domingo, 19 de junho de 2011

ALEKSANDRA (2007)



Conheci mal os meus avós. O meu avô materno morreu com um cancro na cabeça ainda eu não era nascido, o paterno foi-se tinha eu meia dúzia de primaveras mal contadas. Lembro-me da mãe da minha mãe, que amuava facilmente, tinha mau feitio e durante muitos anos usou carrapito. A mãe do meu pai foi viver connosco após a morte do meu avô, intercalando estadias com uma tia minha com quem falo raríssimas vezes. Andou para cá e para lá até a arrumarem definitivamente num lar, já muito debilitada da vista, por culpa das cataratas, e pouco lúcida. Nunca mantive fortes laços afectivos com as avós. De resto, a distância que sempre se intrometeu entre mim e a família é algo que não consigo explicar, mas talvez se compreenda se tivermos em conta uma velha e frustrada necessidade de me libertar da protecção com que me capturaram. Sou o mais novo de três irmãos, o menino. Curiosamente, este proteccionismo familiar ganhou na minha consciência a forma de um campo de batalha. Ao contrário do que muitas vezes ouço por aí apregoado, julgo que o nosso primeiro inimigo é, precisamente, esse refúgio a que chamam família. Penso nisto enquanto revejo Aleksandra, um filme de Sokurov que podia intitular-se “Avó e Neto”. Aleksandra é a avó que se desloca ao acampamento militar onde o neto, um oficial do exército russo, está destacado com funções de combate no centro da Chechénia. O cenário militar, subitamente atravessado pela luminosidade de uma mulher idosa, para com quem todos os cuidados parecem poucos, permite vislumbrar resquícios de esperança num palco de ruínas e pó. Aleksandr Sokurov não resiste a passar pelo conflito, mostrando-nos a hostilidade dos jovens chechenos para com os militares russos, uma hostilidade ausente nas relações que a velha Aleksandra mantém com quem está à sua volta. “A primeira coisa que se deve pedir a Deus é inteligência”, diz ela a um jovem checheno. E é essa inteligência que o andar lento e cansado da velha Aleksandra arrasta pela neblina, embalada por uma brisa incapaz de disfarçar o ar sufocante da época. Este sufoco exterior tomou conta do neto sob uma forma mais íntima. E ainda que pareça desaparecer quando este abraça a avó ou lhe entrança o cabelo, a verdade é que está lá, habita nas profundezas de um ser perfilado para as formalidades militares mas mal resolvido para com a hierarquia familiar. No vocabulário de Aleksandra a palavra liberdade não tem o mesmo peso que a palavra inteligência, talvez porque a primeira não seja materialmente possível sem a prática da segunda. Uma prática eventualmente conquistada com a sabedoria da idade, mas longe de afastar a solidão ao mesmo tempo destruída e restaurada pela família.

3 comentários:

carol disse...

Que lindo texto! Gostei. Gostei especialmente da primeira parte, a narração na primeira pessoa.

Gosto de fragmentos; de pensamentos pessoais anónimos.

sonia disse...

Seu comentário está tão bonito e tão bem narrado que daria um livro se ousasse se aprofundar e se estender no assunto.

Sandra R. disse...

Há quatro anos pisava o mesmo chão que pisei hoje. Entrei no mesmo café, percorri as mesmas ruas. A minha avó morreu há 4 anos, eu estava longe, mas cheguei a tempo. e é verdade que a familia pode aprisionar, sufocar, com a vontade de querer o bem, sem querer fazer o mal... mas a avó paterna... esta avó... era toda inteligência. Era porto de abrigo. Confidente. Já a conheci velha e sábia. Serena. Tranquila. Contadora de histórias do passado. o passado. Da guerra civil espanhola... a fronteira e os contrabandistas. fiquei com vontade de ver este filme.