quarta-feira, 20 de junho de 2018

A FESTA DOS CAÇADORES


A Festa dos Caçadores (Abysmo, Abril de 2018) é o meu livro mais recente. Encontra-se disponível para encomenda através do sítio do editor (aqui), ou nos sítios da Wook e da Bertrand. Também está disponível nas livrarias Bertrand, sendo possível reservar através do site: aqui

A Festa dos Caçadores reúne em mais de 300 páginas várias histórias que poderão ser lidas como uma colectânea de contos ou como um romance fragmentário. De um mundo rural em vias de extinção à deslocação urbana, acompanhada de sensações de exílio, solidão e desenraizamento, as personagens destes contos acabam por se fixar num lugar sem espaço nem tempo, nos «desastres de uma vida perdida algures pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo». 

A epígrafe é de Lucia Berlin: «"Hush John," Florida said. "That's only phantom pain." / "Is it real?"" I asked her. / She shrugged. "All pain is real."» 

A TERÇA DE JUNHO







Ontem ouvimos John Coltrane, falámos de surrealismo, de livros-objecto e de collage, lêmos Mário Cesariny, espreitámos o conteúdo de caixas mágicas, observámos mulheres anónimas, recordámos livrarias extintas, viajámos juntos com sala cheia pelos espaços vazios da palavra e da imagem, da palavra-imagem, da imagem-palavra. Tudo porque tivemos por companhia o bom Miguel de Carvalho, alguém que mete o coração em tudo quanto faz. As fotografias são do Ricardo Aurélio. Obrigado.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

DIGA 33: AMANHÃ: ÀS 21:30


Miguel de Carvalho (Luxemburgo, 1970) é livreiro antiquário, editor da Debout Sur L’Oeuf (edições DSO), poeta, criador de objectos e colagista. Mestre em Ciências do Ambiente e Ordenamento do Território, é autor de livros onde a poesia resulta de um encontro entre palavra e imagem. São disso exemplo as collage reunidas em “No princípio não era o verbo” (DSO, 2015) e o romance-collage “A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero”, vindo a lume, pela primeira vez, em edição de autor no início de Abril de 2006. Ligado ao movimento surrealista, publicou poemas e ensaios em várias revistas, fundou um colectivo de pintura automática, organizou exposições. Em 2016, publicou pela Alambique o livro de poemas “Neste Estabelecimento Não Há Lugares Sentados.

CLUBE DE OGRES

Tenho-me lembrado assiduamente deste texto por causa do que se está a passar no meu Sporting. Ontem, ao ver a mesa da tal comissão de gestão, chegou-me um cheiro a mofo ao nariz que mudei logo de canal. Infelizmente, estavam a falar de rescisões de jogadores com um clube que os acolheu, educou, formou. O oportunismo tem destas coisas: a gente olha para o mundo e sente-se num limbo. Facilmente se identificam os ogres, mas dificilmente, muito dificilmente, se vislumbram ingredientes para a magia dos bons magos. 

domingo, 17 de junho de 2018

UM POEMA DE JULIO MARTÍNEZ MESANZA


PREFERÊNCIAS

Nem os cumes sublimes nem os rios
que não foram manchados pelos homens;
nem os palácios nem as brancas ruínas
dos templos antigos, nem esses deuses
de mármore ou de bronze, iguais todos,
nem a alada vitória ou um bugatti,
menos ainda a música e o baile,
com seus amaneirados sacerdotes:
nenhuma dessas coisas e de outras
tão admiradas pelos mais sensíveis
e que têm que ver com o bom gosto
ne propicia uma impressão profunda.
Antes esses hangares já em desuso,
essas estações fora de serviço,
esse lsabirinto das fundições,
arrabaldes sombrios, descampados
aonde só aí se compreende
essa tristeza perplexa dos homens,
os rios que arrastam sua miséria,
escuros, majestosos e solenes,
e essas lixeiras descomunais.



Julio Martínez Mesanza (n. 1955, Madrid, Espanha), in Trípticos Espanhóis - 1.º, trad. Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água, Maio de 1998, p. 153.

QUEM SE ESQUECEU DO INTERIOR?


I Governo (1976–1978) — M. Soares (PS)
II Governo (1978) — M. Soares (PS+CDS)
III Governo (1978) — A. Nobre da Costa
IV Governo (1978–1979) — C. A. Mota Pinto
V Governo (1979–1980) — M. L. Pintasilgo
VI Governo (1980–1981) — F. Sá Carneiro/D. Freitas do Amaral (PSD+CDS+PPM)
VII Governo (1981) — F. Pinto Balsemão (PSD+CDS+PPM)
VIII Governo (1981–1983) — F. Pinto Balsemão (PSD+CDS+PPM)
IX Governo (1983–1985) — M. Soares (PS+PSD)
X Governo (1985–1987) — A. Cavaco Silva (PSD)
XI Governo (1987–1991) — A. Cavaco Silva (PSD)
XII Governo (1991–1995) — A. Cavaco Silva (PSD)
XIII Governo (1995–1999) — A. Guterres (PS)
XIV Governo (1999–2002) — A. Guterres (PS)
XV Governo (2002–2004) — J. M. Durão Barroso (PSD+PP)
XVI Governo (2004–2005) — P. Santana Lopes (PSD+PP)
XVII Governo (2005–2009) — J. Sócrates (PS)
XVIII Governo (2009–2011) — J. Sócrates (PS)
XIX Governo (2011–2015) — P. Passos Coelho (PSD+CDS)
XX Governo (2015) — P. Passos Coelho (PSD+CDS)
XXI Governo (2015–presente) — A. Costa (PS)

PARA EVITAR SER ESMAGADO PELA DESILUSÃO



   Na boca de Deasey, o palito de ouro agitava-se para cima e para baixo.
   — O seu habitual desperdício de talento, Mr. Kavalier. As minhas condolências.
   — Obrigado.
   — Está a dizer que pode ser um êxito? — perguntou Sammy.
   — É muito difícil falhar na pornografia — retorquiu Deasey.

Michael Chabon, in A Liga da Chave Dourada  — As espantosas aventuras de Kavalier & Clay, trad. Rui Pires Cabral, Gradiva, Abril de 2003, p. 295.

AUTO-RETRATO


I - Diário de navegação

Movo-me cintilante com bandarilhas solares entre arenas de pétalas mortas. Pressinto as canetas cravadas e adormecidas.

Arrasto o segredo mineral dos ventos e contemplo o verbo derramado pela raiz. Grito nas veias atrás do sangue para esculpir a cor.

Vou comigo, escapando à loucura, carregado de pólen no papel à sombra do gesto. Aprisiono os sentidos e as vigílias de quem espera a palavra surda.

Apaziguo o corpo numa ruína sedutora onde bebo a areia insone. Fecho as janelas atrás da espuma marítima.

Recordo-me sem saída.


II - Condenação do corpo

Para curar o corpo vibro no vício da memória.
Encosto a sombra no ombro com a certeza duma morte
febril na luminosidade do escrito.

Persigo os versos no desgaste extremo do verso.
No rosto abatem-se os objectos encontrados na maré.
Nunca abandonarei a infância na constelação da manhã.

Reaprendo diariamente o espírito do meu corpo.
Na decifração do dia amadureço a ferrugem no peito,
uma corrosão iridiscente no abandono vigiado da boca.

Pernoito na reclusão cardíaca dos momentos de embarque.
Pertenço a lugar nenhum do estremecimento.
Ao espelho abandono-me no limite das veias.

Meu corpo de rudezas estendidas nos degraus e no crepúsculo.
Meu corpo de icebergues esculpidos pelo sol no regresso inundado.

Na escrita comunico com aquele que ama e demora
na linguagem dos movimentos derramados pelo húmus.



Miguel de Carvalho (n. 1970), in Neste Estabelecimento Não Há Lugares Sentados (2016). Herdeiro da experimentação surrealista, tem composto diversas obras que destacam um encadeamento vitalista e provocatório entre palavra e imagem. São disso exemplo maior as colagens reproduzidas no livro «No princípio não era o verbo» (DSO, Abril de 2015) e o romance-collage, em homenagem a Max Ernst, intitulado «A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero» (DSO, Dezembro de 2017), onde coloca em diálogo textos respigados em romances populares do séc. XIX e colagens desafiadoras com imagens de proveniência diversa. O onírico adquire nesses trabalhos uma nova dimensão, trazido à realidade através de representações que lhe captam espantosas associações livres e inesperadas. Cultor do livro-objecto, acerca do qual escreveu o interessante ensaio «Atrás das pálpebras, o sonho abriu os olhos. Tudo estava lá…» (DSO, Novembro de 2014), Miguel de Carvalho levou a cabo várias experiências revelando bom gosto e a absoluta independência editorial através da opção por edições artesanais de circulação restrita. Em Abril de 2016, alguns dos seus poemas anteriormente publicados nessas edições reapareceram, junta a outros, na colectânea «Neste Estabelecimento Não Há Lugares Sentados» (Alambique), composta por duas partes onde, ora em prosa, ora em verso, o acaso e o acidente vislumbram possibilidades de fixação na palavra poética, entendida enquanto «mediação entre uma linguagem verbal e visual». Uma espécie de ode a uma mulher desconhecida introduz-nos num universo íntimo marcado pelo desejo e pela distância, colocando o sujeito poético no lugar do voyeur que se interroga acerca da essência da sua condição de observador. Poesia feita de reflexos, de erupções imagéticas invulgares, num tom por vezes enigmático, noutras ocasiões assaltado por um encantamento proveniente das múltiplas possibilidades de conexão do olhar à realidade.

sábado, 16 de junho de 2018

UM POEMA DE MIGUEL DE CARVALHO

O tempo às voltas em círculos
em vazios de apertos e ausências
a luz senão em linhas escuras
onde sombras se erguem e se retesam.

A morada esquecida da carne
tem outra existência neste lugar de fome
diante a lucidez que lhe suscita
um silêncio atrofiado de mínguas.

Um esfomeado que não volve
segue na órbita do instante
interminável nos dias sem comer
sob a pele deste momento
com outra pele que não acaba
senão envolta nos ossos com fome.

Ele revê todas as vírgulas dos segundos
dos órgãos e de tudo
com a força desnutrida
sonolenta no destino do seu corpo


Cabo Mondego, 6 de Fevereiro, 2014


Piolho [revista de poesia], n.º 13, tema: fome, coord. Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro, A. Dasilva O., Black Sun editores/Edições Mortas, Março de 2014, p. 13.

16 DE JUNHO DE 2018



Passo em revista as revistas, as publicações colectivas, dezenas delas já embrulhadas num manto de esquecimento, repletas de poemas, de artigos, de contos, traduções, o trabalho dos outros, o meu trabalho, milhares de caracteres impressos que o tempo se encarregará de preservar ou desfazer. Pergunto-me porquê, para quê. De onde vieram os convites? Por que vieram? Que sentimento motiva o trabalho gracioso das revistas? Talvez seja o vento que me fala pelas frinchas, talvez este sol que ilumina a solidão em que vivo, talvez uma nostalgia inerente ao fracasso, talvez simplesmente a ideia de que tudo podia ter sido de outra maneira. Podia nada disto ter sido feito, podia nada disto ter sido realizado. É até possível que a seu tempo a partilha desinteressada de palavras se extinga como um animal ferido pela poluição, pelo ruído, pela indolência de quem cresce num mundo obcecado com o sucesso. Abraço o fracasso como a um amigo, da frustração faço companhia diária para que não me atormentem os heróis em linha recta, todos campeões de alguma coisa que desconheço e me é inacessível. Por meta conheço apenas a morte, corredora de fundo a quem, que eu saiba, jamais alguém ganhou. Portanto, seremos todos bem-sucedidos no fracasso, sem dúvida que o nosso maior sucesso será ter vivido fazendo contra a ilusão de que vale a pena fazer. Porque não é por valer que a gente faz. A gente faz simplesmente por fazer.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

SEM FOGO DE ARTIFÍCIO

José Mário Branco sobre uma espécie de falta de assunto, aqui.

UM POEMA DE ABELARDO LINARES


UMA ESTRANHA CERTEZA

Durante muitos anos, com frequência
me lembrei de ti, ou da tua imagem,
para ser mais exacto, pois daquilo
que uma vez amamos só nos resta
(tal como de um livro) uma muito vaga
impressão geral e algum episódio.
E com frequência também me perguntei,
procurando entre a névoa da lembrança
não sei se uma resposta, o que deixaste
em mim que continue meu ainda
e se não foi o amor, o meu amor por ti
e não tu própria, o que me importa ainda
e o que procuro ainda ao recordar-te.
Se a nossa vida arde, somos chama
ou aquilo que se queima e é a cinza?
Nessa desmesura que é o tempo
acham sua razão amor e esquecimento,
mas não sua medida. Ao recordar-te,
compreendo-o tão bem, que pouco importa
saber ou não saber, mas tão-somente
sentir que foste parte de mim mesmo,
que estás dentro de mim, tal os meus sonhos,
que são e não são eu, mas em mim nascem,
que já nunca de mim vais apagar-te,
que, queira ou não queira eu o esquecimento,
hás-de ir vivendo com a minha vida.
Que estranha sensação essa certeza

Abelardo Linares (n. 1952, Sevilha, Espanha), in Trípticos Espanhóis - 1.º, trad. Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água, Maio de 1998, p. 97.

ANORAQUE DAS NOITES TROPICAIS


Caldas da Rainha mantém-se nublada, ventosa, fria, a pingar.
Não há massa de ar quente que nos aqueça.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

14 DE JUNHO DE 2018


   Inventário de um dia comum, motivado por poema de José Luis García Martín: manhã de leituras. Sigo para o trabalho a pé. Reorganizo a exposição de alguns livros, recepciono outros, devolvo muitos. Visitado por clientes regulares, poucos desconhecidos, troco palavras circunstanciais. Sem que nada o fizesse prever, dois deles contam-me histórias de vida com mortos e perdas pelo caminho. Pelas 18h, como uma salada à pressa. 
   Larguei o serviço às 23h, parei no Démodé e bebi duas cervejas Sagres. Paguei um Baileys a uma jovem que se sentou a meu lado, no balcão, e despedi-me. Caminhada nocturna calma e silenciosa, ninguém nas ruas. A sensação de ter passado ao lado da puta velha sem sequer termos reparado um no outro. 
   Cheguei a casa com toda a gente já deitada. Estirei-me no sofá da sala a fingir que via o Ben-Hur, enquanto mastigava um resto de salada e dois croquetes ao som do tambor que marca o ritmo na galé. Fui para a cama por volta das 3h, cada vez mais perto dos cinquenta, o pânico a tomar-me conta do peito, um coração deprimido, palpitante, acelerado, o ónus de jamais ter parado na infância ou adolescência para sonhar com a vida. Calhou-me assim. 
   Hoje, na rádio, dão sol no país inteiro. Aqui onde estou nem uma nesga de céu azul se avista. Está vento, a temperatura baixa, dir-me-ia na Escócia não fosse o chamamento do amolador de tesouras.

UM POEMA DE JOSÉ LUIS GARCÍA MARTÍN


RETRATO DE UM ESCRITOR DE CERTA IDADE

Dou voltas pelo centro, levanto um cheque,
compro uma coleira de cão, bebidas.
Está um belo dia de verão,
muitos rostos amigos me sorriem,
bebo um copo com um conhecido
que me conta uma história que não entendo
de todo e animo-o e sou feliz.
No rádio do carro passam Mozart.
No fim de contas essa puta velha,
a vida, não se portou mal:
vivo do que escrevo, nunca aturo
maus humores de ninguém, durmo bem
quase todas as noites, bebo muito
apenas um dia por semana, vejo
pouco os meus filhos, é verdade, a mãe deles
esconde-os por debaixo da saia,
um sítio a que prefiro não voltar,
mas não os esqueço nem me esquecem.
Era esta a vida que eu sonhava
nos verões da minha adolescência
quando olhava absorto para o céu
e uma fugaz estrela se soltava?
Nem sei nem me importa. Para a noite
talvez solicite companhia,
ainda que prefira ficar só
e beber e beber. Depois, amanhã,
dormirei como um morto o dia todo.
No rádio do carro passam Mozart,
o céu está mais azul que de costume,
não preciso de nada que não possa
pagar e quase não me dão desgostos
o coração, o fígado e os cães.
Em breve vou fazer cinquenta anos.


José Luis García Martín (n. Aldeanueva del Camino, Cáceres, Espanha, 1950), in Trípticos Espanhóis — 1.º, trad, Joaquim Manuel Magalhães, Relógio D'Água, Maio de 1998, pp. 55-57.

ENCOMENDA



Levantei a questão na reunião do júri e toda a gente concordou que não seria um problema. Eu próprio não vi nisso qualquer problema. O trabalho não está publicado, não é premiável. Não existe. Eu tenho uma encomenda para um volume, pode ser péssimo, quando vier a sair”.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

«SCANDAL PAYS OFF»



   — Foste tu que organizaste isto tudo, filho? — Sorriu a Sammy. — Sabes com certeza que é tudo puro lixo. O Super-Homem também é puro lixo, claro. E o Batman e o Blue Beetle. Essa tropa toda.
   — Tem razão — disse Sammy entre dentes. — O lixo vende-se.
   — Olá se vende! — retorquiu Deasey. — Posso testemunhá-lo pessoalmente.
   — Mas é tudo lixo, George? — perguntou Ashkenazy. — Gostei bastante daquele tipo que salta de dentro dos rádios. — Voltou-se para Sammy. — De onde tiraste essa ideia?
   — Tanto me faz que seja lixo como não — disse Anapol. — O que me interessa saber é se é lixo do mesmo género que o Super-Homem.

Michael Chabon, in A Liga da Chave Dourada  — As espantosas aventuras de Kavalier & Clay, trad. Rui Pires Cabral, Gradiva, Abril de 2003, p. 173.

terça-feira, 12 de junho de 2018

DO RUÍDO ENQUANTO OBSCENIDADE COGNITIVA


Se quisermos ser menos cépticos, prudentemente esperançosos, diremos que a política passou a ser também a arte de gerir as imagens que testemunham os seus rituais.
Entretanto, reina a obscenidade cognitiva: a repetição incessante das mesmas imagens (da política ao futebol) ameaça entorpecer-nos, esvaziando não exactamente a nossa atenção ao mundo à nossa volta, mas a própria consciência crítica com que, noutros tempos, observávamos a acção dos políticos e outras figuras do domínio público — grita-se mais, especula-se infinitamente sobre a apoteose de coisa nenhuma, pensa-se menos.


João Lopes, aqui.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

11 DE MAIO DE 2018



   Anthony Bourdain morreu, suicidou-se. E o que mais se escuta por aí é: tinha uma vida tão boa. Mas o que sabem ou julgam saber as pessoas dessa vida que quis interromper-se?
   Só tenho lido merda sobre o suicídio de Anthony Bourdain, exactamente o mesmo tipo de merda que li aquando do suicídio de Robin Williams. É-nos mais fácil acreditar na imagem pública que construímos de alguém do que na forte possibilidade de tudo quanto nos é dado saber acerca de uma figura pública ser mera aparência.
   O mundo das redes sociais, dos media, das capas de revista, desloca-nos para o interior da caverna. Não queremos sair de lá. Preferimos uma mentira consoladora a uma verdade inquietante. Só vemos sombras e chega-nos, não queremos mais, a verdade esgota-se nas sombras. Não há ninguém que ouse questionar o sentido, ninguém quer assumir a ausência de sentido, toda a gente disfarça o desconcerto com simulações de espanto. 
  Puta que pariu o espanto. As pessoas matam-se porque a determinada altura deixam de querer viver na mentira, na falsidade, na aparência, na sombra. Pelo menos nesse momento têm uma certeza. Estar vivo é estar sujeito à incerteza, há quem não pretenda sujeitar-se ao incerto indefinidamente. E mata-se. Pronto, acabou, foi-se.



Imagem ao alto: p. 54 de "A Festa dos Caçadores", excerto do conto "Mera Hipótese", Abysmo, Abril de 2018.

ACIDENTE DE TRABALHO


Interrogava-me ontem sobre o porquê de termos acabado com a possibilidade de jovens menores trabalharem sazonalmente, desde que remunerados de acordo com o trabalho efectuado. Lembro-me que por esta época havia quem recorresse à apanha da fruta para ganhar uns trocos, outros inscreviam-se na apanha do tomate. As vindimas também eram opção, um pouco mais tardia para quem pretendesse angariar fundos para férias de Verão. Bares e restaurantes aceitavam reforços em certas localidades mais procuradas por turistas e visitantes esporádicos. Depois isso acabou. Por um lado, ficou feio os meninos laborarem com pais tão bem sucedidos na vida. Por outro, ficou difícil para o empregador assumir a responsabilidade de aceitar menores como força de trabalho. Já hoje fiquei a saber que morreu um jovem de 14 anos, ao que dizem as notícias piloto. Morreu na sequência de um acidente durante o campeonato espanhol de velocidade. Portanto, um acidente de trabalho. Tinha 14 anos.

E OS LESADOS DA COLONIZAÇÃO, QUEM OS INDEMNIZA?


DANNY KIRWAN (1950-2018)



domingo, 10 de junho de 2018

DIA DA RAÇA

Se, imaginando só tanta beleza,
De si com nova glória a alma se esquece,
Que será quando a vir? Ah! quem a visse!

Luís de Camões

O resto está aqui.

10 DE JUNHO DE 2018


   Dia de Portugal, país de antiquado povo ingovernável, subsumível ao gosto popular de quadras anódinas, parentes de apelido impositivo, curvo-me a teu nome como aos pés de um deus, sou filho de ladrilhos barrentos, meus pais passaram fome que eu não conheci, Portugal ínfimo, é uma desvantagem ter sido parido em teu ventre.
   Dia de Camões, poeta de amores desventurados, o da tença, intrépida raridade numa pátria de necessitados, esse de peito condoído a rivalizar com dribles, marcas de penálti, glosamos a glória póstuma que te dedica a história, em paz descansados na vã glória de estarmos vivos, engenhando tanto quanto podemos a procrastinação de estarmos mortos.
   Dia das comunidades portuguesas, caninas, ciganas, homoeróticas, comunidades acordadas em guiões equatoriais de guinés distantes, comunidades assassinadas por candidatos manifestos a claques de clubes futebolísticos, insultadas em plena feira do livro, comunidades de Camões a rir pelo olho estragado o que chora com olho são, dia da raça em paz descansada sobre tronos de estrume honestamente defecado.
   Portugal, «deixai-me descansar em paz ũa hora, que comigo ganhais pouca vitória».

UM POEMA DE JORGE SOUSA BRAGA

Aqui.

UM POEMA DE JORGE DE SENA

L'ÉTÉ AU PORTUGAL

Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal

— mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?

Chatins engravatados, peleguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas — e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.

(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende).

Lisboa, Agosto 1971

Jorge de Sena, de Exorcismos (1972), in Poesia - III, Edições 70, Agosto de 1989, p. 177-178.

UM POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal, 
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem matizes, sem perdizes,
rocim engraxado, 
feira cabisbaixa,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, de Feira Cabisbaixa (1965), in Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2000, p. 211.

sábado, 9 de junho de 2018

[Olha os impressos, os envelopes.]


Olha os impressos, os envelopes. Não te esqueças do registo para as cartas e da cabeça que te deixei na caixa de correio. Ordena as capas. Cuidado com os separadores. São cinco e sem cinco o pescoço à guilhotina. O sono sepultado neste cortejo percorrido a nojo. Vais para casa e não dormes, encostado às costelas doentes do quarto. Sentes que alguém está para morrer brevemente e que a arte do mundo foi esquecida num tropeção de labaredas triangulares. Acotovelas-te nesta velhice de nenhuma idade para contar. Percorres as livrarias vazias da cidade e caminhas apressadamente para um lugar escuro onde possas finalmente chorar. Acomete-te, por fim, a visão de um farol no núcleo de uma paisagem africana. Leopardos à cabeceira de um astro apontado ao sangue roído da terra. Ainda assim, não consegues escrever. Meses e meses sem escrever, até que enlouqueces de olhar pregado numa cervejaria decrépita nos arrabaldes da cidade. Com o polegar anuncias a vinda do Outono e colhes, de desmaio em desmaio, o mosto que por esses dias te enfeita o rosto trémulo como uma peste. Revelas a uma criança que não cortas as unhas dos pés. Não por indolência, mas por saberes que essa é talvez a única forma possível de iludir o itinerário da morte.



Pedro Magalhães (n. 1981), in Cárcere. Natural de Guimarães, publicou Imaginários Corvos de Sangue (Edita-me, 2011) e Cárcere (Debout Sur l’Oeyf, 2017). Está representado na antologia Casa (do lado esquerdo, 2016). Autor de poemas em prosa por vezes narrativos, com suas personagens vagas (Valéria, Senhor Clemente, etc…), noutras ocasiões cifrados por uma linguagem altamente metafórica, carregada de imagens violentas e de ricas associações sinestésicas (cor de uivo). A intimidade surge nestes poemas sem que o discurso se incline para o intimismo, sendo perceptível as marcas da saudade, da ausência, da incomunicabilidade: «Esbichar as ervas daninhas das palavras enquanto vou trauteando derrotas diárias de uma vigilância empobrecida». Luís Miguel Nava será porventura na literatura portuguesa o autor que mais se aproxima de uma referência para estes textos, os quais não recusam no seu vigor caudaloso ecos de um mundo real (a escória deste país) e ressonâncias imaginárias com dragões, magos e monges à mistura.


FUTEBOL vs POLÍTICA




Um dos meus problemas com discursos acintosos acerca do futebol, entendido na generalidade e genericamente, pode ser exemplificado com este fragmento de um texto de JPP. Substituam a palavra futebol por política e perguntem-se: qual a diferença? Nenhuma, zero, nomeadamente no nosso país, em que a máfia de futebol tem muito a aprender com a máfia da política. Principalmente no que diz respeito a estragos provocados na vida de todos. 

ESGOTO A CÉU ABERTO


No esgoto a céu aberto das notícias sobre futebol nada parece ter já gravidade. E por isso ninguém se pergunta como pode uma claque ser apoiada por uma instituição de utilidade pública como é um clube de futebol, ainda que em crise, e ao mesmo tempo admitir a candidatura à sua presidência de um criminoso. E ninguém se pergunta como podem jornalistas fingir que caem na armadilha de divulgar essa candidatura apenas e só porque dá audiências.


Rui Tavares, para ler na íntegra, aqui.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

ANTHONY BOURDAIN (1956 - 2018)


Este fez-me ver televisão com prazer, gesto cada vez mais raro. As notícias avançam com a possibilidade de suicídio. Não está fácil o mundo.

08 DE JUNHO DE 2018


   Aquele pranto bloqueado por não sei que diques, convulsão de lágrimas aos soluços, vindas a espaços intempestivamente, como que irrompendo de um peito onde tudo é tremura contida, travada, impedida de se manifestar.
   É preciso libertar a dor, deixá-la fluir por seus caminhos destravados, a dor, o medo, a angústia de perder para sempre quem nunca nos faltou.
   As manhãs crescem cinzentas por mim acima, bocados de céu azul surgem ao alto como poças na terra onde apetece mergulhar o corpo inteiro que pesava nos pés da infância. Pudéssemos pontapear o sofrimento como a uma pedra. Nem sequer uma trovoada estremece este desconsolo, é tudo espera, lenta espera, a angústia de perder para sempre quem nunca nos faltou.

UM POEMA DE JOHN MATEER


OS LIVROS

Nem todos os livros foram lançados às fogueiras.
Alguns, como Ibn Zumbul conta, foram guardados em mesquitas abandonadas.
O nosso Viajante, ouvindo isto, foi levado a uma mesquita,
e através do buraco da fechadura não viu nada
mas ouviu — não o vento — o restolhar de vermes.
Talvez, pensou, todos os livros sejam o Não-criado.


John Mateer (n. 1971, Roodepoort, África do Sul), in Drescrentes, Debout Sur l'Oeuf (DSO), Outubro de 2015, p. 46.

PROIBIR NÃO É SOLUÇÃO


Não tenho telemóvel. Ando com um que é da empresa para a qual trabalho, porque a tal me obrigam. Odeio telemóveis, um ódio que não tolda minimamente uma das regras que tenho na vida: proibir não é, nunca foi, nunca será solução para nada. A solução é educar, pelo que preferia que a notícia fosse: escolas educam o uso de telemóveis. Mais uma vez, desinvestimos na educação apostando na repressão. Erro crasso.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

PARQUE INFANTIL


In "A Festa dos Caçadores", Abysmo, Abril de 2018, p. 280. Último parágrafo do conto Parque Infantil. Clique na imagem para ver melhor.

ALBANO MARTINS (1930 - 2018)


CHÃO DE LARVAS

Devolvo 
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente
                                Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes — substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.


Albano Martins, in Hífen — cadernos semestrais de poesia, n.º 1, Outubro de 1987 / Março de 1988, direcção de Inês Lourenço e de Maria das Graças Mano, Novembro de 1987, p. 2.

TRUMP AND KIM JONG-UN'S NUCLEAR SUMMIT


Blue Noses (colectivo de artistas russos fundado em 1999)
An Epoch of Clemency (Kissing Policemen)
Da série The Era of Mercy, 2005

quarta-feira, 6 de junho de 2018

POMBOS LERDOS (actualizado)


Pombos Lerdos
Vários Autores
Medula, Abril de 2018
(para encomendas ver: aqui)

[O meu talento é bater palmas], pp. 9-10. 

   A esta publicação dedicou Diogo Vaz Pinto duas páginas no jornal I, contribuindo para o diagnóstico certeiro recentemente levado a cabo por João Pedro George: «o cadáver que é preciso enterrar, hoje, é a crítica jornalística». Numa das duas páginas, misturam-se «lenda rural» e Machado de Assis. Seriam indispensáveis para a compreensão do objecto em análise, pretendesse o Bicho analisar alguma coisa. Não quer. Analisar não é para quem quer, é para quem pode. E DVP não quer nem pode, o que não tem mal. Confunde tudo como normalmente faz, dizendo que os outros é que estão confundidos. E da confusão resulta que folhetins e folhetos passam a cumprir o mesmo papel na História da Literatura, como se fossem uma e a mesma coisa. Mete-se a plaquete (meio) e o folhetim (género) no mesmo saco e sai: folheto. Estamos falados. A este, chamou-lhe «pífio manifesto», o que nos parece um manifesto exagero, não pelo que possa ter de pífio, mas pelo que claramente não tem de manifesto. Tem desculpa o Bicho, diz que se deitou de costas a tirar macacos e a olhar para as estrelas. É provável que com a distracção os macacos tenham ido parar-lhe à boca, depois mascou-os e cuspiu-os para a folheca do jornal. Saiu a macacada do costume. 
   Chama atenção sobre si mesmo, como sempre faz, e diz que lhe deram uma alegria. A ele. Ao crítico. Até pensámos que estava a falar de outrem, já que de crítico do que quer que seja este tem tanto como eu tenho de engenheiro aeronáutico. A primeira página foi para os pardais, isto é, para os pombos. A segunda não merece melhor destino. Novamente a chamar atenção sobre si, dizendo que a edição de Pombos Lerdos quis visá-lo, o Bicho não percebe, nunca perceberá, a distância que vai entre o que ele é e o que ele afirma. Pombos Lerdos teve um motivo, a preocupação inusitada de Vaz Pinto com a proliferação de plaquetes de poesia publicadas por pequenas editoras. A este propósito, questionámos o "visado" sobre a origem da preocupação. Lembrámo-lo de que ele próprio tinha publicado várias dessas plaquetes. Mas ele nada disse, fechou-se em copas como se nada fosse com ele. Não gosta dos tijolos publicados pela Assírio à laia de obras completas, acha que a Praça vem sendo conspurcada pela disseminação de pequenas editoras, vive incomodado com o dinheiro que as pessoas gastam nestas coisas. Não podemos levar-lhe a mal, é um teólogo da justa medida. Logo ele, todo desmesurado na prosa, surge-nos completamente comedido na moral. Quer dar ares de Pacheco, mas parece-se com José-Augusto França. 
   E assim temos que, das duas páginas, sobram três parágrafos e uma citação de Joaquim Manuel Magalhães. Quem mais?! Como um dos parágrafos me é inteiramente dedicado, dispenso-me dos restantes (onde encontramos mais uma referência, desta feita a G. K. Chesterton, sem a qual o poema de João Alexandre Lopes também não seria inteligível). Pela parte que me toca, só tenho a dizer bem do Bicho. A minha história com ele vai longa de mais para que me alongue. Tem-me dedicado uma atenção que não mereço, desproporcional à atenção que não lhe presto e ele por certo mereceria. Sou a «besta de estimação» do Bicho, e até já tive direito a poema, apesar de ser «água-choca» e «brutinho» (esta mania de projectar-se nos outros deve ter uma qualquer designação psiquiátrica que desconheço). É só seguir os links para se ficar com uma percepção do amor que me tem, a despeito da consideração que não lhe mereço ainda que aqui venha debicar amiudamente. Levou o Nicanor Parra,  o Patrick Kavanagh, o Olav H. Hauge, e queira Deus saber que mais... eu dispenso.
   Também me chegam ecos de que lá no Facebook, onde o Bicho passa a vida a agitar águas, sou visado com espantosa frequência (já que sem direito a resposta por não frequentar esse pardieiro onde intelectuais da melhor safra se sentem como peixe na água). Há tempos, fizeram-me chegar uma a que achei piada: «Professor Doutor Ressabiadíssimo». Enfim, eu sou estas coisas todas ignorando o Bicho. Ele é nada disto, atirando-se-me ao nome, depois de ter ameaçado atirar-se-me à pessoa, con-ti-nua-da-men-te. Digamos que cada qual sabe como ocupa o tempo da vida que tem, assim como cada qual sabe onde aplica os seus investimentos. Tomaria eu que o Bicho me desse de uma vez por todas por morto, morto dessa morte a que alude no tal parágrafo que me foi dedicado. Morto para o Bicho seria sinal de boa morte. Dêmos-lhe o mérito de não fingir que não vê, o único que tem. Pois quando começa a dizer o que viu, a gente apercebe-se de que viu tudo ao contrário e é uma chatice, um tédio, uma modorra, um aborrecimento, uma maçada, uma estopada, um enfado, um fastio e demais sinónimos que o word desenrasque para aquilo que o Pinto é. Podia ser bom rapaz, soubesse dar às leituras o tempo que não dá ao pensamento. Todo ele é agitação. A pressa leva-lhe o gás.

P.S.1.: E agora sou «cadáver», mais uma vez sem que nada de essencial tenha sido respondido. Eu perguntei claro, o Bicho (sic) responde no velho estilo rococó que lhe conhecemos para não responder a nada.

P.S.2.: Desfazendo eventuais equívocos, sugeridos pela seguinte passagem:

Resta que, ou ignoram muito vermelhuscos, ou a ideia é revogar-me a carta, licença, prostrar-me na indigência de eu ser uma qualquer abominação, “Bicho”, monstro que ligam com tudo o que é baixo, e mesmo assim paira sobre eles sem explicação. Um chernobyl encarnado.

            ... aqui se reproduz o talão de uma transferência efectuada para o Bicho em Janeiro do ano passado. Supomos que não tenha mudado de nome:





P.S.3.: 
O importante é, tanto quanto possível, partilhar um agrado pelas pessoas e coisas que o merecem. Não acrescentamos nada à merda atirando mais merda para essa “mirífica montanha”. A merda despreza-se.
Diogo Bicho Duarte Vaz Pinto, aqui, a 10 de Março de 2009, muito antes do Facebook:





Levanta o braço a oeste, baixa-o a este (aqui). E quando lhe convém pousa para a fotografia em threesome.



Com o pormenor delicioso, entre outros, de ter Fernando Pinto do Amaral sido convidado a apresentar o n.º 2 da revista Criatura, como aqui ficou registado.



Não fizeram nada. Mal ou bem, só divulgaram para cima de 80 poemas de Parra sem cobrarem nada por isso: aqui. E o Bicho, dando por isso, levou lá para a terra dele: aqui




Palavras para quê? É um artista português.

TRÊS VEZES BRASIL


Os números não enganam, o interesse recente pela poesia contemporânea brasileira trouxe-nos livros de Angélica Freitas (Pelotas, 1973), Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973), Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975), Ricardo Domeneck (Bebedouro, 1977), Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979), Adelaide Ivánova (Recife, 1982), Diego Moraes (Manaus, 1982), Nina Rizzi (Campinas, 1983), Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984), Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988)… A este inventário acelerado devemos ainda acrescentar as antologias “Naquela Língua — Cem Poemas e Alguns Mais”, organizada por Francisco José Viegas, e “É Agora Como Nunca”, da responsabilidade de Adriana Calcanhoto. Mais abrangente no tempo e restrita no tema, temos a “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, de Eliane Robert Moraes. Sintomático também que tenham sido essencialmente pequenas editoras, tais como a Douda Correria e a Mariposa Azual, a recuperarem este interesse pela poesia brasileira, certamente mais movidas pelas relações de aparente proximidade proporcionadas pelas redes sociais do que por qualquer interesse comercial. De resto, está por verificar se à difusão de novos poetas brasileiros entre nós corresponde um real interesse dos leitores portugueses. O que não é necessário verificar é a variedade de registos que esta poesia nos oferece, comprovável nos três livros que estimulam este texto.
Ninguém vai poder dizer que eu não disse – Vol. I (Douda Correria, Setembro de 2016), de Carla Diacov, subtrai o sentido ao ímpeto de dizer. Fragmentários, os poemas surgem-nos cifrados pela urgência do que se diz. As maiúsculas irrompem da prosa como gritos, sugerindo automatismos, instantes de fúria, histeria, que mandam às favas o lirismo da poética amorosa: «quero que você se foda. diferente do mundo . também /quero que o mundo se foda. o mundo: PIADA DE BOM / GOSTO. inda esses idiomas de infrutífera búfala: QUERO / QUE VOCÊ FODA TODO O TEU SORRISO CAVALAR / ROÇANDO A MINHA PALMA o mundo que se foda sem / você por umas horas: UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA / UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA UMA CADEIRA / SOBRE A OUTRA SOBRE A MESA SOBRE A FESTA DE / DESANIVERSÁRIO: assim o mundo se fodendo todo na / espera de uma colisão que não que nunca que cão que merda / que hora e que buraco: QUEM É VOCÊ QUE TANTO SE / FODE E NUNCA DEBULHA A RESPEITO?» (s/p). Talvez faça sentido associar a este dizer a noção de catarse, entendida não apenas como “purificação”, mas como a própria dramatização de um sentimento expresso pela palavra, ou seja, libertação da palavra aprisionada no espaço silencioso do recalcamento. Carla Diacov disse, e ninguém vai poder dizer o contrário.
Já Ricardo Domeneck, de quem havíamos lido "Medir com as própriasmãos a febre" (Mariposa Azual, Outubro de 2015), remete-nos para um território que lembra o "Manual de Civilidade para Meninas", da autoria de Pierre Louÿs (n. 1870 – m. 1925). Só que no Manual para Melodrama (Douda Correria, Março de 2017), dedicado a Adelaide Ivánova, rosto reproduzido na capa, a civilidade foi substituída por «técnicas de sobrevivência ao abandono» (o «método medeico», inspirado na figura mitológica de Medeia, o «método didoico», a partir de Dido, rainha de Cartago) e outras sugestões de utilidade inquestionável para quem tenha sido traído, abandonado, esquecido, preterido… Com estes aforismos de inclinação irónica, Domeneck coloca a mulher num patamar de superioridade ante a figura opressora do amante desleal. A vingança é um prato que pode e deve ser servido com subtileza. Tanto este livro como o de Carla Diacov podem colocar-nos perante um tipo de texto que não identificamos de imediato como poesia. O primeiro desafio é formal. Aforismos? Fragmentos? Axiomas? O que os torna poéticos, mesmo não o sendo intencionalmente, é o uso da linguagem, o ímpeto de dizer anterior à precisão de sentido:  «Deste mesmo peito será você a expectorada» (s/p).
Não será também assim com Um útero é do tamanho de um punho (Douda Correria, Setembro de 2017), de Angélica Freitas? A condição feminina, transversal a estes três livros, é tanto aqui a da mulher-cão, de Paula Rego, como a da mulher social e culturalmente espartilhada num universo patriarcal, que facilmente identificamos com a poesia de Adília Lopes. O recurso a canções populares e a formatos clássicos surge-nos, precisamente, como modo de questionamento dessa tradição cultural, aqui contestada, subvertida, rejeitada pela figura da «mulher limpa» que deseja, que peca, que deita para o lixo as imagens de pureza artificial disseminadas pelos media e cultivadas num figurino de beleza que reduz a mulher à condição de servente: «eu me sinto tão mal / eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal / engordei vinte quilos depois que voltei do hospital / quebrei o pé / eu vou lhe contar eu quebrei o pé / e não pude mais correr eu corria 10 km/dia / aí um dia minha mãe falou: regina / regina você prexcisa fazer um regime você está enorme / você fica aí na cama comendo biscoito / e usando essa roupa horrível que aprece um saco de batatas / um saco de batatas com um furo pra cabeça / também não precisava óbvio que fiquei magoada / primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão / daí eu comecei regime porque me sentia mal / eu me sinto mal eu me sinto tão mal / troquei os biscoitos por brócolis queijo cottage e aipo / coragem eu não tenho de fazer uma lipo / eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo / tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo» (s/p). In mulher regime. A identidade de género, também retratada nestes poemas sob a perspectiva de condição feminina, parece-nos especialmente pertinente no momento que o Brasil atravessa, momento de retrocesso civilizacional plasmado nas afirmações de Marcela Temer, mulher do presidente Michel Temer, acerca do lugar da mulher na sociedade brasileira. Ecoam nestes poemas sinais de um tempo detergente, alicerçado numa hipocrisia consentida e promovida. A linguagem banal e quotidiana aqui plasmada não é apenas um reflexo desse tempo, é um modo de o retratar revolvendo-lhe as entranhas, dissecando-o, aproveitando ressonâncias que estilhacem a autoridade da hipocrisia. Chamemos-lhe ironia, chamemos-lhe cinismo, será sempre uma poética da desconstrução do discurso vigente.