sábado, 14 de setembro de 2019

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

REGRESSO ÀS AULAS


100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #24


Se estenderdes todos os livros ao sol, e deixardes a neve, a chuva e os insectos agirem sobre eles durante certo tempo, nada deles há-de ficar.

Salvo raríssimas excepções, começamos por vê-los no papel de criminosos. Só mais tarde nos aperceberemos dos crimes contra eles cometidos. O índio persegue, rapta, viola, assassina, é o monstro atroz por detrás de todas as fobias, colecciona escalpes, envenena, intoxica, tem poderes mágicos, negros, diabólicos. Na escola estranhamos a origem etimológica do termo, equívoco de navegadores tomados por heróis, símbolos arcaicos de uma cultura erguida através da exploração, da escravatura, da dizimação do outro em busca de ouro. Passamos a desconfiar dos filmes, realizados quase invariavelmente a partir de uma perspectiva missionária. O índio era o selvagem, não tinha cultura, precisava de ser aculturado. Que representação faríamos do índio se tivesse sido ele a inventar o cinema? A resistência do índio à aculturação leva-nos então a questionar a história que nos foi contada. Outrora predadores, passamos a vê-los no lugar da presa. Corremos o risco da simplificação se julgarmos pura aquela condição desnudada. Onde há homens, minhas filhas, não há pureza alguma, pois ao homem foi concedido, antes de qualquer outro, o dom de conspurcar. E o índio é, antes de mais, homem.
   Chamamos inteligência à capacidade adquirida de vergar o outro à nossa fome, partimos à conquista, transcendemos as barreiras do medo, injectamos ódio no sangue e fixamo-nos entre muralhas. Onde há homem, haverá sempre este impulso de morte. Mas nem todas as pirâmides são de cinza e de pedra, há delas que se erigem no ar, sustentadas pela respiração do olhar contemplativo, pelo respeito às forças naturais. Há delas que não carecem de civilização, e por isso mesmo se mantêm mais próximas da origem sagrada que a vida inspira. “A Fala do Índio” canta-nos essa origem, recuperando e conservando vozes que ao longo dos anos vão ecoando no vento. A verdade é que fomos nós que os exterminámos e não o contrário, talvez por desde muito cedo termos pressentido que não convinha nada ao chamado progresso aquela teimosa oposição à propriedade privada. Fomos nós quem aniquilou a cultura do índio e não o contrário, pois temos uma cultura muito dada à aniquilação de todas as outras que se lhe oponham. A premissa é genesíaca, ide e dominai o outro, o vosso sucesso será tanto maior quanto maior for o vosso poder de aniquilar. Assim foi ao longo dos séculos, devastando terras, extinguindo fauna e flora, meios de subsistência, impondo com tácticas maquiavélicas o crucifixo da servidão onde havia a Dança dos Espíritos. E se Deus não dança, minhas filhas, para quê o baile? 
   Sobre o índio pesam dois pesadíssimos fardos, o do fascínio exótico e o do medo. De onde vem este medo? Percebê-lo-eis se escutardes com atenção o chamamento. A fala do índio atrai-nos para o interior da floresta, aí tudo é novo e selvagem, tudo é genuíno e, por isso mesmo, temível. Nesse labirinto sentimo-nos como o insecto apanhado na teia, perdemos o (auto)domínio, somos obrigados a aceitar a nossa fragilidade, ficamos desprovidos de armas que nos defendam do acaso e do acidente. Os mistérios da floresta são desconfortáveis para quem saiba apenas caminhar com bússolas e mapas em estradas abertas. O índio diz que a rocha fala, que a pedra tem vida, que a floresta é um lar, o índio diz-se parte integrante da floresta, para ele deixa de haver um eu e um tu, somos nós, a unidade é o colectivo, o índio escuta, o branco tagarela, a lei do índio é a respiração do canto, para o índio a morte não existe, para o branco a morte garante servidão em vida na perspectiva de uma plenitude na morte, o paraíso do índio é na Terra, no espírito da Terra, o paraíso do branco é o desejo recalcado de mil virgens. 
   Temos tudo a aprender com esta fala se lhe abrirmos os ouvidos e escutarmos com atenção, em silêncio: «Acreditai que por mais miseráveis que a vossos olhos sejamos, nos vemos todavia como gente mais feliz do que vós, e isto por nos contentarmos com o pouco que temos… ficareis profundamente desiludidos se pensardes convencer-nos de que a vossa terra é melhor do que a nossa. Pois sendo França, conforme dizeis, um pequeno paraíso, será sensato abandoná-la?» Assim falava um chefe micmac no ano de 1676. Passados séculos, que temos hoje? Os nossos paraísos transformados em infernos insustentáveis, andamos a pôr pensos rápidos em chagas gangrenadas. Continuamos a devastar invadindo o outro para lhes impormos o nosso paraíso, a nossa rica vida, o nosso sufoco. Respirai, pois, o ar desta voz selvagem, na esperança de que podeis purificar um pouco vossos corações poluídos pelos estranhos costumes das culturas que se autoproclamam superiores, convencidas de si mesmas contra os factos que apenas comprovam corações tristes, mentes doentes, acções desesperadas. Coligiu Teri C. McLuhan, traduziu Júlio Henriques, publicou a Fenda em Julho de 2000.

9. Tarantela e Marrabenta

Ama um caracol,
Uma lesma,
E chora.

Ou sustém as lágrimas.

Há um tigre na tua varanda,
que ninguém vê.
Alimenta-o.

Que chegou o tempo dos homens-leões
E quem sabe?

Tigre, caracol, lesma,
Cercam-te como uma duração.
Vive o mundo em cada nome,
Esses, de animais ausentes
Ou invisíveis,
Quase.

E recorda a tarantela dos arraiais
Longínquos, as cercanias
Das cidades dos outros, os seus frutos.

Tu és dos cantos do Sul,
Sem gelosias para tapar o sol,
E espreitas à janela
Os ritmos da terra, as raízes sincopadas
Nos quadris, os deuses que sobem
Das raízes das árvores, os mortos
Saciados com vinho
E panos à cintura.

Marrabenta & Tarantela,
Zefanias sem usura.


Luís Carlos Patraquim, in A Canção de Zefanias Sforza, Porto Editora, Junho de 2010, pp. 79-80.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MICENAS



MICENAS

As nuvens passam sombrias sobre a pedra
onde em vão se buscam rastos do sangue
que secou para sempre a terra
outrora rica em cavalos.

Por onde passaram os pertences
até ao mar e à guerra
agora um hálito como que de túmulo recém-aberto
sai ao encontro do viajante.

E desde o terraço, se se avista
a áspera e ocre planície,
também se escuta o bronze cintilante  
e o áureo rosto resplandece.

Pura ilusão, nostalgia dos homens
a quem a inteligência sossegou o coração
e já não sabem retesar o arco da vida.


Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 333. Nasceu em Ensenada, província de Buenos Aires, em 1934. Formou-se em Direito. Poeta, ensaísta e tradutor, sobretudo de grego, membro da Academia Argentina de Letras e correspondente da Real Academia Espanhola, estreou-se em 1971 com o livro “Descripción”. Mais tarde acabaria por renegar este primeiro livro, passando a considerar-se “Materia acre” (1974) a sua primeira obra. Recebeu ao longo da vida alguns prémios e distinções, reunindo por duas ocasiões a totalidade do seu trabalho poético. Fortemente marcado pelo imaginário clássico, muita da sua poesia tem como tema central a viagem. Traduziu Odysseas Elytis, Yannis Ritsos, entre outros poetas gregos. Na introdução a “La Casa del Ahorcado” (obra reunida), Pablo Anadón diz que a obra de Castillo combina o intelectualismo girriano com o surrealismo de Enrique Molina e outros, apostando num distanciamento entre o autor e o objecto poético. Dedicou a Alberto Girri um importante ensaio, publicado em 1983. Faleceu em La Plata a 5 de Julho de 2010.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

UM POEMA DE HORACIO CASTILLO


EM CIMA E EM BAIXO

a Hölderlin

Em cima nada mudou ao longo dos anos:
a lua sobre o álamo,
a crista dos telhados,
o terraço onde o senhor Scardanelli
presta diariamente culto aos seus hóspedes.

Em baixo cresceram e tiveram filhos,
vão e vêm por vitualhas e notícias,
ou voltam como agora de enterrar algum morto
e saúdam de passagem o vizinho carpinteiro
que tem um deus como inquilino.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 332.

domingo, 8 de setembro de 2019

BRASIL VEZES QUATRO


Com selecção e introdução de Raquel Nobre Guerra, a poeta brasileira Ana Martins Marques (n. 1977) apresenta-se aos leitores portugueses com a antologia “Linha de Rebentação” (Douda Correria, Abril de 2019). A recolha contempla todos os livros publicados anteriormente pela autora: “A vida submarina” (2009), “Da arte das armadilhas” (2011), “O livro das semelhanças” (2015), “Duas Janelas” (2016) e “Como se fosse a casa (uma correspondência)” (2017). Com formação académica na área da literatura, Ana Martins Marques não foge aos padrões de uma poesia contemporânea empenhada na sedução do leitor através do recurso a técnicas retóricas bastante comuns. O uso recorrente da anáfora é o mais óbvio desses recursos, mormente nos poemas de “O livro das semelhanças”. Também muito frequente nesta poesia é a reflexão que o poema opera acerca da sua própria natureza. Logo no primeiro é uma âncora pesada, afunda. Todos os textos seguintes referem-se, de um modo ou de outro, ao próprio poema, decifrando-lhe o sentido, demarcando-o da realidade, oferecendo-lhe autonomia, caracterizando-o. Nos primeiros sete aqui coligidos a palavra poema destaca-se enquanto ponto cardeal de uma reflexão posteriormente aberta a temas domésticos e assuntos amorosos. Tudo sem feridas de maior, discurso sedutor e limpo. Algumas epígrafes e alusões permitem-nos traçar o mapa de influências por detrás desta poesia, a qual mereceu o terceiro lugar do Prémio Oceanos com “O livro das semelhanças” (2015). Repare-se como os próprios títulos desse livro ironizam a construção do objecto em causa, redundando em exercícios pouco mais do que tecnicamente agradáveis:  

Poema de trás para frente

A memória lê o dia
de trás para frente

acendo um poema em outro poema
como quem acende um cigarro no outro

que vestígio deixamos
do que não fizemos?
como os buracos funcionam?

somos cada vez mais jovens
nas fotografias

de trás para frente
a memória lê o dia

Professor de Literatura, Eucanaã Ferraz (n. 1961) começou a publicar na década de 1990. Várias vezes premiado, viu a sua poesia reunida em 2016 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. “Retratos com Erro” (Tinta-da-China, Maio de 2019) coloca em xeque, de um modo altamente irónico, a possibilidade do poema enquanto retrato. Numa das estâncias de “Autobiografia” lê-se o seguinte: «Depois trocou tudo por espelhos. / Depois perdeu. / Depois vieram outros espelhos. / Depois se cortou» (p. 8). A poesia de Eucanaã Ferraz desmonta a tirania da dualidade, transcendendo as margens que impõem relações unívocas entre o corpo e o reflexo, o amante e o amado, o eu e o outro. A ilusão, o equívoco, o absurdo, a fantasia, a distorção, contribuem para esse trabalho de desmontagem com suas lógicas invertidas. À normalidade contrapõe-se a aberração, à ordem contrapõe-se a desordem, ganhando forma o nonsense num mundo do qual já pouco se espera de sentido: «Vim ao mundo para escrever sobre o rapaz / que se apaixonou pelo detector de fumaça no quarto do hotel» (p. 36). Os poemas de Eucanaã Ferraz não são meros exercícios académicos, mergulham desesperadamente no mundo para se desdobrarem em retratos anormais desse mesmo mundo. A ironia está em que é precisamente o defeito aquilo que melhor convém a um retrato da realidade. Memórias misturam-se com observações delirantes, num roteiro que leva à solidez do poema enquanto terreno desta desordem: «Interruptores de hotel me irritam. / Filósofos me interruptam» (p. 66). No final, o poema resulta enquanto auscultação de um mundo febril. Expurgado de excrescências e de detritos, por não ser sua intenção fotografar, mas sim reflectir, o erro nestes retratos não resulta de uma lógica dividida entre verdadeiro e falso, mas antes da consciência de uma limitação que afecta toda a linguagem:

FOTO

Eis o retrato sem nenhum retoque:
agora é o tempo da canção imóvel
sob a sombra do teu rosto assim quieto
o que era o sol agora é sono e tédio
o que vibrava agora é vidro opaco
agora é o tempo do verso estragado
pela ilusão de nos bastarmos nele
a madrugada se apagou na pele
o meu carinho agora é um gesto seco
é o teu silêncio que me diz é o tempo
de um céu aberto céu sem céu o certo
é fecharmos as portas esquecermos
a hora é grande agora e nos separa
por letras mortas como um dicionário
entre os teus dedos foram-se as cidades
e há muitas pedras nos meus olhos áridos.
Este o retrato sem nenhum retoque.



   À Flan de Tal associamos a publicação da Flanzine, revista apostada num diálogo multidisciplinar com ligação directa aos fanzines. Surge agora também como editora de uma nova colecção de poesia intitulada elemeNtário, assim chamada por ser propósito dos editores desafiarem autores convidados a escreverem tendo como ponto de partida um elemento da Tabela Periódica. 
   A Alberto Lins Caldas (n. 1957) coube “Tântalo” (Flan de Tal, Agosto de 2019), optando o autor por uma estrutura dramática que recupera a figura mitológica do rei que deu origem à expressão “suplício de Tântalo”. Condenado a não poder saciar fome e sede, o sujeito poético nestes poemas de Lins Caldas confunde-se com um condenado para a eternidade. Além da estrutura, um dos aspectos que logo impressiona o leitor é o tratamento dado à língua e o modo como esta implode no interior dos poemas. Destas implosões sobra uma linguagem estilhaçada, as palavras ora se desfazem, ora se aglutinam, num processo que parte de um princípio desde logo anunciado: «•destroçando tudo pra se refazer amanhã•» (p. 7). Na fábula de contornos políticos assim montada, os poemas produzem efeitos de saturação e irrisão que não tentam disfarçar o cenário de caos para que remetem. Do caos ressumam sentimentos de agonia, dor, violência, crueldade, solidão, fazendo-se incluir uma crítica forte ao alheamento e à alienação das massas face ao mundo que as corrói: «•alegre fazemos festas vamos as praias• / •fazemos versinhos e canções ao amor• / •dizemos ?é ilusão como rolabostas não• / •gigantes adormecidos no verde oliva• / •oceanos povo heróico e vara no anil• / •sombras q mentem tomam cervejas• / •jamais enrolabostas comendo pulgas•» (p. 22). Sem tácticas nem preocupações retóricas, Alberto Lins Caldas vem de há muito construindo um edifício poético isolado e exilado. A sua poesia resiste à interpretação vulgar, não busca um leitor passivo, exige confronto e até distanciamento. A melhor imagem para isso talvez seja a que o próprio desenha numa estrofe de um poema quixotesco: «•meu caro sancho• / •quando o abismo do inferno• / •inverte com o paraiso• / •e fomos nos• / •q deixamos esse horror• / •não nos cabe senão lutar• / •mas sabendo q ja perdemos•» (p. 52).
   Na mesma colecção damos com “Cloro” (Flan de Tal, Agosto de 2019), de Gabriela Gomes (n. 1987). Altamente experimental, este é um livro em busca de si mesmo, feito a partir do processo subjacente à sua construção. Nele cabem imagens, citações de origem diversa, ciência, História, diálogos nas redes sociais, memórias da infância. Do cloro enquanto arma de destruição massiva, gás tóxico usado na I Grande Guerra e na Síria, ao cloro como produto de limpeza e desinfecção, passado e presente misturam-se num puzzle montado para chegar ao momento actual brasileiro. Poema-livro, livro-poema, o resultado é uma espécie de curta-metragem em papel com uma «b(ode) ao cloro» por epílogo. No final mencionam-se as fontes, entre as quais podemos encontrar poetas, músicos, artistas plásticos. A multidisciplinaridade é clara.

sábado, 7 de setembro de 2019

ARTE POÉTICA DE HORACIO CASTILLO




ARTE POÉTICA

Soltar a língua, de modo a que não trave o produto
que vem de dentro, motivado
por uma força superior
e pelo hábil jogo de rins e diafragma;
insistir pressionando os músculos
como que para expulsar
um cavalo ou um ciclope;
repetir o procedimento
provocando-o inclusive com os dedos
ou com um objecto picante,
até ficar vazio, apenas pele ressequida,
odre para pendurar na primeira árvore,
extenuada matriz do volátil, quiçá luminosa.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 331.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

«COM OS MEUS OLHOS EXTEMPORÂNEOS»

Leio, releio. A Pequena Crónica de Esther Meynell, e recolhas de documentos do tempo de Bach. Contratos, cartas oficiais. Mas também detalhados relatórios sobre órgãos, e o inventário de bens após a morte do compositor. Depois, mais documentos administrativos, depositados em arquivos municipais. Páginas anódinas, quantas vezes, que analiso com entusiasmo. E se, por exemplo, uma acta diz que o Consistório de Arnstadt repreendeu o organista Baxh por se ter demorado numa viagem a Lübeck quatro vezes mais tempo do que o autorizado pelos seus superiores, para estudar com Dietrich Buxtehude, e por, de regresso ao seu posto, fazer espantosas variações nos seus corais, não sem recorrer a acordes estranhos, para surpresa e desagrado da comunidade, e se leio ainda que, após esta repreensão pelos prelúdios demasiado extensos, o organista Bach começou a improvisar prelúdios brevíssimos, que acabavam logo depois de começar, sendo outra vez repreendido pelo Consistório, se leio estas tão pequenas acusações e defesas, perdidas entre arquivos, com os meus olhos do século XXI, vejo surgirem dessa página, inteiras, Arnstadt e Lübeck, o Consistório e o organista, os tubos do órgão na igreja e as partituras manuscritas, os gestos irascíveis e as paixões contidas, tudo quanto aconteceu e se perdeu nesses dias do início de 1706, vivo e doloroso outra vez, num livro entre as minhas mãos.
   Não se pode ressuscitar o passado, mas pode-se escrever sobre o passado, no presente; e misturar os tempos. Receber o que resta de antigas vozes, assinaturas, a dobra da linguagem, suas cerimónias e seus implícitos, a surpreendente consciência de que estas pessoas existiram — o Consistório de Arnstadt, o organista repreendido, um aluno, um fazedor de órgãos, às vezes só um nome sem história, sem obra, sem data de nascimento nem de morte, mas nome de uma pessoa que existiu, de quem resta um processo, uma dívida, uma brevíssima menção. Tentação pequena, infantil, de fantasiar: quem seria este violinista, esse organista, aquele viajante? Nomes, maledicências, testemunhos, um simples registo: a única marca, a única prova de que alguém viveu, com os seus entusiasmos, medos, as suas crenças, alegrias, esperanças, a sua morte.
   Leio estas páginas, sites, fac-similes com os meus olhos extemporâneos; leio, interrogo, comparo, trezentos anos depois. Ignoro tanto sobre estes nomes; mas sei o que eles não souberam: que o mundo deles acabou, tudo quanto parecia eterno se revelou perecível, a ordem da sociedade e das nações mudou mil vezes, o que era proibido tornou-se corrente e o necessário escusado, crime e inocência confundiram-se, mas nessa violenta desordem das coisas — a que devagar nos fomos habituando, quase inconscientemente, no ciclo das gerações — a música do Kantor, irascível, envelhecido e fora de moda, sobreviveu.

Pedro Eiras, in Bach, Assírio & Alvim, Setembro de 2014, pp. 28-29.

FALAR COM O OLHAR

Em quase tudo podemos encontrar um lado bom e um lado mau. Não em tudo, como vulgarmente se diz. Não sei o que possa haver de bom, por exemplo, na perda de um filho. Mas na generalidade das coisas a gente consegue encontrar dimensões aparentemente contraditórias, os pilares sobre os quais a realidade vai sendo erguida. Penso nisto a propósito do regresso ao Facebook, depósito de lixo, execrável máquina de propaganda ao serviço da desinformação e da mentira, motor gerador de equívocos. O Facebook é como aquelas máquinas de alongamentos num ginásio, obriga-nos a um esforço tremendo, tantas vezes inglório, mas que de algum modo ajuda a tonificar os músculos do debate e da discussão. Ou ficamos sem paciência nenhuma ou ficamos com uma paciência de Jó. Este é o lado mau, este é o lado bom. Como preferirem. Mas há um lado inegavelmente bom nestas redes comunicacionais, um lado inesperado e singelo que passa quase despercebido. A partilha de instantâneos, por exemplo. 
Para o caso, roubo duas imagens. Aquela ali ao lado foi partilhada pelo meu amigo António Ramalho, a outra mais abaixo foi partilhada pela Marina Tadeu. Não sei porque gosto tanto destas duas imagens, é-me difícil exprimi-lo. Tenho a certeza que me transmitem sensações muito fortes, mas como expressá-las? Ouvimos dizer, vezes sem conta, que vivemos num mundo de imagens, que toda a comunicação está hoje intoxicada pela imagem. Este discurso é em si mesmo altamente tóxico, já que as imagens só intoxicam quem não tiver filtros para elas. E os filtros, creio, mantêm a origem. A palavra ajuda a filtrar a imagem, na medida em que lhe oferece um sentido mesmo quando o sentido da imagem é a total ausência de sentido. A palavra transforma a imagem em linguagem. Na primeira das imagens aqui partilhada podemos observar muita coisa, podemos concentrar-nos no enquadramento, falar do jogo de luz e sombra, podemos formular todo um discurso sobre o contraste do rosto pintado na parede e do corpo físico sentado ao pé desse rosto. A realidade mistura-se com a ficção nesta imagem, o equilíbrio impressiona-me por sentir ali alegria e tristeza, transformação, o prazer, representado pela bebida, a distanciar-se do corpo como de um corpo se distancia a vitalidade. Aquele homem ali sentado é uma espécie de sombra do rosto velho, mas feliz, desenhado na parede, sabemos que aquele homem está a transformar-se no rosto que o encima. Há uma espécie de projecção, continuidade.


Nesta outra imagem temos já a morte representada por um acumulado caótico de lápides. Tudo quanto sobrará de nós está ali, com um pormenor altamente dignificante. O corpo físico que na ponta superior direita olha para o alto. Quase não se vê, mas está lá. Este resquício de vida quase imperceptível num aglomerado de morte faz-me pensar em muitas coisas, a mais forte das quais é o modo como interpretamos a nossa passagem pelo tempo e a relação que mantemos com aquilo que passou e se perdeu. Há pessoas que falam da actualidade comparando-a com o passado, sem saberem minimamente como era a actualidade do tempo a que se referem. O que sabem foi o que sobrou, trabalho de conservação, o que têm desse passado é já uma construção histórica que excluiu, varreu, limpou. O passado chega-nos sempre desinfectado, expurgado, aliviado do lixo dos dias que tanto nos atrofia no presente. Mesmo agarrando numa arte relativamente recente como o cinema, para um filme de génio exibido em 1950 a gente encontra milhares de filmes de merda estreados nesse mesmo ano. A História tende a esquecer a merda, construindo um passado de sonho para nostálgicos e saudosistas. Seria altamente pedagógico encontramos uma História da Merda para ficarmos mais cientes do que andamos a fazer no mundo, não de agora, não de ontem, mas de sempre. Desse lado rasurado pelo tempo, todo esse universo esquecido, apagado, enterrado, cremado, ressuscitam por vezes breves ecos. Estes dois instantâneos fazem-me pensar nisso mesmo. De uma forma talvez involuntária captam com extraordinária argúcia a linguagem do tempo. Acho que é isso que me toca tantos nestas duas imagens. Ou então são apenas meras imagens sem significado nem sentido. Mas se assim for, por que resolveu alguém partilhá-las? E por que me dizem tanto? Alguém viu nelas algo de especial, eu também vejo nelas algo de especial. Esse ver denota já um discurso, isso é reconfortante num mundo como o de hoje. Que alguém consiga falar olhando. Cliquem para lerem melhor. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

EU E OS DOMINGOS


Com o Paulo da Costa Domingos e...

~

...com o manuel a. domingos.

Em Vila do Conde, nos passados dias 31 de Agosto e 1 de Setembro, a apresentar "Carmes" e a falar de "Aprendiz" e "Call Center". 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

CALL CENTER (2.ª EDIÇÃO)



   Comecei a ler o Carlos Alberto Machado nos weblogs, há uns anos valentes. Só depois encomendei duas peças de teatro por ele assinadas: “Restos. Interiores” (2002) e “Aquitanta”(2003). Por volta de 2013 conhecemo-nos pessoalmente na apresentação de “Confissões”, do José Ricardo Nunes, tendo então o Carlos me desafiado a enviar um original para a Companhia das Ilhas. Reuni algumas histórias que andavam perdidas na gaveta e enviei-lhe o livro. 
   A primeira edição do “Call Center” saiu em Junho de 2014, com uma ilustração da Bárbara Fonseca na contracapa. Esgotados os 100 exemplares, passados cinco anos o Carlos voltou a desafiar-me para uma reedição. Revi os textos anteriormente publicados e acrescentei ao conjunto dez histórias novas. 
   Como recentemente expliquei em Vila do Conde, estas histórias têm em comum personagens fragilizadas por problemas de comunicação geradores de equívocos vários. As chamadas deste “Call Center” resultam todas avariadas, sendo que na sua maioria surgiram, de facto, de seis meses de trabalho num inferno que fui amenizando compondo efabulações para os nomes de pessoas com quem comuniquei ao ouvido sem fazer a mínima ideia de quem eram. 
   Sobre este livrinho, escreveu à época, no Expresso, o José Mário Silva: «No universo de H.M.B.F., o espelho que reflecte a sociedade partiu-se em mil estilhaços, e é sobre essas arestas de vidro que as personagens caminham, cortando-se e sangrando, mais impulsionadas pelo espanto do que pela revolta, seguindo ainda assim em frente, através do negrume. As incongruências da vida gregária (na família, no bairro, no país) e a entropia social geram uma energia turva que explode através de situações absurdas» (Expresso/Atual, 2 de Agosto de 2014). 
   Deixo aqui, a título de exemplo, a micronarrativa seleccionada agora para texto de badana. Nela entenderão a gozada glosa das estúpidas hierarquias que até entre poetas se instauram:

O POETA PSICOSSOMÁTICO


   Há os poetas grandes, cimeiros, gigantescos, colossais, etc. Este de que vos falo era de tal forma titânico que precisava de um miradouro para poder contemplar a sua própria sombra. Era um poeta psicossomático.
   Certo dia penetrou a amante com o seu olhar mais de poeta psicossomático e disse-lhe: a tua saliva é o adubo da minha voz. Nesse mesmo instante, a boca transformou-se-lhe num vaso cheio de terra e cresceram-lhe plantas nos dentes.

MANUAL PARA INCENDIÁRIOS


A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade.
Dylan Thomas


   Como pós-modernos, devemos recusar as narrativas clássicas.
   A saber: a suspeitíssima versão, ou versões, em torno do incêndio de Roma, atribuídas a Nero, a descrição do incêndio de Londres e as soluções de Jonathan Swift sobre a fome, com criancinhas para confeccionar em estilo english pie, Bagdade invadida pelos mongóis ou pelos americanos.
   Esmirna, destruída pelos turcos, não é solução a seguir. Ficou-lhe uma aura trágico-romântica que não convém, coisas com diásporas e sepharads dentro, canções a não escutar. Deve, por igual, recusar-se a versão de Tolstoi, nesse calhamaço que dá pelo nome de Guerra e Paz, até porque está demasiadamente bem escrita e o homem é suspeito de laivos nacionalistas. Além do mais, perpassa um tom épico, aquela voz grande apelando à grande mãe russa, e incêndios assim pecam pelas motivações políticas, sempre suspeitosas e obscuras, que não vêm ao caso. Um dos erros clássicos que este manual dá sempre como exemplo é o da Biblioteca de Alexandria. Embora não se saiba ao certo quem foi o culpado nem quantas foram as tentativas, a verdade é que o incêndio vem perdurando na memória, subiu à condição de mito, e isso é o que um bom incendiário deve sempre evitar. A por causa ou coisa é mesmo essa, a memória.
   A premissa básica deve ser a pura imanência do acontecimento, uma contemplação celebratória da physis grega e da jubilação de um dos seus quatro elementos, o fogo. Provocar a sua ocorrência deve ser considerado um acto de arrogância e uma clara interferência na sacralidade das forças da natureza.
   Deve andar-se e usufruir do que existe — seja património edificado ou um simples novelo de tsintsiva — com a mais sublime das indiferenças, usando-se, enquanto duram, esses avatares ou artefactos ou frutos, sem lhes conceder a mais leve das atenções. Qualquer outra atitude configura infracção ou crime do foro intelectual. Quem for apanhado com lentes especiais a fazer convergir os raios solares para qualquer superfície, inócua que seja, deve ser imediatamente levado a uma consulta psiquiátrica e ver toda a sua infância esquadrinhada: se é filho de pai bombeiro, coleccionador de caixas de fósforos, fumador compulsivo e que tipo de isqueiro usa, ex-revolucionário — manifestamente deslocado no tempo — guardando ainda na estante colecções encadernadas do saudoso Iskra. Porque isso será prova de que quer interferir, provocar, experimentar. E o fogo é irredutível a qualquer experimentação.
   Outra regra de ouro que qualquer incendiário deve seguir é a total rejeição das utilizações metafóricas tão do uso dos sonetos. Ele não poderá nunca entender decassílabos como o daquele zarolho colonialista que dava pelo nome de Camões e que escreveu enormidades como essa de que «amor é um fogo que arde sem se ver». Quem age assim é um usurpador de sentidos. E urge bramar contra ele.
   Não obstante a traição desta língua coxa, que faz do incendiário um agente activo, actor e/ou actante do acto de incendiar, diz o manual que o autêntico mestre é aquele que paira numa espécie de nirvana, uma absoluta indiferença a tudo.
   Espero não estar a cometer nenhuma infracção ao revelar, em resumo forçosamente tosco, as autênticas pepitas de ouro que o manual encerra. Não vou dizer onde descobri o in-quarto forrado a carneira, com um dos cantos levemente chamuscado, a patine do tempo dando-lhe aquele aspecto grave das obras que realmente fundam uma cultura e modelam uma civilização. Face aos últimos acontecimentos, sugiro a sua leitura atenta. Não vá dar-se o caso de quererem agir e de assim se tornarem incendiários incompetentes.
   A mais extrema sabedoria é sempre a mais simples. E agir cansa. Maputo é um bom exemplo dessa sagesse. Do Prédio Pott às instalações do antigo Instituto Nacional de Cinema, do Bazar ao que vier a seguir, a cidade dá cartas. Quando age estraga: transforma a SUT numa bomba de gasolina, o almoxarifado num híper, a mesquita velha numa fachada incaracterística. 
   E o verso do poeta bêbado e galês, que não é exemplo para ninguém, posto em epígrafe, está errado.
   O fogo é o fogo, tal como o ar é o ar, a terra é a terra e a água é a água. É assim. Os antigos de todas as culturas sabiam-no.
   Ardeu?
   Sim, ardeu. E qualquer menino de escola sabe a resposta.
   Foi o fogo.
   Qualquer metafísica, interpretação pragmática, lamúria oportuna, estará sempre a mais.
   Os incendiários imóveis sabem-no.
   Adoremos o fogo.

Luís Carlos Patraquim, in Manual Para Incendiários e Outras Crónicas, Antígona, Outubro de 2012, pp. 135-138.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

UM POEMA DE LUÍS CARLOS PATRAQUIM


O CÍRCULO

À memória de meu pai

E se não houvesse o Inverno, esquálida brancura
Pendendo das árvores,
Sua seca respiração em pose, sustida;

Se o ritmo das estações reverberasse nas águas
O que em ti foi tumulto, a cor em si bemol
Do figo, matiz de verde sobre o ouro
Da encosta inclinando-se na baía,

E um pássaro se intrometesse na imobilidade
Em que pairas, lira que te humedecesse a pele escamada
E o longo círculo onde vais recolhendo
A voz,

Onde pressinto, grave, todos os percursos do silêncio,
O que em ti foi música e regressa pelos mesmos
Nocturnos caminhos onde a praça se suspende
E o tempo se esvaiu,


— lábil, intumescida, só a folha
e da luz o que a gelosia retalha, sombra
textuando-se no lajedo sossegado 

Não fora isso e a linha entre continentes,
Ao de leve esfarelando-se em teu corpo,
E a mão que um dia se abriu e ora
Pousa o último tremor sobre o lençol,

E o teu silêncio, o teu silêncio, onde
Florescem, sangrentas, as acácias da Rua de Lidemburgo
E Lagos estremece em azul e punge
Uma solidão ática e um boi se recolhe
No labirinto da aorta que infla,

A boca, a tua boca e o teu silêncio
E não mais a pergunta, nenhuma,
E o teu pasmo e o das estrelas, ao de leve
A cacimba lenta submergindo-te o rosto,

Pela tarde onde caminho,
E a pedra se inscreve no sol que neva.


Luís Carlos Patraquim, in Pneuma, Caminho, Janeiro de 2009, pp. 48-49.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

CARMES



“CARMES”
de Paulo da Costa Domingos


   Talvez tudo tenha começado quando na escola primária fomos obrigados a decorar o hino nacional, posteriormente guarnecido com a épica de Camões. Eu já não apanhei o retrato do ditador nas paredes da escola, mas ainda havia um crucifixo a indicar-nos o “bom caminho”. Paulo da Costa Domingos (n. 1953) começou a publicar quando a ditadura impunha sua lei, fazendo parte de uma geração que foi a última a sentir no corpo as metástases de um cancro chamado fascismo. Subsequentes gerações têm vindo a acusar sintomas, o que leva a crer não bastarem 45 anos de fachada democrática para dar por extinta a doença.
   “Palavras” (1972), livro posteriormente retirado, precedeu aquele que devemos hoje considerar o primeiro deste ofício, até pelo carácter revelador do título. “Gogh, Uma Orelha Sem Mestre” (1975) remete-nos para o pintor holandês que Antonin Artaud sabiamente designou de “suicidado da sociedade”, num gesto cujo propósito supomos ter sido o de denunciar a violência exercida pela sociedade sobre os seus indivíduos. Ora, se não podemos ter a certeza sobre as razões que levaram Vincent Van Gogh a automutilar uma orelha, podemos pelo menos especular que o tenha feito para que não lha puxassem como outrora se fazia aos meninos mal comportados. A “orelha sem mestre” de Paulo da Costa Domingos anuncia um modo de estar na vida e, por consequência, na poesia com absoluta independência e autodidactismo, cindindo eventuais cordões umbilicais entre as figuras do mestre e do discípulo. O recado foi dado num dos versos iniciais, o último do poema “Maillot”: «Eles que sigam o caminho das suas igrejas, eu seguirei o meu» (p. 35).
   Não julguemos, porém, que o autodidactismo se pratica ao acaso e sem rigor, sem referências nem faróis. De um modo directo ou indirecto, as referências despontam no corpo dos poemas. Não vale a pena ser exaustivo a enumerá-las, mas convém sublinhar que jamais alguma vez foram usadas como meros adereços e por vezes ganham até a forma de manchas na pele. Gramsci, Nietzsche, Debord, Burroughs, Rimbaud não são meros nomes num caderno de anotações, estimulam uma interpelação que tem mais em vista horizontes de dúvida do que um passado ancorado em certezas.
   Quando Patti Smith, que Paulo da Costa Domingos traduziu, se dirigiu recentemente aos fãs portugueses dizendo “O futuro é agora, motherfuckers”, isso não pode ser interpretado como sinal de esperança, mas antes como incentivo à acção, inquieta, desassossegada, eternamente insatisfeita. Este conflito permanente entre uma imobilidade estéril, promovida pela boa educação das sociedades ditas civilizadas, e o frenesi intelectual daquele que questiona, pensa, duvida, critica, desprezado nessas mesmas sociedades, é um dos fundamentos desta poesia, como facilmente se depreende no tom irónico da seguinte estrofe: «Melhor fôra estar quieto, uma âncora, realmente / preso à figuração de sons, noutros jogos / de sarau sem grandes ideais ou navios ou paixões, / mais dedicado ao miolo do edifício: panem et circenses» (p. 159).
   Ao relermos esta mais recente reunião da poesia de Paulo da Costa Domingos, que já em 1995 havia submetido o seu trabalho poético a idêntica (des)organização com a antologia “Carmina”, outras coordenadas se nos apresentam. Bastará para tanto prestar atenção ao poema “A Passagem do Mar Negro”, observando o «plâncton de uma barca / musgosa» (p. 102). O que “Carmes” torna mais claro é o processo de reflexão crítica da histórica inerente ao conjunto, sugerido recorrentemente por uma terminologia náutica onde vislumbramos imagens com uma «forte índole marítima» (p. 151): âncora, cargueiro, deriva, atracar, cais, nau, veleiro, naufrágio, jangada, barca, navegação, estibordo, proa, ou mesmo o título de uma das colectâneas mais recentes aqui incluída: “A Vau”.
   A viagem agora empreendida não é por “mares nunca dantes navegados”, mas pode ter como ponto de partida o “Cais das Colunas”, no Terreiro do Paço, na senda de um olhar crítico acerca da actualidade que não prescinde da consciência de uma poluição cultural produzida pelo mito dos “heróis do mar, nobre povo, nação valente”. O olhar do poeta volta costas ao mar para se concentrar no asfalto, prescinde de cartas marítimas para se concentrar no mapeamento da rua urbana, numa deriva “pela estrada fora” com uma forte influência inicial da contracultura “Beatnik”. Julgo não haver entre nós nenhum outro poeta que tenha chamado tanto a si este trabalho de desmistificar a nossa heroicidade, começado logo no livro “Asfalto” (1977) com «os heróis da revolução» transformados em «feitiço» no poema “Epidemia” (p. 21), e continuado com inúmeros retratos acusadores do «Grande Império Que Imbeciliza» (p. 86).
   Diz o Paulo numa das estrofes do poema “Coisas Incertas, Nenhuma Inédita”: «Vou partir / às descobertas: saber como está perto um continente / cujas águas refluem para o âmago, com seu / contrabando de sigilos, seus artistas alheios / - contaram-me – a tudo…» (p. 172). O leitor embarca nesta poesia e logo lhe apanha a paisagem tingida por detritos, singra pelas ruas da capital e segue a vau, enterrado até aos joelhos na lama de uma sociedade capitalista, erigida sobre a miséria e a desesperança das massas. O propósito da viagem fica esclarecido a páginas 209: «Tudo quanto me for dado / ver, ¿por que hei coibir-me de publicá-lo?» (p. 209) Esta interrogação surge na nova versão de “Asfalto”, que ao segundo poema nos fala também de uma outra “epopeia” que já não a da descoberta de um caminho marítimo para lugares distantes. O cais das colunas voltou-se para dentro, o Tejo continua a correr na mesma direcção, tal como o Ganges, acumulando o lixo dos anos que passaram. Será pelo asfalto que seguiremos dizimando a mitologia nacionalista dos descobrimentos, dos navegadores, dos heróis da pátria.
   O verbo “Dizimar”, aproveitado para título de um livro publicado em 2018, adquire aqui uma relevância especial. Trata-se de destruir o mito, não para refundar novas mitologias, mas para dar a ver o que se vê, contributo para uma historiografia que desde cedo provou ser oficialmente selectiva e meticulosamente revisionista: «Sei do autismo da História o / castigo que nos reserva: cais a que roubaram / as colunas; o pulo oceânico agora negado por / quotas, enquanto outra dobra se nos mostra / e à nova rota de aventura, e depois é uma ruga / que se enrodilha nos pés, livros abrem-se ou / fecham-se como portas criando uma corrente / d’ ar» (p. 223).
   Na paisagem humana destes poemas não encontraremos, está claro, heróis e deuses, figurões sublimes, criaturas aladas. Ao largo dos «baleeiros urbanos» (p. 202) iremos antes encontrar drogados e vagabundos, mulheres de limpeza, homens do lixo, tantas vezes confundidos com os próprios poetas, colectores de ruína e detritos. Iremos encontrar a mulher subjugada, o homem subserviente, os “humilhados e ofendidos” da nova ordem mundial. Paulo da Costa Domingos chama-lhes «personagens literárias» (p. 264), mas eu julgo serem mais que personagens e muito mais que literárias. Desde cedo a prostituta, que aparece no poema “Travesti” (p. 29) e ressoa em vários poemas posteriores, tal como os operários desse extraordinário poema intitulado “Posto Móvel” (p. 250), tantas vezes transfigurados na figura do escravo. E não serão isso mesmo, os operários, escravos maquilhados que a promessa de uma vida melhor traiu?
   A marca essencial desta paisagem é a luta pela sobrevivência, contornada por «desespero, ansiedade, angústia» (p. 490). E mesmo quando o «manual de sobrevivência» se reveste de agapantos, não se perde no labirinto da fantasia: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido, / arranjar emprego. Ou melhor: inscrever num partido para poder // estudar, casar, arranjar emprego. / Mas de tal e tanto sortido / só vaga havia num partido: / trabalho não remunerado» (p. 324). Do cais das colunas partimos, pois, para uma reflexão motivada pela experiência e pelo olhar, denunciando as mentiras propagadas pela História com exemplos vivos de um presente que o poema “Breviário da Miséria” (p. 432) se encarrega de decompor com descarnado sarcasmo: «A ver vamos navios / destinados a acordar / no fundo do oceano, / por exclusão de partes» (p. 433).
   Se os poemas iniciais nos parecem cifrados por um discurso demasiado fragmentado, feito de flashes e de estilhaços, isso será talvez porque no tempo em que foram escritos eram outros os estímulos. Com o passar dos anos a linguagem abriu-se ao leitor, mostrando-lhe o caminho desbravado para que mais visível se tornassem a usura e a hipocrisia, a agiotagem e a indigência de um país em que o jornalismo se transformou em «jornalixo» (p. 325) e o poder político é constantemente manobrado por interesses meramente económicos nas mãos de obscuras forças financeiras.
   Empreender uma viagem deste tipo tem o seu preço. A desmistificação do dogma forçado pelo mito não se faz impunemente. O autor mostra saber isso quando no poema “Desempenho Universal” diz: «Nossos heróis e ícones / deram à costa / e eu caminho / par’ a nuvem inabitada / do Futuro» (p. 458). Esta nuvem inabitada é um lugar de exclusão, nela o exílio está garantido. E não é precisamente de exílio que já se falava no poema “Tive um Sonho…” (p. 106)? Náufrago num país à beira de um velho continente, o poeta de “Carmes” oferece-nos um «diário de bordo» (p. 477) que é a antítese de uma epopeia heróica. Náufragos da História, nós, os leitores de poesia, encalhámos nesta ilha que, não estando deserta, também pode fazer-nos sentir exilados. A uns, contra vontade, a outros, por vontade própria. É esta a força que a poesia tem junto de quem a cultiva com um desejo claro: «Desejo nunca saciado: ¡acordem! / acordem rapazes e raparigas, / ¡isto é a vida! – não é / nenhum workshop» (p. 355).
   Para começar, expurguemos do discurso toda a mitologia pátria que há muito intoxica a sociedade ao redor. Se julgarem que disso estamos safos, atentem-se aos sinais de uma anunciada museologia focada nas descobertas e no mais importante português do séc. XX: o ditador Salazar. Ou então deliciem-se com a gramática clerical de tanta sacrossanta poesia portuguesa contemporânea, entretanto promovida nas mais elevadas estâncias da Igreja Católica Apostólica Romana. Caso contrário, há bom remédio: andem pela rua com os olhos bem abertos.
   A rua pode ser lugar de exílio, mas sempre nela se respira melhor do que nos gabinetes onde se decide o destino a dar a uma multidão de gente anónima, letárgica, inofensiva, diariamente entretida com os jogos de uma comunicação que se diz livre para se revelar falsa, como se pudesse haver liberdade onde tudo é fake, entretenimento e espectáculo. Se a criticazinha não gosta da rua, por estar mais interessada na janela do tal «jornalixo», fazendo da vida fumo sem fogo, simulacro, travestismo, isso é porque ainda não entendeu o essencial: «A poesia não é só dos solitários companhia. / Encurta distâncias entre os que não sabem / onde acaba o culto da letargia e começa a luta. / Ritma a braçada. Desfaz as pesadas indústrias. / Põe melaço nos micro-condutores… ¡Ah! que / de mim um barco a remos atravesse a janela / e que leve uma vaga assim, esta carta a Garcia» (pp. 236-237). Vem num poema de Paulo da Costa Domingos, de um livro escrito “Nas Alturas” (2006).

Nota: texto lido no passado dia 31 de Agosto, durante a apresentação de “Carmes. 1971-2018” (Companhia das Ilhas, Abril de 2019) de Paulo da Costa Domingos, no decorrer da II Mostra de Edições Independentes.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

DO SONHO E DA TERRA


(clique na imagem para ver melhor)


Ailton Krenak, Do Sonho e da Terra, palestra proferida em Lisboa, no Teatro Maria Matos, no dia 6 de Maio de 2017. In Flauta de Luz, nº 5, Abril de 2018, p. 24. Mais este: aqui.

NÚMEROS


- 4 700 km2 de área de floresta tropical destruída desde a entrada em funções de Jair Bolsonaro, uma superfície 47 vezes maior do que a cidade de Lisboa;

- 80 milhões de cabeças de gado na Amazónia brasileira, contra 26 milhões em 1990

- mais de 80% das enormes clareiras na Amazónia são feitas ilegalmente

- no passado mês de Julho, foram destruídos 2 255 km2 de floresta tropical, uma área equivalente ao tamanho do Luxemburgo

- o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) sofreu um corte de 24% do seu orçamento



quinta-feira, 29 de agosto de 2019

aMOSTr : II MOSTRA DE EDIÇÕES INDEPENDENTES



Sábado, 31 de Agosto
16h — Lançamento de CARMES de Paulo da Costa Domingos (Companhia das Ilhas), com apresentação de Henrique Manuel Bento Fialho e leituras do autor e de Isaque Ferreira

Domingo, 1 de Setembro
16h — Lançamento dos Livros: Aprendiz de Manuel A. Domingos (volta d' mar) e Call Center de Henrique Manuel Bento Fialho (Companhia das Ilhas)



Programa completo: aqui.

O FILME PORNO MAIS PORCO DE SEMPRE


Dez homens com colete amarelo fluorescente varrem o bairro, vigiados por um homem fardado que não levanta os olhos do telemóvel. Nem enquanto caminha. Apeteceu-me fotografá-lo, mas temi invadir-lhe a privacidade. Talvez estivesse a ver o filme porno mais porco de sempre, recentemente estreado, enquanto os dez homens de colete amarelo à sua guarda continuavam a varrer.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS


Dedicado a Marçal Tupã-y, cacique guarani nhandewa assassinado em 1983

Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós - rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontrá-la.
Rogai por nós, meu pai - Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós - terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos a luz, fé na vida, nas pajelanças,
Evitai, ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé
Nas noites de luas cheias, ó Marçal, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave dos céus
Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco e Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, Ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda a manhã
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus
Vinde em nosso encontro
Meu Deus - Nhendiru!
Fazei feliz nossa mintã
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia a esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres - essas ricas crianças.


Eliane Potiguara, brasileira de ascendência indígena potiguara, foi indicada em 2005 para o Projecto Internacional «Mil mulheres para o Prémio Nobel da Paz». Escritora, poetisa e professora, é formada em Letras (Português-Literatura) e Educação. Fundadora do GRUMIN / Grupo Mulher-Educação Indígena, é membro de várias associações: Inbrapi, Nearin, Comité Intertribal, Ashoka (empreendedores sociais), Associação pela Paz, Cónsul de Poetas del Mundo. Trabalhou na ONU, em Genebra, em prol da Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Publicou Metade cara, metade máscara (Global Editora) e O coco que guardava a noite. Foi-lhe atribuído o Prémio Pen Club de Inglaterra e do Fundo Livre de Expressão, dos Estados Unidos. In Flauta de Luz - Boletim de Topografia, n.º2, Março de 2014, pp. 71-72. Mais informações sobre Eliane Potiguara: aqui