quarta-feira, 23 de setembro de 2020

MOÇÃO

Quitéria vota numa moção que sugira a extracção dos otários e a laqueação das trombas.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A BALANÇA VAI NUA

Podemos partir do princípio de que se trata de uma brincadeira, uma partida inserida no contexto de regresso às aulas, recepção ao caloiro, praxes, essas coisas. Ou então é mesmo verdade e a insanidade assaltou por completo o mundo, infiltrando-se por todas as chamadas instituições clássicas, corroendo os alicerces que vão mantendo relativamente equilibradas as sociedades democráticas. Maçonaria e a Eterna Fêmea, o programa de um mestrado em Direito, é o título da notícia. Estive a ler o programa completo e fiquei interessado. A sério. Sempre tive interesse em compreender "a crítica da transformação de facto do Direito em torto". Não sei quanto se paga para aprender estas coisas, mas não há-de ser mais do que o valor despendido em biblioterapia ao longo de um  ano. E por certo não terá a mesma graça curar uma dor de dentes a ler Beckett ou ser introduzido ao "torto tribal penal" através da "substituição da moral de Cristo pela imoralidade da besta". O que valem Kafka ou Joyce ou Ionesco diante da verve de um tal Francisco Manuel Fonseca de Aguilar, docente de Direito na torta Universidade de Lisboa? Dispenso-me de comentar toda a problemática marxista e feminista que o programa se propõe esmiuçar, até porque o meu interesse vai particularmente para o "julgamento dos crimes (e.g. dos genocídios) misândricos e cristofóbicos do socialismo de género e identitário pelo modelo da herança dos julgamentos de Nuremberga dos crimes anti-semíticos do socialismo racial". Há todo um leque de tópicos a ter em conta neste mestrado que encostam Kant às linhas. "Violência doméstica como disciplina doméstica", a título de exemplo, é ilustrativo do que estamos a falar. O que esperar do Direito (penal, no caso em apreço) quando nos deparamos com estes exemplares de lucidez e elevada cultura nas nossas universidades? Eu espero que se envesgue. E vocês?

terça-feira, 15 de setembro de 2020

PRIMEIRA LIGA

Cipriano anda pensativo. Quitéria quis saber porquê. Cipriano explicou-se: "Se o Sporting tiver sempre a equipa infectada, nunca joga. Logo, nunca perde. Se nunca perder, é campeão. Certo?" Quitéria também ficou cismática.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

UMA DÚVIDA

Sendo candidata à presidência da República, não seria mais ético a paladina da probidade suspender este espaço de opinião? Não será isto tempo de antena? Não estaremos aqui perante um caso de "concorrência desleal"? Afinal eram três dúvidas. Vai dar ao mesmo.

domingo, 13 de setembro de 2020

CABO DELGADO

Uma pesquisa no Google sobre Cabo Delgado deixa-nos perplexos. É como se nada se passasse. Precisamos de recuar meses para vislumbrar resquícios informativos do terror noticiado noutras paragens. Leio descrições desse terror no Facebook e dá-me um nó no estômago, na garganta, no corpo, na alma. Anda a gente entretida com a festa de aniversário da Cristina Ferreira. O que é feito dos jornalistas portugueses? É urgente falar de Cabo Delgado, colocar o tema na agenda internacional, tal como outrora foi feito com Timor. O que se está a passar naquelas terras também nos diz respeito, não só como seres humanos, mas pelas relações de proximidade com Moçambique. Devemos continuar indiferentes ao que se está a passar em Moçambique?

sábado, 12 de setembro de 2020

HONRA

Sempre me honrou não ser convidada para comissões de honra. Disse Quitéria, e eu faço minhas as suas palavras.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A NOSSA MORTE

 


   A notícia é lacónica: Sean Bonney (21 de Maio de 1969 – 13 de Novembro de 2019) morreu de acidente. Na internet, mundo outrora novo, são vários os vídeos e diversas as informações acerca do percurso deste activista britânico. Com tradução de Miguel Cardoso, a Douda Correria publicou por cá as “Cartas Contra o Firmamento” (Junho de 2016) e o derradeiro “A Nossa Morte” (Maio de 2020). Escrevi sobre o primeiro aqui, dedico agora algumas palavras ao segundo.

   Bonney vivia há cerca de cinco anos em Berlim, trabalhando num pós-doutoramento sobre a obra da beatnik Diane di Prima (n. 1934). Julgo ter entendido bem, era investigador do John F. Kennedy Institute for North American Studies na Free University de Berlim. Poeta empenhado em diversas guerras cívicas, engajado nos movimentos libertários de esquerda, praticante de uma “arte revolucionária”, por assim dizer, foi autor de inúmeros panfletos e de alguns livros de poesia, foi crítico, com tese sobre Amiri Baraka (o beat LeRoi Jones, com quem Diane di Prima teve uma relação), tendo-se estreado em livro em 2002 com volume intitulado “Notes on Heresy”.

   “A Nossa Morte”, enriquecido na edição portuguesa com as ilustrações de Tiago Cutileiro, é um livro angustiante. Foi publicado no ano em que o autor desapareceu e não augurava nada de bom. A “Carta em Tumulto” que abre o conjunto, com referência a Paul Celan, tem um remate que nos esmurra por dentro: «Estou a ver se ponho fim a esta merda. Ando a estudar magia, utopia e armamento. Prometo manter-te a par dos meus progressos». Segue-se um testamento intitulado “Da Escuridão Profunda”. As missivas são dirigidas ao leitor, havendo na prosa de Sean Bonney uma fúria, para com o estado do mundo em geral e para com a “ilha racista” em que nasceu em particular, que nos impele para um labirinto onde niilismo e surrealismo procuram debalde uma saída.

   Cativo num labirinto de referências literárias, musicais, filosóficas, políticas, artísticas, Bonney esforça-se por entender a actualidade destilando um ódio visceral à hipocrisia dominante. Os bois são chamados pelos nomes, mormente os bois da contemporaneidade britânica que levaram ao brexit, num esforço inquietante e porventura frustrado de autoconhecimento: «Porque o que quer que seja que eu vejo quando me olho ao espelho, não é algo que esteja disposto a aceitar» (das “Aproximações ao Inimigo Solar”). A atitude panfletária surge, deste modo, sabotada por um desencanto e uma desesperança interiores que transformam o texto num frágil escudo protector contra a opressão social.

   Maioritariamente em prosa, estes textos encenam deambulações, rotinas, uma deriva interior que não se imiscui de pedir de empréstimo a Artaud a célebre noção do “suicidado da sociedade” para ilustrar a catástrofe que anuncia. Há um tom apocalíptico neste livro que é indisfarçável, apocalipse sem expiação nem redenção. Referências a Baudelaire, Rimbaud, Pasolini, reforçam apenas o destroçamento interior e a solidão enquanto condenação do eu que despreza e é desprezado pelo status quo: «Meu enorme amor, ninguém sabe ler a linguagem que lá está escrita» (de “Abjecto (a partir de Baudelaire)”). A voz de satã que ecoa nestes textos não é a voz do riso, da sátira, é a voz de um desgosto insanável, é a voz de um torpor, de um coração espezinhado. Isto mesmo o torna testamentário, com o seu inventário de referências a perecer diante das sobras de uma vontade em ruínas: «Quem me dera ser como os insectos que vivem no vento e fazem coisas espantosas com a seda, mas, em vez disso, estou para aqui a gritar, o que não tem um caralho a ver com a magnífica seda tecida pelo riso dos insectos» (do “Livro de Memórias (a partir de Miyó Vestrini).

   Se há “literatura” capaz de nos esmurrar o estômago, ei-la forjada neste derradeiro livro do poeta britânico Sean Bonney. Ninguém sairá incólume de “A Nossa Morte”, como atesta o texto que oferece título ao livro: «Todos levados pelo terramoto». Desespero talvez seja o que se retém no final, um desespero que enfurece por nos colocar no centro onde embatem as forças e as fraquezas que se opõem dentro daquele que luta, espoletando um rebentamento interior, íntimo, do qual restam escombros sob a forma de poemas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

ELES

Ela diz Fernandinho. Ele diz Ofelinha. Ela diz pompon. Ele diz bonequinha. Ela diz grande amor da minha vida. Ele diz amor pequenininho. Ela diz nininho. Ele diz bebé. Ela diz filhinho. Ele diz bebé-minininho. Ela diz velhinho. Ele diz bebé pequenissíssimo. Ela diz nininho dos meus pecados. Ele diz minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos. Ela diz palminhas olaré palminhas. Ele diz beijos, beijinhos, beijões, beijicos, beijocas, e beijerinzinhos. Ela diz "Ena Pai do Céu o que para aqui vai de beijinhos de todos os feitios e tamanhos!" Ambos parecem desejosos de ir à Índia caçar pombinhos em cachecol apertado. Entendam como quiserem. Certo é que ficaram por não ir, o que não é exactamente o mesmo que não terem ido.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

AARON KLEIN

 


   Paulo José Miranda (n. 1965) é um escritor experiente que tem sabido articular a publicação de colectâneas de poemas com uma obra ficcional sólida. A estreia na poesia com “A voz que nos trai” (Cotovia, 1997) foi iluminada pelo prémio Teixeira de Pascoaes, granjeando com o segundo romance, “Natureza Morta” (Cotovia, 1999), a primeira edição do Prémio Literário José Saramago. “Aaron Klein” (Abysmo, Frevereiro de 2020) é o seu mais recente romance. Falar de romance ou de poesia no contexto desta obra apenas auxilia uma abordagem possível a géneros distintos que, na verdade, se confundem nos livros deste autor. Há na escrita de Paulo José Miranda um impulso reflexivo transversal a qualquer dos géneros que pratique, pelo que tanto os versos como as histórias surgem quase como pretextos para o exercício crítico do pensamento. Mais do que não ser excepção, “Aaron Klein” é um interessantíssimo exemplo de como tudo isso se equilibra numa prosa capaz de não hipotecar o filosófico respeitando um fio narrativo estimulante e fazendo uso de uma linguagem deveras acessível: «A grande literatura, dizem, faz-se com aquilo que nos é mais próximo, com os vizinhos, o bairro onde se vive, a varanda de onde se olha, a cama onde se sofre. Mas haverá algum lugar mais próximo de nós do que as nossas próprias reflexões? Pensar é o exterior mais próximo. E quem disse que o próximo é real? A realidade é um buraco negro que não deixa sair de lá nada, nenhuma luz, nenhuma informação, nenhuma verdade. E nós não estamos mais ou menos próximos da verdade, nós somos a verdade, cada um de nós, quer se esteja certo ou errado» (p. 190).

   Organizado em três partes (Lisboa, Telavive, Cancro), neste romance a história podia dizer-se secundária face aos temas abordados. No entanto, o périplo ensaiado pela geografia dos três monoteísmos, com a cidade de Lisboa enquanto centro simbólico onde historicamente confluíram judaísmo, cristianismo e islamismo, permite-nos acompanhar uma personagem na construção de outra personagem. Vera, nome que remete para verdade (será acaso?), é a filha adoptiva e improvável de Aaron Klein, judeu estudioso de Fernando Pessoa, com um historial familiar adverso e muita vontade de deixar descendência. É na sua companhia que vamos descobrindo a personagem que oferece nome ao romance. Vera é a verdade de uma ficção, por assim dizer, à maneira da “autopsicografia” pessoana, é a personagem-guia na busca de outra personagem. São os seus esforços que permitem traçar o perfil de Aaron Klein, tal como surge na belíssima capa de Rui Rasquinho. 

   O que é verdadeiro ou falso neste romance crivado de cartas, e-mails, testemunhos, intromissões de gente real tais como o escritor português Hélder Macedo ou o israelita Ricardo Ben-Oliel? A mais-valia da ficção é, precisamente, a sua capacidade para transcender a lógica do verdadeiro/falso, penetrando territórios especulativos que permitem abordagens espontâneas, libertas de constrangimentos históricos, a temas cuja complexidade jamais será redutível à enumeração de factos. Assim é com a oposição entre o bem e o mal, tema caro a Paulo José Miranda, ou, de modo mais lato, com a dúvida universal acerca do sentido da vida: «O que é a lógica, senão o exterior do nosso mais interior, a metáfora?» (p. 271) Klein é uma personagem em construção, vai emergindo da obscuridade a partir do empreendimento levado a cabo por Vera, a qual tem como interlocutores privilegiados personalidades reais ficcionadas e personagens ficcionais deveras realistas. Serão umas mais evidentes do que as outras ou tudo quanto se esconde por detrás de um nome nos escapa? Não será o outro a construção que dele fazemos? Não será um nome a cortina que esconde o universo?

   Recordemos que este livro surge também no momento em que Paulo José Miranda se confrontou com a elaboração de uma biografia de Manoel de Oliveira, pelo que a problemática biográfica, assim como a questão da identidade, surgem plasmadas neste romance ensaístico, a par de uma abordagem ao mais profundo e grave conflito civilizacional das últimas décadas. Klein, que trabalhou como tradutor, é a versão personificada desse conflito entre a raiz judaica e as ramificações cristã e islâmica que assumiram especial relevância com o Holocausto e a fundação de Israel no pós-Segunda Grande Guerra. “O mundo partiu-se”, diz-nos, e desta fragmentação surde uma necessidade essencial, trágica tal como o era na Grécia Antiga: «A religião mata. O mar Morto é uma metáfora do planeta, daquilo em que o planeta se tem transformado à custa dos humanos e das suas religiões. Não há aproveitamento ilícito do nome de Deus. Não digam que Deus não tem culpa do aproveitamento que os homens fazem dele, ou do nome dele. Deus é ele mesmo ilícito. Infelizmente, e à imagem deste mar demasiado salgado, o que está a desaparecer não é Deus, mas o humano e o planeta que o abriga. Deus não morreu, como Nietzsche escreveu, mas terá de ser morto, se quisermos sobreviver» (p. 206).

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

CIDADÃOS CONTRA A CIDADANIA


Um grupo de cidadãos reuniu-se para redigir um abaixo-assinado contra a obrigatoriedade da disciplina de cidadania. São cidadãos que pretendem uma cidadania opcional, num país onde o civismo vai de vento em popa. Seria apenas patusco, não fossem os contornos crípticos que tornam esta história um pouco abjecta. Há semanas, andou a circular por aí a fotografia de uma menina numa manifestação do Chega. A criança foi notícia por lhe terem vestido um cartaz que dizia: “sou adoptada, angolana, meus pais são Chega”. A mãe mostrou-se arrependida a posteriori, mas o mal estava feito. A criança fora usada como arma de arremesso político, era uma criança-objecto. Agora temos um pai que resolve proibir os filhos de frequentar uma disciplina, indiferente ao facto de os meninos poderem chumbar. Para este pai, a sua oposição à disciplina de cidadania é mais relevante do que o percurso escolar dos filhos. Artur Mesquita Guimarães foi delegado da Associação das Famílias Numerosas, faz parte da Associação In Família de Braga, é membro da Federação Portuguesa pela Vida, diz-se cristão católico e conservador. O seu advogado, João Pacheco Amorim, foi candidato do Chega, em Coimbra, nas últimas legislativas. As coisas são o que são e não vale a pena iludi-las. O que me indigna em tudo isto é apenas o uso das crianças, a forma como certos pais, por certo os melhores do mundo, não hesitam em servir-se dos filhos para travarem as suas guerras pessoais. Imaginemos, por momentos, que a disciplina de Religião e Moral era obrigatória. Pois claro que me oporia a tal obrigatoriedade, mas jamais sacrificaria um ano escolar das minhas filhas como forma de travar a minha batalha. Elas que fizessem a disciplina, que eu me encarregaria do contraditório em casa. Neste caso a questão é tanto mais absurda quanto são absolutamente anódinos os conteúdos da tal disciplina de cidadania. Sérgio Sousa Pinto, caricatura de que jamais nos lembraríamos não fossem estes escândalos nacionais, assina o tal abaixo-assinado argumentando que a disciplina (ele chama-lhe cadeira) é inútil. A política portuguesa também transborda de políticos inúteis, cuja obra é uma coisa em forma de assim. Não é o caso de Sousa Pinto, ilustre político português, deveras útil à nação, que tem feito coisas muito relevantes e sem dúvida significantes tais como certas coisas que tem feito. Não obstante, olhamos para os signatários do “manifesto anti-cidadania” e sentimos no ar um certo aroma bafiento. Aquilo é tudo gente que no tempo da Mocidade Portuguesa comia o que lhe metiam no prato e calavam. Gente pura e cristalina, fardada da mioleira aos pés.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

JORNALISMO PIMBA


 

Há dias apanhei a pivot Clara de Sousa à boleia do cantor Emanuel num carrinho de golfe. Achei piada. Já não achei tanta piada ao ouvi-la recitar um poema ao som de piano teclado pelo autor de “Baby, És Uma Bomba”. Preferira que a pivot se dedicasse às receitas e à bricolage, deixando o pimba em paz com Bruno Nogueira e companhia. O mundo não é perfeito. Quis o destino, que tem as costas largas, que eu voltasse a ver Clara de Sousa em figuras tristes poucas horas depois do episódio com Emanuel. Ontem, dando continuidade a uma perseguição à Festa do Avante, que o canal para o qual trabalha tem promovido com horas a fio de desinformação e de manipulação de notícias, opiniões públicas e comentários sucessivos sem um segundo sequer de direito a contraditório, Clara de Sousa introduziu mais uma peça de ataque à Festa com uma putativa capa do The New York Times. Sucede que a capa era falsa, uma das muitas manipulações da extrema-direita com a qual a SIC quis alinhar. O verbo querer é aqui aplicado com propriedade. O Polígrafo, parceiro mediático da SIC, já havia desmentido aquela capa horas antes de ela ser usada. O pedido de desculpas que foi feito só prova quão mau pagador e sonso é aquele canal. Tratando-se de um lapso, é sinal de incompetência atroz. Recordemos o episódio de Março, em que o mesmo canal emitiu um vídeo de Londres, datado de 2011, como se fosse do ano corrente. Ricardo Costa disse então: "A peça foi retirada do ar e seguir-se-á um pedido de desculpas público. Foi um erro absurdo de falta de verificação básica de um vídeo que estava a circular. Obrigado pelo aviso". Sublinhemos: “erro absurdo de falta de verificação”. Pois bem, o mesmo erro parece ter-se tornado regra da SIC. Ninguém verifica nada. O canal que pretendeu afirmar-se pela competência informativa, trazendo para a linha da frente um Ferrão detector de mentiras de Polígrafo em riste, brinda os seus telespectadores com duas fake news, transformando-se, deste modo, num propagador de notícias falsas e sensacionalistas. A “correiodamanhãzização” da SIC é uma evidência, com uma redacção de gente disposta a fazer fretes em nome do sensacionalismo mais ordinário. O Opinião Pública com Carneiro Jacinto do dia de ontem foi o prenúncio da desgraça total de um canal afundado numa perseguição sem sentido. Quem tenha visto aquele espectáculo deplorável, precedido dos comentários alienados de Bernardo Ferrão no Jornal das 2 do dia anterior, apercebeu-se do que a figura triste de Clara de Sousa veio apenas tornar claro como água: a SIC está-se nas tintas para a informação. É toda ela entretenimento, espectáculo pimba ao serviço da mentira e do populismo. Mais uma razão para ir à Festa do Avante, onde o crítico de televisão Mário Castrim será recordado para que nos lembremos todos de como as redacções de informação destes canais cederam às fúteis passadeiras vermelhas do espectáculo.


P.S.: e não esquecer o estranho caso do embarretado.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

UM POEMA DE MAHMOUD DARWICH

 


III

 

Letras brancas num quadro preto inspiram o assombro do amanhecer no campo. Como água vagarosamente deitada num cântaro que nunca enche, absorveste a forma incompleta e o seu som torturando a garganta para a subjugar ao poder do signo, submetendo a boca ao que o olho vê.

Quando a uma letra se junta outra quando a um absurdo se junta outro , uma forma obscura desvenda a clareza de um som, e essa clareza lenta permite ao significado adquirir a forma de uma imagem. Três letras convertem-se numa porta ou numa casa. Logo, letras letárgicas, sem valor algum quando isoladas, constroem uma casa quando unidas.

Que jogo este! Que magia! O mundo nasce gradualmente das palavras. A escola torna-se o recreio da imaginação. E corres para ela com o regozijo daquele a quem é prometida a dádiva da descoberta. Não apenas para decorares a lição, mas para confiares no poder de dar nome às coisas. Tudo quanto está distante se aproxima. Tudo quanto está fechado se abre. Se não te enganares na ortografia de «rio», o rio correrá na folha do teu caderno. E também o céu se converterá num dos teus haveres se não errares no ditado.

Tudo quanto está para lá do alcance das tuas minúsculas mãos delas será propriedade se adquirires a mestria da escrita sem defeito. Quem escreve uma coisa, possui-a. Cheirarás o perfume da rosa na tā´ final que se abre como um botão. E saborearás a amora de duas maneiras: na tā´ unida e na que está aberta como a palma da mão.

As letras estão à tua frente, liberta-as da sua neutralidade e brinca com elas como quem abre caminho no delírio do universo. As letras são inquietas, anseiam por uma imagem, e a imagem é ávida de significado. As letras são potes de barro vazios, enche-os com o desvelo da primeira conquista. As letras são um apelo mudo em seixos dispersos no caminho para o significado. Esfrega uma letra contra outra e uma estrela nascerá. Aproxima uma letra de outra e ouvirás o som da chuva. Põe uma letra em cima de outra e verás o teu nome desenhado como uma escada com poucos degraus.

Todas as letras esperam a forma, o ser, procuram a mão destra que crie a necessária harmonia. Apenas precisas de dar nome com a tua mão aos seres que já conheces e aos que mais tarde se te apresentarão.

A forma isolada da letra nuun fascina-te como uma tigela de cobre capaz de guardar uma lua cheia. Ecoa e anseia pela plenitude, todavia nunca a logra. Nunca pára de ecoar, por mais que se afaste, ou por mais que tu te afastes. Crescerá em ti e tu nela. Devolve-te o ânimo e aquieta-te as ansiedades como um amor persistente, aproximando-te dos outros. O nuun feminino, o dual e o plural, o coração do anā, as asas livres do nahnu. A al-Rah mān levar-te-á à fé tomado de júbilo, pelo que amarás a Deus e te livrarás da inquietação da primeira pergunta: Quem criou Deus?

Amas a poesia, e o ritmo que a letra nuun incita transporta-te a uma noite branca. Palavras que transformam a paixão de um cavaleiro: antes amava fazer guerra por um poço, agora fá-la por uma princesa raptada na terra dos génios. A história é sempre falha sem a trindade que o cavalheirismo, a poesia e o amor formam. Destinos com os quais tanto a espada como o poema lutam, em que nenhuma vitória é possível a menos que ambos estejam juntos. Nenhuma tribo triunfou sem poeta e nenhum poeta triunfou sem ter sido derrotado no amor. 

Quando os últimos convidados na reunião em casa do teu avô saem e ele te leva para a cama, as velhas histórias já te preparam para lhes prolongares a imaginação nos sonhos. Umas vezes, continuarás as batalhas de Antara; outras, as de al-Muhalhil. Entrarás em divisões que desconheces à medida que uma história convida outra nas intermináveis noites de Xerazade. Tornas-te parte de uma história num mundo mágico que em nada se assemelha ao que te rodeia.

E assim nasceu em ti o fascínio pelo ritmo e pelas histórias.

Estavas num lugar remoto e desconcertou-te o fio rompido entre realidade e imaginação, entre guerra narrada e guerra testemunhada.

Uma tarde, viste as mulheres do bairro em vaivém excitado; transportavam na cabeça sacos cheios de pedras que amontoavam nos telhados como munições. Os homens estavam ocupados a martelar pregos nas pontas dos paus. «O que é que se passa?», perguntaste. Disseram-te: «Amanhã de manhã começa uma guerra entre os dois grandes clãs da povoação. Temos os nossos parentes como aliados e eles também têm aliados. Mas triunfaremos.» Não perguntaste qual o motivo da guerra. Seria talvez o tédio ou a disputa da sombra de uma árvore, ou talvez consequência de uma história inventada. Todavia a batalha, que se prolongou até à noite, não teve mortos nem vitória. Abriu as portas do cárcere aos combatentes e fechou a porta das histórias em casa do teu avô. Choraste a pobreza das noites e tiveste de completar as histórias sozinho, na medida dos teus sonhos, sem narradores nem ajudantes!

Quanto às letras brancas no quadro preto, racharam como cal bolorenta por culpa de um pesadelo que te perseguiu até à escola: O meu pai morreu? Quando o professor te perguntou: «O que significa esta frase? “Espera até o carro passar.”», respondeste distraidamente: «Significa que, se vir um carro na estrada, não devo avançar antes de o carro buzinar.» O professor riu: «O que é que “passar” tem a ver com “buzinar”?» Replicaste: «Não é a mesma coisa? Os carros buzinam quando passam.» Repreendeu-te: «”Passar” significa “atravessar”.» Ainda hoje, sessenta anos depois deste revés linguístico, ouves a buzina de cada vez que escutas e lês a palavra «passar». Ris de ti para contigo do dom que os nossos primeiros erros têm de ficar gravados em pedra. Perguntas: Quando me curarei da definição do todo pela parte? A pena não é o pássaro, a árvore não é a floresta, nem a soleira a casa.

Mas as palavras são seres. O jogo enfeitiçar-te-á até dele fazeres parte. Passarás a vida a defender o direito que o jogo tem de te atrair para o labirinto enquanto ao trais para o humor. Lês sem compreenderes o que lês, portanto lês mais, desfrutando do talento das palavras para o desvio do mundano. As palavras são ondas. Aprendes a nadar seduzido por uma que te cobre de espuma. As palavras têm o ritmo do mar e o chamamento do mistério: Vem a mim em busca do que desconheces, vozeou-te o azul. Salvaram-te a sorte e quem vigiava a praia da separação definitiva do som das palavras. A alforreca continuou a picar-te, mas nunca perdeste o amor ao mar, a fonte do ritmo primordial. Como pode o mar ser aprisionado em três letras, a segunda das quais transborda de sal? Como podem as letras ser tantas palavras? Como podem as palavras ter espaço suficiente para abarcar o mundo?

Cresces devagar e facilmente. Desejas poder saltar mais depressa na corrida rumo a um amanhã no qual domarás as palavras e declamarás poesia zelosa, impelido pela força do amor e pelo dever de defender a tua tribo. O que é secreto e está escondido desvenda-se quando as palavras se revelam à consciência. Não é um jogo, como julgavas, mas o manifesto que observa o latente e o latente que emerge no manifesto. Convertes-te nas palavras e as palavras convertem-se em ti. Não sabes a diferença entre enunciador e enunciação. Chamarás ao mar um céu invertido; e o poço, o cântaro que protege o som do vento; e ao céu, o mar que pende das nuvens.

Há algo envolto em mistério. Não pode ser cheirado, tocado, provado nem visto. É o que faz da infância um sexto sentido. Chamaram-te «sonhador» pelas tantas vezes que deste às palavras asas que os adultos não viam. Provocaste o mistério e converteste-te em estrangeiro.

Ergue-te deste branco!

Volta a ser criança. Ensina-me a poesia. Ensina-me o ritmo do mar. Restitui às palavras a sua inocência primeira. Faz-me nascer de um grão de trigo, não de uma ferida. Faz-me nascer e devolve-me a um mundo anterior ao significado para que possa abraçar-te na erva. Ouves-me? A um mundo anterior ao significado. As árvores altas caminhavam connosco enquanto árvores, não enquanto significado. A lua despida rastejava connosco. Uma lua, não um prato argênteo. Volta a ser criança. Ensina-me a poesia. Ensina-me o ritmo do mar. Toma-me pela mão para que possamos atravessar juntos o abismo que separa a noite do dia. Juntos aprenderemos as primeiras palavras e construiremos um ninho secreto para o pardal, o nosso terceiro irmão. Volta a ser criança para que eu possa ver o meu rosto no teu espelho. Tu és tu? Eu sou eu? Ensina-me a poesia para que eu possa escrever-te uma elegia agora, agora, agora. Como tu ma escreves a mim!

 

Mahmoud Darwich, in Na Presença da Ausência, tradução de Manuel Alberto Vieira, Flâneur, 1.ª edição, Outubro de 2018, pp. 27-32.

 

Notas: Tā´: terceira letra do alfabeto árabe. Nuun: vigésima quinta letra do alfabeto árabe. Na grafia árabe, assemelham-se, respectivamente, a uma rosa e a uma tigela. Al-Rahmāan (O Misericordioso): 55.ª sura do Alcorão, caracterizada pela musicalidade (e rima) da letra nuun. Mahmoud Darwich nasceu em al-Birwa, localidade palestina na Galileia. Aprendeu a ler com o avô. Depois de as tropas israelitas invadirem a povoação onde vivia, em 1948, a família fugiu para o Líbano. Mais tarde fixaram-se em Deir al-Asad, uma cidade árabe da Galileia. Publicou o primeiro livro de poemas com apenas 19 anos. Deixou Israel para estudar na União Soviética, juntando-se posteriormente à Organização para a Libertação da Palestina. Foi então proibido de voltar a entrar em Israel. 30 livros de poesia publicados fizeram dele um dos mais relevantes autores da literatura árabe contemporânea, traduzido em inúmeras línguas e com diversos prémios amealhados. Padecendo há muito de problemas cardíacos, faleceu no dia 9 de Agosto de 2008. Originalmente publicado em 2006, “Na Presença da Ausência” é um livro inclassificável no género. Poema em prosa onde confluem memórias e pensamento político, testemunhos dolorosos do exílio e belíssimas metáforas da infância e do passar do tempo, ecoando aqui e acolá os males da guerra e reflexões acerca da identidade, da morte. Uma linguagem metafórica, nostálgica, elegíaca, que não abdica de uma inscrição no processo histórico: «Escreverás, pois, sobre História, não sobre mito.» Escritos em prosa, os textos deste livro encerram por vezes com versos onde não se nota qualquer diferença em termos de variação rítmica. A voz que ecoa no imo das frases assombra-nos, quer pelo tom auto-reflexivo e biográfico de algumas passagens, quer pelas paisagens que vai evocando com simplicidade. Extraordinário livro onde à metáfora é atribuído o dom de tornar presente o ausente.

domingo, 30 de agosto de 2020

HIPOCRISIA

Detesto hipocrisia. A hipocrisia é o vício mais corrosivo das sociedades modernas. As pessoas queixam-se do cinismo, umas sem saberem do que estão a falar, outras por desgraçadamente desprezarem o sentido de humor dos cínicos. O pior de tudo é a hipocrisia. É o democrata que actua como tirano, cerceando a contradição e impedindo o debate crítico. É aquele que se diz comunista e se comporta como um fascista. É o liberal que actua como um conservador moralista. É o moralista sem moral alguma, porque arrivista e egocêntrico e chico-esperto. É o social-democrata que se confunde com o socialista na esmola que dá ao pobre para se isentar dos crimes que comete e do egoísmo que o motiva. É a ausência de coluna vertebral, uma sociedade de invertebrados sem palavra em que se confie ou acções que possam inspirar.

sábado, 29 de agosto de 2020

UM DIA


 

Um dia não escreverei mais. Um dia não escreverei mais esta palavra mais. Um dia não escreverei mais este texto. Porque um dia não escreverei. O que já está escrito. Nem mais nem menos,. Porque este porque não pertence a este jogo. Um dia não escreverei ainda mais este poema.

Agora chega uma palavra que não é mais esta que escrevo. Porque a palavra esta não é esta nem um dia é o dia em que sequer escreverei alguma coisa mais. Alguma coisa é que é semelhante a algures.

Muda-se a semelhança muda-se o disfarce muda-se o espaço no espaço de uma só folha de papel. Escrevo. Já não escrevo agora o que comecei a escrever aqui algures. Porque não se escreve duas vezes a mesma coisa e muito (muito) menos a mesma palavra (palavra) porque. Já não há causa (coisa) alguma que motive algures o que alguma vez foi/é sentido durante a escrita da mesma (mesma) palavra.

Escrevo esta palavra para que se veja outra palavra. Assim porque é diferente o sentido (sentimento) é diferente o sentimento (sentido). Isto porque a razão não se aprisiona nem (nem) numa metáfora é liberta. E muito menos eu sei o que escrevo quanto mais porque. 

E no entanto prossigo (persigo) na expectativa de saber porque. Porque não é antes (mas) depois que o texto é. A maior densidade liquefaz-se como ainda contida dentro da caneta. Há uma subtil esperança em tudo o que aí se contém. Que isto já esteja escrito incluindo a dúvida de que já esteja escrito. A originalidade impregna-se do desprezo do emprego da razão que está obviamente longe (longe) do sentido apolíneo do polo oposto escrito com as mesmas letras que estão dentro líquidas do corpo da caneta. Isto é um anacronismo porque as canetas já não escrevem nem já (já) nem antes (nem) alguma vez escreveram tal como nas rochas paleo-neo-líticas duras demais escuras de mais para uma tinta preta. Para uma tinta branca que agora se espalha nas teclas informáticas e os electrões viajam.

Um ponto final ficaria aqui bem. Ponto porque final. Final porque se recomeça sempre a despalavra e os extremos nunca se trocam mas os meios confundem-se pelos pontos.

Um dia não escreverei mais. Um dia mais e não escreverei. Porque hoje é um dia que se transfere para um outro dia. Um lugar que se adia para outro ódio. Uma hora liberta para outra fuga. Um centímetro extenso de galáxias expansivas. Um infinitamente pequeno de sentimentos perfeitamente claros e inexplicáveis. Um dia não escreverei mais esta palavra mais. Nem esta palavra menos. Nem menos esta palavra nem. Um dia nem. (Nem este texto faz parte deste texto). Nem.


E. M. de Melo e Castro (n. 1932 - m. 2020), in Entre o Rigor e o Excesso: Um Osso, Afrontamento, 1994, pp. 81-82. «E. M. de Melo e Castro é um dos nomes mais interventivos do Experimentalismo português. Desde o início da década de 60, tem apresentado uma intensa e representativa actividade, quer no âmbito da criação poética, quer no campo da reflexão teórica sobre a poesia experimental, tendo sido, no início, o seu principal teorizador. Em 1962, a publicação de Ideogramas constitui um marco: trata-se do primeiro livro de poesia escrito em Portugal de acordo com os princípios programáticos do Concretismo. São patentes, num primeiro momento, as ligações de Melo e Castro aos concretistas brasileiros (grupo de Noigandres), mas a obra deste autor vai delineando um percurso singular que dialoga com referências intertextuais de outras latitudes. E. M. de Melo e Castro tem desempenhado um papel decisivo no que diz respeito à divulgação no estrangeiro da poesia experimental portuguesa» (Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro, in Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Angelus Novus, 2004). «Com Maria Alberta Menéres organizou, actualizada em 1961, em 1971 e em 1979, a mais informativa Antologia da (então) Novíssima Poesia Portuguesa, tem uma já considerável bibliografia de textos originais, entre eles: Entre o Som e o Sul, 1960; Mundo Mudando, Ideogramas, 1962; Concepto Incerto, poesia visual, 1977; Autologia - Poemas Escolhidos - (1958-1978), 1983. Reunião de 40 anos de obra: Trans(a)parências, 1990» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

ACORDAR?

 Duas percepções deprimentes da actualidade: a jornalista bêbada e a cidadã histérica.

 

Primeira: odeio a CMTV, um canal que tem tudo para ser objecto de repúdio. Não a jornalista alcoolizada. Se alguma coisa há que deva ser criticado nas imagens que por aí circulam, é a pulhice dos colegas de trabalho que as meteram a circular. Há muitas razões para uma pessoa beber, poucas para trabalhar alcoolizado. O que vejo naquelas imagens é doença. Não gozo com a doença.

 

Segunda: detesto Marcelo Rebelo de Sousa, ainda que depois de Cavaco o julgue um anjo na Terra. A abordagem que lhe foi feita na rua, por uma cidadã revoltada de telemóvel erguido, porventura transmitindo em directo ou gravando a actuação (com que intenções?), é o espectáculo da demagogia. Aquele telemóvel é uma arma, aquela interpelação não pode ser respondida naquelas circunstâncias. Marcelo hesitou, sabendo que sairia sempre a perder, apesar de a cidadã em causa demonstrar não entender ou não querer saber das regras que determinam o jogo democrático. Se soubesse, não perguntaria a Marcelo por que não demite o Governo? Não diria sequer que é ele quem mais manda, pois não é. Quem manda mais é a Assembleia da República, onde é suposto o povo estar representado em função de resultados eleitorais. A última pergunta que é feita a Marcelo, deixando-o sem palavras, também é muito popular entre as gentes: quer trocar comigo? Imaginemos que Marcelo dizia que sim. Para simplificar, imaginemos que a pergunta era feita a Cristiano Ronaldo e não ao presidente. No fundo, o que estava em causa era a discrepância de rendimentos auferidos pelo Presidente e pela Cidadã. Imaginemos então que Cristiano aceitava trocar de lugar com a Cidadã. Quem gostaria de ver esta a jogar à bola?

 

Se é a esta demagogia que chamam "acordar", bem podem os portugueses ficar preocupados. Não tarda estaremos como o Brasil.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SCALINATELLA



 

8.
 
Desfez-se a coroa de geleia que rodeava
a cidade. Aqui nasci entre fuligens
e gente escrupulosamente perdida,
blues sangrado numa harmónica afiada,
e a minha boca não mais
beijou a pureza.
Alteraram-se-me os ossos quando vi
essa grande nuvem, funesto cavalo marinho,
abater-se sobre o porto incompetente,
sobre os estendais ataviados de suor,
sobre a fotografia da minha
família estafada.
Agora não havia história, era eu e o mar
misturado aos humores do céu,
novamente o blues e o seu esgar de nojo,
a sua esmola de amor.
Nunca pensei em estudar nada que me fosse útil.
Para isso haverá revólveres e pneus,
e nenhuma coisa que a essas se assemelhe
me poderia curar do que tenho.
Algodões infectos, balões de soro que flutuavam
pelos tectos fugidios e encardidos,
o meu médico soube de imediato que eu haveria
de levar outra vida: era o blues.
Quando me suceder parar a meio da praça,
onde já o subterrâneo freme nos carris de outra poesia,
penso na serena convulsão das cidades,
desmontando-se e montando-se como os dentes
de um louco que a minha insónia me oferece,
tantas vezes empoleirado no tamborete azul
onde a minha cozinha encontra repouso.
E o meu bairro é uma cadência dos campos de algodão,
esses sim puros, ternamente mastigados
pelo sol da existência,
e sempre um comboio bolçando enormes chifres
de carvão, para que no firmamento se escreva
a minha (?) luta intestina.
A morte vencerá, é claro, exceptuando talvez
se lhe adiantarmos tudo: celofanes, selos timbrados,
vasos de flores, cada porta
do nosso ódio.
A coroa de geleia escorre crepuscular,
partiu um táxi provavelmente destinado ao coração
do desemparo, raparigas saltitam pelo elástico
do meu silêncio, e eu, que tenho estado quieto,
acendo-me de relâmpagos, como a boca do vulcão,
e esfrangalho o ar com o meu
blues meridional.
 
 
Vasco Gato ( n. 1978), in Napule (2011). Em 2016 reuniu num só volume, intitulado “Contra Mim Falo” (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), toda a sua produção poética desde “Um Mover de Mão” (2000). Alterações ligeiras em alguns poemas demovem-nos de considerar ter havido nesse volume uma intenção de reorganizar, sendo mais exacto falar de um ligeiro apuramento que não alterou significativamente as características iniciais de cada um dos títulos coligidos (12 ao todo). A busca inicial de uma linguagem pura começa por aproximar da Natureza a poesia de Vasco Gato, num tom intimista onde o desamparo e a fragilidade do humano se revelam no confronto com a grandeza do universo. Não há-de ser por acaso o interesse pela expressão poética ameríndia, assim como a epígrafe pedida de empréstimo a Thoreau para um dos primeiros poemas. Na senda do que vislumbramos em Herberto Helder, uma das influências mais evidentes na poesia deste autor, o encontro com o mundo natural edifica uma voz em relação com um outro que ao segundo livro assume contornos algo místicos, misteriosos, esotéricos: «É possível a intimidade com o mistério». A poesia aparece enquanto experiência desta intimidade, enquadrada em paisagens enigmáticas, porventura oníricas, de recolhimento e de retiro interior. Muito dissemelhante na forma, a poesia de Vasco Gato começa porém a sofrer uma certa inflexão com o poema longo “Lúcifer” (2003). É aí que encontramos o gérmen de uma poesia mais sua, descolando-se das óbvias e naturais influências: «Há muito que desejo romper / este cordão umbilical, ampliar-me». Este poema é o pórtico para um lirismo altamente conseguido quando encena dramas amorosos, colocando no tabuleiro metafórico a identidade do sujeito poético — “A Prisão e Paixão de Egon Schiele” (2005) —, ou quando se apropria de referências culturais várias para indagar os princípios do poético —“Omertà” (2007) —, ou simplesmente quando assume a queda desamparada do sujeito num real que estilhaça com inteligente sentido crítico. O «país de amputados» em “Rusga” (2010), o mediterrâneo de “Napule” (2011), o «leito quotidiano» de “A Fábrica” (2012), resultam como que preâmbulos a uma carta de pai para filho, nesse extraordinário “Fera Oculta” (2014), onde os podres do mundo assomam ao poema fazendo deste, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, lugar de denúncia e de libertação. Sem cederem ao facilitismo de um registo meramente acusatório, de tipo confessional, politicamente interventivo, civicamente empenhado, quase sempre datado, estes poemas de Vasco Gato equilibram com mestria o que há do mundo no indivíduo e o que pode haver do indivíduo-sujeito-poético no mundo.