terça-feira, 26 de junho de 2012

O ALVO CERTO

Camarada Van Zeller, o título desta epístola pouco tem que ver com o conteúdo da mesma. Simplesmente julguei caricato o título de um artigo no Expresso onde eram exibidos, devidamente trajados, os enviados de Seguro junto do Ministério das Finanças. Esta prosa tem outros motivos, muito menos engravatados (ou não). Os portugueses preocupam-se amiúde com as queimadas vivas e as desfiguradas do Islão, mas insistem em manter uma atitude negligente para com as suas próprias vítimas de violência doméstica. Parece que a crise tem dado conta do recado também neste domínio. 20 vítimas mortais já este ano (em 2011 foram contabilizadas 29 vítimas mortais de violência doméstica). Por aqui, onde vivo, são frequentes os casos. Fala-se de ameaças concretizadas, porrada da grossa, tiros na praça pública, o Inferno ao virar da esquina. 25126 queixas durante o ano que passou não serviram para colocar de sobreaviso as autoridades, empenhadas na defesa dos zeladores do Estado e na manutenção da ordem junto de jornalistas ameaçadores. Alguns juízes creem mesmo que uma mulher abstémia atenua a embriaguez do agressor, ou seja, o que foi gerado para servir, servir deverá. Caso contrário, ao chicote sua função. Ora, esta realidade pôs-me a pensar. E a primeira coisa que me ocorreu foi fazer aqui um apelo a todos os potenciais agressores. Se vos sentirdes traídos, pensai duas vezes antes de decidirdes sobre quem despejar vossa legítima raiva. Um cornudo merece o nosso respeito, o respeito de todos quantos se sentem ou sentiram encornados, para não dizer algo mais escandaloso, pelas elites retrógradas da justiça portuguesa, do governo português, da nação. Constata-se que, muito frequentemente, estes homens mais sensíveis acabam por se suicidar depois de assassinarem suas mulheres. Apelo pois a esses homens, compreensivamente, que ponderem, que pensem, que parem por segundos e que façam da sua dor um bem universal. Não descarreguem sobre as mulheres o ódio que podem descarregar sobre alvos muito mais justificáveis. Se podeis, caros concidadãos, transforma-vos em heróis junto de um povo inteiro, porque haveis de reduzir-vos à mediocridade com gestos inaceitáveis? Pensai bem no que vos digo antes de agirdes. Estou certo que o camarada Van Zeller concordará comigo quando afirmo que um homem disposto a suicidar-se para se vingar de um mal sentido sobre si, poderá antes de se suicidar desviar o alvo das atenções do ódio que o motiva e, desse modo, poupar a vida de uma infeliz e tornar um pouco mais felizes milhões de concidadãos que anseiam por um maluco capaz de atirar sobre o alvo certo. O alvo certo toda a gente conhece, não é preciso comprar o Expresso para o saber.

2 comentários:

Rogério Soares disse...

Mais um texto soberbo....

hmbf disse...

Ideias simples à espera de inventores.