domingo, 17 de junho de 2012

A ILHA DE CARIBOU

A Ilha de Caribou (Abril de 2012) é o primeiro romance do jovem escritor norte-americano David Vann (n. 1966). Antes, as Edições Ahab haviam publicado entre nós a novela A Ilha de Sukkwan (Junho de 2011). Os dois livros têm como cenário o Alasca, de onde o autor é natural, mas as coincidências não ficam pelo título nem pelo cenário. São obras onde o espaço geográfico surge como extensão das personagens que o povoam, gerando assim uma identificação entre o carácter hostil do território e as perturbações temperamentais das personagens. Curiosamente, trata-se do mais vasto dos estados norte-americanos e, simultaneamente, o menos povoado de todos. A zona exige dos seus habitantes uma adaptabilidade nem sempre fácil de alcançar, deixando a nu todas as fraquezas do ser humano. Este lado débil e inadaptado, com todas as consequências subsequentes, entre as quais se torna evidente uma tremenda frustração, é aquele que David Vann melhor explora nas personalidades das suas personagens. Se n’ A Ilha de Sukkwan assistimos à tentativa de um pai reforçar laços afectivos com o filho, convocando-o para uma estadia numa cabana isolada, em A Ilha de Caribou voltamos a encontrar este sentido da deslocação e do isolamento como pretexto para o fortalecimento de uma afectividade ameaçada. Porém, no romance, o recolhimento tem na sua origem o desgaste de trintas anos de relacionamento conjugal. Gary e Irene deslocam-se para Caribou, por iniciativa dele, a fim de construírem uma cabana onde poderão passar o resto dos seus dias. Ela desconfia da solução, mas deixa-se arrastar pela iniciativa do marido. A construção da cabana surge, deste modo, como metáfora da relação mantida entre os dois, representação tosca de um casamento falhado, encalhado e emparedado em sentimentos de culpa, complexos de inferioridade, sacrifícios vários que trazem à superfície vidas nunca desejadas, oportunidades perdidas, trilhos tomados mais por arrastamento do que por vontade própria. Esta refundação do lar, rumo a uma terra nova, nada tem de verdadeiramente surpreendente. A escrita de Vann é directa, mas subtil, depurada nas descrições e capaz de nos fazer sentir não haver ali uma paisagem escolhida por acaso, uma frase sem sentido, um parágrafo a mais. O que torna tudo verdadeiramente surpreendente é o paralelo estabelecido entre o Inferno vivido por Gary e Irene e a ilusão de um Paraíso alimentada por Rhoda, a filha dos dois. Assim, capítulo a capítulo, somos confrontados com as desilusões de Irene e as ilusões de Rhoda, o pragmatismo desencantado da mãe e os sonhos e as fantasias da filha. Rhoda está noiva de Jim e sonha com um casamento perfeito, sem se aperceber das traições de Jim, da sua hipocrisia e, também, das frustrações pessoais que o levam a decidir-se por uma vida exclusivamente dedicada a ganhar dinheiro e a foder o maior número possível de mulheres. Ao longo do livro, os sonhos de Rhoda são consecutivamente desmentidos pela realidade existencial dos pais. Acompanha-os uma tese várias vezes repetida: não há nada como o princípio, depois cai-se na real. Ou seja, o que Vann nos expõe é a consciência da deterioração, também ela visível nas alterações atmosféricas e no passar das estações, a fatalidade da passagem do tempo e da degeneração que acompanha essa passagem, a impossibilidade de refazermos as nossas vidas e, por isso, a absoluta necessidade de as irmos fazendo sem pressa de chegar a lugares inexistentes. A felicidade é, neste contexto, uma miragem. Nenhuma cabana poderá salvar-nos de um sentimento de perdição inerente à própria condição humana. A ruína, aqui rodeada de árvores milenares, atapetada de musgo e de neve, coberta por lagos imensos, está dentro das personagens, reside no interior dos indivíduos e nenhuma fuga para o isolamento pode aliviá-la. Apenas a consciência da sua superioridade. Mark, o outro filho do casal, dedica-se à pesca do salmão, fuma charros uns atrás dos outros, é de poucas palavras. Num certo sentido, é ele e a sua infantilidade quem melhor se safa no labirinto da existência. Mantém algo de primitivo, esse princípio que todos buscam recuperar quando o tempo esgota as possibilidades de reencontrá-lo, um princípio esquivo que a toda a hora nos exige acções de acordo com o ser, absurdas mas livres, acções e decisões motivadas mais pela vontade do que pelo sacrifício. Não é egoísmo, é a negação da sobrevivência: é vida.

4 comentários:

Rui Almeida disse...

«Jovem escritor»? Nascido em 1966?

hmbf disse...

46 anos. Já sabia que aquele jovem ia levantar dúvidas.

A mim parece-me jovem, sim, se avaliado segundo padrões de exigência que o colocam ao lado de outros romancistas com pelo menos mais 20 anos.

Eu sei que por cá um tipo com 46 anos é já um velho que viveu a vida toda, mestre, referência e ídolo de putos com 25 ou 30 ou 35... Mas por lá não é bem a mesma coisa.

ás de espadas disse...

Sim o escritor tem cara de puto, é um jovem ainda. Mas tenho para mim que ele usa cremes da Avon.

leonor disse...

acabei de o ler e embora pense que é um grande romance, acho que a ilha de Sukkuwan é bem melhor, naquilo que pode ser a descrição da fatalidade e da impossibilidade de realizar, experiência limite da dor. um livro fabuloso! talvez por isso este me tenha deixado bastante aquém do sobressalto que foi a experiência de leitura do primeiro. partilho com agrado a sua apreciação sobre Mark, seco e adaptado; está longe do sonho, ciente da impossibilidade de contrariar a natureza do ser.