quarta-feira, 22 de maio de 2019

PRÉMIO CAMÕES 2019


Banda Sonora Essencial: aqui.

Eu sou seresteiro, poeta e cantor

LIDO ONTEM, NO TEATRO DA RAINHA, ACOMPANHADO À GUITARRA POR JOSÉ ANJOS


Diálogo com “uma fotografia apontada à cabeça”, de José Anjos.

   A história do homem na Terra é a história de um ser em queda, de um ser a aterrar, vindo do céu para a Terra, ser em deterioração. Fomos concebidos como anjos, acabamos como homens. À evolução das espécies apomos a degenerescência da carne, criatura entre as criações divinas. Deus ofereceu-nos o livre arbítrio, podemos mudar. A mutabilidade é, aliás, a nossa característica mais evidente, nota-se no próprio corpo, na passagem do tempo pelo corpo. A morte é o fim último dessa degenerescência, sendo possível entender entre a verticalidade do ser vivo e a horizontalidade do ser morto a imagem de uma queda. Um corpo em queda é um corpo à morte, é um corpo que desfalece, que tomba. O homem é entre aqueles que caminham o único a quem foi dado escolher o atalho das bestas ou a via do espírito supremo. Poder escolher, poder optar, a isso damos o nome de livre arbítrio. Viver talvez consista num treino dessa liberdade que exercita a vontade tornando possível dizer: este é o meu caminho.
   Penso em Eva, caminhando nua no jardim. “Tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem vergonha por isso”. A árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal haviam sido plantadas no meio do jardim. Provar o fruto do conhecimento do bem e do mal condenou-nos à morte, só depois a vergonha surgiu e os corpos foram cobertos. Interrogo-me sobre o que realmente nos terá condenado. Não resistir à tentação de provar o fruto proibido? Desejar conhecer? Exercer a tal vontade optando pelo caminho interditado por Deus? O grande mistério da existência é a dúvida instaurada pela consciência da morte. Sabendo que vamos morrer, quase nos esquecemos de que estamos vivos. Declaro aqui, agora, neste preciso instante, todo o meu amor a Eva, a mulher que ousou pensar e agir contra os imperativos de Deus. Enquanto mastiga o fruto também eu abro os olhos e vejo a morte ao largo, vejo um rio de sangue a escorrer nos veios da Terra, a humanidade inteira em busca de si própria. Só não lhe perdoo a vergonha, o gesto de cobrir a cintura com folhas de figueira. O que haverá no corpo que nos envergonha?
   Que as dores do parto sejam a sua condenação, deixa-me algo aliviado. Mas é olhando para esse corpo capaz de gerar outros corpos que a vida melhor se revela. Eis a mulher, prenha de morte, dando à luz vidas que o tempo se encarregará de moldar, corpos nus como os pintados por Lucian Freud, algo assustados, envelhecidos, flácidos, corpos vivos onde a morte surge sublinhada por cada mancha, nas estrias, na cor emurchecida da pele, nas mamas descaídas, no sexo mole dos homens, nas rugas, na morbidez dos músculos, na indolência dos gestos. Esses corpos outrora vigorosos modificaram-se com a passagem do tempo, perdem força, vitalidade, são corpos em queda na direcção de uma Terra que os acolherá à hora de tombarem definitivamente. Constatá-lo instaura a dúvida, porventura o medo, como que enceta a via melancólica da nostalgia e obriga a questão: que é feito de nós? Que é feito do espanto com que o mundo nos chegava? Que é feito da paixão com que vivíamos tal espanto?
   Diz-se que a invenção da fotografia consistiu na inauguração de uma nova forma de desenho. Mas mais do que desenhar a realidade com improváveis níveis de verosimilhança, a fotografia permitiu-nos fixar o instante protegendo-o da voragem do tempo. Nunca antes o homem conseguira com tanta eficácia travar a queda. A fotografia oferece-nos o passado, regista a posteridade do instante. Ter uma fotografia apontada à cabeça é, porém, estar sob ameaça. Olhamos para uma fotografia de quando éramos crianças e apercebemo-nos de que já não o somos. Olhamos para a fotografia de alguém que morreu e ressuscitamos a sua imagem no pensamento, embora saibamos que na realidade a pessoa ali retratada é já tão-somente uma imagem que sobrou da sua passagem pela Terra. A fotografia ameaça-nos com a constatação da perda. Ela não exige a carteira sob ameaça de morte, ela oferece-nos a memória sob a ameaça do esquecimento.
   Penso agora nessas primitivas exibições de fotografias animadas, imagens em movimento a que demos o nome de cinema. Conta-se que os filmes de Lumiére causavam temor, apesar de não passarem de álbuns de família em movimento. Na chegada do comboio, a locomotiva avançava na direcção dos espectadores gerando-lhes a ilusão de que seriam esmagados. Em 1903, causou excitação a exibição daquele que pode hoje ser considerado o primeiro filme de sempre. Em “The Great Train Robbery”, de Edwin S. Porter, uma das personagens aponta uma arma na direcção da câmara. Ameaça disparar contra os espectadores. Muitos gritavam e encolhiam-se, alguns chegavam a desmaiar, outros fugiam. Eis a sala de cinema transformada em jardim, eis o Teatro, Éden onde homens e mulheres voltam a andar nus, inocentes, ingénuos, recuperando o espanto que causa temor e leva ao conhecimento.
   Creio numa poesia que ande nua sem sentir vergonha por isso, que mergulhe nas águas do Lete para nadar contra a corrente. Poesia que… se não “recupera o ímpeto / do espanto”, pelo menos revigora-se nesse sentido. Que é feito do espanto, da inocência com que olhávamos para as coisas descobrindo-lhes respiração própria, única, singular? Os mortos revelam-nos a condição, a fotografia aponta-nos o passado à cabeça, mas à poesia pode convir o ânimo de uma vida que não se resuma a contar pelos dedos quantos anos passaram. Entendendo a queda, o poeta mergulha a pique no delírio inquieto das imagens, remove do corpo impurezas e aceita o mistério, nele já não opera a lógica do pecado, porque ao mastigar os frutos não sente vergonha, desnuda-se, oferece-se tal qual é, ri, chora, recorda, faz emergir nas palavras o tempo recalcado, desperta a morte do sono silencioso do esquecimento. Há quem nisto veja desespero, arte fundida pela técnica, logro, mas eu vejo fome de viver, vontade de provar todos os frutos proibidos e fazer valer o tempo da espera, vejo essa tão aterradora circunstância de ser-se livre, já não como anjo, ainda não como besta, simplesmente como homem.

terça-feira, 21 de maio de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #70



   E quando viu já não haver esperança para os homens, Deus convocou o mais flamejante dos seus anjos e mandou-o para a Terra. Assim que aterrou, o anjo pegou numa guitarra e perguntou-nos Are You Experienced? (1967) Não se contentando com as respostas, exactamente no mesmo ano, parcos meses depois, largou sobre o planeta uma bomba de veneno: Axis: Bold as Love (1967). Os homens ficaram atónitos com o que um anjo podia fazer com uma guitarra, a mais poderosa e letal das armas de fogo. Noel Redding no baixo e Mitch Mitchell na bateria acompanhavam este anjo psicadélico de pele negra, encantadora voz espalhando a palavra: «And so castles made of sand / Slips into the sea, eventually».
   Em 27 anos de vida, Jimi Hendrix (1942-1970) deixou uma obra imperecível. Afirmou-se para a eternidade não só como um dos melhores guitarristas de rock, mas também como notável escritor de canções. Porque a primeira dimensão tende a obscurecer a segunda, façamos-lhe justiça. As letras de Hendrix estão repletas de referências a cores, para ele cada cor emite um som e é esse som que a guitarra busca reproduzir. Por isso conseguimos testemunhar o caleidoscópio que irradia quando o ouvimos. A experiência é sinestésica, ouvimos a ver, vemos ouvindo.
   Little Wing, por exemplo, maravilhosa peça que Sting recuperou muitos anos depois, merecia um estudo. Como outras canções de Hendirx, esta desloca-nos para o universo da angiologia. O anjo pode ser uma mulher, imagem de perfeição e beleza entre o caos humano. Há um movimento em espiral que sugere o voo de uma borboleta, a mente alucina porventura numa experiência de êxtase proporcionado pelo consumo de ácidos. A gente ouve e vê, persegue o corpo serpenteante da mulher através dos sons, como se os sons fossem túneis abertos no ar através dos quais se chega a um mundo distinto deste que as leis da lógiCa aristotélica organizam, determinam, comprimem.
   Na música de Hendrix o universo expande-se. Bold As Love é outro exemplo. Olhem só o colorido: metallic purple armour, fiery green gown, blue are the life-giving waters, turquoise armies, my red is so confident, orange is young, my yellow in this case is not so mellow, e assim sucessivamente. Jimi Hendrix é o maior pintor que o rock alguma vez conheceu. Sendo multicolorida, a sua música oferece-nos um cosmo cintilante que não renega a treva. Antes a supera com a graça luminosa do delírio, como abelha que pousa na corola para adocicar um mundo ameaçado por napalm.


UMA PARÁBOLA DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE




PARÁBOLA

Um pássaro leva o sol no coração.
Quando começar a cantar
ainda muito silêncio haverá na sua música
será possível compreendê-la
mas depois muito lentamente
a música crescerá
e ao ardente meio-dia
no imenso e furioso meio-dia
o pássaro e quem o seguia terão desaparecido.

Raúl Gustavo Aguirre (n. 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 269.

HOJE


segunda-feira, 20 de maio de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #18



   Evitemos classificar idades na história dos homens. Em tendo havido uma idade das trevas, quando terá sido a idade da luz? Dessas épocas que dizem negras chegam-nos ecos luminosos, tal como nas eras mais pacíficas descobrimos buracos negros de maldade. Pode o tempo difundir-se linearmente ou a esmo, o que nos parecerá improvável é que nessa difusão predominem o bem ou o mal, a virtude ou o vício, como gigantes inexpugnáveis. Em qualquer lugar, em qualquer época ou era, sempre a história dos homens foi uma batalha interminável entre bem e mal. Empédocles, o  pré-socrático, terá sido quem primeiro reconheceu no mundo a dinâmica das coisas universais. Assim era no seu tempo, assim continua a ser no nosso.
   Entre hoje e ontem podemos vasculhar nos escombros, nas ruínas, nos destroços da batalha, que encontraremos sempre entre as vítimas quem tenha ido para a vanguarda em benefício próprio ou pelo bem alheio. Só os últimos, creiam, devem merecer o epíteto de grandes homens. Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) foi um deles, apesar da morte prematura quase o ter condenado ao esquecimento. Inimigos não lhe faltaram, desses com quem vale a pena disputar o pensamento e dos outros, daqueles para os quais a contenda rapidamente se afunda no pântano da calúnia e do insulto tosco. Quanto a estes, não lhes guarda a história o nome. Àqueles o tempo perdoa as falhas.
   Com apenas 31 anos de vida, Giovanni Pico desafiou as regras do seu tempo propondo-se debater tudo quanto pudesse ser objecto de discussão. Os opositores rapidamente o acusaram de ímpio, extravagante, orgulhoso, herético. Respondeu-lhes com a Oratio de Hominis Dignitate (1480), discurso que coloca a natureza ambivalente do homem tanto acima das bestas como dos anjos. A nossa vantagem sobre as outras criaturas de Deus é sermos livres de optar, degenerando até à brutalidade ou regenerando o espírito a caminho da perfeição. Portanto, minhas filhas, o que ides encontrar neste Discurso Sobre a Dignidade do Homem (Edições 70, Novembro de 1989) é um elogio da vontade, é uma defesa da razão, é um hino à liberdade.
   Educado para ser padre, para pensar e obedecer como padre, ele fez-se filósofo. Enquanto tal, condenou tudo quanto pretendesse pôr em xeque a liberdade do pensamento e o desígnio da razão. A ele devemos, numa primeira instância, a separação das águas da teologia das águas da filosofia, num tempo em que tudo não só se confundia como se cria único e indiscutível. Não contra Deus, ele amou o homem. Amou o homem por amor ao homem, por amor à razão e ao pensamento, porque só ao homem cabe decidir sobre o que pretende ser: besta ou supremi spiritus? A escolha é vossa: «a partir do momento em que nascemos na condição de sermos o que quisermos, que o nosso dever é preocuparmo-nos sobretudo com isto: que não se diga de nós que estando em tal honra não nos demos conta de nos termos tornado semelhantes às bestas e aos estúpidos jumentos de carga».
   A escolha é vossa, mesmo que múltiplos sejam os caminhos para cada uma das opções. Em optardes pelo caminho do juízo, lembrai-vos de como apenas com razão e amor podeis limpar a alma da sujidade e dos vícios que a conspurcam: a inveja, a mentira, o despotismo, a avareza, o racismo, o ódio à diferença, a intolerância, o etnocentrismo, o hiperbolismo, a mania de que se é superior aos outros, o nepotismo, a cagança… Quanto ao mais, tentai viver o mais apaixonadamente possível cada momento das vossas vidas, não desperdiçando um segundo que seja com a vida daqueles cuja opção foi o atalho da brutalidade, o caminho das bestas, o desperdício deste bem precioso e efémero que é estar vivo.

FAMÍLIA


Ana

Matilde

Beatriz

TRÊS POEMAS DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE




A CAVERNA

Está-se bem na minha caverna.
E lá tudo é possível.
Não há rei mais poderoso
do que este ser solitário.

O único inconveniente,
é certa sensação
de que algo essencial
ocorre noutro lugar.

*

BOAS RELAÇÕES

Os reclusos detestam-se
mas apesar do rancor
tratam-se com educação.

Os reclusos detestam-se
mas contudo, por dignidade,
jamais falam com o guarda.
Os reclusos detestam-se
mas à noite mantêm diálogos
fingindo que falam sozinhos.

*

AQUELE QUE NUNCA APRENDE

Aquele que nunca aprende toca o fogo,
aquele que nunca aprende dá uma mão,
aquele que nunca aprende volta a andar.

Aquele que nunca aprende magoa-se
contra uma parede e contra outra
e depois contra outra e contra outra
e continua a caminhar.


Raúl Gustavo Aguirre, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 274, 270, 272.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

GUILHERME DE FARIA




Querido amigo,

   A vontade de te confiar boas notícias foi traída pela conta-corrente dos dias. Exceptuando o bando de rolas que busca pouso na árvore aqui defronte, regalando-me os sentidos do olhar e da audição, tem sido tudo como sabes que as coisas são nesta terra lavrada por guerrilhas de manjerona. Se ao menos esta gente se matasse a sério, enrolando a língua na garganta ou bebendo até ao sufoco, o respeito seria outro. A gente chega a Vilar Formoso, olha para trás e vê o quê? Um país de enfatuados, convencidos de que valem mais do que tostões, um país de famintos a guerrear por pechisbeque, um país de gloriosos pulhas com os bolsos cheios de reverências, um país de ladrões de bicicletas a odiarem-se uns aos outros por pouco mais do que selins onde possam sentar cus esgarçados por uma alimentação deficiente.
   Meu amigo, queria saber toldar com silêncio esta minha vista, recostar-me na sombra sossegada de um cântico e ficar de mãos nos bolsos a olhar para o céu. Queria simplesmente aquietar o coração com coisas nobres como a memória do teu rosto, mas sou fraco e débil. Não consigo desprender-me de mim. Fúrias tempestuosas rebentam dentro da cabeça, espalham pelo sangue a chuva ácida dos trovões, entre o relâmpago e o trovão já não sobra silêncio, apenas crostas sobre crostas impedindo a circulação do ar. Às vezes paro, penso em como seria plana a vida se pudéssemos beber os relâmpagos como quem mata a sede numa nascente. Como seria plana e plena. Nessa luz colheríamos a energia que falta para escalar o pensamento até aos cumes do silêncio, com essa luz mataríamos a sede e a fome de todos quantos pensam que não vale mais a vida de um homem do que a da rola que canta no seu pouso.
   Sei, meu amigo, das putas que dançam nos salões, sei como têm lugar cativo na sala de espectáculos, sei dos espectáculos e da vil mediocridade dos actores, sei de tudo isso, já assisti, tenho assistido, vou assistindo à exibição do rancor no pantanoso palco onde os patifes enterram o nome e ocupam espírito e corpo, chamando a si públicos dispersos. Sei dessa guerra que alimenta e entusiasma quem não tem filhos para cuidar. Sei do tempo largado nas lixeiras como esperdício, ensopado em óleos de angústia, corpos nus manchados de querosene aguardando um dedo que os incendei, um dedo que os toque, desesperando por um dedo que os toque e incendei, sei, sei dessa fala escarrando raivas, fala entupida pelo nojo, pelo ódio, pela inveja, fala solitária entre fantoches heteronímicos, fala risível cavalgando injúrias, impropérios, barroquismos, sei, sei, sei dessa corda que aperta a garganta e convulsiona o próprio vómito.
   Que poderemos nós, meu amigo, contra tal fala? Não mais que sinalizar o ridículo da mensagem, concentrando olhar e ouvidos nas rolas pousadas na árvore defronte.
   A noite caiu ventosa sobre as ruas da cidade, as árvores mantêm-se de pé. Amanhã os pedintes continuarão a pedir esmola nos mesmos lugares, homens e mulheres sairão de casa a caminho do trabalho, deixarão filhos nas escolas, meditarão no que fazer para o jantar. Amanhã alguém emigrará, cruzando-se na fronteira com alguém que imigrou. Amanhã um funeral, um parto, um casamento, amanhã uma espécie extinta, o fumo das chaminés, um planeta novo sinalizado na vastidão do universo, amanhã uma chuva de estrelas, pulgas, baratas, formigas, insectos, amanhã uma bomba, um incêndio, uma obra de arte, amanhã o riso, a lágrima e um homem com uma câmara de filmar ao ombro registando o amanhã.
   Questiono-me, amigo, sobre o sentido deste agora face a esse amanhã, penso-te de aqui nesse lugar incerto que é a morte e coloco a mim mesmo a pergunta sem resposta: se morresse neste preciso instante, daria por cumprida a minha festa?



Nota: Guilherme de Faria nasceu no dia 6 de Outubro de 1907. No dia 4 de Janeiro de 1929, seguiu até à Boca do Inferno e atirou-se para o mar. Estava descalço e levava um terço. O corpo foi encontrado no areal da Praia do Peixe. 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

CRÓNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE


Usados desde os tempos da China imperial, os dazibao tornaram-se muito populares durante a chamada Revolução Cultural. Eram um instrumento de delação que favorecia o anonimato, sem quaisquer filtros contra a calúnia, o boato ou a mera intriga. Mao transformou-os num purgante social. Cartazes enormes expostos publicamente, com as acusações mais diversas, levavam à perseguição dos visados forçando sessões de crítica cujo fim último era a humilhação ou a execução. Xu Yulan foi vítima de um desses cartazes, depois de alguém a ter acusado de prostituição. Xu Sanguan, o marido, sabia que o mais velho dos seus três filhos não era do seu sangue. Resultara, segundo Xu Yulan, de uma violação. Ainda assim, Xu Yulan foi obrigada a permanecer vários dias numa avenida da cidade com uma placa pendurada ao pescoço onde se lia: “Prostituta Xu Yulan”. A história é-nos contada pelo escritor chinês Yu Hua (n. 1960) no seu segundo romance, publicado em Portugal com o título Crónica de Um Vendedor de Sangue (Relógio D’Água, Fevereiro de 2017). A tradução de Tiago Nabais foi realizada a partir do original chinês.
   A Revolução Cultural é um dos temas predilectos do autor, aqui retratada a partir do drama de uma família que tudo faz pela sobrevivência. Órfão de pai, abandonado pela mãe, Xu Sanguan é distribuidor de casulos numa fábrica de seda. A pobreza leva-o a vender sangue como forma de subsistência, esse bem precioso onde a própria vida se condensa. «Uma pessoa pode vender farturas, pode vender a casa ou a terra… Vender sangue é que não. Mesmo que se venda o corpo, não podemos vender sangue. O corpo é de cada um, mas o sangue pertence aos antepassados» (p. 82), diz-lhe a mulher. Yu Hua relata esta vida com comovente clareza, sem artifícios semânticos ou narrativos. A sua poesia é como vento afagando as copas das plantas. Os diálogos são de uma simplicidade desarmante, claros e objectivos como os gestos das personagens, gente humilde e modesta com traços de carácter que sobressaem mais pela honradez das decisões do que pela complexidade das reflexões. Porém, por detrás deste pano movem-se as sombras da miséria. Os cenários repercutem uma vida de privações e de ignorância, a ingenuidade das pessoas é afectada pelo medo, há cedências à corrupção e as hierarquias sociais surgem bem definidas.
   A bondade no coração de Xu Sanguan comove-nos na mesma proporção em que a maldade social que o rodeia nos repugna, uma faz a outra sobressair em equilíbrio tipicamente taoista. Ele coloca a vida em risco pela família, vende o seu sangue para garantir a sobrevivência dos que são do seu sangue, mesmo do filho que sabe não ser seu. No fundo, esta Crónica de Um Vendedor de Sangue é também a crónica de um conservador de sangue que acima da sua existência coloca o valor da família. Ele sabe desse valor por lhe ter faltado a sua, sabe quão importante para si foi ser ajudado por um tio que mal conhecia, sabe da força desses laços que resistem a tudo quanto se lhes possa opor. Sabe-o com a clareza das coisas puras. Mas também sabe como é fácil um homem perder resistências, sejam elas morais ou físicas, cedendo às vontades mais mórbidas. A vingança é uma delas. Por isso lhe ouvimos dizer aos filhos que quando crescerem têm de violar as filhas do homem que lhes violou a mãe. A questão que coloca mais vezes ao longo de vinte e nove capítulos é: até onde estás disposto a perdoar? Talvez a resposta seja mais simples do que parece, talvez possa ser: até onde chegar a consciência dos meus erros, das minhas falhas, dos meus desejos mais maldosos.
  A história da família Xu não é diferente da história de muitas famílias, apesar das circunstâncias que condicionam e definem a acção. O que a torna especial é a sua dimensão simbólica. Yu Hua pretende retratar um período específico da história chinesa desviando-se das singularidades políticas que caracterizam o seu país. Por detrás desta família esconde-se o fantasma do grande líder, do grande educador, daquele a quem o povo devia amar mais do que à própria família. Daí que quando Xu Sanguan se propõe matar a fome dos filhos cozinhando para eles com a boca «Com a minha boca, vou cozinhar um prato para cada um e vocês podem saboreá-lo com os ouvidos» (p. 118) , o que na realidade o narrador está a fazer é a denunciar as consequências sociais de um regime numa determinada época. O que ele nos quer dizer é que Mao alimentava o seu povo pelos ouvidos, deixando-lhes vazio o estômago. O resto já toda a gente sabe como é: «Estava velho e no seu corpo corria mais sangue morto do que vivo» (p. 236).

terça-feira, 14 de maio de 2019

GILLES DELEUZE


(...)

Basicamente, há que concertar os amanhãs, o futuro, vivendo as carteiras vazias do presente. O nosso problema é andarmos como formigas amestradas, domesticadas, para cá e para lá com os olhos postos num mês de férias em Vera Cruz. Como pode alguém adormecer descansado sabendo-se escravo do cansaço? Talvez metendo as mãos nos bolsos em dias de folga, passeando pela praia à procura de razões pelo que valha a pena continuar vivo e à procura de mais razões para não estar já morto.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 43. Nota: padecendo há muito de diversas complicações respiratórias, Gilles Deleuze atirou-se da janela do apartamento onde vivia, em Paris, no dia 4 de Novembro de 1995.

MONDA



Quatro livros publicados: O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-Pé, 2011), El Segundo (edição do autor, 2015), RSO&SBC (Douda Correria, 2018), este escrito a meias com Ramiro S. Osório (n. 1939), e Monda (Edições Sempre-em-Pé, Abril de 2019). No jornal Público, Luís Miguel Queirós referiu-se-lhe há tempos como uma voz dissonante da novíssima poesia portuguesa. Colocando de lado a problemática dos novíssimos, podemos indagar a questão da dissonância. O que os poemas coligidos em Monda oferecem de incomum no vasto, díspar e complexo mundo da poesia portuguesa actual é o culto da rima, realizado com apuro rítmico que não é frequente encontrarmos nas novas gerações. O poema Champanhe é bom exemplo:

Na noite em que inventaram o bagaço
Vim a saber depois
Pensaram em nós dois
Na noite em que inventaram o bagaço
Como que por magia
Sabiam que eu havia
De o usar pra puxar o lustro ao espaço
Até os olhos doerem de brilhantes
Porque goste-se ou não
É assim que as coisas são
E nunca voltam a ser como eram
Dantes.

Mas o título deste poema denuncia o seu tempo. Champanhe é fruto da ironia, figura de retórica altamente vulgarizada nos dias correntes. 
   A poesia de Sebastião Belfort Cerqueira (n. 1987) encaixa lindamente nos carris instaurados no século XX português por um poeta como Alexandre O´Neill. De resto, é nele que pensamos quando lemos o poema Paisagem da página 29: «Fico como o do cherne / Contente com o empate» (p. 29). Também muito de agora é a salada de referências mais ou menos óbvias. Da citação roubada aos Fleetwood Mac para epígrafe do livro a um poema evocativo do poeta norte-americano Shel Silverstein, da dedicatória a Ramiro S. Osório a uma evocação de Roberto Carlos — «E que tudo o mais / Vá prò inferno» (p. 60) —, muitos são os faróis que alumiam estes versos. Alguns de convivência improvável. Esta é uma das características mais sedutoras de Monda, a capacidade de conciliar a inquietação de um Álvaro de Campos ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra com o punk desabrido de uns Butthole Surfers. 
   Inquieta ou indiferente, desinteressada ou melancólica, esta poesia exibe no seu aspecto mondado uma pulverização de referências da qual absorvemos um prazer de leitura a que não há-de ser alheio o divertimento da escrita. O sol, o mar, dias lindos, como que surgem envoltos na incerteza de uma piada. O cinismo do discurso recorre ao jogo semântico, como nesse Terceiro poema sobre o mar em que a preposição “sobre” surge com o duplo sentido de “em cima de” e “acerca de”: «Sobre o mar / Como um destroço / À procura de ir ao fundo / Da questão que ninguém pôs / (Chama-se sol)» (p. 15). Por vezes o poema resvala para o autoquestionamento, mas sempre com a clara intenção de lhe retirar qualquer “importanticidade”. Pode um poeta assim ser acusado de ligeireza, o que em si mesmo não é defeito nem virtude. Em nada havendo a perder ou a ganhar, o que interessa, no final, é o usufruto livre das palavras. E estes poemas sugerem essa liberdade, porventura epicurista na raiz filosófica que possam ter: «Vou passar a tarde a rir / Como um perdido» (p. 25). Onde outros escrevem lágrima, Sebastião Belfort Cerqueira escreve riso, onde aqueles escrevem tristeza, este grafita alegria, onde alguns mergulham na dor, este procura fazer emergir o prazer, onde aqueles cultivam melancolia, o autor de Monda parece colher contrastes. Ganha o leitor com a diversidade.

domingo, 12 de maio de 2019

GÉRARD DE NERVAL



A derradeira loucura que provavelmente me resta,
será a de me julgar poeta: cabe à crítica curar-me.

(...)

De vez em quando, batíamos cartas sobre o tampo da mesa e feríamos as nozes dos dedos, de vez em quando jogávamos um dominó como quem paga as despesas do afecto, mas não me recordo de um abraço que fosse antes desse dia em que, por ambição ou desistência, ele me viu vencer a minha primeira aposta pessoal.

O mais das vezes, senti-me apenas como a sombra que se encosta à parede e se esmurra à falta de um corpo para esmurrar. Uma espécie de fatia de queijo entre o aconchego da lâmina e a ternura do cimento.

Duvido que o pai pudesse fazer muito mais por mim, duvido que eu próprio possa vir a fazer alguma coisa por ele. Resta-me aguardar que a ferrugem tome conta do ferro e nas margens do livro escrever cen-su-ra, porque aos dramas domésticos eu lancei sempre os ratos de biblioteca.

(...)


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp 41-42. Nota: depois de várias crises psicóticas, seguidas de internamentos sucessivos, Nerval foi encontrado enforcado, numa rua de Paris, a 26 de Janeiro de 1855.

sábado, 11 de maio de 2019

PALHAÇO RICO OU POBRE?



Joe Berardo é um homem de negócios. Eu não gosto de homens de negócios, da mentalidade que os comanda: lucro, lucro, lucro, lucro. Mas seria interessante pedir aos indignados deste país, a começar pelos opinantes de serviço, que explicassem o que pretendem para o mundo. Enquanto homem de negócios, pelo que me apercebo, Berardo simplesmente se aproveita/ou, com as vantagens de supostamente ter muito dinheiro e influência, de um sistema altamente permeável a este tipo de homens de negócios. Em que mundo pensam as pessoas que vivem? Afinal, o que querem os liberais e os capitalistas deste país? O que esperam? Um sistema mais vigilante? Ou têm fé no bom coração dos homens de negócios. O mercado regula-se a si mesmo? Como? Onde? Com quem? Palhaços ricos, pobres de espírito?

sexta-feira, 10 de maio de 2019

CRIOULO DO UNIVERSO



O oceano branco circula no meu coração
enquanto canta outro oceano de prata dourada,
que se solta das águas do sol.

Já é demasiado tarde para ser só de uma província,
             e muito cedo para pertencer,
             todo,
             ao planeta vindouro e sangrante
             resplendor.

Oh, acode, acode minha hierarquia de peão do planeta,
             gaúcho com tranças de sangue,
             meu pai,
e aparelha-me o melhor cavalo ruão do universo:
para atravessar a água dourada da morte,
              e ouvir-me,
              todo,
              sempre em ti.

O oceano branco soluça pela imortalidade.

Francisco Madariaga, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 264.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

TRADUZIR COHEN


Se não cabe na cançoneta, se não entra na pauta da nossa cabeça, a letra portuguesa é só um esqueleto patego servido a frio, como as tripas do Porto que o poeta enjeitou como placebo do amor. Há ainda problema maior: aquilo sem a espessura sonora da língua ligada originalmente à música, só a ferros se aguenta, fica ali mutilado e sofrível quando sozinho na página ou tela, em branco


dama, aqui.

Sen no Rikyū disse:


quarta-feira, 8 de maio de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #17



   Tal como nos são oferecidos desde a infância, os conceitos têm dupla face. Se nos ajudam a organizar, acabam mais tarde ou mais cedo por nos trair. Ao Zen podemos chamar filosofia prática. Correto seria, porém, que lhe chamássemos apenas Zen. Zen é Zen. Nesta simplicidade, minhas filhas, repousa adormecida a incomensurável sapiência. Despertemo-la. Como? É um mistério. Apenas a vida poderá oferecer saber à vida, apenas a experiência, a observação, a meditação. Do lado de cá da barricada tudo se constrói por parábolas, metáforas, axiomas. Os ocidentais cresceram a falar das coisas, os orientais crescem a falar com as coisas. Isto até se ocidentalizarem.
   O problema está, um dia podereis constatar, em fazer de tudo um problema. Vede como Sen no Rikyū resolvia a questão: «O chá não é mais do que isto: / Ferve-se a água / Faz-se uma infusão com chá / E bebe-se… / É tudo o que é necessário saber». Nesta concentração no necessário nos aproximamos, unimo-nos na busca do essencial, a raiz está na base. Também Epicuro, de quem vos falei, apelava ao estritamente necessário. Não cantava assim o urso Balu ao jovem Mogli? Em parando para pensar, o tormento coloca-se-nos: para que quer tanto alguém que tem apenas por certo a morte? Sabendo-se finito, por que desperdiça o homem seu tempo com ruídos desgastantes, com a tagarelice do pensamento, com absurdos existenciais?
   Ainda não chegámos lá, reconhecemos. O silêncio é o mais árduo dos caminhos, exige-nos despojamento, acção na inacção, exige que sejamos conforme a clareza das constatações. Somos bestas colectoras. Para quê ambicionar a lua se ela vem até nós? Basta, minhas queridas, que o coração se predisponha a recebê-la que se abra à sua luz nocturna. Mais do que na cabeça, Zen aloja-se nos pulmões, na respiração, como ele a poesia dissemina-se pelo ar, o pólen que floresce de estação para estação. É mistério, «no momento em que um pensamento o toca, desaparece». O mais aprende-se com silêncio, no silêncio, pois este é meio e é fim. Mesmo quando em retiro a ironia nos desmente. Observai os quatro monges num retiro de silêncio absoluto:

A vela apagou-se!, diz o mais jovem dos monges.
Não deves falar! É um sesshin (espécie de retiro) de silêncio total, observa severamente um monge mais velho.
Porque falam, em vez de se calarem, como tinha sido combinado! faz notar com humor um terceiro monge.
Sou o único que não falou!, diz com satisfação o quarto monge.

   Está a graça na desgraça. Assim andamos na vida, a falar por cima do silêncio a que nos propomos. A contradição não é motivo de censura, antes factor de aprendizagem. O desafio está em superar tamanha contradição. Zen coloca-nos perante este desafio como o mestre que diz ao discípulo: caminha parado, no presente está a eternidade. Temos muito a aprender com Os Melhores Contos Zen, mesmo que não sejam os melhores, mesmo que tais classificações impliquem já uma selectividade contrária ao próprio Zen. Samurais, monges, velhos poetas, viajaram em busca da liberdade através de um sonho bem desperto: desfazerem-se do Eu. Como pode alguém desfazer-se do Eu? Ora, ora, simplesmente desfazendo.

QUEIMÓDROMO


Uma jovem com cerca de 20 anos foi encontrada seminua e aparentemente embriagada numa zona de vegetação, lateral ao Queimódromo, junto à Circunvalação, no Porto, na manhã desta quarta-feira. Por mostrar sinais de provável agressão e haver suspeitas de violação, a mulher foi transportada para o Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos.



Notícia de hoje, aqui.

FLORBELA ESPANCA


(...) Assim é difícil esquecer-te. Porque agora mesmo te vejo aí a dançar, sem rosto, como uma mentira que corrói o caos dos sonhos. Pensando o quê, pensando o quê, pensando-te nas vibrações de uma guitarra, pensando que deveria ter apanhado cada uma das conchas que deu à costa com a tua voz escondida lá dentro. É possível que depois da paz todas as guerras ganhem o sentido das giestas, é possível que a usurpação da palavra, o plágio, a inspiração, tornem úteis a ressonância, é possível que a repercussão do teu peito nas macieiras traga aos desejos alguma utilidade, é possível que alguém encontre algures no teu vazio a matéria com que preencherá os vasos da sua vida e daí produza em série belíssimas esculturas para adornar salas de espera para doentes terminais. Conchas com vozes escondidas lá dentro. Ora aí tens. (...)


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 39-40. Nota: antes de lhe terem diagnosticado um edema pulmonar, Florbela já havia tentado suicídio por duas ocasiões. À terceira foi de vez. No dia 8 de Dezembro de 1930 faleceu com uma "overdose" de barbitúricos. 

terça-feira, 7 de maio de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #69



Quando Loser estourou nas rádios, dando a conhecer às massas o nome de Beck, falava-se muito de eclectismo. Filho de actriz e de músico, Bek David Campbell transportava no sangue o vírus da pop. Adicionou-lhe um colorido arty que, conjugando as batidas do hip hop com a tradição, oferecia aos ouvintes canções tão divertidas quão intimistas. Odelay (1996) multiplicava o sucesso do hit inicial com Where It’s At, Devils Haircut, etc… Mas para trás havia material escondido, numa espécie de vida dupla em que aquilo que se oferecia às massas não era exactamente o mesmo que se guardava para uns poucos felizardos. O bom gosto na selecção de samples, as letras bem esgalhadas, a intuição pop eram uma constatação. Quem o tenha visto actuar ao vivo não pode ter ficado indiferente ao espectáculo. Mutations (1998) veio baralhar as contas. O espectáculo como que dava lugar a uma espécie de interlúdio lírico, o Beck dos samples recolhia-se num quarto isolado a compor canções quase tradicionais com uma viola acústica e harmónica. Os arranjos não foram inteiramente descurados, mas a simplicidade tomou de assalto as composições. E o resultado foi estrondoso. Sobre o entertainer reinava o escritor de canções, numa viagem pela country, pela folk, pelos blues, viagem intimista e deslumbrante com cítaras a embalarem a paisagem, arranjos sóbrios, por vezes melancólicos, aproximações à bossa nova. Mutations é um magnífico álbum de canções, sem êxitos como Loser ou Where It’s At mas repleto de canções melancólicas penetrantes como Nobody’s Fault But My Own. Algumas melodias lembram-nos os The Beatles, pela facilidade com que persuadem o ouvido. Outras, como Canceled Check, remetem para a tradição norte-americana. Mas a retórica é outra, a sua capacidade persuasiva reflecte um sincretismo musical que poucos estariam habilitados a exibir. Exemplo:


"cromos que tanto gostam de sair repetidos"


É só ir às imagens do Google, não custa nada. Fica amostra acima, o suficiente para percebermos dos problemas de consciência desta triste criatura. Passa a vida a falar dos outros como quem confessa pecados, o betinho reguila. Já me chamou de tudo, agora estranho apenas o tom de professorzeco a dar lições sobre dilemas de escritores e mais não sei quê. Tipo genial, uma mente brilhante. Aproveitem-no. 


Se continuar com interesse neste caso de amor pode seguir para aquiaquiaqui, aqui

ESTE AMOR QUE ME ENTERNECE


O mais recente número da revista LER traz chamada de capa para um artigo do Bruno Vieira Amaral onde se responde à questão “Quem são os novos valores da nossa literatura?”. Eu sou um dos felizes contemplados. Como seria mais do que previsível, o meu amante secreto não perdeu tempo. Aí está ele, novamente, a mostrar quão concentrado vive a sua vida na minha vida. Adora-me, ama-me, não me larga. Ainda faço como o vocalista dos UHF e escrevo um livro sobre este enternecedor caso de stalking. Os outros escritores contemplados no tal artigo são Djaimilia Pereira de Almeida, Carla Pais, Sandra Catarino, Manuel Filipe Mochila, Filipa Martins, Rui Lage. O Bicho podia ter escolhido qualquer um deles para manifestar a sua repugnância pela prosa em causa, escolheu-me a mim porque me ama, venera-me. E eu sinto-me amado como nunca me senti. Se fosse questão de idades, podia, por exemplo, ter falado no bom Lage (n. 1975). Ah, mas ele publicou-o na Língua Morta. Se as suas dores de barriga tivessem que ver com o facto de alguém escrever em vários géneros (o que é isso dos géneros literários?), ele também tinha muito por onde pegar. Lembrou-se de mim. Se fosse o tipo de artigo em si, podia ter apontado o dedo ao Miguel Filipe Mochila. Mas como, se lhe dedicou todos os elogios lá no pasquim onde regurgita bílis, contra todas as probabilidades tendo em conta o seu acérrimo combate aos núcleos afectivos? Afinal, não tem Mochila traduzido para a Língua Morta? Este rapaz ainda há-de acordar um dia, olhar-se ao espelho e ver a fronha de ranço que foi ganhando ao longo dos anos. Só lamento constatar o tempo perdido por tão jovem talento com esta velha carcaça. Há vidinhas mesmo infelizes, porra. E isso mete dó. Clique na imagem para ver melhor. Se tiver interesse neste caso de amor pode seguir para aqui, aquiaqui. Aviso: cuidado com os cheiros.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

VEM NO FACEBOOK


O Novo Mundo é uma coisa maravilhosa. 

FRANCISCO MADARIAGA



CANÇÕES NUMA VIAGEM A CAVALO

1
Os cavalos nascem para amar secretamente como as madrugadas.

2
Os cavaleiros viajam com ponchos de pele de cervos celestes manchados de sangue.

3
Uma dor como o chilreio de um pássaro de água, perdido na imensidão.

4
O amor de um guerreiro cuja lança tem aço de água.

5
O terror de paisagens afundadas com os tesouros do Diabo.

6
Há uma certa água de ouro na imensidão:
apenas  Jesus Cristo e Rimbaud a conheceram.

7
Conservar sempre uma talha dessa água.



Francisco Madariaga nasceu a 9 de Setembro de 1917 na Provincia de Corrientes, vivendo até à adolescência rodeado da Natureza selvagem. Influenciado pelo idioma guarani, manteve forte atracção pelas raízes. Estudou em Buenos Aires, aproximando-se dos surrealistas que publicavam na revista Letra y Línea. Publicou o primeiro livro de poesia em 1954, com o título El pequeño patíbulo. Foi Premio Nacional de Poesía em 2005. A sua poesia é marcada por um forte contraste entre a paisagem selvagem da infância e a mundanidade urbana de Buenos Aires. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 265.

IRRESPONSABILIDADE


É curioso observar a forma como as pessoas avaliam a responsabilidade política. Detenhamo-nos por instantes na Venezuela. Ainda que não simpatizemos particularmente com Nicolás Maduro, como avaliar as acções de Guaidó nos tempos mais recentes? Como avaliar o incitamento à manifestação popular, garantindo aos venezuelanos que tinha as forças armadas do seu lado? Viu-se que não tinha, o que leva a desconfiar da insensibilidade do regime. Noutras circunstâncias, a irresponsabilidade de Guaidó tinha resultado num banho de sangue. Agora vem admitir uma intervenção militar dos EUA. Não sei se estão recordados dos resultados da última intervenção militar dos EUA num país estrangeiro. Enquanto se ocupa em cimeiras com coreanos e russos e chineses, Trump saliva com a instabilidade na Venezuela. E Guaidó bebe a saliva. Apanha o povo por tabela.

domingo, 5 de maio de 2019

ERNEST HEMINGWAY


(...)

   Estás em 1961, lembras-te?, tens alguns anos a menos, acontece-te aquilo pelo que não esperavas: uma gralha, um erro ortográfico, a incompetência do revisor sobre o desleixo do tradutor, um pulmão negro, negro, negro que mais negro não pode haver. Enfim, foi um caroço no pensamento. Agora escuta: 1961, uma morte nua e crua, sem deus nem pátria, sem nada a que agarrar a angústia, apenas o teu erro ortográfico e a incompetência do revisor sobre o desleixo do tradutor.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 37. Nota: em 1961 Hemingway estava doente, paranóico, deprimido, tendo sido submetido a electrochoques. No dia 2 de Julho deu a si próprio um tiro de caçadeira. 

UM POEMA DE FRANCISCO MADARIAGA



OS POETAS OFICIAIS

Ajustais vossa esfera ao mais íntimo do porvir?

Débeis cães anões, tendes a vosso serviço os escritores nacionais, passarões da pátria.

Canastreiros dos frutos do ódio, não estou arrependido
de ter a meu serviço as jóias e os frutos do desejo.

Principezinhos destronizados de todo o sangue em decomposição na natureza.

Eugenios, Equis, Clauditos, cachorrinhos de cinza.


Francisco Madariaga (1927-2000), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 254.

sábado, 4 de maio de 2019

EMMETT GROGAN


(...)

Não posso voltar a escrever o que outrora escrevi. Por exemplo, não posso voltar a escrever que procurarei a paz entre os mortos. Eles encolhem os ombros no Inverno, caminham entre nós na cidade, pedem esmola, cospem para o chão, coçam as feridas, lambem o sarro. A tristeza que nos invade não é um ramo de amor vendido em papel pardo, não se serve nas mesas do cafés à hora de partir. Por que são tão raros os dias raros? O prazer já não manda aqui.

(...)


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 36. Nota: Grogan foi encontrado sem vida no dia 6 de Abril de 1978, tendo sido comunicado como causa de morte um ataque cardíaco. Amigo próximo, o actor Peter Coyote esclareceria que a causa da morte teria sido uma sobre-dose de heroína. Bob Dylan dedicou-lhe o álbum Street Leal.

UMA FOTOGRAFIA APONTADA À CABEÇA


A tradição judaico-cristã instaurou entre nós o problema da queda, ao colocar sobre as decisões humanas o ónus do pecado. Deus ter-nos-ia criado à sua imagem e semelhança, cabendo-nos assegurar a santidade através de comportamentos impecáveis. Mas logo esses comportamentos traíram o criador quando, ainda no Génesis, quisemos saber mais do que devíamos e metemos a mão na árvore do conhecimento. A história do homem na Terra é a história de um ser em queda, ou seja, de um ser a aterrar, vindo do céu para a Terra, de um ser em estado de deterioração. Fomos feitos como anjos, acabamos como homens. À evolução das espécies apomos a degenerescência da carne, criatura entre as criações divinas. Deus ofereceu-nos o livre arbítrio, podemos sempre mudar, a mutabilidade é, aliás, a nossa característica mais evidente, nota-se no próprio corpo, na passagem do tempo pelo corpo. A morte é o fim último dessa degenerescência, sendo até possível entender entre a verticalidade do ser vivo e a horizontalidade do ser morto essa imagem de queda. Um corpo em queda é um corpo à morte, é um corpo que desfalece.
   A questão da morte não é nova na poesia de José Anjos (n. 1978), poeta que ao terceiro livro se afirma como um dos mais difíceis de situar na poesia contemporânea portuguesa. Facilmente o associamos à tradição surrealista onde a imagem pesa sobre os versos como numa pintura, poesia dirigida ao olhar com impetuosos elementos conotativos. Mas ainda que lhe aceitemos a dimensão onírica, esta poesia não é essencialmente automática. De resto, quantos surrealistas o foram verdadeiramente? Vejamos, a título de exemplo, como o tema da queda se coloca. No poema intitulado Lengalenga do Precipício (p. 17) a ideia de “nada” baliza o tempo, tudo quanto é manifesta-se entre dois “nadas” (antes de ser, depois de ser) que delimitam um espaço de terra (onde se é). O poeta diz: «caímos na sua morte quando ele quer / caímos ainda vivos com os outros / no pensamento, caímos no pensamento / dos outros // mesmo assim, a inevitabilidade da queda / teima em escapar à percepção» (p. 16). A queda é um estado que apela à «consciência de si próprio», é no confronto com os outros que nos apercebemos dessa condição humana, a queda está tão associada ao pensamento como ao corpo, a sua consciência resulta da inter-relação entre corpo e pensamento: «sem consciência de si / a queda será apenas um peso morto» (p. 17).
   O tom reflexivo do poema afasta-o de uma lógica inconsciente, imprime nas palavras um ritmo de pensamento que sugere interpelações, dúvidas, um percurso concretizado entre a inquietação da dúvida e a sua expressão. Mais à frente, num poema sem título, retoma-se esta “lengalenga do precipício” num contexto onírico. O sonho coloca-nos dentro de um carro numa estrada que se vai estreitando junto a um precipício, a imagem é asfixiante, denota desespero: «estás a cair no vazio / e ainda consegues ver as luzes / da estrada que continua, / as luzes da aldeia que deixaste para trás // algures há uma festa / onde talvez ainda te esperem // mas continuas a cair, / com uma lucidez absurda, à espera / do impacto: / é isso a tua vida agora» (p. 63). Lembra-nos da anedota sobre o indivíduo em queda que vai dizendo “até aqui tudo bem”, ainda que nos poemas de José Anjos não vislumbremos qualquer sentença moralizante. Os poemas de uma fotografia apontada à cabeça (Abysmo, 2019) colocam-se antes num lugar de busca do espanto perdido, constroem-se durante a execução à medida que se interpelam a si mesmos e nos provocam com questões essenciais e inesgotáveis. O luto e a morte repensam-se a partir de noções fortemente ligadas à vida, não são matéria exclusivamente mental. Tudo acontece no centro de uma carne que vive com a consciência de que apodrece, sendo altamente inspiradora a capacidade que têm de nos agitar o pensamento: «a vós que sabeis / tudo sobre o tempo / e outras desgraças / da contemporaneidade // não vos entendo // a mim / questiona-me ainda / a engenharia de um dia / simples» (p. 79).
   Mais equilibrado e sólido do que os livros anteriores do mesmo autor, este é sem dúvida um dos mais estimulantes livros de poesia portuguesa contemporânea dos últimos 20 anos. Nele tudo se joga sem excessos, os ritmos que não enjeitam a rima, o fulgor imagético, a beleza de uma interrogação constante sobre o lugar do homem na Terra, a busca incessante e incansável de respostas (mesmo para aquilo que sabemos não ter resposta), a riqueza do pensamento, a postura sóbria face à dor da perda, a extraordinária capacidade de síntese:

EXPLICAÇÃO DO ACTO

espelho que devolve
a intenção