo do joelho. Tal como nas fotografias em que vislumbramos em primeiro plano partes de coxas e joelhos, eu via cotos por todo o lado, deitados nas toalhas, a apanhar sol, a nadar no mar, a fazer as coisas que os indivíduos normalmente fazem durante a época balnear. Senti-me altamente deslocado, eu que tinha o corpo completo, inteiro, absoluto, incólume. Ou assim julgava antes de haver passado pelas brasas, depois de me instalar na duna mais isolada que encontrei. Ao acordar, a praia estava repleta de cotos a saltitar de um lado para o outro, a mergulhar, a comer bolas de Berlim. Não sei se estão a ver, as pessoas já nem cabeça tinham. Nada de tronco, braços, zero. Aqueles seres eram cotos, resumiam-se à parte da anatomia humana que vai das articulações da coxa com o quadril até ao joelho. E perguntam vocês: como conseguiam estes seres comer bolas de Berlim? Pois, tinham pequenas bocas nas coxas, junto à veia safena magna. E tinham minúsculos olhos e ouvidos e nariz onde normalmente estão o fémur, os ramos das artérias femorais, a tíbia, a fíbula e a patela. Mas o pior estava para vir. Ao escutar a sineta do homem das bolas de Berlim, levantei-me para chamá-lo. Acenei. Como não me visse, tentei soltar um «ó faz favor». Não saiu nada. Esforcei-me novamente e nada, não conseguia falar, tinha perdido a boca. Entrei em pânico à procura da boca. Mas o que raio me tinha acontecido à boca? Teria sido comida por alguma coxa canibal? Ter-me-ia sido roubada? E agora, o que seria da minha vida sem puder degustar uma bola de Berlim? Caí de joelhos sobre a areia, esmorecido, tristíssimo, desfeito, a observar com cobiça nunca antes experimentada os cotos que se lambuzavam em bolas de Berlim… na praia.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

DIA INTERNACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS

 
«Vocês querem lá saber dos índios. 'Tão-se mas é a cagar. Os índios podem morrer à fome, comidos por vermes de pestilências brancas, podem extinguir-se como rinocerontes, que vocês estão-se nas tintas. Mandam embalsamar um para o museu etnográfico, metem dois em exposição no zoológico, arranjam umas reservas para conservar meia dúzia antes de irem parar a frascos de formol e pronto, 'tá-se bem. Podemos continuar a dar cabo da floresta porque precisamos da madeira para estantes novas e das terras para engordar gado que, queira Deus Nosso Senhor, nos há-de engordar a nós. Índios? Tivessem estudado engenharia informática. O que vale um índio comparado com as necessidades do povo civilizado? O carro, o conforto dos estofos, o telemóvel, as baterias, e haver o que desperdiçar. Claro, que um homem não se consola em alimentar-se. Precisa de enfardar. E de fazer lixo. E de enviar o lixo para longe, onde não seja visto nem cheirado, para a terra dos índios. Não, esses já nem terra têm. O lixo vai mesmo para a Índia, onde porcos com aspecto de crianças vasculham o desperdício das nossas cidades. Vocês querem lá saber dos índios. Desde que não vos tirem aquilo a que têm direito, frutos do progresso dos homens e da evolução das espécies, tipo, sei lá, palhinhas de papel, tudo bem. Que não vos enfadem com os índios. Valores maiores se levantam. Vêm de uber, num jaguar. Que é palavra índia, do guarani jaguá.»

ERAM TRÊS E NÃO SE CALAVAM

 


   Eram três e não se calavam. Maldita a hora em que optei por aquela aberta para montar o chapéu-de-sol e estender a toalha onde me deitaria a ler a prosa de Esménio.
   A mais palradora, de cabelo encaracolado grisalho, procurava num telemóvel os cartazes das festas de Ferrel e Atouguia da Baleia. Estava interessada nos artistas do dia, porventura julgando-se na posse de argumentos irrecusáveis para uma noitada depois da praia. A mais velha das três, pelo menos assim parecia, era também a mais discreta. Enquanto a amiga buscava os cartazes perdidos entre dezenas de fotografias de artigos nas lojas dos chineses, registados para comparação de preços com produtos similares noutras grandes superfícies, esta servia de polícia sinaleiro na conversação, dizendo quem era quem, quais as funções, encaminhando a conversa para aqui e para acolá com referências a este e àquele. «A Cristina que casou com o Steven, o da padaria, que se despediu por não aturar aquela loura, a Carla, insuportável quando se armava em patroa.» Estes e outros assuntos de semelhante monta as ocupavam, sem folgas e encavalgamentos, sobreposições, um acumulado de cavaqueira interminável.
   A do telemóvel lá encontrou o cartaz de Ferrel, explicando que não ligara os dados por não lhe sobrar saldo. Ao dia 8 do mês de Agosto de 2022. O conjunto musical daquela noite oferecia garantias, tocava «músicas do antigamente, mas não muito velhas.» A terceira, que sobressaía pelo recurso a linguagem escatológica, mostrou-se desconfiada, não estava para ir a Ferrel aturar merdas.
   De que mais falavam estas três? Dos filhos, dos maridos, dos delas e dos outros, de dietas. «A gente em perdendo uns quilitos, a vontade volta», garantia a do cabelo grisalho. «Eu já perdi 5», revelava a mais discreta. «Eu já perdi 8», dizia a escatológica. E eu fiquei a cogitar que vontade seria aquela estimulada por dietas. O que volta com uns quilos a menos? A vontade de comer, certamente. O apetite, o desejo, a paixão, essas coisas. «Tens que experimentar a dieta verde», prosseguiu a grisalha. Não precisaram as outras de perguntar que tipo de dieta seria, ela logo se encarregou de tornar claro o conceito. «Verde longe a pizza, verde longe os refrigerantes, verde longe os enchidos, verde longe os queijos, verde longe a cerveja, verde longe o pão.» Riram muito.
   Por momentos, supus que ficassem por ali. Que dessem uma folga à saliva, uma oportunidade ao silêncio, que as gargalhadas transportassem uma sombra de sossego e calmaria. Nem pensar. Falavam como quem caminha descontraidamente numa rua, tropeça numa pedra, cai sobre alguém que passeia um cão, assusta o cão, é atacado pelo cão, foge para a estrada e acaba atropelado. Os temas sobrepunham-se numa lógica acidental que apenas na cabeça das três faria sentido. Interromperiam o curso aleatório das coisas quando um acidente maior as obrigasse a tal desfecho.
   A minha atenção dividia-se-me entre as páginas de «Cinquenta e Seis», o livro, e as vozes daquelas três, soltando-se amiúde em mergulhos nas profundezas da imaginação. Ocorreu-me a hipótese de um tsunami, o trio de tagarelas a ser conduzido pelas águas sem que nenhuma delas se calasse por um segundo. Vi-as arrastadas por uma maré de destroços, agarradas a troncos de madeira e a fragmentos de borracha, esferovites, indiferentes à catástrofe enquanto davam continuidade a problemáticas pessoais. Ainda ouvi a mais discreta perguntar: «Mas o que está a acontecer?» E a escatológica responder-lhe: «São merdas na cabeça daquele que nos está a ouvir.»
   Nisto de ouvir falar em merdas, lá estavam as três a discutir, agora muito indignadas, a porcaria espalhada pelas ruas onde costumam realizar caminhadas profilácticas ao fim do dia. «É merda de cão por todo o lado. Se não tens cuidado, cagas-te toda», asseverava a escatológica. A mais discreta apontava pessoas na praia com os seus patudos irrequietos, hábito e tendência que não incomodava a de cabelos encaracolados grisalhos. «Desde que apanhem os cocós com saquinhos.» «Ou com a mão», aventou a escatológica. «Credo», comentaram em coro as outras duas. «Ah pois, a minha vizinha apanha a merda do cão dela com a mão.» «Estás a gozar», comentaram em coro as outras duas. «É um podengo francês, o cocó agarra-se que nem sujas os dedos. É do que comem. Só comem coisas boas.»
   Belo remate, antes de se levantarem a caminho das águas. No livro de Esménio, página 33, li eu enquanto as via afastarem-se deixando para trás uma paz descansada: «A vida dos pobres é um mistério; mistério bem maior que a dos ricos, pois a estes não há chão que não os engendre, e não há chão que não os permita de si libertos.»


segunda-feira, 8 de agosto de 2022

UM FRAGMENTO DE ESMÉNIO

 


26. Charada do contrabando

26. Existem três tipos de cadáveres que equivalem a três tipos de defuntos: há os que são encontrados e enterrados, os que não chegam sequer a ser encontrados, e os que, embora encontrados, por qualquer razão não são metidos à terra. Um foi enterrado, mas não se consegue baixar à ravina; tivemos que lá deixar o outro diabo, os ossos a ficarem brancos, a romperem a pele debaixo do sol. Ora, achando-se aqui motivo de curiosidade ou não, o desfecho que nos estava reservado acabou por gerar precisamente um morto para cada gosto, como convém ao conto raiano. Mas mais que isso, mais singular que tudo o resto, é que tendo a nossa história acabado connosco abatidos como cães, esquecidos como enfermos de guerra, três miseráveis finados a centenas de quilómetros de casa, o mais singular dizia eu, é que tudo ocorrido, sucedido e relatado, nós éramos apenas um par de contrabandistas virados a montante e a jusante do rio, aquém e além fronteira. E é por isso que não posso prosseguir a narrativa que me ocupa, esta trágica historieta finda a qual dois homens se fazem três mortos, sem antes ter resposta, sem saber ao certo, ♪ afinal no final quem sou eu? ♪

Esménio, in Cinquenta e Seis. Vinte e cinco da terra e do rio. Trinta e um do mar e dos viajantes., FLOP, Junho de 2018, p. 37.

domingo, 7 de agosto de 2022

UM POSTAL DE JORGE LUIS BORGES

 


DA SALVAÇÃO PELAS OBRAS

   Num Outono, num dos Outonos do tempo, as divindades do xinto congregaram-se, não pela primeira vez, em Izumo. Diz-se que eram oito milhões, mas sou um homem muito tímido e sentir-me-ia um pouco perdido entre tanta gente. Além disso, não me convém lidar com números inconcebíveis. Digamos que eram oito, já que oito é, nestas ilhas, de bom augúrio.
   Estavam tristes, mas não o mostravam, porque os rostos das divindades são kankis que não se deixam decifrar. No verde cume de uma colina sentaram-se formando uma roda. Do seu firmamento ou de uma pedra ou de um floco de neve tinham vigiado os homens. Uma das divindades disse:
   — Há muitos dias, ou muitos séculos, reunimo-nos aqui para criar o Japão e o mundo. As águas, os peixes, as sete cores do arco-íris, as gerações das plantas e dos animais, tudo nos correu bem. Para que tantas coisas não os sufocassem, demos aos homens a sucessão, o dia plural e a noite una. Outorgámos-lhes, além disso, o dom de experimentar algumas variações. A abelha continua a repetir colmeias; o homem imaginou instrumentos: o arado, a chave, o caleidoscópio. Também imaginou a espada e a arte da guerra. Acaba de imaginar uma arma invisível que pode ser o fim da história. Antes que aconteça esse facto insensato, apaguemos os homens.
   Ficaram a pensar. Outra divindade disse com calma:
   — É verdade. Imaginaram essa coisa atroz, mas também há esta, que cabe nos espaço abrangido pelas suas dezassete sílabas.
   Entoou-as. Estavam numa língua desconhecida e não pude compreendê-las.
   A divindade maior sentenciou:
   — Que os homens perdurem.
   Assim, por obra de um haiku, a espécie humana salvou-se.

Izumo, 27 de Abril de 1984.

Jorge Luis Borges, de Atlas (1984), trad. Fernando Pinto do Amaral, in Obras Completas, Vol. III, 1975-1985, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998. p. 471.

sábado, 6 de agosto de 2022

ANA LUÍSA AMARAL (1956-2022)

 


Sobre A Génese do Amor, aqui. Um poema: aqui.


Do primeiro livro, Minha Senhora de Quê (Fora do Texto, 1990):

QUE SE ABRAM OS MEUS OLHOS

Que se abram os meus olhos
olhos, devagar
(fechados tanto
tempo, tantas noites
de frio)

Que rebentem em folhas,
devagar: uma
explosão de luz
onde a paz doa,
uma pequena lágrima
renasça

(Toca-me os olhos
devagar
até que o frio me
aqueça)

HIROSHIMA 77

 


   Passam hoje 77 anos sobre o bombardeamento de Hiroshima. Como sabem, trata-se da primeira de duas bombas atómicas lançadas pelos EUA sobre o Japão.
   Na verdade, os responsáveis por este horror não foram os americanos. A bomba Little Boy ia cheia de víveres para auxílio das populações. Quem trocou os víveres por urânio-235 foram agentes secretos do KGB, organização da União Soviética, infiltrados nas forças militares norte-americanas. O próprio Enola Gay foi pilotado por sovietes, que assim baptizaram o avião da morte para chamarem maricas aos americanos.
   No decorrer dos preparativos para uma “Oficina de formas narrativas breves” que irei orientar no Teatro da Rainha durante o próximo mês de Setembro, dei com uma flash fiction que vem a propósito. Traduzi-a a pensar nos participantes da oficina, mas não resisto a partilhá-la hoje. Ora tomem:

AZAR
 
 
   Acordei com dores terríveis pelo corpo todo. Abri os olhos e vi uma enfermeira sentada junto à minha cama.
   “Sr. Fujima”, disse ela. “Teve muita sorte em sobreviver ao bombardeamento de Hiroshima há dois dias. Agora está a salvo, aqui neste hospital.”
   Muito debilitado, perguntei-lhe, “Mas onde é que eu estou?”
   “Nagasaki”, respondeu ela.

 
Alan E. Mayer

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

ANTOLOGIA PALATINA

 


MARCUS ARGENTARIUS

Quando eras rico, Sosicrates, eras amado,
mas a pobreza curou-te de tal sarna.
Menophila, que te chamava querido Adonis,
doçura, agora pergunta: «Quem és tu, 
e donde, de que cidade?» Aprendeste,
à tua custa, o ditado: não tem
amigos quem está nas lonas.



O sexo com mulheres
é o melhor para um homem sério.
Uma sugestão, se desejares o outro:
dá a volta a Menophila, na cama,
dirige-te às nádegas mimosas
e é fácil fingir que fodes o irmão.


Pássaro danado, porque me roubaste
o sonho delicioso com Pyrrha?
Esta é a tua paga pelo teu sustento
e do teu harém de poedeiras?
Pelo ceptro e o altar do sagrado
Serapis, juro que terá a tua carcaça,
em sacrifício;
não mais cantarás, à noite.


Garrafa, velha companheira, amiga
das medidas do vinhateiro, doce
tagarela de boca risonha e longo
pescoço, bem-vinda, testemunha
secreta da minha pobreza (pouco
fizeste para a aliviar), de novo
te tenho na mão; mas preferia
que não contivesses mistura,
como virgem na cama do noivo.


Psyllas jaz aqui. A sua ocupação
proxeneta; mantinha um bando
de raparigas e alugava-as para festas.
Um negócio pouco simpático, ganhar
dinheiro com carne humana e fraca.
Mas poupem o seu túmulo, não atirem
pedras, agora que está morto e enterrado.
Lembrem-se disto: os serviços que prestou
convenceram os rapazes a deixarem
as nossas mulheres sossegadas.


Poemas da Antologia Grega, versões de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2018, pp. 43-44.

FRASES INSPIRACIONAIS

 

Estou a pensar seriamente em fundar uma fábrica de frases inspiracionais à Tolentino Mendonça. Vendo barato e ofereço a quem denunciar padres pedófilos. Cá vai a primeira:

   Não é por abrires os olhos que estás acordado. O que nos desperta é a verdade a que não se chega pelo olhar.

E a segunda, que eu hoje estou um mãos largas:

   A vida é um sonho de olhos abertos e a morte é uma vida inteira de olhos fechados.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

UM CONTO DE LAÍS CHAFFE




UM BALDE

   Aquela noite havia recuperado seu olhar de infância, e ela concluiu que agora estava tudo em suas mãos: se agarrasse com firmeza o entusiasmo fugidio que parecia ter se entregue sem advogados na véspera, poderia clonar os velhos tempos. E foi com esse olhar verde-flutuante que providenciou um novo corte nos cabelos, uma blusa vermelha e um vinho branco de salões por ela nunca freqüentados.
   Quando ouviu o barulho da porta sendo aberta, sentou-se no sofá com uma displicência estudada. A mesma com que colocara, na mesinha auxiliar ao lado, a garrafa de vinho no balde de gelo. Ele entrou rápido e estava normal. Nem mais, nem menos. Deu um beijo de verão na boca da mulher e seguiu no mesmo ritmo para o quarto, onde se curvou para beijar, agora lentamente, a testa do bebê que dormia. Ficou observando a criança cheio de emoção e, sem se virar, comentou que a filha deles estava cada vez mais linda.
   Na passagem, ele havia derrubado o balde. Ato reflexo, ela ainda conseguira salvar a garrafa. Mas uma parte do gelo derretido tinha molhado sua blusa. Então a mulher trocou de roupa.

Laís Chaffe (1966), in Não é Difícil Compreender os ETs, AGE Editora, Porto Alegre, 2002, pp. 77-78.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

DE UM DICIONÁRIO LITERÁRIO

 


Direito — Uma frase não tem lados direito e esquerdo como os mamíferos. Uma frase tem lados direito e esquerdo como uma esfera. E esta diferença é importante e deve ser pensada.
   Se os dois lados de uma frase são fixos, isso significa que a frase é sempre recebida a partir do mesmo ponto de vista. Neste caso: ou o leitor é imbecil ou a frase é imbecil.

Gonçalo M. Tavares, in Breves Notas Sobre Literatura-Bloom — Dicionário Literário, com posfácio de Borja Bagunyà traduzido por João Moita, Relógio D'Água, Maio de 2018,  p. 29.

OCO RIMA COM TROCO

 
Entrei ontem numa FNAC, a do Chiado. Aqui há atrasado era lugar que enchia a boca de muita barriga cagona. A secção de poesia não existe, têm para lá uma estante e uns destaques do mais manhoso que encontrar se possa. Os CDs desapareceram, kaput. Restam promoções para escoar sotcks. Portanto, está tudo bem quando acaba bem. A FNAC resumida àquilo que sempre foi, por muito que quisessem fazer daquilo o que não era nem podia ser. A alternativa nunca esteve e jamais estará nas cadeias, nos aglomerados, cujo propósito é única e exclusivamente o lucro. É claro que as barrigas cagonas jamais reconhecerão isso, continuarão em estado de negação a defender o indefensável, estendendo a mão às migalhas dos grandes grupos, escancarando as pernas aos convites mais oportunistas para drinks de fim de tarde. Depois admirem-se que o inane Pedro Chagas Freitas seja escolhido para representar Portugal. E, vai-se a ver, até que foi bem escolhido. Não é este país a quinta-essência da futilidade?

terça-feira, 2 de agosto de 2022

EVERYTHING NOW (2017)

 


Qual é o segredo? — perguntou a mais velha. Respondi eu, falo sempre mais do que a prudência determina. Inventei umas coisas, a paciência, o respeito, a disponibilidade, saberes colocar-te no lugar do outro. Nada de amor nem lealdade, tretas inventadas para amestrar corações selvagens. Em rigor, devia ter-lhe respondido com uma única palavra: comodismo. Uma pessoa acomoda-se e pronto. Mas bastará? Talvez não chegue. É preciso dar uma oportunidade ao Verão, aproveitar a paixão antes que ela expire como o pavio numa vela. Chegarão os dias em que a gente descobre que é fósforo com pólvora húmida. Beckett usa amiúde a expressão in vain. Vão, deve ser a palavra que mais vezes li em Beckett. Essa percepção de que a vida é in vain e que a via para viver in vain é, levou-me a valorizar a respiração. Não é em vão que uma pessoa respira, percebe-se isso quando se tem um ataque de asma. Ou quando mergulhamos e tentamos manter-nos debaixo de água como um peixe. Fomos dando oportunidade ao Verão, talvez seja esse o segredo, dançando e aproveitando a alegria de viver na medida do que nos é possível e, mais importante que tudo, regista o segredo, acima do que nos é possível. Viver acima das possibilidades devia ser um direito inalienável, se por isto entendêssemos a alegria de viver sem sentir necessidade de luxo. Evita-se muito desperdício prescindindo de luxos patéticos, colocando como medidas de sucesso o sorriso e a foda, cingindo a fama aos limites de uma cama.

BREVE NOTA SOBRE CRÍTICA LITERÁRIA

 
Tenho para mim que a crítica literária poderia reduzir-se aos pensamentos que vamos tendo enquanto acompanhamos a leitura de um livro, não fosse a vaidade de muitos críticos em pretenderem fazer-se passar pelo que não são: filósofos. Tenho a mania de anotar impressões nas margens dos livros que vou lendo, sendo que uns ficam mais registados do que outros. Alguns não inspiram comentários, ainda que exijam correcções. Gralhas, erros, etc. Nada como um exemplo. Voltei a pegar nas “Breves Notas Sobre Literatura-Bloom”, do Gonçalo M. Tavares, e recolhi os comentários que fui espalhando pelas páginas do livro à medida que o lia. Ficou assim:
 
Banal. Isto já foi escrito um milhão de vezes de mil e uma maneiras. Arquivo de factos? Adiposo. Ver conto da Laís Chaffe, julgo que “O Salto”. Engraçado. Pessoa interesseira, deita-a na lixeira. Egoísta rima com fascista. Isto podia ser António Pocinho. Coitado. Lugar-comum. Um dicionário de lugares-comuns, seria incomum? Depende do texto. Este não ficaria pior esborratado. OK, isto é bom. Pois. Já li isto algures. Terá sido numa entrevista? Isto também não é mau. Mas é imagem, mera imagem. Básico. Ver página 53. Intensidade. Gosto mais de Beckett. E de vinho. !! A sério? Onde? Lyotard, claramente. Mais Lyotard, o da pós-modernidade. Olha Brecht. Meta-escrita. Porra, que tédio. Acumular, como nas acumulações de Arman. Mas Arman sempre recolhia lixo, o escritor produz lixo. Não bebes mais nada.
 
Nota: este último comentário é ao posfácio de Borja Bagunyà.

MARCELO A MARTELO

 
   Quando eu era um jovem rapaz, deleitava-me com filosofia da linguagem, retórica e lógica aristotélica. Depois cresci e comecei a apreciar polémicas nos weblogs, até que estupidifiquei e fui parar ao Facebook.
   As polémicas no Facebook são, mais bloqueio, menos bloqueio, como esta conversa que há dias tive com um amigo. Tentava explicar-lhe porque razão a democracia está longe de ser democrática, recorrendo a exemplos práticos com números.
   Num universo de 10, vá lá que votem 5. A outra metade fica em casa. Dos 5 que votam, 1 é percentagem de nulos e brancos. Restam quatro. Destes 4, 2 disseminam-se pelos diversos partidos derrotados em percentagens mínimas e os restantes 2 concentram-se no vencedor. Portanto, a democracia não privilegia a maioria, mas sim a concentração. É um sistema de enlatados e de conservas. Os 2 concentrados ficarão com o poder, contra os restantes 8.
   O meu amigo retorquiu, argumentando que quem não participa não conta. Logo, os brancos, nulos e abstencionistas não deviam entrar nas contas. Não tinham nada que ver com os assuntos do Estado. Bico calado.
   Sabendo eu que ele é um acérrimo animalista, perguntei-lhe se alguma vez tinha ido a uma tourada. Respondeu negativamente, já um pouco alterado. Questionei, então, porque raio havia de levar em conta a opinião dele sobre touradas. Se em democracia apenas conta quem participa, se quem não participa não tem direito a queixinhas, então quem não vai a touradas também não devia ter nada que ver com os assuntos dos touros. Ficou muito zangado comigo, acusou-me de estar a desconversar. Convenci-me mesmo de que, tivesse esta conversa sido no Facebook, eu acabaria bloqueado.
   Vim para casa a pensar na democracia portuguesa, nos 20 anos de Cavaco, nos 6 anos de José Sócrates. E agora o Marcelo. Caramba, os eleitores portugueses têm mesmo mau gosto. Dir-me-ão que não fossem estes, seriam outros piores. É como tudo, pode sempre ser pior, o que não quer dizer que não seja péssimo. Vejam bem a desgraça que é estarmos sempre a desculpar Marcelo porque Cavaco era pior. Isto de passar a vida a justificar males com males maiores ainda vai acabar mal.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

LUÍS PAULO MEIRELES (1962-2022)

 


tudo (Canto Escuro, 2008), hibernu (volta d'mar, 2011), bairro (volta d'mar, 2016).

O PALHINHAS

 


O Palhinhas & Ca. é um periódico mensal  com sede na Figueira da Foz. Tem um directório colectivo composto por José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana e Álvaro Biscaia. A convite da Ana Biscaia, venho colaborando com O Palhinhas, ininterruptamente, desde o número 63 (24 de Agosto de 2020).Como não gosto de números redondos, celebro este encontro à décima nona colaboração. Ao número mais recente, o 81, ofereci um texto sobre “Os Cães de Paula Rego”. Outros colaboradores são V. Claro, Sebastião Peixoto, Rui Damasceno, Pedro Silva, Paula B., Marco Mendes, Luísa Ferreira, José de Matos-Cruz, João Pedro Mésseder, Joaquim Jordão, Evia Evita (a capa deste número), Colectivo AAM, BAP, Augusto Baptista, António Augusto Menano, André Ruivo, Ana Biscaia, AFMFF, A. Bica. Gosto de O Palhinhas. Tomem lá esta do Augusto Baptista:
 
ABSURDO
 
Absurdo é ser aqui, talvez o único lugar no Universo onde a vida pulsa, que tão obstinadamente se atenta contra ela.

AFORISMOS BALNEARES

 
Também podia escrever um livro de aforismos balneares. Tenho vários disseminados por cadernos que vou guardando. Ontem, enquanto procurava uma coisa que ainda não encontrei, dei com este num caderno de 2001:
 
“Há maus cheiros que me são agradáveis, enquanto certas fragrâncias caríssimas me provocam enjoo, alergias, mal-estar. Isto percebe-se perfeitamente durante um passeio nas docas.”
 
Isto, num livro de aforismos de Karl Kraus ou numa entrada dos diários de Cesare Pavese, seria um pensamento digno de nota.

domingo, 31 de julho de 2022

CONTA CORRENTE

 
Ir à Festa do Avante! significa apoiar o PCP e as suas ideias? Ligue 910024185 e entre em direto no Contra-Corrente.
 
1. Daqui Pedro Abrunhosa: Putin, go fuck yourself.
 
2. Está lá, daqui Alberto Gonçalves, o careca, o outro, não é o Tavares, é aquele que ninguém lê. Bem, liguei só para lembrar que "na festa do “Avante!” sempre houve “artistas”." Obrigado pela oportunidade para expressar mais este pensamento profundo.
 
3. Yô, ei, daqui Abrunho, o osa, digam comigo: Putin, go fuck yourself. Yeah, 'tá-se, lua, lua.
 
4. Alô, daqui Távarres, o perrópio. Eu tenho a solução capitalista parra quem actua na Festa do Avante! Aos músicos que aceitarram tocárre no Avante!, tenho a solução perrefeita parra os vossos perroblemas: coloquem os honorrárrios num envelope e mandem enterregárre na embaixada da Uquerrânia. A gente no Goverreno Somberra faz o mêmo. Viva a festa de Verrão do Chega!"
 
5. Eu Pedro, o grande, o verdadeiro e único, não posso mais viver assim: Vladimir, go fuck yourself. Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim.
 
6. Olá, daqui Milhazes, agora milhões, eh, eh, obrigado Putin, depois dos agradecimentos à União Soviética pela minha formação, lá faziam lavagens ao cérebro e a gente ficava neste estado, tenho muito a agradecer a Putin por esta invasão, à conta da qual vou enchendo o bandulho com mortadela bielorrussa. Isto para dizer que é uma vergonha os artistas actuarem diariamente no Jornal da Noite sem terem direito às bolachas de Clarinha. Eh, eh... Estou muito grato ao Balsemão, que rima com salmão, por me dar este tempo de antena. Depois de uma capa falsa do New York Times, só mesmo uma cara de pau do Milhazes emparelhada com uma cara de totó do jogo do Risco. E agora tomem lá esta: sabem o que é que eu estou para aqui a dizer? Nada de jeito.
 
7. Olha, estava a ouvir o vosso programa e lembrei-me de ligar por acaso. É só para dizer: Putin, go fuck yourself. Daqui o Pedro, o daquela muita gira, "Para os braços da minha mãe". Vocês sabem, sou eu, in the house.
 
8. Oi, tudo fixe, daqui o Raposo. Bem, é para dizer que apesar de ter uma perna mais curta do que a outra isso não me afecta o pensamento que está muito equilibrado. Daí que pergunte: os artistas portugueses vão continuar a cantar na festa de Putin (aka Festa do Avante)? Ah, pois é, e digo mais: as alentejanas são violadas e não piam, nem sabem o que isso é, o Putin não lhes ensinou a palavra violação. E acrescente-se que para um alentejano o suicídio é um fenómeno natural, tão natural como, sei lá, invadir a Ucrânia. Não há comunistas maricas, sabiam? Nem pedófilos na Igreja, para que saibam.
 
9. Viva, tudo ok, daqui Abrunhosa. É só para deixar muito claro, para que não haja dúvidas, que se eu fosse um dia o teu olhar, Putin, go fuck yourself.
 
10. Eh pá, daqui a São José Lapa. Vocês calem o Abrunhosa ou eu chamo a embaixada russa.
 
11. Eia, eia, daqui o Pedro Abrunhosa, esta bateu forte, estou bué ofendido. Acho que deviam organizar um movimento internacional em meu apoio.
 
12. Eu não percebo porque é que só falam dos artistas da música que vão ao Avante. E os do teatro, não contam? A Maria João Luís, da telenovela "Terra Brava", da SIC, também vai à Festa do Avante. Não a querem entrevistar num dos vossos interrogatórios policiais da SIC Notícias? É só isto, obrigados.

sábado, 30 de julho de 2022

PRESIDENTE DA JUNTA

 
Eu é que sou o presidente da junta. Eu é que sou poeta. Eu é que sou editor independente. Eu é que sou crítico literário. Eu é que sou jornalista cultural. Eu é que sou de esquerda. Eu é que sou de direita. Eu é que sou liberal. Eu é que sou libertário. Eu é que sou anarquista. Eu é que sou isto. Eu é que sou aquilo. Eu é que sou aqueloutro. Eu é que sou eu. Eu é que sou o outro. Eu é que sou todos os demais além de mim. Eu no centro de mim mesmo. Eu mundo. Eu tudo. Os outros são irrelevantes. Excepto quando eu diga que são relevantes. Porque eu é que sei. Eu o iluminado. Eu o revoltado. Eu o indignado. Eu o zangado. Excepto comigo mesmo. Porque afinal eu é que sou o presidente da junta. Como é que dizia o outro? Qual outro? O Confúcio? Talvez o Senhor Keuner. O tolo fala, o sábio cala. Era mais ou menos isto, não era? Seria? Eu é que sou o sábio. Não serás antes o tolo? Eu, os outros, os outros, eu, entre mim e o mundo um fosso, um abismo, porque eu aquém do mundo, eu além do mundo, eu de um lado da barricada e os outros do outro, eu contra todos, todos contra mim, nestas guerras de alecrim e de manjericoninhas. Eu é que sou o presidente da junta.

TRÊS ARQUINHOS

 

Acabado de ouvir na esplanada do café Três Arquinhos, Rogil:

Sempre que vejo um artista pousar para a fotografia ao lado de uma figura do Estado, lembro-me da pizza com ananás. Há ideias péssimas, por mais rentáveis que sejam.

TEMPO, TEMPO, TEMPO

 
Vou afastar-me do Facebook por uns tempos, isto está a dar cabo de mim, isto é uma pouca vergonha, isto e aquilo e aqueloutro, as pessoas já não são o que eram, etc.
 
Um, dois, três e quatro. Cinco, seis, sete e oito.
 
Pronto, estou de volta.
 
Agora é que é, vou de vez.
 
Olá, vi hoje um filme espectacular na 2. Acho que também deviam ver.
 
Esta rede está um esgoto. Já não há paciência. Vou-me embora, adeus.
 
Hoje escrevi este poema espectacular, só partilho convosco, sois especiais, aproveitei para fazer uma limpeza nos contactos. Tomem:
 
Um passarinho numa flor
uma pétala num passarinho
O céu azul e as montanhas
tristes dos teus olhos
Amo-te e não há borracha
que apague o nosso amor

sexta-feira, 29 de julho de 2022

UM ANALECTO

 

Nunca percebi porque razão as nossas histórias da filosofia começam invariavelmente com os gregos. Os homens não pensavam antes dos pré-socráticos? Mais grave é a quase completa ausência de Confúcio no tabuleiro desta partida. O argentino Jorge Luis Borges falava com entusiasmo de uma história da filosofia que começava com chineses e indianos, da mesma maneira que entusiasticamente se empenhou em desfazer a dicotomia Ocidente/Oriente. Onde começa um e acaba o outro? Não serão ambos resultado de influências mútuas durante séculos de contactos, viagens, batalhas, disputas territoriais? Entre os autores que conheço, nenhum outro supera Eduardo Galeano na desmistificação de uma suposta superioridade cultural do ocidente. Galeano também é sul-americano, do Uruguai, um continente cuja história está profunda e tragicamente estigmatizada pelo colonialismo ocidental. Há culturas superiores, dizia, escrevia e repetia há tempos um desses parvalhões com palco permanente na imprensa e no entretenimento (não são ambos cada vez mais a mesma coisa?). Fará ele ideia do que nos legaram os chineses, do que com eles aprendemos e do que neles copiámos? Reconhecerá a relevância dos árabes em inúmeras matérias? Talvez não, se até o filho de uma estimável poeta afirmou que os árabes não deram nada de valoroso à humanidade. Acho lamentável que os pais nada ensinem aos filhos. Foi o que sucedeu com este, pobre coitado, a mãe andava ocupada a escrever poemas e o rapaz ficou assim. A humanidade, na sua diversidade cultural, mistura-se, influencia-se, contamina-se, sendo que cada um de nós é resultado de inúmeros encontros e cruzamentos. Portugal há-de ser das regiões neste mundo com mais misturada genética. O fim de uma península no termo de um continente. Paravam aqui os povos e, não havendo nada diante, por aqui ficavam para mal dos seus pecados. Alguns terão voltado para trás. Não podemos criticá-los. As coisas são o que são e são muita coisa diferente ao mesmo tempo. Vem isto a propósito de quê? De Confúcio, pois claro. E de um analecto no qual tenho pensado muito ultimamente. Diz assim:
 
Chi-lu perguntou como deviam ser servidos os espíritos dos mortos e dos deuses. O Mestre disse: «Tu nem sequer és capaz de servir o homem. Como podes servir os espíritos?»
   «Posso perguntar sobre a morte?»
   «Tu nem sequer compreendes a vida. Como podes compreender a morte?»


BUCÓLICA


 

Ah o campo, o silêncio recortado
pela passarada, sinfonias de grilos
e de cigarras, ah a paz das moscas
mordendo o odor dos corpos
despidos à sombra dos pinheiros

Ah a picada do moscardo no braço
nu, o sossego veranil mugido
por manadas em pranchas de surf

Ah o fio dental das jovens raparigas
e seus cus sorrindo como bocas
oralplan, meus olhos abelhudos
sibilando e zinindo e zoando
as corolas dos seios protéticos

Ah a fragrância do bronzeador
misturada com suores e bosta
de gado na brisa de Verão
O carvão vegetal crepitante
dos churrascos, as ementas
impagáveis dos restaurantes
e, claro, ah os conceitos

Ah o selvagem chique das tias
e dos sobrinhos, a criança tratada
por você como fruto silvestre
em estufa panorâmica, ah a selfie
de costas para o mar e ovações
ao nadador salvador e ao pôr-do-sol

Ah a velha que palita os dentes
com finos raios solares, a demora
no serviço de esplanada, o velho
que reclama por não estar curto
o café sem princípio em pires
escaldado, as bichas estacionadas
à entrada do W.C., ah as pessoas
e a mania de sacudir toalhas
a cada minuto que passa

Ah aqueles que entram a medo
no mar e dão pulinhos quando
uma onda vem, e voltam as costas
para não molhar o peito, e se
encolhem não vá o salgado da água
prejudicar a tensão arterial

Ah o campo, a praia, as férias
Ah o mar, a areia e as melgas

quinta-feira, 28 de julho de 2022

UMA FÁBULA FANTÁSTICA DE AMBROSE BIERCE

 


UMA GUERRA NECESSÁRIA

   O povo de Kamzembla alimentava forte simpatia pelo de Novakatka. Deu-se até, uma vez, o caso de uma multidão de kamzemblenses se ter atirado a uns tantos marinheiros de um navio novakatkianos, matando dois, e ferindo uma dúzia. O Rei de Kamzembla recusou-se a apresentar desculpas, ou a pagar uma indemnização, alegando que ainda estava por demonstrar ser injusto massacrar novakatkianos. No decurso das batalhas que se seguiram, os kamzemblenses mataram dois mil novakatkianos, e feriram doze mil.
   Mas os kamzemblenses não alcançaram a vitória, o que os desgostou mais do que nunca; daí em diante, nenhum novakatkiano, em toda a extensão do seu território, foi senhor da certeza de conservar tanto os bens como a vida.

Ambrose Bierce, in Fábulas Fantásticas, trad. José da Fonseca Amaral, Editorial Estampa, 3.ª edição, 2001, pp. 141-142.

ZONA DE GUERRA

 


- Ó amigo, onde é que se encontra por aqui uma taverna?
- Ā?
- Uma taverna, um tasco?
- Sorry, don't speek english.
- Não fala inglês? Mas eu estou a falar português.
- Ah, é português. Isto agora é tudo camone.
- Procuro uma baiuca onde possa beber uma cervejinha e morder uns tremoços.
- Tente o bistrô.
- O quê?
- Ou a steakhouse.
- Isso não é de bifes?
- Além tem o grill?
- E servem tremoços?
- Pois, não lhe sei dizer, normalmente vou ao snack bar ou à Food Store. Gosto do conceito. Também temos uma pizzaria vegan e o rodeo sushi.
- Fónix, e eu que só queria uma bodega.
- Isso para mim é chinês, amigo. Não o entendo.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

CLÁSSICOS

 
Os filósofos Cínicos levavam uma vida de extrema austeridade, dispensando tudo o que fosse supérfluo. É paradigmático um episódio que se contava sobre o filósofo Demétrio (c. 412/403 - c. 324/321 a.C.), que vivia num tonel e tinha, entre os pouquíssimos pertences, um recipiente para beber água. Um dia, porém, viu uma criança que bebia da mão em concha e, percebendo que até aquele utensílio era desnecessário, pô-lo de parte.

Todos os portugueses deviam ler isto, pelo menos 100 vezes, antes de irem fazer praia. Reparem que não disse sempre, todos os dias, o que não traria mal nenhum ao mundo, antes pelo contrário. Bastava que o lessem antes de irem à praia, seria já um grande avanço civilizacional.

Tenho dito que uma das grandes vantagens de ler os clássicos é eles não estarem pejados de citações e referências aos contemporâneos, mas há mais. Esta, por exemplo, de nos clássicos estarmos sempre a encontrar coisas novas, exactamente o oposto do que sucede com os contemporâneos, em que tudo nos parece vetusto e antiquado.

SEARCH FOR PEACE (1967)

 


Abri a janela e lá estava a lua a espreitar. Não há velório nem funeral que me comova diante de uma lua assim, a desfazer-se para previsivelmente retomar o seu formato original daqui a dias. Qual o formato original da lua? É tudo ilusório, como haver dentro de mim algo a que possa chamar meu. Eu. Também a vida é uma fase. Nascemos cheios para irmos mingando até desaparecermos quase por completo. Nunca a luz desaparece por completo, fica sempre visível uma ferradura de poeira que à distância nos parece de luz. Os dias vão sendo cumpridos com leituras e ensaios, não há palavras novas no horizonte, apenas uma e outra imagem respigadas aqui e acolá. Para quê perder tempo com a natureza das palavras inventando-lhes substâncias que não têm? Já sabemos que a linguagem é abstracta, que entre a palavra maçã e uma maçã abre-se um abismo infinito, que pensamos recorrendo a representações, a nossa cabeça não é um tabuleiro em que possamos espalhar peças de um lego com o qual construiremos edifícios tridimensionais. Perder tempo ainda com essas coisas para quê? Procuro paz na lua inesperadamente avistada ao abrir a janela, na lua que me vê lá de onde sempre esteve a olhar para mim, mesmo quando eu não me apercebi de que ela estava onde sempre esteve e sempre estará, antes e depois daquilo que fui, sou, serei. Isso, o gesto subtil de abrir o leitor de CDs, meter a tocar McCoy Tyner e deixar o pensamento correr como se fosse eu, em criança, a fugir do que agora sou.