Fui à Nazaré averiguar como estamos de distanciamento
social. À excepção da Feira do Livro, onde aproveitei para fazer umas
comprinhas, não vi covid-19 em lado nenhum. A marginal estava repleta de
comunistas nos treinos para a Festa do Avante e a praia, apesar do vento, foi
ocupada por gente preocupada com o 1 de Maio de 2021. São Martinho do Porto,
que é mais maneirinho, também está transformado num viveiro de comunas. Que
saudades dos tempos do Prado Coelho, do La Féria e da Brito e Cunha, que por
ali veraneavam precavendo distâncias. Não tirei fotografias para não chocar
católicos, mas trouxe da Nazaré este conjunto de retratos de uma exposição
antropoetnográfica sobre o mundo actual em particular e o nosso país em geral.
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domingo, 26 de julho de 2020
domingo, 26 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #11
Dei com uma senhora muito bem
penteada na fila do Staples. Equilibrava-se invejavelmente sobre uns saltos que eu
desaconselharia a qualquer ser humano, até porque sofro de vertigens. Fiquei a
pensar onde teria arranjado o cabelo. Atrás dela estava outra senhora, não tão
produzida, mas com uma máscara que me deixou cismático. Quando era miúdo tinha
dificuldade com os atacadores. Já mais crescido, meu pai perdeu horas a
tentar educar-me em nós de gravatas. Em vão as perdeu. Imagino que deva ser
necessária muita destreza para usar uma máscara com o aparato da que vemos na
imagem. Eu continuo em pânico com as máscaras. Já experimentei uma viseira e
senti-me como uma personagem do filme "Massacre no Texas". Se me vir
obrigado a andar com uma coisa destas, acho que vou prolongar a quarenta para
lá da quarentena. Só sairei de casa quando houver vacina. E me medicarem contra
a agarofobia.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #10
Espero pela Ana à porta da praça improvisada no pavilhão
da Expoeste. Não entro porque não consigo usar máscara, julgo preferível
manter-me distante a arriscar um ataque de pânico. Vejo pessoas com máscaras no
queixo. Outras, mais originais, penduram as mascarilhas nas orelhas como se
fossem brincos. Suponho que algumas senhoras aproveitem para comentar as
máscaras umas das outras como antes comentavam adereços e indumentária. Não
entendo por que não enfiam luvas no nariz.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #9
As gaivotas andam loucas, de dia para dia ameaçam tomar
conta do bairro. Detesto gaivotas, a sorte delas é ninguém as querer comer. Mas
elas atacam os pombos. Não tivesse eu fobia a pássaros, importaria bandos de
águias para darem cabo das gaivotas. Sou como os gatos que assomam às varandas para
contemplarem suas presas. Mesmo enclausurado, não deixo de contemplar as minhas
presas. É exercício que me oferece a ilusão de uma certa liberdade. Passa-se
exactamente o mesmo na vida em rede. Somos reclusos a cumprir pena por crimes
de que nos julgamos injustamente condenados, mas nem por um segundo deixamos de
espreitar inimigos através das assépticas janelas virtuais que nos conservam obedientes
e cumpridores garantindo... distanciamento social. Infelizmente, não temos a
inteligência dos gatos. Guerreamos sem garras nem dentes, apenas palavras
domésticas, esbatidas, cansadas, dolentes. Que digo eu? As palavras parecem-me
todas iguais por estes dias, tudo me parece repetido e entediante, monótono,
fastioso, aborrecido. Sem a vida das ruas, é como se as palavras começassem a
patinar na sua própria história perdendo sentido e significado. A experiência
atribuí-lhes um travo a selvajaria, reforça-as e reanima-as de crueldade, matiza-as
de duplos e triplos e brutos sentidos. Domesticadas, redundam anódinas como
gatos ronronantes em varandas mil e uma vezes varridas ao longo de um dia,
outro dia, mais um dia. Como se não bastasse frecharem-nos em casa, querem-nos
agora de máscara no rosto. Odeio tanto as máscaras como detesto gaivotas.
Quando criança, minha mãe mascarava-me por alturas do carnaval e exigia-me que
eu fosse feliz. Sofria com as gargalhadas burlescas do entrudo como uma criança
sofre quando é castigada no meio da sala de aula. Gerou-se dentro de mim um
nojo a máscaras e um medo de mascarados do qual nunca mais me refiz. Agora
querem que me mascare, dizem que é para meu bem. Tento distrair-me desta paranóia
sanitária, que mete todos a cuidarem de todos, refugiando-me entre o pó dos
livros, mas não consigo ler, a concentração resvala amiúde da página para o
necrológio em que o mundo se transformou. Pego na guitarra e improviso melodias
ao som de trovoadas, os relâmpagos iluminam-me as noites, saio para caminhar
4000 passos, imiscuo-me no vazio das ruas da cidade vislumbrando em plena noite
um indivíduo com óculos escuros a caminhar aos esses, regresso a casa ao som de
“Peer Gynt” e com a preocupação antecipada de higienizar as mãos antes de
voltar a tocar nas minhas filhas. Há dias aproveitámos o dia mundial do beijo
para rever “Cinema Paraíso”, do Giuseppe Tornatore. Quem se recorde da
sequência final perceberá o vínculo, quem a tiver olvidado poderá procurá-la onde
tudo se encontra com a maior das facilidades: na Internet. Só duas coisas não
se encontram na Internet, aromas e texturas com que entreter os mais
sacrificados dos sentidos. Além da sequência dos beijos, há aquela cena do
filme em que Alfredo, já cego, pede a Toto que o leve a passear até ao mar.
Tornatore enquadra o diálogo entre os dois amigos com imagens de âncoras
espalhadas pelo cais. Não são meros adereços, são uma espécie de coro com a
função dramática de nos anunciarem o afastamento de Toto das suas raízes, a
necessidade de se libertar partindo, saindo, deslocando-se na direcção de um
futuro que não obrigue a olhar para trás, sem nostalgia nem a melancolia arrastada
de um saudade tão nossa. Nunca desesperei tanto por momento igual.
sábado, 4 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #8
Entre as diversas ocupações que podemos desenvolver
durante a quarentena, contar grãos de sacos de arroz é uma delas. Ler todos os
volumes de “Em busca do tempo perdido” será outra. Eu fico-me por tentar
responder a um questionário de Proust. Eis o resultado:
Qual é a sua ideia de felicidade plena?
Um sono descansado, profundo, silencioso.
Qual é o seu maior medo?
Perder um filho.
Qual é a característica que mais detesta em si mesmo?
Insegurança.
Qual é a característica que mais detesta nos outros?
Soberba.
Que pessoa viva mais admira?
Admiro predicados, não admiro sujeitos.
Qual é a sua maior extravagância?
Banhos demorados. Muito demorados.
Qual é o seu estado de espírito mental?
Pessimismo da razão, optimismo da vontade. Respiguei-o no exemplo de vida de um
indivíduo que tinha tudo para ser apenas pessimista: Antonio Gramsci.
Qual considera ser a virtude mais sobrestimada?
A coragem.
Em que ocasiões mente?
Quem conta um conto acrescenta um ponto.
O que menos gosta na sua aparência?
Penugem por todo o lado.
Que pessoa viva mais despreza?
Todas as pessoas que desprezem pessoas.
Qual a característica que mais aprecia nos homens?
A rectidão.
Qual a característica que mais aprecia em mulheres?
Esfericidade.
Que palavras ou frases usa excessivamente?
Estou farto desta merda toda.
O quê ou quem é o maior amor da sua vida?
Isso não é pergunta que se faça a um homem.
Onde e quando foi mais feliz?
Sempre que consegui sair de mim mesmo. Dormindo profundamente, por exemplo.
Que talento mais gostaria de ter?
Funambulismo.
Se pudesse mudar uma característica em si, o que seria?
Mudaria a minha total inaptidão para ganhar dinheiro.
Qual considera ser a sua maior conquista?
Sou um falhado, pá, nunca conquistei nada na vida.
Se morresse e voltasse, que pessoa ou coisa seria?
Seria uma coisa a modos que ociosa. Ou um piano nas mãos de Khatia
Buniatishvili.
O que mais valoriza nos seus amigos?
A amizade.
Quem são os seus artistas favoritos?
Os de circo.
Quem é o seu herói da ficção?
O homem que matou Liberty Valance.
Com que figura histórica mais se identifica?
Com o Adriano da Yourcenar, que a certa altura diz: «O nosso grande erro é
querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e
desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.»
Quem são os seus heróis da vida real?
Todos aqueles que aprendem a dar sem necessidade de cobrar ou de receber pelo
que deram.
Quais são os seus nomes favoritos?
Os das operações policiais.
Do quê é que menos gosta?
De que me tomem por parvo quando na realidade o sou sem sequer se aperceberem
que tendo consciência de que sou parvo sei bem quando me estão a tomar por
parvo.
Qual é a sua aversão de estimação?
Gente racista, machista, homofóbica.
Qual é o seu maior arrependimento?
Não ter aceitado participar num seminário de línguas mortas quando era
estudante de filosofia. E ter sofrido sempre por antecipação.
Como gostaria de morrer?
Todo fodido, de preferência. Dizia o Al Berto, e eu concordo: «sei que darei ao
meu corpo os prazeres que ele me exigir. vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite
suportável, para que a morte nada encontre de mim quando vier».
Qual é o seu lema de vida?
«A vida não é maneira de tratar um animal», dizia o Kurt Vonnegut e eu
concordo.
Qual considera ser o seu maior infortúnio?
Ora porra, ter nascido. Para a minha mãe foi mais difícil.
Como gostaria de ser?
Como o homem da harmónica no duelo final.
Qual é a sua asneira favorita?
Foda-se.
Onde gostaria mais de viver?
Fora de mim.
Qual é o bem mais valioso que tem?
Como a família não tem valor, direi que é um terceiro andar junto ao bairro dos
ciganos em Caldas da Rainha.
Qual considera ser a maior profundidade da miséria?
Ó Proust, meu burguês, que pergunta de merda é esta?
Qual é a sua ocupação favorita?
Ouvir música.
Qual é a sua característica mais assinalável?
De mim já disseram que sou besta, lombriga, água-choca, brutinho, sabujo,
verme, resto de restos, caçador frustrado, ténia, etc. Dentre todas estas
características, prefiro a de verme. Tem inspirado muitos e (alguns) bons
poemas.
Se Deus existisse, o que gostaria que ele lhe dissesse?
Tu vai dormir, pá.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #7
Fui despertado pelo vento a roçar-se nos estores. Ontem,
enquanto fumava um cigarro na varanda e contava as peças de roupa no estendal
da vizinha do prédio direito, pressenti o temporal numa nuvem negra que se
avistava ao largo. Pode ser que a trovoada anuncie boas notícias. Duvido. Têm
estado umas manhãs maravilhosas em Caldas da Rainha, fenómeno raríssimo na mais
britânica das regiões portuguesas. Quase me apetece apostar que choverá a
cântaros quando derem a clausura por concluída e nos carimbarem o direito a pôr
os pés fora de casa sem prestar contas ao divino Espírito Santo. Talvez devesse
apostar. Com a sorte que tenho, perderia a aposta mas ganharia uma épica
libertação tingida de sol, luz e ar puro.
Escrevo ao som de Ravel, não do "Bolero" mas da "Tzigane". Grande malha. Aproveito as horas mortas para redescobrir
os discos de música clássica cá de casa, ao mesmo tempo que reviro as estantes abarrotadas
e dou com inúmeros livros por ler. Salto de livro em livro sem prosseguir na leitura,
prática que nunca tive e de algum modo me repugna. É como deixar comida no
prato, um desperdício, um insulto aos subnutridos deste mundo. A excepção foi “A
Mulher do Meio”, de Ivone Mendes da Silva.
Não sei se há boas e más conjugações
astrais para lermos determinado livro, mas parece-me existir algo de
misantrópico neste período da nossa história colectiva que acaba por favorecer
os gestos simples e solitários de resistência ao desencanto com que as entradas
d’”A Mulher do Meio” nos brindam. A Ivone escreve sem vírgulas, a escrita flui
naturalmente, as gralhas e os lapsos conferem aos seus aforismos diarísticos
uma sedutora autenticidade. Traçamos o perfil de quem nos escreve à medida que
avançamos, sem que tal seja particularmente relevante para que desejemos
continuar a avançar. Professora, divorciada, mãe, voluntariamente isolada no
seu mundo doméstico temperado a chá, socialmente distante: «Construo a
distância e com ela me protejo» (p. 13), «Trato a distância como um tesouro
frágil. Protejo-me dos encontros e do ruído» (p. 53). A actualidade de
«distanciamento social» politicamente infligido oferece uma ironia profética a algumas entradas :
«Tenho a paciente ambição de um dia conseguir fechar-me em
casa com curtas saídas bem espaçadas apenas para me abastecer de mantimentos e
café. Também chá. Mas talvez aí eu sinta falta dos caminhos como senti hoje que
não os procurei. Viver retirada afigura-se-me o que de melhor posso esperar da
vida. Choveu durante a tarde mas depois abriu e o céu anoiteceu rosado. Pensei
que poderia ainda ir caminhar mas recuei. Sentei-me junto à janela aberta e lá
em baixo na avenida cheirava à folhagem das tílias. Ou eu o imaginava» (Língua
Morta, Maio de 2019, p. 106).
Inofensivos, estes textos omitem quanto de
desconforto há do ser para consigo mesmo. Tal refreamento é uma vantagem para o leitor. À distância, “a mulher do meio” caminha,
cumprimenta, observa os outros, conservando-se igualmente distante para com quem partilha a lassidão quotidiana. Está entre qualquer coisa que se revela sem se confessar e qualquer coisa que se partilha sem se expor. Quando a Matilde
terminar “Os Maias” hei-de emprestar-lhe “A Mulher do Meio”.
As miúdas saíram para uma caminhada breve, como ordenam os regulamentos. Ainda não haviam passado dez
minutos, estavam de regresso. Uma sacristã mais papista do que o papa, devidamente
ajaezada na sua farda de PSP, remeteu-as ao lar com o argumento de que não
entendiam a gravidade da situação. Metidas num apartamento há três semanas, as
pobres coitadas devem ter ficado traumatizadas. O conceito de passeio higiénico
adquiriu todo um novo significado com o excesso de zelo da senhora agente: é uma espécie de banho de água fria, rápido e altamente desconfortável.
À noite
revimos “O Piano”, outra história dramática com final feliz para educação
sentimental de reclusos em desespero. Continuo a gostar da banda sonora do
Michael Nyman, mas o que mais me impressionou desta vez foi a interpretação de Holly Hunter. O que será feito dela? Depois de “Crash” perdi-lhe o rastro.
quinta-feira, 26 de março de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #6
Pensei que talvez fosse boa ideia contemplar o Atlântico
depois de tantos dias fechados em casa. Temendo desrespeitar as regras do
estado de emergência, ligámos para a PSP a indagar sobre direitos no usufruto de
miradouros e belvederes. O senhor agente deve ter-nos julgado tontos, rematando
prontamente a conversa com uma nega tonitruante. Somos um ajuntamento. Ainda pensei
fintar a classificação distribuindo o mal por freguesias, que é como quem diz
dois em cada viatura, mas logo a consciência pesou tanto sobre os ombros que a
cervical voltou a resmungar. A quem mais ouvi dizer que este país precisava de
um Salazar em cada esquina ouço agora protestos e divirto-me com as desculpas
ensaiadas para fintar os mandamentos da autoridade. Acabámos a ver passar
navios da varanda cá de casa. Não posso dizer que se esteja mal, apesar de ao
fim de tantos dias confinados o ajuntamento começar a parecer uma multidão.
Cabe a cada um a missão de tornar o espaço amplo respeitando os tempos do outro,
imprimindo ritmos ao dia que não os desvirtuem da normalidade outrora contestada.
«Se tivesse que viver um filme, ao menos que fosse um musical», desabafa a Ana,
antes de eu enfiar os auscultadores nos ouvidos para escutar repetidamente a “Polonesa
Heróica” de Chopin. Arruinada a pouca reputação que me restava com parvoíces nas
redes sociais, socorro-me de um pianista polaco para recuperar alguma consideração.
Leio na Wikipédia, inescrutável fonte de erudição, que o tal de Chopin morreu
rodeado de amigos. Eu também estou rodeado de amigos, uns espalhados ao longo
das paredes de casa, outros nas estantes atoladas de livros, e ainda aqueles
que sem se fazerem notar neste modo material de estar vão dando conta de si
rumorejando o desejo de um reencontro. Quando isto passar, dizem. E dentro de
mim despontam personagens de quando e como isto era antes de ter começado a
ser, o psicólogo de Arnaldo aconselhando-lhe vida própria, que o trabalho não
podia substituir a vida, era preciso espairecer, estirar as pernas sobre a relva
dos parques, desfrutar do convívio numa esplanada em tarde soalheira. E Arnaldo
a olhar para a lista interminável de números no telemóvel sem encontrar um a quem
achasse valer a pena ligar, hesitando, adiando, protelando para épocas de
folguedo um simples “como tens passado?”. E o psicólogo a pensar na falta que
lhe faz Arnaldo. Não se está mal na varanda, a espreitar a roupa dos vizinhos
nos estendais e a contar gaivotas no céu. Há dias pareceu-me ter avistado um
milhafre a pairar nas alturas, enquanto cá em baixo um láparo se ocultava entre
as piteiras. Barrico-me na varanda como um gato a mirar melros, pintassilgos, pardais,
pombos, rolas… Bem queria encontrar lesmas, Rita, mas para tanto basto eu.
segunda-feira, 23 de março de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #5
Há dias revimos em família “Os Condenados de Shawshank”,
pareceu-me apropriado para estes tempos de quarentena. Depois sonhei que também
eu atravessava quinhentos metros de esgoto a caminho da liberdade, dando-me
conta de que o vazadouro da minha imolação dá pelo nome de redes sociais. A
diferença está na ausência de cheiro, e nos anéis perdidos que vamos encontrando
pelo caminho. Pergunto-me se não seria preferível uma pneumonia transmissível
por contacto cibernético. Um vírus que, muito simplesmente, nos confinasse ao
silêncio absoluto, um pouco como naquele filme com a Sandra Bullock de olhos
vendados. Exagero, como se perceberá. A ambivalência é o rosto desta crise. No
sábado, por exemplo, apeteceu-me caminhar. Assim que meti os pés na rua
acorreu-me a necessidade de reabastecimento de um bem essencial: vinho. Fui
directo ao supermercado e aproveitei para, além de vinho, trazer peixe e
batatas e gelado para as miúdas. Estranhei com sincero assombro a organização,
o método, o respeito, a observância de um povo tantas vezes acusado de laxismo.
Por outro lado, lembrei-me que aguentámos cinquenta anos de quarentena no
século passado. Nada de novo, portanto. Acontece que agora o respeitinho é para
bem de todos. E isto faz de mim, contra minha vontade, um predador de ternura.
Sempre que saio à rua apetece-me abraçar toda a gente e inundar as pessoas com beijos, até a empregada do supermercado que me vendeu peixe podre. Lá dei o meu
passeio a pé, em isolamento para não contaminar ninguém com a minha
ambivalência. E fui pensando em coisas parvas, como num Index Musicorum
Prohibitorum, enquanto assobiava o “Encosta-te a Mim” do Jorge Palma. Chegado a
casa, desinfectei o corpo com uma ensaboadela geral. O dia da poesia foi o mais
difícil de todos. Não por ter sido da poesia, mas por causa de uma publicação
que as minhas irmãs se lembraram de fazer. Dou com o meu pai e a minha mãe numa
fotografia, rodeados da equipa com que há 37 anos nos governam a partir de uma
loja, na vetusta mas cada vez mais desértica e abandonada rua das montras de
Rio Maior, onde se vendem peúgas, calças, cuecas, camisas, e tudo o que demais
precisamos para cobrir um corpo. Na “República” de Platão eram três as
necessidades básicas: comida, abrigo e roupa. Dois mil e quinhentos anos depois
mantém-se a comida no topo da pirâmide. Farmácias e bancos encarregar-se-ão do
resto. Perdoem-me que discorde. Necessidade mais básica do que os meus pais não
tenho. Desconfio que não seja por outra que agora quedamos fechados em casa,
contribuindo, paradoxalmente, para um céu menos poluído e, talvez, um futuro
mais equilibrado. Apesar da tormenta dos mercados.
sábado, 21 de março de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #4
O dia amanheceu brumoso, com uma chuva tímida a inspirar sensações de higiene que as páginas dos jornais se encarregam de
desmentir. A incúria de alguns líderes mundiais assume contornos de barbárie. O
mais provável é virem a passar incólumes por entre os pingos, sem que algum dia
sejam julgados pela irresponsabilidade, pela negligência, até pelos gestos
mafiosos. Não me eximirei de os acusar, mesmo
reconhecendo o efeito anódino das minhas acusações. É uma questão de salubridade mental. No
topo da inconsciência encontramos alguém cujo nome se torna difícil de pronunciar
sem que fiquemos com uma sensação de imundície na garganta. Insistindo na ideia
peregrina de um “vírus Chinês”, Donald ziguezagueia como mosca em
torno de um monte de trampa. Tudo podemos esperar deste gangster, desde o
negacionismo inicial ao aliciamento de um laboratório farmacêutico alemão,
passando pela injecção de teorias conspirativas acerca de putativos ataques à
economia norte-americana. Concentro-me na imagem de uma rola que, impávida e serenamente, se mantém quase oculta na ramada de um velho eucalipto. Temos muito a
aprender com os animais, mais ainda com aqueles que conseguem escapar aos
garrotes da domesticação. Invejo a serenidade da rola pousada no ramo, tento
adoptar o mesmo sossego nos meus gestos quotidianos. Não abdico, porém, de
pensar naqueles que no terreno se esforçam para garantir uma certa normalidade e
nos levam a sentir vergonha da raiva com que censuramos a modorra e o tédio dos
dias comuns. Uma distância enorme separa os que mais não têm senão o seu
próprio umbigo daqueles que se mantêm ligados ao mundo por um cordão umbilical
de partilha e de solidariedade. Não sendo os tempos propícios a clivagens, talvez
de algum modo possam favorecer esta ideia: foi num tempo em que nos exigiram distância
que mais próximos uns dos outros estivemos.
sexta-feira, 20 de março de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #3
Foi um dia do pai atípico. Telefonei ao meu pela manhã, dei
por mim a reconfortá-lo com o mal dos outros. Podia ser pior, se não tivéssemos
um SNS que nos acode e um país que só para cegos de espírito pode ser chamado
de terceiro-mundista. Calhou-nos agora primeiro, a "nós" que nos autoproclamamos
de civilizados e dotados de culturas superiores. Dado a memória ser curta e a
vista alcançar ainda menos, esquecemo-nos de que lá por fora o ébola e a cólera
são ameaças permanentes. Temo pelos sem-abrigo, sem lar onde se recolherem,
pelo viciado, sem carros para arrumar que garantam a dose diária, temo por quem
não consiga permanecer em casa sem ver os pés a enterrarem-se num pântano de
dívidas. Somos um país de gente a viver à jorna, sem pé-de-meia e solas rotas.
Temo por esses para quem o desespero é estar em casa. Nós seremos o persa da vizinha, a saltar de varanda em varanda.
Ou o gato malhado do prédio defronte, estirado no umbral da janela a observar
os pombos que aterram no parque vazio para depenicarem migalhas. Talvez a idade me tenha incutido um optimismo desmesurado, mas de que me vale não sê-lo nestes tempos em que se torna ainda
mais evidente o quão frágeis, débeis e perecíveis somos? Varridas para debaixo
do tapete as guerrinhas inúteis, ridicularizadas as vaidades mesquinhas,
resta-nos irmos valendo uns aos outros na esperança de que alguém nos valha. Concentro-me na mensagem que a Matilde me deixou
no Facebook, na fotografia onde nos abraçamos fortemente com a Nazaré em pano
de fundo. Foco-me no desenho que a Beatriz de nós fez, no cuidado que teve a
pintar uma moldura velha onde surgimos rejuvenescidos pelo carvão do seu traço.
Tento convencer-me de que a vida é simples como um destes gestos permite
apurar. Não preciso tentar muito, estou convencido.
quarta-feira, 18 de março de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #2
Mantemos os despertadores programados na hora a que é costume
levantarmo-nos, conferindo também desse modo alguma normalidade aos dias. Hoje
tomei o pequeno-almoço na varanda, a observar os funcionários municipais que aparavam
bermas e canteiros. Do lado direito do prédio há um terreno baldio que se
conserva verdejante desde que para aqui viemos viver há vinte anos. Lembro-me
de nos terem anunciado, à época, a construção de uma igreja nas imediações. Felizmente,
nunca abriram os caboucos da malfadada igreja e os eucaliptos puderam crescer
numa convivência anárquica com pinheiros e moitas. Algumas pessoas seguem a
passo estugado com sacos de compras, vigiadas por bandos de rolas dissimuladas
nos troncos das árvores, pombos aparentemente desorientados e o voo ameaçador
das gaivotas. As gaivotas têm vindo a invadir paulatinamente a cidade, alguém
terá que lhes tratar da saúde mais tarde ou mais cedo. Sou surpreendido por uma
criatura arisca a cruzar o parque do bairro. Primeiro parece-me uma ratazana,
depois suponho tratar-se de um gato, concluo por fim ser um coelho. Vejo-o
esgueirar-se por entre os carros estacionados, para depois desaparecer entre as
plantas do único canteiro que por aqui cumpre as funções para as quais foi
concebido. É um canteiro de cactos, rosmaninho, fetos e hortênsias, homenagem involuntária
à multiculturalidade dispersa pelos prédios do bairro. Quedo um bom quarto de
hora a olhar para o canteiro, na esperança de que o coelho salte dentre as plantas
e se escape para o terreno baldio do lado direito. Suponho que ficaria mais
protegido no matagal que medra aos pés dos eucaliptos e dos pinheiros. Não
salta. Cá de cima, na varanda, parecia-me mais pequeno e indefeso do que
porventura será. Talvez lá de baixo ele me tenha julgado maior e mais seguro do
que na realidade sou.
terça-feira, 17 de março de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #1
Saí para comprar tabaco. As lojas do bairro estão todas
encerradas, à excepção de dois cafés, da mercearia e do restaurante de kebab. Caldas
cumpre o cenário deprimente a que estamos confinados. Entrei na mercearia do
bairro e abasteci-me de alho francês e pimentos, polpa de tomate, bananas. O
pão estava esgotado. Cruzei-me com uma pessoa conhecida, não nos
cumprimentámos. No café onde compro tabaco estavam três clientes em mesas
consideravelmente afastadas umas das outras, um deles usava máscara. A
empregada tinha luvas. Meti-me no carro para desenferrujar o motor, dei uma
volta pelo quarteirão. Na rádio passava “O Primeiro Dia”, do Sérgio Godinho.
Deve ter sido a primeira vez que não gostei de ouvir aquele refrão. Isto parece
uma cidade fantasma. No E.Lecrec havia fila à entrada, no Pingo Doce também,
mais curta. Estacionei e esperei pela minha vez na fila, o segurança esticava
as luvas, ajeitava a máscara, borrifava o ar com gestos convictos e aparentemente
eficazes. Pareceu-me realizado e com espírito de missão. Ninguém ousou
faltar-lhe ao respeito, subiu alguns degraus no seu estatuto de mero segurança
de hipermercado. Parecia um daqueles polícias que vemos em séries do tipo CSI.
A senhora do pão foi muito simpática, acabei por lhe comprar também brioches e
pampilhos. Os melhores pampilhos são os do meu amigo Paulo, que está em
Curitiba e vai ser pai pela segunda vez. Que lhe corra tudo bem. Regressei ao
carro e devolvi-me ao lar, onde agora estou sentado a escrever enquanto escuto
os meus vizinhos ciganos a jogar à malha. Nunca o som daqueles ferros a baterem
no chão cimentado me soou tão melódico.
domingo, 22 de setembro de 2019
VILA VELHA DE RÓDÃO: POESIA, UM DIA (2019)
Para a Graça Batista
Para o Jaime Rocha
A casa tinha um arado pendurado no tecto. Talvez ali
estivesse para nos lavrar o pensamento, ou simplesmente cumprindo a função decorativa
de uma obsoleta ferramenta de trabalho. Certo é que me sentei a olhá-la como animal ferido, lembrei-me de meu avô a resmungar com a terra. Cada pessoa tem as
suas memórias de privação e dor, é inesperada a mão que as traz à superfície do pensamento.
Por exemplo, a marginal outrora vestida de preto, mulheres rogando por familiares recolhidos no mar, os barcos a desaparecer
no horizonte e a angústia a manifestar-se num pranto de súplicas. Era incerto o
reencontro. Se a memória for a terra que lavramos, na esperança de que as
palavras germinem como sementes, então a página é já a toalha estendida sobre a
qual degustamos o alimento.
Anterior às locomotivas do sono e ao silêncio, uma lua
distante espreita-nos por entre as nuvens. Bandos de pássaros cumprem suas
funções à beira de um lago, sobrevoando o langor das águas paradas, explorando
canaviais. Dizemos plúmbeo, merencório e gemebundo para nos rirmos da
solenidade que os poetas metem no olhar. Eu mesmo agora falei das locomotivas do sono, do langor das
águas paradas. E ao reler-me, sorri. Na verdade, é apenas água e lodo o que nos aguarda do outro lado das palavras.
O sopro anima a flauta longa de taboca, de novo nos encontramos no lugar nocturno das aves que em bando pontilham o ar com seus voos sinuosos. Devia
ser sempre assim, tão simples como o vento a fazer vibrar o vácuo, respiração
circular de um som que atravessa o silêncio e nos chega como uma sílaba estendida
sobre as águas, corpo que levita e paira. É este o som do chamamento.
Os olhos vêem de dentro para fora. Se olhamos uma árvore,
logo nela projectamos nossas fobias mais profundas. Eu vejo um homem com as
mãos em pala a olhar para o horizonte, tu vês um velho ensonado a esfregar os
olhos, ela vê uma mãe a chorar o filho martirizado. Vemos tudo menos uma árvore
ressequida à sombra dos plátanos, de atalaia a uma conferência de aves que
desengana exílio e abandono.
Eis o contorno a negro da utopia, ver de dentro para fora,
aprender passo a passo a lentidão do ar, sabendo que a saída dos labirintos
corresponde a uma certa forma de afastamento, não das coisas, mas de nós próprios.
A ti me entrego, Senhora das Dores, a ti me entrego feito ruína, pedra sobre
pedra há mil anos exposta no alto de um monte, a ti todas as minhas preces ao
som do cravo e das harpas de vento.
Não vi grifos, mas abraçou-me a paisagem com enormes asas de
afecto. Por ti incendeio todas as velas, lavro a cera, cada uma com a forma de
uma parte do meu sangue, peço-te que protejas tanto os meus amigos como os meus
inimigos, que os libertes dos malefícios da melancolia e do rancor, que lhes
ilumines a estrada da criação para que juntos ou separados possamos continuar a
percorrer os labirintos da loucura que é estar vivo e dizer: amo.
Então chegados a esse lugar onde se escava a terra para
colher o barro com que se moldam casas e sonhos, inspiremos o perfume que adoça
as águas. Podem ser estas as asas da utopia. Avisto ao largo a silhueta de quem
caminha desaparecendo atrás de um monte. Sei que em desaparecendo para mim,
aqui neste lugar onde me encontro, logo aparecerá para alguém no lugar oposto
ao meu. E nisto de aparecer e desaparecer o mais relevante é que caminhemos.
O mais relevante é que ao caminharmos possamos comparecer
perante nós próprios com o rosto limpo, já não deslumbrados com o reflexo nas águas do rio, mas como alguém que se olha a si mesmo nos olhos do
outro. A este “encontro inesperado do diverso” podemos chamar achamento.
Encontro-me em ti, leitor, como tu te encontras em mim, que escrevo. Achamo-nos
um no outro. É esse o fruto colhido das palavras semeadas na terra outrora
arada pelo pensamento.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
VOODOO CHILD
Por debaixo da betonilha de cimento a erva
aguarda uma fresta por onde possa respirar. De cada vez que a terra treme, a
erva agita-se, fica num frenético estado de excitação. Pressente que será essa
a sua oportunidade de subir pela mínima fenda e tornar-se caminho. À
superfície, porém, o lixo acumula-se. Já não é apenas o cimento que suporta vestígios
de soalho, arrancado pelas unhas do tempo e por mãos gatunas como à carne
subtraímos pústulas de feridas abertas. É o lixo acumulado ao longo dos anos, ideias
feitas, preconceitos, estereótipos, lugares comuns, mesmo os menos suspeitáveis.
Terrível matéria é a vulgaridade dos sonhos,
fé martelada contra madeira podre. Há quem se convença de uma eternidade
algures submersa entre concepção e morte, aproveitando para evocar espíritos e
perfurar com os olhos o corpo de quem caminha a esmo pelos corredores vazios e
abandonados da memória. O quebranto enfraquece o corpo e então sente-se a fera
como o edifício emparedado, muros de tijolo tapam todos os orifícios para que
nem ar nem luz insuflem as salas da alma.
Os homens erguem catedrais nos lugares mais
estranhos e improváveis. Ali, onde o génio aproveitou do mar as marés de fantasia,
restam agora vestígios de crenças e a erva a sufocar sob entulho. Numa das
divisões da casa sentimos a presença física de um fantasma. Garrafas vazias
sugerem bocas sedentas, festa, alegria. Mas o pó que envolve o vidro afasta de
imediato qualquer hipótese de vida. Adiante os loucos ou alguém mais louco que
os loucos tenta livrar-se dos males injectando nas veias o químico da verdade,
para que no horizonte de pedra a vista surja expurgada de melancolia.
A esta hora, desconfio, nada haverá de mais
saudável do que a tristeza que assalta os nervos. Então escrevo: se um mapa
houvesse para nos guiar dentro dos labirintos da dúvida, não teria tanta graça
cortar a direito, estacionar em lugar proibido, invadir propriedade privada. Sempre
que a tentação do crime nos assalta, por exemplo, quando fugimos do pânico
gerado na cervical e logo espalhado pelo braço dormente com que semeamos
palavras a noite inteira, rodeados de fantasmas percebemos quão ineficaz será o
feitiço, quão inútil o medo, quão malbaratadas a paixão e a alegria que cintilam
nos olhos do acaso.
E o outro surge resplandecente no barco que
brilha, pequenas e brevíssimas luzes pontuam a noite caída, já nada nos devem e
nós a elas nada devemos senão o prazer de olhar. É nesse instante, nesse
preciso instante, que a erva irrompe e levanta cimento e desfaz-se do excesso,
e varre o lixo e se mostra com a força de uma raiz antiga. É nesse preciso
instante que a erva se enche de luz e ar e rebenta como a mais frondosa das
árvores. E nós então imitamos na caminhada o voo dos pássaros, como que
pendurados nos ramos da erva, crianças vivas nos braços de uma mãe sorridente.
Onde havia uma casa há agora um abrigo. Ao
fundo da avenida, um mar imenso de luminoso silêncio.
segunda-feira, 1 de julho de 2019
sábado, 22 de junho de 2019
terça-feira, 18 de junho de 2019
quinta-feira, 14 de março de 2019
ÁRVORE EM FLOR
Ainda não fez um ano que enterrámos o corpo debaixo
daquela árvore, calcando bem a terra e sinalizando o lugar com um pedregulho.
Não consigo lembrar-me da árvore, apenas da sombra que fazia. Estava frio, eu
tinha frio. Continha o choro como sempre contenho o choro, uma dor a querer
saltar pela boca, uma dor presa à garganta, o peito a puxar a dor para baixo,
uma dor colada às paredes do peito.
Emociono-me com facilidade, houve um tempo
em que chorei muito. Quase tudo quanto em mim havia para chorar. Com o passar
dos anos, emociono-me mais facilmente. Perdi defesas onde ergui muros. É com
estranheza que constato o facto, parecendo-me até paradoxal que assim possa
ser. Mas não importo nada.
Agora é tempo das árvores em flor, o corpo morto como que
refloresceu na velha árvore. Não sei se alguma vez terá dado fruto, recebe do
céu água e sol, tem acolhido pássaros e aves de criação, domésticas como as
pessoas que entram e saem das casas, como os corpos a seu tempo acolhidos pela
terra.
Fazem-me chegar a imagem da árvore com uma declaração de
amor. Sempre que penso no amor, é curioso, surge-me de imediato no pensamento a
imagem da morte. É assim porque julgo inseparáveis as duas forças, um tender
para fora, um tender para dentro. Amorte será a palavra correcta, como música
que embala a dança das feridas. Penso na morte embaraçado pelo medo da perda,
penso na morte porque amar é querer o bem e querer o bem é desejar vida, até
quando se pede morte. A carta escrita por Gorz é tão bonita. Mas não importa,
nem eu nem a carta importamos.
Agora é tempo de árvores em flor, dos frutos colhidos, do
sumo bebido dos frutos espremidos, é tempo de céus limpos. A visitação da
brisa, como certa vez escrevi num poema que pretendia dizer: se algum dia
morrermos, tenha quem nos ama a lembrança de deixar para sempre os restos
debaixo de uma árvore. Nada de corpos, apenas cinza.
Como uma brisa a visitar
a terra.
Detenho-me na árvore
pouso os olhos nos ramos,
os meus olhos são pássaros
que cantam cada uma daquelas folhas,
diria que as folhas são as notas musicais
deste canto que sai das retinas em flor,
não sei onde chegará a voz do pássaro,
não quero que chegue a lado nenhum,
queria apenas que pudesse ser
escutada debaixo da terra,
se o canto dos pássaros
pudesse ser escutado
debaixo da terra,
em nossos olhos a sombra
alumiaria as formas
e tudo surgiria nítido
como num dia limpo.
domingo, 30 de dezembro de 2018
O CULTO DAS PEDRAS
Algures entre Alpalhão e a Barragem de Póvoa e Meadas,
que é como quem diz entre Nisa e Castelo de Vide, a água corre em ribeiras
cristalinas. Nas margens, avistam-se rebanhos de ovelhas e cabras e vacas em
pastorícia. As ovelhas confundem-se com as pedras. Podíamos dizer das pedras
que são rebanhos de ovelhas fossilizadas, podíamos dizer das ovelhas que são
rebanhos de pedras animadas. Quer optemos por uma ou por outra das versões,
sabemos quanto nenhum destes rebanhos se assemelha em matéria de poesia aos que
quotidianamente pastoreamos no centro comercial.
São inúmeras as antas e inúmeros os menires sinalizados
nestas paragens. Estacionamos para contemplar o calhau. A Matilde diz que é só
uma pedra como outra qualquer, a Beatriz refere cultos fálicos da fertilidade.
Há ainda a questão da morte, associada aos dólmens. Fertilidade e morte têm
formas diferentes. Por onde quer que peguemos no assunto, importa sublinhar que
não são pedras como outras quaisquer. Pegamos numa ao acaso e questionamos:
qual a diferença entre esta pedra e aquela? A verticalidade do calhau transpira
humanidade, há qualquer coisa de humano naquelas pedras que não existe nas
outras. Nas vulgares.
A mesma humanidade pode ser observada nas pedras que
pisamos, nos azulejos com que adornamos paredes, na necessidade de embelezar e
de premiar o embelezamento registando-o:
Já não visitava Castelo de Vide há muitos anos. Da última vez, nuns perdidos anos 90, as termas ainda funcionavam. Restam as fontes. Assim como os motivos religiosos, a perseguirem-nos o olhar para onde quer que olhemos. Algumas lojas da praça principal parecem conservar o mesmo aspecto de há cinquenta anos, uma octogenária diz-nos trabalhar ali há meio século. Na judiaria, a caminho do castelo, ou no burgo medieval, tudo adquire a consistência de um fragmento histórico.
No que
se supõe ter sido uma sinagoga, um pequeno museu evoca a presença judaica com
sentida dignidade. Conservam-se artefactos e nomes, ambos são resquício de passagem,
marcas deixadas para o futuro como pedras. Não há qualquer diferença entre os
nomes evocados e as pedras que mantêm viva a memória de um passado glorioso,
defendido entre muralhas.
Mistério insolúvel na mente desprovida: como foi possível
chegarmos aqui? Pedra sobre pedra, corpo sobre corpo, palavra sobre palavra.
Sobre o corpo, uma pedra. Sobre a pedra, uma palavra. E o que restará para
colocar sobre a palavra? A ruína de um sopro?
A imagem não faz justiça ao belíssimo castelo de Marvão, mas
é das primeiras que encontramos junto a uma casa com placa de poeta: João
Apolinário. Ali morreu em 1988, depois do exílio no Brasil e da prisão e tortura
em Peniche. Mais adiante, uma escultura de João Cutileiro evoca Ibn Maruán,
fundador de Marvão no século IX. Sufistas, judeus, cristãos, terra de confluências
é este nosso pequeno país. Desde o tempo das pedras. E essa é, mais do que
qualquer outra, a nossa essência. Essência de sangue misturado, como na
cisterna abobadada se misturam sons em vibração de terra água e ar. O fogo
somos nós. Não sei o que mais me impressiona, se a terra a perder de vista, se
o céu a perder-se na terra, se o vento estendido nas pedras como água num
rosto.
Cá em baixo, o que sobra de Ammaia não deve envergonhar
os romanos. Diziam-nos ingovernáveis, talvez tivessem razão. Mas deles perdura
diariamente na nossa mente a palavra, e através da palavra os modos de pensar. É
deles o sistema circulatório do pensamento português. E isto tudo misturado,
esta coisa dita lusíada. Dois pormenores deliciosos do espólio romano:
O mais
são ruínas entre pastagens, estruturas escavadas a pincel, vegetação, fauna
local, romãzeiras secas, castanheiros desnudados, uma história para contar aos
netos sobre ocupações, cultos perdidos, venerações ancestrais.
Não
tenho nenhuma nostalgia dos impérios, julgo que tudo poder ser grandioso se
aprender o pequeno lugar que ocupa no mundo.
Gosto dos menires como aprecio as ruínas de um templo,
mas em nada julgo inferior uma mulher dentro de uma árvore. Pedras que em algum
momento, num qualquer lugar, tiveram o seu período de respiração. Outrora, agora.
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
VERBO DESOPRIMIR
O que mais lamento nos pormenores da minha vida de que me esqueci é não haver feito um diário das minhas viagens. Nunca pensei tanto, nunca fui tanto eu, se assim ouso exprimir-me, como nas que fiz só e a pé.
Andar tem qualquer coisa que me anima e aviva as ideias: quase não posso pensar quando estou parado; preciso pôr o corpo em movimento para que o espírito o esteja também.
A vista dos campos, a sucessão dos aspectos agradáveis, o bom ar e o bom apetite, a boa saúde que adquiro andando, a liberdade das tascas, o afastamento de tudo quanto me faz sentir a minha dependência, de tudo o que me recorda a minha situação, tudo isto desoprime a minha alma, me dá uma maior audácia de pensar, me lança de certo modo na imensidão dos seres, para os combinar, escolher, fazê-los meus à minha vontade, sem constrangimento e sem temor.
Disponho da natureza inteira como seu senhor; o meu coração, errando de objecto em objecto, une-se, identifica-se com os que lhe agradam, rodeia-se de imagens encantadoras, embriaga-se com sentimentos deliciosos.
Se para os fixar me distraio a descrevê-los para mim mesmo, que vigor de pincelada, que frescura de colorido, que energia de expressão eu lhes não dou!
Dizem que tudo isso se encontra nas minhas obras, embora escritas no declinar dos anos. Oh! se tivessem visto as da minha primeira mocidade, as que fiz durante as minhas viagens, as que compus e nunca escrevi!...
Porque não as escrevo, dizeis vós? E por que hei-de escrevê-las, responderei eu? Por que hei-de roubar a mim próprio o encanto presente do prazer, para dizer aos outros que tive esses prazeres?
Que me importavam os leitores, um público, toda a terra, quando eu planava no céu? Aliás, levava eu acaso comigo papel e penas? Se houvesse pensado em tudo isso, nada me teria ocorrido.
Não previa que viria a ter ideias; estas vêm quando lhes apetece, não é quando me apetece a mim.
Ou não vêm, ou vêm em tropel, e o seu número e a sua força prostram-me.
Dez volumes por dia não chegariam. Onde arranjar tempo para os escrever?
Ao chegar, só pensava em jantar bem. Sentia que um novo paraíso me esperava à porta. Só pensava em ir em sua busca.
Jean-Jacques Rousseau, in Confissões, Volume I, trad. Fernando Lopes Graça, pref. Jorge de Sena, Relógio D'Água, 1988, pp. 166-167.
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