sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A POESIA COMO ARTE INSURGENTE

À pergunta sobre a possibilidade da poesia depois do holocausto, um grupo de jovens norte-americanos saturados da cultura ocidental respondeu com o mais instigador dos uivos. Ficaram conhecidos como Geração Beat, o que pode querer dizer muita coisa não nos cabendo aqui especular sobre o tema. Surgiram na década de 1950 com uma atitude verdadeiramente vanguardista, empenhados numa afronta aos valores tradicionais adoptando atitudes éticas e estéticas que foram assimiladas, por vezes muito mal, pelos mais diversos movimentos de contracultura que o Ocidente conheceu nas décadas seguintes. Interessados nas tradições não ocidentais, mormente nos costumes e hábitos indígenas e nas filosofias orientais, professaram eles próprios sistemas de vida exóticos, advogando a sexualidade livre, concepções políticas o mais próximas que consigamos imaginar dos antigos filósofos cínicos e dos hedonistas, sintonizados numa frequência multicultural que não reconhecia barreiras entre artes.
Nunca se reconhecendo como parte integrante do “grupo”, Lawrence Ferlinghetti (n. 1919) acabou por assumir um papel fulcral na sua afirmação. Depois de ter servido na marinha durante a Segunda Grande Guerra, transformou-se num pacifista militante. Formou-se em Literatura pela Columbia University e mudou-se para Paris, onde viveu entre 1947 e 1951, com a intenção de aprofundar estudos literários. Já casado, fixou-se em São Francisco no ano de 1953. Deu aulas de francês, pintou, foi crítico de arte, traduziu e fundou com Peter D. Martin a City Lights Bookstore. Foi precisamente neste contexto que desempenhou um papel determinante no percurso de muitos autores associados à Geração Beat, nomeadamente enquanto editor. Publicou, entrou muitos outros, livros de Ginsberg, Gregory Corso, Charles Bukowski, William Carlos Williams. Foi com o selo da City Lights que em 1956 o mais emblemático dos livros de poesia da Geração Beat viu a luz do dia. Por causa da publicação de Howl and Other Poems (1956), de Allen Ginsberg (n. 1926 – m. 1997), Ferlinghetti acabou por ser detido e acusado de propagandear obscenidades.
Estávamos em 1956 e tudo isto é hoje parte integrante da historiografia oficial. No entanto, Lawrence Ferlinghetti não foi apenas editor. Excelente poeta, publicou dezenas de livros. A Coney Island of the Mind (1958) é um dos mais populares. Infelizmente, apesar das ligações familiares a Portugal, a sua obra nunca mereceu grande atenção por cá. A Poesia como Arte Insurgente (Relógio D’Água, Dezembro de 2016) surge, deste modo, rodeado de expectativas. Originalmente publicado em 2007, coube a tradução portuguesa à também poeta e editora Inês Dias. A edição bilingue facilita o confronto, escusado dada a qualidade da tradução. Reúnem-se neste volume quatro textos que formam, no seu conjunto, uma ars poetica ferlinghettiana, escrita e acrescentada ao longo de diversas décadas. A Poesia como Arte Insurgente é um work-in-progress com várias décadas, a primeira versão de O Que é a Poesia? remonta à década de 1950, os dois manifestos populistas e o micro-ensaio A Poesia Moderna é Prosa surgiram na segunda metade da década de 1970.
Não é tão comum quanto seria de esperar que um poeta se dê ao trabalho de pensar a sua arte, manifestando publicamente o que julga poder servir de resposta às mais intrincadas questões que em todos os tempos se colocaram à poesia ou que no nosso tempo devem ser colocadas: «Consegues imaginar Shelley a participar numa oficina de poesia?» (p. 29). Ferlinghetti executa o exercício com um desassombro e uma clareza admiráveis, ora inventariando num furioso conjunto de aforismos reflexões sobre a utilidade e a natureza da poesia, assim como o papel do poeta na sua relação com o mundo, ora expondo num tom abertamente crítico uma leitura do seu tempo e dos obstáculos que este coloca à prática de uma forma de expressão que se quer absolutamente livre e insurgente. Inevitavelmente poético na concretização das suas reflexões, não deixa de ser igualmente objectivo: «Procura a Baleia Branca, mas não a arpões. Em vez disso, apanha-lhe o canto» (p. 31) ou «Escreve poemas breves com a voz dos pássaros» (p. 35). O acento não destoa quando o assunto é uma possível definição de poesia: «O que é a poesia? O vento agita as ervas, uiva nos desfiladeiros» (p. 49).
O que será então a poesia para Lawrence Ferlinghetti? A questão assim colocada delimita-nos o campo especulativo, obrigando a uma interpretação já mais concentrada na perspectiva do autor. Antes de mais, parece-me evidente em todos os textos coligidos neste volume uma forte convicção na poesia enquanto catarse, associada às emoções quer por via da libertação, quer enquanto ancoradouro de uma intimidade inalienável. Assim é porque «A poesia é o supremo refúgio íntimo» (p. 51) e «É o consolo dos solitários» (p. 57). Da mesma forma, vislumbramos nestes fragmentos uma crença no poder da poesia como motor da transformação do mundo, através da transformação das consciências, aliada à consciência de uma inutilidade que é assumida como a sua maior virtude. Não recusando a dimensão paradoxal de tais conjecturas, podemos compreendê-las na coerência de um discurso que tem sempre por fim uma ideia de poder e de vontade indestrinçáveis do conceito de liberdade, sendo, por isso mesmo, a resistência o lugar mais conveniente à poesia: «É a suprema Resistência». Numa leitura comparada com os fragmentos de Novalis tenderíamos a concluir, com assumida ironia, que de autêntico real absoluto a poesia evoluiu ao longo dos tempos para suprema resistência ao absolutismo do real.
Tanto os manifestos populistas como o ensaio que encerra o volume parecem aceitar tal evolução: «Escutem e estudem os mapas do tempo / Leiam o sânscrito das formigas sobre a areia» (p. 103). E isto traz-nos à curiosa tese desenvolvida por Ferlinghetti no texto A Poesia Moderna é Prosa. Datado de 1978, o texto conserva uma actualidade que não pode passar despercebida. A crítica aí exercida tem em vista uma prosa praticada sob a mancha gráfica de poesia, ou seja, uma poesia em que «o intelecto poético e o prosaico confundem-se, disfarçados com as roupas um do outro» (p. 109). Em linha com inúmeras discussões levadas a cabo ao longo das últimas décadas, a verdade aqui indisfarçável é a de uma aproximação de estilos que resulta no esgotamento das formas e na depauperização do poético. Subsumido no prosaico, o poético tende a perder a riqueza imagética e a força especulativa que outrora exibia. Podemos, quem sabe, concluir que face a um afastamento do filosófico, onde incluímos a intervenção cívica, a poesia tendeu a aproximar-se do prosaico, desembocando num niilismo estético esvaziado do poder transformador que indivíduos como os da Geração Beat julgavam ser o da poesia. Menos que resistência, ela será hoje o espelho de uma desistência. Daí a desolação que a matiza e martiriza. 

MARGARIDA VALE DE GATO


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

TILÁPIA


Não fosse o comboio amarelo, ler-se-ia como parte de um diário. Indiferente à quebra dos versos, a prosa nada tem que nos demova ou desiluda. É um retrato fiel dos dias, do coração atingido por inesperado ataque, dúvidas que trazem de novo a infância pelos carris da memória, aqueles que se perderam pelo caminho, os ausentes, mas também os tratamentos exigidos para que envelhecer seja possível. Doença e prescrição. Só não há remédio para a morte, sabemo-lo desde que tomámos consciência da brevidade de uma vida. Contudo, em sessenta anos de biografia cabem poemas de uma ruína pessoal anotada aos fogachos, declarados refúgios para um Lázaro à moda contemporânea, o das certidões, das filas nos hospitais, rodeado de lamentos, só, entubado até que o coração desespere de espera e diga não estar mais para isto. Só nesta vida nos é possível pensar outras:

As particularidades ortográficas, diacríticas, lexicais
e sintácticas dos meus poemas valerão o que valerem
as minhas obsessões. O mais são as emergências
do costume, por não ter tempo para fazer
o que me dispus a fazer ou gostava de ter feito,
comer tilápia com arroz de jasmim e sultanas gregas,
estacionar um Karmann Ghia em Back Bay, como fez
John Updike num dos últimos poemas, ou visitar
a catedral da Transfiguração, em Preobrazhensky,
nas margens do lago Onega, na República da Carélia,
com as suas vinte e duas cúpulas de madeira.
A haver outra vida, é isso que farei proximamente,
ficando-me por agora a obstar ao medo de voltar
ao hospital para que me reanime a máquina.


Amadeu Baptista, in Vida Breve, Editora Labirinto, Dezembro de 2014, p. 16. 

A CRISE DO JORNALISMO

Foi felizmente breve a minha incursão pelo jornalismo remunerado. Todavia, não foi por ignorância minha que (re)conheci pouquíssimos jornalistas – foi porque eram e continuam a ser poucos os que merecem esse título profissional. Lisboa era um nojo: campeavam os génios esquecidos, as luminárias do croquete, os amásios da fonte-inventada; grassava a cáfila dos romancistas embrionários tipo Nobel-para-a-semana, dos poetas desiquilibristas, dos guionistas de têvênovela. Coimbra? Jesus Senhor, Coimbra! Mais doutores por metro (como eles) quadrado do que honestas pulgas em cão solto. O Porto? Não sei, passei por lá a caminho de Braga mas retornei de barco até à Figueira da Foz. Aveiro & Viseu? Mas isso existe? Leiria? Não queirais que Vos fale de Leiria. Invoco razões higiénicas. Onde o jornalismo sério for embondeiro, Leiria é logradouro de erva rala. Daninha, naturalmente.
Não, não reconheço nem crise nem jornalismo. O que por aí se faz – é lama da digestão. Restos-zero à esquerda & à direita. Sabujices de obra-nada. Coisas de meter em saco plástico a caminho do contentor mais perto de si. Rácio de dez opinadores bêbedos por cada jornalista sóbrio. Terraplenadores da democracia, papagaios da cotação-em-bolsa que estão para os mercados como os freudianos para as mamas da própria mãe.


Daniel Abrunheiro, aqui.

SERGEANT RUTLEDGE (1960)


John Ford (n. 1894 – m. 1973) inaugurou a última década da sua longa carreira com Sergeant Rutledge/O Sargento Negro (1960), uma década onde caberão ainda um dos seus melhores filmes de sempre, The Man Who ShotLiberty Valance/O Homem Que Matou Liberty Valance (1962), o imprescindível Cheyenne Autumn/O Grande Combate (1964), e a participação no épico How the West Was Won/A Conquista do Oeste (n. 1962). Geralmente exibido como western anti-racista, Sergeant Rutledge conta com um elenco onde o protagonismo se divide entre o malogrado Jeffrey Hunter (faleceu com apenas 42 anos) e o mítico Woody Strode.
Hunter já tinha trabalhado com Ford em The Searchers/A Desaparecida (1956), embora ficasse conhecido do grande público pelos papéis oferecidos por Nicholas Ray (n. 1911 – m. 1979) em The True Story of Jesse James/A Justiça de Jesse James (1957) e, sobretudo, em King of Kings/Rei dos Reis (1961) na personagem de Jesus Cristo. Já Woody Strode havia feito carreira como atleta de futebol americano, impressionando pelo físico imponente e robusto. Ford não foi indiferente a tais atributos, desnudando-o da cintura para cima numa cena em que o vigor atlético cede aos efeitos de uma ferida.
Strode é o Sergeant Rutledge que oferece título ao filme, o qual começa e decorre, com recurso a várias analepses, a partir do julgamento desta controversa figura. Acusado de ter violado e matado uma rapariga branca, assim como de ter assassinado o pai da rapariga, um oficial superior, o sargento negro deserta, acabando por ser capturado depois de salvar uma outra mulher branca das investidas de um grupo de índios rebelados. Com uma folha de serviços impecável, os seus camaradas da nona cavalaria, caracterizada por incluir nos seus quadros soldados afro-americanos, recusam a hipótese de que Rutledge possa de facto ter cometido os crimes de que é acusado.
Jeffrey Hunter interpreta o papel do Lt. Tom Cantrell, chefe de regimento fidelíssimo à lei e ao livro que acabará por assumir a defesa de Rutledge durante o julgamento perante a corte marcial.
Estamos no Arizona, uma das paisagens predilectas de Ford, com Monument Valley a servir de cenário às digressões do exército. Por ali resistiram várias tribos indígenas às investidas de diversas forças invasoras, sendo os guerreiros Apache, liderados por Geronimo, um dos grupos mais temidos e respeitados por todos quantos se aventuravam no território.
Depois de ter filmado inúmeros westerns, muitos deles focados no papel da cavalaria enquanto força motora de uma ordem em território selvagem, Ford persegue agora uma espécie de condecoração dos marginalizados. Sempre movido por bons sentimentos, em Sergeant Rutledge o olhar volta-se para os afro-americanos a partir de um ideal de congregação representado pela cavalaria. Foi esta que libertou Rutledge ao fazer dele um homem como todos os outros à luz de uma sociedade segregacionista. Já em Cheyenne Autumn será o heroísmo dos índios a merecer a perspectiva piedosa do cineasta norte-americano.
Apesar da desconfiança que nos merecem tais encenações, importa não perder de vista a relevância da mensagem no seio de uma sociedade dividida desde a origem pelo choque entre etnias e culturas. Fossem os índios a parte fraca do conflito, ou os americanos nascidos em campos de escravos entretanto libertados, o que aqui está em causa é o contributo da arte cinematográfica para a cicatrização da História a par da fundação de uma mitologia nacional.

Ford foi, por assim dizer, um bom professor das massas, servindo-se de um género deveras popular para passar uma mensagem que é antes de mais uma possível leitura da história do seu país. Ao assistirmos aos seus filmes percebemos quão poderosas podem ser as emoções representadas na tela, na medida em que extravasam as fronteiras do entretenimento e não se detêm numa introspecção de índole exclusivamente intelectual. São filmes críticos no mais kantiano dos sentidos, oferecendo ao público uma síntese que inclui no seu paroxismo a gravidade historiográfica e a possibilidade de um futuro. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

"talvez se souberes o que dizem as árvores"

A partir de um poema de Jorge Muchagato (aqui).


Se souberes o que dizem as árvores, talvez aprendas a dar sombra para que encostado ao teu corpo adormeça o animal cansado, e nos teus braços pousem aves cujo canto replicarás com frutos, tu já metamorfoseado no vital conhecimento da resina, da cortiça, das folhas caídas como células onde poderemos encontrar, assim tenhamos ciência para tal, a raiz que nos expulsou do paraíso.
Talvez, se souberes o que dizem, possas connosco partilhar o desespero de Judas, a cruz que seu mais belo amante carregou apaixonadamente, enfim a mentira que ressume teorias novas sobre comunicação vegetal e sociedades secretas subterrâneas, as árvores congeminando entre raízes uma revolução sobre a terra, os homens quem sabe por alvo, o pior inimigo a quem se reserva por misericórdia a hipótese do enforcamento.
As árvores, animais de sangue viscoso, pele densa a tumescer abismos entre machado e homem.
Nelas o felino busca couto para perscrutar a presa, o roedor abriga-se do insidioso inimigo rastejante, nós penduramos a roupa e a criança imagina casas de madeira onde arrumar o gozo de uma aventura, nas árvores os olhos repousam das tragédias quotidianas e a respiração alenta-se como um deus em hora de parto.
Talvez se souberes o que dizem as árvores saibas também dizer vento, afagando a brisa com o pólen da flor que surde majestosa na ponta de cada um dos dedos inúmeros que uma árvore oculta. Tronco onde um dia cinzelámos o verso da única medalha que alguma vez nos foi atribuída, não por mérito nem por singela participação, mas por esforço em nos mantermos de pé e verticais como a árvore ensina.


ELEVADOR

Tenho prestado alguma atenção às pessoas que fazem exercício físico em espaços públicos. Aparentam uma felicidade que me parece autêntica. Há dias, diverti-me a mirar um avô que se balançava num dos aparelhos espalhados ao longo da marginal, em São Martinho do Porto, enquanto a neta sorria ao vê-lo todo divertido. Temi pelo senhor, tal foi a velocidade que imprimiu ao exercício. Parecia querer impressionar a neta, ao mesmo tempo que impunha a si próprio um saudável desafio físico. De frente para o espaço infantil no Parque, foi criada uma área a que deram o nome de Ilha Fitness. Gosto de observar as mães a exercitarem os glúteos enquanto a criançada se diverte nos escorregas, nos balancés, a trepar casinhas de madeira, praticando slide. Quem repare no meu espanto julgará que sou uma espécie de mirone pervertido, mas posso jurar que a única perversão que me move é admirar a dedicação das pessoas ao exercício físico. Nunca me deu para tal. Em tempos, a minha mulher adquiriu uma passadeira cá para casa depois de uma discussão completamente escusada. Eu não queria a passadeira, ela fazia questão que eu a apoiasse na decisão que já tinha tomado acerca desse importante investimento. Foi colocada no sótão e por lá ficou até acabar por ser vendida a uns amigos. Raramente lhe demos uso. Compra-se muita coisa cá para casa que acaba por não ser utilizada, ou nos entusiasma pelo período médio de um brinquedo oferecido a uma criança no Natal. Presumo que os aparelhos de exercício físico espalhados pela cidade tenham outro interesse, espero que tenham outra durabilidade. Aparelhos urbanos de fitness podem salvar o dia a muitos homens de fato e gravata e a muitas mulheres de tailleur e salto agulha. A mim, pelo menos, salvam alguns instantes do dia enquanto observo outros a lhes darem um uso que eu jamais darei. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

NOVIDADE

Não se fala de outra coisa. Auscultam-se especialistas, fazem-se reportagens, tudo em nome de uma extraordinária novidade: faz frio em Janeiro. Nunca me tinha ocorrido. Supunha que o frio era de outros meses, de outras épocas, e jamais português. Mas descobrimos o frio. Vêem-se pessoas agasalhadas na rua como se estivessem na Sibéria. Ora, juro eu por tudo quanto haja de sagrado que vi hoje com estes que a terra há-de comer uma rapariga a caminhar descalça no Parque. Vestia um casacão velho, tinha o rosto borrado de um modo estranho e uns fios espalhados pelo cabelo que não consegui entender. Concentrei-me nos seus pés descalços, nem umas meias, caminhando firmes sobre a terra húmida do Parque. Admirei-os e invejei-os, ainda que os tenha estranhado com discrição. Evitei a todo o custo mostrar-me inconveniente, pois deve ter sido óbvio por instantes o meu absoluto enamoramento. Não me ocorreu sequer que pudessem sofrer com a exposição ao frio e às contingências do terreno, não me ocorreu que poderiam cortar-se, gretar-se, ferir-se. Eram dois pés descalços invejáveis, impecáveis, espantosos, sobre os quais nenhum especialista foi auscultado nem alguma reportagem se produziu. 

DEMO XXI

Mais coisa, menos coisa, isto vai indo mais ou menos assim: o povo elege os políticos, os políticos servem a finança, a finança combina-se com os empresários, estes investem no jornalismo que, por sua vez, garante boa ou má imprensa aos políticos. Todos trabalham e todos são pagos pelas suas funções, as quais merecem mais estima, respeito e consideração em conformidade com o grau de influência de cada um na preservação desta dinâmica. Como eleger é o menos importante, o que se compreende até pelos níveis de abstenção generalizados, aquele que elege é o mais mal pago.  

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CLONAZEPAM BLUES


Se fôssemos buscar todos os restos de tecido
De todos os índios que viveram nos Apalaches
Depois de toda a neve
Se da agonia das carroças dos arcanjos
Ou seja
Se da expiação da cidade santa resultar só
Uma boca do metro
Sabes, um sem abrigo no metro
Um cessar das luzes
Ou rebentos de flores nas mãos
Do homem cego a pedir esmola
Na escadaria
Se exigíssemos ao valete de espadas
Ou às donas de casa
Largar o diazepam e comutar
Como se alguém tivesse prometido
Que nunca passaríamos fome
E teríamos livrarias fartas
Com Mark Twain e John Steinbeck
E mesmo Jim Morrison
E teríamos sacas gordas de leguminosas secas
Onde enfiar as nossas mãos
E absorver suavemente
Os cheiros da rua do mercado

Sabes que
Se os cães não ladrarem no amanhecer gelado
Sentir-me-ei aflito
Febril se os cães não ladrarem aos primeiros
Raios rubros da aurora
Sentir-me-ei aflito
Lastimoso entre as árvores
Febril
Sentir-me-ei aflito
Se não houver galos e forem carros
Potenciais camiões do lixo
Se forem só semáforos e gritos
E leituras de poesia sob as luzes
Da cidade
Febril
Sentir-me-ei aflito

Enquanto a serenidade dos índios que viveram nos Apalaches
Não chegue
Enquanto a neve não ouse derreter
E reste só o murmúrio do riacho
Por entre o verde
A correr
O murmúrio do riacho
A correr
Sentir-me-ei aflito


Mariano Alejandro Ribeiro (n. 1993), in Antes da Iluminação. Nascido em Buenos Aires, reside em Portugal desde os dez anos de idade. O livro de estreia permite-nos constatar que assimilou com desembaraço a herança Beatnik, não descurando o que nela havia de desprendimento lírico e abnegação orientalista. Típica do seu tempo, a poesia de Mariano Alejandro Ribeiro integra no corpo do texto um caleidoscópio de referências várias, com especial predilecção pelos ícones de uma cultura erigida nas margens do cânone. A ironia oferece-lhe ao ritmo desenfreado um tom ligeiro que aproxima amiúde o discurso daquilo a que se convencionou chamar de poesia pop, conquanto entendamos por pop uma inclinação para seduzir o leitor com uma linguagem onde o humor e a emoção não foram esvaziados de conteúdo. Ora em verso, ora em prosa, os poemas de Antes da Iluminação indicam um caminho a que valerá a pena estar atento.

NÚMEROS

As oito pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente àquela que se concentra na metade mais pobre da população mundial, facto que a Oxfam – organização não-governamental internacional – considera “para lá de grotesco”.  (…)O fosso entre ricos e pobres não é uma novidade, ainda assim revela-se preocupante, diz a Oxfam, que a distância entre estes dois grupos continue a aumentar consideravelmente. Em 2016, era necessária a fortuna dos 62 mais ricos para equivaler à riqueza de metade da população mais pobre do mundo. Em 2017, são precisas apenas as oito pessoas mais ricas. A diferença abismal deve-se a novos dados sobre a pobreza na China e na Índia que se revelaram mais graves do que o esperado, nota o Guardian. (…)“O cenário de desigualdes deste ano é bastante claro, mais preciso e mais chocante que nunca. É para lá de grotesco que um grupo de homens que facilmente cabem num carro de golfe possam possuir mais que a metade mais pobre da população mundial”, afirmou o director executivo da Oxfam, Mark Goldring, citado pelo Guardian. “Uma em cada nove pessoas no planeta vai para a cama com fome, enquanto uma mão-cheia de bilionários têm tanto que precisariam de várias vidas para conseguirem gastar tudo”, acrescentou Goldring, que quer ver implementada uma mudança na economia mundial que funcione para todos e não só para “uma elite privilegiada”.

Aqui

PALHAÇO MAQUIAVÉLICO

Não vi a entrevista do futuro presidente dos EUA, enquanto o actual presidente se desdobra em incomensuráveis acenos de despedida. Odeio despedidas, não tenho paciência para Trump. É-me penoso, demasiado penoso, escutá-lo, pelas mesmas razões que me é penoso observar alguém a despedir-se reiteradamente. Enjoo. Enjoou-o. Enojou-o. Enjoo-o. Engou-o. Talvez não me faça entender, o que é normal. Trump é daqueles tipos que me tiram do sério. Durante a campanha, fartei-me de o ouvir e fartei-me de ouvir tipos como o Stephen Colbert e o Jimmy Fallon a fazerem piadas sobre ele. Péssima abordagem. Temo haver algo de perversamente patológico em indivíduos como Donald Trump, e estou convencido de que caricaturar a patologia só a agrava. O problema começa em não levarmos o homem a sério, da mesma maneira que levamos Wolfgang Schäuble. É uma hipótese muito provável que Trump venha a ser o palhaço maquiavélico do séc. XXI, num mundo liderado por gente ao nível de um Gollum tolkieniano. Nem sei bem o que quero dizer com isto. Enfim, sei. Quero dizer que me faz tudo muita impressão, ouvir Trump falar e ouvir falar sobre Trump.  

domingo, 15 de janeiro de 2017

#89



Por falar em “golden shower”, e porque tão poucas vezes se vêem, lêem, ouvem por aí referências à obra inigualável de Frank Zappa, lembrei-me deste Joe’s Garage (1979). A edição em CD é dupla, mas lá nos idos da década de 1970 os três actos desta ópera rock, com laivos de musical satírico, foram repartidos por dois álbuns: Joe’s Garage: Act I e Joe’s Garage: Acts II & III. Zappa tinha-se libertado das restrições impostas por uma editora discográfica que lhe impunha limites à edição, avançando por conta própria num ritmo que lhe permitiu colocar na rua meia dúzia de álbuns num só ano. O génio equivalia ao ímpeto criativo, reconhecido, aliás, por pares de diversas latitudes, do rock à música erudita. Compositor multifacetado, construiu uma obra heterodoxa tanto em termos estéticos como éticos. Sátiro por excelência, enveredando sem açames pelos territórios da sexualidade explícita, da crítica de costumes, da irrisão, Frank Zappa concebeu um universo próprio onde a ironia foi sempre uma aliada da complexidade musical. Só ele poderia escrever uma canção intitulada Why Does It Hurt When I Pee?, com um refrão do tipo “My balls feel like a pair of maracas”, sem parecer ridículo. Em Joe’s Garage, o universo da indústria musical é o alvo do escárnio. Com uma narrativa introduzida e pautada por um Central Scrutinizer em registo robótico, à maneira de diácono futurista, a saga do músico Joe num tempo em que a música foi banida socialmente por se revelar péssima influência, com direito a groupies dispostas a todo o tipo de serviços, resulta num manifesto onde se tornam evidentes a crença na música enquanto contrapoder e a fé na criação artística enquanto máquina libertária. Atravessando géneros, sem barreiras nem obstáculos, Zappa concebe uma divertida digressão pelos costumes de uma América em mudança mas mais conservadora do que aparenta. Não é o único dos seus registos onde encontramos referências ao “golden shower” e outras práticas de índole sexual menos convencionais, mas é um dos mais consistentes e divertidos.



PESQUEIRO 25

Tenho o péssimo hábito de não ligar a preços quando a intenção é divertir-me, mas tudo tem os seus limites. Paguei hoje €29,25 por uma garrafa de vinho num restaurante banal em São Martinho do Porto. Exactamente este vinho, à venda na Garrafeira Estado Líquido por €8,75. Como é óbvio, nunca mais hei-de pôr os pés no Pesqueiro 25. Mordi o isco uma vez, mas não me enganam uma segunda. Puta que os pariu.

sábado, 14 de janeiro de 2017

CARTAS CONTRA O FIRMAMENTO

Confiando em informações disponíveis na Wikipédia, o inglês Sean Bonney (n. 1969) começou a publicar em 2002. Letters Against the Firmament surgiu em 2015, com edição da Enitharmon Press, depois de vários “panfletos, plaquetes e ensaios”, onde se incluem abordagens às obras de Baudelaire e de Rimbaud. Com tradução de Miguel Cardoso, a Douda Correria publicou entre nós Cartas Contra o Firmamento (Junho de 2016), reunião heteróclita de textos em prosa, com alguns versos pelo meio, ilustrados com indiscutível pertinência por Pedro Pousada.
De carácter abertamente contestatário, estas epístolas enviam-nos tanto para o tom de inúmeros manifestos vindos a lume ao longo do séc. XX como para a poesia beat que mais se focou na intervenção cívica. Não percamos de vista, no entanto, o rasto deixado pelo próprio autor no decorrer de textos onde se incluem referências ao “surrealista da negritude” Aimé Césaire, ao Beatnik Amiri Baraka, ao comunista heterodoxo Pier Paolo Pasolini, a músicos de free jazz ou aos grandes cultores da canção de protesto. Reflectindo sobre o seu tempo, Sean Bonney propõe uma poética conflituosa, beligerante, que não enjeite a realidade, mas que a ela se aponha como um acto terrorista à maneira de Hakim Bey. Numa anárquica dispersão de conjecturas, o eu lírico mistura-se na confusão de motins e de tumultos para sabotar uma ideia de poético que resiste à violência como quem volta o rosto à realidade. Reaproximando a poesia da intervenção cívica musculada, estes textos denotam uma vontade obsidiada pela raiva e pela fúria do discurso. «Proibido afixar milagres» — diz-se a determinada altura, com ironia, como quem pressente no romantismo dos ideais a falência das utopias, do discurso político consagrado pela história, da poesia obediente à retórica desse mesmo discurso.
Há porém uma fragilidade nesta postura que não deve iludir-nos. A linguagem é ainda a que conhecemos das mais variadas formas de intervenção cívica, com os seus clichés consolidados por uma total incapacidade de fazer implodir a lógica das convenções. O tom libertário não chega a ser libertador, ainda que inquiete o pensamento e agite as águas da sensibilidade. De resto, o próprio autor parece estar ciente das suas limitações quando, a páginas tantas, reconhece: «Às vezes o meu próprio vocabulário faz-me contorcer de embaraço». Esse embaraço surge do reconhecimento de uma impotência face ao discurso oficial e oficioso. Fazendo uso das mesmas palavras, a poesia facilmente fica refém de um código que determina e possibilita a comunicação. O facto de estarmos perante uma forma de expressão, a carta, onde a comunicabilidade é central, e aceitando que, para todos os efeitos, o emissor das missivas é um sujeito indefinido, não liberta estes poemas em prosa dos constrangimentos instaurados pelo uso comum de uma língua que permita fazer circular uma mensagem. E a mensagem volta a estar aqui no núcleo mais central do poema.

Cartas Contra o Firmamento é, apesar das suas naturais limitações, um livro inquietante, com uma extraordinária capacidade de reintegrar o político na poesia, assumindo como poéticos temas eminentemente sociológicos como sejam os da gentrificação, do desemprego, ou das formas de luta e de protesto cívicos. Assumindo em si mesmos uma poética da violência — «em vez de ‘amo-te’ diz que se foda a polícia» —, estes textos são eles próprios uma insurreição no interior do lirismo. Não fazem o elogio do ódio nem cantam a crueldade, invadem  os territórios onde o ódio e a crueldade medram para deles retirarem coléricas manifestações de consciência: «A poesia é estúpida, mas, por outro lado, a estupidez não é a ausência de capacidade intelectual, é antes a cicatriz da sua mutilação». Portanto, é como uma espécie de cicatriz da poesia mutilada que as Cartas chegam ao seu natural receptor, o leitor para quem a realidade ainda não se reduziu definitiva e estupidamente ao mundo lá fora. Porque afinal, é bem dentro dele que tudo opera. 

CAMPISMO SELVAGEM


   Em inédito publicado num opúsculo dividido com Inês Dias, Manuel de Freitas remata a prosa do poema constatando que a sua poesia «passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém». Pergunto-me se não será sempre assim. 
   Por vezes, tendo a pensar que toda a poesia devia ser escrita num breve período de vida, exprimindo o fulgor de uma circunstância indomável. De preferência, toda a poesia devia ser da juventude, do rasgo sem freios que a língua aceita quando ainda não fomos condenados pelo peso dos deveres e das obrigações. Manter-se numa tenda no meio da floresta incógnita, sem refeitórios por perto nem paredes, muito menos aquecimento central. Atravessada pelos insectos inoportunos, exposta a intempéries e ao desconforto de climas adversos. Assim devia ser, mas não é. 
   Os poetas anseiam por obras completas, supondo porventura que no peso dos volumes reside a providencial justiça que o reconhecimento consagra. Depois arrastam-se por versos intermináveis condenados à partida por uma acomodação contrária à própria poesia. Rimbaud desmente-os, tal como Cesário ou Pessanha e tantos outros que, interrompidos por razões diversas, outorgaram versos cheios desse fulgor que o passar dos anos não apaga. Começaram e acabaram no campismo selvagem, mesmo cumprindo-se, como Cesário, na mais convencional das existências. 
   Em prosa, o poema completo:

SÍTIO DA NAZARÉ, 1979

Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros. Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da Consolação.
   Desconheço se devo a estas remotas experiências a tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém.



Manuel de Freitas, Inês Dias, in Sítio, Volta D’Mar, Maio de 2016, p. 14. Fotografia respigada aqui.

UM POEMA DE ARAM SAROYAN


PARIS

1
F. Scott Fitzgerald precisava de um mentor
que é como eu apareço no retrato.

2
Picasso ficou calado
quando chamei a atenção
para o Cubismo ser um passo em falso.

3
Enquanto adolescente
Gertrude Stein preferia
a ópera ao teatro.

4
Dora Maar era uma mulher linda
que não conseguia esquecer Picasso.

5
O apartamento era do tamanho
de um selo de correio.
Arrendámo-lo logo e
saímos 36 dias mais tarde, rescindindo o contrato,
para regressar ao Kentucky.


Aram Saroyan (n. 25 de Setembro de 1943, Nova Iorque, EUA), traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho, in Eufeme - magazine de poesia, n.º 2, p. 15, Janeiro/Março de 2017.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

UMA VERDADE INCONVENIENTE


A ver.

A NOSSA HORA

Os weblogs dantes eram um espectáculo, isto foi antes de passarem a ser blogues, éramos só nós e os nossos amigos, discutíamos civilizadamente todo o tipo de assuntos e tínhamos caixas de comentários abertas, depois começou a chegar muita gente desconhecida, tanta gente, fizemos amigos novos, cortámos relações com velhos amigos, fechámos as caixas de comentários até que zarpámos para jornais, revistas, televisões, cargos públicos, não suportávamos o anonimato de quem se nos opunha, mas precisávamos de qualquer coisa que nos mantivesse na crista da onda, qualquer coisa com rosto e família, precisamos das nossas confrarias e de sociedades secretas em rede semiaberta, descobrimos as redes sociais, as redes sociais eram um espectáculo até terem chegado todo o tipo de pessoas às redes sociais, até serem sociais, e os nossos velhos amigos a discutirem tudo incivilizadamente, é um espanto ver como as pessoas conseguem ser grunhas, isto é, pessoas, nas redes sociais, o pior delas revela-se ampliado a uma escala inimaginável, tipos que nós considerávamos acabam por se revelar xenófobos, racistas, homofóbicos, enfim, execráveis, isto é, humanos, eu não gosto das redes sociais mas ando por lá para ver como é, preciso daquele ódio para efeitos de trabalho, sou um observador das massas, as massas são observadoras das massas, dantes as pessoas tinham comportamentos filtrados pela moral, pelos bons costumes, pela ética, pela deontologia, agora os filtros desapareceram e as pessoas comportam-se nas redes sociais como autênticos bichos, sem filtros, parecem homens das cavernas, sim, o homem moderno nunca se assemelhou tanto ao homem das cavernas, e eu estou aqui no meu casulo a observar as cavernas onde os outros se reúnem para assar a presa que acabaram de capturar com mais um comentário odioso, às vezes penso que passo demasiado tempo dentro de uma cuspideira, mas não pode ser assim tão mau, até de facto verificar que é mesmo assim mau, o mundo devia ser só eu e tu, meu amigo, eu e tu, as redes sociais não deviam ser sociais, deviam ser redes, num mundo perfeito as pessoas não seriam pessoas, seriam cidadãos do mundo, mas o mundo tem este defeito de ser feito por pessoas, tantas delas odiosas no fundo das suas frustrações e vulgares no dia-a-dia do bairro, ai, passassem vocês a vida atrás desse observatório do mundo que se chama balcão ou fossem às reuniões de condomínio, talvez não se espantassem tanto com o espectáculo da boçalidade. Feitas as contas, somos todos homens e mulheres. Feitas as contas, somos todos brutos e parvos. Só temo pelos vermes que hão-de sofrer terríveis congestões quando chegar a nossa hora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ESTAÇÃO DE SANTA APOLÓNIA


Estação 2012, Mariposa Azual, Junho de 2014, p. 10. Clique na imagem para ver melhor. Disponível para aquisição no sítio do editor (aqui).

Imagem respigada aqui.

ROSTO QUEDO

Para onde quer que tenha ido, o júbilo levou consigo todos os argumentos, todos os pretextos, todas as hipóteses de uma existência branda. Mesmo reparando que na banda sonora ambiente das ruas foi incluída a nossa canção preferida de Bob Marley, e que defronte uma rapariga saracoteia o tronco enquanto nos olha de baixo para cima e confessa não ser especialista em técnicas de autocontrolo, mesmo assim damos por mortas todas as horas entristecendo o ar com o pessimismo das leituras. 
Sobre quantas coisas escrevem os olhos sempre que tombam sobre a paisagem? 
O medo absoluto de pender para um silêncio amargurado, como o do velho composto a régua e esquadro que aos bons dias responde com desprezo e nos convoca para um mar de dúvidas. O que o terá tornado assim? 
O que nos torna desprezíveis? Certamente não serão os gestos repetidos dos dias, voltar para trás a verificar se fechámos correctamente as portas, aproveitar nesgas de calor para secar a roupa, passear o animal doméstico, mudar um pneu furado, oferecer ajuda a quem dela nos pareça precisado. O que nos torna desprezíveis é não termos com quem partilhar silêncios, é a solidão que dissipa o outro impondo distâncias, é não estarmos inclinados para jogos de tabuleiro nem fazermos o mínimo esforço na direcção do que se nos opõe.
Há mortes assim, são fragmentos de ternura espalhados pelo chão. Cabe-nos recolhê-los e reorganizá-los como quem faz um puzzle em família numa tarde de domingo, à espera que a massa no forno fique pronta para que o chá quente com mel reconforte o estômago soqueado dos dias. 
Para ninguém será fácil, não duvides. 
No regresso a casa, com o rádio ligado, escutamos três mulheres a discutirem tão previsivelmente preconceituosas a felicidade dos estúpidos e concluímos como estúpidas e infelizes são todas as conjecturas generalizadas. Ao fim de um dia de trabalho como outro qualquer, só podemos ter a certeza: foi mais um dia que passou. E passou tanto nesse passar que até das pedras e dos estilhaços retiramos a convicção de uma possível melancolia a falsear sorrisos. 
Outra coisa seria partirmos do princípio de que em tudo pode haver poesia, quando já tão rara e extinta ela nos parece. Não, não pode ser. Nenhuma poesia se avista no degredo da mulher violentada, naquele velho composto a régua e esquadro que aos bons dias responde com desprezo e nos convoca para um mar de dúvidas. 
Somente uma solidão que dissipa o outro impondo distâncias. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

VIAGENS NA MINHA TERRA #14

Quando a vida era bela, ou seja, antes do condecorado inventor da coisa ter zarpado para parte incerta carregado de dívidas, tive a imprudência de oferecer à minha mulher uma dessas caixas que transformaria os nossos sonhos em realidade. Por uma qualquer razão que nunca hei-de entender, fomos parar a Ílhavo. Nunca antes tinha estado em Ílhavo, nunca mais quis voltar. Mas ficou para contar a caricata experiência no hotel. Agendada a massagem com pedras quentes para dois, apresentámo-nos à hora certa no local do crime. Levávamos no pensamento merecidas ambições de paz, sossego, descontracção. Sucede que a sala de massagens ficava junto a um salão de jantares onde decorria um encontro da confraria do bacalhau. O resultado foi desastroso. A massagem fez-se, mas ao som de uma confusa vozearia que incluiu discursos e vivas ao peixe das mil e uma receitas. Não quis voltar a ouvir falar de bacalhau durante anos, peixe que para o resto da minha vida hei-de associar a essa cidade do distrito de Aveiro. E com razões posteriormente fundamentadas, já que muitos dos homens que andaram na pesca do bacalhau eram dali originários. Menos desagradáveis, o passeio pela Praia da Costa Nova do Prado, com as suas características casas às riscas, e a visita ao complexo da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, acabaram por inspirar a prosa que agora recupero:

Não cedo à tentação de olhar para as árvores como quem olha edifícios humanos. A estrutura das árvores não obedece à lógica dos homens. Elas não foram pensadas, por isso nos parecem sempre mais acolhedoras. Os pássaros que descansam o voo nos ramos devem olhar para as árvores como antigamente os cavaleiros errantes olhavam para as estalagens. Mas, por vezes, o meu olhar resvala na fé. Então, cedo à tentação de olhar para alguns edifícios humanos como quem perscruta uma árvore. E eu perscruto as árvores com os olhos da comoção. Entro nesses edifícios, sinto-lhes a vibração, sento-me a descansar o voo e medito, não oro, em favor dos homens que suaram para que pudesse eu pousar o meu espírito no trabalho que tiveram. Ainda há dias, passeando junto à ria, pude mais uma vez constatar essa transmutação que transforma em abrigo o espelho das águas e em branda ondulação as fachadas dos edifícios. Casas antigas, pintadas às riscas, como se vestissem um pijama para que os nossos olhos encontrem nelas o conforto do algodão. Ali passeantes, como que adormecidos, sentimo-nos em casa andando pelas ruas. Pode dar-se inclusive o caso de pousarmos as pernas numa esplanada. Pedimos o costume: um café cheio, um pastel de nata com canela e uma água com gás. Ateamos o cigarro, folheamos as páginas de um livro que trazemos por companhia e, subitamente, é-nos o colo assaltado por visita inesperada. Tudo conflui, nestes momentos, para uma estranha e rara harmonia. O homem, as casas, o gato e a ria. Escrever a história desses encontros é, talvez, o elemento mais artificial da reunião vivida. Por que a escrevemos? Talvez por pressentirmos e temermos a sua raridade.

Enfim, nem tudo foi mau por terras de Ílhavo. Ali colada, a capital do distrito propriamente dita, aquela a quem chamam com papalvo hiperbolismo a Veneza portuguesa, tem para oferecer não apenas a beleza dos moliceiros e da ria, mas também a de alguns edifícios a contrastar com um Centro Comercial instalado no centro da cidade — obra que não lembraria ao diabo como lembrou a seres humanos de péssimo gosto. Portugal tem demasiado disto. Entretanto travada, pelo menos amenizada, a moda dos shoppings em zona histórica deixou as suas terríveis marcas e abriu feridas que não serão facilmente saráveis. Tudo em nome de um putativo conforto dos consumidores, essa classe para a qual voltámos o centro das nossas atenções desviando as populações do núcleo essencial das suas vidas: a História. É deprimente constatar como muita da nossa desatenção começa precisamente aqui, junto ao teatro onde as pessoas fazem a vida e operam circunstâncias diversas. Aqui deveríamos ter preservado o que mantivesse viva a história para que ela não se apagasse da consciência dos seres, mas fizemos exactamente o contrário, secundarizando um passado do qual restam à mão das populações resquícios desapercebidos e tendencialmente ignorados por gente para quem a preservação do património jamais terá tanto valor quanto a possibilidade de uma loja Zara a meia dúzia de metros de casa. É a mentalidade do novo-rico a tomar conta dos destinos de um país, essa que um dia apontei a um industrial de São João da Madeira para quem a preservação de um monumento só fazia sentido se constituísse possibilidade de negócio. Os resultados desta mentalidade serão desastrosos, tenderão a restringir a tradição a uma paragem na Mealhada para comer leitão acompanhado de espumante. Há não muito, numa passagem pelo Luso, subi à serra do Buçaco até ao agora Palácio Hotel. Estacionei e fiz uma caminhada pelo parque envolvente, seguindo os passos da Via Sacra ao encontro de inúmeras ermidas rodeadas de vegetação. Saiu assim a prosa:




O homem é a cruz que a floresta carrega, a cruz caminha dentro da floresta como um vírus se espalha pelo sangue. Degrau a degrau, o homem penetra na floresta e com uma catana na mão afasta os impropérios da natureza. A floresta esconde mitos à altura das árvores, o homem olha de soslaio e desconfia, sente uma pontada de medo no peito, respira fundo e continua a subir na direcção do desconhecido. Sente-se protegido pelo espírito de outros homens que já caminharam antes dele na mesma floresta, desbravaram caminho, deixaram rastro, sinalizaram perigos, edificaram degraus, pentearam as árvores. O homem não está só no estômago da floresta.



Senta-se, acende um cigarro e pede à floresta que se sente com ele à mesa. Serve-lhe palavras silenciosas, palavras que crescem no tronco do homem como musgo no tronco das árvores. O homem pergunta às árvores seu nome, mas elas não respondem. Desconversam. Falam-lhe de famílias antigas enterradas por debaixo das raízes, biomassa para o pulmão da humanidade, as árvores contam ao homem a história de uma floresta de homens mortos que foram enterrados ali mesmo e ressuscitaram sob a forma de árvores. O homem percebe a mensagem e diz: em cada uma de vós, um homem.



As árvores sorriem, largam frutos de riso no caminho, e o homem pensa que seria fácil enlouquecer no estômago da floresta. Ajoelha-se e sente o sangue das árvores a colar-se aos joelhos, sente que as árvores lhe limpam o sangue do rosto como ao homem dos homens na sexta estação. O homem não precisa de cair para manifestar a sua fraqueza, ele é fraco por natureza: não consegue entender a fraqueza das árvores. Mas as árvores também caem, caem por revolta e saturação. Por vezes as árvores cansam-se dos homens, deixam-se tombar sobre as casas dos homens. São árvores velhas, destrutivas, os homens olham para elas com espanto mas não há senão vergonha no rosto dos homens.



Estes olhos são incêndios, as árvores também incendeiam os homens. Quem protege as árvores dos homens? Quem protege os homens das árvores? O homem acelera o passo, acelera o passo àquele ponto em que parece estar a correr, quer fugir da floresta, quer sair de dentro dos seus mistérios, saltar os muros de mistério da floresta, teme ficar como o cão louco que ameaça o silêncio com latidos e uivos de reclusa condição. Saltar os muros de mistério e de novo observar o horizonte, uma linha de futuro para lá dos troncos das árvores e do vento que atravessa os ramos e da luz apanhada pelas raízes como o peixe na rede. A floresta está cheia de armadilhas, o homem é a cruz que a floresta carrega, a floresta é uma armadilha. Jesus foi a armadilha dos homens, nasceu no deserto – onde as florestas crescem para baixo da terra.



Anos antes, numa deslocação ao Festival Para Gente Sentada em Santa Maria da Feira, ocorria-me a importância das pessoas se sentarem para ouvir música. À época ainda fazia sentido fechar os olhos e escutar o som que vinha do palco, sem gente pela frente de braços levantados a registar no telemóvel momentos cuja partilha em rede se tornou mais relevante. Eu estive lá, assim marca agora o animal humano seu território. Enquanto à sua volta, por desinteresse e distracção, as marcas de um passado colectivo se vão paulatinamente transformando em ruínas que nem maus poemas inspirarão no futuro.  

ÁLVARO FEIJÓ A BOMBAR

Acreditando nas contas apresentadas, ontem mais de 2000 pessoas andaram por aqui a esgaravatar em busca de Álvaro Feijó. Não era caso para tanto. Depois do episódio do Cherne, que voltou a colocar a poesia de Alexandre O'Neill na panela das massas, Feijó segue on fire. Afinal "gosta-se" de poesia em Portugal, não se gosta muito é de comprar livros. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

FORMIGAS


Notei a ausência de pássaros, aves de grandes asas e bico pontiagudo. Há dias parei o carro para dar passagem a um pássaro. Acabou atropelado do outro lado da estrada. Por cima de nós, ouvia-se um bando de gaivotas aflitas debatendo o sentido da vida dos répteis e de todas as espécies de rastejantes que sob elas circulavam. É curioso como lhes tendo fobia sinto tantas vezes sua falta. Dá-se comigo esta coisa de geralmente amar o que me mata. O frio, por exemplo. Esta humidade do poema:


VIDAS

Há em certas florestas tropicais um tipo de fungo que escolhe as formigas como hospedeiras. Os seus esporos penetram o corpo da formiga até se instalarem na sua cabeça. A formiga atacada por este fungo em breve dá sinais de desorientação e acaba por ser levada pelas outras para longe do grupo. A formiga hospedeira finalmente imobiliza-se e da sua cabeça nasce uma haste de fungo que cresce vertical e magnífica, como uma flor, sobre o corpo morto da formiga.



António Amaral Tavares, in Animais Incluídos, Medula, Setembro de 2016.

1967

A propósito dos 50 anos que passaram sobre a edição do primeiro álbum dos The Doors, fui dar uma volta pelos arquivos cá de casa e fiquei nostálgico. Ao tentar confirmar alguns dados, dei com esta página na Wikipédia: 1967 na música. Olha-se para a lista de álbuns editados nesse ano e percebe-se que da nostalgia à perda fôlego é um instantinho


FELICIDADE

Este ano caberá aos dinamarqueses a ingrata tarefa de nos desbravarem os caminhos da felicidade. Já folheei o livro do Hygge e garanto que é infalível, senti-me logo mais alegre. Até fui comprar um trenó. Dedico-me agora à obra completa de Carl Theodor Dreyer rezando para que neve ou tombem euros na conta da alegria. Não sei se a integral de Dreyer chegará para preencher o tempo de espera. Se calhar é melhor precaver-me com os tipos do Dogma 95.

NECESSIDADE

Ao contrário de muitos e bons amigos, nunca tive jeito para as mulheres. Talvez por isso seja dos únicos que se mantém com uma relação estável vai para 25 anos. Tenho 42, façam as contas. Na verdade, nunca tive paciência para bater couros e os jogos de sedução enfastiam-me. Sou o mais novo de três irmãos, tenho duas irmãs mais velhas, facto que me subtraiu logo a conversa do “tu és a irmã que nunca tive”. A expressão “dar um tempo” irrita-me, a conversa do “desde a primeira hora” inquieta-me e amores à primeira vista são para cegos. Pelo menos, é assim que penso estas coisas. De resto, não gosto assim tanto, tanto, tanto de mulheres que julgue valer a pena perder grande parte da minha vida a inventar-lhes histórias. Bem vejo que à minha volta nada se passa assim, o mundo está repleto de paixões ardentes e as novas tecnologias vieram trazer a todos a fortíssima possibilidade de um encantamento. Dantes chamavam-se esquentamentos. Nada a opor. O que me encaniça, por assim dizer, é esta coisa das paixões à telenovela que não deixa de estar na moda e, com os reality shows (também os das redes sociais), acabam exibidas nas capas de revistas com um despudor que julgávamos ultrapassado pela desenganada evolução das espécies. A conversa é sempre tão obviamente fiada que rapidamente se desfia. Por que é que as pessoas não dizem logo que, no limite, a única coisa que esperam umas das outras é a fantasia de jantares à luz de velas seguidos de massagens eróticas e fodas bem dadas? Já que não estão para se aturar, a paciência é pouca e os dramas amorosos estão pela hora da morte (olhem para as facturas da luz, do gás, da água), mais valia expurgarmos das relações todo o tipo de ralações que o romantismo pífio arrasta. Pinar por pinar, sem segundas ou terceiras intenções, sem subterfúgios, com a natural honestidade de um animal que sacia a sede. Para depois cada um poder seguir a sua vida sem o falso remorso do que poderia ter sido, ai, se amor houvesse, ai, onde apenas, ai, necessidade houve. Ui. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O VAZIO AINDA NÃO TOMOU CONTA DE TUDO



Isto devia vir com legendas e passar nos intervalos das telenovelas e dos reality shows e dos telejornais: “Este instinto para humilhar quando é moldado por alguém que está numa plataforma pública, por alguém poderoso, consegue infiltrar-se na vida de toda a gente. Desrespeito convida ao desrespeito. Violência incita à violência”. É um raciocínio básico do mais básico que pode haver. Não seria necessário exprimi-lo e reforçá-lo se no mundo não houvesse pessoas ainda mais básicas do que o mais básico dos raciocínios. Precisamente porque pior é sempre possível, convém ir fazendo a manutenção dos pilares fundamentais de uma sociedade civilizada.

RUMO


As mulheres caminham pela cidade transportando
um segredo incólume,
alheio à espessura das casas.
Esgueiram-se inteiras pelas vielas brancas,
a sombra fina do corpo cruzando o labirinto pardo
dos prédios.

As plantas, queimadas pelo mapa da cidade,
erguem-se pelo trânsito ardente com uma
memória ancestral colhida nos pés.
E o rumo dos seus passos é o traçado do segredo.

As mulheres transportam segredos como
cântaros,
inderramáveis no equilíbrio da cabeça,
o barro suportado pela coluna antiga da memória.

São andanças longínquas sem rastro na calçada,
uma certeza inquieta arrastada pelas ruas.
Segue a passagem esquecida rumo ao beco
parado.

As mulheres cantam cântaros no silêncio do
barro,
estranhamento do segredo na cabeça seguro e
salvo.
No colo a sabedoria surda,
salva pelo andar pressentido entre os muros.

Escuta:
o saber cego desses pés!
Escuta:
a integridade do barro e o seu silêncio!


Ana Horta (n. 1975), in Ínfimo Vento (2015). Autora discreta, Ana Horta tem livros publicados em pequenas editoras de poesia tais como Black Sun Editores (Inventa uma voz no rodopio do corpo, 2002) e Volta d’Mar (Ínfimo Vento, 2015). Cultiva uma poesia focada no feminino e na sua condição, conjugando um vitalismo luminoso com referências metafísicas de ordem diversa. Apesar de não estarem de todo ausentes, os temas quotidianos acabam secundarizados por uma manifesta obsessão pelo conflito ontológico que apõe a vida à morte. Nota-se, de igual modo, uma inclinação para paisagens naturais de onde surdem, por vezes como sombras indecifráveis, figuras de uma outra dimensão mais espiritual. A figura do anjo é, entre todas, a mais persistente.  

domingo, 8 de janeiro de 2017

DIMINUTIVO

Quero envelhecer como se envelhece na minha terra, quero ser um velho numa taverna sem diminutivos, a pegar dignamente no seu copo de vinho e a bebê-lo de um trago, quero comer tremoços e pevides e partir nozes, quero sentar-me num banco do jardim a descansar o olhar sobre raparigas novas, estou ansioso por ser um velho na minha terra, sem diminutivos, satisfeito com uma sopa de feijão verde e um cigarro de enrolar, a boina a tombar para uma das fontes, talvez um lápis de carvão na orelha e um caderno de folhas onde desenhar letras, só para não me esquecer de como se escreve e pronuncia o teu nome, que saudades tenho já desse velho sem diminutivos, a olhar para o mar, a sonhar com o futuro, sem questionar o passado que já lá vai porque a morte é simplesmente quando tiver que ou de ser, sem diminutivos. 

YELLOW SKY (1948)





Não é de todo exagerado colocar Yellow Sky/A Cidade Abandonada (1948) entre as obras-primas do género western. Tal como acontecia em The Ox-Bow Incident (1943), Lamar Trotti escreveu o argumento, a partir de um romance inacabado de W. R. Burnett, e William A. Wellman (n. 1896 – m. 1975) realizou. Há quem refira aproximações à peça The Tempest, de William Shakespeare, mas são mais evidentes as referências bíblicas, desde a épica travessia do deserto logo no início do filme à redenção final dos salteadores em fuga. O filme começa com o assalto a um banco por uma quadrilha onde encontramos alguns rostos familiares. Gregory Peck é o líder, secundado por um Richard Widmark bem mais traiçoeiro do que noutras ocasiões. Mas há ainda, entre outros, o imponente John Russell e o discreto Harry Morgan.
Perseguido no seguimento do assalto, o bando segue por um deserto de sal que os homens da lei não se atrevem a penetrar. A sequência da travessia é magistral, com os cavalos a enterrarem-se no terreno, o calor pressentido nos lábios gretados dos actores, a falta de água manifestando-se no discurso e nos gestos arrastados, alguns instantes de delírio travados por uma absoluta necessidade de autocontrolo, acompanhados de um desespero crescente que a obstinação do líder insiste em renunciar. Quando o grupo ali entra, só sabemos que pode nunca mais dali sair. Até ao momento em que no horizonte surge a miragem de uma cidade, e com ela a possibilidade de se encontrar o mais precioso dos bens: água. 
Yellow Sky é a cidade, ou, mais literalmente, é a miragem de cidade. William A. Wellman oferece-nos neste filme um dos cenários míticos do antigo Oeste, o das cidades fantasma. Aparecem em inúmeros westerns ao longo dos tempos, mas em poucos com a estética da desolação que Yellow Sky ressalta. Edifícios abandonados, sombras, letreiros caídos, muito pó e vento, claro, uma desarrumação e ruína inconciliáveis com os dois últimos e resistentes dos seus habitantes. São precisamente estes dois últimos habitantes quem torna mais consistente a ruína do local, na medida em que guardam na sua memória um passado que nos será acessível aos fogachos como quem descobre a lógica de uma queda. 
O primeiro a aparecer em cena é uma jovem e belíssima Anne Baxter, de caçadeira nas mãos a abordar um bando de bandidos, mais mortos do que vivos, desesperando por uma água que ela não lhes negará. A jovem “Mike” vive isolada em Yellow Sky com o avô, velho mineiro com uma história para contar sobre os tempos da corrida ao ouro. Passado e futuro coabitam como fantasmas numa cidade abandonada que será uma espécie de purgatório para o bando de sequiosos ali chegados. Com a alma vendida ao demónio, a prova a que estarão sujeitos será a de honrarem a mão que os livrou da morte certa ou traírem-na com uma ilimitada avidez. 
Entre a água que lhes matou a sede e o ouro que os torna de novo sedentos intromete-se, no entanto, a luminosa “Mike”. Para onde penderá o coração de cada um será o rumo natural desta história, pautada pela velha moral de que cada um tem o castigo que procura. Ao longo do filme, é evidente a alternância de cenas nocturnas com sequências à luz do dia. O percurso que leva a personagem de Gregory Peck das trevas à luz é o de uma caminhada purificadora do homem ao encontro da sua essência, redimido pela redescoberta do amor e do valor da palavra. 
Embora os temas morais sejam evidentemente privilegiados por Wellman, neste filme eles conjugam-se com uma estética da desolação que não pode ser negligenciada. É como se todo o filme tivesse sido rodado sobre cinzas, para que destas seja mais evidente o renascimento operado na personagem principal. James ‘Stretch’ Dawson chegou a Yellow Sky mais morto do que vivo. Na realidade, não temos sequer a certeza de que tenha chegado vivo. Tudo o que se passará em A Cidade Abandonada é tão improvável em terra que não terá sido por acaso darem o nome de Sky ao local, um céu amarelo como o do purgatório. O paraíso será o destino final. Chama-se Constance Mae, mais conhecida por ‘Mike’.