segunda-feira, 27 de julho de 2026
DREAD
domingo, 26 de julho de 2026
TRÍPTICO PARA INFLUENCERS
1.
A árvore é a casa do pássaro
a árvore é o pássaro da casa
A casa é a árvore do pássaro
a casa é o pássaro da árvore
O pássaro é a árvore da casa
o pássaro é a casa da árvore
2.
Nesta casa há beirais
que toldam ninhos
e há um limoeiro
onde crescem sóis
Há também um pequeno lago
em que as palavras se afogam
3.
À volta do pássaro morto
uma nuvem de formigas
trabalha incansavelmente
Eis o mundo resumido
hoje pela manhã
(Rogil, 2026)
sábado, 25 de julho de 2026
sexta-feira, 22 de agosto de 2025
JEREZ DE LA FRONTERA
Mais do que o Alcazar de Jerez, mais do que as bodegas e homenagens ao Tio Pepe, mais do que a catedral e o belíssimo Zurbarán exposto numa das suas paredes, mais do que as praças e Lola Flores e o flamenco, atraiu-me a atenção um papel tosco, escrito à mão, colado na montra da velha Librería de 2.ª Mano Planeta ZOCAr. Nesse papel estava escrito o seguinte: «Todas las personas tenemos algo que contar.» Talvez venha a ser epígrafe do meu próximo livro de contos.
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
NERJA
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
EL ACEBUCHAL
"El Acebuchal nasceu em meados do século XVII, embora tenham sido encontrados vestígios da cultura ibérica de mil anos antes de Cristo assim como moedas romanas e árabes, o que indica ter havido presença humana no lugar muito antes do século XVII. A vida em El Acebuchal girava em torno da pastorícia, produção de cal e carvão e do transporte de mercadorias que iam e vinham com povos próximos das povoações de Granada. Desde Torrox, Nerja e Frigiliana, os burros carregavam fruta, peixe e verduras até Fornes e Jallena, onde os arrieiros os vendiam ou trocavam por farinha. El Acebuchal era ponto de encontro e pousada onde os animais descansavam enquanto os homens comiam alguma coisa, bebiam um copo de anis e falavam sobre a viagem. El Acebuchal foi abandonado em 1949 devido às lutas que durante a Guerra Civil opunham a gente da terra e a resistência republicana à Guarda Civil no controle estratégico da região. Os combates e represálias sofridos pelos habitantes do lugar fizeram com que uns fossem deslocados para Cómpeta e outros para Frigiliana, ainda que todos tenham levado El Acebuchal no coração, sobretudo as crianças que viram como as suas famílias foram obrigadas a abandonar o lugar que havia sido lar e sítio de brincadeiras. Cada família refez a vida o melhor que pôde, mas regressavam de vez em quando e contemplavam com tristeza como a povoação se ia transformando num monte de ruínas, numa terra fantasma. Aquelas crianças que um dia partiram em lágrimas sonhavam com o regresso para de novo verem a povoação como nos seus melhores dias. Graças aos vizinhos e ao Município de Cómpeta, no ano de 1998 a primeira casa foi reabilitada e em 2003 chegou a rede eléctrica à aldeia. No ano de 2005, as ruas foram arranjadas e a 25 do mesmo ano El Acebuchal renasceu com a primeira missa 50 anos depois."
terça-feira, 19 de agosto de 2025
GRANADA, ALHAMBRA
23 anos depois, regresso ao Alhambra com estadia em Granada. A mesma sensação de tempo parado, os azulejos que imitam as cores das especiarias, ruas cheias de gente porventura equivocada nos mapas. Há razões para isso, os mercados, os bazares, as lojas, a fauna, os cheiros, as vozes e os reflexos que remetem para o norte de África, a presença árabe numa península rendida ao catolicismo de Roma depois de haver combatido o imperialismo romano. No Alhambra, quedo mais tempo do que o normal a olhar uma edição em coro do Dalā’il al-Jairāt, recolha de litanias de paz e de bendições sobre o Profeta Maomé. Artigo de museu, ali, onde uma cultura viva vem sendo cada vez mais reduzida ao exotismo dos animais selvagens exibidos num zoológico.
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
FUENTE VAQUEROS
a rosa como sangue está;
o orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta ao meio-dia
é dura como um coral,
o sol assoma aos vidros
para vê-la brilhar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar
e a tarde desmaia
nas violetas do mar,
põe-se branca, branco
de uma face de sal;
e quando a noite toca
o suave corno de metal
e as estrelas avançam
enquanto os ares se vão,
na raia da escuridão
começa a desfolhar.
IZNÁJAR
«No ano de 1010, Habus ben Maksan estabeleceu a capital do seu reino taifa nesta fortaleza de Hins Ashar, que no ano de 1025 foi mudada para a cidade de Granada». Assim se conta num pequeno painel de azulejos à entrada de Iznájar, pueblo blanco banhado pelo rio Genil na província de Córdoba. Não são apenas vasos azuis a adornar as paredes, a poesia lê-se um pouco por todo o lado. Aqui Guillermo de Torre, acolá o busto de Ibn al-Jatib, além Antonio Quintana, logo a seguir Rafael Alberti, etc, etc, etc… Bustos, azulejos, vinis, lonas, exibem versos no espaço público com uma naturalidade de fazer envergonhar qualquer parque de poetas. É que ali os versos andam pelas ruas devolvidos à sua natureza, são parte integrante da paisagem, não são aberrações num gueto nem gorilas enjaulados no zoológico das feiras de vaidades.
domingo, 17 de agosto de 2025
SETENIL DE LAS BODEGAS
Setenil de las Bodegas sussúrrame
al oido: para onde quer que vás, lá estão eles. Estão na língua, na comida, nos
nomes das localidades, nos alcáçares, nas pedras, na poesia, no canto, na
música, na água que corre, nos banhos. Lá estão eles, esses nossos antepassados
de cultura outra que é também a nossa. Com que eles guerreámos, aprendemos,
deles herdámos mais do que queremos hoje reconhecer. Os árabes. Lá estão eles,
por todo o lado. Onde os vejo eu aqui?
ANA AMAYA MOLINA
sábado, 16 de agosto de 2025
CUEVA DEL GATO
Em busca da Cueva del Gato, na Sierra de Grazalema, enganados pelo GPS e cansados das pernas. Ao alto, pássaros de porte considerável observam-nos em voo circular. Águias? Abutres? Mais mortos do que vivos, queira Deus que não sejam abutres. Há paraísos que merecem o esforço, ainda que não estejamos como Adão e Eva. Nestas circunstâncias, o pior que há de sermos turistas é não podermos reclamar do turismo. Ainda assim, só se ouvem por ali vozes latinas em toada de contentamento. Valeu a pena por ter refrescado o corpo, dispensável por não refrescar a alma. Que coisa essa de querermos só para nós o que é bom?!
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
ALCÁCERES REAIS DE SEVILHA
Uma magnífica peça exposta nos Alcáceres Reais de Sevilha, edifício complexo de arquitectura essencialmente árabe. O que há de especial neste simples objecto de cerâmica é a confluência de elementos provenientes do Islão, do gótico europeu e da Itália renascentista. Esta fusão de culturas e de tradições é a maior riqueza da Península Ibérica, por de mais evidente em Sevilha numa Catedral paredes meias com o Alcácer em torno do qual encontramos a judiaria com epígrafe de Luís Cernuda. Podia ser tudo mais descomplicado se ainda fôssemos barro. Se calhar até somos, só que raramente nos apercebemos.
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
LA DESPENSA DE ECOLOP
Vindos das termas Alange, aportámos em
Castilleja de la Cuesta sob calor imenso. A cadela ofegava, nós transpirávamos,
o estômago reclamava tanto quanto a boca seca. Calhou pararmos em La
Despensa de Ecolop, lugar de excelente preço e melhor acolhimento. Aconteceu-me
uma vez, no Redondo, ter o empregado de um restaurante prontamente
providenciado lugar ao fresco para recolhimento nosso e, então, do Basquiat. Agora ali, com a Nala, onde até estava afixada uma placa proibindo a entrada a cães. Há nestes gestos o
que de melhor o ser humano tem, algo que não tem preço nem nome que o descreva.
É a simplicidade dos braços abertos e das mãos estendidas, sem palavras
proferidas, pura hospitalidade.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
TEATRO ROMANO DE MÉRIDA
Informam as legendas que o Imperador Augusto, sob cujo governo foi construído o teatro romano de Mérida, terá promovido a representação dos grandes clássicos gregos. Ovídio dizia: «Ao teatro, vai-se para ver e ser visto, pouco importam os versos que se estão a representar.» Ao que parece, os romanos não apreciavam Sófocles, Eurípedes, Ésquilo… Preferiam mímica e pantomima, dança e música, putas e vinho verde, legado deixado a uma posteridade ainda hoje entretida a pão e circo. Representadas durante o dia, gratuitas para quem quisesse assistir, as peças não teriam o mesmo sucesso que os jogos com gladiadores ali ao lado no Anfiteatro de que restam ruínas, pedras, um chão seco que já não cheira a sangue. Apenas pó.
terça-feira, 12 de agosto de 2025
PLAZA MAYOR DE TRUJILLO
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
CASA MUSEU YUSUF AL BURCH
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
VERDELHOS
Num café à entrada de Verdelhos, junto à ponte desta pequena mas bela povoação atravessada por um canal onde no Verão os emigrantes, de visita à terra, se refrescam do calor intenso, fomos servidos por um casal ali aterrado vindos de Sintra. Ela, chamemos-lhe a Rapariga de Verdelhos, era magra e frágil, tinha olheiras cavadas que faziam lembrar noites bem passadas e falava de um modo simpático, aparentemente débil, com sofisticação incomum naquelas bandas. Gostava de teatro, mas não sabia se poderia assistir ao espectáculo por causa do trabalho. O cenário era belo, mas o público grosseiro falava alto, aproximou-.se de cerveja na mão, alguns claramente embriagados, outros e outras replicando num francês com sotaque das beiras, tudo algo abrutalhado e a destempo. Faltou ali a sensibilidade da Rapariga de Verdelhos, que, na verdade, seria de Sintra, e da qual me despedi com um olhar furtivo ao vê-la sentada junto ao rio a contemplar as águas que seguiam seu rumo. Adivinho a tragédia por detrás daqueles olhos, mas evitarei especulações. Não sei porquê nem de onde vem esta tendência para me apaixonar pela tristeza. Se a tristeza dela tivesse assistido à representação, por certo tudo teria sido muito mais alegre.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
ERADA
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
COUTADA
Vi o índio chegar de tractor. Estacionado nas traseiras da igreja, limpava os bancos de jardim salpicados de caca do passaredo. Meti conversa. Sabe de quem é o Dacia estacionado ao pé da junta? Demorou a responder, sem largar o cigarro no canto da boca. Dacia? Sim. De que cor? Vermelho. E a gama? Sandero. Não sei. Achegado lentamente ao problema, o índio da Coutada sacou do telemóvel como que de uma flecha e disparou na direcção do Presidente da Junta: isto aqui já há sarilho, os homens querem trabalhar e não os deixam. Do veículo ninguém sabia, seria do emigrante de além, do brasileiro de aquém, de quem seria? Isto aqui agora é tudo brasileiros, reclamava o índio da Coutada enquanto afinava a pontaria contra o senhor presidente. Este, alterado, sugeria que assim e assado. Aquele, na sua impecável calmaria indígena, prontificava-se a prontificar. E por ali quedámos breves minutos num para cá e para lá de o que é que vamos fazer. O teatro estava montado, a peça era aquela. E pronto. Um carro mal estacionado impediu que se fizesse Peter Weiss. O povo de Coutada não levantou ondas que se notassem. Excepto o índio, que para dentro e para fora prosseguiu no redemoinho de queixas: o homem tem razão, era isolar isto tudo não é com um, é com seis dias de antecedência. Ele é que sabia.
















